Card Master Sakura

21 Capítulo 13 - A estranha perfeita (PT3)


Notas iniciais
A busca por Chiho começa! E Sakura se vê num dilema!


(CONTINUANDO)

Shaoran: Sakura?


A escuridão vai se desfazendo aos poucos. Sakura abre seus olhos lentamente e percebe que está no topo de uma montanha.

Sakura: Onde eu estou?

Sakura se põe de pé e olha ao redor. Não conhecia aquele lugar. Não sabia como havia ido parar ali.

Shaoran: Finalmente te achei.

Shaoran Li surge do meio um matagal e caminha em direção a Sakura, parando diante dela.

Sakura (coçando a cabeça, confusa): Shaoran? O que está acontecendo? Onde nós estamos? Não consigo me lembrar o que aconteceu...
Shaoran: Ela está aqui!

O grito repentino de Shaoran parecia um alerta para alguém. Dezenas de pessoas surgem do matagal e se agrupam logo atrás do garoto chinês. Sakura reconhece alguns rostos em meio a multidão.

Sakura: Papai? Touya? Por que estão aqui?

Sem resposta. Todos ficam apenas encarando Sakura.

Sakura: Vocês estavam me procurando? Eu estava desaparecida? Reuniram todas essas pessoas para me procurar?

Nada de respostas. Sakura dá uma boa olhada no grupo de pessoas a encarando.

Sakura: Por que só tem homens aqui? Onde estão a Tomoyo e a Meiling? Onde estão minhas amigas?

Uma vez mais, ninguém responde Sakura. Isso começa a deixar a garota assustada.

Sakura: Por que ninguém me responde? O que estão esperando?
Shaoran: Estamos esperando nossas próximas ordens.

Shaoran olha para cima. Sakura segue o olhar do chinês e nota que havia um vulto flutuando alguns metros acima deles. Era dificil dizer, mas parecia ser uma mulher.

Sakura: Quem é você?

A mulher não responde, se limitando a um sorriso. Então o sorriso vai se transformando aos poucos e a mulher começa a gargalhar loucamente. Receosa, Sakura dá um passo para trás e nota, pela primeira vez, que estava à beira de um precipicio, um daqueles bem fundos cujo fim nunca está visivel. Sakura olha novamente para a mulher.

Sakura: O que você quer?

Sakura nota que Shaoran estava agora bem mais próximo a ela. Os rostos estavam a milimetros de distância e a menina podia sentir a respiração do chinês atingir o seu rosto. Mas o que mais lhe chamou a atenção foram os olhos. Os olhos de Shaoran pareciam vazios e sem vida.

Sakura: S-shaoran?

As duas mãos do chinês estavam no peito de Sakura.

Sakura: S-shaoran? O-o q-que está f-fazendo?

Sakura fica atônita quando Shaoran a empurra. A menina se vê em queda livre, o coração batendo acelerado seguindo o ritmo do terror. Na beirada do precipicio haviam dezenas de olhos a observando, dezenas de olhos vazios e sem expressão. A estranha mulher desce até Shaoran e o abraça por trás enquanto brinca com os cabelos do garoto chinês. Desesperada, Sakura procura pela chave mágica, mas seu cordão havia desaparecido.

Sakura (lágrimas escorrendo no rosto): Não! Não! Não!

Todos aqueles olhos vão ficando cada vez mais distantes. Sakura sente a escuridão do precipicio a envolvendo.

Sakura: Não! Não! Não!

Sakura estende seu braço tentando inutilmente se agarrar em alguma coisa. Então, mais uma vez, a menina se vê engolida pela escuridão. Uma escuridão fria e silenciosa, quebrada apenas por uma voz assustadora.

— Eu vou roubar ele, vou roubar todos eles. Todos farão parte de meu exército, serão meus escravos eternos. E não há nada que você possa fazer para impedir.

Sakura: NÃÃÃOOOOOOOOO!

Sakura se levanta assustada e suando frio. Seu coração batia acelerado e parecia que ia saltar do peito. Ela logo percebe que estava em um dos leitos da enfermaria da escola. O lugar estava silencioso e a cortina da janela tremulava guiada pelo vento que refrescava um pouco aquela tarde de verão.

Tomoyo: Sakura?

Sakura nota que sua melhor amiga Tomoyo estava sentada ao lado de sua cama. Olhava para ela com um semblante preocupado.

Tomoyo (abraçando Sakura): Sakura, você está bem? Está sentindo alguma coisa?
Sakura: Eu estou bem. O que aconteceu?
Tomoyo: Você desmaiou e caiu na água. Deu o maior susto em todo mundo. Estava morrendo de preocupação.

Sakura se senta na cama.

Sakura: Quanto tempo eu desmaiei?
Tomoyo: Mais de uma hora. O sinal do fim das aulas soou há alguns minutos.

Sakura dá mais uma olhada na enfermaria.

Sakura: A senhora Haruno está por aqui?
Tomoyo: Não. Ela saiu para ajudar a professora Akazawa em alguma coisa. Na verdade, já era para ela ter voltado... Por que você parece tão agitada?

Sakura desce da cama.

Tomoyo: O que você está fazendo? Você devia repousar mais! Seu irmão já deve estar chegando para te levar ao médico. Eu já liguei para ele.
Sakura: Não tenho tempo para isso...

Sakura nota que ainda estava usando o maiô escolar e que estava enrolada numa toalha. Não podia sair na rua nesses trajes.

Sakura: Onde estão minhas roupas?
Tomoyo: Ainda devem estar no vestiário. Nós ficamos preocupados e trouxemos você às pressas para a enfermaria... a enfermeira fez um exame e não constatou nada de errado, mas recomendou deixá-la repousando...
Sakura: Hmmm... Isso aqui vai ter que servir por enquanto.

Sakura pega um dos jalecos brancos que a senhora Haruno usava em seu dia-a-dia de trabalho e o veste. O jaleco era um pouco grande para ela e ia até a altura de seu joelho.

Tomoyo: Sakura... você está me escutando? Onde você está indo?

Sakura abraça Tomoyo com força.

Sakura: Ele está em perigo, Tomoyo... ele precisa de mim!
Tomoyo: O que? Do que você está falando? Quem esta em perigo?
Sakura (algumas poucas lágrimas nos olhos): O Shaoran! O Shaoran precisa de mim!
Tomoyo: O que?

Sakura abre a porta e sai correndo.

Tomoyo: Sakura! Espera!

Sakura começa a correr pela escola à procura do namorado. Ela verifica locais onde ele poderia estar, como a sala de aula e o refeitório, por exemplo. Após alguns minutos de procura, Sakura pára em frente a entrada do auditório para recuperar o fôlego.

Sakura: Ele não está em nenhum lugar... a escola está vazia...
Tomoyo: SAKURA!

Tomoyo vinha correndo após fazer a curva do inicio do corredor. Ela pára diante de Sakura, respirando com muita dificuldade.

Sakura: Tomoyo! Você está bem?
Tomoyo: Só fiquei... fiquei um pouco sem ar... por que saiu correndo? De que perigo você está falando?
Sakura: Eu preciso achar o Shaoran! A Chiho... ela vai fazer algo ruim com ele!
Tomoyo: A Chiho? Você tem certeza que não estava só sonhando?

Sakura balança a cabeça freneticamente.

Sakura: Não era sonho. Eu desmaiei porque fui atacada com magia do caos!
Tomoyo: Então você está dizendo...
Sakura: A Chiho não é quem diz ser! Ela tem alguma ligação com a magia do caos!
Tomoyo: Essa não...

Sakura coloca as duas mãos nos ombros de Tomoyo.

Sakura: Onde está o Shaoran? Por que não passei por ninguém nos corredores da escola? Onde estão todos?
Tomoyo: E-eu... eu não sei... fiquei o tempo todo com você na enfermaria...
Sakura: Eu preciso achá-lo de alguma forma...
Tomoyo (colocando a mão no queixo): Talvez você possa pedir ajuda ao Kero ou ao Eriol...

As duas meninas páram de falar ao notar algumas vozes vindo do auditório.

Tomoyo: Parece que ainda tem gente na escola...
Sakura: Vamos lá ver.

Sakura e Tomoyo passam pela porta semi-aberta do auditório e se surpreendem com o que vêem. Dezenas de meninas de variadas turmas da escola estavam reunidas ali, discutindo efusivamente. Havia algumas professoras tentando acalmar os ânimos, entre elas a professora-assistente Akazawa.

Mika: Nós não podemos ficar aqui paradas! Temos que fazer alguma coisa!
Ayu: E o que você sugere, patricinha?
Rika: Nós devíamos avisar a polícia! Aquilo foi um sequestro!
Naoko: Eu não acho que a polícia vai pensar desse jeito...
Ritsu: Técnicamente não é sequestro se você for sem reclamar...
Professora Akazawa: Por favor, meninas. Eu preciso que todas se acalmem.
Professora Hashimoto: Isso é um problema para adultos.
Senhora Haruno: Vocês devem voltar para suas casas e se manterem longe de problemas.

Rika se põe a frente das outras alunas.

Rika: Como podemos fazer isso? A maioria de nós tem parentes ou pessoas amadas que sumiram!
Mika: Nós não podemos ignorar isso!
Todas: É isso mesmo!

Sakura enxerga Jun, sua colega de clube, um pouco mais afastada da confusão. Ela estava sentada num banco, se entretendo com um celular.

Sakura: Misaka!

A menina lentamente ergue a cabeça e nota a presença de Sakura e Tomoyo.

Jun (acenando): Olá, Kinomoto. Olá, menina-bonita-que-eu-não-conheço.
Sakura (apontando para Tomoyo): Essa é minha melhor amiga e colega de classe Tomoyo Daidouji.
Tomoyo (fazendo uma breve reverência): Muito prazer.
Jun: Prazer. Eu sou Jun Misaka, colega de clube da Kinomoto. Vocês vieram participar da discussão também?
Sakura: Na verdade queremos saber o que está acontecendo.
Jun: Bem... todos que estão aqui querem saber a mesma coisa.
Tomoyo: Acho que você não entendeu... a Sakura sofreu um acidente durante a aula de natação...

Jun se levanta abruptamente e começa a andar ao redor de Sakura, procurando por ferimentos.

Jun: Acidente? Você está bem? Se machucou?
Sakura (gesticulando para acalmar a amiga): Calma, calma. Eu estou legal. Foi só um susto.
Jun (suspirando, aliviada): Ufa. Ainda bem.
Tomoyo: A Sakura foi parar na enfermaria por precaução e eu fiquei com ela. Não sabemos o que aconteceu na escola porque ficamos lá dentro o tempo todo.
Jun: Ah. Então vocês estão por fora do babado.
Sakura: Que babado?

Jun começa a brincar com o celular, jogando-o de uma mão para outra.

