Cara ou Coroa
5 Sublime
Hermione esperou uma hora após o toque de recolher, de maneira a que os monitores completassem as suas rondas e a que o castelo adormecesse, antes de sair da Torre do Relógio, onde estava escondida. Dirigiu-se à biblioteca, tomando certo cuidado antes de virar em cada corredor, com receio do Pirraça estar à espreita. Mesmo contando com o apoio de Dumbledore, iria se sentir mais segura fazendo uma pesquisa independente… Havia nela um sentimento que sempre a resposta estaria escondida em algum livro, e que só estava esperando que alguém procurasse no lugar certo. Quando chegou à Seção Restrita, deu cada passo na ponta do pé. Apesar de não ter motivo para ser mais discreta na biblioteca do que fora dela, o sentimento de estar fazendo algo proibido a levou a isso.
Sentou-se num corredor que possuía algo a ver com a temática temporal, lamentando que em toda a biblioteca, e principalmente na Seção Restrita, os livros não possuíssem um padrão de organização muito óbvio. Pegou um livro com uma capa sem título, mas com arabescos rúnicos grafados que demonstravam padrões de tempo e possibilidade. Para iluminar a leitura, pegou da bolsa um frasco de vidro que continha um pouco de água, destampou-o e conjurou uma pequena chama na superfície do líquido.
O livro não possuía índice, então foi olhando página por página sem maior atenção, apenas procurando palavras-chave que poderiam resolver seu problema. Um capítulo chamou sua atenção, mas a linguagem utilizada no livro era muito arcaica. Teria de ler o livro mais tarde, mas não podia levar o livro para fora da biblioteca. Então, calmamente pegou seu caderno de anotações, e o colocou do lado do livro.
— ”Speculare” — disse baixo, focando na pronúncia correta.
O seu caderno transformou-se numa versão invertida do livro escolhido. Semelhante à primeira vista, era como se o livro original fosse visto num espelho; demandava um pouco de esforço para conseguir ler as palavras no começo, mas depois de algum tempo Hermione nem percebia que lia no sentido contrário ao regular.
Apagou a chama do frasco, guardou o livro original na estante e a cópia em sua bolsa, e dirigiu-se à porta da biblioteca distraidamente. Estava quase na porta quando algo a segurou pelo antebraço, soltou um ruído agudo que foi abafado por um dedo encostando em seus lábios. Ela não precisava de luz para reconhecer quem era; tal figura estava a todo momento assombrando sua mente.
— Não encoste em mim — falou pausadamente. Não sabia o porquê de sua respiração ter acalmado, talvez por ser uma ameaça conhecida, concluiu.
— Retire o livro da bolsa, caso contrário você irá nos denunciar.
— Não estou com livro algum na bolsa. Agora, com licença…
Desvencilhou-se rapidamente e passou pela porta antes que o outro pudesse falar qualquer coisa. Nenhum feitiço os denunciou, nem os prendeu. Saiu com passos leves e rápidos, ao olhar para trás viu Riddle parado na porta com um ar de surpresa. Não demorou muito para que ele a alcançasse. Porém, ao virarem o corredor, viram um homenzinho com olhos maliciosos e um sorriso cruel no rosto flutuando logo acima deles.
— Ora, ora… O que os dois pombinhos estão fazendo fora da cama num horário tão suspeito?
— Pirraça, por favor… Veja bem... — Riddle começou a dar uma explicação, mas Hermione teve outra ideia:
— Travalíngua!
O poltergeist tentou gritar mas o feitiço cumpriu sua função. Com a língua colada no palato, não emitia barulho algum com a voz. Mas Hermione percebeu seu erro ao ver Pirraça encarando as armaduras do corredor em que estavam. Sussurrou um rápido "corra" para o outro e saiu correndo procurando algum lugar para se esconder. Percebeu o estrondoso ruído das armaduras sendo arremessadas pelo corredor pelo Pirraça, antes de escutar outro par de pés a seguindo pela escola. Ele desceu as escadas, rumo ao segundo andar; já ela, porém, correu até a Torre do Relógio. Ficou esperando pouco tempo antes de escutar Filch resmungando no corredor abaixo, mas ele não subiu a torre em que ela estava para procurar algum infrator.
