Card Master Sakura
26 Capítulo 14 - A soma de todos os medos PT4
Notas iniciais
A cidade de Tomoeda é tomada pelo desespero e Sakura se vê obrigada a enfrentar seus medos para salvar seus amigos
Sakura olha para o terraço do prédio ao lado do mercado. Estava escuro devido ao tempo ruim e ela não podia ver bem daquela distância, mas a menina tinha certeza que havia alguém ali. Seja quem fosse, era responsável pela invocação do misterioso dragão. A formiga gigante dá um passo a frente, se preparando para um ataque. O dragão age mais rápido e acerta uma cabeçada na formiga gigante, forçando ela a recuar alguns passos. Aquela era a chance que Sakura aguardava. Sakura (acenando enquanto grita): SENPAI! POR AQUI! RÁPIDO! As meninas ainda estavam em choque, mas ao ouvir a voz de Sakura, Ayu logo se motiva a agir. Ayu: Certo! Tachibana! Misaka! Está é a nossa chance! Vamos! Ayu e Jun erguem Rina e começam a correr, com Rei vindo logo atrás delas. Sakura: Rápido! Rápido! Sakura estava esperando as amigas na outra saída do estacionamento, por onde pretendia fugir. O dragão dispara uma rajada de fogo contra a formiga gigante, mas ela consegue resistir, graças a uma imunidade natural a fogo, e contra-ataca com suas presas. As duas criaturas mágicas iniciam um confronto físico feroz, causando muita destruição nas construções próximas. Sakura: Vocês estão bem? As meninas do clube de atletismo haviam chegado até Sakura, que ajuda a apoiar a trêmula Rina. Ayu: A Sanehara está em choque. Rei: Vai ser dificil fugir com ela nesse estado. Sakura: Nós não temos escolha. Jun (falando tão rápido que fica dificil acompanhar): O que diabos está acontecendo? Por que tudo ficou tão maluco? Formigas assassinas gigantes? Dragões? Por acaso estamos numa partida de World of Warcraft? Isso deve ser um sonho! Tem que ser um sonho! Um sonho muito ruim! Me belisca porque eu quero acordar! Ayu belisca o braço direito de Jun, deixando uma marca roxa. Jun (alisando o braço dolorido): Ai! Não precisava levar a sério... Ayu (falando de maneira ríspida): Mantenha a calma, sua idiota! Se não fizer isso, vamos acabar mortas! Jun (um pouco sem graça): D-desculpa... O dragão envolve a formiga gigante com seu corpo, tentando contê-la. Ayu: Não temos tempo a perder! Vamos! Sakura ajuda Ayu a erguer Rina, as duas liderando a fuga. As meninas correm com tudo o que podem, a adrenalina lhes dando forças que nem sabiam que possuiam. Nem mesmo o peso das roupas encharcadas parecia ser um incômodo. Elas saem pelo portão do destruído estacionamento e descem uma rua. Rina chega a escorregar algumas vezes devido a pista molhada pela chuva torrencial, mas Ayu a força a ficar de pé rapidamente. Ayu: Vamos procurar um lugar seguro e... Assim que viram a esquina, as meninas do clube de atletismo se deparam com mais uma criatura medonha. Tratava-se de uma formiga gigante idêntica a que estava sendo contida pelo misterioso dragão. Não parecia ser a mesma de antes, já que ainda era possivel ouvir a batalha ocorrendo no estacionamento do mercado. Repentinamente, uma van branca surge e atinge a formiga gigante, que é lançada contra uma árvore. A porta de correr do veículo se abre e uma mulher de cabelos negros e olhos violeta estende a mão. Chitanda: Venham conosco se quiserem sobreviver. A mulher dá uma discreta risada. Chitanda (murmurando): Eu sempre quis dizer isso... As meninas se entreolham por um instante e decidem aceitar a ajuda. Não era como se elas tivessem muita escolha afinal. Assim que todas entram, a van arranca enquanto a porta é fechada por Chitanda. A formiga gigante, atordoada, acaba ficando para trás. Rina é colocada deitada num dos bancos, sua cabeça repousando no colo de Ayu. Chitanda e Rei ficam ao lado da capitã do clube de atletismo enquanto Sakura e Jun ficam no banco logo a frente, que ficava de costas para o assento do motorista. Do terraço do prédio ao lado do mercado, um garoto de bem cuidados cabelos loiros e olhos azuis observava a van se afastar, demonstrando certo alivio. Ele estava sem camisa e, por esse motivo, era possivel ver as diversas tatuagens que marcavam seu corpo. Uma delas, localizada no lado direito do peito do garoto, se destacava por estar emanando uma luz vermelha da mesma tonalidade da pele do dragão. Fai (murmurando): Eu ainda não sei no que está metida, mas você tem que ser mais cuidadosa, Sakura Kinomoto.
O homem que estava no volante da van tinha seus olhos verde-claro refletidos no espelho retrovisor interno. Oreki: Meninas? Vocês estão bem? Estão feridas? Rei (acenando): Estamos bem. Sem ferimentos. Jun (suspirando, aliviada): Sobrevivemos. Ayu: Obrigada por nos ajudarem. Chitanda: O que era aquela coisa? Jun: Uma formiga gigante. Espero que não seja uma invasão alienígena. Ainda tenho muitos jogos para zerar antes de partir dessa para melhor... Ayu (dando um cascudo em Jun): Isso não é hora para pensar nisso, Misaka. Rina: Formigas... formigas... formigas... Rina estava pálida, seus olhos semi-abertos, e parecia estar delirando. Sakura: A Rina ainda está tremendo muito... Ayu: Será que vocês tem alguma coisa para aquecê-la? Chitanda: Acho que tenho uma toalha por aqui... Chitanda revira duas malas que estavam embaixo dos bancos e consegue duas toalhas amarelas, que ela prontamente entrega a Sakura e Ayu. Ambas as meninas se concentram em secar Rina o melhor possivel antes de começarem a se secar. Rei: Eu acho que devíamos ligar para nossos pais... Jun: Minhas coisas ficaram na lanchonete, então nada de celular. Sakura (erguendo o celular no ar): Eu estou com o meu, mas está sem sinal. Ayu: Com licença... como vocês se chamam? Chitanda: Eu sou Chitanda e aquele é meu namorado, Oreki. Oreki: Vocês deram sorte que estavámos por perto. Não teriam qualquer chance contra aquela coisa. Ayu: Será que vocês podem nos levar a um hospital, Chitanda? Nossa amiga está em choque e precisa de cuidados médicos. Chitanda: Claro que sim. Com certeza vamos aj... A van faz uma curva fechada repentinamente e as meninas acabam caindo dos bancos. Chitanda é a primeira a se levantar. Chitanda: O que está fazendo, Oreki? Oreki: Salvando nossas vidas! Olhem lá para fora! Sakura e suas amigas olham pela janela e percebem um carro destruído numa fila de veículos estacionados. A autora da destruição do carro, uma nova formiga gigante, estava agora no encalço da van branca. Oreki: Aquela coisa quase nos atingiu com suas presas. Consegui desviar no último instante. A van branca faz mais duas curvas bruscas, contudo a formiga gigante continua firme na perseguição. Essa formiga era diferente das anteriores, sendo um pouco menor e mais ágil. Se livrar dela não seria tão fácil. Jun: Pisa fundo porque ela está se aproximando! Oreki: Estou indo o mais rápido que posso! Chitanda: Ela está chegando perto! A formiga gigante se aproxima mais e chega a encostar suas presas na traseira do veículo, que dá uma leve chacoalhada. Meninas: Ahhhh! Oreki: Mantenham a calma. Chitanda: Faça alguma coisa, Hotaro! Oreki (girando o volante): Estou tentando, estou tentando... A van faz mais algumas curvas repentinas, rumando por uma estrada que passa atrás do reserva Saijou. A formiga gigante, incansável, seguia caçando suas presas. Sakura olha ao redor e percebe a apreensão no olhar de suas amigas.“Eu preciso fazer alguma coisa ou todos aqui vão ser devorados por aquele bicho feio...” A van vira mais algumas esquinas, passa em alta velocidade por algumas ruas e sobe uma pequena ladeira. Antes que todos se dêem conta, já estão numa rodovia num local nada familiar. Ayu: Onde estamos? Sakura: Eu não conheço este lugar... Oreki: Eu também não faço idéia... Oreki bate algumas vezes num aparelho que estava preso ao painel do veículo. Oreki: Droga. O GPS também está sem sinal. Estamos por conta própria. Jun: Onde está a policia quando precisamos dela? Chitanda: Ela está chegando perto de novo! A formiga gigante consegue aumentar ainda mais sua velocidade, sendo uma questão de segundos o momento em que ela alcançaria a van. O veículo passa por baixo de um viaduto.