Card Master Sakura
17 Capítulo 12 - As muitas vidas de Sakura (PT2)
Notas iniciais
[Imagem Ilustrativa do Capitulo]
Reiko pisca por um instante e nota que tudo ficara escuro. Ela esfrega os olhos e então percebe que estava presa em algum lugar. Agitada, Reiko começa a bater na porta até que ela se escancara. A menina cai no chão e vomita.
Reiko: Essa vez foi pior que a anterior...
Reiko olha ao redor e percebe que estava num corredor escolar. Havia ficado presa num apertado armário para materiais de limpeza.
Reiko: Eu podia ter surgido num lugar mais confortável, não é?
Repentinamente a porta de uma sala se abre e dois rapazes com cerca de 17 anos saem de dentro dela.
Rapaz 1: O barulho veio daqui, chefa. Têm uma garota nos espiando.
Rapaz 2: Vamos pegá-la!
Reiko se levanta e começa a correr, mas é facilmente alcançada e segura pelos dois rapazes.
Reiko: Me soltem! Socorro! Socorro!
Rapaz 1: Ninguém vai vir te ajudar, pirralha.
Os rapazes arrastam Reiko para uma sala de aula empoeirada e cheia de cadeiras velhas e quebradas. Havia um grupo de rapazes formando um círculo no meio da sala. No meio do círculo havia um homem de cabelos negros e olhos bem fechados usando uma jaqueta da polícia. Provavelmente um detetive. Ele estava discutindo com uma garota de 17 anos, a única outra mulher no recinto além de Reiko. A garota tinha cabelos castanhos que iam até a altura do ombro e estavam parcialmente cobertos por uma toca preta, olhos verde-esmeralda e um corpo com atributos já bem definidos. Estava usando uma camisa roxa um pouco larga, uma saia jeans com a borda desfiada e uma meia-calça com listras pretas e brancas, além de uma bota que ia quase até a altura do joelho. Em seu pescoço reluzia um cordão de metal com a imagem de uma estrela. Seus punhos estavam protegidos por faixas.
Reiko (boquiaberta): S-sakura?
Sakura não havia ainda prestado atenção em sua nova convidada. Estava focada em sua conversa com o detetive.
Sakura: A resposta ainda é a mesma, detetive Yamazaki. O Fronte da Liberdade se interessa apenas em brigas de rua. Não queremos tomar parte de seus negócios sujos.
Detetive Yamazaki: Você está cometendo um erro, Kinomoto. Eu já estou negociando com os Dragões da China e eles se mostraram interessados na minha oferta...
Sakura dá uma estrondosa gargalhada.
Sakura: Não me faça rir, detetive Yamazaki. Os Dragões são uns babacas, mas não são burros. Tenho certeza que também recusaram a oferta...
Sakura olha para trás e fita pela primeira vez o rosto de Reiko.
Sakura: Aparentemente eles até mandaram uma espiã para ter certeza de qual seria nossa resposta.
Detetive Yamazaki: Você não vai poder continuar com seus joguinhos por muito tempo, Kinomoto. Eu estou tomando essa cidade pouco a pouco... logo, logo, você só terá duas escolhas: ou estará comigo, ou estará num caixão.
Sakura: Isso é uma ameaça, detetive?
Yamazaki saca uma pistola e a aponta para o rosto de Sakura.
Detetive Yamazaki: Pode apostar que sim, sua ignorante.
Sakura, num ágil movimento, retira a pistola da mão do detetive e aponta para ele.
Sakura: Não se engane. Você está no meu território.
Sakura derruba as balas no chão e desmonta a pistola, atirando as partes para seus companheiros de gangue.
Sakura: Eu dou as cartas por aqui.
Detetive Yamazaki: Ora, sua...
Sakura acerta um chute no estomago do detetive, fazendo-o cambalear. Em seguida, ela o agarra pelo braço e bate sua cabeça contra uma das cadeiras com força. Sakura dobra o braço do detetive, fazendo ele gritar de dor. Até mesmo os companheiros de Sakura parecem assustados com sua líder.
Detetive Yamazaki: Você está se metendo com um policial, sua maluca.
Sakura: Não mesmo. Nós respeitamos policiais de verdade. Para canalhas como você, nós reservamos um tratamento especial.
Sakura torce o pulso do detetive e o joga no chão.
Sakura: Espero que você tenha entendido a resposta dessa vez. Se vier atrás de nós de novo, vai voltar para casa numa cadeira de rodas.
Detetive Yamazaki: Você vai se arrepender...
Sakura: Tirem esse traste da minha frente.
Três rapazes da gangue agarram o detetive e o arrastam para fora da sala de aula. Sakura, então, volta sua atenção para Reiko. Ela anda ao redor da menina, analisando-a de cima a baixo.
Sakura: Qual é o seu nome?
Reiko: ...
Sakura: Eu perguntei qual é o seu nome!
Reiko: R-reiko...
Sakura: Quem te mandou aqui?
Reiko: N-ninguém...
Sakura lança um olhar ameaçador para Reiko.
Sakura: Você viu o que eu acabei de fazer com aquele homem, não é?
Reiko: S-sim...
Sakura: Então eu vou perguntar mais uma vez e espero que você diga a verdade... quem te mandou aqui?
Reiko: Ninguém... eu apenas estava perdida...
Sakura: Hmmm...
Rapaz 1: Você não vai acreditar nessa guria, vai?
Rapaz 2: Tá na cara que ela é espiã dos Dragões.
Sakura suspira.
Sakura: Pois bem... se ela é uma espiã, então vamos devolvê-la para seu chefe.
Todos os membros presentes da gangue gritam em aprovação.
Sakura: Tragam-na.
Sakura sai andando da sala com toda a sua gangue a acompanhando. Reiko é arrastada por dois rapazes. No caminho, se deparam com um dos seguranças da escola, mas não se mostram nem um pouco intimidados.
Sakura: Saia da frente, coroa.
Assustado, o segurança apenas dá um passo para o lado, cedendo passagem. Após deixar a escola da cidade de Mashino, a gangue conhecida como Fronte da Liberdade, ruma pelas ruas, atraindo olhares temerosos no caminho. Eles encerram sua marcha quando chegam a uma praça quase na divisa da cidade. Havia um riacho que cortava a praça no meio. Este mesmo riacho servia de divisa para territórios de gangues. Uma ponte de pedra passava sobre as águas, que refletiam o brilho das estrelas presentes naquela noite. A gangue pára no inicio da ponte.
Rapaz 1: Eles estão aqui, chefa.
Todos os membros da gangue de Sakura ficam em posição de combate. Do outro lado da ponte havia um grupo de rapazes fazendo o mesmo. O líder deles dá um passo a frente. Era um rapaz esguio, com cabelos castanhos que iam até a altura do ombro, barba mal-feita e intimidadores olhos na cor âmbar. Reiko fica boquiaberta quando o reconhece.
Sakura: Ora, ora. Justo quem eu estava procurando. Shaoran Li, o covarde do momento.
Shaoran: Você devia medir melhor suas palavras, Sakura Kinomoto. Você está praticamente no território dos Dragões da China. Um território em expansão, pelo que você já sabe.
Sakura: Só por cima do meu cadáver.
Sakura estala os dedos. Um dos rapazes empurra Reiko em direção a Sakura, que segura a menina com força pelo braço.
Sakura: Se você quiser saber algo sobre nós, basta vir perguntar. Não precisar mandar crianças como espiões.
Sakura empurra Reiko para o meio da ponte. Shaoran dá uma risada.
Shaoran: Eu não sei do que você está falando. Vocês do Fronte é que mandaram uma guria para tomar conta da gente. Jing, traga-a aqui.
Um rapaz ruivo com o rosto marcado por muitas sardas entrega uma garota para Shaoran. O líder da gangue também empurra a menina para o meio da ponte. Reiko fica feliz ao reconhecer a menina.
Reiko: Kazuko!
As duas meninas se abraçam, aliviadas. As duas gangues observam o abraço, ostentando olhares confusos.
Sakura: Ela não trabalha com eles?
Shaoran: Você não era mesmo uma espiã?
Kazuko: Eu tentei te dizer. Só estava na hora errada, no lugar errado. Não tenho nada a ver com a briga de vocês.
Reiko: Eu nunca teria nada a ver com esse tipo de coisa... nem ao menos gosto de violência...
Shaoran olha para Sakura e sorri.
Shaoran: Parece que elas são inocentes...
Sakura: É... elas não pareciam muito inteligentes mesmo para esse tipo de coisa...
Shaoran: Isso acaba com o nosso motivo para dar uma surra em vocês...
Sakura: Já que estão aqui... que tal vocês levarem uma surra sem motivo mesmo?
Então os membros das duas gangues começam a correr pela ponte e se chocam no meio dela. Eles trocam golpes violentos entre si. Os focos das brigas logo vão se espalhando pela praça e destruindo tudo no caminho. As pessoas que passeavam por ali logo começam a correr e a gritar por socorro. Reiko e Kazuko resolvem se proteger atrás de um banco.
Reiko: Eu não estou gostando nada desse mundo...
Kazuko: Nós vamos ter trabalho para conseguir ajuda por aqui...
Os líderes das gangues finalmente se encontram para uma batalha. Sakura desfere o primeiro golpe, tentando um soco no estomago do adversário. Shaoran bloqueia o golpe com um braço e contra-ataca com um chute. Sakura dobra seu corpo e se esquiva do golpe. Em seguida ela acerta dois socos no rosto de seu adversário e tenta agarrar o pescoço dele. Shaoran consegue se livrar dando uma cabeçada no rosto de sua adversária. Os dois líderes se afastam alguns passos. Shaoran cospe um pouco de sangue, um pequeno corte se destacando em seu lábios. Sakura limpa o rosto com suas mãos. Seu nariz estava sangrando.
Shaoran: Você está muito lenta... por acaso está perdendo o jeito?
Sakura: Estou apenas me aquecendo, cara.
Sakura salta em direção a Shaoran e acerta um chute em seu peito. Ao pousar sobre um banco, ela acaba sentindo por um momento o tornozelo. O garoto percebe, mas não ataca a perna de sua adversária, preferindo acertar um chute no rosto dela. Sakura voa no ar e capota duas vezes no chão. Shaoran corre para desferir mais um golpe, entretanto Sakura o derruba com uma rasteira.
Reiko: Nós não devíamos fazer alguma coisa?
Kazuko: O que podemos fazer? Eles estão agindo feito loucos. Alguém vai acabar gravemente ferido...
Reiko: Eu... eu não acho que eles estão levando isso tão a sério...
Kazuko: O que? Como assim?
Reiko: Sakura e Shaoran... os olhares que eles trocam... é como se apenas estivessem se divertindo... não vejo ódio de verdade ali.
Sakura acerta uma cotovelada no abdomen de Shaoran, que devolve com um soco.
Kazuko: Tudo que eu vejo são duas pessoas prontas para se matar.
Sirenes. Cinco viaturas policiais chegam a praça. Isso provoca uma confusão generalizada. Membros das duas gangues começam a correr para todos os lados, tentando escapar dos policiais que haviam chegado.
Kazuko: Vamos!
Kazuko pega a mão de Reiko e as duas meninas começam a correr. Elas procuram se afastar tanto das gangues quanto dos policiais. Só páram de correr minutos depois quando Reiko, exausta, cai no chão e acaba ralando o joelho. Kazuko se agacha para verificar a amiga.
Kazuko: Você está bem?
Reiko: A-acho que sim... eu... eu nunca me dei muito bem com atividades físicas... e ainda... ainda estou um pouco enjoada por causa da mudança da realidade...
