Notas iniciais
Obrigado por virem até aqui, espero que gostem do capitulo!Boa leitura (:

Contos da Lua

Puro como as águas claras das praias do início e sujo como as praias poluídas depois da sociedade humana. Assim nascem as pessoas. Somos puros, somos transparentes, mas uma nuvem negra insiste em penetrar nossos poros e nos fazer ser ruins.
Demônios? Energias? Diabo?
É da natureza humana o egoísmo.
É da natureza humana a ganancia.
É da natureza humana o narcisismo.
É da natureza humana a segregação.
É da natureza humana todas essas coisas que atrapalham o convívio social.
Seria então melhor o ser Humano ser solitário? Apenas um no mundo todo? Mas ele se sente sozinho. Viver em dupla? Péssima ideia, logo vai acabar como está hoje.

Humanos são uma praga. Eu os odeio.

Mas eu sou humano e não tenho e nunca tive essas características. A sociedade está impondo eles a mim. O que me faz diferente dessas pessoas? Sinto-me triste em perceber que eu tenho um pouco desses substantivos em mim. Não sou livre do egoísmo, não sou livre de querer algo a mais, não sou livre de me achar melhor que os outros humanos, não sou livre de não querer me misturar com essas pessoas. Eu sou humano. Mesmo sendo contra humanos, ainda estou preso na minha humanidade.
Esse sou eu. Hipócrita(?)

Novamente em uma daquelas crises de existência me sinto perdido. A minha vida não tem muito sentido... Acho que talvez em um futuro eu consiga morrer pensando “Eu vivi e fiz o que tinha que fazer” ou simplesmente “Consegui”. Falta um proposito. Falta uma luz.

Hoje é mais um dia qualquer na minha vida, moro com a minha tia que me adotou quando meus pais morreram em um acidente de avião. Ela não gosta muito de mim, deve dar muito trabalho cuidar de uma pessoa com 21 anos que não consegue manter uma conversa longa ou mesmo em um emprego.
Faculdade? Sinceramente, nunca pensei em entrar em uma. Não existe nada que me atraia ao ponto deu querer estudar sobre. Quero apenas arrumar um trabalho em que eu possa passar o tempo e ganhar o suficiente para sobreviver.

– É o seu terceiro emprego só nesse mês Hazel. Tente não ir embora na primeira semana.

– Você sabe que a culpa é das pessoas e não minha tia.

– É, a culpa é das pessoas que você já passou por 47 empregos diferentes.

– O que eu posso fazer se todas as pessoas são iguais?

– Toma jeito. Não estrague mais essa chance, daqui a pouco você vai ficar sem opção.

Dessa vez eu tinha que receber as pessoas em uma livraria. Esse era o meu trabalho da vez, lidar com as pessoas e os seus gostos... Logo eu. Sei que não vou durar muito nisso, mas livros são legais, vou tentar escapar para ler eles.

Acabei de me arrumar e fui para o shopping, onde ficava a livraria, deixando a minha tia na sala sozinha com seus olhos castanho claro quase cor de mel com um tom de ironia que direcionava o olhar para o lado oposto ao que eu passava. Não demorei muito para chegar na livraria e fui direto ao banheiro colocar meu uniforme, afinal, quanto mais rápido começar, mais rápido acaba.

Durante o trabalho as pessoas chegavam e faziam perguntas tão fúteis como “Onde fica o livro ‘Aishiteru’” mesmo tendo um cartaz enorme em cima da prateleira dos livros e estando bem visível exatamente no meio da loja na frente da porta.

A livraria não é tão grande, mas possui dois andares; o primeiro é a loja, onde tem 3 mesas com os livros mais populares em cima e um cartaz em cada sobre o livro mais famoso do gênero que estão na mesa, o segundo andar funciona uma biblioteca onde as pessoas podem registrar e colocar suas próprias obras, ou até mesmo doar livros antigos ou que não vendem na loja (como os escolares).

Mesmo estando trabalhando, não fiz questão nenhuma de tentar mostrar simpatia com as pessoas que chegavam e tinham preguiça de ler as placas e os cartazes, mantive meu rosto sem expressão e não demostrei nenhum tom de felicidade em minha voz.

