Capuz Vermelho - 3ª Temporada

13 Você não suporta a mudança (Parte 4)


Aquelas inocentes pessoas se encolhiam de pavor diante da visão horrenda que se avizinhava-se. A porta fora arrombada com brutalidade, praticamente destruindo-se. Um homem surgira cambaleando por trás da assombrosa figura que ameaçava os desafortunados. A família estava sentada no chão, encostados na parede da sala. Uma mulher e seu esposo abraçados com seus dois filhos.

— Por favor, não nos machuque! — suplicava a moça, fechando os olhos e chorando.

Inesperadamente, a alta e robusta figura de olhos negros tivera sua cabeça decepada por um facão com dentes antes que pudesse desferir um golpe. Um sangue preto espirrara no quarteto. Se protegeram com os braços em vão.

O homem de sobretudo de couro marrom que lhes salvara parecia estar com a visão turva e vaga.

Sua expressão era de completa obsessão, como se quisesse desesperadamente saciar uma fome ou sede imparável.

A cabeça do indivíduo rolara pela sala, derramando o líquido negro e espesso, bem como o corpo, que combalira no chão. O pai olhara para o pobre homem desesperado que entrara, parecendo querer agradecê-lo.

— Pode nos dizer o que está acontecendo? — perguntou ele, a voz trêmula. — Porque estão invadindo as casas e sequestrando a todos?

Hector se apoiou em uma estante, tentando se orientar. "Por que? Por que logo agora?!". Passou a mão pelo rosto, sentindo um forte tontura.

— Você... — gaguejou a mulher, querendo se levantar, mas hesitando depois. — Você está bem?

Aquela era a última residência da vizinhança que estava sendo assaltada por uma violenta horda de miméticos. Colocavam as vítimas presas com coleiras e correntes nos pescoços, ligadas umas às outras, nas vans brancas estacionadas na pequena floresta que fazia fronteira com um parque. Conduzidas até o palácio de Abamanu, seriam recebidas pelos soldados e levadas para "aprimoramento" no laboratório subterrâneo. Em seguida, após jurarem lealdade eterna a seu novo Rei, seriam, por fim, liberadas para o mundo exterior no mesmo dia, sendo responsáveis por sequestrar uma nova leva de pessoas para mais experiências, ao passo em que mais fábricas iam sendo instaladas e a substância continuaria a ser produzida abundantemente.

O caçador tentou olhar para um deles, com dificuldades para distinguir as formas. Após alguns breves instantes — e com certo esforço — conseguiu entrever formas humanas tentando se comunicar. O mundo lá fora não passava de um caos enlouquecido e cacofônico.

— Por favor, nos diga! — pedia a mulher, aflita.

— Vocês... — tentou dizer Hector, respirando pesadamente. — ... precisam sair daqui!

Estranhando a fala do caçador, o pai balançara a cabeça frenética e desesperadamente.

— Não há pra onde fugir! Está um verdadeiro pandemônio lá fora!

Sentindo seu canal auditivo emitir um nítido alerta, Hector virara o rosto abruptamente para a porta, entrevendo uma van que acabara de estacionar próximo ao jardim da casa. As portas traseiras abriram-se, dando passagem para dois homens fortes e vestindo ternos pretos segurando objetos de ferro. Voltando-se para a família, Hector transparecera certo dó. O suor que se formava em seu rosto estava forte e abundante.

"Abamanu... está recebendo mais infectados a cada três horas, provavelmente. Isto tem que parar. Não, posso pelo menos evitar... com o único modo ao qual posso recorrer!".

Hector, trôpego, se dirigira à família, rangendo os dentes. Mal conseguia conter a reação terrível que estava ocorrendo em seu âmago. "Se eu liberar isso de mim... talvez eu consiga evitar que estes inocentes sofram com o mal que aquele maldito deus está propagando pelo mundo! Por mais que doa em mim! Por mais que isto fira meus princípios! É o único jeito!". Pôs a mão em seu peito, apertando-o com força. "Eu nunca antes senti... uma força tão imensa tentar me controlar por inteiro!".

