Capuz Vermelho - 3ª Temporada
11 Você não suporta a mudança (Parte 2)
O corredor era fétido e sujo, como se inúmeros odores estivessem misturados. As paredes eram cinzas e rachadas, com inúmeras manchas negras e secas. O teto era aberto, deixando o ar frio do ambiente adentrar abertamente.
Sob a mira daquela espingarda, Rosie e Hector se limitaram a erguer os braços, sem entender exatamente porque seriam confundidos com infectados. Ou, como o homem que os mirava, prestes a apertar o gatilho a qualquer momento, dizia: Miméticos. Eis a nomenclatura verdadeira daquelas criaturas que deixavam um fluido negro e espesso correrem por suas veias em substituição ao sangue.
Mirando o cano da arma para os dois de modo nervoso — como se não soubesse em quem atirar primeiro -, o rapaz parecia mais estar com medo do que com fúria. Usava uma bizarra máscara de gás preta, dando-lhe uma aparência tal qual a de um de ser extraterrestre. Além daquele item, vestia uma calça social marrom e um casaco preto por baixo de uma camisa branca. Suas mãos tremiam, uma reação involuntária do dedo que estava no gatilho prestes a ser acionada.
— Me digam logo quem são! De onde vieram e porque estão aqui! — exclamou ele, exasperado.
Ambos entreolharam-se, inseguros, mantendo as mãos para cima. Hector teve de se sentir obrigado a assumir as rédeas do problema.
— Nós fomos enviados por nossos superiores, sem nenhuma intenção de praticar males à você, nem aos seus companheiros. — ditou o caçador, firme no tom de voz. — Sei muito bem o que está pensando. — deu um fraco sorriso nervoso. — Nós não estamos infectados.
Sem estar convencido, o rapaz aproximou ainda mais a mira da espingarda de modo mais ameaçador desta vez.
— Ah, é mesmo? — perguntou ele, soando irônico. — Deixa eu adivinhar quem está no comando: Um deus com corpo e cabeça de lobisomem, sinistramente monstruoso, e que está afim de acabar com todo mundo. Sei disso porque tive que interrogar um daqueles vermes gosmentos. Enviados até aqui para se passarem por pessoas normais e pedirem um lugar no nosso refúgio!
Suspirando longamente, Hector fechara a cara e refletira sobre aquela tortuosa questão. "Claramente ele não vai nos deixar passar até que apresentemos uma prova definitiva.".
— Não trabalhamos para ele. — falou Rosie, já sentindo a dormência nos braços. — Se nos fizesse o favor de simplesmente abaixar esta arma... seria possível que nós explicássemos nossos motivos. — relanceou Hector com os olhos, um tanto incerta.
— Acham que é fácil pra mim? — resmungou o jovem, o tom ríspido — Não vão sair da minha mira até me provarem que possuem sangue humano. Se não estão usando máscaras significa que estão infectados... se estão infectados significa que devem morrer. Me mostrem logo os olhos pretos, droga!
— Não, nós não estamos com uma gosma preta e nojenta correndo nas nossas veias. — insistiu Rosie, sua impaciência tomando conta de sua voz. — Muito menos com olhos pretos. Mas você vai ganhar um olho roxo se não abaixar essa arma...
— Ahn, Rosie. — chamou Hector, interrompendo-a, como que querendo impedi-la de dificultar a situação. — Só existe um jeito de nós provarmos.
— E nós precisamos? — retrucou ela, franzindo o rosto em aborrecimento.
— Se ele nos permitir... — Hector voltou-se para o rapaz desesperado que os ameaçava, olhando-o com certa expectativa.
Após um breve silêncio, ambas as partes pareciam estar acertadas quanto a permissão da passagem.
— Tudo bem... — disse o jovem, lentamente abaixando a arma. — Podem se mover... mas não fujam. Estão limpos ou não?