Jun: Sabem a garota nova que levou a pior na briga no refeitório? Aquela loira?
Tomoyo: Nós sabemos quem é. O nome dela é Chiho Nanasaki. Ela é da nossa turma.
Jun: Wow. Mundo pequeno. Bem... essa Nanasaki aparentemente abduziu todos os homens da escola.
Sakura: O que?
Jun: Bizarro, não é? Eu não acreditaria se não tivesse visto com meus próprios olhos.
Sakura: O que exatamente você viu?
Jun: Eu estava no pátio esperando a Sanehara para pregar uma peç... para pagar um sorvete para ela quando aconteceu. A Nanasaki abriu a porta do prédio principal e saiu caminhando com um ar superior. Até aí tudo bem, toda escola sempre tem uma patricinha. O problema é que atrás dela sairam todos, e eu realmente quero dizer todos, os homens que estavam na escola, misturando professores, funcionários e alunos.
Tomoyo: Todos?
Jun (confirmando com um aceno de cabeça): Todos. E pareciam estar meio que hipnotizados ou no modo zumbi. Algumas garotas tentavam pará-los ou conversar com eles e eram simplesmente ignoradas.
Tomoyo: Que estranho...
Jun: A professora Akazawa também tentou pará-los, mas não conseguiu. Ela disse algo sobre círculo de proteção, benzer espíritos, algo do gênero.
Tomoyo: É bem a cara dela mesmo...
Sakura: E eles saíram da escola?
Jun: Saíram sim.
Sakura: E para onde foram? Você conseguiu ver?
Jun: Eu acho que estavam indo rumo ao centro comercial... desde então todo mundo está reunido aqui tentando decidir o que fazer...

Sakura abraça Jun, que parece um pouco confusa.

Sakura: Obrigada pela ajuda, Misaka.

Jun bate continência e sorri.

Jun: Sem problemas. Sempre às ordens, Kinomoto.

As três meninas ouvem o som de algo se partindo. Elas olham para baixo e notam que Jun acidentalmente deixara o celular cair no chão. A queda despedaça o aparelho, que tem algumas de suas partes espalhadas pelo chão.

Ayu: MISAKA!

Jun fica pálida, mais branca que uma folha de papel. Ela gira a cabeça lentamente apenas para ver que Ayu Sakagami estava vindo na direção dela.

Tomoyo: O que foi?
Jun: Isso não é bom...
Ayu: Onde você colocou meu celular?

Jun olha do celular despedaçado para a cada vez mais próxima Ayu. A capitã olha, horrorizada, para o aparelho despedaçado no chão.

Jun (colocando a mão no ouvido): Ouviram isso?
Sakura: O que?
Jun: Minha mãe está me chamando. Tchauzinho.

Jun dispara rumo a saída. Ayu recolhe o que sobrou do seu celular coloca no bolso de sua saia.

Ayu: MISAKAAAAAAAAAA!

Ayu sai correndo atrás de Jun, os punhos cerrados girando no ar.

Tomoyo: Elas tem muita energia, não é?
Sakura: Temos que ir.

Sakura puxa Tomoyo pela mão e as duas voltam a correr pela escola. Minutos mais tarde, elas acabam no vestiário feminino do ginásio aquático. Sakura abre seu armário e pega sua mochila. Tomoyo se senta num banco e fica assistindo Sakura vestir seu uniforme apressadamente por cima do maiô.

Tomoyo: Então a Nanasaki realmente tem algo a ver com o sumiço de todos... mas ela parecia ser só uma garota normal, como ela pode controlar todos os garotos da escola?
Sakura: Eu acho que ela está usando magia do caos para hipnotizar as pessoas. Só não entendo como ela faz isso...
Kero: Ela deve estar possuída.
Sakura: Hoeeeee!

Sakura dá um pulo de susto. Ela nota que Kero, um de seus guardiões, havia entrado pela pequena janela retangular do vestiário. A herdeira de Clow corre até a porta do vestiário e trata de trancá-la.

Sakura: Kero! O que está fazendo aqui? Alguém pode te ver!
Kero: Eu senti sua magia diminuir vertiginosamente e fiquei precupado. O que aconteceu com você?
Sakura: Eu não sei explicar direito... eu estava na piscina, então senti algo no meu peito... senti meu corpo ficar fraco, como se eu estivesse usando muita magia... mas eu não estava fazendo nenhum feitiço...
Tomoyo: Então ela desmaiou e caiu na piscina.
Sakura: E eu tenho certeza que é tudo culpa da menina nova que se transferiu para nossa escola!

Kero ouve o relato atentamente, os olhos fechados e o semblante pensativo.

Kero: Você provavelmente estava sendo atacada sem saber, Sakura. Seu corpo se protegeu instintivamente do ataque e consumiu sua magia.
Sakura: É possivel fazer esse tipo de coisa?
Kero: Sim, mas apenas os mais poderosos magos conseguem usar esse recurso com perfeição.
Tomoyo (olhando preocupada para a amiga): Eu acho que ela devia descansar mais para se recuperar...
Sakura: Eu estou bem, Tomoyo. É sério.
Kero (fazendo pose): Não precisa se preocupar, Tomoyo. Sinto que a magia de Sakura já está bem recuperada. E também... eu estou aqui para protegê-la agora!
Sakura: Você pode nos ajudar a entender o que está acontecendo, Kero?
Kero: Eu posso apenas supor... mas para controlar pessoas desse jeito com certeza seria necessário uma fonte de magia do caos muito poderosa...
Tomoyo: Você falou em possessão...
Kero: Isso. Já vi acontecer antes. Uma pessoa têm contato com algum objeto que contenha uma alma ou parte de uma alma e acaba possuída. A alma assume o controle do corpo e fica livre para fazer o que quiser.
Sakura: Tem certeza que não é nenhuma criatura da magia do caos?
Kero: Tenho. Uma criatura desse porte migrando para nosso mundo chamaria nossa atenção na hora. O mago Clow ergueu uma série de feitiços de verificação para tentar controlar tudo que acessa nosso plano.
Tomoyo: Alguma idéia de qual objeto seria?
Kero: É dificil saber... precisaria de mais detalhes. Dependendo do que for, talvez precisemos da ajuda de Clow.
Tomoyo: Bem... seja o que for, fez com que Chiho Nanasaki hipnotizasse dezenas de pessoas... estranhamente eram apenas homens...
Kero: Hmmm... apenas homens?
Tomoyo: Sim. Ela levou todos embora da escola...
Sakura: Temos que agir rápido! O Shaoran foi levado também!
Kero: O que? O moleque também?
Sakura (cruzando os braços, insatisfeita): Ele não é moleque, Kero.
Kero: Mas tem algo estranho nessa história... se a menina só queria homens, por que ela atacou Sakura?
Tomoyo: Talvez ela tenha visto a Sakura como uma ameaça.
Sakura: Não temos tempo para isso. Temos que procurá-los no centro comercial.
Kero: Eles foram para lá?
Tomoyo: Parece que sim.
Sakura: Kero... por favor, vá na frente e veja se consegue encontrá-los.
Kero: O que? Nem pensar! Eu vim aqui para protegê-la.
Sakura: Por favor, Kero. Eu te imploro. Preciso que você me ajude nisso.
Kero: Mas...

Kero observa o semblante preocupado de Sakura. A herdeira de Clow estava diante de seu guardião, implorando por ajuda quando poderia simplesmente ordenar que ele fizesse algo. Esse era o tipo de pessoa que Sakura era. Após uma certa relutância, ele se dá por vencido.

Kero (suspirando): Está bem. Pode deixar.
Sakura (sorrindo): Muito obrigada, Kero.
Kero: Mas me prometa que vai me avisar se precisar de ajuda.
Tomoyo (mostrando seu celular): Eu avisarei. Pode deixar que eu vou ficar de olho nela.

O guardião voa em direção a janela.

Sakura: Me ligue se encontrar algo.
Kero: Certo.

Sakura observa o guardião desaparecer no horizonte. Então ela se volta para Tomoyo.

Sakura: Nós vamos procurar por terra.
Tomoyo: Conte comigo.

As duas amigas abrem a porta do vestiário e saem correndo rumo ao pátio. Distraídas, elas não notam que Yuriko Yanagisawa estava escondida atrás de uma pilha de pranchas de natação. A garota aparentemente estivera escondida ouvindo toda a conversa.

Yuriko: Possessão? Feitiços? Será que minhas suspeitas estavam certas?

Sakura e Tomoyo correm pelo pátio. Elas dão a volta no ginásio, passam pelas quadras esportivas e chegam a fonte que fica em frente a escola. O lugar estava deserto, visto que todos estavam reunidos no auditório. As duas meninas páram próximo ao portão para recuperar o fôlego antes de prosseguir.

Jun: Para onde você está me levando?

Sakura e Tomoyo percebem que Ayu estava arrastando Jun pela camisa, ambas rumando para o prédio principal da escola. Jun estava se debatendo levemente enquanto era arrastada.

Jun (fazendo uma grande cena): Ei! Kinomoto! Se minha vida acabar hoje, prometa que vai cuidar do meu tamagochi com carinho...
Ayu (puxando a camisa com mais força): Deixa de ser dramática. Só vamos ter uma pequena conversinha sobre ter cuidado com as coisas dos outros...
Jun: Por que você está me olhando com esse olhar maligno?
Ayu (um leve sorriso brotando no rosto): Não sei do que você esta falando.
Jun (agora assustada de verdade): Peraí! Socorro! Alguém me ajuda! Socorrooooooooo...

Então Jun e Ayu desaparecem ao entrarem no prédio.

Tomoyo: Ela vai ficar bem?
Sakura: Não se preocupem. Elas fazem isso o tempo todo.
Tomoyo: Então... onde vamos primeiro?
Sakura: Pensei em começar pela rua principal e ir procurando indo em direção a estação de trem.
Tomoyo: É uma boa idéia. Vou ver se converso com alguns conhecidos e pergunto também. Se a Nanasaki sequestrou todos os homens da escola e marcharam juntos, alguém com certeza viu para onde foram.
Sakura: Então vamos. Não podemos perder tempo, o Shaoran precisa de nós. Não sabemos o que ela pretende fazer com ele.
Amane: O Shao-Shao está com problemas?
Sakura: Hoeeeeeeeee!

Sakura leva um susto e cai sentada no chão. Tomoyo logo se prontifica a ajudar a amiga a se levantar. Amane estava encostada no portão entreaberto da escola.

Sakura: Eu acho que tiraram o dia hoje para me dar sustos... O que você está fazendo aqui, Amane?
Amane: Eu estava esperando o fim das aulas para dar um abraço no meu querido principe... é verdade o que vocês falaram? O Shao-Shao foi sequestrado por uma menina?
Tomoyo: Amane! Você não devia ficar ouvindo a conversa dos outros.
Amane: Eu não fiz de propósito! Estava aqui no portão esperando e de repente vocês duas apareceram e começaram a conversar...