As crianças o olhavam aterrorizadas, abraçadas aos seus pais. A garotinha apontou para o caçador, especificamente notando as alterações mínimas que se delineavam em sua face.

— Olhem! Ele... — ela gaguejou, lívida. — Os dentes dele!

Os pais passaram a perceber em poucos segundos, em seguida ficando ainda mais apavorados.

— Mas quem é você, afinal? — berrou o pai, afastando-se, tentando manter os filhos próximo de si.

A mãe debulhava-se em lágrimas, desesperada, encarando as mudanças sombrias na aparência do caçador.

— Me perdoem! — disse ele, o tom de voz já alterado, chegando mais perto. — Você são os últimos a serem levados... E não posso deixar que mais deles sejam criados! — fechou os olhos. Abriu-os novamente, totalmente modificados e carregados de fúria. Empertigando-se, ergueu as duas mãos, as unhas crescidas. — Eu sinto muito. — disse, de modo tenebroso.

Baixara as garras contra os corpos na velocidade de um pensamento, seguido de um rosnado. Um denso espirro de sangue manchara a parede amarela. A sombra de Hector descrevia uma fera em forma humana, trucidando loucamente as cabeças e corpos daquela família, à medida em que um oceano de sangue fresco e quente corria por seus pés como uma correnteza forte. Os gritos de dor iam se abafando a cada rugido e rosnado dado por Hector... que aparentava estar disposto a não parar até que estivessem completamente mutilados e, sobretudo, mortos.

Quando os homens de terno preto chegaram, depararam-se com a dantesca cena, parando logo na soleira da porta. Mostraram seus olhos negros, franzindo seus rostos severos.

Hector olhara-os por cima do ombro, sorrindo... a boca, os dentes pontiagudos e as mãos tingidas de vermelho.

***

Rosie desferira um veloz golpe contra o rosto de um dos meta-simbionte através do excelente fio cortante de sua adaga. Outro viera por trás agarrando-a pelo capuz, depois lançando contra a uma estante de madeira com portas envidraçadas. Caíra junto com os vários e ínfimos estilhaços de vidro, sentindo um gosto de sangue na boca. "Droga!", pensou, passando a mão pelo lábio inferior e sentindo o corte sofrido. Levantou-se com esforço e sacara mais duas adagas — estas com as lâminas curvadas e pontas mais mortais -, avançando contra o seu agressor. Desviou das garras do mesmo, logo depois cravando uma adaga em seu braço esquerdo. O meta-simbionte urrara dolorosamente, olhando-a com enervação, as presas bem acentuadas e os olhos arregalados. Rosie, em seguida, lhe dera um brusco chute no rosto, fazendo-o chocar sobre uma média mesa de madeira, deslizando e caindo no chão.

Hector batalhava sem nenhuma dificuldade aparente. Rasgava as peles dos inimigos sem escrúpulos. Jogara um contra uma janela, quebrando o vidro da mesma com o impacto.

— Se recebermos algum salário, lembre-se de comprar vidros novos. — disse Rosie para ele, com ar cômico no tom.

Hector virara-se e a alertou de imediato.

— Atrás de você! — gritou, a voz retumbante e monstruosa.

Mais dois meta-simbiontes avançaram contra Rosie. A jovem girara, dando um chute no rosto de um deles e, em seguida, desferindo um cruzado de direita noutro. Sacou um adaga de lâmina curvava e segurara-o pelo pescoço, passando o metal da arma sobre a garganta do mesmo. O corte fora rigoroso. Deixou-o cair no chão com a garganta golfando sangue profusamente, passando a concentrar-se no outro que se levantava, estando pronto para ataca-la novamente.