“Sinto muito, Eriol e Shaoran. É uma situação de vida ou morte, então vou ter que usar meus poderes mágicos na frente dos outros.” Chitanda: E agora? Rei: Aquela coisa vai nos pegar!!! Jun: Precisamos de um milagre! Rina (se debatendo): Tirem elas de perto de mim! Eu não gosto de formigas! Tirem elas daqui! Ayu (segurando a companheira de clube): Calma, Sanehara! Nós vamos te proteger! Sakura enfia a mão no bolso de seu short, para confirmar se suas cartas mágicas ainda estavam lá, e puxa a chave mágica no cordão em seu pescoço. Todos estavam focados na formiga gigante que os perseguia e não prestavam atenção na herdeira de Clow. Assim que a van sai debaixo do viaduto, a formiga gigante encosta suas presas na traseira do veículo. Sakura (segurando a chave mágica na mão esquerda): Chave que... Jun: OLHEM! Sakura interrompe sua invocação ao olhar para o que chamara a atenção de suas amigas. Um tigre de pêlo dourado e com imponentes asas brancas havia surgido do céu e pousado com força sobre a cabeça da formiga gigante, impedindo que ela alcance a van. A cabeça da criatura é arrastada pelo caminho e abre um rombo no asfalto.“Kero! Bem na hora!” Kero observa a van se afastando em segurança e pisca discretamente para Sakura. A formiga gigante tenta se levantar, mas o guardião mágico a puxa de volta para o chão. Rei: O que era aquilo? Chitanda: Um leopardo ou algo do gênero? Jun: Agora temos que nos preocupar com duas criaturas tentando nos matar? Sakura: Não precisam se preocupar. Ele é amigo. Chitanda (a sobrancelha direita erguida): Como você pode ter certeza? Sakura: É... bem... Sakura começa a suar e olha ao redor, procurando uma resposta. Como ela explicaria que Kero era confiável sem revelar sua verdadeira natureza? Sakura (coçando a cabeça, sem graça): Bem... ele impediu a formiga de nos atacar, então acho que podemos considerá-lo um amigo... Chitanda (não parecendo muito convencida): Sei... Jun: Será? Rei: Eu acho que faz sentido. Oreki: Aquele tigre poderia apenas estar eliminando a concorrência antes de atacar o prato principal. Vamos aproveitar a chance para ir para o mais longe possivel. Sakura observa pela janela Kero combatendo a formiga gigante, que tentava bravamente se livrar do guardião mágico. A última visão que ela tem é a de Kero se preparando para disparar uma rajada de fogo pela sua boca. A van então faz mais uma curva e pega um retorno, fazendo com que a herdeira de Clow perca seu amigo de vista. Mas se Kero estava por perto, isso já servia para tranquilizar Sakura. Oreki: Essa tempestade só deixa tudo pior. Acho que seguindo por aqui nós voltamos a Tomoeda. Como está a menina? Chitanda: Ainda está tremendo muito. E parece estar delirand... Rina: Formiga! Rina surpreende a todos e se joga no chão repentinamente. Ela fica agachada, agindo como se estivesse se escondendo. Ayu: Ei! O que você pensa que está fazendo, Sanehara? Rina (com as mãos na cabeça): Elas não desistem! Por que elas estão atrás de mim?!? Ayu nota que Rina estava olhando para a janela da van e resolve dar uma espiada. Ela aproxima seu rosto da janela e acaba levando um susto quando uma formiga repentinamente surge passeando pela parte externa da porta. Ayu (com a mão no peito): Que susto! Rei: Parece uma formiga comum. Jun: Mais formigas? Então é por isso que a Sanehara está se escondendo. Mais formigas começam a passear pelo exterior da van. Chitanda (os olhos brilhando): De onde estão saindo tantas formigas estranhas? Eu estou curiosa... estou muito curiosa sobre isso... Oreki (suspirando, incomodado): Esse não é o momento para ficar curiosa, Eru. As formigas começam a atacar os vidros, provocando rachaduras e buracos. Jun: Estão tentando entrar! Ayu: Não deixem! Empurrem-nas para fora quando tentarem entrar! Chitanda: Temos que tapar os buracos que elas estão fazendo de algum jeito! Jun: Com o que? Cuspe? Ayu: As toalhas! Estendam as toalhas junto as janelas! Cada uma de nós pega uma janela! Meninas: Certo! Chitanda e as meninas começam a agir. Ayu segura o braço de Sakura. Ayu: Você não, Kinomoto. Fique com a Sanehara e mantenha ela segura. Sakura: Ah, ok. Pode deixar comigo, Sakagami-senpai! Sakura se ajoelha junto a Rina e a abraça, tentando acalmá-la. Chitanda, Ayu, Jun e Rei fazem o seu melhor para impedir que as formigas entrem pelas janelas. Oreki: Isso não vai dar certo! Não vamos poder tapar todas as janelas! Eu preciso ver para onde estou indo quando dirijo, lembram?
Chitanda: E o que fazemos então? Oreki: Vou ter que estacionar e nós fugimos a pé. Ayu: Não vamos ser rápidos o bastante. Essas malditas formigas vão nos pegar desse jeito. Oreki: Droga!“A magia de Phobos está usando o medo da Rina. Eu preciso tentar acalmá-la de algum jeito. Isso deve resolver nosso problema.” Rina começa a chorar e a soluçar. Sakura coloca a amiga deitada no seu colo e começa a acariciar seus cabelos. Sakura: Não precisa chorar, Rina. Nada de ruim vai acontecer com você. Rina: Mas as formigas... elas não páram... Sakura: Eu vou ficar ao seu lado. Vou te proteger com todas as minhas forças. As formigas não vão fazer nada contra você. Rina: Eu estou com medo... muito medo... Sakura: Eu sei que está, mas eu preciso que você se acalme. Se você ficar com medo as coisas só vão piorar. Um grupo de formigas arrebenta parcialmente o vidro frontal da van. Rina: Estou com muito medo... muito medo... Sakura: Rina... por favor... você tem que se manter calma... pense em outra coisa, qualquer coisa... Uma invasão em massa de formigas se inicia. Oreki começa a ter dificuldades em manter o carro em linha reta por causa do ataque. Chitanda começa a pisotear as formigas e Ayu logo adota a mesma tática. Ayu: Elas são muitas... Sakura: Rina... Rina: Eu não aguento mais... Rina desmaia nos braços de Sakura. Repentinamente todas as formigas desaparecem, deixando todos confusos. Rei: Para onde elas foram? Jun: Por acaso o general delas ordenou uma retirada? Oreki limpa um pouco dos cacos de vidro que haviam caído nos bancos dianteiros. Chitanda: Estou confusa. Oreki: Formigas não podem simplesmente sumir desse jeito. Aliás, não deveria existir esse tipo de formigas malucas... Rei: Não faz nenhum sentido. Ayu: Sanehara! Ayu se ajoelha junto a Sakura. Ayu: O que aconteceu, Kinomoto? Sakura: Os delirios dela ficaram piores... e ela desmaiou. Apreensiva, Sakura morde levemente o lábio.“Infelizmente isso quer dizer que a alma dela foi levada por Phobos.” Oreki: A menina está respirando? Sakura: Sim, ela está sim. Ayu: Ela deve ter entrado em choque e desmaiou. Oreki: Já estamos de volta a Tomoeda. Vamos o mais rápido possivel para o hospital. Rei (pulando para o banco da frente): Eu moro nessa àrea e conheço alguns atalhos. Vire na próxima a direita. Oreki: Ok. Sakura e Ayu levantam Rina e a colocam deitada no banco. A herdeira de Clow passa a mão carinhosamente na cabeça da amiga. Sakura: Você vai ficar bem, Rina. Eu te prometo isso. Chitanda: Quanto falta para chegarmos? Rei: Não falta muito. Chitanda: Você tem que ir mais rápido, Hotaro! Oreki: Estou fazendo o melhor que posso, Eru! Chitanda se volta para Sakura, Jun e Ayu. Chitanda: Não se preocupem. Vamos deixar sua amiga num hospital e tudo vai ficar b... AHHHHHH! O clarão de um trovão ilumina as janelas da van, dando um susto nos passageiros. Jun: Esse foi forte. Sakura: Parece que a tempestade vai ficar pior. Oreki (a voz demonstrando muita preocupação): Eru? Eru? Eru, você está bem? Chitanda havia se jogado no chão, as mãos sobre a cabeça e o corpo tremendo levemente. Quando ela percebe que todos os olhares recaiam sobre ela, rapidamente se levanta se se senta no banco. Chitanda (sorrindo sem graça): Não foi nada, não foi nada. Só levei um pequeno susto. Sakura: Você tem certeza que está bem? Chitanda: Claro que sim. Foi só um pequeno susto, só isso. Oreki: Você não devia se forçar tanto. Eu sei que você morre de medo de trovões desde pequena. Sakura (murmurando): Medo de trovões? Isso não é bom... não é nada bom... Chitanda cruza os braços, indignada. Chitanda: Pare de dizer coisas embaraçosas! É claro que isso não é verda... AHHHHHHH! Um novo trovão ilumina a rua. Jun (cobrindo os olhos): Esse foi mais forte. Quase fiquei cega. Sakura: Chitanda? Chitanda havia se jogado novamente no chão e tremia violentamente. Havia ficado tão pálida que quase parecia um fantasma. Oreki fica com sua concentração dividida entre a rua e sua apavorada