Amane olha de Sakura para Tomoyo, os olhos começando a encher de lágrimas.

Amane: O que aconteceu com o Shao-Shao? Ele está em perigo, não é, nee-chan?
Tomoyo: Hmmm... bem... na verdade...

Tomoyo procura o olhar de Sakura, buscando ajuda no que dizer para Amane.

Amane: Vocês estão indo procurar pelo Shao-Shao, não é, Sakura? Vão salvá-lo dessa garota que falaram?
Sakura: Bem...
Amane: Eu vou também! Quero ajudar!
Tomoyo: Mas Amane...
Amane: Ele é importante para mim também! Por favor, me deixa ajudar!
Sakura: Pode ser perigoso e...
Amane: Se vocês podem ajudar, então eu também posso. Nossa diferença de idade não é tão grande assim... eu não quero abandonar o Shao-Shao... eu quero salvá-lo dessa garota que o levou embora...
Sakura: Amane...
Amane (se ajoelhando): Por favor... por favor... por favor...

Amane começa a chorar, deixando Sakura e Tomoyo completamente sem graça. A menina segura sua tradicional boina contra o peito, as pequenas mãos a apertando com força. As pessoas que passavam na rua observavam a cena com curiosidade. Algumas lançavam olhares de reprovação para Sakura e Tomoyo, como se elas estivessem maltratando Amane.

Sakura (gesticulando para Amane): Tá bom, tá bom. Não precisa chorar assim. Você pode ajudar.
Tomoyo (passando carinhosamente a mão na cabeça da irmã): Sua ajuda será muito bem-vinda. Não precisa mais chorar.
Amane (parando de chorar repentinamente): Ah. Obrigada.

Amane puxa um lenço do bolso e rapidamente seca suas falsas lágrimas, ajeitando sua boina na cabeça em seguida. Ela se levanta e mostra um largo sorriso no rosto. Sakura e Tomoyo ficam boquiabertas.

Amane (batendo nos joelhos para limpá-los): Até que não demorou muito para convencer vocês.

Amane abre o portão e corre até o outro lado da rua, onde começa a pular e acenar.

Amane: Vamos logo! Vamos logo!

Sakura e Tomoyo se entreolham.

Sakura: É impressão minha ou nós acabamos de ser enganadas por uma menina de 9 anos?
Tomoyo: Eu não sabia que ela podia fingir tão bem... O que vamos fazer agora?
Sakura: Acho que não vamos conseguir nos livrar dela tão fácil...
Tomoyo: Mesmo que eu conseguisse fazê-la ir para casa, ela provavelmente daria um jeito de fugir e procurar pelo Shaoran sozinha...
Sakura: Ela poderia acabar se metendo em outra situação perigosa.
Tomoyo: Eu não quero isso. Quero protegê-la.
Sakura (suspirando): Eu acho que não tem jeito. Vamos ter que levá-la. Se a situação ficar ruim, você a leva para longe, certo?
Tomoyo (um pouco receosa): C-certo.

Sakura e Tomoyo atravessam a rua para se reunirem com Amane.

Amane: Vocês são muito lentas. Tem que mostrar mais motivação.
Sakura: Ninguém está mais motivada do que eu, Amane.
Amane: Estamos indo para o centro comercial, não é, nee-chan?
Tomoyo: Sim.
Sakura: Estamos atrás de uma garota loira que esteja cercada de muitos homens.
Tomoyo: ... ou homens que estejam agindo de maneira estranha...
Sakura: ... se acharmos a garota, achamos o Shaoran.
Amane (batendo continência): Entendido.

Amane faz uma pose e aponta para o horizonte.

Amane: Vamos à caça da vadia que roubou o Shaoran!
Tomoyo: Amane!
Amane: Eh?
Tomoyo: Que palavreado é esse? Tenho certeza que não foi essa a educação que o Hideki...
Amane: ... papai...
Tomoyo: ... não foi essa a educação que ele te deu.
Amane: Desculpa, nee-chan. Acho que me empolguei...
Tomoyo: Tudo bem. Mas não repita mais isso.
Amane: Ok...

Amane repete sua pose e aponta para o horizonte.

Amane: Vamos à caça da menina de reputação duvidosa que roubou o Shaoran!
Tomoyo (gota caindo): Me pergunto onde será que ela aprende essas coisas...
Sakura (gota caindo): Vocês definitavemente tem que controlar o que ela assiste na televisão...

E então as três meninas partem para o centro comercial. Agitadas pela urgência da situação, elas chegam ao local em tempo recorde. Sakura decide começar sua busca por locais que ela já conhece bem. Ela e suas amigas vão primeiro a confeitaria Tirol, onde pedem ajuda a Yumi e ao senhor Ueda, os responsáveis pela loja.

Ueda: Sinto muito. Não vimos nada estranho e não me recordo de nenhuma garota loira que se destacasse.
Yumi: Seu amigo está com problemas?
Sakura: Nós achamos que sim. Desculpe incomodar.
Ueda: Que isso. Não foi nenhum incômodo.
Yumi: Boa sorte em sua busca.

As meninas seguem andando pelas lojas, atentas a qualquer movimentação estranha. Elas perguntam em mais algumas lojas, tomando cuidado para que as pessoas não estranhem sua busca. Afinal, era dificil que alguém acreditasse que uma simples garota havia hipnotizado e sequestrado dezenas de garotos. As praças do centro estavam bastante movimentadas, mas não parecia que nada de estranho havia acontecido ali já que todos estavam agindo naturalmente.

Sakura (olhando de um lado para outro): Será que ela realmente veio nessa direção?
Tomoyo: Não parece que algo aconteceu por aqui. E se a Nanasaki pode controlar homens, por que ela não levou ninguém daqui? Têm homens de todas as idades por aqui...
Sakura: Não sei. Talvez os poderes dela tenham limite. Temos que continuar procurando. Nossa única pista é que eles vieram nessa direção...
Amane: Ei! Vocês duas!

Amane estava saltitando e acenando para chamar a atenção de Sakura e Tomoyo, que haviam ficado alguns passos para trás.

Amane: Olha o que eu achei!

As meninas notam que Amane estava puxando com força os cabelos de uma menina loira de cerca de 10 anos, que estava caída no chão chorando. Tomoyo logo corre para puxar a irmã para longe. Sakura se apressa em ajudar a menina loira.

Sakura: Você está bem?

A menina apenas soluça, tentando engolir o choro. Sakura a ajuda a se levantar e nota que ela tinha os joelhos ralados e um pequeno galo na cabeça.

Tomoyo: O que você estava fazendo, Amane?!
Amane: Estava interrogando ela para saber onde está o Shao-Shao!
Sakura: Mas ela é só uma garota inocente!
Amane: Vocês disseram que uma garota loira levou meu principe. Vou interrogar todas até achá-lo.
Tomoyo: Você não pode bater nas pessoas assim! Não é certo!

Sakura e Tomoyo levam a menina até uma máquina de vendas. Lá, Sakura compra uma garrafa de água e lava o joelho ralado da menina. Tomoyo, por sua vez, compra um sorvete para ela.

Tomoyo: Espero que aceite isso como pedido de desculpa.
Menina (se deliciando com o sorvete): T-tudo bem.
Sakura: Quando você for para casa, peça para seus pais colocarem um pouco de gelo nesse galo na sua testa, tá?
Menina: Ok.

Sakura e Tomoyo fazem uma reverência.

Sakura (e Tomoyo): Mais uma vez... desculpa por tudo.

A menina loira acena e se afasta. Sakura e Tomoyo se voltam para Amane.

Tomoyo: Amane...
Amane (olhando de um lado para o outro): Não se preocupem. Já estou a procura de mais loiras.
Sakura (puxando Amane pela camisa antes que ela se afastasse): Nada disso. Você vai ficar de olho em coisas suspeitas e não vai fazer nada. E não se esqueça que a loira que estamos procurando vai estar cercada de meninos. Se ao menos tivêssemos uma foto dela...
Tomoyo: Se vir algo de diferente, você fala conosco e nós vamos agir juntas. Entendido?
Amane: Mas...
Tomoyo: Amane...
Amane (suspirando): Tá bom, nee-chan.
Sakura: Olha. Estamos perto da Twin Bells.

Sakura aponta para uma loja de brinquedos que ficava quase na esquina.

Sakura: Podemos perguntar sobre a Nanasaki para a senhorita Matsumoto.
Tomoya: É uma boa idéia.
Sakura: Vamos lá.

As três meninas entram na loja Twin Bells. Os sinos presos sobre a porta alertam a dona da loja da chegada de possiveis novos clientes.

Maki: Sakura! Tomoyo! Sejam bem-vindas!
Sakura: Boa tarde, senhorita Matsumoto.
Tomoyo: É bom vê-la, senhorita Matsumoto.

Maki Matsumoto, a dona da loja, estava agachada em frente a uma estante arrumando alguns produtos. Ela prontamente se levanta para receber apropriadamente as três meninas.

Maki: É sempre um prazer recebê-las aqui. Vejo que trouxeram uma amiga.
Tomoyo: Deixa eu apresentá-las... esta é Amane Okiura, minha meia-irmã.
Amane (com um largo e amistoso sorriso): Prazer em conhecê-la.
Maki: O prazer é meu. Bem que eu suspeitei. Ela tem alguns dos mesmos traços bonitos que você tem, Tomoyo.
Tomoyo: Obrigada. Amane, essa é a senhorita Matsumoto, a dona da Twin Bells.
Sakura: Essa é uma lojinha de brinquedos e lembracinhas muito popular na região. Muitos alunos vêm aqui.
Amane: Incrível. Deve ser muito legal ter uma loja dessas. Você pode brincar o dia inteiro e ainda fazer muitas amizades e contatos.
Maki (sorrindo): Certamente, essa é uma das maiores vantagens.
Amane: Será que muitos meninos bonitos vêm aqui? Esse pode ser um bom ponto para arrumar namorados...
Tomoyo: Amane!
Maki (rindo): Acho que a maioria dos meninos que vêm aqui ainda não está na idade de namorar.
Amane: É por isso que prefiro homens mais velhos...
Tomoyo (sorrindo sem graça): Vamos dar uma volta na loja um pouco, Amane. Quem sabe você vê algo que goste...

E então as duas irmãs se afastam e desaparecem em meio as estantes de produtos.