Kazuko: Você está suando muito... vamos procurar um lugar para você lavar o rosto e cuidar desse joelho.
Kazuko olha ao redor, procurando por opções.
Kazuko: Tem um posto de gasolina ali na frente. Consegue andar?
Reiko (ainda respirando com dificuldade): Sim... eu acho que sim...
Kazuko: Vêm. Eu te ajudo.
Kazuko coloca seu braço envolvendo a cintura de Reiko e ajuda a menina a caminhar até o posto de gasolina. As luzes eram fracas e o lugar parecia abandonado. As duas meninas caminham até a lateral do posto, onde uma placa indicava os sanitários. Com sorte, ainda estariam em funcionamento. Kazuko pára de andar e retrocede por um momento.
Reiko: O que foi?
Kazuko: Pensei ter visto alguém entrar no banheiro.
Reiko: Será que é a policia?
Kazuko: Hmmmm. Espere aqui. Eu vou verificar.
Reiko: Não. Eu vou com você. Estamos juntas nessa, lembra?
Kazuko: Está bem. Mas temos que ser silenciosas ou seremos pegas.
As meninas caminham lentamente, um passo de cada vez, e abrem um pouco a porta do banheiro feminino sem fazer barulho.
Reiko (sussurrando): O que o Shaoran está fazendo aqui?
Kazuko: Shhhhh.
Shaoran estava lavando rosto em uma das pias. Mas ele não estava sozinho. A pessoa que Kazuko havia visto de relance era Sakura. Ao vê-la, Shaoran abre um largo sorriso.
Shaoran: Essa foi divertida, não é?
Sakura se aproxima e dá um soco em Shaoran. O garoto cambaleia e colide com uma das paredes, derrubando alguns pedaços de azulejos.
Shaoran (passando a mão no queixo): Ei! Por que isso?
Sakura (pressionando um dedo indicador no peito de Shaoran): Quantas vezes vou ter que dizer para lutar a sério comigo?
Shaoran: Do que você está falando?
Sakura: Meu tornozelo. Eu sei que você percebeu que ele fraquejou devido a um ferimento anterior. Você devia ter se aproveitado do fato na luta. Se fosse qualquer outro oponente, você o teria feito.
Shaoran (sorrindo sarcasticamente): Mas você não é qualquer oponente, certo?
Sakura: Ora, seu...
Sakura agarra a gola da camisa de Shaoran com força. Kazuko e Reiko se entreolham.
Kazuko (sussurrando): Acho que agora eles vão terminar de se matar...
Sakura puxa Shaoran para perto dela e o beija com paixão. Kazuko despenca no chão.
Kazuko (sussurrando): Como pode isso? Eles estavam quase se matando agora há pouco e agora estão se beijando?
Reiko (sussurrando): Eu disse que não havia ódio no olhar deles...
Kazuko (sussurrando): Vamos embora... essa cena está me deixando enjoada...
Reiko (sussurrando): Mas nós devíamos aproveitar e...
Ao se mover, Reiko acaba chutando uma lata de refrigerante por acidente. O ruído logo chama a atenção do casal no banheiro.
Kazuko: Essa não! Vamos!
Era tarde demais. Sakura já havia saído do banheiro e segurado Reiko pelo cabelo.
Sakura: Ora, ora. O que temos aqui?
Kazuko: Reiko!
Kazuko corre em direção a Sakura, mas acaba sendo agarrada por Shaoran.
Shaoran: Não tão rápido.
As meninas são arrastadas para dentro do banheiro. Uma das lixeiras é derrubada para bloquear a saída. Reiko e Kazuko são acuadas num canto do banheiro. Sakura repentinamente dá um soco na parede, o que assusta as meninas.
Sakura: O que estavam fazendo?
Shaoran: Quem mandou vocês aqui?
Reiko: N-ninguém...
Kazuko: Nós apenas estávamos fugindo... procuramos abrigo...
Reiko: E-encontramos vocês aqui por acidente...
Kazuko: Aliás... vocês não deviam ser rivais?
Sakura dá mais um soco na parede, dessa vez um pouco mais próximo do rosto de Kazuko. A garota olha para o lado e nota que a parede chegara a rachar.
Shaoran: Cara... isso é um problema...
Sakura: Vocês descobriram nosso segredo mortal... não podemos deixar que saiam vivas...
Reiko: O-o q-que?
Sakura se prepara para desferir mais um soco, mas Shaoran segura seu braço.
Shaoran: Espere... veja.
Shaoran aponta para o joelho ferido de Reiko. Ele se agacha diante da menina.
Shaoran: Está doendo muito?
Reiko: Hoe?
Shaoran: Seu joelho... está machucado... está doendo? Eu posso te ajudar?
Sakura despenca.
Sakura (gota caindo): Não acredito que você vai ser gentil com essas pirralhas. Elas descobriram nosso segredo!
Kazuko: Nós prometemos não contar para ninguém.
Sakura (fechando o punho): Não acho que seja o bastante...
Shaoran lança um olhar de repreensão para Sakura.
Shaoran: Você já assustou elas o bastante, Sakura. Se elas prometeram não contar, então elas vão seguir a promessa, certo?
Reiko: C-certo...
Shaoran joga um pouco de água na ferida para limpá-la. Em seguida, ele rasga um pedaço de sua camisa e enfaixa o joelho de Reiko.
Shaoran (sorrindo gentilmente): Isso é apenas um quebra galho. Depois você precisa fazer um curativo de verdade, tá?
Reiko (corando levemente): T-tá...
Kazuko se levanta e ajuda Reiko a se erguer, envolvendo a cintura da amiga com um de seus braços.
Shaoran: Vocês conseguem ir para casa?
Kazuko: Hmmm... bem... nós meio que não temos para onde ir...
Shaoran: Hmmm... isso é ruim. Já está bem tarde da noite...
Sakura (murmurando): Não acredito que ele vai dizer isso...
Shaoran olha para um espelho por um instante. Em seguida, ele olha para as duas meninas na sua frente e sorri.
Shaoran: Que tal vocês passarem a noite lá em casa?
Sakura: Droga. Ele disse mesmo.
Reiko: N-nós não queremos... atrapalhar...
Shaoran: Não se preocupem. Têm bastante espaço no meu apartamento, já que eu moro sozinho. Vocês passam a noite lá e amanhã seguem seu caminho. Fechado?
Reiko logo pensa em recusar, mas Kazuko age mais rápido.
Kazuko: Fechado.
Sakura segura Shaoran pelo braço.
Sakura: Você está falando sério? Essa era para ser a nossa noite...
Shaoran: Eu não posso dar as costas a duas meninas com problemas...
Sakura: Então você vai me largar aqui? Tá bom então. Vai cuidar das suas menininhas então.
Sakura cruza os braços e dá as costas para Shaoran. O rapaz pega Reiko e Kazuko pela mão e abre a porta para sair.
Shaoran: Você é bem-vinda para vir também se quiser, Sakura.
Shaoran e as meninas fecham a porta ao sair. Sakura fica ali parada por alguns minutos sem mudar de posição. Por fim ela suspira pesadamente.
Sakura: Bem... a noite vai ser um tédio mesmo...
Cerca de quarenta minutos depois, Shaoran, Reiko, Kazuko e Sakura chegam a um apartamento no segundo andar de um edificio próximo ao centro da cidade. Sakura entra pelos fundos, pois não queria ser vista entrando naquele apartamento. O apartamento realmente tinha bastante espaço. Bastante espaç o vazio. Haviam poucos móveis ali e os poucos que haviam eram velhos e acabados. Para piorar, haviam restos de comida por todo o lugar. Reiko e Kazuko se sentam num sofá cheio de buracos enquanto Sakura se joga numa poltrona.
Shaoran: Vou pegar uns refrigerantes pra gente.
Shaoran vai até a cozinha revirar a geladeira. Kazuko fica observando a casa, admirada que alguém conseguisse viver num lugar como aquele. Reiko fica observando Sakura. Esta versão era totalmente diferente do que ela conhecia, mas ainda assim lhe parecia extremamente familiar.
“É como se eu estivesse olhando para uma versão mais velha da onee-chan...”
Sakura acaba notando o olhar de Reiko.
Sakura: Tá me olhando por quê?
Reiko: P-por n-nada...
Sakura (resmungando): E pensar que eu poderia estar me divertindo agora... maldito complexo de irmão mais velho...
Shaoran: Não é bem isso...
Shaoran havia colocado algumas latas de refrigerante na mesa. Todos se servem. Shaoran se senta no braço da poltrona onde Sakura estava sentada.
Reiko (com um olhar curioso): O que é um complexo de irmão mais velho?
Shaoran: É uma coisa que a Sakura inventou...
Sakura: É quando você age como um babaca querendo sempre protegendo uma menina mais nova, tratando-a como se fosse sua irmã.
Reiko: Então você está nos tratando como se fossemos suas irmãs?
Shaoran: É... bem...
Kazuko: Por que você faria isso? Têm vontade de ter irmãs?
Shaoran e Sakura se entreolham por um momento.
Shaoran: Você tinha que tocar nesse assunto, não é?
Sakura (sorrindo): Por que estragar só a minha noite se eu possa estragar a sua também?
Reiko: V-você não precisa falar se não quiser.
Shaoran suspira.
Shaoran: Não. Está tudo bem. Eu tinha uma irmã mais nova... ela se chamava Feimei.
Kazuko: E onde ela está agora?
Shaoran: Ela morreu num acidente.
Reiko: Sinto muito.
Shaoran: Obrigado. Feimei faleceu num acidente de trânsito... ela estava voltando da escola e eu devia ter ido buscá-la, mas acabei me atrasando...
As palavras pareciam machucar Shaoran quando saiam de sua boca.
Shaoran: Ela tentou voltar sozinha... atravessou a rua com um sinal aberto e...
Shaoran não consegue continuar. A dor da lembrança era forte demais. Sakura coloca a mão no ombro dele.
Sakura: Ela foi atropelada por um caminhão. Shaoran estava passando de bicicleta naquela rua e testemunhou tudo.
Shaoran: Se eu tivesse pedalado mais rápido, eu teria conseguido tirá-la do caminho...
Sakura: Não seja idiota. Não há nada que você pudesse ter feito.
Sakura termina com seu refrigerante e joga a lata numa cesta de lixo próximo a porta. Como a cesta estava muito cheia, a lata acabou ricocheteando e caindo no chão.
Sakura: E é por isso que ele tem esse complexo de irmão mais velho. Eu devia imaginar que quando ele notasse que vocês estavam com problemas de verdade, isso ia acabar acontecendo...
Todos ficam em incômodo silêncio por alguns instantes.
Shaoran: Bem... vocês estão com fome?
Reiko: Nós... nós não queremos abusar de você...
Shaoran: Eu estou faminto. Seria capaz de comer qualquer coisa. Bem... menos a comida da Sakura.
Sakura (uma veia saltando na testa): Como é?
Kazuko: A comida dela é tão ruim assim?
Shaoran: Você não faz idéia. Uma vez ela fez uma omelete e deu para o cachorro da vizinha provar. O pobre animal não teve chance e morreu instantaneamente...
Sakura dá um soco na nuca de Shaoran, derrubando-o no chão.
Sakura: Isso não é verdade, idiota. O cachorro era velho e já estava para morrer. Minha comida não teve nada a ver com isso.
Sakura cruza os braços e vira o rosto.
Shaoran: O que é isso, Sakura? Vai ficar chateada só por causa de uma brincadeira? Não pensei que você fosse tão sentimental.