Demorou muito tempo para que as batidas de seu coração começassem a acalmar. Sem coragem para descer, se aninhou em si mesma e adormeceu após sussurar um feitiço para esquentar o ar ao seu redor. Não chegou a perceber que dormira até que despertou com suas articulações doendo por causa do mau jeito. Procurou ficar o mais apresentável que poderia, considerando a situação: amarrou o cabelo bagunçado e se sentiu grata por usar uniforme, pois assim se mesclaria bem com os alunos já acordados.
Desceu da Torre do Relógio com a expressão mais relaxada que conseguia fazer; os alunos estavam esparsos no corredor, rindo e formando grupinhos, não prestando atenção alguma nela. Andou rápido até o Salão Comunal da Grifinória, procurando se arrumar o mais rápido que poderia afim de conseguir tomar café da manhã. Correu até ao Salão Principal e sentou na frente de Druella. Tomou chá e torradas em silêncio, evitando o olhar questionador que lhe era direcionado pela colega. Septimus não pareceu perceber o clima:
— Dormiu de mais? Aposto que ficou estudando até mais tarde do que deveria. — Ele se virou para Druella: — Você já teve alguma aula com ela? Ela é tão competitiva quanto o Riddle, tratando-se de notas.
— Sim, Weasley, inclusive as aulas que tenho com ela são as mesmas que tenho com você. Mas não cheguei a ver ela estudando ontem antes de dormir.
Druella falou isso com um sorriso, deixando de mencionar que não vira Hermione estudando antes de dormir até mesmo porque não a vira de modo algum durante a noite. Hermione procurou focar nos estudos como assunto:
— Hey, eu não sou tão ruim assim. Isto é, vocês ainda nem chegaram a ver como eu fico em época de exames.
— Nem me fale, eu estou a ponto de ter um colapso nervoso… — Septimus falou rindo nervosamente.
— Você me parece tão tranquilo, eu não imaginava…
— Eu sou tranquilo, Hermione. Mas isso é sério, meio que minha carreira e a aprovação da minha família estão em jogo. Além disso, o futuro amor que a Cedrella terá por mim — ele falou confiante, mas havia uma certa ironia no ar.
— Tenho certeza que o amor da Cedrella você já tem — Druella comentou melancólica, enquanto tomava chá. Virou-se para Hermione: — A família dela é muito seleta com casamentos; os Black dão o nome ao purismo aqui. Ele a ama, e também acho que ela gosta dele. Mas não podem ficar juntos pois os Weasleys são amantes de trouxas. — Virou-se para Septimus. — Desculpe mencionar, mas tinha que explicar a situação para Hermione.
Weasley acenou concordando, e após um momento de silêncio, os três levantaram da mesa e se dirigiram à aula de poções.
Ao chegar na sala, viu que Dumbledore e Slughorn estavam conversando com Riddle. Pareciam muito bravos e o menino parecia tentar dar explicações.
— O que o Professor Dumbledore está fazendo nesta sala? — Septimus perguntou alto, fazendo a atenção dos professores focassem no pequeno grupo. — Hermione, você está bem? Está um pouco pálida!
— Hermione, gostaríamos de falar com você.
Dumbledore e Slughorn começaram a atravessar a sala e pela visão periférica, pode ver as sobrancelhas de Druella franzirem em surpresa e, ao mesmo tempo, acusatórias. Hermione não conseguia pensar em como poderia escapar dessa situação.
— Senhorita Granger, acho que por sua expressão já deve saber do que se trata. — Dumbledore olhou para Druella e Septimus, dando a entender que não queria constrangê-la em frente aos amigos. Ele parecia muitíssimo decepcionado com ela. — Depois fale com Slughorn, ou Riddle, para ver o que lhe cabe. Mas, depois do fim de semana, gostaria que viesse ao meu escritório para resolvermos nossos assuntos pendentes sobre a sua situação.