Sakura: Hã... senhorita Matsumoto?
Maki: Sim?
Sakura: Posso perguntar uma coisa?
Maki: Claro.
Sakura: A senhora por acaso notou algo estranho acontecendo no centro?
Maki: Estranho como?
Sakura: Qualquer coisa estranha.
Maki: Bom... não me recordo de nada no momento.
Sakura: E a senhora viu alguma garota loira que se destacasse ou que agisse de forma estranha?
Maki: Não, também não.
Sakura: E o Shaoran? A senhora por acaso o viu passar por aqui?
Maki (com a mão no queixo, pensativa): Shaoran? O seu namoradinho?
Sakura (corando levemente): É. Quer dizer... não é bem isso... na verdade...
Maki: Não, também não o vi. Por que tantas perguntas? Qual a relação entre elas?
Sakura (gesticulando agitadamente): N-não tem relação entre elas não. São apenas dúvidas aleatórias sem nenhum significado maior.

Maki fica observando Sakura, ainda um pouco confusa.

Maki: Você e seu namorado marcaram algo e se desencontraram?
Sakura: É... algo desse tipo...
Amane: Prontinho!

Sakura nota que Amane havia colocado algo na sua cabeça. A herdeira de Clow observa seu reflexo num pequeno espelho que estava sobre o balcão de atendimento da loja. Orelhas de gato de brinquedo estavam em sua cabeça, se misturando a seus bem cuidados cabelos castanhos.

Sakura: Hoe? Amane, o que você está fazendo?
Amane: Te transformando numa verdadeira gatinha. Agora fala ‘Nyahhhhh’.
Sakura: Nyahhhhh?
Amane: Ah! Eu sabia. Parece uma gatinha de verdade. 100% fofinha.
Sakura (mexendo nas orelhas negras sobre sua cabeça): Amane, nós não temos para isso. Tomoyo, será que você pode...
Tomoyo: Ahhhhhhh!

Sakura nota que Tomoyo estava se aproximando por trás dela, seus olhos brilhando como se estivessem implorando por algo. Ela trazia uma câmera de video em sua mão.

Tomoyo (a câmera tremendo em sua mão): Você está tão... tão MA-RA-VI-LHO-SA... pode fazer de novo? Eu perdi...
Sakura (gota caindo): Tomoyo...
Amane (estufando o peito, cheia de si): Eu disse que ia encaixar perfeitamente, nee-chan. Agora você me deve uma.
Maki: Ficou realmente muito bem.
Sakura (tapando o rosto, envergonhada): Até você, senhorita Matsumoto?

Após mais uma breve pose e uma despedida, as três meninas deixam a Twin Bells e prosseguem sua busca pelo centro.

"Se houvesse ao menos uma pista... ou se eu pudesse captar alguma aura de magia do caos... desse jeito vai ser muito dificil conseguirmos encontrá-los..."

Algumas quadras a frente, as meninas se vêem diante de uma pequena feira.

Amane: Não sabia que tinha feira nessa cidade também. Legal. Será que eles dão amostra grátis?
Sakura (olhando para os lados, tentando decidir para onde ir a seguir): Eu acho que não...
Tomoyo: Amane, por favor, comporte-se.
Amane: Sim, sim. Serei um anjinho, nee-chan.
Yamaguchi: Jovem Sakura!

A atenção de Sakura é atraída para uma banca de verduras que ficava bem no começo da feira. Um senhor baixinho de cabelos ralos e com uma pequena verruga no queixo estava acenando de longe.

Sakura: Senhor Yamaguchi!

Sakura vai até o simpático senhor e o abraça.

Yamaguchi: Já faz alguns dias que não a vejo. Como estão seu pai e seu irmão?
Sakura: Eles estão muito bem. Meu irmão está na universidade e meu pai continua dando aulas.
Yamaguchi: Vejo que veio passear com duas amigas.
Sakura: São duas grandes amigas: Tomoyo Daidouji e Amane Okiura.
Yamaguchi (passando a mão na verruga no queixo): Vejo que a jovem Amane têm um espírito bem ativo.

Amane estava segurando algumas verduras nas mãos, comparando elas. Ela sorri sem graça ao perceber que todos os olhares recaiam sobre ela.

Amane: Se isso for um elogio, então obrigada.
Yamaguchi: Aposto que ela adoraria ver um pequeno truque de mágica.

O senhor Yamaguchi passa a mão na orelha de Amane e então recua. Em seguida ela abre sua mão e revela uma moeda dourada com o desenho de uma borboleta. Sakura e Tomoyo aplaudem o show.

Tomoyo: Muito bom.
Amane: Ah, tá bom. Esses truques baratos só funcionam com criancinhas. Eu já sou praticamente adulta.
Sakura: Eu não subestimaria a mágica do senhor Yamaguchi se fosse você, Amane. Ele era mágico de um circo itinerante quando era mais jovem.
Amane: É óbvio que ele já estava com a moeda na mão antes de tocar minha orelha. Qualquer um poderia fazer esse truque.
Yamaguchi: Minhas mãos estão vazias.

O senhor Yamaguchi mostra suas mãos para Amane, que as examina com cuidado.

Amane: Isso não significa nada. Você podia estar com apenas uma moeda escondida na manga desse seu jaleco.
Yamaguchi: É mesmo? Então vamos tentar novamente.

O senhor Yamaguchi retira seu jaleco, deixando seu braços completamente descobertos.

Yamaguchi: Com licença, linda mocinha.

Mais uma vez, o senhor Yamaguchi passa a mão na orelha de Amane, dessa vez obtendo uma moeda prateada com o desenho de uma garça. Sakura e Tomoyo novamente aplaudem.

Amane: Não pode ser.
Yamaguchi (colocando as duas moedas na mão de Amane): Espero que tenham apreciado o show.

Amane pega os pulsos do senhor Yamaguchi e procura por algo que pudesse esconder as moedas.

Amane: Como o senhor fez isso?
Yamaguchi (rindo): Um verdadeiro mágico nunca revela o segredo de seus truques, minha jovem.
Amane: Isso é brincadeira de criança. Não tem como eu não descobrir o segredo.

Amane fica observando as moedas. Ela começa a tentar escondê-las na orelha de forma a tornar o truque possivel.

Tomoyo: Acho que ela está bem entretida agora...
Sakura: Senhora Yamaguchi...
Yamaguchi: O que foi, jovem Sakura? Precisa de algumas verduras? Vai fazer outro jantar delicioso?
Sakura: Não, não é isso. Gostaria de saber se o senhor viu alguma coisa estranha, algo fora do normal.
Yamaguchi: Hmmm. Nada me vêm a cabeça.
Sakura: O senhor por acaso viu o Shaoran passar por aqui?
Yamaguchi: Hã?
Sakura: Ele já veio na feira comigo uma vez. É um pouco maior que eu, têm olhos na cor âmbar e está sempre com uma cara séria...
Yamaguchi: Hmmm.

O senhor Yamaguchi fica passando a mão na verruga em seu queixo enquanto pensa.

Yamaguchi: Ah. O seu namorado?
Sakura: C-como o senhor sabe disso?
Yamaguchi: Ah. Eu vi a forma como você olhava para ele e como ele olhava para você. Ficou bem claro para mim, jovem Sakura.
Sakura: Entendo...

“Será que todo mundo já percebeu? Deve ser o pior segredo da história...”

Yamaguchi: Por acaso isso é um segredo?
Sakura: Um pequeninho... é só até eu contar para o meu pai e para o Touya...
Yamaguchi: Ah, entendo. O jovem Touya é realmente superprotetor e deve receber essa noticia com cuidado. Conte com minha discrição.
Sakura: Muito obrigada. Posso fazer só mais uma pergunta?
Yamaguchi: Claro.
Sakura: O senhor viu alguma garota loira que se destacasse ou que agisse de forma estranha? Nós estamos procurando por uma pessoa...
Yamaguchi: Uma garota loira que se destacasse?
Sakura: Sim. Ela é da nossa idade, é bem bonita e tem olhos castanho claro. E também estava usando um laço no cabelo.
Yamaguchi: Algo parecido com aquela garota ali?

Sakura e Tomoyo olham para onde o senhor Yamaguchi estava apontando. Havia uma menina loira parada diante de uma banca de jornal na esquina. Ela conversava com o jornaleiro e olhava para os lados, preocupada.

Sakura (e Tomoyo): NANASAKI!
Amane: Kyahhhhhhhh!

Amane havia tomado a dianteira e se jogado sobre a menina loira. As duas caem no chão e começam a rolar. Elas páram ao colidir com uma lixeira e Amane fica por cima da garota, puxando seus cabelos com força como se estivesse domando um animal.

Sakura: Com licença, senhor Yamaguchi.

Tomoyo corre até a irmã e a puxa para longe com certa dificuldade. Sakura ajuda a menina loira a se levantar.

Tomoyo: Amane! Por que esta atacando pessoas de novo? Já esqueceu o que combinamos?
Amane: Desculpa... mas é que só de saber que essa loira de farmácia roubou o Shao-Shao, eu fico louca...
Menina: Shao-Shao? O que seria isso?

A menina passa os olhos de Tomoyo e Amane para Sakura e aparenta estar muito confusa.

Sakura: Precisamos conversar seriamente, Nanasaki.

Sakura havia colocado a mão no ombro da menina loira e olhava para ela de maneira séria.

Menina: Nanasaki? Sinto muito, mas acho que você está me confundindo com alguém.
Amane: Vai se fingir de desentendida agora, é? Devolve o meu Shao-Shao!

Amane se debate e consegue se livrar dos braços da irmã, mas Sakura toma a frente e a segura em seguida. A herdeira de Clow se sentia uma hipocrita por repreender Amane sendo que estava morrendo de vontade de dar uma surra em Nanasaki também.

"Mas se o Kero estiver certo e ela estiver possuída... então a Nanasaki é uma vitima nessa história também..."

Tomoyo: Nós temos testemunhas que viram o que você fez com os meninos da escola, Nanasaki. Acreditamos que você está sendo usada... e queremos ajudar.
Menina: O que eu fiz com meninos? Sendo usada? Mas do que estão falando?
Amane: Ela está dizendo que você roubou o Shao-Shao!
Menina: Será que dá para alguém me explicar o que é um Shao-Shao?
Tomoyo (apontando para Sakura): É o apelido de Shaoran Li, o namorado da minha amiga.

Sakura estava olhando a menina loira de cima a baixo, o que faz a menina sentir um calafrio.

"Tem alguma coisa diferente nela... algo que não bate...já sei!"

Menina: Por que ela está me olhando desse jeito? Olha. Eu sou inocente. Não conheço vocês e nem conheço nenhum Shaoran.
Sakura: Hmmmm.
Menina: S-se vocês não me deixarem em paz, vou chamar a policia.
Tomoyo: Você realmente não se lembra? Será que está sofrendo de amnésia?
Menina (apontando para Amane): Eu acho que lembraria de uma pirralha como essa aí.

Amane mostra sua língua para a menina.

Menina (começando a se afastar): Eu já estou com um problemão e não preciso de mais coisas na cabeça... então, por favor, me deixem em paz...
Tomoyo: Espera! Será que a gente podia...
Sakura: Deixa ela ir, Tomoyo.

