Carabosse

4 Terceiro Ato - Parte I


Notas iniciais
E aí, clã, tudo bom? xD Então, gente, deu meio que um ruim aí no capítulo e ele ficou meio grande demais para um post só :'D Por essa razão, precisei dividir ele mais ou menos na metade... A segunda parte eu postarei provavelmente amanhã, mas considerem como sendo um único capítulo, ok? Peço desculpas pelo atraso :B E, como podem ver, a história não vai ser encerrada amanhã, kjkjkjkjkjkjkjkjkj (cada k uma lágrima, cada j um soluço). Agradeço pelo apoio e torcida, mas falhei a reta final de 2017. Espero que pelo menos concluir Carabosse no começo de 2018 seja um bom sinal, né mesmo? :'D Obrigada mais uma vez pelo apoio e façam uma boa leitura! Espero vocês no próximo~

Terceiro Ato

Parte I

O trem chegou à cidade moscovita com seu apito e ranger de freios atraindo atenção daqueles que esperavam por amigos e parentes, dentre eles Margosha Popovevna. Sua ansiedade era voltada tanto pela visita do filho, depois de tantos anos instalado em São Petersburgo, quanto pela viagem que ele estava fazendo fazendo sozinho, dado a ausência de Yakov no país, acompanhando Victor Nikiforov na final de um mundial júnior o qual seu filho havia tentado colocação para ser avaliado com um ponto e três décimos que o colocaram atrás de Victor e, por consequência, fora da classificação.

Engolindo o desgosto antes que ele fosse capaz de afetar sua capacidade de sorrir, Margosha viu Georgi surgir na saída do vagão e surgir na saída do vagão e com sua aparição iluminar e afugentar toda a escuridão que o rancor trazia ao coração da mãe; não existia trevas quando ele estava por perto. E agindo como a estrela que era — ainda que apenas aos olhos de Margosha —, Georgi se aproximou em uma corrida chamativa e livre de protocolos comportamentais, jogando-se nos braços abertos com tanta intensidade que quase levou ambos ao chão.

“Georgi!” Margosha chamou sua atenção, sem saber do que poderia reclamar. Abraçando-o com força, alisou os cabelos negros, recordando da primeira vez que o teve nos braços para fazer o mesmo. Onze anos e ela continuava vendo-o como seu bebê.

“Olha só, já estou da sua altura!” riu ele ainda dentro daquele abraço. A risada suave estava próxima, entrando em sua mente e levando à memórias mais antigas, parecendo deixá-la perto e longe do filho ao mesmo tempo.

“Não seja exagerado, a culpa é do seu par de botas!”

Diferente do afirmado em tom risonho, os olhos castanhos de Margosha brilhavam com as lágrimas contidas durante tanto tempo. A separação era sempre dolorosa e nem sempre as visitas feitas pela costureira conseguiam dar conta de acalmar o coração saudoso. Ver Georgi ali, em Moscou, a cidade de onde ele nunca deveria ter saído, tornava tudo certo novamente. Os olhos de um azul profundo combinavam perfeitamente com o céu cinzento da capital e Margosha se viu apertando o rosto gelado repetidas vezes, querendo provar a si mesma estar tocando o Georgi real, não um fragmento efêmero de seus sonhos. Ter as bochechas e a ponta do nariz apertados, arrancou risos baixos do garoto e som tão melodioso despertou Popovevna do triste devaneio de talvez não estar ali com o filho. Aliviada com a constatação, ela acarinhou o contorno da face que a cada nova visita perdia um pouco mais dos traços arredondados tipicamente infantis, inundada com todas as recordações envolvendo o rosto de Georgi. Nostálgica, sorriu para si mesma.

“Fez uma boa viagem? Não foi muito cansativo?”

“Fiz, sim!” Animado, Georgi estava cheio de aventuras daquela primeira experiência para contar à mãe, principalmente sobre as amizades feitas com bêbados comemorando o ano novo antes da hora e todos os oito ovos cozidos com qual fora presenteado ao longo do trajeto. “Te fiz esperar muito, mãe?”

“Cheguei há apenas meia hora, não se preocupe.” Dando um beijo na bochecha gelada, Margosha se prontificou a pegar as malas abandonadas pelo reencontro. “Vamos comer alguma coisa, eu levo sua bagagem.”

“Não precisa, eu aguento, já sou tão forte quanto Yakov!” dispensou bem humorado, andando em direção a saída por conta própria. “Vem, vamos para casa!”

“Mas que pressa é essa, mocinho?” brincou, risonha. “Você fez uma viagem cansativa, vamos parar um pouco para comer alguma coisa, depois podemos ir com calma, você descansa assim que chegarmos, sua cama já está pronta.” Georgi não conseguiu reagir à gentil sugestão da mãe, muito ansioso em achar um local com um aparelho televisor a disposição, onde pudesse fazer livre uso sem ninguém incomodar.

“Não dá, a final do Mundial Júnior começa em uma hora!”

Oh, então era aquilo.

A animação de Georgi desarmou Margosha de ações e palavras. Em silêncio, eles caminharam lado a lado, um trajeto em nada comparado com os feitos na mesma situação poucos meses antes. Os reencontros de mãe e filho costumavam ser um exagero de demonstração afetiva, com abraços quase eternos e refeições acompanhadas de muito falatório e declarações constantes em ambos os lados, sobre o amor sentido por cada um, palavras de carinho trocadas como o mais precioso dos presente, enfeitado com admiração e laçarotes de saudade. Popovevna estava pronta para mais um dia açucarado como o de sua memória, mas o excesso de doce em sua expectativa tornou intragável o momento presente e ela sequer conseguia disfarçar a decepção. Para sua sorte — ou não —, Georgi só tinha olhos para o horizonte, antevendo a entrada do prédio antigo e da televisão sintonizada na transmissão internacional. Nada o faria olhar para o lado naquele dia.

O apartamento não teve tempo de recepcioná-lo e Georgi já estava abandonando as malas no meio do caminho da porta à televisão. Ajoelhado em frente a tela, ele ligou o aparelho e começou a girar os grandes botões metálicos, tão pesados e velhos que enroscavam entre um canal e outro; por pouco, ele não ficou condenado a rever pela centésima vez a re-exibição de um filme que, de tantas reprises, já se tornara um inconveniente clássico, reclamado por todos e assistido pelos mesmos. Margosha, particularmente, adorava aquele romance.

Puxando uma cadeira no fundo do cômodo principal, ela assistiu aos esforços do filho em mudar de canal, disfarçando o egoísmo em não querer ajudá-lo. Sentia uma grande e pesada culpa acomodando-se preguiçosamente em seus ombros caídos, abafando as perguntas externas das paredes limpas recentemente e da cama arrumada com lençóis novos, questionando o porquê de estarem sendo ignorados. Tantos detalhes novos pedindo pelo cuidadoso olhar de Georgi e os antigos que ainda persistiam ao longo dos anos, ofendidos pelo descaso do jovem, não conseguiam entender a razão do abandono, de estarem sendo irrelevados pelo garoto que sempre teve aquele minúsculo apartamento como um mundo. Na mente de Margosha, cada um dos detalhes deixados de lado — com ela inclusa —, voltavam seus olhos para ela e questionavam com a iris inexistente, pelo que haviam sido trocados. A única circunstância que tornava o aparelho televisor protagonista daquele lar, era quando a fita de Oleg reprisava ao longo dos dias, seus programas incansavelmente aplaudidos no passado, atormentando Margosha no presente e sugerindo um burburinho ainda maior para o futuro.

“Já começou?!” gritou Georgi, não direcionando a pergunta desesperada nem para as paredes, nem para a mãe. “Qual a diferença do fuso-horário?!”

Ali Margosha entendeu que não importava o nome que levasse, seu filho sempre tinha a atenção levada embora por quem carregasse o sobrenome Nikiforov.

Comentaristas russos falavam por cima dos anúncios feitos na cidade de Amsterdã, sede da final daquele ano. Aproveitando o intervalo entre os grupos, palpitavam sobre o desempenho dos participantes até aquele momento, não conseguindo manter totalmente a imparcialidade da avaliação quando citavam o nome de Victor, a grande expectativa da final daquela categoria. Sendo filho dos dois maiores nomes da patinação artística, ele unia em uma só pessoa a aparência lúdica da mãe com o talento excepcional do pai, um combo vitorioso que já lhe garantiria o pódio mesmo se Victor não tocasse seus patins no gelo. Respirando fundo, Margosha ponderou; ela não queria continuar alimentando tanta raiva assim por uma criança.

Imagens da plateia em posse de cartazes, pompons e pelúcias a serem arremessadas, foram substituídas por cenas dos bastidores, onde era possível ver os próximos competidores alongando e trocando algumas palavras com seus técnicos e coreógrafos. Rápido em buscar o mais interessante participante do dia, o cinegrafista tratou de localizar em Victor e permanecer os minutos restantes com foco no participante russo. Yakov, não conseguindo disfarçar o incômodo com tanta atenção, tentava ficar de costas para a câmera, espiando por cima dos ombros vez ou outra para certificar se o câmera intrometido já tinha ido embora. Irritado, bufava em cada vez que constatava o oposto. Victor, pelo contrário, estava adorando o interesse da mídia, aproveitando para acenar, posar testando novos ângulos que melhor lhe destacassem, uma animação infantil que fez Margosha simpatizar com o filho de Oleg por um momento. Foi quando o sorriso dele abriu-se naquele coração tão conhecido que ela percebeu o momento ser muito efêmero e logo sua simpatia estava dissipando pelo ar, como se nunca tivesse existido.

“O que aconteceu com seu cabelo, Vitya?” Georgi perguntou para a imagem sorridente na televisão. Parte do garoto ria, enquanto a outra sentia enorme vergonha. Os dois haviam pesquisado e testado inúmeras formas de prender o cabelo do competidor até chegarem no consenso de que um rabo de cavalo seria o melhor para não atrapalhar durante a execução do programa, mas a bagunça que provavelmente Yakov havia feito com os fios claros, era de frustrar todo o trabalho duro tido por eles nos últimos meses — mas Georgi tinha de admitir que estava bem engraçado.

Margosha, por outro lado, não achou nada engraçado, muito menos a parte onde seu filho referia-se ao filho de Oleg de forma tão íntima. Desde quando aquele garoto havia passado de Victor para Vitya?

Com o fim do intervalo e a alta pontuação de Victor no programa curto do dia anterior, a apresentação do garoto acabou fazendo parte de um dos últimos grupos, esperado com ansiedade e atenção por Georgi e toda uma plateia curiosa com aquela performance em especial. Quando seu nome foi anunciado, houve aplauso e comoção em lágrimas daqueles que viam a própria Nikiforova se preparando para entrar. Desprovido do nervosismo típico aos demais competidores, Victor se desfez do casaco com poucos patrocínios e jogou os protetores de patins em um canto, entrando no gelo sem esperar Yakov terminar de falar. Ele havia ido à Amsterdã com o único objetivo de patinar e assim o faria; independente se aquela apresentação renderia algum prêmio ou não, a única coisa que Victor tinha em mente era parecer — e quem sabe ser — como sua mãe. A composição escolhida para o programa livre do herdeiro Nikiforov foi a romântica valsa Danúbio Azul, pelo compositor austríaco Johann Strauss II, ou, como chamavam os saudosistas da falecida patinadora, A Valsa de Narkissa.

Era bem verdade que valsas remetiam a pares muito bem coreografados, duplas que inspiravam casais apaixonados e acabavam tendo sua imagem vendida pela mídia como pombinhos inseparáveis, combinando perfeitamente com a proposta do programa que procurava inspirar uma história de amor no gelo e convencer os jurados de seu merecimento em nota. Todavia, na época em que Narkissa lançou-se ao gelo, vestida em azul, assumindo por conta própria a responsabilidade de valsar sozinha uma história de amor vienense, a jovem de apenas dezessete anos arrebatou corações e fez o estádio da apresentação ser lavado pelas lágrimas de um público formado por representantes de todos os cantos do mundo. Ver Victor trajado em um figurino de aparência ambígua que o fazia parecer vestir ora uma bata esvoaçante, assemelhando-o a algum elfo encantado, ora uma réplica idêntica ao delicado vestido da mãe, resgatou lembranças e tocou fundo o coração órfão de toda uma nação de fãs, pronto para adotar aquele que não somente havia herdado a coroa do pai, como também o trono de gelo da mãe. O garoto mal havia se posicionado na pista e a plateia já estava sensibilizada, tal como os comentaristas dos dourados anos de Nikiforova. Margosha sentiu desgosto, mas Georgi evidentemente sentia o oposto.