Sakura: Não tem nada a ver com sentimentos. É uma questão de respeito.
Shaoran se ajoelha diante de Sakura.
Shaoran: Sakura, eu te amo.
Sakura arregala os olhos e cora violentamente.
Sakura (sem saber para onde olhar): Hã? Eu... hmmm... eu... bem... eu também te amo!
Sakura dá um outro soco em Shaoran e começa a enforcá-lo.
Sakura: Idiota! Não me faça dizer coisas embaraçosas assim na frente dos outros!
Kazuko (gota caindo): Esse é um casal... bem diferente...
Reiko (rindo): Eu acho que eles ficam muito bem juntos.
Shaoran consegue se desvencilhar de Sakura.
Shaoran: Vou preparar uns sanduíches pra gente.
Shaoran se dirige a cozinha e começa a revirar os armarios. Ele volta instantes depois e serve alguns sanduiches de atum.
Kazuko: Que nojo. Odeio atum.
Shaoran: É isso ou morrer de fome. A escolha é sua.
Sem escolha, Kazuko começa a comer os sanduiches junto com os outros.
Reiko: Vocês são muito legais.
A fala de Reiko pega todos de surpresa.
Sakura: Como é?
Reiko: Quando vi toda aquela violência... quando vi vocês brigando... confesso que fiquei com medo. Mas vendo vocês agora... vocês dois são boas pessoas.
Shaoran (exibindo o bicepes): É claro que somos boas pessoas. Nossas brigas de rua são apenas por diversão. Nós gostamos de manter a pose de durões.
Sakura: Eu não faço pose, eu sou durona.
Sakura se espreguiça na poltrona.
Sakura: Tem uma coisa que está me deixando curiosa...
Shaoran: E o que seria?
Sakura encara Reiko e Kazuko.
Sakura: O que vocês duas estão fazendo por aqui?
Reiko: Nós estamos procurando por algo...
Sakura: E o que seria?
Reiko: É... bem... as cartas Clow.
Sakura (erguendo uma sobrancelha): Que diabos é isso?
Reiko: São cartas mágicas.
Sakura cai no chão e começa a rolar de rir.
Shaoran: Sakura... pega leve. Elas são apenas crianças.
Sakura (se levantando): Desculpe. Isso foi... hahah... um pouco... hahaha... indelicado da minha parte. Você poderia repetir o que são essas cartas que você está procurando?
Reiko: Claro. Estamos atrás das cartas Clow. Elas são cartas mágicas muito poderosas.
Novamente Sakura cai no chão e começa a rolar de rir. As risadas são tantas que chegam a sair lágrimas de seus olhos.
Shaoran (gota caindo): Isso não é muito legal, Sakura.
Kazuko aproveita a distração e cochicha no ouvido de Reiko.
Kazuko: O que você está fazendo? Eles vão achar que somos malucas.
Reiko: Nós não sabemos nada sobre este novo mundo em que estamos... achei que talvez um deles pudesse ter as cartas guardadas sem saber o que elas realmente eram...
Kazuko: Acho que a reação da Sakura serviu de resposta, não é?
Reiko (cabisbaixa): É... acho que sim...
Sakura volta a se sentar na poltrona. Shaoran se volta novamente par as meninas.
Shaoran: Vocês acreditam realmente nessas baboseiras de magia, macumba e etc?
Kazuko (balançando a cabeça freneticamente): Não, não. Vocês não entenderam. As cartas Clow são cartas mágicas de acordo com uma lenda. Não é por isso que estamos atrás delas.
Shaoran: Que alivio. Por um momento pensei que vocês acreditavam nessas baboseiras.
Kazuko e Reiko trocam olhares, como se estivessem se decidindo por seguir aquele rumo da conversa.
Kazuko: Nós estamos atrás das cartas por questões sentimentais.
Sakura: Questões sentimentais?
Reiko: Isso. Elas... elas pertenceram a alguém muito importante para mim...
Kazuko: Elas foram roubadas. Nós achamos que elas estão nessa cidade...
Shaoran: Então era por isso que vocês estavam bisbilhotando por aí?
Reiko: S-sim. Nós não imaginávamos que... que acabaríamos nos envolvendo em confusão...
Sakura: Essas cartas valem muito dinheiro?
Shaoran: Sakura!
Sakura (sorrindo): O que? É apenas uma pergunta natural. Não é como se eu estivesse cometendo nenhum crime.
Kazuko: Elas não valem muito dinheiro. O valor maior delas é sentimental.
Reiko: Hmmm...Vocês... vocês têm papel e caneta?
Shaoran e Sakura se entreolham. O rapaz vasculha a casa e entrega um bloco de anotações e uma caneta para Reiko. A menina desenha dois circulos numa folha. Em seguida ela acrescenta diversos desenhos ao interior dos circulos e mostra o bloco para Sakura e Shaoran.
“Talvez eles reconheçam os círculos mágicos de Clow ou da Sakura.”
Reiko (apontando para os circulos): Esses são os desenhos que ficam no verso das cartas. Será... será que vocês já viram algo assim?
Sakura: Hmmm. Daria uma boa tatuagem, mas não. Nunca vi esses desenhos.
Shaoran: Eu já vi esse aqui.
Shaoran aponta para um dos desenhos. Era o círculo mágico de Sakura.
Kazuko: Sério? Onde você viu?
Shaoran: Uma vez eu vi uma caixa com esse simbolo na casa do detetive Yamazaki... foi quando ele me chamou pela primeira vez para tentar recrutar os Dragões para as falcatruas dele.
Sakura: É verdade. Aquele idiota adora colecionar essas coisas de antiguidades.
Reiko: Isso é um problema... ele não me pareceu muito amistoso...
Sakura: Pode ter certeza que ele não vai dar as carta para vocês de mãos beijadas.
Kazuko: Deve haver um jeito... talvez seja possivel pegar as cartas às escondidas...
Shaoran: Podem parar por aí. Isso é roubo.
Kazuko: Elas foram roubadas de nós primeiro. Só queremos recuperá-las.
Reiko: Por favor, nos ajude.
Reiko se ajoelha para implorar por ajuda. Sakura fica apenas observando a cena, curiosa.
Shaoran (a voz demonstrando um pouco de irritação): Podem esquecer. Primeiro, eu não sei se a história do roubo é verdade. Vocês podem ser apenas duas ladras muito malandras. Segundo, invadir a casa de um policial é suicidio. É pedir para ser preso ou levar um tiro.
Reiko: M-mas... mas...
Shaoran: Se quiserem realmente fazer isso, façam sozinhas. Não queremos tomar parte disso.
Kazuko olha para Sakura como se estivesse implorando por ajuda também.
Sakura: Não adianta me olhar desse jeito não. Sou imune a sentimentalismo. Se ele disse não, então é não.
Reiko: E-entendo... desculpe por perturbá-los... eu... nós... não queremos causar problemas...
Shaoran: Eu desculpo vocês se desistirem dessa idéia estúpida. Vocês desistem?
Reiko: S-sim...
Shaoran sorri.
Shaoran: Que bom. Vocês podem dormir aqui no sofá e...
Sakura golpeia a nuca de Shaoran. O rapaz cai no chão, desacordado. Reiko e Kazuko logo correm para ajudar Shaoran.
Kazuko: O que você está fazendo? Ele é seu namorado!
Sakura: Ele é muito gatinho, mas é um mala quando decide bancar o certinho.
Sakura se agacha diante de Reiko.
Sakura: Por que você desistiu tão rápido?
Reiko: Hoe?
Sakura: Você quer pegar as tais cartas ou não?
Reiko: Q-quero.
Sakura: Se você quiser realmente uma coisa, não pode desistir no primeiro obstáculo que encontrar.
Reiko: Mas... mas... mas seria egoísmo de minha parte tentar convencer você o Shaoran a fazerem algo perigoso por nós...
Sakura: Sabe o que seria realmente egoísta? Não conseguir pegar suas cartas de volta e decepcionar essa pessoa que era tão importante para você.
Reiko: S-seria?
Sakura suspira.
Sakura: Você é muito devagar, hein? Seja um pouquinho mais confiante em si mesma... você vai ver que os bons resultados logo vão aparecer.
Sakura pega as garotas pela mão e começa a arrastá-las em direção a porta.
Kazuko: Para onde está nos levando?
Sakura: Pra onde você acha? Vamos fazer uma visita ao nosso amigo detetive...
A casa do detetive tinha um certo luxo. Possuía dois andares e uma ampla garagem. Era cercada por um alto muro de tijolos e arame farpado e iluminada por tochas acesas espalhadas pelas paredes. A porta dos fundos era dupla, feita de metal e tinha o desenho de um tigre esculpido nela. Havia uma grande árvore colada junto a parede dos fundos da casa. Ela fazia sombra no quintal, onde haviam algumas mesas, cadeiras e uma casa de cachorro. Sakura, Reiko e Kazuko dão a volta na casa para se certificar que está vazia e se reúnem diante do portão dos fundos.
Sakura: Vamos usar a árvore para entrar. Reiko, você vai na frente.
Um dos galhos da árvore ia direto até uma janela no segundo andar.
Reiko: Eu não sei se consigo...
Sakura: Sai dessa, pirralha. Respira fundo e mostra que você é capaz.
Sakura pega Reiko e a joga para o alto. A menina, num reflexo instintivo, se agarra ao galho.
Sakura: Isso! Agora vá até a janela.
Reiko (tremendo um pouco): C-certo...
Reiko se arrasta pelo galho até alcançar a janela. Ela força a tranca algumas vezes, mas não consegue abrir.
Reiko: Não abre... a janela não abre...
Sakura: Hmmm.
Sakura pega uma pedra no chão e joga na janela, quebrando o vidro. Reiko abaixa a cabeça para se proteger dos cacos.
Kazuko: Você ficou maluca? O policial pode ter ouvido!
Sakura: Eu não estou ouvindo nenhuma movimentação, então acho que não tem ninguém casa. Vamos nessa.
Kazuko (murmurando): Estou morrendo de saudades da Sakura que eu conheço...
Reiko abre a janela e entra silenciosamente na casa. Quando Sakura e Kazuko começam a escalar, o cachorro da residência começa a latir.
Sakura: Ei! Cala a boca, totó.
Sakura pega o sapato de Kazuko e o lança na cabeça do cachorro. Isso, entretanto, faz o animal latir de maneira ainda mais violenta.
Kazuko: Por que você usou o meu sapato?
Sakura (dando de ombros): Seria um desperdício usar o meu. Comprei ele recentemente...
Kazuko grunhe de raiva. Ela e Sakura também entram na casa. As meninas olham ao redor, tentando enxergar em meio a escuridão. Sakura bate a perna numa escrivaninha e segura um palavrão em sua boca. Reiko encontra um interruptor e acende as luzes. Agora era possível ver que estavam num escritório.
Kazuko: Você ficou louca? Se as luzes forem vistas acesas estaremos com problemas.
Sakura: A não ser que você tenha visão noturna, não temos escolha. Vamos nos dividir... procurem rápido.
Cinco carros estacionam na frente da casa. O detetive Yamazaki sai de um deles, seu semblante muito fechado. Ele pega um cigarro no bolso de sua jaqueta e o acende. De dentro dos outros carros surgem os seguranças que o detetive havia contratado com o dinheiro de suas operações ilegais.
Segurança 1: Algum problema, chefe?
Detetive Yamazaki: As luzes estão acesas... eu tenho certeza que deixei a casa toda fechada e às escuras.