Tomoyo e Amane olham, surpresas, para Sakura.

Tomoyo: Sakura?
Amane: Ei! Você é a namorada oficial! Devia estar soltando fogo pela boca e forçando essa loira a falar.
Sakura (respirando fundo): Me deixar levar pelos ciúmes não vai me levar a nada. A ultima vez que isso aconteceu, fiz uma grande besteira. Sei que vai ser dificil, mas vou tentar me manter calma e entender a situação para não cometer erros.
Tomoyo: Mas e se a Amane estiver certa? E se a Nanasaki estiver mentindo?
Sakura: Não é ela.
Tomoyo: O que? Como assim?
Sakura: O jeito de andar é diferente. A voz é diferente. O olhar é diferente. E ela está usando um laço preto ao invés de branco.
Amane: Isso não prova nada. Pode ser só disfarce.
Tomoyo: Sakura... você tem certeza?
Sakura: O olho dela, Tomoyo.
Tomoyo: O que tem o olho dela?
Sakura: Ela ganhou um corte próximo ao olho direito durante a confusão no refeitório. Essa menina que encontramos não tinha nenhuma marca no rosto.
Tomoyo (colocando a mão na boca): É verdade. Eu havia me esquecido.
Sakura: Confiem em mim... aquela menina não é Chiho Nanasaki.

A menina loira pára de andar repentinamente. Ela se volta para Sakura e suas amigas.

Menina: Que nome você disse?
Sakura: Que?

A menina corre até Sakura e começa a sacudí-la pelos ombros.

Menina: Que nome você disse?
Sakura: Ei! Calma!
Tomoyo: Se controle!

Tomoyo e Amane afastam a menina loira de Sakura.

Menina: Que nome você disse?!
Sakura: N-Nanasaki. Chiho Nanasaki.
Menina: E... e ela é igual a mim?
Sakura: Idêntica. Por isso a confundimos.
Menina: Onde vocês a viram? Onde ela está?
Sakura: Por que ficou tão nervosa de repente?
Menina: Ela é minha irmã gêmea! Minha irmã desaparecida! Eu estive procurando por ela como louca!

A menina fica de joelhos e começa a implorar.

Menina: Eu imploro... me digam onde ela está... eu e minha familia não aguentamos mais de preocupação...
Sakura: Calma...

Sakura abraça a menina e a ajuda se levantar. Em seguida a conduz e ambas se sentam num banco.

Tomoyo: Amane... por favor, veja se consegue uma garrafa de água.
Amane (parecendo muito confusa com o rumo dos eventos): Ok...
Tomoyo: Não vá muito longe!

Amane atravessa a rua e entra numa loja de conveniência. Tomoyo também se senta ao lado da menina loira.

Tomoyo: Por favor, se acalme.
Sakura: Conte-nos o que está acontecendo e nós podemos ajudar.
Menina (soluçando um pouco): A minha irmã... ela saiu para fazer compras há cinco dias e não voltou mais... nem a policia conseguiu pistas ainda... estou procurando por ela em todas as cidades próximas...
Sakura: Então Chiho Nanasaki é sua irmã gêmea?
Menina: O sobrenome dela não é esse. Ela se chama Chiho Mihara.
Sakura: Que estranho... por que ela usaria um sobrenome diferente?
Tomoyo: Espera um pouco. Você disse Mihara?
Menina: S-sim...
Tomoyo (estalando o dedo no ar): Agora faz sentido, Sakura. Era por isso que a Chiho me parecia familiar.
Sakura: Como assim?
Tomoyo: Essas gêmeas... elas são primas da Chiharu. Eu fui ao cinema com elas e a Chiharu uma vez no nosso primeiro ano na escola. Elas vivem em outra cidade com a mãe.
Sakura: Primas da Chiharu?
Menina: Nós nos conhecemos?
Tomoyo: Só nos vimos uma vez, por isso talvez você não se lembre. Eu mesma custei a lembrar. Nós somos colegas de classe da sua prima. Eu sou Tomoyo Daidouji e minha amiga se chama Sakura Kinomoto.
Sakura (sorrindo amistosamente): Prazer em conhecê-la.
Menina: P-prazer. Meu nome é Chise Mihara.
Amane: Chiho, Chise, Chiharu. É muito "Chi" pro meu gosto.

Amane havia retornado da loja. Ela entrega uma garrafa de água para Chise, que bebe um gole e começa a respirar fundo para se acalmar.

Chise: Minha mãe e a Chiharu também estão procurando desesperadamente pela Chiho, então... então, se tiverem alguma pista, por favor, me contem.
Tomoyo: Então foi por isso que a Chiharu não foi a escola hoje...
Amane: Bem... essa Chiho roubou o Shao-Shao. É por isso que estamos atrás dela.
Chise: Não pode ser. Minha irmã nunca roubaria o namorado de ninguém. Ela é a pessoa mais doce que conheço. Ela nunca faria isso.
Amane: Mas ela fez.

"E agora? Como explico isso sem revelar nada sobre magia?"

Sakura: Bem... a sua irmã estava agindo meio estranha... ela se matriculou na nossa escola e no fim das aulas saiu de lá com um monte de meninos, incluindo o meu namorado.
Chise: Então eles é que devem ter sequestrado ela!
Tomoyo: Nós conversamos com uma testemunha. Ela foi de boa vontade.
Chise: Eles devem ter convencido ela a fazer alguma besteira. A minha irmã é muito ingênua. Tenho que encontrá-la antes que ela se meta em alguma confusão grave.
Amane: Não gosto do jeito que você está falando. Está fazendo parecer que o Shao-Shao é um cara mau.
Chise: Estou apenas analisando os fatos.

Amane e Chise começam a se encarar.

Sakura: Se acalmem vocês duas! Primeiro, o Shaoran não é mau. Ele um excelente garoto e é por isso que gosto tanto dele. Segundo, nem sua irmã, nem os meninos tem culpa de nada. Tudo não passa de um mal-entendido.
Chise: Mal-entendido?
Sakura: Se encontrarmos todos eles, teremos nossa explicação.
Tomoyo: É verdade. Não adianta ficar especulando.
Sakura: Se unirmos nossas forças, encontraremos eles mais rápido.
Tomoyo: E teremos nossas respostas.
Sakura: O que me diz? Vamos trabalhar juntas?

Sakura estende a mão para Chise. A menina fica relutante, mas acaba apertando a mão da herdeira de Clow.

Chise: Está certo.
Sakura: Certo. Novo plano, então. Tomoyo e Amane seguem procurando rumo ao sul. Eu e Chise vamos procurar a leste. Talvez eles tenham ido para outro lugar como a biblioteca ou a reserva Saijou...
Tomoyo: O que? Mas Sakura, eu acho que deveria ir junto com você...
Sakura: Não se preocupe, Tomoyo. Não vou me meter em nenhuma confusão, ainda mais com a Chise comigo. Se nos dividirmos, cobriremos mais terreno mais rápido.
Tomoyo: Mas eu poderia fazer dupla com você...

Sakura e Tomoyo observam Chise e Amane cuidadosamente. As duas estavam quase rosnando uma para a outra.

Tomoyo (gota caindo): Talvez não seja uma boa idéia deixar elas juntas...
Sakura: Definitivamente não. Você é a única que consegue manter a Amane na linha.

Sakura se aproxima de Tomoyo.

Sakura (sussurrando no ouvido da amiga): Prometo que se eu encontrar a Chiho, vou ligar para você e para o Kero antes de fazer qualquer coisa. Fique tranquila.
Chise: Tudo certo?
Sakura: Sim. Vamos indo.

Apesar de receosa, Tomoyo dá meia-volta e segue seu caminho com a companhia de sua meia-irmã. Sakura e Chise optam por seguir em outra direção. As duas passam por algumas mercearias, bancas de jornais e lojas de vestuário, onde perguntam sobre Chiho e os meninos desaparecidos. Não conseguem obter nenhuma resposta que leve a uma pista. Após mais de duas horas procurando, Sakura e Chise se sentam num banco para uma breve pausa.

Chise (massageando o pé direito): Meus pés estão me matando de tanto andar...
Sakura: Também estou ficando cansada. É frustrante não conseguir nenhuma pista.
Chise: Não podemos nem ficar descansando muito tempo... já está anoitecendo e a procura ficará mais dificil...
Sakura: Acho que devemos começar a olhar nos parques e praças que ficam além do centro comercial.
Chise: É verdade... temos que aproveitar enquanto ainda há luz do sol.
Sakura: Sua mãe deve estar preocupada. Não é melhor ligar para ela para dizer onde está?
Chise: Tem razão. Ela vai ficar pior se achar que perdeu as duas filhas.

Chise pega seu celular no bolso e nota que ele está descarregado. Em seguida ela se levanta e começa a olhar para uma loja de conveniência do outro lado da rua. Quando a colega se levanta, Sakura nota algo se mexendo atrás de uma pilha de sacos de lixo num beco em frente ao banco onde estavam. Era dificil ver o que era exatamente. Parecia haver um rabo dourado se remexendo em meio ao lixo.

Chise: Tem um telefone público ali. Vou ligar para ela.
Sakura: Seu celular está descarregado? Quer usar o meu?
Chise: Obrigada, mas não precisa. Vou aproveitar e comprar algo para comer enquanto continuamos andando. Você quer algo?

Sakura volta sua atenção novamente para a preocupada Chise. Nesse momento, entretanto, a cabeça de um certo bicho de pelúcia emerge do monte de lixo que aguardava recolhimento.

Sakura: Kero!
Chise: Nossa. Quanto entusiasmo. O que você vai querer?

Kero, o guardião cujos poderes eram diretamente ligados ao sol, começa a fazer sinal para sua mestra, indicando que queria conversar com ela no beco.

Sakura (sorrindo sem graça): Hã? Eu... Eu gostaria de um biscoito salgado, por favor.
Chise: Sem problemas. Volto num instante. Vou aproveitar e fazer umas perguntas ao gerente da loja também.
Sakura: Ok.

Chise atravessa a rua e entra na loja. Após ter certeza de não estar sendo observada, Sakura entra no beco e vai até o fundo dele.

Sakura: Kero?

Uma caixa de papelão se vira e o guardião alça vôo. Ele fica flutuando diante de sua querida mestra.

Sakura: Você encontrou eles?
Kero: Sem sorte. Nenhum sinal dos garotos perdidos e nem da menina possuída. Tentei localizar a aura mágica do moleque, mas também não deu certo. Ele ficou muito bom na arte de esconder sua presença, então deve estar tomando cuidado para não ser detectado.
Sakura: Tomoyo, Amane e eu também estivemos procurando, mas até agora nada. Nós encontramos a irmã gêmea da Chiho e descobrimos que elas são primas de uma amiga da escola, a Chiharu.
Kero: É aquela menina com quem você estava conversando?
Sakura: Sim. Ela está nos ajudando também, mas não pude revelar o que realmente está acontecendo. Vou ter que pensar em alguma explicação depois...
Kero: Bem... pelo menos agora eu sei como a menina se parece.
Sakura: Sim. A única diferença é que ela possui uma cicatriz embaixo do olho direito.