Com os punhos fechados em expectativa, ele sequer piscava, extremamente concentrado na figura de Victor e murmurando baixo palavras de incentivo. Torcendo pelo menino que havia crescido como seu bom e único amigo, Georgi percebeu-se apertando o pingente escurecido que já tinha parte dos kanjis desgastados pelo tempo e gesto repetitivo. Independente da mensagem apagada, ele ainda podia sentir na palma da mão o significado do presente ganho de Okukawa, a força que ele precisou nos últimos anos e que agora tentava transmitir para Victor.

Margosha tentava não se admirar com a performance daquela criança de cabelos platinados, especialmente sendo ela filha de quem era. Mas os saltos que arrancaram suspiros admirados da plateia, os sorrisos meigos, a energia transmitida desde antes do começo até depois do fim, tudo era tão familiar à Narkissa e tão dolorosamente encantador, que a costureira queria ser capaz de cortar as próprias mãos para fora e assim não ser capaz de somar aos demais seus aplausos admirados. Não, seu único reconhecimento e ovação seria pelo filho e nada mudaria isso.

“O Danúbio Azul combina tanto com ele…” Georgi, por outro lado, não estava competindo contra ninguém, o que era muito amável de sua parte e muito esperado também. Em seu coração bom, não existia espaço para tantos conflitos — assim Popovevna queria pensar.

“E qual composição combina com você, querido?” Incentivando naquela pergunta os planos do filho para a próxima temporada, Margosha esperou que Georgi deixasse de se atentar ao Kiss and Cry para respondê-la aproximadamente.

“Eu não sei ainda, mãe…” A resposta apropriada não veio, e Margosha tentou não se importar. O problema não era seu filho extremamente atento ao amigo — ou seria rival? —, pelo menos não totalmente… Ela apenas temia que naquela cabecinha, já não tão fácil assim de se ler, uma das mais cruéis injustiças estivessem acontecendo, a de Georgi estar se comparando com Victor Nikiforov.

“Pois eu acho que você combina com a Valsa das Flores!” Abraçando-o por trás e enchendo seu rosto de beijinhos estalados, Margosha arrancou altas risadas do filho e finalmente sua atenção da tela.

Mostrando estar desligado da apresentação posterior a do amigo e deixando transparecer a hesitação, Georgi relembrou mentalmente o pedido que vinha ensaiando há semanas e repetida durante as longas horas de viagem, inclusive em seus sonhos. Paciente como era de se esperar de Popovevna, ela esperou a preparação do filho, evitando rir e assim reprimir sem intenção o que parecia tão difícil para Georgi dizer. Ela sequer imaginava o tamanho medo alimentado pelo garoto desde que decidira dar aquele passo extra em sua carreira na patinação, e esperava de todo coração que a mãe fosse tão favorável àquela decisão quanto Yakov e tão entusiasta quanto Victor e seus aplausos barulhentos. Por Deus, que ela não o achasse ridículo, estúpido, por tomar aquela decisão.

“Eu queria pedir uma coisa para você, mãe… É para minhas apresentações.”

Costura era a única coisa que Margosha podia dizer sem dúvida alguma poder fazer para ajudar o filho. Começado como um hobbie aprendido com senhoras aposentadas com quem dividia morada quando criança e aprimorado conforme crescia, a filha de Yakov não se via fazendo outra coisa que não aquela. Podia fazer de saias simples à requintados vestidos de casamento, paletós melhores que os de qualquer alfaiataria de renome e liderar grupos de costura na montagem do mais variado tipo de figurino, dando um toque todo especial aos tutus românticos de Giselle e quebrando o clássico do balé com pouco pano e muita força na interpretação moderna de Carmen. Se Georgi precisava de algo, ela estaria mais do que satisfeita em costurar o maior número possível de figurinos para suas performances e a mais deslumbrante das vestes para as futuras apresentações de gala que ela ainda o veria fazer. Bastasse Georgi pedir e ela já estaria com as agulhas na mão.

“Claro, Gosha, o que você quiser.”

Ele não pareceu muito convencido, mas já havia falado demais para voltar atrás.

“Eu queria que você me ensinasse como posso me maquiar.”

Aquilo, de fato, não era o que Margosha esperava, mas ela não podia dizer ser uma surpresa. Maquiagem também era uma forma de expressão, embora a especialidade dela fosse de fato a costura e ela se lembrava muito bem de todo o interesse que Georgi tinha desde muito pequeno, ligado a cores, detalhes e muito brilho, refletido em seus pequenos pertences, nos lápis coloridos mais usados e na admiração que sempre teve por ver todo o processo de transformação de Yulia e Minako antes de pisarem no palco. A patinação artística era como a dança clássica e o palco de ambos só substituía os tacos polidos, pelas camadas de gelo.

“É claro que eu te ensino, Gosha…” Aliviado com a recepção positiva da mãe, Georgi deixou-se sorrir, aceitando a carícia nos cabelos como sua recompensa por todas aquelas semanas de ansiedade. “Não sei muito de maquiagem artística, mas ficarei muito feliz em te ajudar.”

“Sempre achei suas maquiagens lindas!” Feliz em por para fora toda sua animação com o apoio da mãe e não perdendo a oportunidade de elogiá-la, Georgi agitava-se, esbaforido como se estivesse percorrendo uma corrida, provocando os risos de Margosha. Ele podia estar crescendo, mas aquele jeito enérgico, a alegria por coisas tão pequenas para quem não as sabia apreciar, nunca mudava. Ela esperava que nunca mudasse. “Eu quero usar muito roxo e muito brilho!”

“Você pode usar muito roxo, muito brilho e todos os muitos que quiser” brincou, acompanhando os trejeitos do filho. “desde que saiba identificar qual maquiagem é melhor para cada situação.”

“Tem isso?” Georgi nunca havia parado para pensar sobre. Ele só queria mesmo usar um batom escuro e glitter nos olhos, não sabia que até para se maquiar era preciso pensar.

“Para um personagem, sim. Não é uma regra, mas ajuda a criar a imagem do que se interpreta se adaptá-la adequadamente.” Tentou explicar da melhor forma que podia. Yulia com certeza seria mais esclarecedora, mas ela já não estava ali para auxiliá-la, agora. E por falar em Plisetskaya... “Eu vou pegar minhas coisas, mas antes tenho alguns cartões para te mostrar.”

Animado com os cartões que somariam à sua coleção, Georgi aguardou. Aquela viagem estava sendo melhor do que o esperado e ele tinha certeza de que poderia dividir todas aquelas boas experiências com Vitya e Yakov quando voltasse.

Trazendo o modesto kit de maquiagens em uma mão e um pequeno punhado de papéis em outra, Margosha estendeu os cartões endereçados ao filho e começou a mexer nos batons e blushs que tinha à disposição. Com a tv reproduzindo um ruído branco ao fundo, Georgi se atentou aos pontos turísticos enviados por Yulia, a enorme Basílica de São Pedro, no Vaticano que, para sua surpresa, era um país independente, segundo lhe escrevera a bailarina, a magnífica Catedral de Colônia, na Alemanha, com um tempo total de mais de seiscentos anos para sua conclusão e por fim o Centro Histórico de Munique, onde ela mantinha-se atualmente em curta temporada de apresentação com a turnê do Balé Bolshoi. Junto com aquele cartão, tinha também uma carta já aberta por Margosha, a qual ele prontamente se pôs a ler.

“Yulia disse na carta ter mandado um cartão de cada lugar que eles visitaram, mas só chegaram esses…” ela estranhou. Antes de estabelecerem-se em solo alemão, tinham feito uma única apresentação no Cazaquistão, partindo para a Ucrânia, República Tcheca, Áustria, Itália e depois Polônia. Seria muito azar se todos aqueles postais tivessem extraviado no meio do caminho.

“Ela está namorando?” riu o menino, achando graça das palavras melosas usadas para descrever um bailarino alemão “de lindos olhos verdes” que estava acompanhando a turnê, junto a outros dançarinos extras, mandados para fazer volume ao corpo de baile.

“Acho que estamos perdendo nossa Yulenka para um chucrute.” Aquela palavra pôs os dois a rirem alto, lembrando com bom humor de Nikolai e sua total aversão a tudo que viessem de lá. Ouvira muito de seus pais sobre os horrores da Segunda Guerra Mundial para odiar alemães para sempre, sem condições de tentar entender todo o contexto quando para Plisetsky seu país não tivesse culpa de nada. Relevavam a teimosia pela idade o deixavam como estava; nada se podia ensinar a quem não queria aprender.

“Quando ela volta?”

“Só no fim do mês. Por quê? Saudade?” Deixando os postais de lado e substituindo-os por um batom colorido, ele assentiu. “Eu também estou… E daqui para frente o tempo dela tende a ficar mais escasso, Yulia já tem formação em balé clássico…”

“Já?” Georgi também estava surpreso. Atento aos gestos da mãe, pegou um quarteto muito usado de sombras escuras que ela ofereceu e observou com cuidado quando ela depositou pontualmente uma sombra de cor aleatória no meio da pálpebra.

“Já… Parece que foi ontem que ela pediu ajuda de Minako para treiná-lo para o processo seletivo…” riu, tanto da lembrança de uma pequena e magrela Yulia implorando com toda convicção do mundo nunca mais pedir nada se Okukawa a ajudasse.

A lembrança da bailarina japonesa parou o processo de maquiagem pela metade, tanto por parte de Margosha, quanto por Georgi. Já fazia cinco anos. De fato, parecia mesmo ter sido ontem quando tudo aconteceu.

“Ela não mandou mais nenhuma carta?”

Sem ter palavras para consolar a decepção do filho, a costureira apenas gesticulou em negativo, mas qualquer que fosse a forma de negar o contato de Minako, ainda doía saber de seu afastamento. A comunicação, embora espaçada, nunca deixara de acontecer ao longo de todos aqueles anos, ou quase. Já fazia oito meses que não se tinha notícias do Japão e embora Yulia brincasse buscar Minako pela orelha, ela também estava sentindo falta. Tanto a dizer, tanto a celebrar, tanto a querer saber… O que teria acontecido?

“Será que ela não gosta mais da gente?” Arriscou Georgi, com a cabeça tombada para baixo, fingindo prestar atenção nas cores que testava no antebraço. “Será que ela não gosta mais de mim?”

“Não diga isso, Gosha, por que Minako não gostaria de você? Você sempre foi tão precioso para ela!”

Georgi permaneceu calado, pensando com as cores com as quais pintava a própria pele. Já fazia certo tempo que ele questionava quão bem-vindo era para as pessoas, especialmente uma.

“Eu acho que Oleg Nikiforov não gosta de mim.”

Por que Margosha se surpreendia com aquilo? O nome Nikiforov era uma constante em sua vida desde que Georgi fora tirado dela para ficar aos cuidados de Yakov. Fosse Oleg, fosse Victor, ela nunca tinha sossego vindo daquela família.

“É preciso ser insano para não gostar de você, Georgi” falou sério.

“Eu não tenho certeza…”

“Você é um garoto responsável que nunca deu problema para Yakov. Tem um ótimo desempenho na patinação, é um aluno de nota exemplar e comportamento idem. Diante de tudo isso, me diga, por que Nikiforov não gostaria de você?”

“Eu não cheguei à final desse ano…”

“Mas ficou entre os melhores colocados, filho, e essa é a sua primeira participação na categoria! Antes dela, sua participação em campeonatos infantis e shows no gelo, sempre foram elogiadas, sinal de que anos de trabalho duro estão dando resultado.”

Nada do que ela disse o animou. Margosha não sabia se sentia ódio ou chorava com a constatação de que a falta de opinião de Oleg contava mais que suas palavras de incentivo.

“Quer saber? Que se dane Oleg Nikiforov!” A ofensa e desprezo para com o ídolo abismou Georgi no mesmo instante. Seria possível que aquele homem fosse o ponto fraco de seu filho? “Quem liga para o que ele acha ou deixa de achar?”

“Eu ligo! Quero dizer, ele é meu principal patrocinador, se ele não gostar de mim…”

“Então outros surgirão” completou ela, não deixando que Georgi continuasse alimentando aquela ideia. “Simples assim, Gosha. Ele não é único no mundo, há outros patrocinadores que podem muito bem financiar sua carreira.” Disso ele até tinha uma ideia, mas não era o reconhecimento de um fornecedor de patins aleatório que Georgi queria. “De onde tirou essa ideia? Foi Victor?”