Antes que pudesse sair do ponto onde estava para ajuda-la, foi abordado por outro que agarrara seu pescoço, na tentativa de quebra-lo. Golpeou-o com o cotovelo diretamente no nariz, logo em seguida empurrando contra a parede e cravando as garras das duas mãos contra os olhos do mesmo. Se debatendo intensamente, o meta-simbionte rugia de dor, sentindo pontadas agudas estremecerem nos canais oculares. Sem misericórdia, o caçador baixara as garras, rasgando o resto da face do lobisomem, com vários pingos de sangue espichando em seu rosto selvagemente furioso. As garras desceram o corpo da criatura, parando no abdômen.

Rosie fora jogada contra a porta envidraçada dos fundos. Com os olhos fechados, rangendo os dentes e gemendo de dor no solo arenoso e meio gramado, a jovem tentou se reorientar. Alguns pequenos cacos de vidro estavam fixados na sua pele, desencadeando em leves sangramentos nos bracos.

O meta-simbionte responsável pela última investida se aproximava a toda velocidade e ira.

Conseguira chuta-lo com os dois pés, mesmo se mantendo no chão. Apenas gerou um empurrão, não fazendo-o desistir. Rosie, vendo como sendo a úncia alternativa, rolara pelo solo, só depois conseguindo reunir forças para se reerguer e manter a guarda. Voltara-se para a criatura, erguendo a mão contra ela. Repentinamente, o licantropo perdera seus movimentos, apenas soltando rosnados incessantes e desesperados. Com uma estranha telecinesia, Rosie conseguira joga-lo contra a parede à sua direita, deixando que seus olhos azuis adquirem-se um calor misterioso. Um fraco e intermitente brilho amarelado surgindo neles...

De instantâneo, o corpo do meta-simbionte queimara completamente, carbonizando-se em seguida, deixando um contorno chamuscado na parede. Poucos segundos depois, o corpo reduzira-se à cinzas, que se amontoavam no chão formando uma "montanha".

"Essa não! Aconteceu de novo!", pensou Rosie, desnorteada, olhando para sua mão direita com espanto. Não tardou para que pudesse se lembrar do poder oculto que guardava dentro de si, o verdadeiro motivo pelo qual Yuga desejava assumir seu corpo como um receptáculo, tendo aquele elemento um fator crucial para propiciar o ato do deus solar. "Está piorando...". Cogitou contatar Áker longe dali para confidenciar aquela manifestação — a mais intensa desde a noite nas Ruínas Cinzas. "Seria um sinal?". Antes que corresse e usasse o amuleto para sanar a dúvida, uma mão tocara em seu ombro esquerdo.

— O que é? — gritou ela, virando-se para trás, sobressaltada.

Deparou-se com um caçador de aluguel vestindo um colete preto com um distintivo do Exército Britânico na parte esquerda e uma camisa branca. Demonstrava amizade com seu rosto jovial e atraente. Olhou para Rosie com preocupação.

— Rosie Campbell.. é melhor que venha conosco...

— Hector está lá dentro e... — disse, virando o rosto para a porta dos fundos quebrada.

— Está tudo bem, os outros irão tratar de falar com ele depois. — disse ele, puxando-a de leve, querendo distancia-la do local. — Ao que parece, os planos para a primeira operação se adiantaram.

— Espera aí. Como é? — indagou ela, incrédula.

— Exatamente. — confirmou, assentindo. — Mas só vai saber dos detalhes se vier conosco. Acredito que o General Holt quer falar com você. Mas antes disso terá que passar pela nossa enfermaria. Vamos. — conduziu-a de modo condescendente.

"O General modificou o cronograma!?", pensou Rosie, andando rápido até um veículo militar ao lado do caçador. À primeira vista, podia-se dizer que a fuga escondida de Rosie e Hector despertara no general uma pressa que denotava urgência.

O nervosismo dera lugar, novamente, à desconfiança extrema.

***

À procura de Rosie, Hector percorrera por todos os cômodos da casa. Pôs as mãos na cabeça, desesperado, fitando os corpos ensanguentados e esfacelados espalhados pela espaçosa sala de estar. "Ela não pode ter desaparecido assim tão depressa.", pensou ele, olhando ao redor. Restava averiguar do lado de fora. Durante o tempo em que a jovem travava seu confronto com o meta-simbionte remanescente, o caçador ganhava tempo para regressar ao seu estado racional e humano. Tal processo lhe privava, temporariamente, de estímulos externos, fazendo-o imergir em um transe enquanto voltava a se sentir como outrora.