Sem titubear, Hector baixara as mãos e sacara de um bolso externo de seu sobretudo um canivete. Tirara do objeto uma lâmina pontiaguda e média, logo em seguida afastando a manga da veste até o ombro. Rosie se desconfortara com aquela atitude, mas rapidamente percebeu que era a única forma de conseguirem passar. O caçador fizera um pequeno corte horizontal no antebraço, o sangue fresco surgindo e levemente escorrendo. Olhara para o rapaz que colocara novamente a arma em riste, logo depois ajeitando a manga com certeza de que o corte sararia depois devido à pouca profundidade do mesmo.
— Satisfeito? — perguntou Hector, sério. O acusador respondeu abaixando a arma.
O caçador entregara o canivete à Rosie, forçando-a também a provar sua humanidade.
— Ah, que droga. — reclamou ela, fitando o objeto com raiva. — Me dá isso aqui. — disse, tomando-o da mão de Hector.
Escolheu justamente a lâmina maior e com o fio mais eficaz. Exibindo seu antebraço direito, tratou de agilizar o processo, sem medo de cortar a pele horizontalmente, porém, de modo suave. Em seguida olhou para o jovem com uma visão fuzilante, mostrando o cauteloso corte.
— É o bastante pra você? — indagou ela, esperando qualquer reação por parte dele.
O jovem assentira após uma observação um tanto minuciosa, mesmo através daquele aparentemente escuro visor de plástico de sua máscara.
— É. Passe livre à vocês. — virou as costas, dirigindo-se até o fim do corredor. — Me sigam por aqui.
A porta no fim do corredor estava praticamente em frangalhos de tão desgastada que se mostrava a madeira. Um pouco hesitantes e intrigados, a dupla seguiu o rapaz armado. Era hora de conseguir respostas acerca do porque de pessoas que se dizem sobreviventes estarem refugiadas em uma área tão próxima à uma das fábricas recém-instaladas.
— Não vai nos dar máscaras para nos protegermos? — perguntou Rosie, desconfiada.
— Primeiro... — começou o rapaz, sem demonstrar nenhum resquício de gentileza no tom. -... Devem me dizer porque estão aqui. E quem os enviou.
— O Exército. — disparou Rosie, sem temer nada.
Hector lançou-lhe um olhar de desaprovação, o qual a jovem interpretou como "O que deu em você? Não pode revelar assim algo que deveria permanecer sigiloso!".
O rapaz, curiosamente, não aparentou estar surpreso.
— Já devia imaginar. — disse, dando de ombros. — Poucos dias antes, eu avistei alguns soldados fazendo algum tipo de vistoria perto da fábrica. Estavam protegidos com o melhor que eu já vislumbrei sobre equipamentos de alta tecnologia.
A revelação caíra como um raio sobre os dois. Uma amarga sensação de desilusão acometeu Rosie na forma de um embrulho no estômago. Boquiaberta, virou-se para Hector com a expressão atônita. O outro lhe retribuiu igualmente, a face desnorteada. De repente, em ambos, o sentimento de traição deu lugar à raiva. "Então mentiram descaradamente!", pensou Rosie, inquieta.
"Provavelmente já passaram da fase de testes. Holt está fazendo questão de nos esconder mais do que é capaz, para nos cegar quanto à realidade. Querem nos manter focados, enquanto ocultam vários detalhes relevantes. Toda a tecnologia, tudo já estava pronto. Não sei quanto à Rosie, mas... tenho a impressão de que estamos, de alguma forma, sob a mira de algum plano secreto. Nada parece natural. O fato de Sekhmet estar usando o corpo de uma espiã do Exército... Será que ela já chegou a ter contato com o General? Se assim foi, não é de se estranhar que possa ter relação com minha soltura repentina.", pensava Hector, imerso nas reflexões quanto aos mistérios guardados pelo Exército Britânico e as artimanhas sórdidas que o General Holt poderia estar executando.