namorada no banco de trás. Oreki: Chitanda! Ayu: Olhe para frente! Nós cuidamos dela! Oreki: Mas... Ayu e Jun conseguem fazer Chitanda se sentar. Chitanda (a voz fraca): Ele vai me atingir... o trovão vai me atingir... eu não quero morrer... Ayu: O hospital! Temos que chegar ao hospital! Oreki: Nós já estamos quas... wow! Um trovão ilumina o ambiente e atinge o asfalto, errando a van por centímetros. Tomado pelo susto, Oreki quase perde o controle do veículo, arrastando sua lateral numa parede, mas consegue se recuperar rápido e retornar a pista. As meninas nos bancos traseiros acabam caindo umas sobre as outras devido a manobra. Jun (apalpando): Ufa. É um susto atrás do outro. Ainda bem que o chão do carro é bem macio. Ayu: Misaka... Jun: Sim, querida capitã? Ayu (jogando a amiga para o lado): Saia de cima de mim! Sakura ajuda Ayu a se levantar e as duas colocam Chitanda encostada num banco. Rei (pálida): Nós quase fomos atingidos por um trovão. Oreki (suspirando, aliviado): Essa foi por pouco. Estamos com sorte. Como ela está? Como está a Chitanda? Ayu: Ela está agindo de forma parecida a Sanehara. Oreki: Aguente firme, Eru. Não vou deixar nada acontecer com você. Sakura: Cuidado! Diversos trovões rompem os céus e atingem o asfalto em sequência. Cada trovão provocava uma explosão e uma cratera em seu local de impacto. Oreki usa toda sua habilidade na direção para se esquivar o melhor possivel, mas os clarões tornam dificil ver o caminho a frente com clareza. Rei se joga para os bancos traseiros da van e tapa parcialmente o rosto. Jun fica com os olhos arregalados sem saber o que fazer. Sakura e Ayu permanecem junto a Chitanda, segurando-a. A van estava se mexendo tanto que era dificil ficar parado. Chitanda: Eu não quero morrer... eu não quero morrer... eu não quero morrer... Sakura: Ninguém vai morrer! Nós vamos ficar bem! Acredite nisso! Por causa dos estrondos provocados pelos trovões, só era possivel conversar aos gritos. Ayu: Me ajuda a colocar ela no banco, Kinomoto! Temos que prendê-la com o cinto de segurança para ela ficar segura! Sakura: Certo, senpai! Antes que Sakura e Ayu pudessem fazer algo, Chitanda começa a ter convulsões, seus olhos girando nas órbitas, suas pálpebras trêmulas e semiabertas. Sakura: O que está acontecendo?! Ayu: O estado dela parece estar ficando pior que o caso da Sanehara! Pior e mais rápido também! Um dos trovões passa muito perto da van e acaba provocando a explosão das janelas. Os cacos de vidro voam e se dispersam por toda parte enquanto as meninas gritam de terror. Sakura limpa um pouco de vidro de suas costas e das costas de Jun. Sakura: Você está bem?! Jun: Eu ainda estou inteira! Rei?! Rei: Estou bem! Ayu (com Chitanda nos braços): Ela não vai aguentar mais! Oreki: Aguentem só mais um pouco! Estamos quase lá! Quase lá! Quase lá!!! Repentinamente um trovão cai poucos centrímetros a frente da van, obrigando Oreki a se esquivar. Na improvisação, entretanto, ele acaba colocando o veículo na direção de um carro estacionado. Rei (se apoiando no banco do motorista): Nós vamos bater! Oreki gira o volante com toda a força que pode, tentando alterar a direção. Na velocidade em que estavam, porém, a manobra acaba fazendo a van perder o controle e capotar. O veículo gira no ar de maneira descontrolada, os passageiros dos bancos traseiros sendo jogados de um lado para o outro como se fossem bonecos. Um novo trovão emerge do céu nublado, pronto para selar o destino de Oreki, Chitanda e as meninas do clube de atletismo. Sakura: ESCUDO! O clarão do trovão envolve a van, mas o veículo não sofre nenhum dano direto, protegido inteiramente por um escudo esférico invisível a olhos comuns. Sakura estava com os olhos fechados, se concentrando no uso de seus poderes mágicos. Em sua mão esquerda trazia uma das poderosas cartas Sakura. A herdeira de Clow havia conseguido se segurar num cinto de segurança, o que evitava que ela ficasse quicando de um lado para o outro. O clarão desaparece e os estrondos se encerram. Os trovões haviam cessado seu ataque e isso significava uma coisa: a alma de Eru Chitanda acabara de ser levada. Mesmo sem a ameaça dos trovões, ainda havia um problema. A van estava girando no ar e sua trajetória indicava que iam de encontro a uma mercearia. Agindo rapidamente, a herdeira de Clow saca uma nova carta mágica. Sakura: VENTO! Uma série de rajadas de vento corrigem a trajetória da van e conseguem estabilizá-la. O veículo pousa de maneira um pouco brusca, mas ainda assim segura, parando de se mover a centímetros de uma grande parede. Sakura (suspirando): Ufa. Essa foi por pouco. Chitanda estava caída aos pés de Sakura, completamente desacordada. Ayu, Jun e Rei estavam jogadas entre o chão e os bancos, ainda se recuperando do acidente. Oreki tinha a cabeça ferida repousando sobre o volante. Estava desacordado. Sakura guarda suas cartas mágicas e olha pela janela do veículo, confirmando que não haviam mais trovões, apenas uma forte e incômoda chuva. Estavam seguros. Pelo menos por enquanto. Ayu: Ai, ai... Ayu começa a se levantar, sua mão repousando no ombro ferido. Sakura prontamente ajuda sua colega a sentar no banco. Sakura: Você está machucada? Ayu (apontando): Não se preocupe comigo, Kinomoto. Ajude a Tachibana e a Misaka. Sakura: Mas... Ayu: Agora! Sakura fica um pouco surpresa com o tom da voz de sua capitã, mas resolve apenas obedecer. Jun e Rei logo são colocadas de pé, ambas com arranhões e feridas pelo corpo, mas aparentemente nada grave. Jun (com as mãos na cabeça): Alguém anotou a placa do caminhão? Minha cabeça ainda está girando... Rei: Meu corpo todo está doendo... como foi que conseguimos sobreviver? Jun: É verdade... nós capotamos e acho que fomos atingidos por um trovão... Sakura (desviando o olhar): A-acho que demos sorte, n-não é?“Como tudo aconteceu tão rápido, acho que elas não perceberam que usei magia.” Rei: Sorte? Eu chamaria de milagre. Ayu se apoia no banco do motorista para checar Oreki. Ayu: Ele bateu a cabeça e desmaiou, mas acho que está bem. Sakura: A Chitanda desmaiou do mesmo jeito que a Rina. Ayu (olhando pela janela): Alguém tem idéia de onde estamos? Rei: Eu acho que esse é o muro lateral do hospital... Sakura: Então a entrada deve ser logo ali na frente. Ayu olha de maneira firme para suas colegas e respira fundo. Ayu: Ok. Chega de moleza. Misaka e Tachibana, coloquem a Sanehara e a Chitanda deitadas nos bancos. Tomem muito cuidado pois não sabemos o quanto elas se machuram durante o acidente. Jun (batendo continência): Ok, querida capitã. Ayu: Eu vou tirar o Oreki do banco do motorista. Sakura: Mas o seu ombro não está ferido? Ayu: Eu dou conta. Você, Kinomoto, vai correr até o hospital e pedir ajuda. Sakura: Deixa comigo! Sakura e Ayu abrem a porta da van e deixam o veículo juntas. Elas se surpreendem com a situação ao redor. Haviam carros batidos em postes, bicicletas destruídas, hidrantes quebrados, pessoas desacordadas jogadas ao chão e ambulâncias passando a toda velocidade pela rua, provavelmente trazendo vítimas para o hospital. Era possivel ouvir gritos ao longe, o que indicava que o ataque de Phobos se intensificara. Ayu estava aterrorizada, mas suas colegas de clube dependiam dela. Como capitã, ela não podia mostrar nenhuma fraqueza. Ayu: Droga. O que está acontecendo com nossa cidade? HOSPITAL GERAL DE TOMOEDA Yoko estava sentada num dos bancos de uma sala de espera no quarto andar do hospital, uma capa de chuva roxa repousando em seu colo. A sala era ampla e bem iluminada e seus bancos eram de certa forma confortáveis. À esquerda dos bancos, haviam três elevadores e um balcão, onde três recepcionistas preenchiam fichas e atendiam ligações. Estavam tão atarefadas que não tinham tempo nem para beber um copo d’água. O lugar estava bem movimentado, o hospital em geral se encontrava nessa situação. Vítimas e mais vítimas da misteriosa “doença do medo” chegavam a todo instante. Os médicos se desdobravam para dar atenção a todos os pacientes. Os enfermeiros faziam o seu melhor para ajudar as vítimas e manter os aflitos familiares sobre controle. Se todos perdessem a calma, a situação ficaria ainda pior do que já estava. Todos queriam respostas, mas ninguém sabia direito o que dizer.