Suspirando longamente, fora assaltado por um sentimento corroedor. "Não passo de um desertor!".

Se Rosie de fato havia desaparecido, certamente ele atribuiria a culpa a si mesmo. E assim o fez. O silêncio durara pouco. Alguém entrara de modo abrupto na casa. Sobressaltando-se, Hector olhara para a figura que adentrava, exibindo surpresa na face.

— Edgar!? O que faz aqui? — andara até o amigo apressadamente.

— Detectamos atividade vinda daqui. — disse o caçador, sem deixar de olhar para os corpos. — Parece que tiveram sucesso na hora de deixar tudo sob controle. Não sobrou nenhum para ser esmagado pelo meu grupo? — perguntou ele, olhando para Hector, parecendo bem-humorado.

— Rosie sumiu de repente. — informou Hector, ignorando a pergunta. — Você e seu grupo chegaram nesse exato momento?

— Não há nada com o que se preocupar. — afirmou ele, otimista, sorrindo levemente. — Ela pode ter decidido escapar pela floresta, mas lhe garanto que um dos meus pode ter encontrado-a e a levado para a base.

O caçador o fitou, nem um pouco convencido.

— Se você veio tão depressa e diretamente para cá, como sabe que Rosie fugiu floresta adentro?

Edgar tirara de seu cinto um rádio-transmissor e o mostrara.

— Já era tempo de nos darem um desses.

— Então um dos seus homens contatou você e o avisou sobre Rosie. Estou certo? — perguntou Hector, ansioso.

— Bem... sim. — confirmou Edgar, o olhando estranho. — Você me parece afoito demais para um caçador da Legião que, obviamente, está acostumado a enfrentar licantropos dessa espécie. Foi tão agitado assim?

— Não faz ideia. — disse Hector, baixando a cabeça timidamente.

Andando pela sala, Edgar analisava com minúcia os pormenores dos resultados do confronto.

— É, pelo visto, não sobrou nenhum para contar história. Tem alguma suspeita em mente?

— Por ora, ainda não. — respondeu Hector, viando-se para ele. — Raizenbool não parece ser o tipo de cidade que abriga meta-simbiontes disfarçados, e soa até estranho a área florestal os atrair de tal forma que ataquem a primeira casa que encontram. Geralmente, quando estão em bando, eles preferem caçar o máximo de animais selvagens que avistarem pelo caminho. Casas em florestas raramente são seus alvos, a menos que estejam elaborando um ataque se souberem que há inocentes no local.

— Bem observado. — comentou Edgar, voltando-se para ele com um sorriso de satisfação. — No entanto, devemos classificar uma investigação sobre isso como fora de questão. — argumentou ele, olhando para Hector de modo sério.

— Concordo. — assentiu Hector, firmemente. — Afinal de contas, nosso foco deve se direcionar unicamente para as operações de resgate.

— E por falar nisso... — começou Edgar, andando calmamente. — Pelo que me foi repassado, o General pretende adiantar um pouco as coisas.

— O quê? — indagou Hector, franzindo o cenho.

— Restam somente três fábricas. Se seguirmos pela ideia de que o cabeça ordena que mais sejam instaladas em um intervalo de três dias após o desmanche de uma, então o adiantamento se torna oportuno.

Pensando um pouco, Hector compreendera a necessidade da mudança. "Ainda assim, não abandono nenhuma suspeita contra o General. Ele parece querer apressar as coisas de forma que eu e Rosie possamos estar alvejados enquanto estivermos sob a vigilância de alguém do Exército.".

— Eu tentei convence-lo — continuou Edgar — a deixa-lo de fora dessa primeira missão.

— Por que?