Sakura suspira pesadamente.

Sakura: Estou começando a achar que eles não passaram por aqui...
Kero: Eu acho que apenas ela passou pelo centro comercial, deixando suas vítimas esperando em algum lugar. Ela deve ser esperta o bastante para não chamar muita atenção... ainda mais sem ter certeza de quantos feiticeiros habitam a região. Ela provavelmente precisava comprar algo antes de seguir seus planos...
Sakura: Como assim? Você está falando como se soubesse quem é... descobriu algo?

Kero é envolto por uma luz dourada e assume sua verdadeira forma.

Kerberos: Tenho algumas suspeitas... eu te explico tudo, mas acho melhor continuarmos nos movendo. Não temos tempo a perder.
Sakura: Mas o que eu vou dizer para a Chise? Ela vai ficar preocupada se eu desaparecer de repente...
Kerberos: Se fizermos tudo direito, ela vai estar agradecida quando você trouxer a irmã dela de volta.
Sakura: Ok, ok. Espero que ela não fique com muita raiva de mim por abandoná-la assim.
Kerberos: Monte nas minhas costas e vamos em frente.
Sakura: Certo. Vou aproveitar e avisar a Tomoyo que estou com você.

O tigre de pêlo dourado levanta vôo assim que sua mestra se acomoda em suas costas. Um casal que passava pela rua se assusta ao sentir uma estranha ventania e ver uma espécie de vulto sair do beco.

Tomoyo: Devagar, Amane!

Amane estava correndo por uma praça bem afastada do centro comercial e cumprimentando várias pessoas que passavam por ali enquanto fazia seu próprio interrogatório.

Amane (mostrando uma foto): Oi, tia. Tudo bem? A senhora por acaso viu essa menina?
Senhora: Sinto muito, mas não.
Amane: Ei, meninas! Vocês viram essa menina da foto?
Garota: Não vi não, colega.
Amane: E você, gordinho? Viu essa loira?
Gordo (gesticulando que não com a mão): Nhoc! Nhoc! Chomp!
Amane: Credo. Pelo menos termina de mastigar esses hamburgeres antes de tentar responder.
Tomoyo: Amane, me espera.
Amane: E você, gatinho? Viu essa loira?
Garoto: Não.
Amane: Interessante... você tem namorada?
Tomoyo: Amane!

Tomoyo puxa a irmã pelo braço e a arrasta até a sombra de uma árvore onde podia conversar a sós com ela. Elas haviam se dirigido a parte mais afastada e deserta daquela praça, onde havia um pequeno lago que delimitava aquele ambiente e o inicio de uma propriedade particular.

Tomoyo: O que você está fazendo?
Amane: Estou interrogando as pessoas.
Tomoyo (pegando a foto da mão da irmã): E essa foto? Quando você a conseguiu?
Amane: Eu sou mais esperta que você, nee-chan. Tirei uma foto da Chise quando ela não estava prestando atenção. Assim fica mais fácil de perguntar.
Tomoyo: Ok, mas você está indo tão rápido que está perturbando as pessoas que vieram a praça para relaxar. Vá com mais calma e seja mais educ...
Amane: Não precisa me dar sermão, nee-chan. Estou fazendo tudo pelo bem do Shao-Shao. Vou diminuir o ritmo para você poder me acompanhar. Nee-chan?

Amane estranha quando sua irmã pára de falar repentinamente.

Amane: Algo errado, nee-chan?

Tomoyo estava olhando para alguns arbustos do outro lado do lago. Era possivel ver parcialmente um casal conversando, um rapaz esguio de cabelos curtos e negros e uma mulher de longos cabelos castanhos. Amane segue o olhar da irmã e também nota o casal.

Amane: Ah. Você está olhando para os pombin...

Tomoyo tapa a boca de Amane e a puxa para trás da árvore, onde estariam escondidas. Ela faz sinal para a irmã fazer silêncio. Após um breve instante, as duas meninas voltam a observar o casal, tomando cuidado para não serem vistas. De onde estavam não podiam ouvir a conversa com clareza, embora parecesse que o casal estava discutindo.

Amane: Isso é tão excitante. Me sinto como num filme de espionagem.
Tomoyo: Fale baixo. Eles podem acabar ouvindo.
Amane: Tá bom, tá bom.

A mulher ameaça se afastar, mas o rapaz a segura e a abraça com força.

Amane: Olha. Parece até cena de filme romântico.

Amane força um pouco mais a vista e analisa as feições do rapaz.

Amane: Peraí... eu conheço aquele rapaz... ele me parece familiar...

O rapaz levanta gentilmente o rosto da mulher e a beija, os lábios se tocando com muito carinho.

Amane: Já sei! É o Touya!

O grito de Amane obviamente chama a atenção do casal. Tomoyo agarra sua irmã e se esconde. O casal olha para todas as direções. Pareciam estar com medo de serem vistos. Após mais uma breve troca de palavras, o casal se despede com um abraço e cada um deles segue numa direção diferente. Após ter certeza de que eles haviam partido, Tomoyo suspira aliviada e libera a irmã.

Amane: Pra que tudo isso? Era só o irmão da Sakura com a namorada.
Tomoyo: Não é bem isso. Nós acabamos de ver algo que não devíamos.
Amane (um sorriso malicioso no rosto): Ah, então é um segredinho. Talvez ela seja a amante... ou talvez ele seja o amante... o que será que eles me dariam para eu manter minha boca fechada?
Tomoyo: Amane!
Amane: Brincadeirinha. É claro que não faria nenhuma chantagem. Que tipo de menina você acha que eu sou?
Tomoyo: Do tipo que não fica quieta?
Amane (sorrindo): Eu prefiro “do tipo muito ativa”.

Tomoyo e sua irmã começam a caminhar, rumando para o centro da praça. Amane fica observando o olhar pensativo da irmã e suspira.

Amane: Você está preocupada porque ele não devia estar com aquela mulher, não é? Você sabe quem ela é, nee-chan?
Tomoyo: Ela... ela já foi minha professora...
Amane: O Touya já tem namorada? É por isso que você está preocupada?
Tomoyo: É... é complicado... eu estou preocupada porque não sei se devo contar o que vimos para alguém... Amane, me prometa que vai guardar isso em segredo. Você promete?
Amane: Claro que sim, nee-chan. Minha boca é um túmulo.
Tomoyo: Obrigada.

Tomoyo pega a mão da irmã antes de atravessarem a rua que passa em frente a praça.

Amane: Bem... não um túmulo literalmente falando... minha boca estaria fedendo muito se fosse o caso...
Tomoyo (sorrindo): Eu entendi, Amane.

O celular de Tomoyo começa a tocar e a menina retira o aparelho de sua mochila. Era uma ligação de sua melhor amiga Sakura. Após uma pequena conversa, Tomoyo desliga o aparelho.

Amane: A minha rival tem novidades?
Tomoyo: Ela está seguindo uma pista com um amigo.
Amane: Ótimo. Vamos atrás dela.
Tomoyo: Na verdade, temos que voltar ao centro comercial.
Amane: O que? Mas para que?
Tomoyo: A Sakura se perdeu da Chise, então ela pediu que fossemos procurá-la e verificar se ela está bem.
Amane: Estou mais interessada em encontrar a outra gêmea...
Tomoyo: Eu prometi que faríamos esse favor, Amane.
Amane (suspirando): Tá certo. Eu vou aonde você for.

As duas irmãs páram num ponto de ônibus coberto com telhas transparente. Iriam aguardar a próxima condução para chegar ao centro. Amane começa a brincar com uma mecha do cabelo da irmã enquanto aguarda o ônibus.

Amane: Nee-chan?
Tomoyo: Sim?
Amane: Você vai contar o que vimos hoje para a Sakura?
Tomoyo: ...

Kerberos passa voando pelo parque onde um dia houve a mansão de Eriol Hiiragisawa. Sakura havia terminado sua ligação para Tomoyo e agora estava preocupada em ouvir o que seu guardião tinha a dizer.

