Capuz Vermelho Especiais
2 Deuses e Monstros (Parte 2)
Notas iniciais
08 de Abril de 1941
Inglaterra — Liverpool: 3ª e última operação de resgate.
A operação já havia se iniciado por volta das oito da manhã, com as tropas sendo mobilizadas para cercarem toda a estrutura, tal qual fizeram na missão anterior em Birmingham — ocorrida há 5 dias. Naquele dia ensolarado, maquinários militares — tanques, carros e blindados — rugiam com seus motores ao atravessarem a zona florestal da área ocupada pela proliferação do gás tóxico, cujo avanço era limitado, e garantirem uma proximidade segura com as principais entradas da enorme fábrica, mirando suas armas nos pontos considerados mais vulneráveis para efetivar uma melhor capacidade de derrubada.
Dentro do laboratório, especificamente uma cela privada, o Dr. Lenox, após ouvir longínquos ruídos de um tenso alarido do lado de fora, preparara-se para pôr em prática um plano audacioso. Numa maleta metálica, posta sobre uma mesa de granito, desesperadamente colocava seus materiais de pesquisa. A luz semi-azulada do recinto ilumina-o de cima à baixo, seu jaleco branco em destaque. Lenox estava visivelmente apavorado, tremulamente guardando suas coisas para fugir dali o mais depressa possível. "Dois anos... Dois anos desperdiçados em um maldito laboratório, coagido a compactuar com a perversidade de um monstro soberbo que se sente no direito de se proclamar um deus! Em nome de toda a minha formação intelectual, científica e social, jamais consideraria aquela abominação como um verdadeiro deus! Deveria ser categorizado como um demônio assassino e sanguinário!", pensou ele, despejando de sua mente toda sua opinião sobre Abamanu, logo fechando a mala com pressa e pegando-a com as duas mãos. Pusera-a debaixo do braço esquerdo, carregando-a como se tivesse a preservar um tesouro milenar.
"É isso... Tudo nos conformes por aqui.", pensou ele, andando para trás, os olhos castanhos rapidamente esquadrinhando o laboratório numa tentativa de detectar algo fora do lugar. Especialmente, olhara, com alguns segundos a mais, para um ponto do amontoado de caixas de papelão localizado em um canto à sua direita. Ali estava o seu trunfo para garantir uma possível reversão da calamidade. "Espero, do fundo do meu coração, que possa se encontrar em boas mãos", pensou, referindo-se à uma fita com um áudio que gravara mais cedo discorrendo a respeito de uma fórmula reversa para a substância, desenvolvida poucos dias antes secretamente.
As chaves do laboratório pertenciam-lhe, embora soubesse que seriam inúteis no futuro. Pelo menos era o que ele pensava. Portando sua valiosa maleta, Lenox fechara as pesadas portas de metal do local, girando a válvula com toda a força. O "lado de fora" era semi-escuro e a porta não estava tão visível, além de estar trancada. Sorte que ao seu lado esquerdo havia um atalho. Uma porta estreita. Chutou-a com força com o pé direito, quebrando-a quase que totalmente, logo iniciando uma frenética corrida por um longo corredor cinzento e pouco iluminado, sem a menor noção do risco de se deparar com inconvenientes que colocariam absolutamente todo o seu plano a perder.
***
Zona florestal
A luz do sol fazia os belos e alisados cabelos pretos do receptáculo de Sekhmet — Betsy Rossman — reluzirem estonteantemente enquanto a deusa caminhava a passos cuidadosos pela floresta, visando seu mais ousado oponente. Encontrou três corpos de soldados quiméricos largados no solo, olhando-os com certo desdém. Ao ganhar proximidade com Áker — que postava-se parado ao lado de uma árvore, parecendo cansado -, a deusa sacara de seu sobretudo, com discrição, sua adaga dourada, a afiada lâmina brilhando em contato com a luz solar, erguendo-a lentamente e segurando seu cabo com uma firmeza inabalável.
Entretanto, seu plano passava longo de pega-lo desprevenido.
— Serviçal! — gritou ela, chamando rapidamente a atenção de seu subordinado. Áker virou-se para ela, espantado. A deusa lhe devolveu um olhar debochado, girando a lâmina ao se preparar. — Conheço essa expressão. Pelo visto — olhou para os corpos -, esteve dedicando tanta concentração àquela indigna que se esqueceu de si mesmo.
— O que faz aqui, Sekhmet? O que quer dizer? — perguntou Áker, recompondo a postura, mostrando-se desafiador com sua seriedade.