— Usei uma argumentação que só cabia a mim. O seu anonimato, Hector. — aproximou-se dele. — Sei o quanto ele é importante é para você. Estou disposto a ajuda-lo a preserva-lo, podemos pressionar o General a reconsiderar sua antiga licença ou, talvez, convence-lo a enquadrar você em um novo posto.

Hector rira fracamente.

— Apoio sua ideia, Edgar, e agradeço de coração pela ajuda... Mas é impossível. Já deve estar inteirado dos últimos fatos que andaram circulando no QG a meu respeito...

— Curiosamente... não. — negou Edgar, franzindo a testa. — Na verdade, é a resposta do General em relação ao interrogatório que ele conduziu que quero conseguir. Mas ele se esquivou espertamente da pergunta. Como se quisesse me omitir algo que eu deveria saber... — ele pigarreou subitamente.

— Meu anonimato se foi, não há mais volta. Impor algum tipo de pressão contra ele pode piorar minha situação, fazendo ele acreditar que eu tive a ideia. — decretou Hector, tentando encerrar aquele assunto. — Agora me diga: Rosie foi levada à base... Mas já para se preparar para liderar o grupo de caçadores selecionados?

— Parece ser verdade. O General, hoje mais cedo, soube dos últimos dados em relação às fábricas. Só resta ele confirmar sua participação. — disse, com certo desânimo. — Perdoe-me... é que eu partilho do seu entendimento quanto a preservar sua identidade para caçadores de aluguel e toda a justificativa que você apresentou. Mas acredita mesmo que o fato de você ter sido interrogado pelo General sob uma acusação não revelada às tropas vai permanecer omitido aos caçadores? Principalmente aos que vão participar da primeira operação de resgate?

Era uma possibilidade a ser refletida. Alguém audacioso o bastante para causar burburinho ainda maior se responsabilizaria por um vazamento de informações secreto, de forma que os caçadores, antes do início da operação, soubessem da custódia temporária do supervisor e das supostas acusações que o miravam, além da revelação da identidade do mesmo. O resultado seria desastroso para Hector. Uma mancha negra destruiria a imagem do caçador em questão de pouquíssimo tempo. O ponto em que Edgar estava querendo chegar era exatamente a exclusão de Hector na co-supervisão, uma decisão que só seria tomada pelo próprio. Recusar a nova licença e fugir de uma provável rejeição abriria vantagens tentadoras. "O Exército não contacta exclusivamente Edgar para compartilhar informações, tendo os outros caçadores também o direito de serem informados. Não há uma regra específica que proíba outros caçadores de receberem chamadas de soldados. Mas, contudo, somente Edgar é quem possui o direito de falar com o General por telefone ou pessoalmente, dependendo do caso. Mesmo a política rigorosa que evita vazamentos estando vigente... não garante que um soldado, qualquer um, telefone para algum caçador repassando fatos que devem permanecer sigilosos. Se eu decidir me ausentar da primeira operação... considerando essa possibilidade real... vou estar fora da mira do vigilante escolhido por Holt, embora Rosie estará exposta e à mercê dos olhos atentos de Sekhmet... que está aliada ao General com intenções escusas. Estou numa maldita encruzilhada.", pensou Hector, divagando em pensamentos, tentando decidir o caminho correto a ser seguido.

Para sua infelicidade, um rápido estampido rompera as linhas de sua concentração. Estremecendo, o caçador vira o corpo de Edgar tombar no chão, sangrando no braço.

— Edgar! — exclamou Hector, correndo para ajuda-lo. O caçador de aluguel parecia já se encontrar inconsciente.

Antes que se agachasse, sentira algo atravessar o couro de seu sobretudo nas costas... até se alojar na pele. Parara rapidamente, ficando com um só joelho dobrado. Esbugalhando os olhos, o caçador passeara a mão direita pelas costas, não demorado a tatear o buraco feito. Sentiu todo seu sistema nervoso e articulações petrificarem. "Não consigo mover nem mesmo minha boca!".