Segurança 1: Muito bem, pessoal. A casa do chefe foi invadida. Vasculhem tudo! Vamos!
Reiko havia ido até uma porta no fim do corredor. O lugar era uma biblioteca. Haviam três estantes abarrotadas com dezenas de livros dos mais diversos gêneros e autores. Ao fundo era possível ver algumas mesas onde estavam expostas as raridades da coleção do detetive. Haviam diversas estátuas e vasos, frutos de diferentes culturas, e no meio deles uma peculiar caixa rosa. Reiko abre um sorriso ao reconhecer o símbolo que estava na tampa da caixa.
Reiko: As cartas Sakura!
Reiko pega a caixa e a abraça. Em seguida ela abre a caixa para conferir o conteúdo. Todas as 52 cartas mágicas estavam lá inteiras e em segurança. Reiko corre de volta para o corredor.
Reiko: Sakura! Kazuko! Eu encontrei! Vamos embora!
Reiko se assusta ao perceber que Sakura estava lutando ferrenhamente contra um grupo de seguranças. Kazuko estava se escondendo atrás de uma cadeira.
Kazuko: Reiko! Fuja!
Um dos seguranças corre na direção de Reiko. Sakura chuta uma cadeira e consegue derrubar o segurança e ainda fraturar um de seus joelhos.
Sakura: Corre, pirralha! Nós te alcançamos depois!
Assustada, Reiko corre em direção as escadas apenas para dar de cara com o detetive Yamazaki. O policial aponta uma pistola para a garota.
Detetive Yamazaki: Ora, ora. O que temos aqui... Os Dragões e o Fronte estão recrutando pessoas cada vez mais jovens.
Shaoran surge repentinamente, atravessando uma janela, e se joga sobre Yamazaki. Dois tiros são disparados, mas, por sorte, nenhum deles atinge Reiko. Shaoran e o detetive capotam escada abaixo e vão parar no primeiro andar, seus corpos imóveis. A pistola acaba se perdendo durante a queda.
Reiko: SHAORAN!
Reiko corre até o primeiro andar e se abaixa junto a Shaoran. O rapaz estava vivo, mas havia uma mancha vermelha crescendo em seu abdômen. Ele sorri ao ver o rosto de Reiko.
Shaoran: Você é tão teimosa... quanto... quanto a Sakura...
Reiko: Me desculpa... me desculpa... é minha culpa...
Yamazaki agarra Reiko por trás e coloca uma faca no pescoço da menina. Shaoran faz menção de se levantar, mas o detetive aproxima ainda mais a faca.
Detetive Yamazaki: Nem pense em se mover... já está mais do que na hora de eu me livrar de você e da Kinomoto!
Shaoran: Você não vai a lugar nenhum! Os Dragões cercaram a casa e você não tem seguranças o bastante para lidar com todos eles.
O detetive olha pelas janelas e percebe vários rapazes se movimentando ao redor de sua casa. Alguns deles estavam chegando ainda, montados em motos.
Detetive Yamazaki: Mas eu tenho uma refém, não é? Se tentarem se aproximar de mim, a garota morre!
Reiko joga a caixa com as cartas Sakura para Shaoran.
Reiko: A Kazuko precisa ficar com elas!
Yamazaki arrasta Reiko para a garagem da casa e tranca a porta de acesso. Ele joga Reiko no banco traseiro de um corsa verde e a prende no banco com uma algema.
Detetive Yamazaki: Vamos dar um pequeno passeio, florzinha. E quando eu voltar, vou jogar um exército de tiras em cima de seus amigos.
O motor do corsa ronca e o veiculo arrebenta a porta da garagem, deixando os membros da gangue dos Dragões sem reação. Sakura desce as escadas após se livrar dos últimos seguranças. Kazuko a acompanha.
Sakura (ajudando Shaoran a se levantar): Para onde ele foi?
Shaoran empurra Sakura, afastando-a.
Shaoran: Isso é culpa sua! Quando você vai aprender a deixar de ser tão imprudente?
Sakura: Eu... eu... eu...
Shaoran: Fique com isso.
Shaoran empurra a caixa com as cartas Sakura para as mãos de Kazuko.
Shaoran: Ela queria que você ficasse com isso.
Kazuko (abrindo a caixa e conferindo seu conteúdo): As cartas...
Sakura: Aonde você vai? Você está ferido!
Shaoran ignora a namorada e sai correndo. Ele pega uma das motos de seus amigos e sai em disparada pelas ruas da cidade. Kazuko puxa Sakura pela mão.
Sakura: O que você está fazendo?
Kazuko: Eu vou salvar minha amiga... e você vai me ajudar.
Kazuko pára ao lado de uma caminhonete cinza.
Kazuko: Dirija!
O corsa passa pela praça da cidade e faz um contorno circular, passando em frente a uma fonte com a estátua de um anjo. Após passar por uma pista que cruza uma linha férrea, o corsa vai parar numa rodovia. Presa no banco traseiro, Reiko fica tentando forçar a algema para se libertar.
Detetive Yamazaki: Não tenha pressa, querida. Eu vou te levar para passear num lugar onde ninguém vai te achar...
O detetive olha pelo retrovisor e nota uma moto ziguezagueando entre carros em alta velocidade.
Detetive Yamazaki: O garoto não sabe quando parar...
O detetive pega seu celular e faz uma ligação.
Detetive Yamazaki: Central... aqui é o detetive Takashi Yamazaki. Estou sendo perseguido por um meliante numa moto na rodovia Kagenasaki. Solicito bloqueio na pista e reforço. Hajam rápido. O suspeito está armado e está disparando tiros contra os civis...
O detetive retira sua arma reserva de um coldre oculto no tornozelo e dispara tiros em direção a Shaoran. Isso provoca uma confusão e um engavetamento de carros, obrigando o rapaz chinês a continuar a perseguição seguindo pela pista de mão contrária. O detetive começa a recarregar sua arma quando o corsa é atingido na traseira por uma caminhonete que havia acabado de entrar na rodovia por um acesso lateral.
Detetive Yamazaki: Droga.
A arma acaba caindo fora do carro e se perdendo no asfalto. Olhando pelo retrovisor, o detetive percebe que Sakura estava na direção da caminhonete.
Detetive Yamazaki: Isso mesmo... venham os dois atrás de mim... agora vou ter motivos mais que suficientes para prendê-los.
Kazuko estava sentada na carroceria da caminhonete segurando as cartas Sakura em suas mãos.
Kazuko: Vamos lá... funcionem... agora seria uma boa hora de poder usar os seus poderes mágicos...
Mas as cartas Sakura não respondiam. Pareciam ser apenas cartas normais. Kazuko, irritada, começa a bater as cartas no chão quando finalmente percebe algo importante.
Kazuko: O báculo. Eu preciso do báculo...
A perseguição prossegue e os veiculos chegam a uma ponte. A ponte era ampla e possuía um vão que separava as duas mãos da estrada. Logo abaixo, as águas de um rio agrediam com força os pilares de sustentação, mas sem causar nenhum dano.
A caminhonete segue acertando a traseira do corsa por várias vezes. Alguns dos motoristas que estavam na ponte estacionam seus carros no acostamento e se abaixam, receosos de serem atingidos durante uma troca de tiros. Dentro do corsa, Reiko continua a se esforçar. Torcendo um pouco o pulso, ela consegue se soltar das algemas.
Detetive Yamazaki: Não tão rápido...
Yamazaki segura Reiko pelo cabelo, forçando a garota a continuar no carro. A caminhonete bate mais uma vez no corsa, cuja traseira já se encontra muito danificada. O detetive é obrigado a colocar as duas mãos no volante para não perder o controle do carro e Reiko se vê livre.
Kazuko: Ele não vai parar o carro... e não podemos fazê-lo bater... a Reiko ainda está lá dentro...
Sakura percebe que Reiko estava abrindo o porta-malas do corsa.
Sakura: Então vamos para o plano B...
A caminhonete se aproxima mais do corsa, ficando quase que completamente lado a lado.
Sakura: Você tem que pular!
Reiko: O que?!
Reiko estava se segurando com todas as forças na lataria do carro. Só de pensar em saltar, a menina já sentia seu coração bater mais acelerado. Kazuko estava na carroceria da caminhonete, também gesticulando para Reiko.
Kazuko: Você tem que pular ou ele vai fugir com você!
Reiko: E-eu não... n-não vou conseguir... use as cartas... por favor, Kazuko, use as cartas...
Kazuko: Eu não posso! Precisamos do báculo! Não temos o báculo!
Reiko: T-tem que haver... outro jeito...
Kazuko: Você tem que pular, Reiko!
Sakura: Você consegue, garota! Acredite em si mesma!
O corsa tenta faz um movimento brusco e quase faz a caminhonete sair da pista. Reiko quase é jogada para fora, mas consegue se segurar. Sakura força o motor da caminhonete e coloca o veiculo lado a lado com o corsa de novo. Shaoran seguia acompanhando a perseguição o mais perto que podia pilotando sua moto.
Reiko (lágrimas descendo dos olhos): N-não vou conseguir... E-eu estou com medo... e-eu não sou forte como vocês...
A caminhonete se afasta um pouco para contornar alguns carros, mas logo se aproxima de novo.
Sakura: Todos nós ficamos com medo, até uma garota durona como eu... o que nos torna realmente fortes é a vontade de superar nossos medos...
A perseguição chega ao fim da ponte. O corsa ruma para um cruzamento de quatro ruas logo na saída da ponte. O detetive praguejava sozinho, reclamando da demora na chegada dos reforços. Kazuko estende seus braços para receber a Reiko.
Kazuko: Vamos lá, Reiko...
Sakura: Supere seus medos, Reiko... mostre sua verdadeira força...
Aquelas palavras ecoam na mente de Reiko e ela logo se lembra de já ter as ouvido antes. A menina encara os olhos verdes esmeralda de Sakura. Por um momento, aquela garota rebelde pareceu com a Sakura que Reiko conhecia, com a Sakura que ela tanto amava.
Sakura: Pule, Reiko!
Reiko flexiona os joelhos, se preparando para saltar. Procurando seu celular, Yamazaki se distrai da direção por um instante. No meio do cruzamento, o corsa acaba atingindo uma viatura da polícia que vinha em alta velocidade de uma rua lateral.
Sakura (e Kazuko): REIKO!
O impacto faz o corsa capotar e Reiko acaba atirada no ar. Uma moto acelera e usa uma carroça largada na calçada como rampa para se lançar no ar. No meio do salto, Shaoran pula da moto e agarra Reiko, abraçando-a com força. Os dois caem no parabrisa de um carro que vinha na mão contrária. Quando o veiculo freia abruptamente, Shaoran é atirado na calçada. Reiko consegue se desvencilhar do abraço de Shaoran e se agacha ao seu lado.
Reiko: Shaoran! Fala comigo! Socorro!
Curiosos começam a se amontoar nas ruas. O corsa havia parado de capotar após acertar a vitrine de uma loja. A caminhonete é largada de qualquer jeito no meio da pista. Sakura e Kazuko correm até Shaoran. A rebelde de olhos verdes se ajoelha junto ao namorado secreto.
Sakura: Shaoran! Shaoran! Shaoran!
Sakura balança o corpo de Shaoran. O rapaz estava tinha várias escoriações e uma mancha vermelha na camisa. Sakura levanta a camisa e percebe que o ferimento a bala no abdomen estava sangrando muito. Ao ver a mancha de sangue se espalhando pela calçada, Kazuko cai de joelhos no chão e começa a chorar. As cartas Sakura acabam no asfalto e vão se espalhando com o vento.