Yoko suspira, seu peito preenchido por preocupação. Ela olha para seu lado direito, tentando ignorar as discussões alheias que a deixavam ainda mais aflita. Havia algumas portas espelhadas naquela direção que levavam a uma não muito ampla varanda. O local estava sendo constantemente banhado pela tempestade e não era atrativo para ninguém no momento. Yoko tinha certeza que num dia ensolarado, aquele seria um bom lugar para se respirar e pensar. Touya: Ah. Você já voltou. Touya Kinomoto havia acabado de se aproximar. Estava vestindo um macacão verde com a logomarca de um supermercado e tinha um boné amarelo na cabeça. O rapaz se senta no banco ao lado de Yoko. Touya: Aqui. Touya entrega uma lata para Yoko. Touya: Você gosta de café gelado, não é? Yoko: S-sim. Obrigada. Yoko sente seu rosto corar e resolve olhar para outra direção para esconder seu embarassamento. Não esperava que Touya lembrasse de algum de seus gostos. Será que isso significava que o rapaz prestava pelo menos um pouco de atenção nela? Touya: Como ela está? Como está a Kisara? Yoko: O médico disse que a saúde dela está normal, tirando o pulso que ela machucou quando caiu. Mas não há nenhum sinal de quando ela vai despertar. Touya: Assim como todas as outras pessoas, não é? Yoko (baixando a cabeça): É... Touya: A Kisara vai ficar bem. Aquela garota é dura na queda. Logo, logo ela vai estar de volta aprontando como sempre. Yoko: Estou rezando por isso. Yoko se serve de um gole de sua bebida e fica girando a lata entre suas mãos. Touya: Os médicos já consideram uma epidemia. Yoko: Eu ouvi alguns rumores. Parece que estão chamando de “doença do medo”. Touya: Os relatos são cada vez mais absurdos. Eventos tão bizarros, criaturas que não deveriam existir... nunca vimos nada assim antes, não é? Yoko: É... nunca... Yoko fita a lata em sua mão como se fosse a coisa mais importante do mundo. Temia que se encarasse os olhos de Touya, suas mentiras pudessem se tornar evidentes. O rapaz lança um olhar preocupado para a amiga. Ele coloca sua mão sobre uma das mãos de Yoko, que treme levemente de surpresa. O coração de Yoko quase pula pela boca. Touya: Você não está pensando só na Kisara, certo? Tem mais alguma coisa te incomodando. Yoko (balançando levemente a cabeça): Não, não. É impressão sua. Touya suspira, levemente incomodado. Touya: Você sabe que pode confiar em mim, não é? Já somos amigos de longa data. Yoko (reprimindo as lágrimas nos olhos): A-amigos? V-você pensa isso de mim? Touya (os olhos fechados e um sorriso amistoso): Sim. Já nos conhecemos há algum tempo, estamos sempre nos esbarrando por aí e você sempre me ajuda. Você é uma pessoa confiável. Eu a considero uma boa amiga. Yoko: ... Touya: Amigos sempre se ajudam, não é? Yoko: Sim... Yoko morde levemente o lábio, ainda indecisa. Touya: Às vezes, desabafar é o primeiro passo para resolver um problema. Yoko encara os olhos negros de Touya, mas não resiste por mais que três segundos. Ao sentir seu rosto corar, ela volta a baixar a cabeça. Ela queria contar tudo a ele, mas tinha medo. Medo de sua reação se soubesse o que ela esconde. Após alguns instantes de silêncio, Yoko resolve falar. Yoko: Eu tenho uma outra amiga, a Mariko... ela também está internada aqui... Touya: Ela também foi vítima...? Yoko: Sim. Segundo os médicos, foi uma das primeiras vítimas. Touya: Você foi visitá-la? Yoko: Dei uma passada no quarto dela, mas preferi não demorar muito. Os parentes dela estavam lá também. Não queria incomodar... Yoko volta a ficar em silêncio. Dessa vez é Touya que fala primeiro. Touya: Você está preocupada porque isso está acontecendo com as pessoas a sua volta, não é? Yoko: Sim... estou... Touya: Nós sempre acompanhamos pela TV coisas horriveis acontecendo, mas nunca esperamos que aconteça com pessoas que conhecemos. Yoko: Eu me sinto perdida... como se não tivesse nada que pudesse fazer para ajudar as pessoas com quem me importo... eu não quero perder meus amigos, meu irmãozinho Kyosuke... Yoko engole sua saliva com dificuldade. Yoko (falando bem baixo): ... você... Touya: Como? Não entendi a última parte. Yoko (balançando a cabeça): Não é nada! Não é nada! Eu não devia ficar choramingando. Não quero parecer uma boba. Touya suspira e termina sua bebida. Yoko também termina sua bebida em silêncio, constrangida demais para puxar um assunto. Touya: Eu liguei para o gerente e ele me disse que já avisou os parentes da Kisara. A mãe dela já está a caminho. Yoko: Com essa tempestade e o caos acontecendo nas ruas, ela deve demorar. O trânsito não está fácil. Touya se levanta, recolhe as duas latas e as joga numa cesta de lixo próxima. Touya: Bem... nós temos que voltar para o mercado para pegar nossas coisas. Com tudo que está acontecendo, com certeza não deve ter mais expediente por hoje. É melhor ficar em casa com a familia. Yoko: Eu não vou. Touya: Hã? Por que não? Yoko: A Kisara é uma boa amiga. Eu me sentiria mal se a deixasse completamente sozinha. Vou ficar até a mãe dela chegar. Touya: Ela pode demorar. Você tem certeza disso? Yoko: Minha prima está cuidando do meu irmãozinho hoje e eu já avisei do que aconteceu, então eu posso chegar tarde sem problema. Touya: Yoko... Yoko: Vai ficar tudo bem. Yoko força um sorriso. Estava morrendo de preocupação com o irmão, mas não podia abandonar uma amiga. Às vezes ela gostaria de ser um pouco mais egoísta. Yoko se surpreende quando Touya volta a se sentar. Yoko: O que você está fazendo? Touya: Não é óbvio? Estou lhe fazendo companhia. Yoko: Você não precisa fazer isso. Touya: É verdade. Não preciso fazer, mas eu quero fazer. Yoko sente seu coração bater ainda mais acelerado e um enorme sorriso se forma em seu rosto. Yoko: Obrigada, Touya. Touya: Sem problemas. Yoko e Touya voltam a ficar em silêncio. Eles observam um casal discutindo com uma enfermeira em busca de informações sobre sua filha. Agarrada a perna direita da mãe, havia uma pequena menina de olhos verdes. Yoko: Você devia ligar para casa, Touya. Sua irmãzinha e seu pai podem estar preocupados. Touya: Tem razão. Me dê licença um momento. Touya sai pelos corredores a procura de um telefone público. Yoko aproveita a oportunidade e pega seu celular, discando para um dos números da agenda. Yoko: Akane? Akane: Yoko? Você vai ficar ligando a cada 15 minutos? Yoko: Eu sei que estou sendo chata, mas estou preocupada com o Kyosuke. Akane (suspirando): Eu sei, eu sei. Yoko: Onde ele está? Akane: Ele está na sala. Está assistindo a um documentário sobre animais na televisão. Yoko: E ele está bem? Aconteceu alguma coisa estranha perto dele? Algo diferente? Akane: Que? Do que você está falando? Yoko: Apenas responda, por favor. Akane: Não. Está tudo normal. Yoko: Que bom. Akane: Você está estranha, prima. Yoko: Akane... se acontecer alguma coisa, qualquer coisa, mesmo que seja algo inacreditável, me ligue. Akane: Não sou mais nenhuma criancinha, Yoko. Não vai me assustar tão fácil. Yoko: Estarei em casa assim que puder. Até mais. Yoko encerra a ligação e segura o celular com força nas mãos. Ela gostaria que aquele dia terminasse logo. ENQUANTO ISSO... Sakura estava na frente de um quarto, observando o trabalho metódico de um médico e de uma enfermeira, que faziam o tratamento da desacordada Rina Sanehara. Ela suspira, preocupada.