O dia passou e eu não tive tempo de escolher nenhum livro daquele andar, pois as pessoas preguiçosas sempre chegavam para expressar suas dúvidas que seriam facilmente saciadas pela leitura dos cartazes e as placas, mas não me vejo no direito de reclamar já que é esse o meu trabalho. Também não acredito que esse emprego seja pra mim, embora ache que se eu conseguir fugir um pouco pro segundo andar e se diminuir o número de clientes eu possa sobreviver por lá.

– Bom, já são 17h, você está liberado Hazel.

A dona da livraria se chama Joana, ela é bem alta com ombros largos e forte o suficiente para se diferenciar os músculos do braço a pesar de não serem muito grossos. Não tem muito busto nem uma cintura tão larga. O seu rosto tem traços fortes, com seus lábios grandes e sua pele morena e o seu olhar encantador, nunca tinha visto alguém com aquele olhar... Seus olhos eram totalmente escuros, não sei se são pretos ou castanhos, a expressão que ela tem com o seu sorriso levemente torto são de uma feminidade incrível. Definitivamente ela é a mulher mais encantadora que eu conheci até hoje.

– Tudo bem. A loja fecha agora? – Pensei se poderia ir no segundo andar ler alguma coisa

– Na verdade não, apenas começa outro turno... A loja só fecha a meia noite, romântico, não? – O seu sorriso quando falou “romântico” foi tão encantador, me senti na obrigação de responder com outro sorriso, só que ao tentar eu acabei fazendo um tipo de careta estranha que fez ela rir um pouco.

– Eu são sei nada sobre romantismo e não sei o que tem tão de especial na meia noite – Respondi com uma expressão fria que me fazia parecer sem emoções.

– A meia noite! É a hora do recomeço, é o fim de um dia e o começo de outro. É a união do presente, passado e futuro! Você pode se transformar em uma nova pessoa, você pode realizar seus sonhos e alcançar seu futuro! E... o seu amor. – A animação estava transbordando através das suas palavras e o seu corpo parecia brilhar.

– É só uma hora como qualquer outra – Continuei com a mesma expressão, realmente não me animou nem um pouco o discurso da Joana.

– Ainda vou conseguir te mostrar. – Ela olhou em meus olhos.

– Boa sorte – Olhei de volta parecendo desafiar ela.

– Estava pensando em ir no segundo andar – Perguntei.

– Não tem problema! Temos ótimas literaturas lá e muito romantismo! – Ela inclinou o corpo até a cabeça ficar na altura do meu peito e me olhou sorrindo, como se eu estivesse de cabeça baixa.

– Tá bom – Falei com uma voz seca enquanto já andava para subir as escadas.

As escadas não são atraentes, elas são feitas de madeira curtas de tal forma que só possibilita subir uma pessoa por degrau de cada vez, tem um corrimão de madeira também, apenas do lado oposto da parede que a escada estava junta. Ao chegar lá em cima, o espaço era bastante simples, umas 2 mesas de madeira com bancos de madeira em volta, acho que uns 6 para cada, e do lado várias estantes não muito cheias, em fileiras, fazendo alguns corredores.

Entre as estantes a que mais me chamou a atenção foi uma prateleira escrito “Diário Secreto” e um único exemplar grande e velho. A sua capa tinha o desenho de uma planta com uns espinhos, não sei o nome dela. Olhei para outra prateleira e achei a uma estante só de “Obras Novas”. Deve ser ali que as pessoas colocam um exemplar da sua preciosa criação.

Era uma chance de ler o ponto de vista das pessoas, acredito que tudo que os novos escritores escrevem se refletem no que eles pensam e sentem, como um diário distorcido pela ficção e a imaginação de seus criadores. Não detive minha curiosidade e comecei a procurar um livro que se destacasse. Passei por vários títulos; “Sonhos de um Adolescente”, “Flores Flores e Flores”, “Assim tem que ser”, “A luz”, “Venha até mim”, “Sonhos Escuros”. Até que cheguei no “Contos da Lua”, me atrevi a ler a sinopse:

“Contos da Lua:
Caro leitor, já se perguntou como é o mundo?
Já tentou saber o que são as pessoas?
A lua tem a resposta.
No sol, as pessoas tendem a ser apenas um fantoche cumprindo as suas obrigações; sendo no trabalho, nos estudos ou em outro local. A luz forte do sol os ilumina e os intimida a serem o que a sociedade cobra em seus comportamentos.

Embora isso aconteça, a lua existe.
Ela filtra a luz do sol, e nos ilumina sem nos intimidar. A lua nos ilumina para que possamos enxergar a nós mesmos. Cada fase com uma intensidade e uma força diferente. Ela tem feito isso e nos observado vez do início e sabe como podemos ser e o que somos.