“Não!” Entrando em defesa do amigo, prontamente ele se ergueu, como se pondo-se em frente à televisão pudesse protegê-lo em Amsterdã. “Bom, um pouco sim, mas não por culpa dele.” Impossibilitada de reclamar mais uma vez, Popovevna calou-se para ouvir o que ele tinha a dizer. “É que eu só tenho notícias dele por recados do Yakov, mas eu nunca o vejo no telefone se não for para falar com você…”

“Ele pode ter ligado em outro momento, quando você está na escola. Você sabe que depois que Nikiforov voltou a se apresentar em shows, a agenda dele é agitada, o fuso horário deve ser um problema nessas horas.”

“Mas ele ligou para cumprimentar Victor pelo aniversário e nem pediu para falar comigo...” O lamento não podia ser disfarçado.

Por mais contrária que fosse à existência de Nikiforov — e ela podia dizer isso dos dois que carregavam esse nome —, novamente, Georgi não tinha culpa; ele continuava sendo uma criança ansiando por impressionar o ídolo.

“Nikiforov tem a rotina muito corrida, filho… Deve ter encontrado uma brecha muito pequena para poder cumprimentar Victor, você não acha?” Tentou apaziguar, por mais contraditório que fosse fazer aquele favor a Oleg.

“Ele ligou no dia vinte e seis, mãe…” Definitivamente, aquele homem não tinha nenhuma defesa. “Poderia ter falado comigo, mas ele nem se importou…”

“Se ele não se importasse, teria deixado de te patrocinar há muito tempo.” Não tendo mais nenhuma palavra de consolo, ela acariciou o rosto do filho e sorriu na esperança de ser imitada. “Você passou muitos aniversários sem a atenção desse homem. Se me disser que sente mais falta dos cumprimentos de Nikiforov do que os meus, ficarei chateada…”

Georgi riu da mágoa fingida e abraçou Margosha, sempre disposta a receber o filho com amor e todos os cumprimentos do mundo. Ela tinha razão, o menino era capaz de reconhecer isso, mas ainda era difícil se acostumar com o aparente desprezo do ídolo de toda uma vida.

“Incrível!” Na televisão, as vozes dos narradores não eram mais ignoradas. “Mesmo após a apresentação de mais nove competidores à frente dele, a nota de Victor Nikiforov não conseguiu ser batida!”

Cenas do estádio e do placar repleto de nomes e números eram apresentados, uma plateia que aplaudia em pé e gritava por cima do anúncio do pódio, dificultando para os comentaristas da televisão local e os repórteres internacionais noticiarem a vitória como um todo. Ao lado de um sorridente e muito incrédulo Yakov, Victor sorria e acenava, não parecendo estar comemorando uma fenomenal vitória com primeira colocação conquistada com uma diferença considerável de notas entre o segundo colocado. Era como se ele não tivesse entendido ainda quão longe havia chegado.

“Se pararmos para pensar, já era de se esperar, ele é um Nikiforov!” brincou o outro comentarista, uma piada que Margosha não viu nenhuma graça. “Essa criança está destinada a grandeza desde que nasceu!”

Um breve momento de silêncio que a costureira reconheceu ser o corte proposital dos microfones, foi substituído por mais cenas do rinque gelado, onde diferentes alturas de degraus eram colocadas para a premiação do pódio infantil. A falta de falas e comentários estendeu-se ainda por alguns minutos de cenas aleatórias de um Victor muito entediado com a demora da entrega de medalhas, fazendo Margosha pensar consigo mesma se o responsável pelo último comentário não estava naquele momento sendo dispensado para sempre de todos os canais televisivos da Europa. Destinado a grandeza desde que nasceu? Logo Victor, nascido de um parto o qual Narkissa não havia suportado? Quanta falta de tato. A saudade por Nikiforova tinha seus motivos esquecidos muito facilmente, pelo jeito.

“Seu cabelo está horrível, Vitya…” Georgi, sem saber todos os pormenores escondidos atrás daquela frase, mostrava-se divertidamente decepcionado com o penteado do amigo. “Mãe, você me ensinaria como trançar cabelos, também?”

A alegria do amigo foi capaz de dissipar, pelo menos por enquanto, toda a frustração de Georgi e incerteza sobre o respeito e consideração por parte do ídolo. De fato, o nome Nikiforov tinha muito poder na vida de Popovich.

“Eu não tenho cabelos longos desde a minha adolescência, mas acho que Yulia ficaria muito contente em te ajudar nisso, assim que ela voltar.” Tentando ela mesma esquecer do tópico discutido anteriormente, Margosha citou Yulia, incluindo-a na conversa e nos planos futuros, como deveria ser. “Isso, é claro, se você vier nos visitar mais vezes!”

“Eu venho! Prometo!” garantiu, rindo com os beijos ganhados por todo o rosto.

“Acho bom que cumpra, todos nós ficamos morrendo de saudade de te levar ao GUM!”

Ah, o GUM… Em sua cabeça fazia tanto tempo que não patinava na Praça Vermelha… Não importava se patinar era sua rotina diária, era o local e as pessoas que faziam daquela memória tão especial.

“Seria incrível!” E aquela afirmação era feita para si mesmo. Não demorou para voltar a pensar no principal tópico daquele retorno a Moscou, devaneando sozinho e entre risos, uma das metas para o futuro. “Vou finalmente poder arrumar o cabelo do Vitya direito!”

Uma última vez, a costureira riu — e não foi com sinceridade. Mais apegado e feliz por aquela criança do que ela gostaria, embora pela criação conjunta isso já fosse esperado, ele comemorou e aplaudiu intensamente quando a medalha de ouro foi colocada no pescoço magro, enroscando nos cabelos parcialmente presos e incomodando o medalhista, mais preocupado em manter os fios decentemente presos até o fim da celebração que com o prêmio em si. Vendo nas pequenas caretas de Victor uma enorme diversão, Gosha ria e apontava para a tela, olhando vez ou outra para a mãe, certificando-se de que ela também estava vendo naquilo tudo a mesma graça. Popovevna novamente pensou com seus botões e tentou ponderar, mas aquela sensação, aquele nó em seu estômago já tornava a situação indigesta;

Georgi estava falando muito sobre Victor e isso já estava incomodando Margosha.

.:.

“E para cima!”

Com os patins enroscando no gelo mais fundo do que o necessário, o simple axel de Georgi foi para todos os lugares, menos para cima. Desengonçado, ele atrasou a entrada e depois de um giro e meio ou nem isso, quase não voltou para o gelo, vendo a hora na qual se espatifaria no rinque e ficaria lá mesmo, esperando a morte ou Yakov, o que fosse pior. Todos sabiam o que seria pior.

“Certo, pode parar!” Yakov pediu, com um tom de voz que entregou ares de ordem. “Georgi, venha cá, vamos fazer uma pausa.” Victor, que não havia sido chamado para a conversa, também estava se aproximando, pronto para desamarrar os patins. “Você não,volte para lá e continue de onde estava.”

O indicador esticado apontou para a direção oposta, indicando um espaço qualquer do rinque onde o garoto deveria continuar com o treinamento. Victor não gostou muito de ser excluído daquela conversa, principalmente porque ele também havia notado o desânimo de Georgi, antes mesmo de Yakov, se duvidassem. Todavia, reconhecendo não ter voz naquela nem começada discussão, ele recuou, muito a contragosto. Daria um jeito de um dos dois explicar o que estava acontecendo, quando fosse o momento apropriado.

Do lado de fora, Yakov aguardou no corredor até que Popovich cobrisse as lâminas com os protetores coloridos e se juntasse a ele. Desde a saída do rinque até o deslocamento para o vestiário foi feito em total silêncio, pela tristeza que roubava de Georgi as palavras e o respeito de Yakov em não cobrá-las. Tato emocional talvez não fosse uma de suas maiores qualidades, mas os anos haviam o ensinado a ter noção de certas coisas.

Longe dos curiosos olhos de Victor e seus ouvidos inconvenientemente interessados, ambos encontraram no cômodo vazio pelo horário da manhã, a privacidade necessária para aquela conversa. Georgi sentia não estar sendo cobrado de grandes coisas e o que motivava a atenção de Feltsman era preocupação genuína; ele só precisava explicar aquilo para sua insegurança.

“Você já tem domínio dos saltos principais há algum tempo, Georgi” observou o técnico e o próprio se impressionou com quão brando havia soado aquela primeira tentativa de conversa. “Mas ultimamente, seu rendimento tem caído, não só na patinação como na escola.” Surpreso, o garoto olhou para Yakov. Como ele…? “Eu também acompanho sua vida escolar, criança.” Oh, estava explicado. “Sou eu quem te crio, lembra?”

“Sim, senhor” respondeu cabisbaixo. Mais problema… Georgi estava sempre sendo um.

“Quer dividir comigo o que tem te incomodado tanto nos últimos tempos? Lembrando que as respostas para essa questão é concordar ou não discordar.” Achando graça daquela brincadeira dita em tom sério, Popovich permitiu-se rir um pouco e com isso aliviar a aflição do peito. Yakov tinha razão, era ele quem o criava, sendo principal figura familiar ao lado de Margosha. Quase seis anos ao lado do técnico haviam o ensinado em quem poderia confiar.

“Não estou satisfeito com meus treinos” despejou de uma só vez, pondo para fora a incômoda e indigesta sensação de impotência. “Eu tento melhorar as entradas, suavizar as saídas, melhorar meu tempo e ritmo, mas ainda falta tanta coisa para fazer e tantas outras que eu já queria tentar...” A confissão era uma mistura confusa de frustração e desapontamento.

“Você não pode querer antecipar algo que pode não estar no que programo para vocês” explicou Yakov. “Focar no que tem agora vai te dar uma excelente base para aprimorá-las no futuro. De quê adianta apressar manobras só autorizadas no grupo sênior? Desse jeito, você não conseguirá se sair bem em nenhuma das categorias e você é melhor que isso.”

O elogio modesto o deixou levemente envergonhado, mas não o bastante para ficar satisfeito com o próprio rendimento.

“Não sei se acredito nisso.”

“Não acredita em mim?” Agora sim Feltsman parecia ofendido.

“Não acredito muito em mim.” A resposta mais melancólica do que ele esperava, um retrato muito fiel da insegurança que crescia junto com os centímetros de sua altura. Poderia vê-la inclusive um pouco mais alta. “Eu tento e tento, mas não consigo evoluir como Victor.”

Compreendendo melhor qual era a real raiz daquele problema, Yakov pousou a mão nos ombros caídos, o confortando daquele dilema.

“Se continuar de olho na evolução dele, jamais dará a atenção necessária para o próprio desempenho, Gosha.” Tinha um fundo de razão no que ele dizia, e por isso Popovich se atentou àquelas palavras. “Mas se há algo que Victor esteja treinando que você também queira, pode conversar comigo que eu encaixarei da melhor forma possível nos seus treinos.”

“Na verdade o que eu queria…” começou, hesitando antes de finalizar. “Eu queria ser como Oleg…” Nas mãos vazias, ele podia imaginar a fita cassete, cujo conteúdo nunca mais tinha assistido, mas que ainda hoje se lembrava. “Os saltos, a coreografia, o brilho, os sentimentos…”

“Pode parar por aí.” Feltsman não deixaria que mais nenhuma criança a seus cuidados caísse na melancolia. “Por que essa fixação em ser Oleg? Qual o problema em ser Georgi Popovich?”

Georgi não pode dizer que a familiaridade com aquela pergunta o fez sorrir. Emburrado, resmungou em voz baixa; já estava pegando as manias de Yakov.

“Minha mãe fala a mesma coisa.”