“Sinto muito por você ter que passar por isso, Rina.” Ayu: Kinomoto. Sakura se vira e se depara com Ayu. A capitã do time de atletismo estava com uma tipóia num dos braços, provavelmente devido a lesão no ombro. Oreki estava ao lado dela, a cabeça levemente enfaixada. Oreki: Como está a menina? Sakura: O médico ainda está tratando dela. Ele me disse que ela não sofreu nenhum ferimento sério no acidente, mas... Oreki: Mas entrou em coma como o resto das vítimas da “doença do medo”, certo? Sakura apenas confirma com um aceno de cabeça. Oreki: Tudo o que está acontecendo não faz sentido. Deve haver alguma explicação racional por trás disso... tem que haver uma explicação... Oreki põe a mão na cabeça, ainda dolorida, e olha de relance para Sakura. Sakura: A sua cabeça está bem? Oreki (gesticulando com as mãos): Vai ficar tudo bem. Não foi nada demais. Obrigado por se preocupar. Ayu: Nós é que devemos agradecer. Se você e Chitanda não tivessem aparecido no supermercado, nós provavelmente não estaríamos aqui agora... Ayu olha para Sakura, que rapidamente entende o recado. As duas fazem uma reverência. Ayu: Muitíssimo obrigada por sua ajuda! Sakura: E desculpe pelos problemas que causamos! Oreki põe as mãos nos ombros das meninas. Oreki: Está bem, está bem. Não precisam ser tão formais. Estão me deixando sem graça. Sakura: Se pudermos fazer qualquer coisa para retribuir, é só falar. Ayu: Sei que essa oferta pode parecer vazia vinda de simples estudantes, mas pode ter certeza que faremos nosso melhor para demonstrar nossa gratidão. Sakura: Nós podemos dar um jeito de pagar o prejuízo do seu carro. Levaria algum tempo, mas... Oreki: Podem parar por aí. Tudo o que eu quero é que vocês fiquem bem, ok? As duas meninas sorriem e acenam com a cabeça. Oreki retribui o sorriso, embora isso fizesse sua cabeça doer um pouco. Oreki: Bem... eu vou ficar com a Eru agora... Sakura: Ela está bem? Oreki: Ela está na mesma situação de sua amiga. Tudo o que posso fazer no momento é ficar ao lado dela, então... Sakura: Estaremos rezando por ela também. Oreki: Agradeço muito por isso. Se cuidem, meninas. Após um aceno final, Oreki se retira, deixando Sakura e Ayu sozinhas no corredor. Instantes depois, uma enfermeira passa por ali e pede que Sakura e Ayu esperem novidades do médico numa das salas de espera. Enfermeira: Eu sei que vocês devem estar apreensivas, mas ficar juntando pessoas no corredor vai atrapalhar a movimentação dos médicos e enfermeiros... Após dar seu aviso, a enfermeira segue em frente, mil tarefas a serem feitas circulando em sua cabeça. Sakura e Ayu começam a andar pelos corredores a procura da sala de espera mais próxima. Sakura: Se não me engano têm duas salas de espera por andar... Ayu: Deve ter uma por aqu... ah. Achei. As meninas páram por um momento na ampla entrada da sala. O lugar estava abarrotado de pessoas, entre parentes desesperados, médicos e enfermeiros. O ambiente estava carregado com um clima pesado. Ayu: Não tem lugar para sentar. Sakura: Não faz mal. Sakura aponta para a direita da sala. Havia uma série de portas espelhadas que levavam a uma varanda. Próximo a essas portas havia um pilar de sustentação. Sakura: Podemos ficar encostadas ali enquanto esperamos. As duas meninas caminham lentamente até o pilar e se recostam nele. Sakura não leva muito tempo para quebrar o silêncio. Sakura: Sakagami-senpai... quanto a Rina... não acha que devíamos avisar a familia dela? Ayu: Não se preocupe. Já liguei para a irmã mais velha dela e ela me disse que já está a caminho. Sakura: Irmã mais velha? Sakura força um pouco a memória e um rosto logo surge em sua mente. Sakura: Ah. Eu me lembro. Ela é presidente do clube de culinária, não é? Ayu: Isso mesmo. Você já a conheceu? Sakura: Eu a vi durante a apresentação do clube. E quanto a você, senpai? Ayu: A Ritsu e eu somos colegas de classe. Ela tentou me levar para o clube de culinária quando éramos mais novas, mas eu definitivamente não levo jeito para cozinhar... Um pequeno e tímido sorriso se forma no rosto de Ayu, mas logo desaparece. A preocupação com as amigas e com os estranhos acontecimentos que tomavam a cidade de Tomoeda logo pesavam sobre a mente da menina. Ayu se surpreende quando Sakura segura sua mão por um momento. Sakura: Você pode não ser boa em cozinhar, mas é uma excelente corredora, além de uma capitã talentosa. Você sabe tirar o melhor das pessoas e está aos poucos nos transformando numa equipe vitoriosa. Ayu (surpresa): Kinomoto... Sakura (olhando para o céu tempestuoso): Você tem uma determinação muito forte, senpai. A sua vontade de vencer nos contagia. Admiro muito o jeito com o que você se preocupa com suas colegas até acima de si mesma... Sakura olha para Ayu. Sakura (sorrindo): A Ritsu-senpai que me perdoe, mas eu fico muito feliz que você esteja conosco e não com o clube de culinária. Ayu dá um tímida risada. Ayu: Acho que as meninas do clube de culinária também estão felizes com isso. Os doces que eu fazia não eram exatamente muito bons... As duas meninas voltam a ficar em silêncio. “Queria muito dizer que tudo vai ficar bem, que eu e meus amigos vamos fazer algo a respeito, mas não posso. Tudo o que posso fazer agora é tentar consolar minha amiga. Por favor, não perca as esperanças, senpai.” Ayu: Você se saiu muito bem hoje, Kinomoto. Sakura: Eu? Ayu: Você soube como lidar com a Misaka, até conseguiu estimulá-la a estudar um pouco. Quando estávamos em perigo, você pensou rápido, tentando salvar a todas nós. Mesmo diante de tudo o que vimos, você não se abalou nem um pouco. Sakura: Eu não fiz nada demais, Sakagami-senpai. Ayu: Tem algo diferente em você, Kinomoto. Não sei explicar bem o que é... Ayu coloca a mão no queixo, pensativa. Ayu (murmurando): A primeira impressão que tive de você estava errada... talvez você seja a pessoa certa, afinal... Sakura: Como é? Ayu (agitando as mãos no ar): Não é nada. Estava apenas pensando alto... Ayu olha para um relógio pendurado numa parede. Ayu: Tachibana e Misaka estão demorando muito... Sakura: Onde elas estão? Ayu: Elas estavam na fila de atendimento. Os médicos estavam dando preferência aos casos mais graves. Sakura: Elas estão bem? Ayu: Estão sim. Não se preocupe. Fui eu que acabei levando a pior. Ayu mostra sua tipóia para Sakura. Ayu: O médico disse que é uma lesão leve, então não vai interferir nos meus treinos. Meu ombro deve estar recuperado em uma semana mais ou menos. Sakura: Isso é ótimo, Sakagami-senpai. Ayu: As outras duas devem ter sofrido apenas arranhões. Sakura: Não é melhor procurarmos por elas? Ayu: Deixe comigo. Fique aqui para o caso do médico ou da Ritsu aparecerem. Sakura: Ok. Ayu deixa a sala de espera, saindo por uma porta imediatamente a frente daquela pela qual haviam entrado. Sakura coloca a mão no bolso e pega seu celular. Imediatamente o aparelho começa a vibrar, indicando uma ligação. Sakura: Alô? Fujitaka: Sakura? Sakura: Papai! Fujitaka: Onde você está, minha filha? Sakura: Eu estou no hospital agora e... Fujitaka: Hospital? O que aconteceu? Você se machucou? O que o médico disse? Estou indo atrás de você agora... Sakura: Calma, calma, papai. Eu estou bem. Foi uma amiga minha que precisou de um médico. Sakura ouve um longo suspiro de alivio do outro lado da linha. Fujitaka: Você já sabe o que está acontecendo nas ruas, não é, querida? Sakura: Sim. Está uma bagunça total lá fora. Fujitaka: Eu estava muito preocupado com você e com seu irmão. Tentei ligar várias vezes, mas não conseguia contato. Segundo os telejornais, parece que tem algum tipo de interferência afetando os telefones... Sakura: E o Touya está bem? Fujitaka: Eu ainda não consegui falar com ele. Estava indo para nossa casa para ver se encontrava vocês, mas primeiro vou passar no hospital para te buscar. Sakura: Não, papai. Eu quero que o senhor vá atrás do Touya primeiro. Fujitaka: Sakura... Sakura: Por favor, papai. Estou no hospital, um lugar seguro, mas o Touya... não sabemos onde ele está... estou muito preocupada com o Touya... precisamos saber se ele está bem... Fujitaka: Está bem, minha filha. Mas me prometa que vai ficar no hospital até que eu vá encontrá-la. Ok? Sakura: Eu prometo. Me liga quando tiver novidades. Fujitaka: Está certo. Cuide-se, minha filha. A ligação é encerrada. Sakura segura o celular junto ao peito e suspira aliviada.“Não tenho tempo a perder.” Sakura inicia uma ligação. Sakura: Atende, Shaoran. Por favor, atende. Após vários toques, Sakura acaba desistindo da ligação. O chinês não respondia a chamada. Ela tenta entrar em contato com Eriol, mas também não tem sucesso. Sakura: Ai, ai, ai. Por que não consigo falar com eles? Será que estão bem? Sakura olha ao seu redor. Havia outras pessoas na sala de espera, boa parte delas frustradas com a dificuldade de entrar em contato com outras pessoas através de telefones. “Pelo visto não sou a única com dificuldades nas ligações. Os telefones devem estar com problemas mesmo, como o papai disse. Mas se eu continuar insistindo, certamente eu vou conseguir falar com o Shaoran.”