Dumbledore saiu sem demora e a menina entendeu que era melhor ela não o procurar no momento. Agora Hermione ainda tinha isto para resolver, seja lá o que ele tivesse ouvido sobre que aconteceu na madrugada, deveria pensar que ela tinha se envolvido com Riddle de alguma forma logo, como não confiava nele, estava reticente sobre sua confiança nela.
Druella e Septimus pareceram compreender que o assunto era sério, e que ela precisava de um tempo sozinha. Então, sentaram juntos e permitiram que o resto da aula passasse sem perguntas. Mesmo assim, enquanto Slughorn falava sobre antídotos, Hermione via em sua visão periférica ambos cochichando e olhando para ela.
Slughorn, após a aula, chamou-a com um sorriso no rosto; Hermione não entendeu bem o porquê mas foi até sua mesa quando a sala esvaziou.
— Veja bem, devido ao acontecimento de hoje, você e Tom ficarão em detenção… Não se preocupe, nada ficará em seu registro, sabemos que ele é um jovenzinho brilhante, e também que você tem algum dom para a magia, pelo que vi em minhas aulas. Vocês serão escoltados à Floresta Proibida e lá ficarão por conta, como parte da punição. Ambos já são razoavelmente bem treinados nas artes mágicas, pelo que Dumbledore me disse sob sua admissão à escola, ainda que ele esteja bastante resistente a esse castigo em específico… — Slughorn fez uma pausa sorrindo ainda mais abertamente. Falava num tom muito amigável, como se estivesse lhe fazendo um favor em lhe dar a detenção. — Vocês passarão a noite lá e só voltarão em casos de machucados graves, que serão devidamente escoltados a enfermaria. Certo?
— Certo…
— Excelente, tenha um bom dia!
Hermione saiu da sala levemente confusa, sem querer considerar os motivos para a atitude estranha de Slughorn.
— Agora a Senhorita poderia me explicar o que aconteceu?— Druella a encontrou no corredor.
— Um tremendo mal entendido…
Nenhuma das duas disse nada mais.
•••
— Vocês não queriam ficar sozinhos? — Filch voltou para o Castelo com espasmos que supostamente eram risos maléficos. Hermione pensou que já tinha passado por coisas muito piores. O problema era que nunca esteve em pior companhia.
Riddle foi adentrando na floresta sem se importar se era ela quem carregava a lamparina. Ela não o seguiu, apenas ficou vagando pela escuridão e prestando atenção para ver se não incomodava nenhum animal potencialmente perigoso. Depois de algum tempo, encontrou uma clareira que parecia segura, e resolveu tirar da bolsa o livro que tinha causado toda essa confusão.
Castou um lumos para tentar facilitar a tarefa, mas a imagem espelhada, a escuridão da floresta e seus instintos atiçados toda vez que escutava um mínimo barulho a fizeram desistir. Cansada, deitou na relva sem se preocupar com as folhas e gravetos que ficariam presos em seu cabelo. Tentou olhar para as estrelas, mas a densa vegetação não a permitia ver muito, apenas a claridade não muito usual do céu da região.
Por considerar que deveria ser lua cheia, e também pelo próprio histórico da Floresta Proibida, resolveu utilizar os feitiços necessários para proteger aquela clareira contra qualquer ameaça. Mais relaxada, permitiu-se deitar novamente. Fechando os olhos pelo que pareceu segundos mas não passaram apenas isso pois quando deu por si, tinha alguém a poucos metros. Levantou num salto, com a varinha em punho, a postura perfeita para duelar.
— Por mais que eu tenha que admitir que sua proteção foi mesmo boa, você não ganharia num duelo contra mim — Riddle falou entediado.
Hermione não soube o que responder; ela também achava que não ganharia num duelo contra ele. Ela não ousou voltar a deitar, mas sentou com as pernas cruzadas.
— Como você entrou aqui? Eu coloquei quase todas as proteções que eu conheço.
— Para seu azar, essas também são todas as proteções que eu conheço. Protego Maxima, Horrobilis e Totalum, além de Fianto Duro e Repello Inimicum. Mas não se preocupe, eu não as retirei, apenas fiz os feitiços necessários para entrar. Espere você conhece mais proteções? — Agora ele parecia interessado.