“Bom, sinal de que eu a criei bem.” Um pequeno mal-estar foi notado por ambos, mas o mais novo dos dois estava disposto a recuar, cabendo à voz adulta resolver aquele problema. Aquele trabalho, pelo menos, ele nunca teve com Margosha, reforçando seu argumento, o de que ninguém poderia ser igual a outro, independente das similaridades e laços sanguíneos que trouxesse. “Oleg não foi assim tão bom assim como vocês falam, quando competia em circuitos regionais e internacionais.” Georgi não acreditava naquelas palavras, porém nem tentou discutir, não era de sua natureza. “Mas você sabe por que ele chamou tanta atenção e foi tão aclamado? Porque ele, Georgi, deu ao público algo que ninguém tinha visto antes. É claro, nós todos falamos sobre a importância de equilibrar elementos artísticos com os técnicos, mas cabe a cada patinador trazer sua identidade nessa antiga fórmula. Na minha época, na época de Oleg e agora na sua e de Victor, muitos tentarão seguir as mesmas fórmulas, repetir o que já foi feito, copiar o que um dia foi exclusividade, mas isso não os tornará nada. Talvez, pela semelhança com técnicas de outros grandes nomes, colecionem aplausos e elogios de jurados mais conservadores, mas e então? Qual a beleza, qual a novidade, qual o sentimento” Aquela palavra, Feltsman fez questão de frisar. “que uma cópia traz?” Yakov deixou aquela frase para o menino responder. Como esperava, Georgi não soube como fazer isso. “Um patinador que imita outro, não é capaz de fazer história. Se quer pisar em um rinque e fazer o público chorar, então vá lá e mostre a todos o que você gostaria de ver. É isso que difere um bom patinador de um artista.”

E, consequentemente, diferenciava Georgi e Victor de Oleg.

“Obrigado.”

Yakov sempre fora muito bem de discursos — Margosha, testemunha de todos os sermões que seu pai dava nos alunos, que o dissesse —, mas era capaz de entender o que um único agradecimento podia exprimir. A intensidade emocional de Georgi, tal como sua sinceridade, era sempre mais visível nos olhos azuis. Era incrível como aquela mesma tonalidade em outra iris podia ser tão diferente.

“Por nada.” Voltando a se levantar, Feltsman encorajou o aluno a acompanhá-lo. “Vamos voltar, quero ver o que tanto você tem para me mostrar. Dependendo do resultado, podemos repensar seu treinamento, o que acha?” Menos amedrontado em expressar seus receios, Georgi acenou afirmativo. “Ótimo, vamos lá, mas lembre-se:” avisou e o tom alto prendeu a atenção do garoto em si. “Seja como Popovich, não como Nikiforov.”

A risada de Georgi foi a resposta que Yakov queria ouvir.

Não seria difícil ver aquela criança crescer e sair-se melhor que Oleg, principalmente na questão interpretativa. Enquanto Nikiforov durante toda sua vida fingiu sentir todas as mentiras que contava dentro e fora do gelo, com Georgi era diferente; ele, de fato, sentia.

.:.

A agitação dos festejos de fim de ano somada a maior nevasca já registrada na capital russa em pelo menos quinze anos, pegou a frota de carros de aluguel de surpresa, o que deixou muitos pedestres abandonados ao relento, tremendo desde os calcanhares com a alta do inverno moscovita. Ou a baixa, no caso, visto a temperatura negativa congelada no termômetro urbano. Que clima, que país.

Felizmente, Georgi fazia parte do grupo de pessoas que apreciava a neve e o frio em sua peculiaridade negativa, podendo enxergar beleza na crosta de gelo endurecendo limpadores de parabrisa, no piso escorregadio — no qual ele tinha anos de experiência em lidar —, e, principalmente no marcador abaixo de zero. Margosha não apreciava tanto assim os climas mais amenos, preferindo o esplendor do sol radiante do verão, que Gosha gostava muito de comparar a ela. Outra pessoa fã de muito calor e nenhum gelo era Nikolai, mas pensar no velho amigo não trazia boas lembranças. O passar do tempo estava matando aos poucos o encantamento que Georgi via na vida — no mundo — e ele não queria ser responsável por alimentar a própria dor daquela forma. Conformando-se que naquele ano não teriam piroshki para a ceia de ano novo, ele puxou a alça da mala sobre os ombros e resolveu dar uma volta pelas lojinhas de quinquilharias da estação, antes de enfim pegar um táxi e ir para casa.

Já fazia certo tempo que sua coleção de cartões postais estava desatualizada e a nostalgia o fez ir primeiro conferir os impressos com pontos turísticos variados da região. Mesmo nascido e criado na Rússia, ele não conhecia metade dos prédios arquitetônicos e parques ali mostrados, diferente de Victor, indo para um canto diferente do mundo sempre que as férias permitiam. Ele nunca gostava muito de viajar com o pai, pois, em uma das confissões trocadas pelos dois garotos enquanto Yakov dormia ou fingia tal coisa, Victor dizia sentir-se muito mais sozinho agora do que quando ainda era criança. Achava extremamente cansativo acompanhar o pai nos shows, não ter horário certo para dormir e acordar abandonado no hotel, isso sem falar no enorme assédio de todos os fotógrafos locais desejando uma foto pai e filho. Ele não se importaria em tirar nenhuma daquelas fotos, se elas não fossem iniciativa apenas da mídia. Oleg, pessoalmente, nunca puxava o filho para um registro em família.

Doía pensar naquilo e era ainda mais doloroso ir reconhecendo que talvez seu ídolo não fosse uma pessoa tão admirável. Ainda assim Georgi não estava em posição de reclamar, pois era Nikiforov o responsável por pagar suas contas — e Popovich ainda tinha grande apego à imagem de Oleg. Quanta coisa para sua cabeça pensar…

Não sabendo o que levar para presentar Victor — que tipo de presente uma pessoa que já tem tudo gostaria de ter? —, Georgi quase desistiu da gôndola de cartões, e já estava preparando-se para deixar a loja, interrompido no meio de sua saída entre a porta e corredor externo, pela visão de um punhado de bichos de pelúcia de preço baixo e qualidade duvidosa, mas que os olhos infantis acharam adoráveis. Depressa, Georgi correu às pelúcias enfileiradas, admirando ursinhos de pêlo em coloração variada, porquinhos rosados, poodles macios e outros animais não tão identificáveis assim, dado a baixa qualidade da costura. Mas o ainda existente filtro mágico nos olhos azuis não o deixou por defeito em nenhum dos brinquedos, pelo contrário; se Georgi pudesse, levaria um de cada e presentearia cada um dos amigos.

Na carteira dada por Yakov com parte do dinheiro conquistado pelos patrocínios e participações em shows temáticos, ele podia contar os rublos a serem usados com muita responsabilidade, como havia Feltsman reforçado um milhão de vezes. Ele precisava administrar aquele dinheiro para se locomover por Moscou, comprar qualquer coisa que Margosha precisasse e ainda sobrar para eventuais emergências. Yakov não tinha ideia de nenhuma que pudesse acontecer, mas havia insistido no controle do dinheiro mesmo assim; para Popovich, aquela era uma emergência e seu técnico poderia perdoá-lo pelos poucos rublos gastos antes mesmo de encontrar a mãe. Por mais afobado que estivesse parecendo, ele sabia também ser melhor prevenir do que remediar o estrago feito, acabando por guardar a carteira no bolso, ao lado da pequena surpresa que levara tantas semanas para fazer e que pacientemente aguardava a hora de ser mostrada. Aquela era a única coisa que não poderia perder e Yakov morreria de desgosto se soubesse o tamanho desinteresse de Popovich com aquela carteira.

Procurando um diferencial nas pelúcias da pequena loja, resolveu escolher pelo único modelo diferente dos demais, um bichinho amarelo com orelhinhas pontudas e manchas listradas por todo tecido peluciado. Era um gato? Um tigre? Não parecia nenhum dos dois, mas Georgi adorou a cor viva — e vida era algo sempre bem-vindo, independente do lugar.

Quando o táxi se aproximou do prédio, Georgi conseguiu ver que Margosha já o esperava, encolhida pelo vento forte, sem nem se mexer. O topo das bochechas estava corada pela exposição ao frio cortante, abraçando os próprios braços na intenção de deixá-los mais aquecidos e, ver aquela cena, fez Georgi querer sair correndo daquele carro e providenciar ele mesmo o abraço que a deixaria mais confortável.

O sorriso de Popovevna abriu em seu rosto gelado e por pouco não abriu o céu, deixando o sol se manifestar. Sua alegria era ainda mais radiante do que se lembrava, fazendo Georgi dispensar os cumprimentos do reencontro dentro do apartamento, o fazendo ali mesmo, nos degraus gelados daquele fim de dezembro. Já fazia um ano, mas para ambos, sempre parecia mais.

“Seja bem-vindo de volta, Gosha…” sussurrou Margosha, com os lábios contra os cabelos do filho, na tentativa de fazer aquele beijo fraternal durar toda uma vida.

“Senti sua falta…”

O taxista foi embora e mãe e filho continuaram naquela troca de afeto que durou o tempo necessário para curar a saudade de um ano. Cientes de que permanecer expostos ao relento poderia não ser muito bom para suas saúdes e que havia outra pessoa que inspirava cuidados os aguardando no apartamento, Margosha ajudou o filho a levar a bagagem para dentro.

O lar de Georgi continuava o mesmo, porém com detalhes adicionais que somavam alegria àquela quitinete tão pequena. O apartamento estava quente e o aquecedor arrumado não mais estalava, não interferindo daquela vez na música ambiente tocando em um rádio que não estava ali na última visita de Georgi. Alguns CDs estavam empilhados ao lado do aparelho, em sua maioria composições clássicas por diferentes orquestras, com alguns poucos de ritmo POP que provavelmente pertenciam à Yulia. A música que tocava no momento era Lacrimosa e Georgi já podia se ver patinando ao som dele, tendo os olhos marcados com muita sombra escura simulando as lágrimas das quais a música falava. Yakov ainda achava a escolha muito mórbida, mas Victor, em suas próprias palavras, disse que era amazing!

Antes de poder se livrar do casaco molhado, a porta do banheiro abriu e dele saiu Yulia, envolta na fumaça de água quente. Vermelha pela extensa exposição a altas temperaturas, ela pareceu muito adorável para Georgi, principalmente considerando seu atual estado, que a deixava o dobro mais bonita.

“Gora, você chegou!” Vestindo apenas uma comprida e não muito quente camisola, Yulia correu a curta distância com os pés descalços, envolvendo Georgi em um abraço que só não foi mais apertado porque a gestação de sete meses não permitiu. “Fez uma boa viagem?”

“Fiz, sim!”

Interrompendo o reencontro estava Margosha, acertando a cabeça de Yulia com uma pantufa macia.

“Saindo de um banho quente sem estar devidamente calçada e vestida, Yulia Plisetskaya!” bronqueou e era sempre muito inusitado — e engraçado — vê-la brava. “Você não tem mais quinze anos!”

“Veja só você, Gora, ganhou uma nova irmã, pelo jeito” ironizou a jovem, aceitando as meias de lãs e o cobertor entregues. “Satisfeita, mãe?

“Não.” Georgi riu da negativa tão dura. “Foi tomar banho com o rádio ligado, sabe o que o síndico falou sobre a sobrecarga de energia, na semana passada o prédio todo ficou seis horas sem luz!”

“Estava tocando Mozart! Mozart faz bem para bebês! Eu li em algum lugar, então deve ser verdade!”

“Você nem podia escutar nada, trancada naquele banheiro…” As explicações de Plisetskaya não tinham vez com Margosha.

“É, mas Yura talvez pudesse, quem sabe?”

Pego de surpresa, Georgi sorriu largo; era a primeira vez que ouvia o nome do tão esperado filho de Yulia.

“Eu não sabia que você já tinha escolhido um nome para ele!” celebrou o menino, animado com a chegada cada vez mais próxima do nascimento daquele bebê.

“Só descobrimos essa semana que seria um menino” riu ela, conformada com os intermináveis meses de espera. “Estava o tempo todo de pernas cruzadas e pelo pouco que se mexe, achei que só saberia quando nascesse.” Aceitando o assento acolchoado oferecido por Margosha, Yulia sentou com pouca dificuldade, apoiando as mãos nas costas. “Mas finalmente descobrimos! Até a primeira semana de março vou poder ver o rosto do meu Yuratchka!”

“Também estou animada!” Já perdoando Yulia por seu desatento traje, Popovevna se aproximou com chás quentes na garrafa térmica, tomando lugar ao lado da jovem. “Faz tanto tempo que esse apartamento não recebe um bebêzinho… Me lembro de quando Gosha ainda cabia em meus braços…”

Vermelho em ser incluso naquela conversa vergonhosa de mães, ele abaixou o rosto corado para as mãos e assim lembrou-se de ainda estar carregando a sacola da última compra.