— Presumo que estas feras débeis lhe deram bastante trabalho. — disse ela, pronta para ataca-lo a qualquer instante. — Não fosse por isso, não o veria assim.
— Continue enganando a si mesma. Não cheguei ao meu limite. — afirmou o arauto, sacando sua adaga, aproximando-se da deusa. — Vamos acabar com isso hoje. Sempre tão imprudente quanto o seu filho.
— Do qual você deveria estar cuidando agora mesmo. — atestou ela, ríspida.
— Depende do que você entende por "cuidar". — disse Áker, levantando uma sobrancelha, deixando algo subentendido.
Sekhmet o fitou estreitamente, esboçando um sorriso de infame e cínico.
— É impressão minha ou... está ameaçando matar meu filho. — desconfiou ela, compreendendo as intenções do arauto.
— Pode duvidar o quanto quiser. — disse Áker, mantendo-se sério e a faca na mão. — Eu me isento da responsabilidade. E se isso não bastar, eu desisto de convencer Rosie da proposta apenas para protegê-la!
— Então nós dois seremos punidos. É reconfortante. — disse Sekhmet, não ficando surpresa com a decisão do arauto.
— Só se for para você. — disse ele, ficando mais próximo para atacar.
— Exato. — disse ela, chegando perto de modo ameaçador. — Sempre... eu!
Áker investira com rapidez contra Sekhmet, tentando golpeia-la com a lâmina e a mesma desviando de um lado para o outro, procurando uma brecha, uma oportunidade para desferir seu ataque.
Conseguira pegar o braço de Áker, o que segurava a faca, para arremessa-lo em alta velocidade contra uma árvore de tronco fino. O forte impacto fizera-a partir e Áker voara longe, batendo com suas costas no solo de modo arrastado. Sekhmet viera em super-velocidade, pondo-se por cima do arauto, aproveitando que o mesmo permanecia deitado no solo, ameaçando esfaqueá-lo no peito. O arauto, prontamente, segurara o braço com o qual ela manejava a faca. A deusa bloqueara o movimento do braço direito do arauto.
— Façamos um teste: Posso não conseguir mata-lo mas vou machuca-lo bastante. E então recorro ao meu amado, confirmo sua deserção, e veremos em qual das partes ele irá confiar. — disse Sekhmet, forçando cada vez mais para golpeia-lo.
— Isso já passou... de todos os limites. — disse Áker, enfurecendo-se ao tentar resistir. Batera com sua cabeça na testa da deusa e a chutara com bastante força, fazendo-a chocar-se contra uma árvore mais robusta, não causando grandes danos.
O arauto lançara sua lâmina tal qual lança-se um shuriken. A deusa, por reflexo, conseguira pega-la pelo cabo antes que a ponta encostasse em seu rosto, em seguida largando-a no chão e logo apelando para o uso de sua rajada óptica solar para atingir Áker.
O arauto, por sua vez, tentara parar aqueles finos e retilíneos raios com uma só mão, sendo empurrado com força, seus pés deixando rastros profundos no solo. Ao passo em que Sekhmet se andava e aumentava a força de suas rajadas, Áker via-se sem nenhum suporte, tampouco uma saída, sentindo a carne de sua casca ser queimada aos poucos. Trincava os dentes, resistindo o máximo que podia.
— Vou fazer com que a punição devido ao seu apego sentimental por Rosie Campbell seja menos do que merece! Por ter desafiado minha autoridade! — decretou a deusa, colericamente investindo seu incontrolável poder contra o mensageiro de Yuga.
***
Instalação Nº3 — Sala sem numeração.
Atraído por uma poderosa e familiar energia divina, Abamanu — usando Mollock como receptáculo e uma robusta armadura metálica que lhe proporcionava toda uma sensação de imponência genuína — percorria a passos calmos o interior da uma parte da fábrica, especificamente uma sala — parecendo servir como um improvisado depósito de lixo — com paredes altas de concreto, duas janelas acima e uma única porta de entrada cuja abertura dava-se por meio de uma inclinação para frente.
A sentira há poucos minutos. Ora estável, ora irregular.
Farejou com o focinho de Mollock, o ar gelado do ambiente entrando pelas narinas, concentrando sua atenção totalmente àquela conhecida energia, ignorando com considerável facilidade todo a balbúrdia estrondosa do lado de fora. Seus sentidos jamais o trairiam. Parou em um ponto, perto de entulhos de lixo metálico.