E assim, a herdeira de Clow passa alguns minutos tentando entrar em contato com seu namorado, com Eriol e até com seu irmão Touya. Após sucessivas falhas, ela resolve checar sua melhor amiga. Tomoyo: A-alô? Sakura: Tomoyo? Está tudo bem com você? Tomoyo: Ah. Sakura. Estou bem sim. Sakura: Você tem certeza? Você está ofegando muito... Tomoyo: Ah, isso. Bem... eu estava a caminho de casa com minhas seguranças, mas nosso carro acabou sofrendo um acidente... Sakura: Vocês se machucaram? Tomoyo: Estamos bem... nós... Uma breve momento de silêncio. Sakura podia ouvir algumas vozes e uma sirene ao fundo da ligação. Tomoyo: Estamos agora no shopping... estamos nos abrigando no segundo andar... uma grande onda inundou a rua e o primeiro andar do shopping... chegou a arrastar alguns carros e uma ambulância... Sakura: Essa não! Alguém se machucou? Tomoyo: Tem... acho que duas pessoas machucadas... tem paramédicos cuidando delas... Sakura: Eu vou aí te buscar! Tomoyo: Não, Sakura. Eu estou segura. Você não precisa vir aqui. Mais um instante de silêncio. Tomoyo (falando mais baixo): Isso é coisa da magia do caos, não é? Então é melhor você resolver o problema por completo do que sair por aí resgatando pessoas aleatoriamente. Nós precisamos da intervenção de nossa destemida card master... Sakura: Mas Tomoyo... Tomoyo (a voz mostrando um certo tom de tristeza): Eu queria estar com você agora, mas não acho que vou conseguir sair daqui. Me promete que você vai tomar cuidado, tá bom? Eu comprei muito material para fazer roupas maravilhosas para você, então você definitivamente tem que voltar para casa em segurança... Sakura: Ok. Eu prometo. Vou dar o meu melhor. Você também tome cuidado, Tomoyo. Tomoyo: Eu vou. E da próxima vez minha câmera estará preparada para registrar as aventuras da minha maravilhosa amiga. Sakura: Você não muda, Tomoyo. Tomoyo: Boa sorte, amiga. A ligação é encerrada. Assim que coloca o celular no bolso, Sakura nota um médico familiar parado numa das entradas da sala de espera e olhando ao redor como se procurasse alguém. A herdeira de Clow logo se move até ele. Sakura: Doutor, o senhor tem noticias da minha amiga? Médico: Ah. Você é a menina que estava com a paciente chamada Rina Sanehara, certo? Sakura: Isso. Médico: Sua amiga está bem. Ela sofreu uma leve torção no pulso e algumas escoriações, nada grave. Sakura (aliviada): Que bom que ela não sofreu nenhum ferimento mais sério. Médico: Infelizmente ela está em coma. Aparentemente por causa da “doença do medo”. Você já avisou a familia dela? Antes que Sakura possa responder, ela nota uma menina mais ou menos de sua idade conversando de maneira agitada com uma enfermeira. Ritsu: ... o nome dela é Rina! Você pode verificar onde ela está? Sakura: Ritsu-senpai? Ritsu fica surpresa ao ser chamada, mas não parece reconhecer Sakura. Já era de se esperar, afinal, mal tinham tido contato. Percebendo isso, Sakura resolve tomar a iniciativa na conversa. Sakura: Nós somos da mesma escola. Eu faço parte do clube de atletismo junto com a Sakagami-senpai. Ritsu: Ah. Então você estava junto com elas? Estava junto com Ayu e minha irmãzinha? Sakura (apontando para o médico ao se lado): Sim. O doutor estava me contando do estado dela. Ritsu: E como ela está, doutor? Eu posso vê-la? Médico: Claro que pode. As duas podem visitar a paciente agora, se quiserem. Ritsu: Se puder mostrar o caminho... O médico então acompanha Sakura e Ritsu até um dos quartos, onde Rina estava acomodada numa cama. Haviam mais cinco camas naquele lugar, todas ocupadas por pacientes, alguns deles também recebendo visita de parentes e amigos. O médico explica as meninas a situação atual e os procedimentos que estavam sendo adotados para tratar a paciente. Apesar de um pouco abalada, Ritsu se mantém firme. Após o fim da explicação, o médico se retira. Sakura (colocando a mão no ombro de Ritsu): Vai ficar tudo bem. Ritsu: Obrigada. Sakura: Eu vou deixar vocês a sós. Se precisar de qualquer coisa, vou estar na sala de espera. Sakura deixa o quarto e fecha a porta silenciosamente. No caminho de volta para a sala de espera, a herdeira de Clow sente uma presença estranha. Ela pára e olha ao redor, tentando identificar a origem. “Isso parece ser magia do caos, mas esta dificil determinar a origem. Será que é a manifestação do medo de alguém?” Sakura caminha lentamente até uma porta a sua esquerda e a abre com cuidado. A tensão gera algumas gotas de súor em seu rosto. Sakura (murmurando): É só um armário de vassouras... não tem nada demais aqui... Naoko: Algo errado, Sakura? Sakura: Ahhhhhh! Sakura leva um susto, tropeça na própria perna e acaba caindo no chão. Naoko prontamente se move para ajudar a amiga. Naoko: Sakura, você está bem? Sakura: Naoko? Ah. Estou bem. Não foi nada. Naoko: Desculpa. Eu não queria assustá-la. Sakura: Não foi sua culpa. Eu é que estava distraída demais. Naoko (ajeitando os óculos): O que você estava olhando? Sakura: Eu? Bem... Sakura olha novamente para o armário de vassouras. Não conseguia mais sentir nenhum resquício da presença mágica. Sakura (sorrindo sem graça): Eu pensei ter ouvido algo se mexendo ali dentro. Mas eu me enganei. Naoko: Acho que todo mundo está meio assustado com tudo o que está acontecendo, não é? Sakura: Verdade... e você, Naoko? O que está fazendo aqui? Veio visitar a Rika? Naoko: Sim. Chiharu, Kazuko e Yamazaki estão aqui também. Eu marquei com eles para fazer uma visita em grupo. A policia recomendou que as pessoas não saiam nas ruas até que a situação se acalme, então ficamos por aqui mesmo. Enquanto conversam, Sakura e Naoko começam a caminhar pelos corredores. Naoko: Eu deixei o pessoal no quarto e vim buscar algumas bebidas. Você veio visitar a Rika também? Sakura: Uma das minhas colegas do clube de atletismo teve o mesmo problema que a Rika e tivemos que trazê-la para cá as pressas. Naoko: Coitada. Tomara que ela fique bem. Sakura: Com certeza ela vai ficar bem. E a Rika também. As duas meninas viram a esquerda num corredor e se deparam com dois médicos cochichando. Estavam segurando latas de refrigerante que haviam acabado de comprar de uma máquina de bebidas. Ao se aproximarem, Sakura e Naoko acabam ouvindo um trecho da conversa dos médicos. Médico 1: ... mais de 100 casos, pelo que sei. Médico 2: Tudo isso? Não é para menos que o supervisor estava agitado. Médico 1: Você ouviu os boatos? As coisas que andam dizendo sobre essa doença misteriosa? Médico 2: Que tem alguma espécie de criatura se alimentando do medo das pessoas? Isso é besteira. Médico 1: Mas várias testemunhas disseram ter visto criaturas bizarras antes das pessoas entrarem em coma... sapos, abelhas, aranhas, gatos, morcegos e até coelhos. E se a criatura que se alimenta do medo puder mudar de forma? Médico 2 (fechando o punho): Nós não estamos num filme de terror. Isso é apenas fruto de alucinação coletiva. As mentes dessas pessoas entram num stress enorme por causa de suas fobias e elas acabam em coma. Só gostaria de descobrir logo um jeito de reverter o estado das vítimas... Médico 1: No ritmo que a situação está se agravando, não vai demorar muito para o governo declarar oficialmente que estamos no meio de uma epidemia... Ao notar a chegada de Sakura e Naoko, os médicos se calam rapidamente. Estava claro que não queriam que mais ninguém ouvisse sua conversa. Assim que os médicos seguem seu caminho, Naoko começa a comprar algumas bebidas. Sakura, pensativa, observa as ações de sua amiga silenciosamente. Naoko: Você acredita nisso? Sakura: Hoe? Acreditar em que? Naoko: Nos boatos sobre a “doença do medo”. Você acha que são verdadeiros? Sakura: Ah. Eu não sei... parece... hã... fantasioso demais, não é? Naoko: Uma criatura se alimentando do medo das pessoas? Parece um conto de terror. Mas não consigo parar de pensar que talvez tenha um pouco de verdade nos boatos. Sakura: Como assim? Naoko: A criatura deve ter uma forma original antes de se modificar para assustar os outros. Algumas pessoas disseram ter visto um coelho, então talvez... Sakura: Um coelho? Mas por que um coelho? Coelhos não são assustadores. Naoko empilha as latas de refrigerante em seus braços após rejeitar a ajuda de Sakura com um aceno. Naoko: É verdade que existem animais historicamente mais ligados ao medo, mas o coelho também tem alguma relação. Já li alguns livros sobre o assunto. Se bem me lembro, algumas tribos norte-americanas consideravam o coelho, dentre todos os animais, o mais apropriado para ser um avatar do medo, devido a uma suposta habilidade natural de servir de chamariz para o medo. Sakura: Chamariz? Naoko: É. Algo para atrair todo o medo e temor para um só lugar. Sakura: Então essa criatura misteriosa que se alimenta do medo seria um coelho? Naoko: Bom... eu não sou nenhuma detetive, mas esse seria meu palpite. O coelho foi o único animal visto mais de uma vez. Até mesmo a Kazuko disse ter visto um. Sakura: A Kazuko? Naoko: É. Ela testemunhou um desses incidentes que deixam as pessoas em coma e disse que, por um momento, pensou ter visto um coelho branco de olhos vermelhos... Sakura (com a mão no queixo): Um coelho branco de olhos vermelhos...