“Ah, quase me esqueço!” Exclamou, mostrando a pelúcia não embrulhada para Yulia. “Eu comprei para o bebê, para o Yuri!”

Yulia queria dizer que a culpa era da gravidez, seus hormônios enlouquecidos, a nova vida, os problemas enfrentados, uma nova readaptação para receber o novo integrante daquela família feita de cacos; fato era que suas lágrimas estavam vindo com muito mais facilidades e, abraçada ao gatinho de pelúcia, ela chorou como em breve Yuri viria a fazer.

“Você continua uma criança tão boa, Gora…” soluçou ela entre uma palavra e outra. “Espero que meu Yura seja tão bonzinho quanto você…”

Georgi não soube muito bem o que fazer diante dos grandes soluços, um pouco assustado e arrependido de ter escolhido aquele brinquedo. Acostumada com a oscilações de humor causados pela gestação, Margosha, deixou seu chá de lado e abraçou Yulia, oferecendo o carinho tão necessário, especialmente naquela reta final.

“Eu fiz mal?” perguntou Georgi, um pouco apreensivo. Havia sido com a melhor das intenções, ele podia provar.

“Eu adorei, eu juro…” Yulia continuou a chorar, agarrada à pelúcia. “Por que eu estou tão chata, Margosha?”

A costureira respondeu apenas com uma risada.

“Georgi, você comprou mais alguma coisa? Quer nos mostrar? Assim quem sabe você a distrai um pouco…”

Por um momento, ele considerou mostrar o outro presente, a surpresa, mas não achou que aquele fosse o momento, então conteve a vontade de ver a amiga parar de chorar e pensou um pouco melhor. A única coisa adquirida além do gato meio deformado, foi um postal com a fachada do Bolshoi, iluminado a noite. A qualidade não era das melhores e a foto estava um pouco tremida, fosse pela mão do fotógrafo, fosse pela impressão barata. Ele sabia que Victor podia ter tudo, por pouco quase não levara nada da loja, mas tanto tempo vivendo fora privou seu amigo de conhecer pessoalmente o grande e principal teatro russo, o qual Georgi teve a oportunidade de conhecer muito bem.

“Eu comprei esse cartão aqui.” Cuidadosamente ele mostrou o impresso. “Darei ao Vitya quando ele voltar de viagem.” Margosha sorriu tanto quanto podia naquele caso e Yulia limpou as lágrimas que ameaçavam cair novamente. Ah,o Bolshoi… Ela não tinha mais lugar, lá. “Aliás… Mãe, Yulia… A Minako nunca mais mandou notícias?”

O último contato da japonesa havia sido uma carta informando o investimento em um bar pequeno para manutenção do estúdio de dança, algumas fofocas da cidade de Hasetsu e o ingresso de Yuuri Katsuki na patinação artística. Depois disso, Georgi enviou desenhos e uma carta própria de São Petersburgo, tal como fotos e adesivos coloridos que achou bonito, Victor até o ajudou a encontrar coisas interessantes e cedeu a própria folha de adesivos do caderno de estudos em inglês para presente. Em Moscou, Margosha e Yulia uniram tudo em um gordo envelope, enviando com selo de urgência e ficando assim na expectativa de uma resposta.

Isso havia sido em abril de 1998. Eles estavam quase na virada do milênio.

“Ela nem sabe sobre Yuri… Aquela cadela nunca mais nos mandou notícias…” Yulia recomeçou a chorar, ombros trêmulos, lábios virados em um bico choroso, soluços inconsoláveis. As mudanças da gestação conseguiam, sim, abalar todo o emocional de uma mãe, sendo ela de primeira viagem ou não. Mas o sentimento, a tristeza e a saudade, não estava relacionada com aquela fase tão delicada. Todos sentiam falta de Minako e tanto tempo sem notícias os deixavam inconsoláveis. “Eu vou tomar outro banho, meus seios estão doendo de novo.”

Interrompendo o choro, Yulia cortou o próprio momento de dor e se levantou da cadeira, fazendo daquela frase nada usual, a deixa para dispensar o carinho de Margosha, pelo menos por enquanto. Já estava sendo comum pedir colo para Popovevna e em breve Georgi testemunharia muito mais cenas como aquela.

Mãe e filho ficaram olhando quando Yulia deixou o cobertor de lado e voltou para o interior ainda quente do banheiro. Pensando estar ali muito bem escondido, a jovem chorou alto, e a cerâmica cobrindo as paredes reproduziu os soluços por todo apartamento e fora dele. Georgi estava preocupado, mas vendo o bom humor que Margosha levava tudo aquilo, conseguiu relaxar um pouco. O problema não era seu presente, pelo menos.

“Mais chá, querido?” Sorrindo, ele esticou a xícara. “Aqui. Vamos esperar aquela chorona sair do banho e aí cortamos o nosso bolo, tudo bem?” De acordo com a proposta, Georgi bebericou o chá, satisfeito com o calor que agora o aquecia por dentro. Ele não tinha nenhuma exigência para aquelas férias, queria apenas a companhia de quem amava.

“Tudo bem” garantiu, tirando do bolso a surpresa que vinha guardando desde São Petersburgo, uma trabalhosa dobradura daquela ave que na cultura japonesa significava a gratidão e, em certas quantidades, a esperança de um desejo realizado; uma garça. “Feliz aniversário, mãe.”

Margosha não conseguia pensar em nada que quisesse — ou precisasse — ter realizado naquele momento.

.:.

Garotas eram bonitas, todas elas. Georgi não entendia porque os garotos de sua idade ficavam escolhendo a dedo as meninas que achavam mais ou menos adoráveis, montando listas imaginárias que as colocavam em uma nada justa escala de aparência. Como poderiam classificá-las se todas possuíam características diversas, particularidades em aparência e personalidade que as deixavam ainda mais belas? Não, Georgi não conseguia entender e tampouco podia compactuar com tamanha injustiça; todas as meninas eram bonitas e ele certamente morreria defendendo aquele ponto de vista.

Havia as de cabelos muito longos, quase metade de suas estaturas ainda pequenas para doze anos de idade, e a vaidade para com tanta quantidade de madeixa era variada; algumas gostavam de manter tranças bem apertadas, chegando intactas pela manhã e resistindo até o fim da tarde. Outras apareciam de cabelo solto e iam embora com eles presos por algum lápis, improvisando as amarras faltantes para livrar as franjas incômodas de seus rostos. Georgi também gostava de ver como os tons podiam variar, de loiros acesos como o sol ou mais pálidos como os de Yulia, ruivos escuros e abertos como cenouras, castanhos quentes como chocolate e frios como cascas de árvores secas, aos de tons negros, profundos, um quarto mergulhado no breu, sem um único abajur para manter a claridade. A paleta de cores era diversa, tal como as texturas, lisas que inspiravam toques delicados, onduladas que pareciam o meio termo aos fios cacheados, fofos de apertar e crespas cujo a textura parecia uma nuvem, um sonho.

Mas os cabelos de uma garota eram apenas mais um de todos os detalhes que as tornavam fascinante. Georgi gostava de ver suas peles à luz do sol, pois era a luz natural a responsável por mostrar cicatrizes de brincadeiras agitadas, sardas acastanhadas na ponta do nariz ou estendidas por todo o corpo, e de evidenciar as diferentes tonalidades e intensidades de tons que seus olhos podiam trazer. E as risadas, então? Não havia uma igual a outra, nem mesmo se as meninas em questão fossem gêmeas; em suas similaridades, elas sempre conseguiam ser diferentes.

Interesses, livros preferidos, brincadeiras, o formato das letras, as cores preferidas refletidas nas canetas rabiscando segredos nos cadernos umas das outras. Como podiam olhar para todas elas e definir a mais bela de todas? Como podiam excluir a menina que gostava de estrelas e falar que a garota com as melhores notas da sala não podia ocupar a primeira colocação, pertencente até então à jovem que gostava de fazer conservas com a mãe? Georgi não podia acreditar, não podia aceitar.

A beleza estava em todos os lugares, mas às vezes, parecia que só ele podia ver, como era o caso agora. Com os dedos enroscados em suaves e compridos fios claros, assistia o pentear daquele cabelo como se estivesse longe, em um sonho. Toda a extensão era escovada repetidamente, alinhando todos os fios para que assim nenhum nó prejudicasse o penteado a ser feito. Madeixas devidamente penteadas foram divididas em mechas menores, trazidas para cima e depois para baixo, cruzando-as umas nas outras, até a primeira trança ser finalizada. Gosha estava encantado. O mesmo aconteceu com outras partes divididas e, enfim finalizadas, as tranças uniram-se em outra, emendadas como uma coroa, um ser encantado como os das histórias que ele ainda amava. Finalizado aquele penteado, Popovich pensava se flores azuis não deixariam aquele penteado ainda mais parecido com o místico mundo de elfos e fadas… Poderia sugerir em uma próxima oportunidade, se não o achassem esquisito por isso.

“Terminei, Vitya” avisou, finalizando com o último grampo. Depois de Yulia tê-lo ensinado o principal sobre tranças, aquele se tornou um hobbie entre ele e seu amigo.

Era um pouco vergonhoso admitir, mas sim, existia beleza até mesmo naquele momento que dividiam.

Em frente ao espelho, Victor virava o rosto para todos os lados, tentando enxergar a maior parte do penteado para imaginá-lo completo em sua cabeça. Adorava as tranças feitas por Georgi, que o faziam todo dia parecer um tipo de entidade mágica diferente. Sabia precisar aprender logo a arrumar o próprio cabelo para as apresentações, mas tinha tanta preguiça… Principalmente considerando que Georgi fazia aquilo tão bem.

“Adorei, Gosha!” declarou sua satisfação em uma exclamação satisfeita. “Vou mostrar ao Yakov!” foi sua forma de despedir-se. Pela segunda vez no dia, ele mostraria para o técnico mais um dos incríveis penteados que Georgi podia fazer.

Se as palavras de agradecimento tivessem vindo sozinhas, Popovich nem as teria ouvido, acostumado com elas. Contudo, Victor sempre tinha que fazer de suas ações, independente do que fossem, algo apenas dele, cheio daquelas peculiaridades que Popovich achava tão interessante; então, sem medir a intensidade de sua emoção e não esperando autorização para o pedido que nunca faria, Victor inclinou-se e deu um beijo no rosto de Georgi. Um detalhe de sopetão, mais rápido que uma piscada, mas mesmo assim, um detalhe.

“Muito obrigado, Gosha!”

Georgi via beleza nos detalhes, em todos eles. Era por isso que garotas eram bonitas.

E garotos também.

.:.

Yuri não era o que se podia dizer de um bebê engraçadinho; por maiores gracejos que Yulia tentasse, seu filho dificilmente sorria, trazendo no semblante fechado a impressão de estar sempre irritado, pronto para chutar todo mundo.

Na verdade, era bem isso mesmo que ele fazia — se não o segurasse firmemente nos braços, Yuri aproveitava a oportunidade em ter as perninhas livres para balançá-las agressivamente e atingir o primeiro desavisado que se aproximasse demais de seu espaço pessoal. Para assombro da mãe, ele era muito genioso para um bebê de seis meses.

Georgi, por outro lado, achava muito divertido observar todos os golpes dados contra o nada, os resmungos do bebê tentando se levantar, as mãozinhas sempre fechadas em punho, prontas para brigar a qualquer momento… Sua maior diversão era a de tocar a barriga estufada e com isso fazer cócegas que provocavam a ira de Yuri e fazia sua pele ganhar diferentes escalas de vermelho. Agitado, o bebê tremia e balançava, irado, braços e pernas, resmungando como Yakov e levando longos minutos para se recuperar da frustração em não poder pegar o infeliz que o perturbava com cócegas.

“Gosha, não provoque Yura…” riu Margosha. A verdade era que ela também via muita graça na reação pouco convencional do filho de Yulia, agressivo e rabugento quando a maioria dos bebês era risonho e fácil de agradar. Com Georgi, ao menos, sempre fora muito fácil de lidar.

“Onde Yulia foi, mãe?” Curioso, ele quis saber. Quando acordara de manhã ela já não estava mais lá e sua mãe dava de mamar ao pequeno Yuri. Achava estranho não ter notado a saída da jovem, não estava assim tão cansado da viagem para dormir e deixar o mundo ao redor passar despercebido.

Sem ter o que esconder, ela respondeu, evitando criar alarde e usar muitas palavras para explicar algo tão simples;

“Ela foi procurar o pai.”