Sakura (lágrimas escorrendo do rosto): Não, não, não. Não ouse fazer isso comigo, seu babaca! Eu não posso viver sem meu parceiro! Acorda!
Sakura começa a bater no peito de Shaoran. Ela bate uma, duas, três vezes, até que sua mão é segura.
Shaoran (a voz fraca): Sakura...
Sakura: Seu idiota... por que você tinha que fazer isso? Por que você sempre quer bancar o herói?
Shaoran (apertando a mão de Sakura): Ela... está bem?
Sakura olha para Reiko. A menina ainda estava tremendo, mas aparentemente não tinha nenhum ferimento.
Sakura: Sim... ela está bem...
Shaoran: Que bom...
Ao longe era possivel ouvir o som de sirenes. Viaturas da policia e ambulâncias estavam se aproximando.
Shaoran: Você viu, Sakura? Eu consegui ser rápido o bastante... eu salvei a Feimei...
Perplexa, Sakura apenas coloca a mão na própria boca. Desesperada, Reiko começa a balançar a cabeça e a gritar.
“Não, não, não. Isso não pode estar acontecendo...”
Sakura força um sorriso e acaricia os cabelos de Shaoran.
Sakura : É claro que você conseguiu, seu bobo... você é o melhor irmão do mundo e não poderia decepcionar sua irmã... agora você pode tomar conta dela como sempre quis...
Reiko continuava a gritar, mas nem estava mais ouvindo sua própria voz. Ela não sabia se estava gritando por causa do que estava presenciando ou se por causa da dor repentina que sentia na cabeça e que fazia seus ouvidos sangrarem. Reiko só queria continuar gritando, gritando e gritando. E quando sua visão foi tomada por um clarão era só desejou uma coisa: que a dor que havia em seu peito fosse levada embora.
Quando Reiko abre novamente seus olhos, a primeira cor que vê é o amarelo. Ela estava caída no meio de um imenso campo de flores cheio de margaridas amarelas. Ao se sentar, Reiko sente uma forte tonteira e acaba vomitando. Dessa vez havia sangue em seu vômito.
“As reações às mudanças na realidade estavam ficando piores...”
Reiko: Onde estou?
Reiko se levanta e olha ao redor. Além do jardim, ela só conseguia ver algumas árvores, algumas montanhas e uma planicie. Não pareciam haver casas por perto. No céu, um sol escaldante mostrava toda sua força.
“O quão diferente será que o mundo ficou?”
Reiko suspira pesadamente. Ela se lembra do que acabara de presenciar, se lembra dos ultimos momentos de Shaoran Li. E então lágrimas surgem involuntariamente.
Reiko (murmurando): É tudo minha culpa... se ao menos eu tivesse magia... se eu não fosse um fracasso...
Uivos se espalham pelo ar. Reiko nota algo se movimentando em meio as flores e se depara com um lobo.
Reiko: Essa não!
Reiko começa a correr. Em seu encalço haviam dois lobos famintos. Reiko corre com todas as suas forças, mas ao sair do mar de margaridas acaba tropeçando num galho. A menina cai no chão e machuca um pouco o joelho. Os lobos cercam sua presa e começam a caminhar lentamente ao redor dela. Não havia mais para onde correr. Sem saber o que fazer, Reiko apenas baixa a cabeça, em sinal de desistência. Ela fecha seus olhos.
“Está tudo acabado...”
Reiko sente algo passar rente ao seu rosto. Um dos lobos cai repentinamente no chão, uma flecha presa em suas costas. Assustado, o outro lobo dá meia volta e corre rumo a planicie. O lobo ferido se levanta e faz o mesmo.
Reiko: Mas o que...?
Ao olhar para trás, Reiko vê um garoto de 14 anos segurando um arco de madeira de maneira firme. Seus olhos âmbares mostravam muita coragem. Ele caminha até Reiko e estende a mão para ela.
Shaoran: Ficou maluca? Não importa o quão ruim as coisas estejam, você não pode desistir do jeito que fez.
Reiko: S-Shaoran...?
Com lágrimas de alegria brotando de seus olhos, Reiko corre até Shaoran e o abraça com força. O garoto olha, curioso, para Reiko. De trás dele surge uma pequena menina de cabelos curtos usando óculos e um chapéu de palha. Não devia ter mais do que 5 anos.
Menina (acenando e sorrindo): Olá!
Reiko passa os minutos seguintes tratando a ferida no joelho. Ela se senta embaixo de uma árvore e Shaoran retira alguns curativos da mochila que carregava. Ele começa a enfaixar o joelho de Reiko. A menina de óculos começa a correr pelo mar de flores, sorrindo e pulando de felicidade. A pequenina parecia maravilhada com a beleza daquele lugar.
Shaoran: É um lugar bonito, não é? Como é seu nome mesmo?
Reiko: Hoe? Pode me chamar de Reiko... e sim... eu achei esse lugar lindo... eu... eu costumava brincar em campos de flores assim quando tinha a idade dela...
Shaoran (agitando os braços para chamar a atenção da menina): Não vá muito longe, Naoko! Fique aonde eu possa vê-la!
Naoko: Tá!
Naoko acena efusivamente para Shaoran e depois volta a correr no meio das flores.
Reiko: Ela é uma menina muito bonita.
Shaoran: É, definitivamente ela é. Naoko é minha meio-irmã... Pronto! Curativo feito.
Reiko se levanta e olha para o joelho enfaixado.
Shaoran: Consegue mover bem a perna?
Reiko: Sim. Muito obrigada por cuidar de mim. E também por me salvar dos lobos.
Shaoran (sorrindo amigavelmente): Não foi nada.
Shaoran guarda suas coisas de volta na mochila e coloca seu arco no ombro.
Shaoran: Bem... eu posso te perguntar uma coisa?
Reiko: Claro.
Shaoran: Por que você me abraçou daquele jeito?
Reiko: Bem... hmmm... é que você me lembra muito uma pessoa que eu gosto muito e que perdi recentemente...
Shaoran: Ah. Sinto muito.
Reiko: Tudo bem...
Shaoran: E essa pessoa também se chamava Shaoran? Por que eu tenho certeza que você falou meu nome antes de eu me apresentar...
Reiko (sorrindo sem graça): É... era o mesmo nome... que coincidência, não é?
Shaoran: Não existem coincidências, apenas o inevitável.
Shaoran olha para o campo de flores com um olhar sério.
Reiko: O que você quis dizer com isso?
Shaoran se vira para Reiko e sorri.
Shaoran: Talvez fosse nosso destino nos encontrar dessa maneira...
Reiko: Nosso destino?
Shaoran: Sabe... eu e a Naoko estamos numa jornada importante... talvez você possa nos ajudar...
Reiko: Bem... hmmmm... eu meio que estou numa jornada também... mas adoraria ajudar vocês como agradecimento por me salvar...
Shaoran (sorrindo): Que ótimo!
O sorriso do menino deixa Reiko um pouco encabulada.
Reiko: No... no que eu posso ajudar?
Shaoran: Nossa mãe está muito doente... está morrendo... e ela nos pediu que procurassemos por uma pessoa...
Reiko: E essa pessoa pode ajudar sua mãe?
Shaoran hesita por um instante.
Shaoran: Pode.
Reiko: Então pode contar comigo para ajudar. Onde encontramos essa pessoa?
Shaoran: Não vai ser fácil. Ela é uma nômade. Eu nunca a encontrei, mas sei que se chama Sakura Kinomoto.
Reiko: Sakura?
Shaoran: Você a conhece?
Reiko: Eu... eu acho que sim...
Shaoran: E você sabe onde ela está?
Reiko: Não faço idéia. Sinto muito.
Shaoran: Não faz mal. Com sua ajuda tenho certeza que vamos encontrá-la.
Shaoran acena para a pequena Naoko.
Shaoran: Vamos indo, Naoko. Já devemos estar perto do próximo vilarejo.
Shaoran retira um mapa de sua mochila e assume a dianteira. Ele guia o grupo, passando por uma planicie, atravessando um rio de águas rasas e cruzando um matagal. Então eles finalmente chegam a um pequeno vilarejo com casas feitas de madeira. Todas as casas estavam apodrecendo, sendo que algumas nem possuíam mais portas ou janelas. As plantações que ainda existiam estavam praticamente mortas.
Reiko: Parece uma cidade fantasma...
Shaoran: Se esse for o caso, então chegamos tarde...
Naoko: Onde está todo mundo, nii-san?
Shaoran olha sem jeito para Naoko. Por um momento ele parecia incerto quanto ao que dizer.
Shaoran: Eles se mudaram, Naoko. A terra aqui não devia ser muito fértil e eles devem ter ido atrás de um novo lugar para viver.
Naoko: Ah. Deve ser ruim abandonar nossa casa para trás, não é?
Shaoran: Sim... mas tenho certeza que eles ficarão bem.
Naoko: Que bom!
Naoko sorri. Shaoran acaricia a cabeça da menina.
Naoko: Falta muito pra gente encontrar a moça que vai salvar a mamãe?
Shaoran: Eu não sei dizer... vamos fazer uma pausa antes de prosseguir. Que tal?
Naoko: Tá!
Shaoran, Reiko e Naoko caminham até uma colina na saída do vilarejo. De lá se tinha uma visão ampla das casa e de uma igreja velha que ficava um pouco mais afastada do vilarejo. Os três jovens páram embaixo de uma árvore para descansar e se refrescar do calor um pouco. A terra ao redor da árvore era bem fofa.
Shaoran: Podemos verificar aquela igreja depois de descansar.
Reiko: Parece uma boa idéia...
Shaoran: Pegue, Naoko.
Shaoran entrega uma garrafa de água para Naoko. A menina bebe um gole e joga um pouco no rosto.
Naoko: Ahhhh. Gostoso.
Shaoran: Beba um pouco também, Reiko.
Reiko bebe um pouco de água e devolve a garrafa para Shaoran. O menino também se serve e guarda a garrafa na mochila novamente. Naoko se recosta sobre Reiko e começa a cochilar.
Reiko: A coitadinha deve estar cansada...
Shaoran: Com certeza. Estamos andando há dias. Eu queria vir sozinho, mas ela insistiu que queria ajudar a mãe também. Quando a Naoko coloca uma cabeça, é dificil segurá-la.
Reiko: Entendo...
Reiko e Shaoran ficam em silêncio por um instante.
Reiko: Hmmm... o que aconteceu por aqui?
Shaoran: Hã? Como assim? Você não sabe?
Reiko: Eu meio que... estive fora por um tempo...
Shaoran: Eu não sei como você pode não saber...
O olhar de Shaoran passa por todas as casas do vilarejo e acabam parando na igreja. Ao lado dela havia um pequeno cemitério e ao fundo o inicio de uma floresta. O menino fica em silêncio, pensando na melhor forma de explicar a situação a Reiko
Shaoran: Deus abandonou nosso mundo.
Reiko olha, perplexa, para Shaoran.
Reiko: C-como assim?
Shaoran suspira pesadamente.
Shaoran: Anos atrás, nosso mundo entrou numa grande guerra. Houve muitas mortes e muita destruição. Tudo acabou sendo uma sequência de batalhas sem sentido. No final, não havia mais nenhuma nação, nenhuma bandeira. Os poucos que sobreviveram se tornaram um único povo e se espalharam pelo que havia sobrado da Terra.
Reiko: Então é por isso que não vejo nenhuma grande cidade por aqui... tudo foi destruído...
Enquanto narrava a história, Shaoran fazia desenhos aleatórios na terra com um galho quebrado.