Quando menos esperou, ao virar-se para um lado, deparou-se com a figura de um altivo Hector diante de si, exalando um estranho ar de suntuosidade.
Ao ver o caçador parado à sua frente, Abamanu não escondera seu pasmo. Rapidamente notara a diferença na postura do caçador, um tanto atípica à que esperaria.
— Então, é você!? — disse Abamanu, petrificado de surpresa, seus selvagens olhos amarelos fixados em Hector. — Vindo... logo de você!? Impossível! Inconcebível! — vociferou ele, inconformado demais para lidar com a possibilidade do caçador enfrenta-lo de igual para igual ali mesmo.
— Deve estar perguntando desesperadamente o porque. — disse Hector, com uma frieza aterradora. — A verdade... é que não sou obrigado a lhe dar satisfações. Como surgi aqui... Como soube que a última operação ocorreria aqui... — olhou para as mãos por alguns segundos. — Como obtive este poder... — balançou a cabeça em negação para Abamanu. — Nenhuma resposta importa.
— E designou-se exatamente para quê? — perguntou Abamanu, olhando-o com deboche falso. — O que pretende fazer à mim usufruindo destes... resquícios insignificantes?
— Eu posso testar agora mesmo. Não tenho muito tempo. — afirmou Hector, aproximando-se de seu algoz de modo corajosamente desafiador.
— Ah, você tem sim. Eu o oferecerei à você, com todo o prazer. — disse Abamanu. — Sem arrependimentos.
— Suas últimas palavras? — perguntou o caçador, a expressão sisuda inalterável.
O deus lunar fitara-o com um interesse que beirava à uma obsessão recém-alimentada.
— Percebe meu estado deplorável, caçador. — disse ele, referindo às feridas grotescas em seu pescoço e parte do rosto em decorrência da insustentabilidade do corpo de Mollock, tornando-o nada mais e nada menos que uma casca improvisada e temporária. — O que acha de abortar sua missão para tratarmos de negócios?
— Não vim negociar nada. — disse Hector, categórico. — Primeiro vou pulverizar você... e depois transportar a carcaça de Mollock e decidir o que fazer a seguir.
— Só há uma decisão! — disse Abamanu, empolgando-se com a vantagem que visualizara. Fizera de tudo para tentar manter Hector atento ao seu discurso. — Sobre Mollock... e, acima de tudo, sobre nós dois. Na verdade... Nunca foi a meu respeito. Mas sim ele! Você o quer mais do que tudo... mas precisa de mim.
O caçador parara de andar em direção ao deus lunar e o encarou com uma hesitação intensa. Seus olhos, devido à tamanha fúria, brilharam uma luz azulada em questão de milésimos.
— Isso vai depender. — disse ele, olhando-o com seriedade e receio. — O que você propõe?
Ao escutar a pergunta, Abamanu deixou um macabro sorriso formar-se em sua face lupina.
***
As mãos de Êmina agarraram firmemente o braço direito de Rosie, em um impedimento tão súbito quanto nervoso, sua voz soando abafada devido aos barulhentos desabamentos de partes do teto causados pela saraivada de tiros de canhão provindos dos tanques militares.
— Rosie, melhor você vir conosco! — pedia Êmina, desesperando-se. — Como tem tanta certeza de que é ele?
— Eu sei o que vi, Êmina! Por favor, me larga, eu realmente... sinto que preciso alcança-lo! — disse a jovem, a expressão aflita ao olhar para sua amiga, seu branco rosto sujo pela poeira do concreto.
A alquimista balançara a cabeça negativamente, não entendendo como Rosie poderia ter se deixado levar por um mero vislumbre que passaria despercebido por qualquer um.
O soldado responsável por conduzir a resgatada diretamente ao acampamento olhava para todos os lados, armado com sua metralhadora, o nervosismo acometendo-o mediante à intensidade que o desabamento adquiriria em poucos minutos à medida que os tiros e explosivos fossem ficassem mais violentos e perigosos. Voltou-se para as duas, exasperando-se.
— Não temos mais tempo! — gritou ele fortemente.Tocou no braço direito de Êmina, intencionando puxa-la para leva-la dali o mais depressa possível, embora também estivesse preocupado com a segurança de Rosie. — Toda essa área vai vir abaixo em menos de 10 minutos! Deveríamos já estar do lado de fora! — olhou para Rosie, a face desesperada. — Senhorita Campbell, ouça-a! Não faz nenhum sentido seguir adiante por conta de uma simples visão de relance!