— Esse abrigo subterrâneo foi criado — dizia o rapaz, enquanto abria a porta e seguia por um corredor mais curto. — há 1 ano, pelos soldados do Exército Britânico. Capacidade suficiente para abrigar mais de 40 pessoas, é um dos melhores bunkers já feitos. Diziam que era para enfurnar os melhores homens para se proteger das bombas nucleares. — fez uma pausa. — Aqueles malditos miméticos arrasaram com nossa vila. — olhou para eles por cima do ombro. — Não confundam minha atitude com insensatez... é que mais máscaras estão em falta, eu sinto muito mesmo. Mas não se preocupem, só se passaram doze minutos desde que chegaram aqui.
A última frase despertou a suspicácia de Hector.
— Como sabe que não se deve passar mais do que vinte minutos exposto ao gás? Você conseguiu estudar os atributos dos infecta.. quero dizer, dos miméticos?
O jovem ficou em silêncio por vários segundos, aparentemente relutando em ter que responder mais do que julgava ser necessário. Rosie, estranhando o emudecimento rápido do garoto, cutucou Hector de leve com o cotovelo e balançou a cabeça negativamente à ele com a face séria. Um contato visual foi estabelecido, portanto cabendo ao caçador fazer sua parte. Rosie estava tentando dizer algo como "Há algo de errado nesse lugar". Baseando-se na suspeita contra o Exército após aquela revelação, fazia todo o sentido de que aquela missão poderia ter fins obscuros. Hector parecia concordar com sua companheira. O jovem continuou mudo misteriosamente, mas sua postura havia se alterado nitidamente. Os ombros estavam curvados, sua coluna não estava mais tão empertigada quanto no momento em que abordou os dois aventureiros. O instinto apurado de Rosie e a visão analítica de Hector resultou numa fusão que clareou ainda mais a desconfiança, tornando-a mais adequada.
Desceram pela escada de um alçapão. Em seguida, percorreram mais um corredor, este bem mais escuro, o que fez o rapaz se sentir obrigado a acender sua lanterna. Rasgando a escuridão, a luz do objeto passeou pelo espaço... até que, por fim, iluminou uma pesada porta metálica travada com uma corrente e três cadeados. Sacando um molho de chaves, o rapaz inseriu uma delas no primeiro cadeado.
Mediante ao ar empoeirado do recinto, Rosie tentou reprimir alguns espirros, ao passo em que ficava mais e mais ansiosa para investigar o local secreto.
Após o que pareceu ser várias horas de espera, a porta finalmente se abriu. "Caramba, já era tempo.", pensou Rosie, soltando um suspiro de alívio e entrando com pressa na sala à frente ao lado de Hector. O baque do fechamento da porta soou retumbante e ecoante. Os dois mal se assustaram. Estavam maravilhados com a austeridade que aquele lugar transparecia. Um amplo espaço com paredes de concreto imbatível e semi-quadriculado. Seu teto estava há consideráveis metros acima do chão, do qual pendia-se um candelabro cristalino e três lâmpadas fluorescentes em forma de bastão espaçadas proximamente uma ao lado da outra.
Sentindo o piso forte e resistente, também de concreto, Rosie e Hector olhavam para todas as partes observáveis. Uma paleta de tons de cinza.
As atenções de ambos voltaram-se rapidamente para os indivíduos que se aproximavam com ar amigável. Homens fortes e truculentos, vestindo roupas velhas e surradas, possuindo aspectos relativamente militares em seus cortes de cabelo e modo de andar. O rapaz que conduzira os visitantes inesperados tirara a máscara e resolveu apresentar seus companheiros.
— Bem, estes são meus amigos... — disse ele, apontando para os homens que exibiam sorrisos condescendentes para a dupla e assentiam. Contudo, o jovem pareceu pouco à vontade, olhando para os dois lados. Seu rosto era fino e pálido e seus cabelos eram pretos e ralos, além do nariz ser bem destacado. — Err... — apontou para Rosie e Hector. — Estes aqui são os enviados do Exército. Provavelmente vieram para se juntar à nós e... — parecia faltarem palavras a serem ditas. — ... Bem, eles querem nos ajudar a exterminar aqueles miméticos horrorosos. — disse, por fim, a voz estranhamente trêmula.