Shaoran: Alguns disseram que a grande guerra acabou trazendo um grande bem: a paz. Não havia mais conflitos. As pessoas se dividiram em grupos e construíram vilarejos, trabalhando com as ferramentas arcaicas que haviam sobrado após a guerra. Todos viviam pacificamente e não havia conflitos de nenhum tipo. Tudo parecia ir bem e os anos foram passando sem maiores problemas.
Shaoran desenha uma cruz na areia.
Shaoran: Então eles perceberam o que estava errado.
Reiko: E o que era?
Shaoran: Certo dia, dois irmãos estavam brincando numa montanha. Um deles acabou escorregando e caindo. O coitado teve o pescoço quebrado e morreu. Inconsolável, a mãe juntou todos os conhecidos do seu vilarejo para o enterro. Para a surpresa de todos, entretanto, o garoto morto se levantou do caixão.
Reiko: Nossa. Foi um milagre então?
Shaoran: Não foi assim que as pessoas do vilarejo pensaram. Veja bem... o garoto estava vivo... mas seu pescoço continuava quebrado, sua cabeça pendendo para o lado sem sustentação.
Reiko (colocando a mão na boca): Que horror!
Shaoran: Eventos similares foram acontecendo por todos os vilarejos. Logo a situação em que estavam ficou bem clara... ninguém mais podia morrer.
Reiko: O que?
Shaoran: Isso mesmo que você ouviu. Não existem mais mortes nesse mundo.
Reiko: Mas isso é impossivel...
Shaoran: Sabe o que é engraçado? No começo todos acharam que era um milagre. Poderiam viver eternamente, tudo ficaria bem. Então descobriram que não havia mais nascimentos também. A população seria a mesma para todo o sempre. Ainda assim, todos tentaram fingir que tudo estava bem. Poderiam viver para sempre. Que mal poderia haver nisso, não é?
Reiko: ...
Shaoran: No fim, nada ficou bem. O que antes era um milagre, tinha virado uma maldição. As pessoas foram ficando mais angustiadas com o passar dos anos e logo uma onda de suicidios se iniciou. As pessoas descobriram que não queriam viver para sempre.
Reiko: Então as pessoas desse vilarejo se mataram?
Shaoran: Eles tentaram. Como eu disse, não há mais mortes nesse mundo. Mesmo que você se enforcasse, mesmo que cortasse sua cabeça, mesmo que queimasse seu corpo, ainda assim você continuaria vivo. Ao invés de morrer, você teria que conviver com a dor que causara a seu corpo para sempre. A vida de todos virou um inferno. Por isso eu disse que Deus abandonou nosso mundo.
Shaoran pára de fazer desenhos e larga o galho no chão.
Reiko: Mas então por que este vilarejo está vazio?
Shaoran: Por que as pessoas descobriram a Coveira.
Reiko: A Coveira?
Shaoran: Sim. Um dia uma menina chamada Sakura Kinomoto surgiu do nada e visitou um vilarejo. Ela era uma nômade e viajava pelo mundo sem rumo e sem objetivo. Ela viu as pessoas que haviam tentando sem sucesso se matar no vilarejo e teve pena delas. Sakura levou essas pessoas para o cemitério e cavou uma cova para cada uma delas. Ela enterrou as pessoas uma a uma...
Reiko: Isso é crueldade. As pessoas viveriam enterradas para sempre!
Shaoran: Deveria ter sido assim, mas não foi. Todas as pessoas que Sakura enterrou morreram definitivamente.
Reiko: Mas por que?
Shaoran: Ninguém sabe... dizem que ela possui algum tipo de aura diferente... uma espécie de ligação com Deus... algo que a permite conceder o descanso final para as pessoas. Sakura Kinomoto logo passou a ser chamada de Coveira e tem vagado por aí, sepultando pessoas que desejam morrer.
Shaoran tira duas maçãs da mochila e entrega uma delas para Reiko. Os dois começam a comer.
Reiko: Qual o nome da sua mãe?
Shaoran: Rika... Rika Sasaki...
Reiko: A doença que ela têm... ninguém encontrou uma cura?
Shaoran (a voz um pouco trêmula): Não... ela sofre com dores todos os dias, não têm forças para sair da cama ou para comer... ninguém consegue explicar o por quê...
Reiko: Eu... eu imagino que ver a própria mãe nesse estado deve ser muito doloroso... ver sua mãe desse jeito e não poder fazer nada...
Shaoran (a voz um pouco mais trêmula): Sim... mas minha dor não chega perto da dor que ela sente...
Os dois ficam quietos por um momento, apenas mastigando os pedaços das maçãs.
Reiko: Shaoran...
Shaoran: O que foi?
Reiko: A sua jornada... você não saiu de casa em busca de uma cura para sua mãe... você vai pedir para a Coveira sepultá-la, não é?
Shaoran: Sim...
Shaoran baixa a cabeça. Seus cabelos castanhos estavam ocultando seus olhos, mas Reiko tinha quase certeza que deveriam estar cheios de lágrimas. Contudo, o garoto foi forte e não derramou uma lágrima se quer.
Shaoran: Minha mãe já sofreu o bastante. Eu conversei com ela... ela chorava tanto... ela me pediu que procurasse pela Coveira... ela me pediu para morrer...
Reiko: A Naoko... ela sabe disso?
Shaoran olha para sua meia-irmã por um momento. A menina dormia pesadamente, recostada no ombro de Reiko.
Shaoran: Não sei como contar isso a ela... eu acabei mentindo... ela acha que estamos indo salvar a mãe... mas... mas...
As palavras somem na garganta de Shaoran.
Shaoran: Você deve me achar um hipócrita, não é?
Reiko: Por que eu pensaria isso?
Shaoran: Quando eu te salvei, disse que você não deveria desistir, não importando se as coisas estavam ruins... e olha o que eu estou fazendo... estou desistindo...
Reiko: Eu nunca pensaria isso de v...
Reiko se levanta abruptamente. Naoko acaba caindo no chão e acorda.
Shaoran: Reiko? O que foi?
Naoko: Reiko?
Reiko: Alguma coisa se mexeu na igreja...
Reiko começa a descer a colina, rumando em direção a igreja.
Shaoran: Reiko! Espera!
Reiko chega rapidamente a igreja, mas não entra nela. A menina pula uma pequena cerca de madeira e chega ao cemitério. Ela pára bem no meio do cemitério e se agacha, verificando o solo. A parede lateral da igreja estava destruída e era possivel várias cadeiras quebradas em seu interior. Shaoran consegue alcançar Reiko, trazendo Naoko nos braços. Ele coloca sua meia-irmã no chão enquanto se aproxima de Reiko.
Shaoran: O que foi, Reiko?
Reiko: Por que existe um cemitério aqui?
Shaoran: É... bem... essa igreja deve ter sido construída antes... antes das pessoas descobrirem a história que te contei... então provavelmente este cemitério é bem antigo...
Naoko olhava para Shaoran, confusa. Não entendia do que estavam falando. O garoto estava se esforçando para não revelar nada na frente de sua meia-irmã.
Shaoran: É melhor a gente conversar sobre isso... em outra hora, tá bom?
Reiko: Você não entendeu... não estou falando de haver um espaço para um cemitério ao lado desta igreja... estou falando do fato desse lugar ser realmente um cemitério.
Shaoran: O que?
Shaoran olha ao redor. Haviam mais de cinquenta tumulos cavados na terra. Cada um deles tinha uma pequenina cruz de madeira em seu topo. Reiko pega um pouco de areia nas mãos e depois a deixa escorrer por entre seus dedos.
Reiko: A terra aqui foi mexida recentemente...
Shaoran: Isso quer dizer que ela esteve aqui...
Reiko: E que ainda pode estar por perto.
Shaoran: Se corrermos, ainda podemos alcancá-la!
Naoko: Oba! Vamos achar a moça especial!
A conversa é interrompida quando o som de galhos quebrando surge dos fundos da igreja. Não era possivel dizer quem ou o que estava se aproximando. Shaoran ergue seu arco e fica em posição de ataque. Reiko abraça Naoko e se afasta alguns passos.
Shaoran: Quem está ai?
De trás da igreja surge uma garota de 13 anos cujos cabelos pretos tinham pontas roxas. Ela vinha correndo, o semblante mostrando um pouco de medo, e se assusta quando vê um garoto apontando uma flecha para ela.
Reiko: Kazuko!
Kazuko (surpresa): Reiko? Shaoran? Naoko?
Shaoran: Você conhece ela?
Reiko: Está tudo bem. A Kazuko é uma amiga minha.
Kazuko começa a caminhar em direção a Reiko.
Kazuko: Por onde você andou? Eu estava te procurando. Eu já consegui... CUIDADO!
Reiko, Shaoran e Naoko se viram. Atrás delas havia um enorme urso negro ostentando um olhar de ódio. Naoko sorri.
Naoko: Olha, nii-san. Um ursinho bonitinho...
Shaoran se prepara para disparar uma flecha. O urso é mais rápido e golpeia o garoto, atirando-o longe. Em seguida o animal selvagem ataca Naoko com sua pata, mas Reiko protege a menina, abraçando-a. Reiko também é lançada no ar e colide com a parede da igreja. A menina absorve todo o impacto, garantindo que Naoko não se ferisse.
Reiko (liberando Naoko de seu abraço): Naoko... você está bem?
Naoko: Sim... mas por que o ursinho quer machucar a gente?
O urso se levanta, ficando sobre duas patas. Ele era realmente enorme e ficava muito mais ameaçador daquele jeito.
Kazuko: DEIXE MEUS AMIGOS EM PAZ!
Kazuko instintivamente estende seus braços para frente ao gritar. Sem saber como, ela começa a projetar uma forte ventania. Irritado, o urso resolve mudar de alvo e se volta para Kazuko. A ventania fica ainda mais forte, a ponto de começar a arrastar o urso para trás.
Shaoran: Mas o que está acontecendo...?
Shaoran havia acabado de se recuperar do ataque que sofrera quando percebeu que estava começando a ser carregado pela estranha ventania. O urso tenta se segurar afundando suas patas no solo. A ventania fica ainda mais forte. Terra, pedras, galhos começam a ser carregados. Naoko é arrastada, mas Shaoran se joga até ela e a segura. O garoto tenta fincar uma flecha no solo, mas isso não o segura. Os dois irmãos são arrastados até conseguirem se agarrar a uma árvore. A ventania também carrega Reiko, mas ela consegue se segurar num vão da destruída parede lateral da igreja.
Reiko: Kazuko! Você tem que parar! Você vai acabar nos ferindo também!
Kazuko: Eu... eu... eu não consigo... está fora de controle...
Shaoran fica agitado ao perceber que a árvore onde estava se segurando estava sendo arrancada do chão aos poucos. Ele observa, incrédulo, o urso ser lançado longe pela ventania. Reiko tenta avançar, mas seu rosto acaba atingido por uma pedra. Ela quase é carregada pela ventania, mas consegue se segurar mais uma vez.
Reiko (um pouco de sangue escorrendo do ferimento no rosto): Kazuko! Preste atenção na minha voz!
Kazuko (algumas lágrimas nos olhos): Estou assustada... a força é muito grande... sinto como se fosse ser arrastada também...
Reiko: Você precisa controlar seu poder!
Kazuko: Eu não consigo...
Reiko: Consegue sim! Eu já passei por isso antes! Posso te ajudar!
Kazuko: O... O q-que eu devo fazer...?
Reiko: Você precisa se concentrar! A magia que gera a ventania está vindo de dentro de você... você pode contê-la.