Caíra de lado, duro tal qual uma estátua, próximo a Edgar. "Apareça, seu desgraçado!", pensou, desejando, mais do que tudo, olhar nos olhos do atirador.

Um som calmo de passos foi se aproximando.

Hector, com a visão enturvando-se, entrevia um ser espectral vindo em sua direção. "Quem é você?", disse mentalmente o que não conseguia proferir oralmente.

Quando o indivíduo misterioso tornara-se aceitavelmente mais nítido, uma confusão de ideias pegara o caçador desprevenido. A figura era assustadoramente extravagante.

O atirador utilizava uma máscara preta e metálica que lhe cobria toda a cabeça, com um par de olhos redondos e vermelhos. Suas vestes se resumiam em um macacão de couro preto bastante apertado. O sujeito andava de maneira intimidadora, algo aparentemente já calculado para que soasse o mais ameaçador possível. Além disso, uma parafernália de aparelhos e fios estava acoplada ao uniforme.

Erguera uma pistola de grosso calibre na mão direita, puxando o ferrolho após adicionar mais balas.

Dissera algo com uma voz sintetizada e aterrorizante.

— Hector Crannon, espero por esse momento há bastante tempo. Você pode não ter me notado naquele fatídico dia, mas eu vi, com todos os detalhes, a sua barbárie exposta aos meus inocentes olhos. Tão inocentes quanto aos seres humanos que você assassinou. Eu sou a testemunha. E vim para tomar de você o que você tomou daquelas pessoas. De modo justo e igualmente frio. — afirmou o homem, mirando a arma na cabeça de Hector.

O caçador lutava para se levantar, mas seus membros não correspondiam. seu rosto estava vermelho tamanha era a sofreguidão. As palavras daquele sujeito ficaram gravadas em sua mente, causando-lhe arrepios e contínuas reprises torturantes, nas quais via olhos penetrantes e um sorriso sanguinolento e macabro. "Aquele dia não!".

O som de uma forte trovoada retumbou sobre o espaço. Hector sentira o chão vibrar.

As nuvens se carregavam, concentrando-se velozmente. Delas, um raio foi disparado atravessando a abertura feita no telhado da casa, logo atingindo certeiramente o homem de máscara negra. O indivíduo contorcia-se loucamente, deixando a pistola largar-se facilmente. Caiu no chão, sem movimentar um dedo sequer, seu corpo exalando uma densa fumaça vinda de seu uniforme queimado.

Ao conseguir ver a figura que se postava na soleira da porta, Hector teve um lampejo súbito de surpresa e empolgação. A vontade de se levantar lhe consumiu, mas a dormência nas articulações parecia crescer a cada minuto.

A mulher foi se aproximando depressa, desviando dos corpos dos meta-simbiontes, inclusive do tal homem mascarado. Agachou-se e, delicadamente, pousou suas mãos no corpo de Hector para ajuda-lo a se levantar. O toque foi inconfundível. Os cabelos castanhos e o vestido de seda azul também. "Só posso estar sonhando...".

— Vamos... — disse ela, carregando-o com o braço direito dele sobre sua nuca, levando-o até a porta.

Finalmente sentindo-se capaz de falar, o caçador olhara para ela, grogue, pedindo explicações.

— Você quem fez... aquilo?

— Sim. Uma rara oportunidade indispensável para se usar magia de controle climático pela primeira vez. Acho que me saí bem. — disse Eleonor, sorrindo para si mesma.

— Para onde está me levando? — perguntou Hector, vendo o mundo a sua volta girar.

— Para um lugar seguro. — disse ela, carregando-o com mais vontade. — Aliás... um lugar no qual você fique longe de Rosie e se mantenha seguro... para deixa-la segura.

***

QG Alternativo do Exército Britânico — Londres; 11h05.

Num corredor pessimamente iluminado, o soldado que fora designado a observar cada movimento de Rosie Campbell falava com o General Holt no transmissor, enquanto andava vagarosa e tranquilamente. Não estava nada confortável com o tom de seu chefe, após te-lo informado do "desaparecimento misterioso" de Rosie e Hector. Fortalecendo suas incertezas, o homem passou a assumir a ideia de que ambos pudessem estar mortos ou infectados. A especulação, contudo, agravou ainda mais a irritabilidade do General.