— Eu o vi, eu tenho certeza! — disse Rosie, desvencilhando-se do agarro de Êmina.
— Rosie, não... — disse a caçadora, os olhos marejando-se.
Uma enorme parte do concreto vinda do teto caíra com um imenso baque no chão, quase atingindo Rosie que protegera-se com sua capa vermelha, destroçando-se brutalmente, fazendo erguer-se uma poeira cinzenta e densa. Êmina dera um rápido grito devido ao susto, depois voltando-se para Rosie, cada vez mais motivada em convence-la a desistir daquela loucura.
— Olha, por tudo o que é mais sagrado, Rosie... pela amizade que construímos... por favor, por mim!
Rosie fechara os olhos apertadamente, deixando jorrar algumas lágrimas, trincando os dentes, sentindo aquela força de atração se fortalecer dentro de seu âmago.
— Me perdoe. — disse ela, desalentada. — Mas... não posso. — olhou para Êmina. — Isso não é um adeus. Lembre-se disso. — por fim, dera as costas à caçadora e ao soldado, correndo freneticamente e desviando dos pedaços de concreto que caíam rapidamente, sendo ocultada segundos depois pela poeira.
— Não!!! — exclamou Êmina, ajoelhando-se e chorando. — Rosie...
— Nós temos que ir... — disse o soldado, ajudando-a a se levantar. — Vamos! Eu também sinto muito pela decisão dela, mas acontece que nosso tempo está praticamente esgotado! — olhou para o semblante choroso da caçadora, tocando seu rosto com as duas mãos. — Eu realmente sinto muito! Infelizmente, precisamos nos conformar, as possibilidades de ela escapar viva nos próximos minutos é nula! — afirmou, a fala veloz.
Êmina apertou os olhos, derramando mais lágrimas. A perda já era sentida por ambos.
— Vamos... — disse o soldado, levantando-a e correndo junto à ela, escapando do desabamento de vários pedaços que caíram no exato ponto onde estiveram, ambos desaparecendo em meio à poeira altamente concentrada no local.
***
Rosie mal conseguiria contar quantos blocos de concreto caíram tão próximos à ela enquanto correra desenfreadamente pelo labirinto, avançando contra uma poeira que seria prejudicial aos seus pulmões. Mal pensava em sua própria voz, devido aos estrondosos barulhos de desabamentos e explosões. Em compensação, o capuz ajudava a se proteger do pó cinza que caía constantemente, embora a tosse provocada pelo mesmo sendo inevitável.
Parou em uma área, aparente e temporariamente livre de ser afetada, para tatear seu cinto de utilidades onde estavam suas adagas, o amuleto... e um detector de atividade extraordinária, o qual podia jurar que encontrava-se seguro e difícil de ser roubado.
— Não pode ser... — disse ela, olhando para o cinto, passando as mãos e, infelizmente, não achando o que procurava. — Mas que... — olhou ao redor, recuando alguns passos e pondo as duas mãos na cabeça, basicamente sinalizando uma rendição em sua busca falível por Hector.
— Senhorita Campbell!? — disparou um soldado que viera de outro corredor, espantando-se com a presença de Rosie ainda naquela fábrica em pleno processo de destruição. — O que ainda faz aqui? Está perdida? — perguntou, abanando sua mão esquerda para dissipar a poeira.
— Eu... — gaguejou Rosie, sem saber como explicar. — Ahn... Sim! — mentiu, como única saída. — Onde estávamos o desabamento começou a ficar intenso e acabei me perdendo! Não sei o que...
Antes que pudesse completar a frase, Rosie mudara o semblante forçado de sinceridade para um real de horror ao testemunhar o soldado tendo seu coração saído para fora de repente. Recuou alguns passos, logo dando-se conta do responsável.
O corpo trêmulo e agonizante do soldado caíra devagar no chão, o sangue golfando em profusão do buraco aberto no peito. Rosie acompanhou-o com um olhar tenso.
A ensanguentada mão que segurava o órgão vital amaciava-o com certo orgulho.
— Não está sentindo o mesmo que eu? — perguntou Mihos, em seguida desviando os olhos para Rosie. — Essa... energia? É estranho, não acha? É como se estivesse incompleta. — fez uma pausa, andando calmamente pela área, enquanto a parede rachava-se. — Meus instintos dizem estar vindo de um mortal, pois posso detectar uma alta carga emocional de sua alma se fundindo á energia. E não está muito longe...