Kazuko: Eu... eu posso?
Reiko: Pense em sua magia como uma extensão do seu corpo! Você comanda seus braços e pernas com pensamentos, não é?!
Kazuko: S-sim...
Reiko: Você deve fazer o mesmo com sua magia! Ela faz parte de você! Foque seus pensamentos e assuma o controle!
Kazuko fecha seus olhos e se esforça para se concentrar. Ela começa a abaixar seus braços aos poucos e a ventania vai diminuindo até parar por completo. Shaoran e Naoko caem no chão, assim como Reiko. Kazuko fica olhando para suas mãos trêmulas por um momento.
Kazuko: Eu... consegui?
Aquela maldita magia quase machucara pessoas inocentes. Mais do que nunca Kazuko queria se livrar de seus poderes, mas primeiro tinha que voltar para casa. Kazuko corre até Reiko para verificar a amiga.
Kazuko: Reiko? Você está b... Meu Deus!
Kazuko leva um susto e dá um passo para trás. Reiko havia perdido seu tapa-olho durante a ventania. Contrastando muito com o olho esquerdo âmbar, Reiko possuía um olho direito verde. Era um verde esmeralda que brilhava com intensidades alternadas, dando a impressão de estar pulsando.
Kazuko: Seu olho...
Reiko: O que?
Reiko nota que havia perdido o tapa-olho. Ela podia ver dezenas de cores estranhas para onde quer que olhasse. Haviam coisas ali que ninguém mais podia ver, auras com os mais diversos significados. Espíritos? Demônios? Anjos? Reiko não sabia dizer. Só de olhar para eles, a menina já sentia um calafrio percorrer seu corpo.
Shaoran: Reiko?
Reiko nota que Shaoran e Naoko haviam se aproximado. Ela podia ver um mesmo tipo de aura vindo deles, mas ao olhar para Kazuko ela fica surpresa. Tinha algo diferente em sua amiga.
“Ela é diferente... por que ela é diferente?”
Kazuko (percebendo o olhar de Reiko): O que foi?
Reiko esconde o seu olho direito com a mão e começa a procurar seu tapa-olho de maneira agitada. Naoko sorri.
Naoko: Incrivel! Os olhos dela são muito bonitos! Eu quero olhos assim, nii-san.
Shaoran: Eu... eu não sei o que dizer...
Kazuko se ajoelha diante de Reiko.
Kazuko: Seu olho... você também possui magia, não é? Por que escondeu de mim?
Reiko balança a cabeça várias vezes.
Reiko: Isso não é magia! É uma maldição!
Shaoran: Maldição?
Reiko: Eu... eu posso ver coisas que ninguém mais pode... posso ver a cor da vida... posso ver a cor da morte... posso ver auras mágicas... seres de outros mundos... posso ver muitas coisas que eu não queria ver...
Kazuko: O que você viu quando olhou para mim?
Reiko: E-eu...
Kazuko segura as mãos de Reiko e aproxima seu rosto do dela.
Kazuko: O que você vê quando olha para mim?
Reiko: Você está machucando... meus pulsos...
Kazuko: O que você vê quando olha para mim?
Reiko (fechando os olhos): Eu não quero... por favor... eu não quero...
Kazuko (apertando os pulsos de Reiko com força): O que você vê?!
Kazuko é puxada pelos cabelos e jogada no chão. Antes que ela possa se levantar, alguém pisa em seu peito. Tratava-se de uma garota de 14 anos com belos olhos verde esmeralda e longos cabelos castanhos presos com um laço. Usava um short e uma blusa em um tons claros de marrom com listras verticais negras bem finas, um cinto com várias fivelas sobrepostas em ângulos diferentes na cintura, botas marrons que iam até a altura do joelho, e um sobretudo vermelho com detalhes em dourado. Em seu pescoço havia um pingente peculiar. Era uma esfera de vidro rodeada por dois pequeninos dragões dourados. Dentro da esfera haviam chamas crepitando.
Kazuko: S-sakura?
Sakura: Deixe a garota em paz.
Kazuko: Eu não estava fazendo nada... eu só queria saber...
Sakura: Será que não percebe que isso é doloroso para ela? Por que você acha que ela estava usando um tapa-olho?
Kazuko: Eu... eu...
Reiko segura a mão de Sakura.
Reiko: Está tudo bem. Ela é minha amiga... ela só estava um pouco nervosa pelo que passamos... por favor, deixe-a se levantar.
Sakura: Muito bem.
Sakura rasga um pedaço da blusa de Kazuko e então retira seu pé de cima dela. Reiko ajuda Kazuko a se levantar.
Kazuko (abraçando Reiko): Por favor, me desculpa... eu perdi o controle... não queria te assustar... fui muito cruel...
Reiko: Está tudo bem. Já passou.
Kazuko: É muito ruim? Ver essas coisas, é muito ruim?
Reiko: Sim... tem uma coisa muito ruim que eu vi muito tempo atrás... não quero ver aquilo de novo...
Sakura: Então mantenha esse olho coberto.
Sakura estende o pedaço da camisa que pegara para Reiko. A menina sorri e improvisa um tapa-olho.
Reiko: Muito obrigada, Sakura.
Sakura: Não foi nada. Estava apenas por perto quando ouvi vocês se metendo em problemas. Se são amigos não deveriam ficar brigando entre si.
Shaoran: Hã... será que alguém pode me explicar o que aconteceu?
Kazuko: Eu meio que possuo uns poderes diferentes... poderes mágicos...
Reiko: E eu tenho um olho amaldiçoado... que eu prefiro manter escondido... mas não possuo nenhum poder...
Shaoran: Então vocês são feiticeiras?
Kazuko (fazendo cara feia): Mais ou menos isso...
Naoko: Legal! Eu conheço bruxas de verdade. Mamãe não vai acreditar quando eu contar.
Sakura, indiferente, dá as costas para o grupo e começa a se afastar.
Reiko: Espera!
Sakura: O que foi?
Reiko: Este menino têm um pedido a fazer.
Reiko empurra Shaoran a frente enquanto Kazuko pega Naoko no colo.
Shaoran: Você é Sakura Kinomoto, a Coveira?
Sakura (fazendo uma cara feia): Não gosto de ser chamada de Coveira... mas, sim. Eu me chamo Sakura Kinomoto.
Shaoran e Sakura ficam se encarando por alguns instantes.
Shaoran: Não parece grande coisa...
Sakura (gota caindo): Divirtam-se.
Sakura dá as costas novamente e começa a andar.
Reiko: Espera!
Reiko lança um olhar de repreensão para Shaoran, o que deixa o garoto um pouco sem graça.
Shaoran: Perdão... não quis ser rude... é que, pelas histórias... uma pessoa que faz o que você faz... pensei que uma pessoa assim teria uma aparência assustadora...
Sakura: Têm algo errado com minha aparência?
Shaoran: Não, não é isso. É que você é muito bonita.
Shaoran e Sakura coram e desviam o olhar.
Naoko: Que fofo! O Shaoran gostou da moça especial!
Kazuko (tapando a boca de Naoko gentilmente): Shhhh.
Reiko pega Shaoran e Sakura pelas mãos e se afasta alguns passos. De onde estavam agora não poderiam ser ouvidos por Naoko.
Reiko: Shaoran estava viajando a sua procura.
Sakura: Por qual motivo?
Shaoran: Você sepultou as pessoas deste vilarejo?
Sakura: Sim, conforme eles desejaram, suas vidas neste mundo foram encerradas.
Shaoran: Eu quero que você sepulte uma pessoa.
Sakura: Entendo... essa pessoa está preparada para isso? É um caminho sem volta.
Shaoran: Sim. Ela está preparada.
Sakura: Você está preparado para isso?
Shaoran: E-eu...
Reiko segura a mão de Shaoran com força. Ela concede ao garoto um sorriso encorajador.
Shaoran: Eu estou. Por favor, conceda a minha mãe o descanso final. Eu... eu... eu posso pagar por isso.
Shaoran abre sua mochila e mostra alguns itens de porcelana, algumas roupas, um saco de moedas, entre outras pequenas coisas. Os olhos de Reiko, entretanto, se fixam nas cartas de fundo rosa que também estavam ali.
“As cartas Sakura!”
Shaoran: Não é muita coisa... mas é tudo que temos de valor para oferecer. Por favor, aceite como pagamento por sua ajuda.
Sakura olha para Reiko e sorri, deixando a menina um pouco confusa.
Sakura: Muito bem. Aceito essas cartas como pagamento.
Sakura recolhe as 52 cartas e as coloca numa bolsa que carregava.
Shaoran: Só as cartas?
Sakura: As cartas são o bastante. Onde está sua mãe?
Shaoran: Nossa casa fica logo após os alpes do norte.
Sakura: Mostre o caminho.
Shaoran: Certo.
Shaoran acena e Kazuko e Naoko se aproximam. Naoko fica muito feliz ao saber que Sakura aceitara ajudar e abraça a Coveira afetuosamente.
Naoko: Muito obrigada. A mamãe vai ficar muito feliz ao saber que encontramos alguém para salvá-la.
Sakura: Hã?
Sakura olha para Shaoran. Como se tivesse entendido o que ela ia perguntar, o garoto apenas balança a cabeça negativamente.
Sakura: Hmmm... eu farei o melhor que puder para ajudar, certo?
Naoko: Isso!
E assim o grupo começa a caminhada rumo a residência de Shaoran e Naoko. Kazuko e Reiko ficam um pouco mais para trás durante a caminhada.
Kazuko: Você fez um bom trabalho.
Reiko: Hoe?
Kazuko: Você salvou a Naoko, ignorando o risco, e me ajudou a me acalmar e controlar meus poderes... você realmente consegue fazer grandes coisas se confiar em si mesma.
Reiko (corando levemente): Eu sei que não sou de grande ajuda, mas fiz o melhor que pude...
Kazuko: Do que você está falando? Você foi muito bem. Aliás, como foi que você aprendeu tanto sobre magia?
Reiko (coçando a cabeça): Bem... hmmm... eu meio que ensino magia para minha irmã mais velha.
Kazuko: Você ensina para ela?
Reiko: É que ela não tem muita paciência para estudar... então eu a ajudo, mesmo que ela não queira...
Kazuko: Como alguém não iria querer a ajuda de uma irmã tão legal como você? Deve ser uma péssima irmã...
Reiko: Não é não. Ela pode ser rude e meio agressiva às vezes, mas ela sempre está lá por mim. Ela têm tudo que eu não tenho... é bonita, forte, corajosa... ela é... ela é...
De repente lágrimas começam a cair dos olhos de Reiko.
Reiko: O que eu estou fazendo? Se minha irmã estivesse aqui ele me daria um cascudo e me chamaria de chorona...
Kazuko: Você está com saudades de sua familia, não é?
Reiko (cabisbaixa): Sim...
Sakura: Vai dar tudo certo.
Reiko e Kazuko se surpreendem ao notar que Sakura havia parado diante delas.
Reiko: S-sakura?
Sakura: Eu não sei o que exatamente está te preocupando, mas posso te garantir que no final vai dar tudo certo.
Kazuko (sorrindo): Eu concordo.
Reiko (enxugando as lágrimas): O-obrigada.
O grupo segue sua jornada. Eles caminham por uma floresta, atravessam um pântano, passam por dois vilarejos desertos e, após horas de caminhada, finalmente chegam nos alpes do norte. A escalada seria muito ingrime, então Shaoran guia seus companheiros por um caminho alternativo, atravessando uma série de cavernas. Naoko fica um pouco assustada com os morcegos, mas consegue atravessar sem maiores problemas.