“Peraí! Coelho de olhos vermelhos? Eu já vi um desses! Será que ...?” Naoko: De qualquer forma, não adianta nada ficar pensando muito nisso. Não há nada que podemos fazer além de rezar. Sakura: Verdade... Naoko: Bem... eu vou voltar lá para o quarto. O pessoal está me esperando. Sakura: Eu vou passar lá depois. Primeiro eu tenho que ver as minhas outras colegas de clube. Naoko: Ok. Até mais. Naoko dá meia-volta e segue por um corredor a direita. Sakura se recosta numa parede.“Será que eu estou certa? Será que aquele coelho ...?” Sakura ouve gritos. Buscando a origem, a herdeira de Clow acaba indo parar num quarto no fim de um corredor. O lugar estava em chamas. Haviam duas meninas, uma loira e outra morena, caídas no chão junto a entrada, na parte interna do quarto. Ambas tremiam absurdamente. Um senhor segurava um casaco e o batia seguidamente no chão. Suas tentativas de impedir o avanço das chamas não estavam surtindo efeito. Uma senhora e um menino estavam arrastando as camas com os pacientes para o fundo do quarto, tentando protegê-los do fogo. Segurança: Saia da frente! Sakura é posta de lado quando um segurança e um médico invadem o quarto segurando extintores. Eles se esforçam para extinguir as chamas, mas elas continuam a devorar o quarto. Segurança: De onde surgiu todo esse fogo? Senhor: Não vamos conseguir! Médico: Temos que tirar os pacientes! As chamas aumentam e se movem em direção aos pacientes. Sakura (segurando uma carta mágica com a mão direita): VENTO! Uma série de rajadas de vento varre o quarto, batalhando com as chamas. A força dos ventos acaba derrubando os homens e arrastando móveis, mas surte o efeito desejado. Assim que o fogo é apagado, Sakura rapidamente guarda sua carta mágica antes que as outras pessoas notem. Sakura (suspirando): Ufa. Essa foi por pouco. Menina: Socorro! Socorro! Sakura nota que a menina loira estava desacordada nos braços da menina morena. Menina: Ela não está abrindo os olhos! Por favor, me ajudem! O médico rapidamente se aproxima para checar a menina. Médico: Parece que temos mais um caso aqui... Sakura dá dois passos para trás. As pessoas no quarto estavam atordoadas e não a haviam notado na entrada.“Medo de fogo... ela provavelmente tinha de medo de fogo... eu salvei os outros, mas a coitada foi levada...” Repentinamente Sakura sente estar sendo observada e se vira. Repousando no beiral de uma janela aberta, havia um coelho branco, seus olhos vermelhos emanando um leve brilho. Sakura (surpresa): Você! O coelho se levanta e salta pela janela, ignorando o risco que corria naquela altura do prédio. Sakura: Espera! Sakura pega a chave mágica em sua mão direita. Sakura: LIBERTE-SE! O báculo mágico surge onde antes estava a chave mágica. Sem pensar duas vezes, Sakura saca uma de suas cartas mágicas e se joga pela janela. Sakura: ALADA! Duas grandes asas brancas surgem nas costas de Sakura, impulsionando pelo ar. A herdeira de Clow alça vôo em perseguição ao misterioso coelho, que, de alguma forma, conseguia correr pelas paredes, dando saltos de vez em quando para aumentar a distância. Ambos moviam-se em zigue-zague, as vezes subindo alguns andares, as vezes descendo. A maioria das janelas dos quartos estavam fechadas por causa da chuva, mas havia algumas exceções. Num dos quartos, um menino estava debruçado na janela quando o coelho passa bem na sua frente como um raio. Menino: Mamãe! Mamãe! Um coelho passou correndo pela janela! Senhora (dando um tapa na nuca no menino): Quantas vezes já disse para você parar de contar mentiras? Não tem como nada passar pela nossa janela no andar em que estamos. Ele teria que voar ou... A senhora pára de falar quando uma garota com asas passa voando pela janela. Ela acaba deixando o copo de café que segurava cair no chão. Um sorriso triunfante surge no rosto do menino. Menino: Acredita em mim agora? O coelho alcança uma varanda onde havia alguns tapumes e materiais de obra. Ambas as extremidades da varanda estavam em manutenção, sendo separados do resto do ambiente por segurança. O coelho pousa sobre uma pilha de sacos de areia e balança o rabo, como se desafiasse Sakura a pegá-lo. A herdeira de Clow desfaz suas asas e pousa na varanda, mas acaba escorregando no piso molhado pela chuva e colidindo com alguns baldes virados. Sakura (passando a mão na cabeça dolorida): Ai, ai, ai. Isso dói... Assim que se levanta, Sakura nota que o coelho sumira de vista. Esquadrinhando o local, a herdeira de Clow nota que um dos tapumes que formavam a cerca para a àrea em obras estava meio solto, deixando uma pequena brecha. Sakura: Coelhinho bonitinho? Cadê você? Eu só quero conversar um pouquinho e dividir umas cenourinhas... que tal? Sakura passa rastejando pela brecha na cerca e dá uma olhada ao redor, não encontrando sinal do animal. Assim que a menina se levanta, nota algo vindo em sua direção e se defende com seu báculo mágico por reflexo. Após o som metálico do impacto, Sakura rapidamente se afasta alguns passos para ver quem a havia atacado. Em pé sobre o beiral da varanda havia uma menina de cabelos azuis, usando um uniforme escolar vermelho e preto. Sua postura excepcional lhe concedia o equilibrio perfeito. A menina gira a lança que carregava no ar, posteriormente apontando-a ameaçadoramente para seu alvo. Sakura já conhecia bem aquele sorriso confiante. Sakura: Hikari. Hikari: Já devia imaginar que a encontraria por aqui, não é, Sakura Kinomoto? Sakura coloca a mão no bolso, mentalmente já elaborando uma estratégia de defesa caso fosse atacada. Hikari Kamiya começa a caminhar pelo beiral. Se tinha algum medo de cair daquela altura, estava o escondendo muito bem. Hikari: Você é mais esperta do que eu pensei. Descobriu o truque de Phobos para se manifestar em nosso mundo... Sakura: ... Hikari: Mas não se engane. Eu vou capturar a besta do desespero e tomar seu poder para mim. Sakura: Você sabe que isso não é possivel, Hikari. Da última vez que você tentou usar magia do caos para se fortalecer, quase terminou em tragédia... Hikari: Confesso que cometi um deslize no caso de Belial, mas já aprendi com meu erro. Dessa vez tenho um plano infalível... e você não vai ficar em meu caminho... DRAGÃO DO FOGO, OBEDEÇA AO MEU COMANDO! Uma rajada de fogo irrompe da lança mágica e ruma em direção a Sakura. No caminho, entretanto, acaba sendo refletida por uma criatura alada que havia acabado de surgir. Sakura: Kero! O guardião, em sua forma completa, havia pousado entre sua mestra e Hikari. Hikari: Então seu reforço chegou... Kero: Quem é essa garota? Sakura: O nome dela é Hikari Kamiya. Kero: Kamiya? Onde já ouvi esse nome antes ...? Sakura: O Shaoran me disse uma vez que a familia dela tentou dominar a magia do caos e os Anciões os baniram por causa disso. Hikari: Aqueles tolos mancharam o nome do Clã Kamiya e acabaram com minha familia. Meu pai foi preso, minha mãe foi levada a loucura por torturas horriveis, minha avó morreu envenenada, cada membro de minha familia teve um destino trágico. Mas eu, a última sobrevivente, vou provar que estávamos certos. A magia do caos pode ser controlada e seu poder pode ser utilizado para coisas boas. Kero: Nunca ouvi tanta besteira antes. Hikari (uma veia saltando na testa): Como é? Kero (falando com um tom zombeteiro): É óbvio que não é possivel controlar por completo a magia do caos. Todos que tentaram morreram ou coisa pior. Você é tão bobinha... Hikari: Ora, seu... Kero: ... e usar magia do caos para coisas boas? Faça-me o favor. Ela é, por definição, feita de energia negativa. Nada de bom pode sair dali. Só o fato de você brincar com esse tipo de magia já causa efeitos terriveis em seu corpo, mente e alma. Hikari dá uma gargalhada. Hikari: Isso é o que aqueles velhos gagás querem que todos acreditem. Minha familia descobriu a verdade, por isso fomos caçados e humilhados. Sakura: Que verdade? Hikari: Que houve uma pessoa que conseguiu. Houve