A Lua falou comigo e eu quero passar essa sabedoria para você.
Mas quem sou eu para falar com a Lua? Sou a pessoa que a escutou.
Que olhou para os céus e viu a lua e ouviu historias dela em sonhos próprios.
E se permitir, gostaria de passar essas histórias pra você.
Escrito por: Aoi Santos -Rubrica-”

Com certeza essa sinopse me atingiu, pode até ser estranho admitir, mas parece que eu achei exatamente o que eu queria. “Como é o mundo?”, “O que são as pessoas?”, será que esse livro vai realmente me dar essa resposta? Não demorei para ver o primeiro capitulo:

“Contos da lua:

Página 1:

Agradeço a você, querido leitor que se interessou a ler a minha humilde obra.
Espero de verdade que você não se arrependa, Tentarei escrever tudo com detalhes o que a lua me disse! Boa leitura.

Página 2:

Pagina 3:

1 Capitulo: Dia de Lua cheia: O lago e o menino.

Era uma vez um menino que morava perto de um lago. Nesse lago tudo tinha vida, tinha muitos animais que participavam daquele ecossistema e o menino. Os humanos moravam muito longe uns dos outros naquele local, tão longe que para encontrar outros de fora da sua família o menino tinha que caminhar por no mínimo duas horas, mesmo assim o menino não era solitário. Ele não tinha irmãos, mas tinha o lago e o lago o tinha, onde ambos se divertiam todas as noites tendo o humano e a natureza em perfeito equilíbrio.

A Lua o observava todas as noites, a cada noite ele parecia mais encantado com aquele lago. Então ela decidiu mostra a ele o que consegue enxergar e ele não podia ver e iluminou tão bem aquele lago naquela noite de lua cheia que o garoto que já estava crescido começou a duvidar da sua sanidade. Mostrou a ele a luz dos seres invisíveis aos olhos humanos e que possuem contato com a essência da vida na sua forma mais básica e pura (conhecidos como Espíritos da Natureza ou apenas “ENs”) que viviam naquele lago. Ele então viu a alma do lago, um EN tão puro quanto uma alma recém chegada e com uma forma humana feminina.
Era fácil enxergar as coisas que estavam por trás dos ENs naquele lago e estava claro que a luz da Lua, que brilhava tão forte, era o que estava possibilitando essa visão real.

O menino tentou falar com a EN do Lago, mas o ela não respondeu a nenhuma pergunta. A aparência dela, que estava dentro do lago, era de uma mulher humana adulta com cabelos levemente cheios e longos que se mexiam dentro da agua com uma coloração prateada, a sua pele era de um branco quase transparente, o seu nariz fino e os seus olhos de um azul esverdeado indecifrável assim como a cor do lago. O EN depois de um tempo encarando o menino finalmente subiu a superfície e se apresentou como “Hunna’a”. O menino de morou um pouco para reagir mas logo respondeu “João”. A Hunna’a tinha mil e oitenta e dois anos de vida e a lua sempre a observou, o menino humano era tão novo para lua, ele tinha apenas 20 anos.

Naquela noite a Lua sorriu, pois pode observar pela primeira vez o contato de um humano com um EN. O menino se ligou a Hunna’a e sem saber acabou absorvendo sua energia, como faziam todos os animais e plantas que faziam parte do ecossistema do lago sugavam. A noite passou e outra chegou, o menino se sentiu frustrado ao perceber que não tinha mais a capacidade de ver a Hunna’a e rezou para que a Lua iluminasse mais uma vez ela e permitisse o seu encontro. E assim ela fez, mas apenas na Lua Cheia, por várias e várias noites.

Por muitas noites de Lua Cheia, Hunna’a e João conversaram como se ambos fossem iguais, eles riam e se divertiam com coisas bobas e passam parte do tempo observando a Lua agradecendo pela sua luz. Com o tempo, O João se sentiu apaixonado e pediu Hunna’a em casamento, ela nunca se mostrou tão feliz por todas as noites que a Lua tinha lhe observado, ela aceitou. Com a benção da Lua se criou um elo tão forte entre os dois, que permitiu João a poder ver Hunna’a mesmo em outras fases da lua, mas apenas com a presença dela. A Lua nunca esteve tão orgulhosa de ter proporcionado isso, ela acreditava que aquilo traria paz a terra.