— Como assim simplesmente sumiram? Vasculharam a área, ao menos? — perguntou Holt, impaciente.

— Nós presumimos que os falsos sobreviventes tivessem oferecido algum tipo de proteção. Meia hora se passou e não voltaram mais. — informou o soldado, andando mais rápido. — Baseado nas suspeitas do senhor, nenhum deles deu sinais claros de que possuem alguma especialidade. O tempo em que eles ficaram lá comprova isso.

— Engana-se, soldado. — objetou Holt. — A sua teoria de que estejam mortos não faz minhas suspeitas caírem por terra. Suponho que fugiram, é nessa dedução que confio.

— É, pode ter sido. — respondeu o soldado, desabotoando sua farda até o tórax. Sua voz parecia carregada de exaustão.

— Algum problema? Você está bem? — perguntou o General, preocupando-se.

— Não é nada, senhor. Só... — olhou para os lados, sentindo forte incômodo. — ... é só um calor, nada demais. — fez uma pausa, tossindo. — O que sugere que façamos para proceder, senhor?

— Contactem os caçadores, eles devem ir à residência de Campbell para se certificar de que ela está presente lá e viva. Quanto à Crannon... bem, acredito que ele tenha dado a ideia de escaparem do local, sem informar a você e os outros.

— Se Crannon omitir informações à nós... — disse o soldado, começando a suar em profusão. — ... será um péssimo adendo à ficha criminal dele.

— Certamente. — concordou Holt. — Mas não será assim por muito tempo. Por enquanto que a primeira operação de resgate não começa, estou estudando a possibilidade de submete-lo a um novo interrogatório antes de iniciar sua nova função.

— Parece justo, senhor. — disse o soldado, a expressão de insegurança corroendo sua calma. "Que sensação estranha é essa?".

— Ótimo. Faça o que pedi, e rápido. Quero boas novas dentro das próximas duas horas. — ordenou ele, austero.

— Sim, senhor. — disse ele, rapidamente, logo em seguida desligando.

Antes que pudesse olhar para trás, completamente dominado pelo sentimento de perseguição, dois raios retos e luminosamente amarelados atravessaram seus olhos. Um ataque perpetrado por trás, de modo preciso e rápido. Com os olhos totalmente incinerados, o soldado perecera, caindo de bruços no chão, imediatamente morto.

Passos tranquilos vinham se aproximando...

Um belo rapaz loiro de rosto quadrado, cabelos semi-espetados e caucasiano se aproximava do cadáver do soldado. Tratava-se de um dos caçadores de aluguel selecionados para serem notificados quanto a qualquer evento ou decisão relacionado às operações de resgate nas três últimas fábricas a serem desmanchadas.

Ele sorria com certo escárnio, zombando mentalmente da fragilidade daquele corpo. Circundou o cadáver por alguns segundos, até se agachar e vira-lo com rapidez. Na parte de trás da cabeça do soldado podia-se ver dois profundos orifícios que fumaçavam levemente, tal profundidade se estendendo até os canais oculares tragicamente tostados. Os olhos azuis bem delineados do jovem brilhavam de emoção e satisfação.

— Agora que a prometida está oficialmente eleita como a líder do grupo que irá guerrear contra as tropas daquela infame quimera... tenho certeza que farei uma excelente vigilância. — afirmou ele, sorrindo abertamente depois.

Subitamente erguera uma mão e cravara-a no peito do soldado, o sangue espirrando no seu branco rosto. Mesmo em pequenas gotas, sentia que qualquer sangue lhe despertava seus desejos mais intensos.

O rapaz, na velocidade de um piscar, assumira a forma e aparência de sua vítima. Sorriu para si mesmo de modo canalha e suspeito, visualizando e calculando seus próximos movimentos.