uma pessoa que controlou a magia do caos com sucesso, sem sofrer nenhum dano colateral. Mas aqueles velhos ficaram com medo do poder que essa pessoa teria e sumiram com ela. Kero: Não tem como isso ser verdade. Um fato dessa importância com certeza estaria registrado nos livros de história. Hikari: Vocês não tem idéia do modo de agir dos Anciões, não é? Se você está no caminho deles, eles acabam com você sem deixar vestígios. Se eles não podiam ter o poder da magia do caos, então ninguém mais poderia ter. Kero: Eu não sei quem colocou essas idéias malucas na sua cabeça, mas você tem que parar com isso antes que se machuque ou machuque alguém. Hikari: Eu vou parar quando eu conseguir mostrar a todos a verdade! Eu vou ter o poder de Phobos de qualquer jeito! Sakura: Eu não posso deixar! Tem pessoas inocentes sofrendo e você só vai piorar as coisas! Sakura e Kero se colocam em posição de combate. Hikari: Sinto muito, mas não tenho tempo a perder com vocês... Dragão da água, obedeça ao meu comando! Um poderoso jato d’água emerge do chão, aproveitando-se e mesclando-se com a água da chuva, e arremessa Sakura e Kero contra os tapumes. Hikari coloca a lança mágica nos ombros e acena para Sakura. Hikari: Não se preocupe. Vou libertar a todos quando capturar Phobos. Então, inesperadamente, Hikari salta do beiral. Sakura: Hikari! Sakura reage rápido, corre até o beiral e olha para baixo, mas não vê nenhum sinal de Hikari. A menina havia desaparecido por completo. Ela era muito boa em sair de cena. Sakura, então, resolve verificar seu companheiro guardião. Sakura: Você está ferido, Kero? Kero: Só o meu orgulho. Aquela pirralha conseguiu me acertar de jeito. Kero volta a sua identidade falsa e passa a ficar flutuando próximo a sua mestra. Kero: Ela acha mesmo que pode pegar Phobos? Nem sabemos onde ele está. Sakura: Ele está aqui no hospital. Kero: O que? Como você sabe? Sakura (falando rapidamente): Eu acho que ele é um coelho... ou está num coelho... uma conversa com a Naoko me deu essa idéia... eu queria confirmar, mas não consegui entrar em contato com ninguém... nem sei se o Shaoran está bem... queria saber se minha intuição está certa... se um animal pode guardar a essência de Phobos da mesma forma que uma jóia guardava a essência de Belial... Kero: Epa! Devagar senão não consigo acompanhar. Sakura: Não. Não temos tempo. Temos que pegar o coelho. Ele não era normal e é nossa única pist... RING. RING. RING. A conversa é interrompida pelo toque do celular de Sakura. Ela fica aliviada ao ver nome na tela do aparelho. Sakura: Shaoran! ENQUANTO ISSO, NAS RUAS DE TOMOEDA Yue conjura um arco feito de luz e dispara três flechas mágicas. Os alvos eram dois gorilas de pêlo vermelho que estava atacando uma casa. Os primatas desviam das flechas e batem no peito, emitindo um urro vitorioso. Mas a vitória havia sido comemorada muito cedo. As flechas mudam sua trajetória em pleno ar e atingem os gorilas pelas costas. Os dois animais urram de dor e se desfazem numa nuvem de poeira. Shaoran: Yue! O guardião olha ao redor e nota que Shaoran estava de pé no telhado de uma casa. Yue logo toma a iniciativa de flutuar até ele. Yue: Acredito que consegui atrasá-los por hora, mas essas criaturas continuam aparecendo. Alguma sorte? Shaoran: Eu finalmente consegui sinal com o celular. Tem alguma espécie de interferência atrapalhando muito.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói! Sakura: Pronto. A sala está lacrada. Isso deve proteger a Naoko por enquanto. A Naoko disse que tinha mais gente por aqui, mas quantas pessoas seriam? Será que todos do hospital vieram parar neste lugar estranho? Será que todos os meus amigos estão perdidos por aí? Bem, isso não importa, não é? Eu vou ajudar todos eles... Sakura observa o corredor a sua frente, onde havia uma interseção que permitia dobrar a direita ou a esquerda. Sakura: Talvez seja melhor achar o Kero primeiro... ele pode me dar uma idéia de como tirar todos daqui em segurança. Após dar uma última olhada na porta dupla, Sakura volta a andar. Ela escolhe dobrar a direita no fim do corredor. Minutos mais tarde, a herdeira de Clow chega a uma das salas de espera. Metade do lugar estava destruído, as marcas no chão e nas paredes dando a impressão de uma mordida. Se algum bicho era grande o bastante para comer metade de uma sala, Sakura definitivamente não queria dar de cara com ele. Apesar da destruição, ainda não dava para ver o exterior. Através da parte aberta da sala de espera era possível notar uma caverna gigantesca, onde haviam nuvens avermelhadas e espessas se amontoando e se movendo lentamente junto ao teto. Sakura podia jurar que aquilo era um sinal de que estava para chover.“Uma tempestade dentro de uma caverna?” A herdeira de Clow dá uma boa olhada pela sala de espera e nota que alguns assentos estavam ocupados. O clarão de um trovão ilumina o ambiente e revela que os ocupantes não eram pessoas e sim esqueletos. Sakura: AHHHHHHHHH! Sakura não queria saber se os esqueletos eram verdadeiros ou não. Suas pernas apenas exigiram sair daquele local e a menina obedeceu sem pestanejar. Sakura corre de volta para a interseção, desta vez pegando o caminho à esquerda. Este corredor era mais sinuoso e desembocava numa escadaria cujo fim não era visível de onde Sakura estava. A menina começa a descer lentamente, procurando ficar atenta a qualquer perigo, e nota que os degraus estavam parcialmente cobertos por uma estranha neblina. Haviam correntes enferrujadas penduradas a meia altura que serviam de substitutas para um corrimão. Nas paredes estavam pregadas aleatoriamente pranchetas com dados médicos de pacientes do hospital. Sakura pára no meio do caminho, olhando ao redor. Havia ouvido risadas ao longe. Sakura: Q-quem está aí? Sakura aguarda alguns instantes, mas não ouve mais nenhum ruído. A sensação de estar rumando para algum tipo de armadilha era forte, mas ela não podia ficar parada esperando tudo se resolver. Sakura decide prosseguir a descida e finalmente encontra uma saída iluminada por duas tochas. Após sair, ela nota que mais uma vez o ambiente do hospital se mesclava com um terreno estranho. Dessa vez se deparara com uma floresta não muito densa envolvida em neblina, aparentemente a mesma que estava na escadaria. Uma suave brisa, que não era capaz de dissipar a neblina, carregava as folhas vermelhas das árvores pelo ar. Havia um caminho de pedras que descia uma colina até uma cerca de madeira apodrecida amarrada com arame farpado. Quando Sakura desce a colina e pára diante de um arco de pedras de cerca de três metros de altura, ela sente seus joelhos tremerem violentamente. Estava diante de um cemitério. Sakura: Por que tinha que ser logo um cemitério? Sakura fica pálida quando um fantasma segurando uma casquinha de sorvete passa voando por entre as lápides como se estivesse passeando numa praça. A herdeira de Clow estava preparada para dar meia-volta e procurar outro caminho, quando vê um brilho que lhe chama a atenção. Havia um objeto fincado no terreno arenoso junto a uma lápide não muito longe da entrada do cemitério. Tratava-se de uma lança cujo cabo tinha o desenho de um dragão e cuja lâmina possuia vários símbolos chineses entalhados. Sakura: A lança mágica da Hikari. A última representante do Clã Kamiya certamente estava com problemas. Respirando bem fundo e reunindo toda a coragem que podia, Sakura entra no cemitério.(CONTINUA)
Notas finais
Esta aí mais uma parte desse capítulo aterrorizante...
Olá, pessoal. Há quanto tempo, hein?
Após um tempo afastado, estou retomando minhas histórias. Não sei com que frequência vou poder postar, mas com certeza vou terminar as fanfics que comecei, em especial essa que é a minha favorita.
Enquanto revisava (e re-escrevia alguns trechos) esta que seria a última parte deste capítulo, acabei percebendo que ele tinha ficado grande demais (as palavras se multiplicaram sem eu perceber!!!). Então, no fim das contas, tive que dividí-lo em dois. A batalha entre Sakura e Phobos e a revelação / pista sobre a identidade do hospedeiro acabaram ficando para a próxima e última parte do capítulo (cuja revisão já está na metade ^^).
Para quem já acompanhava a história e para aqueles que possam vir a acompanhar, desde já agradeço.
Espero que se divirtam com a leitura tanto quanto eu me divirto escrevendo e que possamos nos encontrar de novo nos próximos capitulos.
Até a próxima ^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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