Fazia sentido, embora aquilo o surpreendesse um pouco. Achava que depois do que as duas tinham lhe explicado, quando Georgi havia passado as férias de agosto em Moscou no ano anterior, Yulia não tentaria mais falar com Nikolai. Ele gostava muito do já aposentado senhor Plisetsky, sendo assim uma enorme decepção quando ele o ouviu dizer nunca mais querer ver a filha novamente. Palavras mais agressivas e de baixo calão também foram usadas, ofensas que Georgi não imaginava Nikolai conhecer e ser capaz de proferir com tanta raiva. Por que ele a havia negado? Como o amor de toda uma vida podia acabar daquela forma? E por que Nikolai acusara Yulia de ter cometido um erro?

Aquele bebê, sempre carrancudo e irritado, não era um erro. Ele podia ter um humor bem difícil e uma preferência um tanto inusitada para puxões de cabelo, mas um erro era responsabilidade demais para aqueles ombros incapazes de sustentar o peso da própria cabeça. E por que aquele tipo esquisito de culpa recaía apenas em Yulia? Na escola, ele havia aprendido que nenhuma criança podia vir ao mundo apenas de um pai, então onde estava o outro responsável, aquele de quem Yura havia puxado o semblante fechado e os intensos olhos verdes?

Georgi não entendia, também, o interesse em se saber do pai daquela criança. Se ele não queria estar ali, qual sua importância? Popovich sabia que muito ainda lhe faltava para saber e conhecer sobre o mundo, mas não precisava de muito mais idade para perceber a injustiça que estavam fazendo com Yulia; havia sido o pai de Yuri que havia negado aquela criança, não Plisetskaya. Por que os dedos do julgamento estavam voltados para ela?

Tantas eram as perguntas e tão vazias pareciam as respostas, que Georgi resolveu parar de pensar. Entregando o gato de pelúcia para os braços agitados de Yuri, ele o observou acalmar quase instantaneamente, abraçando a pelúcia barata e relaxando um pouco as sobrancelhas sempre franzidas.

“Ele está cansado, por isso está assim, meio chatinho” explicou Margosha, aquela peculiaridade infantil que ela conhecia tão bem. “Só dorme com Yulia por perto.”

“Eu também era assim?” Funcionariam os bebês todos da mesma forma?

“Você sequer dormia!” riu Popovevna, lembrando das noites em claro.

Antes de Georgi achar graça da reação materna, Yulia abriu a porta, chamando atenção pelos olhos úmidos. Sentidos por verem-na tão abatida, ambos se calaram e o silêncio perdurou alguns segundos, até Yuri, de alguma forma, reconhecer a presença da mãe e começar a reclamar por sua atenção.

Deixando a bolsa de lado, Yulia sorriu para esconder a dor e dirigiu um mudo olá para Margosha e Georgi, indo até o filho e o trazendo no colo. Ali, onde sentia-se confortavelmente acomodado, o bebê repousou o rostinho de bochechas macias, ouvindo o coração acelerado embalar o sono que logo veio.

Dormindo, Yuri não pode testemunhar quando sua mãe cansou de segurar as lágrimas, abrindo as frágeis portas emocionais e deixando por elas transbordar a dor da rejeição. Ela não precisava falar nada para que ali entendessem que a tentativa de reaproximação com Nikolai só não havia sido um desastre, porque ele recusou-se a abrir a porta para recebê-la.

Calado, Georgi viu quando Yulia acarinhou os ralos cabelinhos loiros do filho e beijou o topo pálido da cabeça, um gesto tão comum de Margosha para com ele, que o fazia pensar se o mesmo não teria acontecido com sua mãe.

.:.

A última turma infantil tinha sido dispensada no período da manhã, deixando Okukawa sozinha no estúdio de balé. Aproveitando a folga até a chegada da próxima turma, ela trancou o estabelecimento e deu uma volta pela cidade, pagando parcelas de contas que pareciam nunca ter fim, e fazendo novas dívidas para manter tanto o apartamento quanto o funcionamento do bar, atualmente sua maior fonte de dinheiro. Os tempos estavam difíceis e o pouco interesse das crianças em balé apenas piorava. E pensar que na mesma idade de seus alunos, Minako estaria sacrificando horas de sono para dedicar até doze horas diárias em ensaios rigorosos.

Não era culpa de seus alunos não terem o balé como objetivo de vida e ela reconhecia isso. Contudo, ainda era muito difícil olhar para o que tinha em mãos e compará-lo com o passado, uma vida girando em sapatilhas de ponta ao redor da dança clássica, dividindo todos os amores e dissabores da profissão com pessoas igualmente apaixonadas pela arte como ela.

Dizer que ela tentava não pensar muito sobre o assunto não era uma mentira completa; às vezes, Minako não pensava no Bolshoi e em todos os amigos deixados na Rússia, em outras, alimentava propositalmente a nostalgia, deixando que Forever Love fosse trilha sonora de toda uma fossa curtida esparramada no futon, regada a destilados caros de seu bar e lágrimas vergonhosas. Deprimente. Lilia, se pudesse vê-la naquele estado, ficaria horrorizada para sempre.

Pensando em Baranovskaya, ela ainda lembraria de Minako? E Rurik? Sentiria sua falta ou mal teria esperado sua entrada no aeroporto para se atracar com Laura? Só de lembrar daquela vadia, sentia o sangue ferver e o rosto mudar de cor, para depois voltar para os braços da melancolia, onde remoía as saudades de Margosha, Georgi, Yulia, Nikolai e até mesmo as saladas de arenque. Não queria ser injusta com o amor recebido na atual fase de sua vida, mas se pudesse unir aqueles dois mundos em um só, ela seria tão mais feliz…

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“All I see is blue in my heart…” balbuciou o trecho de música que mais uma vez embalava suas recordações. Minako queria ir até o acervo do bar e abrir uma garrafa cara novamente, porém a possibilidade de desfalcar denovo o estoque do estabelecimento a desencorajou por muito pouco. Isso e ela precisar considerar que ainda não era nem cinco horas da tarde para regar seu jardim depressivo com alcoól.

“Minako-sensei!” Na frente do estúdio, sentado na porta de entrada muito bem comportado, Yuuri esperava pela professora. Vê-lo sempre deixava seu dia mais feliz, sendo a presença alegre do garotinho capaz de preencher as pequenas salas de ensaio que, quando estavam vazias, apenas com Minako por perto, ficavam assustadoramente grandes.

Solitárias.

“Yuuri!” exclamou ela, esperando de braços abertos que ele se aproximasse para ser abraçado. Sorrindo para o chão dado o constrangimento, Katsuki se aproximou com passinhos incertos, rindo quando Minako o puxou para uma agressiva, porém doce, demonstração de afeto. “Chegou há muito tempo? Devia ter me ligado, não queria ter te deixado esperando!”

“Não muito e não tem nenhum problema esperar” respondeu, compreensivo. “Eu já sabia que o estúdio poderia estar fechado, Mari me avisou, mas eu vim mesmo assim.” Justificada a espera, ele estendeu para a professora de balé uma embalagem fechada de onigiri, uma gentil oferta da refeição que ele tinha certeza ela ter pulado. “É de atum com maionese, a mamãe que me deu, mas eu guardei do almoço e trouxe para você!”

Yuuri era um menino tão gentil, tão bom, não merecido naquele mundo horrível, que Okukawa precisou de alguns segundos para absorver tanta pureza. Com a mão pousada sobre o coração, sentia poder morrer como Gisele a qualquer momento, tirando o fato de que seu coração pararia por uma razão bem mais bonita e nada trágica. Naquelas horas ela costumava pensar se Georgi estava crescendo um menino tão bom quanto quando era menor. O que tinha acontecido com ele? Ainda patinaria? E, o que para ela era ainda mais importante saber; se lembraria dela?

“Agradeço a preocupação, Yuuri, mas não devia ter deixado de comer por mim.”

“Não deixei, eu juro!” E ele não jurava por qualquer coisa, ela sabia bem.

“Nesse caso eu agradeço novamente” sorriu e o menino a imitou. “Venha, vamos entrar, já posso adiantar sua aula se quiser.”

Feliz com a sugestão, Yuuri acompanhou a professora até o interior do estúdio, retirando os sapatos e deixando os pertences no armário disponível antes de ir para a sala espelhada. Atrás do balcão, Minako guardava suas coisas e engavetava notas fiscais, comendo o onigiri caseiro e primeira refeição decente do dia enquanto buscava pelas chaves da sala. Muitas tarefas feitas de uma só vez, mas quando ela não saturava a si mesma com inúmeros afazeres?

“Sensei, acho que o carteiro chegou!” avisou Yuuri, terminando de calçar as sapatilhas.

Não muito satisfeita, Minako espiou o lado de fora. Pelos tipo de envelopes que ele trazia, mais contas a esperavam. Suspirou.

“Pode pegar as cartas para mim, Yuuri? E, se não se importar, me dizer do que são para eu começar desde já a arrancar os cabelos?”

Rindo das palavras estressadas, assim ele cumpriu com o favor pedido. Como já suspeitava Okukawa, a maior parte dos envelopes eram compostas por dívidas diversas, cobranças de impostos pelos dois empreendimentos comerciais, propagandas de lojas variadas e…

“Sensei, eu não entendi o que está escrito nesse…”

Automaticamente, Minako esticou a mão, pedindo pelo envelope. Pela idade, Yuuri ainda não tinha aprendido todos os alfabetos, com domínio apenas em hiragana e katakana. Desconhecer uma porção de kanjis era normal em todas as idades, ela mesma não se lembrava da grande maioria e foi ainda mais difícil depois de catorze anos fora, voltar a ler aquele alfabeto tão extenso por todos os lugares.

“Eu acho que é russo” palpitou Katsuki, curioso com o significado daquele letreiro bordô.

Agora ela podia dizer com certeza que seu coração havia parado. Depois de tanto tempo, finalmente notícias de Margosha, explicações sobre a demora da resposta, talvez novidades…!

Sua cabeça parou de trabalhar tantas informações e expectativas quando processou o rebuscado carimbo em cirílico, centralizado no envelope de papel diferenciado: Associação Internacional de Dança Moscou.

“Mas o quê…?” Levemente irritada com o desapontamento, Minako abriu o envelope de gramatura cara com pouca delicadeza, quase o rasgando pela metade e assim fazendo o mesmo com o anúncio e convite anexados. Uma lista com indicados em categorias diversas havia sido enviada, marcado em tom diferente seu nome em negrito. “É com grande honra que a convidamos para receber seu troféu na edição especial do prêmio Benois de la Danse.”

Minako parou de ler naquele momento. O Benois de la Danse, o prêmio máximo da dança, o qual ela não havia dado nenhuma credibilidade na data de criação quase uma década atrás e que, por motivos óbvios, jamais cogitou ser contemplada. Por qual trabalho? Quando? Lhe podaram a maioria das oportunidades durante anos e após sua saída quase fugitiva de Moscou, ela antecipou a aposentadoria e fechou-se no pequeno estúdio de dança, caindo no esquecimento. Ou ao menos era o que acreditava.

Pouco mais abaixo, ela viu a indicação que trouxe à tona todas as recordações e encheu seus olhos de lágrimas:

Minako Okukawa

Princesa Aurora, A Bela Adormecida, P. Tchaikovsky/L. Baranovskaya (coreografia), Teatro Balé Bolshoi.

Anos haviam se passado, mas alguém lá dentro havia a reconhecido naquela única apresentação… Depois de tanto tempo, aquilo havia sido a gota d’água para trazer à tona a bagunça emocional que havia sido sua carreira. Chorando, ela abraçou o convite, reconhecendo entre um soluço e outro, a razão para tamanha exposição de lágrimas;

Ela ainda teria preferido receber notícias de Margosha.

.:.

Victor estava profundamente apavorado e isso não era algo que se visse todo dia. Nervoso com o grande acontecimento que se aproximava, ele não conseguiu sequer dormir durante o trajeto de São Petersburgo a Moscou, saltitante a noite inteira pelos corredores da classe econômica a qual haviam pago passagem. Georgi, que em qualquer outra ocasião teria acompanhado o amigo na virada insone da viagem, justo naquele dia percebeu-se cansado como nunca antes, uma aparente soma de todas as horas excluídas de seu sono vindo de uma só vez cobrar pagamento. Exausto, conseguia ouvir os passos de Victor irem e voltarem, não o deixando descansar totalmente. Quando ficava cansado de curtir a solidão do vagão sozinho, Victor voltava e se inclinava sobre o amigo deitada, observando-o dormir. Não demorava muito para que, incomodado com os cabelos compridos roçando em seu rosto, Georgi desistisse de fingir estar sonhando para abrir os olhos, assustando-se com a proximidade do rosto do outro garoto. Só naquela viagem ele tinha conseguido apavorar Gosha três vezes.