— O que está fazendo aqui? — perguntou Rosie, rigorosa no tom, ouvindo ruídos da parede atrás de si rachando-se.
— A pergunta correta não seria"Sabe onde ele está?"? — retrucou Mihos, voltando-se para ela. Claramente fizera referência ao fato de Hector estar como um intruso na fábrica e emanando uma poderosa quantidade de energia divina.
— Não precisava ter feito isso. — disse ela, lamentando a morte do soldado, olhando para o corpo.
— Não oficializamos acordo nenhum, só para refrescar sua memória. — disse ele, olhando para o coração que segurava. — Minhas sede e fome continuam válidas. — sorrira de modo sacana. — Mudando de assunto... — olhou para o lugar prestes a desabar. — Acho que devia ter escapado enquanto teve a chance.
Extremamente revoltada, Rosie logo sacou uma lâmina dourada, a única que trouxera e oferecida por Áker um dia antes da operação. Já não sabia se sua respiração pesada devia-se ao imenso acúmulo de poeira no ar que maltratava suas narinas ou era parte dos efeitos da tamanha raiva que sentia de Mihos naquele instante.
O deus fitara a pequena espada, desdenhoso.
— Oh... Não é necessário irmos tão rápido. — dissera ele, infamemente piadista.
— Se está apenas se divertindo matando pessoas, se está em cima do muro ou, às escondidas, sendo um maldito cúmplice de sua mãe, não me importo! — bradou Rosie, a expressão furiosa, mantendo a lâmina em riste e dando passos altamente vagarosos à frente. — Como estou sem saída, só existe uma coisa que se tornou minha única missão: Acabar com você! Ou morrer tentando!
***
Em paralelo, na área florestal, o confronto entre servil e superior alcançava níveis violentamente extremos. As chances não conspiravam a favor de Áker. Sekhmet andava em sua direção, ainda disparando suas rajadas ópticas, àquela altura já o subjugando e fazendo bom proveito de uma vantagem palatável e natural.
O arauto via-se praticamente ajoelhado, apoiando-se com sua mão esquerda tocando no solo e defendendo-se do ataque com a direita. "Isto é por Rosie... e por mais ninguém!", pensou ele, não demorando a compreender que tal embate prejudicaria os planos de ambos, logo tentando se esforçar para convence-la a parar ou morreria ali mesmo em vão.
— Não quero desperdiçar toda a minha energia com você, serviçal! — disse Sekhmet, equilibrando o nível de sua rajada, já sabendo que manteria-se por cima, algo que ela apreciava mais do que tudo. — Provou-se ineficaz ao bater de frente contra mim, deve estar arrependido. Ou pior: humilhado! Desrespeito a um superior é um crime grave e isento de perdão! Agora diga-me... O que pretende fazer nesta condição? — perguntou, logo fazendo uma rápida pausa, torturando-o ainda mais. — Ah, sim! É óbvio! É incapaz de falar! Só mesmo assim para fazê-lo se curvar diante de meu poder e coloca-lo no seu devido lugar!
A deusa concentrava toda a sua atenção no sofrimento de Áker. O que consequentemente a fez ser vítima de um golpe bem pensado. Um golpe vindo dos céus. Nuvens cinzentas e tempestuosas formavam-se.
Antes que ordenasse o arauto a se render e confessar sua total e absoluta submissão, a deusa fora impactantemente atingida por uma descarga elétrica atmosférica. O plano era simples: Induzir uma situação que parasse a rajada óptica, fazendo-a piscar os olhos, devendo ser algo provindo de cima, ainda que não a detivesse por completo.
Áker, com o impacto do raio sobre o solo, rolara feito uma bola até parar próximo à uma árvore. A mão direita de seu receptáculo estava enegrecida como carvão e fumaçando bastante.
O controle climático do arauto foi vulnerável à deusa... pelo menos em parte. Sekhmet movia-se com dificuldade, apenas alguns dedos e o pescoço. O corpo de Betsy Rossman exalava uma fumaça cinzenta e exibia queimaduras de primeiro grau. Logo a consorte de Yuga desviou seu olhar enfurecido à Áker — que se levantava ao passo em que sua mão direita reconstituía-se.
— Desgraçado!!! — vociferou ela, o rosto horrendamente queimado, em tons de vermelho, amarelo e cinza.
Áker sacara sua adaga dourada, tirada debaixo da manga esquerda do terno preto, andando em direção à deusa com fervorosidade na expressão.