Sakura: Prontinho. A Tomoyo vai cuidar da Chise e garantir que ela fique bem.
Kerberos: Bom trabalho.
Sakura: Agora eu quero saber o que você descobriu.
Kerberos: Bem... enquanto procurava por aí, fiquei pensando no que você e Tomoyo haviam me contado. Comecei a ter uma suspeita e resolvi consultar o Clow sobre o assunto.
Sakura: O Eriol vai vir nos ajudar?
Kerberos: Ele prometeu vir o quanto antes. Ele e Yue estão resolvendo um problema relacionado a magia do caos no litoral. De qualquer forma, ele concordou com o que eu havia pensado.
Sakura: Então se trata mesmo da tal possessão?
Kerberos: Sim. Você disse que só homens foram levados, não é?
Sakura: Sim.
Kerberos: Bem... Clow me contou a história completa da pessoa de quem suspeito...
Sakura: E você pode me contar?
Kerberos (acenando positivamente com a cabeça): Há muito tempo atrás viveu uma feiticeira muito poderosa, muito bonita, muito talentosa e bastante cheia de si. Os registros não revelam o verdadeiro nome, mas ela era conhecida como Galathea.
Sakura: Hmmmmm.
Kerberos: Ela era desejada por todos os homens, exceto o que ela que mais queria. Ela amava um homem que conhecia desde sua infância. Esse homem em questão, entretanto, preferiu dar seu coração a uma camponesa que vinha de uma familia muito humilde. Irritada, Galathea fez muitas pesquisas e se voltou para as artes proibidas da magia do caos. Ela tentou criar uma poção mágica que forçasse o homem a amar apenas ela.
Sakura: E ela conseguiu?
Kerberos: Ela não sabia ao certo, mas mesmo assim resolveu arriscar. Galathea tentou enganar o homem e fazê-lo tomar a poção, mas ele descobriu o plano dela. O homem ficou irado. Ele arrastou Galathea e a humilhou em praça pública, forçando ela a tomar a própria poção em seguida.
Sakura: E a poção fez algum efeito?
Kerberos: A poção usava muita magia do caos, uma magia que se misturou a todos os sentimentos negativos no coração daquela feiticeira. Nada de bom poderia sair disso. Galathea desapareceu por meses. Logo ela acabou descobrindo que a poção havia funcionado, mas gerado um resultado inesperado.
Sakura: Ela descobriu que podia controlar homens.
Kerberos: Exatamente. Sua mente ganhara uma habilidade mágica que a permitia controlar os homens apenas olhando para eles. Sua primeira ação ao voltar a sua terra natal, foi procurar o homem que um dia amara e forçá-lo a matar sua própria familia e se suicidar.
Sakura (colocando a mão na boca): Que horror!
Kerberos: Esse é o tipo de coisa que a magia do caos faz, Sakura. Ela corrompe, apodrece almas, faz pessoas cometerem atos horriveis. Quando Galathea tomou a poção, ela foi corrompida.
Sakura: E o que aconteceu com essa feiticeira?
Kerberos: Galathea usou sua magia para formar um exército e começou a tomar cidades uma atrás da outra, iniciando seu próprio império. Os Anciões daquela época se ergueram para detê-la, mas acabaram dominados por sua magia. Entre eles havia apenas uma mulher e ela, com muito custo, derrotou Galathea.
Sakura: E que fim a Galathea levou?
Kerberos: Ela acabou mortalmente ferida e fugiu. Foi encontrada morta semanas depois.
Sakura: Mas então como ela está aqui agora?
Kerberos: Clow sabe de muitos segredos que ninguém imagina. Ele me disse que Galathea transferiu uma porção de sua alma corrompida para uma jóia, um par de brincos. Qualquer mulher que usasse esses brincos seria automaticamente possuída. Quando descobriram sobre os brincos, os Anciões trataram de se livrar deles, enviando-os para a dimensão da magia do caos, onde não causariam nenhum mal.
Sakura: Mas agora que Zhen e o Mestre estão enfraquecendo a porta mágica que separa as dimensões...
Kerberos: Os brincos acabaram vindo parar em nosso mundo, assim como outros objetos que já encontramos por aí.
Sakura: Então você está me dizendo que a Chiho foi possuída por causa dos brincos de Galathea?
Kerberos: Sim. Ela pode estar formando um novo exército e se preparando para sua vingança. Talvez ela esteja escondida esperando seus poderes aumentarem ou talvez ela tenha pensado em algum feitiço que possa deixá-la mais poderosa...
Sakura: Isso só aumenta a urgência em encontrá-la! Mas eu não tenho idéia de como! Não consigo sentir a aura mágica dela!
Kerberos: Você não consegue sentir a garota, mas tem outra pessoa que você consegue sentir, não é?
Sakura: Outra pessoa?
Kerberos: O moleque.
Sakura: O Shaoran? Mas eu também não sinto a aura mágica dele.
Kerberos: Se bem me lembro, você disse que derrotou o primeiro espírito de travessura graças a um elo mágico que existe entre você e o moleque.
Sakura: É verdade. Mas o que isso tem a ver...?
Kerberos (suspirando): Você ainda não entendeu, não é? Não percebeu como foi atacada por Chiho na piscina?
Sakura: Você está querendo dizer que...
Kerberos: Chiho provavelmente estava tentando dominar a mente do moleque, mas não estava conseguindo. Você estava no caminho. O elo de vocês estava impedindo o controle total.

Sakura imediatamente se lembra das estranhas sensações que teve durante o dia.

Sakura: Eu estava protegendo o Shaoran mesmo sem saber?
Kerberos: Exatamente. Chiho deve ter descoberto sobre o elo e percebido a sua presença, uma feiticeira que poderia lhe causar problemas. Não conseguindo romper o elo, ela fez a única coisa possivel: enfraqueceu o outro lado.
Sakura: Então ela me atacou através do elo mágico...
Kerberos: Seu corpo instintivamente se protegeu e você acabou desmaiando pelo esforço. Tenho certeza que Chiho acha que acabou com você. Ela não tem idéia do quão poderosa você é, Sakura.
Sakura: Eu não me sinto poderosa. Não pude proteger o Shaoran no fim das contas.
Kerberos: Mas pode ajudá-lo agora. Precisamos saber se o elo mágico ainda existe. Você precisa tentar sentir esse elo... encontre o moleque.
Sakura: Vou dar o meu melhor.

Sakura fecha seus olhos e se concentra o melhor que pode. Ela procura recordar das vezes anteriores em que sentira os efeitos desse elo mágico. Precisava encontrar sua outra metade. A mente de Sakura é preenchida por diversas imagens de momentos felizes com Shaoran. A menina sente um aperto em seu peito. Sentia raiva e frustração, mas sabia que não eram sentimentos dela. Pertenciam a sua pessoa especial. Sakura sentia como se houvesse uma espécie de corda presa em seu peito, uma corda que ela começa a seguir até encontrar a outra ponta. A herdeira de Clow repentinamente abre seus olhos.

Sakura: Achei ele.
Kerberos: Para onde?
Sakura: Reserva Saijou.

Não estavam tão longe e não demoraram a chegar a reserva Saijou. O guardião pousa não muito longe da entrada, bem próximo as maiores árvores existentes na reserva. Havia um grande grupo de meninos reunidos ali, bem como alguns adultos. Todos estavam olhando para uma espécie de altar de madeira improvisado, onde Chiho estava banhando uma faca numa tigela com um estranho líquido negro. Ela retira a faca da tigela após alguns segundos e a finca no altar, passando a olhar para o céu como se esperasse algo.

Kerberos: Agora precisamos bolar um plano para chegar até ela e...
Sakura: GALATHEA!

Para desespero do guardião, Sakura saíra correndo e abrira caminho em meio ao grupo de adoradores. Chiho fica surpresa ao perceber a presença de Sakura. Kerberos não tem escolha a não ser ficar ao lado de sua mestra.

Chiho: Ora, ora. A bruxinha conseguiu sobreviver ao meu ataque.
Sakura: Você tem que libertar essas pessoas. Elas não tem nada a ver com sua vingança.
Chiho: Ah. Você acha que pode me dizer o que devo ou não fazer? Veio aqui com seu bichinho de estimação para tentar me impedir? Você não pode!

Kerberos nota Sakura fechando os punhos e dando um passo a frente.

Sakura: Chiho... eu sei que você está aí! Eu preciso de sua ajuda! Preciso que você resista a influência dela!

Chiho dá uma gargalhada.

Chiho: Tola. Eu tenho total controle sobre esse corpo.
Sakura: Eu não teria tanta certeza.
Chiho: O que?
Sakura: Você pode ter possuído o corpo da Chiho, mas tenho certeza que não planejou vir para essa cidade.
Chiho: Mas é claro que planejei!
Sakura: Não. A Chiho quis vir para cá, porque sabia que a prima dela vive aqui. Subconscientemente, ela forçou você a vir para cá na esperança que Chiharu a ajudasse.
Chiho: Isso... não pode ser... não pode ser verdade...
Sakura: Chiharu e sua mãe estão procurando por você agora, Chiho.
Chiho (sentindo a mão tremer): Ela não pode te ouvir...
Sakura (dando alguns passos a frente): Sua irmã veio a Tomoeda atrás de você. Eu a encontrei mais cedo. Ela está morrendo de preocupação. Todas elas sentem sua falta e querem te ajudar.
Chiho (a tremedeira piorando): Ela não pode te ouvir...
Sakura: Galathea não sabe a força que existe nos laços de familia. Se você se esforçar, nós podemos derrotá-la juntas. Você quer voltar para sua familia, não é?
Chiho: CALADA!

O grito de Chiho faz todo aquele local ser abalado por um leve tremor. Repentinamente os alunos começam a cercar Sakura e Kerberos.

Chiho: Acabem com esses dois de uma vez. Tenho um ritual para terminar.
Kerberos: E o que você pretende fazer, bruxa?
Chiho: Não é óbvio? Vou reunir o resto da minha alma e tomar este corpo em definitivo.
Sakura: Eu não vou deixar!

Sakura sente alguém segurar seus braços. Ao olhar para trás, ela se surpreende ao ver que se tratava do professor Terada.

Sakura: P-professor?

O professor nada responde, se limitando apenas a continuar segurando a menina. Seus olhos, vazios e sem vida, eram um pouco assustadores. Dois garotos da escola Tomoeda se aproximam segurando pedaços de madeira e parecendo prontos para surrar Sakura.

Kerberos: Sakura!

O guardião se move agilmente e afasta os dois garotos com uma cabeçada. Sakura aproveita a distração e pisa no pé do professor Terada. A dor faz com que o professor se distraia e a herdeira de Clow consegue se libertar.

Sakura: Sinto muito, professor.

Kerberos afasta mais dois garotos dando golpes com suas patas. Ele se prepara soltar uma de suas rajadas de fogo, mas Sakura o impede colocando sua mão na frente.

Sakura: Você não pode fazer isso! Eles podem acabar se machucando!
Kerberos: Mas se eu não fizer nada, eles vão machucar você!

Sakura e seu guardião ficam lado a lado e vão recuando alguns passos. Os garotos vão se aproximando cada vez mais, alguns deles portando pedaços de madeira e pedras. Um círculo de pessoas havia sido formado ao redor de Kerberos e Sakura. A herdeira de Clow analisava os rostos da multidão procurando por Shaoran Li, mas o garoto chinês não estava em nenhum lugar visível.

Sakura: Shaoran! Onde quer que você esteja, apareça. Eu estou aqui para te ajudar! Nós podemos superar isso juntos!
Chiho: Tolinha... seu namorado é meu mascote agora.

Shaoran havia subido até o altar e Chiho agora abraçava o garoto e brincava com seu cabelos castanhos. O olhar do garoto chinês estava vazio e sem vida, da mesma forma que Sakura vira em seu sonho. Sakura sente seu coração bater mais acelerado, seu peito tomado por uma aflição.

Sakura: Shaoran...

Kerberos suspira.

Kerberos: Não tem jeito...

Repentinamente o guardião se joga sobre alguns dos garotos, derrubando-os. Isso acaba abrindo um caminho em meio aos garotos.

Kerberos: Fuja, Sakura!
Sakura: Mas e você?!
Kerberos: Eu vou atrasar eles! Vá atrás de ajuda! Traga Clow e Yue aqui!

Apesar de receosa, Sakura salta sobre os garotos e começa a correr.

Kerberos: Nem pensem em ir atrás dela. Sua briga agora é comigo.

Apesar de seu esforço, Kerberos não consegue conter todos os garotos. Alguns deles saem correndo em perseguição a herdeira de Clow. Sakura corre em zigue-zague por entre as árvores, tomando cuidado para se desviar das pedras que eram arremessadas contra ela. Sakura deixa a reserva Saijou e dá a volta no quarteirão. A menina corre com todas as suas forças, só parando para respirar quando alcança o parque do rei pinguim.

Sakura: Preciso pedir ajuda...

Sakura retira seu celular do bolso e se prepara para fazer uma ligação, mas o aparelho é atirado longe quando algo atinge a mão da menina.

Sakura: Y-yamazaki?

O colega de classe de Sakura estava segurando um bastão de beisebol. Ele avança rapidamente e tenta um ataque. Sakura se esquiva e dá uma cambalhota, indo parar atrás de Yamazaki.

Sakura: Por favor, pare.

Mais três golpes. Sakura vai se esquivando e se afastando, ainda tentando conversar com Yamazaki.