Ela estava enganada.

Em uma tarde de Lua e Sol sobe o céu da terra de João e Hunna’a. O Sol contou a lua o que o João fazia durante o tempo que a ela estava ocupada iluminando outra parte da terra e a Lua não conseguiu acreditar e mesmo sabendo que o Sol nunca mentira ela decidiu perguntar ao João.

Com 47 anos, João era o humano mais antigo em vida que tinha na terra. A lua sabia muito bem que ele estava sugando a energia da Hunna’a para se manter vivo, mas ainda acreditava na inocência e na luz da humanidade. Ela decidiu falar com João.

Nessa noite de Lua Cheia, a Lua invadiu a mente de João e lhe confrontou: “João! Você está matando os ENs João?!” o menino demorou um pouco para entender que aquela voz feminina era a Lua que lhe falava, “Não Lua! Eu amo a Hunna’a! Eu nunca mataria ela.”, “Me disseram que você destruiu toda uma floresta por ganancia João? Isso é verdade?”. O João sabia que não podia mentir para a Lua, ele tinha que ser sincero, tinha que mostrar o seu coração para a Lua pois a Hunna’a estava em jogo, “Sim... Lua, eu desmatei algumas florestas pelo bem da Humanidade, para criar vilarejos onde as pessoas morem mais perto uma das outras”, a Lua não entendia esse sentimento do João, era algo tão egoísta, matar tanta coisa apenas para isso. Ela estava decepcionada. “João, você sabe quantos iguais a Hunna’a você matou? Milhares... Você nunca mais poderá ver a Hunna’a”, foi a última palavra da Lua.

O menino tentou falar com a lua de novo mas ela não respondia, nas noites seguintes ele não viu mais a Hunna’a. A Lua tinha cumprido a sua palavra e tinha cortado o elo que os ligavam. E ele prometeu para Lua, mesmo sem resposta, que nunca mais mataria, que se arrependeu e viveria os restos dos seus dias lamentando sobre o acontecido.

Sem a ligação com Hunna’a, o menino ficou fraco. O que já era o humano mais antigo vivo na terra acabou adoecendo em uma semana. A sua morte já se tornara inevitável. A Lua, olhou em seu coração e viu a sua dor. E na última noite de lua cheia da vida do humano, a Lua brilhou intensamente mais uma vez para que ele pudesse ver Hunna’a, e assim foi feito.

Ao ver Hunna’a, o menino se aproximou e chorou como nunca tinha chorado aos olhos da Lua. Ele correu e abraçou ela e aos poucos teve a sua energia absorvida pelo lago, essa energia voltou para Hunna’a, o corpo do menino foi se desmanchando e virando uma espécie de poeira brilhante que foi sugado para o coração de Hunna’a, eles se tornaram um. O lago e o menino, o menino e o lago.

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Caro leitor, quanto a lua me contou essa história eu pensei que era fútil, mas se você reparar, o João não sabia que os tais ENs existiam na floresta e que eles podiam ser iguais a sua amada. Ele apenas tentou juntar o seu vilarejo, o que hoje é normal pois vivemos em cidades.

Não sei quando se passou essa história, a lua é muito antiga, mas sei que mesmo tendo esse lado humano de egoísmo em relação as outras espécies, assim que ele teve conhecimento ele mudou.

A ignorância é um mal que atraem nossas piores características humanas. Devemos combater ela antes de fazer algo irreparável com os demais.

Pense sobre isso, combata sua ignorância. – Aoi Santos –rubrica- “

“Combata sua ignorância” ... Realmente essa história não era da forma que eu esperava, “Ens”? É um livro de ficção? Mas devo admitir... Esse ponto realmente é um problema no ser humano. A ignorância traz muitos males as pessoas. Ainda mais a aquelas que entram na loja com preguiça de ler os cartazes e placas.

– Hazeeeel, vamos fechar! – Falou a Joana gritando do andar debaixo

Eu tinha passado todo esse tempo lendo essa história? Não conseguia acreditar que não passei do primeiro capítulo. Desci as escadas e fui andando para casa sem nem ao menos me despedir da Joana. Ao sair da loja eu olhei pro céu e vi que era noite de Lua Cheia, ela estava tão forte e brilhante como eu imaginei na história... Me perguntei se eu veria alguma Hunna’a aquela noite enquanto sorria.

~Continua

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.