— Bem, tem o Patrono e também o feitiço para isolamento acústico. — Ela não iria revelar o Muffiato para ele.
— Você pode realizar o Patrono?
Ela levantou os ombros. Era um feitiço incrível, mas ela o aprendera alguns anos atrás; já tinha passado o tempo de ficar castando para admirar a lontra.
— Ainda que seja impressionante, qual a real necessidade de um Patrono? Há feitiços muito mais poderosos para lutar contra ameaças a curta distância…
— Além de ser uma maneira muito eficiente de afastar dementadores, também podem ser utilizados como perfeitos mensageiros, já que não podem ser falsificados — Hermione falou sem perceber. Suas memórias da guerra passaram em flashes rápidos na sua mente. — Mas mudando de assunto, por que você entrou aqui?
— Eu poderia falar que você é a única pessoa com a iluminação.
— Você é um bruxo, não precisa realmente dela.
— Sim… — Riddle parou e pareceu considerar. — Você aceita uma trégua entre nós em troca do real motivo?
— Trégua? — Ela não queria estar tentada pela curiosidade.
— Sim, já que você me odeia. Não precisamos ser amigos, mas colegas que podem se ajudar em caso de necessidade… Você não concorda que é bem útil ter afinidade com pessoas talentosas? Desenvolver um bom círculo de relacionamentos. Além do mais, você não quer saber o que eu acabei de fazer?
Essa conversa parecia demais com algo que o Slughorn falaria para o gosto da Hermione, mas considerou importante saber o que seu maior problema andava aprontando. Então acenou a cabeça, apenas uma vez, afirmativamente. Ele se aproximou dela com a mão estendida, que ela relutantemente aceitou.
— Eu fui aos Centauros perguntar sobre meu futuro.
Hermione perdeu a respiração. Os Centauros eram criaturas magníficas, mas soberbas e instáveis… Tinha certeza que tal interação tinha dado errado.
— Eles ficaram ofendidos, falando que não eram empregados dos humanos. Alguns consideraram me atacar, outros questionaram se isso não traria problemas com a Escola. Não fiquei por lá para saber o que decidiram, vi uma luz distante e a segui. Depois reconheci os feitiços de proteção sendo lançados. Com alguma habilidade consegui penetrar os escudos. — Ele sorriu em algo que poderia ser considerado amigável, mas ela sabia que era apenas o ego dele por ter conseguido adentrar na zona protegida.
— Era tudo que eu precisava, você arranjar mais problema além dos que já me causou — Hermione bufou.
— Temos uma trégua, lembra? — Ele falou se aproximando.
— O que pensa que está fazendo?
— Não conheço exatamente as capacidades do Centauros, mas não quero estar despreparado caso eles também consigam atravessar a proteção. — Ele se sentou atrás dela, suas costas encostando uma na outra, uma versão da tradicional postura de duelos em dupla que ela conhecia bem. Era perfeita para batalha, todos os ângulos possíveis eram examinados, cada um defendia a retaguarda do outro e era muito simples para realizar ataques.
Este garoto, ela pensou, conhecia táticas de guerra utilizadas por bruxos muito capacitados mesmo sem nunca ter estado em uma. Suspirou resignada.
— Seu cabelo parece um ninho de pássaros.
Ela deu uma cotovelada nas costelas dele, mas tentou ajeitar o cabelo do melhor modo possível enquanto amaldiçoava tudo e todos.
— Seu palavreado chulo está estragando a beleza do local.
— Beleza? Essa Floresta é completamente assustadora. — Virou-se para discutir com ele. Mas ele não a olhou, seus olhos estavam fixos nas árvores e céu acima de suas cabeças.
— Você não acha que mesmo algo ameaçador pode ter uma aura atrativa? Sublime? — Riddle falou continuando a olhar para cima.
O tom dele desencorajou a discussão que Hermione planejava começar. Ela olhou para a copa das árvores e trechos das estrelas entre algumas pequenas frestas, e ao descer o olhar viu o menino ao seu lado de perfil. Quando seus olhos pousaram no chão sua mente acabou por concordar com a afirmação anterior.
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