Sakura: Você tem que ser forte. Não deixa aquela mulher te controlar. A prima de sua namorada precisa de nossa ajuda.

Mais dois golpes. Sakura consegue se esquivar deles, mas acaba atingida por um chute na barriga.

Sakura (colocando a mão na barriga e dando alguns passos para trás): Aiii!

Yamazaki havia ganho o reforço de mais dois garotos e cerca de mais dez se aproximavam do parque. Alguns rostos eram conhecidos, sendo alunos da mesma classe de Sakura ou parentes de suas amigas. Com medo de reagir e ferir pessoas inocentes com sua magia, Sakura resolve continuar correndo. Os garotos, sem pensar duas vezes, correm atrás dela.

Sakura: Eu não posso ficar fugindo... tenho que contê-los de alguma forma...

Sakura atravessa uma rua correndo. O sinal fecha atrás dela, mas mesmo assim os garotos também atravessam, quase sendo atropelados no processo. As pessoas que andavam nas ruas observavam a tudo, curiosas. Alguns se perguntam o que estava acontecendo, outros resolvem procurar policiais para acabar com aquela confusão. Os garotos, em sua gana para alcançar seu alvo, acabam derrubando algumas senhoras que saíam de um supermercado. As senhoras se levantam, reclamando bastante.

Sakura segue correndo, mudando seu caminho para algumas ruas residenciais. Não havia ninguém naquela área para presenciar a perseguição, o que era bom. Não era preciso envolver mais inocentes. Sakura passa por um terreno baldio e dá uma volta num pequeno parque em reforma. Ela logo percebe que estava próximo a reserva Saijou novamente, com uma das entradas secundárias não muito distante. Sakura puxa a chave mágica no cordão em seu pescoço.

Sakura: Chave que guarda o poder da minha estrela...

Um reluzente círculo mágico se forma aos pés da herdeira de Clow.

Sakura: ... mostre seus verdadeiros poderes sobre nós...

Sakura vê uma escadaria e resolve escorregar pelo corrimão para ir mais rápido. Um dos garotos tenta imitar a menina e acaba caindo de cara num dos degraus. Os outros garotos, entre eles Yamazaki, optam por correr pelos degraus. A chave mágica, conduzida pelo poder da invocação, começa a flutuar na frente de Sakura.

Sakura: ... e ofereça-os a valente Sakura que aceitou esta missão...

Sakura estende seus braços.

Sakura: LIBERTE-SE!

A chave mágica se transforma no báculo de estrela. Sakura agarra o objeto e salta. A herdeira de Clow gira no ar e saca uma carta mágica.

Sakura: GELO!

Uma espécie de poeira branca emerge da carta e se espalha por todo o caminho a frente de Sakura. Em questão de segundos, Yamazaki, os outros garotos e a escadaria acabam completamente congelados. Sakura se aproxima do amigo congelado e toca seu ombro.

Sakura: Me desculpem por isso, mas é para o bem de vocês. Assim que eu resolver tudo, prometo libertá-los.

Sakura começa a olhar os arredores, parecendo estar procurando por algo.

Sakura: Perdi meu celular... talvez tenha algum telefone público por aqui... preciso avisar o Eriol e...

Sakura se assusta ao ouvir um forte estrondo. As nuvens sobre a reserva Saijou se tornam negras e começam a rodopiar como numa dança, criando uma espécie de funil. Raios rompem os céus e um feixe de luz amarelo desce das nuvens até algum lugar da reserva Saijou.

Sakura: Aquele feixe de luz... deve fazer parte do ritual de Galathea...

"Eu sei que prometi buscar ajuda, mas se eu sair para procurar o Eriol agora, quando voltar pode ser tarde demais..."

Policial 1: Parece que eles vieram por aqui!
Policial 2: Aquelas senhoras disseram que perseguiam uma garota...

Os pensamentos de Sakura são interrompidos quando ela ouve os passos de pessoas se aproximando. Isso não podia acontecer. Seria dificil explicar os garotos congelados e mais dificil ainda fazer com que fiquem longe da reserva Saijou.

Sakura: Preciso criar uma barreira de proteção...

Sakura pega todas as suas cartas mágicas e as lança no ar.

Sakura: Cartas criadas com o poder da minha estrela, levantem uma barreira que mantenha inocentes afastados dessa àrea...

As cartas giram no ar e só param quando formam um círculo acima da cabeça de sua mestra. Um feixe de luz emerge de uma das cartas e atinge uma outra carta. A luz atinge essa carta sem causar nenhum dano e é refletida para a carta seguinte. O feixe luz passa por todas as cartas e quando volta ao seu ponto de origem, percebe-se que o desenho de uma estrela havia sido feito no ar.

Sakura: ESPAÇO RESTRITO!

A estrela luminosa sobe aos céus e se expande, cobrindo toda a reserva Saijou e um pouco de seus arredores. Aquela magia havia criado uma espécie de barreira transparente naquela àrea. Os policiais logo alcançam o limite de barreira.

Policial 1: Eu acho que eu vi a garota... espera!
Policial 2: O que foi?
Policial 1 (apontando para uma outra direção): Os baderneiros e a garota foram por ali. Eu acho que vi o vulto deles virando a esquina...

Os dois policiais estavam diante de Sakura e dos garotos congelados, mas pareciam não ser capazes de vê-los.

Policial 2: Estão tentando nos despistar.
Policial 1: Vamos logo ou ficaremos para trás!

Então os dois policiais voltam a correr, dessa vez indo para longe da reserva Saijou. Sakura caminha até a barreira, visivel apenas para pessoas dotadas de poderes mágicos. A barreira reage ao toque e forma uma espécie de onda. Parecia até que uma pedra havia sido jogada num lago.

Sakura: Só espero ter conjurado direito... essa barreira vai manter as pessoas sem magia longe, pelo menos por hora.

Sakura olha para o céu. O feixe de luz ainda estava erguido, esperando a conclusão do ritual de Galathea.

Sakura: O Eriol deve ver essa coisa no céu e vir para cá o mais rápido possivel. Vou tentar ganhar tempo.

Sakura saca uma de suas cartas mágicas.

Sakura: ALADA!

Um par de imponentes asas brancas surge nas costas de Sakura. Ela imediatamente levanta vôo, sobrevoando o terreno da reserva e voltando ao local onde se encontrava o altar. Os outros garotos sob o controle de Galathea haviam de alguma forma derrotado Kerberos e o amarrado com algumas cordas e arames.

Sakura: Kerberos!

Sakura pousa diante dos garotos, o báculo ainda em mãos.

Sakura: Por favor, se afastem.

O pedido de Sakura é prontamente ignorado. Os garotos, liderados por alguns funcionários adultos da escola Tomoeda, partem para cima da herdeira de Clow. Sakura saca uma de suas cartas mágicas.

Sakura: GELO!

Um pó congelante emerge da carta e prende todas aquelas pessoas em blocos de gelo, onde ficariam imóveis e seguras. O professor Terada acaba congelado quando suas mão estavam próximas ao pescoço da herdeira de Clow. Sakura corre até seu guardião para ajudá-lo. Kerberos tinha feridas de gravidades variadas sobre seu corpo.

"Como foi que essas pessoas conseguiram machucar o Kero desse jeito?"

Sakura: Sinto muito, Kero. Não devia ter te deixado.
Kerberos: V-você fez o certo... eu é q-que... q-que fui fraco... c-conseguiu achar C-Clow?
Sakura: Não, mas acho que aquilo deve chamar a atenção dele...

Sakura aponta para o feixe de luz amarelo que surgia do céu e terminava seu caminho banhando o altar improvisado de madeira.

Kerberos: S-sakura... v-você precisa impedir... o ritual...
Sakura: Mas eu não sei o que fazer... se ao menos o Shaoran estivesse aqui... talvez eu pudesse libertá-lo do controle de Galathea e...

A menina olhava para os blocos de gelo mais próximos, procurando por seu namorado. O garoto não estava ali e provavelmente ainda estava ao lado de Galathea. Sakura olha com mais cuidado para o altar e nota que Chiho estava caída no altar. Parecia desmaiada.

Sakura: Chiho!
Kerberos: R-ritual... c-concentre-se no r-ritual... só precisa perder... a-arrancar...
Sakura: Não estou entendo... do que você está falando?
Kerberos: T-tome c-cuidado... com... com...

Um golpe com um taco de beisebol é desferido. Sakura se esquiva no último instante e dá uma cambalhota para trás. A menina logo se levanta e se surpreende ao observar sua atacante.

Sakura (a voz falhando): G-galathea?

Diante de Sakura havia uma estranha boneca de madeira. Tinha a altura de uma mulher adulta e o corpo cheio de marcas de apodrecimento. O cabelo era feito de galhos de variados tamanhos. A boneca se movia com uma estranha naturalidade, parecendo quase humana.

Galathea (tapando o rosto): Não me olhe desse jeito! Esse corpo é apenas parte do ritual!
Sakura: Mas... mas isso é muito estranho...
Galathea (batendo o taco na mão): Não é possivel reunir os pedaços de minha alma diretamente dentro de um corpo físico, então criei esse corpo de madeira para isso. Quando minha alma estiver completa, vou poder transferí-la para o corpo daquela menina... daí então poderei ser a mais bela novamente e terei todos esses malditos homens aos meus pés!

Sakura olha para Kerberos. O guardião havia desmaiado, vítima dos ferimentos que sofrera, e retornado a sua identidade falsa. A menina teria que agir sozinha. Galathea olhava para o céu.

Galathea: Assim que as estrelas estiverem devidamente alinhadas, eu terei finalmente meu retorno garantido!
Sakura: Eu não vou permitir!

Sakura havia sacado duas cartas mágicas e apontava seu báculo ameaçadoramente para Galathea. A vilã solta uma sonora gargalhada e larga o taco no chão.

Galathea: Se você quiser lutar, eu lhe darei um combate...

Sakura repentinamente sente uma enorme aflição tomar conta de seu peito. Era como se ela estivesse com medo de fazer algo muito ruim. A menina não conseguia compreender de onde surgiam esses sentimentos.

Galathea: ... mas não serei eu sua adversária.

Shaoran surge caminhando das sombras. Trazia em sua mão uma espada com um cabo dourado enfeitado com o desenho vermelho de uma dragão. Era a poderosa espada mágica do garoto chinês. Sakura entendia agora o significado daqueles sentimentos. Eram os sentimentos de Shaoran.

Sakura: Não pode ser...

(CONTINUA...)

Notas finais
Olha eu aqui de volta postando mais uma parte da história. Espero que estejam curtindo ^^

A próxima parte será a ultima desse capítulo.

Curiosidades:

- Senpai significa "veterano". É usado para se referir a alunos de séries mais avançadas na escola. Serve, também, para denotar hierarquia.