Chegar em Moscou, recepcionando a última etapa do Grand Prix Junior, piorou o dobro da ansiedade de Victor, solto na estação movimentada sem saber para onde olhava, agitado como um filhote fora da coleira e acanhado como um, ao mesmo tempo. O diferente atraía sua atenção e assustava com a novidade de um lugar onde nunca havia estado, embora os demais países para onde viajava nas férias não recebessem do patinador tanta admiração. Por mais cansado que estivesse Georgi, que agora entendia a razão das olheiras de Yakov e cada vez menos cabelo em sua cabeça, era gratificante ver Victor tão feliz. Em verdade, não seria exagero dizer que olhar para ele em qualquer situação o deixava contente, uma sensação diferente no peito, às vezes engraçada, às vezes sufocante... Tudo era tão confuso, incerto como Victor e sua desatenção com a maioria das coisas ao redor, algo que ninguém sabia ser descaso atuado com perfeição ou ingenuidade pura e simples. Quando não estava confuso, tentando decifrar o doce mistério que era Victor Nikiforov, Georgi pegava-se imaginando-o como uma fada, aquelas criaturinhas mágicas cheias de brilho, porém oscilantes em suas emoções, de extremos tão intensos. Sim, Victor podia muito bem ser uma fada.

“Estou tão nervoso, Gosha, acho que vou morrer” confidenciou, no ápice de seu exagero emocional. Uma fada, como Popovich havia pensado.

“Não exagere, Victor, vai dar tudo certo.”

“Como pode estar tão confiante?!”

Não era intenção de Georgi caçoar do amigo. Empatia era algo ensinado por Margosha e reforçado sempre que ela tinha a oportunidade, mas ficava muito difícil colocar-se no lugar dele naquelas situações engraçadas em que o nervosismo o deixava tão fofo.

“Estando” disse simplesmente. Envolvendo a mão enluvada de Victor com a própria, tentou transmitir um pouco de segurança. Não era o fim do mundo, muito pelo contrário, era quase a recepção do mundo inteiro. “Vamos, não tem nada a temer.”

“Você nem por acaso está nervoso?” Nikiforov ainda não estava convencido. De mãos dadas com Georgi, puxou a mala e seguiu em direção a saída, onde ambos pegariam um táxi. Yakov deveria chegar mais tarde, ou até a manhã do dia seguinte, se desse sorte, restando aos dois garotos a responsabilidade de se organizarem para a apresentação do programa livre sozinhos. “Não quer impressionar?”

Georgi sabia dever um pedido de desculpas a mãe depois daquilo, mas mandar para o espaço a empatia e gargalhar alto de tamanho exagero foi inevitável.

“Eu não preciso disso” garantiu com falsa soberba. “Vamos!”

Victor murmurou no meio do caminho, o que poderia ser preocupação ou até mesmo uma prece, fazendo questão de pagar ele mesmo ao taxista, sua forma inusitada de celebrar aquele dia tão importante. Constrangido pelo desconhecimento em relação àquela cidade, deixou que Georgi fosse seu guia, apertando sua mão mais uma vez; Popovich sempre sabia a coisa certa a ser feita, ele era muito inteligente e a “voz da razão de vocês dois”, como diria Yakov. Victor não duvidou nunca daquela informação, nem por um minuto.

Cópia das chaves pegas na recepção, entregues por um senhor muito mal educado para a sensibilidade do garoto aceitar. Quando e para quem eles poderiam reclamar a grosseria daquele homem?

E elevador subiu preguiçosamente para o andar acionado, rangendo como um resmungo incomodado. Se fosse uma pessoa, Victor não teria dúvidas que seria uma versão similar ao velho reclamação cheirando a naftalina, como o porteiro de antes. Ele falaria daquela aventura nada fenomenal por semanas, Feltsman que preparasse devidamente seus ouvidos.

“Chegamos” anunciou Georgi, dando-se ao luxo de pela primeira vez, ser o único dos dois fazendo piada.

Na porta velha de numeração pintada, Popovich bateu duas vezes, quase acertando o rosto de Margosha quando ela abriu a entrada antes de finalizadas as batidas. Sorridente como nas fotos que Georgi sempre dividiu com o amigo, as quais Victor invejava em segredo, ela abraçou o filho, sumindo na estatura que a cobria totalmente. Sua voz alegre, parecendo tilintar em cada palavra, o cumprimentava pelo seu regresso e declarava com todo amor materno como sua falta fora sentida. Emocionado e sem palavras com a primeira vez assistindo de tão perto demonstração tão bela e genuína de uma família, Victor permaneceu calado, segurando a grande mala junto ao corpo, de repente muito mais nervoso com a primeira impressão a ser passada para Margosha. A mão de Georgi na sua estava fazendo muita falta.

“Mãe, eu trouxe o Victor para você conhecer!”

Em seu deslumbramento, Victor abaixou um pouco a cabeça, quase se escondendo por trás dos fios prateados. Aquele era o tão esperado dia, o capaz de deixá-lo apavorado como nunca antes a disputa pela medalha foi capaz; ele finalmente se encontraria com uma mãe.

Ter os olhos castanhos sobre si pareceu durar uma vida, mas uma que ele teria adorado viver. A forma atenta, de fundo levemente incrédulo, com que Margosha o olhava, despertava inúmeras perguntas, dúvidas quanto ao comportamento materno e se ele seria recebida de forma tão acalorada quanto Georgi. Tímido, diante de presença tão rara em sua vida, Victor abriu seu melhor sorriso e a similaridade com Narkissa fez Margosha imitá-lo.

“É um prazer conhecê-la, senhora Popovevna…” Juntando toda sua coragem, o garoto a cumprimentou o melhor que pôde. Por que com repórteres e jornalistas era infinitamente mais fácil? “Ouvi falar coisas maravilhosas sobre você, digo, a senhora!”

O esforço em parecer educado e muito polido estava divertindo Georgi, que conhecia muito bem a falta de apego de Victor com protocolos e etiqueta, ao menos longe das câmeras.

“É um prazer também conhecê-lo, Victor Nikiforov.” Depois do que pareceu uma vida inteira, Victor ouviu a resposta para seu cumprimento. Sua voz era, de fato, cercada por sinetas celestiais e gentileza. “Fico feliz que Georgi fale bem de mim.” Voltando a olhar para o filho, buscando no rosto tão amado um pouco de alento, ela perguntou. “Fizeram boa viagem? Parece cansado.”

“Fizemos sim, mas sabe como é, viemos de platskart, você nunca descansa em um.” Margosha riu da veracidade naquelas palavras e Victor, tentando desesperadamente se integrar naquela conversa, riu junto.

“Bem, vocês chegaram cedo, acredito que estejam com fome.” Sendo novamente foco da atenção de Popovevna, Vitya sentiu a postura endurecer e o coração saltar. “Por favor, entrem, eu já deixei o café-da-manhã preparado.”

O interior do apartamento era bem menor do que o dividido com Yakov e Georgi em São Petersburgo, e ficava ainda mais estreito com três pessoas dentro. Contudo, por mais diferentes que fossem as duas realidades, existia um acolhimento ali que Victor jamais encontrara em nenhuma das casas que seu pai dispunha residência; aquele lugar era, de fato, um lar.

“Tem kasha com grãos de trigo e pão preto!” avisou Margosha, rapidamente servindo a mesa com um prato e xícara extra. “Deixei chá preparado e depois que terminarem, tem também bolo de cenoura, daquela confeitaria que você gosta, Gosha.”

“Aquele lugar ainda existe?!” riu alto, se aproximando da mãe para abraçá-la mais uma vez. “Obrigado por tudo.”

“Disponha, meu amor.”

“Obrigado pela recepção, senhora Popovevna.”

Margosha acenou para o cumprimento e sem mais nenhuma palavra, deixou que os adolescentes descansassem da longa viagem e se alimentassem devidamente. Ela não foi capaz de se juntar aos dois, não tinha estômago para tanto.

Yulia, responsável pela apresentação das três turmas infantis de balé em que lecionava para pagar as contas, não estaria ao lado da amiga para ajudá-la a suportar aquele dia, tendo levando inclusive Yuri para os paparicos das colegas, deixando Margosha sem ter com o que se distrair e o espaço limitado da quitinete a barrando de fugir. Para qualquer efeito, ela ainda possuía a janela para saltar.

Cansado, Georgi não resistiu ao conselho materno e ocupou o colchão da mãe, dormindo rapidamente. Educada, como uma boa anfitriã, Margosha deixou a outra cama feita para uso de Victor, mas com o sorriso aberto em um grande coração, ele agradeceu e dispensou, encolhendo-se em um canto do cômodo com um livro em mãos. Popovevna pensou que poderia ser pior, mas enquanto ele tivesse uma ocupação, poderia tolerar dividir seu dia na companhia do garoto. Ela mal podia acreditar que preferia que Georgi tivesse negado o descanso para salvá-la daquela situação.

Será que Yakov demoraria muito para chegar?

Descansando o muito merecido sono dos justos, Georgi resmungou, balbuciou palavras inteligíveis, remexeu-se e mudou de posição repetidas vezes, até livrar-se de todo o cobertor. Sorrindo para si mesma, Margosha deixou o figurino do filho de lado para cobri-lo novamente, quando Victor tomou a iniciativa antes dela. Percebendo estar sob olhar da costureira, ele sorriu e por mais que ela entendesse a gentileza, Popovevna não pode deixar de pensar ter perdido um pouco sua função na vida do filho. Para não levantar suspeitas, sorriu de volta, alimentando sem querer a alegria do garoto em estar diante de presença tão sublime. Ela só esperava que Victor começasse nenhuma conversa.

“Senhora Popovevna?” Margosha precisava parar de criar expectativas. “Posso te fazer uma pergunta?”

Concordando em silêncio, ela apontou para a cadeira ao lado da sua, da qual retirou o kit de costuras. Igualmente quieto, tentando preservar o sono do amigo, Victor deixou o livro de lado e se aproximou acanhado. Exceto pela aparência e nome, até o momento a personalidade do garoto em nada se assemelhava a dos pais.

“Não estou atrapalhando a senhora?”

“De forma alguma” respondeu a costureira, depois de certa hesitação. “O que quer saber?”

A hesitação passou dela para Victor, ensaiando mentalmente o que queria perguntar sem soar muito inconveniente. A forma como Georgi agia com a mãe fazia parecer tão fácil o relacionamento de uma família!

“Yakov disse que a senhora trabalhou com a minha mãe durante um tempo.” Aquelas não eram saudosas recordações, Margosha podia garantir. “Como ela era?”

Como ela era? Arrogante era a palavra, cheia de si o bastante para não tolerar quaisquer outros, de sorriso atuado apenas no gelo e palavras venenosas na ponta da língua, prontas para serem cuspidas em qualquer pessoa que a incomodasse — e ninguém nunca sabia o que poderia incomodar Narkissa para poder prevenir o trauma de seus ataques. Como já dizia seu nome, ela era tão ou mais vaidosa que o termo narcisismo podia abranger e era, de longe, uma das piores pessoas na qual havia esbarrado.

Mas ela não podia falar isso para Victor. Ninguém sabia como Narkissa poderia ter sido como mãe, e falar mal de uma pessoa que não tinha mais como se defender seria injusto. No lugar dele, ela também não iria querer ouvir palavras negativas sobre alguém tão importante e, no caso de Georgi, não gostaria que ele tivesse a pior das impressões sobre si mesma.

“Muito parecida com você, mas acho que isso você já deve ter ouvido.” Emocionado em ter aquela frase constante em sua vida ser reafirmada por quem teria a conhecido, ele sorriu ainda mais largo.

“Como ela era fora do gelo? Meu pai nunca comenta sobre e tudo o que as pessoas têm a dizer é sobre seu trabalho…”

Logo aquela pergunta? Como poderia Margosha falar a verdade e poupar o garoto ao mesmo tempo?