— Eu poderia mata-la agora mesmo... — disse ele, observando-a dos pés à cabeça.
— Ora, não brinque comigo! — disse ela, ríspida, logo dando uma risada zombeteira. — Um golpe sujo e desonesto.
— Em legítima defesa. — retrucou ele, o tom frio.
— Que se dane! — disparou ela, raivosa. — Esta sua afeição por aquela mortal insignificante... irá custar sua própria vida. Além do mais... — relanceou a lâmina dourada portada pelo mensageiro, dando um leve e cínico sorriso. — ... uma arma tão convencional dessas é incapaz de me ferir. Vamos lá... tente.
Áker olhou de esguelha para sua esquerda, a direção onde a fábrica se situava.
— Oh, veja... — disse a deusa, movendo tremulamente o seu braço direito e os dedos da mãos, intencionando agarra-lo mais uma vez. — Meus movimentos estão retornando... A escolha é sua: Ou foge... — conseguiu inclinar-se de leve para falar mais proximamente. — ... ou morre!
Suspirando pesadamente, Áker decidira. Em um ato impulsivo, ele lançara sua lâmina contra uma árvore. A ponta da arma cravou-se com profundidamente no tronco. O arauto seguira na direção, caminhando com tranquilidade ao contar com a possibilidade de Sekhmet reaver os movimentos e reconstituir a pele do receptáculo em questão de meia hora, tempo suficiente para entrar na fábrica, procurar por Rosie e salva-la da iminente explosão.
Contudo, algo desalentador pôs suas esperanças a perder. A deusa, enquanto seu subordinado resolveu caminhar, conseguira juntar os dedos polegar, indicador e maior de sua mão direita e estala-los... o que significava algo aterrorizante que Áker não previra devido à luta.
De repente, um círculo com um trapézio invertido e um triângulo iluminou-se sob os pés de Áker, que paralisou no mesmo instante. Olhando para o sigilo inibidor, Áker sentiu um misto de impotência e, sobretudo, culpa. Seguido disso, escutara uma gargalhada infame por parte de Sekhmet, que comemorava sua virada inesperada contra o arauto.
***
Um dilema excruciante deixara os nervos de Hector em total ebulição.
Abamanu aproximava-se de maneira forçadamente amistosa em direção ao caçador que estava em poder da pedra Ônix dentro de si.
— Eu deveria agradece-lo por ter matado Michael naquela noite nas Ruínas Cinzas? — perguntou Hector, ainda resistente.
— Eliminei um estorvo para meu favorito. Talvez, no mínimo, eu mereça sua gratidão. — disse Abamanu, não tirando os olhos de Hector nem por um segundo. — Lhe fiz um favor. Nosso vínculo é mais profundo do que sua pobre compreensão pode definir.
— Não sinto remorso por Michael. — declarou Hector, pensativo. Voltou os olhos frios para o deus lunar. — Em outras palavras, acho que ele... até teve o que mereceu. Mas não confunda com gratidão. Depois de suas investidas, mata-lo foi a primeira coisa que pensei caso você o poupasse, e, claro, poupasse a mim e meus amigos também. — fez uma pausa, olhando ao redor após sentir um pequeno tremor. — Dividir para conquistar...
— E então? O que me diz? — perguntou Abamanu, olhando-o com expectativa. — Quando nos unirmos, Mollock estará totalmente entregue á você, além de vulnerável. Darei-lhe a liberdade de mata-lo com suas próprias mãos...
— Apenas isso não basta. — disparou o caçador, fitando-o com desconfiança. Deu uma olhadela discreta no relógio de pulso. — Deve me garantir, honestamente, que vai manter Rosie longe de sua mira, longe dos seus planos maquiavélicos. Nenhum dos meus amigos deve sofrer mais do que já foram obrigados a suportar quando os manteve prisioneiros. Para uma vingança eficiente e dolorosa... é necessário uma sacrifício. — andou dois passos em direção ao deus, meio cabisbaixo e parecendo sinalizar alguma concordância diante do nefasto acordo. Ergueu de leve a cabeça, encarando Abamanu com uma expressão indicativa de determinação pura e genuína. — Mantenha-me no controle. Quando chegar a hora.
— E em seguida? — perguntou Abamanu, sorrindo macabramente.
— Irei descansar. — disse Hector, deixando uma gélida lágrima descer pelo seu rosto. — Eternamente.
CONTINUA...
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