Kazuko (cochichando): Nós deveríamos estar procurando pelas cartas e pelo báculo, Reiko... não sabemos quanto tempo ainda temos nesse mundo...
Reiko (também cochichando): Não podemos abandoná-los agora... Shaoran e Naoko vão precisar de nosso apoio para o que vão passar agora...
Kazuko: Para o que vão passar? Como assim?
Reiko: Têm uma coisa que você precisa saber...
Ao sair das cavernas, o grupo nota que já havia passado para o outro lado dos alpes. Havia ali uma série de dunas, sua areia sendo carregada por não muito frequentes ondas de vento. Após essas dunas havia uma rústica casa de pedra rodeada por quatro palmeiras.
Shaoran: Lá está nossa casa.
Os cinco jovens se aproximam da casa e se sentam em algumas cadeiras que ficavam do lado de fora. Sakura fica de pé, observando a casa atentamente.
Sakura: Onde está seu pai, Shaoran?
Shaoran: Meu pai e o pai da Naoko morreram a muito tempo atrás... só vivemos eu, minha irmã e minha mãe aqui...
Sakura: Entendo...
Shaoran: Vamos começar... por favor, esperem aqui fora com a Naoko.
Kazuko: Pode deixar.
Shaoran caminha até a porta da casa e a abre, sendo seguido por Sakura.
Naoko: Espera!
Sakura e Shaoran páram e se viram.
Shaoran: O que foi, Naoko?
Naoko: Vocês já estão indo salvar a mamãe?
Shaoran: ...
Shaoran baixa a cabeça, sem saber o que dizer.
Shaoran: Por favor, Naoko... fique aqui com a Reiko e a Kazuko... quando tudo terminar, eu prometo... prometo que vou te explicar...
Reiko (puxando Naoko pela mão): Venha, Naoko. Vamos sentar e conversar um pouco.
Naoko: Não!
Naoko se solta e corre até Sakura. Ela tira uma carta do bolso e a entrega para a coveira.
Naoko: Por favor, entregue essa carta para minha mãe antes de salvá-la.
Sakura: Uma carta? Mas por que?
Shaoran: O que você está fazendo, Naoko?
Naoko: Eu me esforcei muito e escrevi uma cartinha para nossos pais. Eu quero que a mamãe leve com ela quando subir para o céu.
Shaoran: O que?
Todos olham, surpresos, para Naoko.
Shaoran: V-você... você sabe? Sabe o que vai acontecer com a mãe?
Naoko (sorrindo): Sim. A mamãe me contou. Ela vai para o céu descansar.
Shaoran: Eu sinto muito, Naoko... eu queria ter conversado com isso com você, mas... mas fiquei com medo...
Shaoran se ajoelha diante da irmã, algumas lágrimas descendo de seu rosto. Naoko pega as mãos do irmão.
Naoko: Está tudo bem, nii-san. Não tem por que chorar. A mamãe vai para um lugar muito bonito onde vai poder descansar.
Shaoran: Sim... ela trabalhou muito duro por nós... sofreu muito com sua doença... está na hora dela finalmente descansar...
Naoko: Ela vai estar num lugar muito feliz e vai encontrar com os nossos pais. Eu escrevi essa cartinha para eles... para contar que estamos indo bem e que também vamos trabalhar duro até o dia em que ficaremos todos juntos de novo.
Sakura dá uma olhada na carta. Nela havia algumas letras quase ilegíveis e alguns desenhos.
Sakura (passando a mão na cabeça de Naoko): Tenho certeza que eles ficarão muito felizes de ler sua carta.
Naoko: Sério?
Sakura: Claro.
Naoko (sorrindo): Que bom!
Shaoran abraça a irmã.
Shaoran: Eu também vou escrever uma carta e deixá-la com a mãe.
Naoko: Que bom. Nossos papais ficarão muito felizes.
Shaoran: Você quer dar um ultimo abraço na mãe?
Naoko (erguendo os braços no ar): Abraço de familia!
Shaoran: Isso... abraço de familia...
Os dois irmãos dão as mãos e entram na casa. Sakura fica olhando para a porta da casa com um olhar perdido. Reiko e Kazuko páram ao lado dela.
Kazuko: Algum problema, Sakura?
Sakura: Não é nada. Acho que tenho estado sozinha há tanto tempo que tinha me esquecido a importância de uma familia...
Reiko: Eu espero que os dois fiquem bem...
Sakura: Eles vão ficar.
Sakura abre sua bolsa, pega as cartas Sakura e as entrega a Reiko.
Kazuko: As cartas mágicas!
Reiko: Para mim?
Sakura: Sim. Eu percebi pelo seu olhar que você precisava muito delas... então as peguei como pagamento. Por favor, fique com elas.
Reiko abraça as cartas.
Reiko: Eu nem sei o que dizer...
Sakura: Um 'obrigado' basta.
Reiko (fazendo uma reverência): Muito obrigada!
Sakura: Acredito que com isso agora vocês possam partir e continuar sua jornada.
Reiko: Na verdade só as cartas não são o bastante...
Sakura: Não?
Kazuko: Precisaríamos de mais uma coisa, mas provavemente não teremos tempo para procurar.
Sakura: Vocês não vão saber se não tentarem...
Reiko e Kazuko se entreolham.
Reiko: Está tudo bem. Decidimos prestar homenagens a senhora Rika Sasaki quando ela partir.
Kazuko: Queremos estar aqui para apoiar Shaoran e Naoko.
Sakura: Mas e a jornada de vocês?
Reiko: Teremos outras oportunidades... e como você mesma disse: 'no final vai dar tudo certo'.
Sakura sorri.
Sakura: Estarei torcendo por vocês.
Shaoran: Sakura?
Shaoran e Naoko haviam saído de casa.
Shaoran: Ela está pronta.
Sakura: Muito bem. Eu vou começar.
Sakura respira fundo e entra na casa. Shaoran e Naoko ficam parados diante da casa, ainda de mãos dadas. Reiko coloca a mão no ombro de Shaoran.
Reiko: Vocês não estão sozinhos.
Kazuko pega a outra mão de Naoko.
Kazuko: Podem contar conosco.
Shaoran, Naoko, Reiko e Kazuko ficam parados ali, olhando fixamente para a porta entreaberta. Eles ouvem o som do que parece uma conversa, embora não fosse compreensível. Quando uma luz azul emana do interior da residência, os quatro jovens sabem em seus corações que acabou. Rika Sasaki havia, enfim, partido. No fim, todos eles se abraçam.
Reiko: Foi diferente do que eu achei que ia ser...
Sakura, Reiko e Kazuko estavam sentadas num tronco caído. Shaoran estava alguns metros a frente, terminando de colocar a areia numa sepultura com uma pá. Naoko estava ao lado dele, assistindo a tudo calada.
Sakura: Como assim?
Reiko: Eu achei que você tivesse que enterrar pessoalmente as pessoas para fazer... aquilo...
Sakura: Essas histórias que espalham por aí são sempre exageradas. Eu apenas abro o caminho com um feitiço. Se eu enterrar a pessoa é por falta de opção ou porque os parentes estão abalados para fazê-lo.
“Feitiço? Então nesse mundo a Sakura também é uma feiticeira. Talvez por isso ela tenha simpatizado com a gente... talvez por isso ela tenha me dado as cartas...”
Kazuko: Mas o Shaoran fez questão de enterrar a mãe...
Reiko observa o garoto. Ele estava trabalhando com rapidez e eficiência, ignorando o suor que escorria por seu rosto. Naoko havia fincado uma cruz de madeira com uma coroa de rosas no chão para marcar o túmulo. Shaoran suspira pesadamente e coloca a pá em seu ombro.
Shaoran: Eu terminei.
Algumas velas são acesas e o grupo se ajoelha e faz uma oração. Em seguida, eles voltam para o quintal da casa, onde Shaoran serve alguns pães. Eles ficam apenas comendo e admirando o pôr-do-sol. Nenhuma palavra é dita. O clima fica pesado por um tempo até Naoko resolve falar.
Naoko: O que vamos fazer amanhã, nii-san?
Shaoran: Hã?
Shaoran ainda estava abalado pela morte da mãe. Não havia parado para pensar em como seria sua vida daquele dia em diante. Ele pega sua meia-irmã e a coloca sentada no colo.
Shaoran: Eu... eu ainda não sei o que nos espera, mas prometo ficar junto com você e te proteger. Naoko: Promete que vai brincar comigo todos os dias?
Shaoran: Eu prometo.
Naoko: Promete que não vai mais chorar?
Shaoran: Eu... eu prometo.
Naoko (sorrindo): Então vai ficar tudo bem. A partir de amanhã vamos trabalhar duro como prometemos para a mamãe.
Shaoran: Isso!
Kazuko: Vocês planejam continuar morando aqui? Essa casa me parece muito isolada...
Shaoran: Nós não saberíamos para onde mais ir... então acho melhor ficar num local que conhecemos bem.
Sakura: Vocês gostariam de viajar?
Shaoran: Hã? Viajar? Para onde?
Sakura: Por todo lugar... eu viajo bastante e sempre encontro lugares maravilhosos e descubro novas coisas... viajar sozinha é um pouco chato, então...
Sakura cora levemente e baixa a cabeça, não conseguindo olhar Shaoran diretamente.
Sakura: ... então, será que você gostaria de viajar comigo?
Shaoran: Com você?
Sakura (coçando a cabeça, sem graça): Foi uma idéia idiota, não é? Por que vocês iriam querer ficar perto de alguém que traz a morte para as pessoas? Desculpe por is...
Shaoran: Eu aceito.
Shaoran segura a mão de Sakura.
Shaoran: Se formos com você, teremos um objetivo. Mesmo que nossa ajuda venha a ser pouca, ficaremos felizes só de sermos úteis.
Sakura: Você têm certeza?
Shaoran: Claro. E a Naoko concorda também, não é?
Naoko: Sim! Dessa forma o nii-san vai poder ficar junto da sua namorada.
Shaoran (e Sakura): Que?!
Shaoran e Sakura coram, se entreolham e separam as mãos. Kazuko solta um leve grunhido de raiva que apenas Reiko percebe.
Sakura: N-não é bem isso...
Shaoran: V-você entendeu errado...
Naoko (rindo): Nii-san ficou todo vermelho. Sakura nee-chan também. Vocês são muito engraçados.
Shaoran: Não diga coisas embaraçosas, Naoko...
Reiko se levanta abruptamente.
Reiko: Bem... eu acho que hora de dizer adeus então.
Shaoran: Você não querem viajar conosco?
Reiko: Eu adoraria, mas... mas eu e a Kazuko ainda temos algo muito importante a fazer.
Sakura: Boa sorte em sua jornada.
Kazuko: Desejamos o mesmo para vocês.
Reiko e Kazuko abraçam seus amigos e se despedem. Elas caminham pelas dunas até sumirem de vista. Então as duas páram e fitam o horizonte. Elas já podiam ouvir o som da sirene alcançando e agredindo seus ouvidos e um clarão surgindo no horizonte.
Kazuko: Temos que ser rápidas e reunir o báculo e as cartas.
Reiko e Kazuko dão as mãos.
Reiko: Vamos dar nosso melhor.
Então Reiko e Kazuko são engolidas pelo clarão. Tudo fica branco.
(CONTINUA...)
Notas finais
Curiosidades:
- Nômade é uma pessoa que não tem residência fixa, que está sempre mudando de lugar.
- Onii-chan / Nii-chan / Nii-san significa irmão mais velho.
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