“Sua mãe era extremamente séria com a profissão e acabava levando isso para a vida.” Rápida, pensou no floreio que pudesse amenizar suas palavras, usando de uma leve risada para contribuir com o tom cômico. “Se algo não estava de acordo com o que havia pedido, era bom encontrar algum lugar para se segurar, pois Narkissa Smirnova faria um vendaval, onde quer que estivesse…”

Victor riu alto, maravilhado com aquela revelação, por pouco não esquecendo de Georgi, que com a risada mais alta, remexeu-se um pouco mais no colchão. Tampando os próprios lábios com as mãos para conter a animação, ele ajeitou-se melhor na cadeira, querendo saber mais.

“Smirnova…?” ele estranhou, se recuperando da risada. “Quando, exatamente, minha mãe se casou com meu pai?”

Fingindo prestar atenção no tecido do figurino de Georgi, ela disfarçou o nervosismo. No quê Margosha havia se metido…

“Isso eu não sei dizer, não conhecia sua mãe tão intimamente…”

Para Victor aquilo não tinha importância e logo ele esqueceu daquela dúvida superficial, para alívio de Popovevna.

“É verdade que era minha mãe quem criava as próprias coreografias?”

“Não sei dizer ao certo… Interagi com ela diretamente poucas vezes, mas no último ano que trabalhei para a patinação artística, sei que ela inovou e impressionou todo mundo com uma escolha exagerada de saltos…”

“... que deixou todos boquiabertos!” completou Victor, com os olhos brilhando o dobro. “Isso eu sei! Eu li nas revistas! Foi na temporada do Life and Love, não foi?!”

Margosha espiou o conforto do filho antes de responder àquele garoto tão agitado.

“Foi, sim.”

“Foi você quem fez o figurino?”

Naquela hora, a costureira sorriu com a lembrança, mas não de forma saudosa. Havia dado tanto trabalho fazer o recorte de tecidos e emendá-los como penas, encaixar umas nas outras e cuidar para que a costura não ficasse aparente, sem que o conjunto da obra parecesse uma colcha de retalhos, endurecida e sem fluidez. Narkissa gostava que suas roupas sempre tivessem uma sobra de tecidos a mais, que a acompanhasse em cada spin e flutuasse nos saltos, finalizados com delicadeza. A aplicação de pedrarias para dar ao figurino todo o brilho que a patinadora exigia precisou ser conversado diversas vezes, pois o peso do bordado tiraria toda a graça e leveza do tecido, e Margosha não estava disposta a engolir nenhum grito histérico que viesse da jovem. Da roupa à coroa de flores, o último acessório tinha sido de longe o mais fácil.

“Penso em usá-lo um dia, eu ainda tenho alguns guardados na casa do meu pai” sussurrou, como se estivesse confiando um segredo. Margosha não imaginava que Oleg teria se dado o trabalho de manter os pertences de Narkissa, mas processando melhor a informação, não era nenhuma surpresa. O que ele não fazia para manter as aparências, não?

As batidas na porta de entrada surgiram para ser sua salvação. Esperava que fosse Yulia trazendo Yuri, esperava que o bebê começasse a chorar bem alto, ainda que aquilo prejudicasse o descanso de Georgi. Ela só esperava ter seu tempo preenchido por algo que não fosse o intenso e brilhante olhar de Victor, tão igual ao de Narkissa e por esse motivo, tão incômoda recordação de tudo o que ela havia passado. Smirnova — ou Nikiforova, quem se importava — continuava sendo aquele fantasma rondando sua paz de espírito e ela precisava logo de uma distração para exorcizar aquilo.

Quem esperava do outro lado da porta era uma surpresa melhor que Yulia; Yakov, pálido como um fantasma e a pouca neve acumulada em seus ombros, parecia prestes a perder os sentidos, apavorado como poucas vezes na vida Margosha o tinha visto.

“Pai?” chamou ela, com as mãos apoiadas no rosto gelado.

“Margosha, os menin-” a frase morreu assim que ele viu Georgi dormindo no canto do apartamento e Victor o acenando alegremente. A palidez foi substituída por um rubor muito raivoso em questão de segundos. O que eles estavam fazendo ali?

“Oi, Yakov! Fez boa viagem?” Inocente, Victor não imaginava o transtorno que não seguir as ordens de Feltsman havia causado.

Se Margosha não estivesse no meio do caminho, o técnico certamente teria puxado Nikiforov pela orelha e o arrastado ao hotel. Respirando fundo, recuperou todos os extremos emocionais que tivera em um único dia e esfregou o rosto, usando-o como uma forma de descontar a frustração. A facilidade em criar Popovevna estava sendo compensada na dor de cabeça em ter a tutela de Victor.

“Eu mandei você esperar no hotel, Victor.”

“Eu sei, mas Georgi insistiu tanto! Ele disse que eu não precisava ficar sozinho no hotel quando a mãe dele era tão legal!” Piscando adoravelmente para Margosha, Victou abriu um enorme sorriso, do tamanho de sua alegria em estar ali. “E ele estava certo.”

A mulher sorriu, certamente não tanto quanto se era esperado.

“Margosha é uma santa em ter que aturar você atrapalhando o trabalho dela. Vem, pegue sua mala, você precisa descansar e eu também.”

“Não foi um incômodo, pai, fique tranquilo” assegurou, sem muita firmeza na voz.

“Está vendo? Eu não sou um incômodo!” Infantil como sabia ser, Victor mostrou a língua para Yakov. Foi quando levou sua atenção para Margosha que ela pôde vê-lo se desarmar das brincadeiras, expondo-se inseguro como nunca antes ela vira em Narkissa ou Oleg. “Eu… Na verdade queria pedir uma coisa…”

Ambos temeram o que podia ser o pedido. Pelo semblante envergonhado e a forma como ensaiava falar, Yakov já imaginava o que seria, não sendo capaz de interrompê-lo a tempo.

“Posso ficar hospedado com vocês até o fim da competição?” Diante da surpresa da costureira, ele logo emendou, com justificativas prontas para convencê-la. “Serão apenas dois dias e depois nós vamos voltar para São Petersburgo! Eu prometo me comportar e não atrapalhar seus afazeres, mas é que vai ser tão chato ficar no hotel sem o Georgi e também…” E também… Como explicar querer sentir de perto o que era ter uma mãe?

“Eu…”

“Não é apenas ela que vive aqui, Vitya” explicou Yakov, sentindo o golpe daquela carência dissipar totalmente a irritação de antes. “Ainda há uma moça com um bebê pequeno, nem Georgi ficaria se Margosha não tivesse insistido muito.” Compreendendo ser ali apenas um peso extra, Victor abaixou os olhos, desapontado. “E seu pai chegará se não de madrugada, amanhã pela manhã. Ele provavelmente irá querer passar um tempo com você.”

“Entendo…” murmurou, erguendo o rosto antes cabisbaixo, evidenciando um enorme sorriso, grande o bastante para esconder a dor. “Muito obrigado por me receber, senhora Popovevna!” E sem lhe dar tempo para responder, Victor abraçou Margosha como se estivesse fazendo isso com a própria Narkissa.

Yakov deu as costas para a cena, sem saber como reagir. Acuada pela carência daquele garoto, mas confusa com todas as recordações que não a deixavam gostar dele totalmente, ela limitou-se a acarinhar de leve o topo da cabeça, estremecendo ao reconhecer aquele tom tão de perto. Não, definitivamente, ela jamais poderia gostar de Victor Nikiforov.

“Vamos logo, Vitya” chamou Yakov uma última vez. Queria desculpar-se por aquela situação, mas como fazer isso na frente do menino? “Obrigado, Margosha.”

“Por nada. E bem-vindo, pai.”

“Se não for incômodo, a senhora me conta mais sobre minha mãe, qualquer dia desses?” O pedido de Victor novamente a desnorteou. Por quantas penitências ela teria de passar para quitar aquela dívida moral?

“Victor…” E como sempre, o chamado de Yakov foi ignorado. Ele era muito bom em fazer isso.

“Lamento, Victor…” Margosha tentou sorrir assim como tentou não chorar. “Mas eu não sei se sou a melhor pessoa para falar o que deseja saber.”

Depois disso, foi a vez de Victor tentar não se desapontar.

“Tudo bem… Diga ao Gosha que eu deixei um abraço, assim que ele acordar.” Acenando, ele saiu do apartamento e arrastou os pés juntos com seu desapontamento até o elevador, deixando um rastro de cacos de seu coração somando aos de Margosha.

Feltsman olhou para a filha e tentou buscar palavras que nunca foram seu forte para serem ditas. Sabendo disso e compreensiva com a limitação do pai no quesito emocional, restou a ela sorrir em despedida. Nem mesmo de meias-palavras eles precisavam para se entender.

“Amanhã às duas horas, não?” Calado, Yakov confirmou o horário com um aceno. “Estaremos lá com pelo menos meia hora de antecedência.”

A cabine do elevador já esperava e um inconveniente alarme reclamava a espera. Sem estender mais a demora, Yakov abraçou a filha e beijou sua testa, representando em gestos todo o apoio que podia transmitir.

Ver Victor acenando uma última vez antes da porta da cabine fechar, foi o último golpe que ela precisava para chorar — e em silêncio de preferência. Estava fora de cogitação acordar Georgi logo agora e dar a ele um motivo a se preocupar, nas vésperas da apresentação final. Mais uma vez, de tantas que Margosha não conseguia mais contar, ela guardou a culpa e a engoliu como uma refeição indigesta, que mais dia, menos dia, intoxicaria bem mais que sua alma ferida pela vida. Tentou consolar-se pensando que aquilo seria por apenas dois dias. Dois dias era tudo o que podia suportar e depois disso, um período de paz para que pudesse recolocar o coração no lugar e a cabeça no trabalho.

No entanto, o que mais doía era saber que, por mais parecido que Victor fosse com Narkissa e por mais intenso que fosse seu sangue Nikiforov, ele estava longe de ser como os pais;

E isso em nada mudava os julgamentos de Margosha.

Notas finais
Olha que linda essa fanfic do Georgi pra todo mundo sentir dó do Victor :'D Por favor, não me batam, Gosha ainda é o dono dessa poha toda, aqui, eu juro pra vocês! :'D Vou logo entrando nas curiosidades que é pra poder voltar correndo pra segunda parte ainda incompleta hahahahahahahelp Mais uma vez, muito obrigada pela sua leitura!! Até breve! ♥ ~Curiosidades~ — Como ironizado no texto, Narkissa é o feminino de Narciso, nome extraído do conto do rei vaidoso responsável por dar origem à definição "narcisista", ou aquele que só tem olhos para si mesmo; — A referência da primeira cena, onde a imagem ambígua de Victor o relaciona ora a um elfo encantado, veio de uma das artes oficiais de YoI, a com referência à peça de Shakespeare "Sonhos de ma Noite de Verão"; — Forever Love é uma das mais famosas músicas da banda X-Japan, lançada em 1996. Ela tem um embalo mais romântico, mas pra quem já está todo quebrado emocionalmente, qualquer música de fossa te traga para a dor como em um todo :'D — A cena do coração partido, o qual pensa Minako, se refere à Mad Scene do balé Giselle. A personagem-título da obra, depois de uma desilusão amorosa, enlouquece e morre pelo coração partido. Porém, na versão original, a personagem se matava, mas a cena foi considerada muito pesada e foi exigido um desfecho menos trágico. Como se morrer após descoberta uma traição não fosse trágico o bastante xD (Se posso dar uma dica aqui, a interpretação de Virginia Johnson no papel de Giselle é uma das mais incríveis que eu já vi. Tem no youtube! owo) — O Benois de la Danse foi criado em 1991, mas, por algum motivo que eu não consegui encontrar, não teve edição em 2001, ano que em que se passa a cena de Minako, recebendo o informativo de sua indicação, por isso eu optei por descrever como "edição especial"; — O platskart mencionado por Georgi, é o tipo de viagem de trem mais barato na Rússia, considerado como terceira classe. É, literalmente, um corredor, sem muito espaço, conforto e privacidade, mas que, por alguma razão, me fascina e um dia quero andar disso :v — Smirnova, nome de solteira de Narkissa, quer dizer gentil. Risos. — O figurino de Narkissa descrito como o de Life and Love, é o mesmo que aparece no flashback de Victor com a coroa de rosas azuis. A descrição baseia-se mais na roupa mostrada no anime (que de fato parece uma camisa feita de babados/tecidos sobressalentes), do que na inspiração de Johnny Weir, onde essa aplicação não existia.