Hector, notando uma brusca mudança no comportamento do rapaz, não se deixou levar pela semente de dúvidas e simplesmente se manter calado. Andou alguns passos à frente, o semblante endurecido.
— O que há com você? — perguntou ele, olhando o jovem com estranheza.
— Ahn... — ele não sabia bem o que responder, passando a olhar para seus companheiros com temor. — Comigo? Do que está falando? Eu estou perfeitamente bem... Não é isso, pessoal? Vocês... irão se aliar à eles... para lutarem contra os miméticos... e... — sua tremedeira já estava ficando clara, impossibilitando-o de completar uma frase.
Rosie assistia àquilo sem saber a maneira certa de intervir.
— Está tudo bem, Erick. — disse um dos homens, este sendo careca e de pele bronzeada. Ele sorria de modo enigmático. — Você fez mais um excelente trabalho. Agora já pode sair.
Os outros foram se aproximando de Rosie e Hector, denotando querer cerca-los. A amizade nos olhos dera lugar à uma observância de um predador intencionando abocanhar sua presa. Muitos deles sacavam armas de fogo e balançavam pequenas barras de aço.
— O que significa tudo isso? — indagou Hector, recuando alguns passos juntamente com Rosie, encarando raivosamente aqueles sujeitos. — Nos diga, Erick! Este é seu nome, certo?
O rapaz se afastava, assentindo freneticamente para o caçador. O pânico estava estampado em sua face. Quando pensou estar indo até uma porta que o levasse para o corredor onde estava seu quarto, acabou por sentir a fria e cinzenta parede por trás. Desalentado, resolveu que era a hora de abrir o jogo.
— Eu não tive escolha! — vociferou ele, colérico. — Eu fui o único... o único que saiu vivo daquele massacre! Me pegaram antes que eu tivesse a chance de escapar, então eu tive que aceitar a oferta!
— Que tipo de oferta? — questionou o caçador, mantendo-se alerta diante da ameaça daqueles homens cada vez mais próximos.
— Eles... eles me prometeram poder, muito poder! Mas não algo que tornasse igual eles, mas sim melhor do que isso! O que eu fiz ali... Foi tudo uma atuação, tudo não passou de um teatro bem armado! Eles esperavam que alguém viesse... como o Exército, por exemplo. — fez uma pausa, o suor escorrendo profusamente pelo seu pescoço. — Para que assim... eles conseguissem angariar mais aliados... que pudessem infectar mais e aumentar o número!
A cortina da ilusão se rasgara por completo. Erick havia se entregado de peito aberto a um pérfido suborno executado pelos miméticos que se originaram na região de classe média próxima dali, na qual, poucos dias antes, abrigava-se uma nova fábrica instalada. Tomaram posse daquele bunker a tempo, antes que o Exército se mobilizasse para fazer uma varredura completa de toda a zona de perigo. Sobreviventes coisa nenhuma. Apenas um abrigo de "humanos" que tornaram-se seres repugnantes através da inalação de um gás negro e tóxico, dispostos a usar inocentes não-infectados para conduzir outros de mesma condição até ao covil.
Hector olhava para o lívido rapaz com uma expressão enfezada, sentindo-se enganado, e ele detestava estar submetido àquele estado. Rosie já aprontava suas adagas, fuzilando os gigantes com o olhar, enquanto se afastava cuidadosamente.
Elevando a tensão a um nível extremo, os sujeitos resolveram lançar as cartas na mesa. Mostraram, simultaneamente, seus olhos totalmente negros. Chegavam mais perto... impondo uma pressão às suas vítimas antes do primeiro ataque. Sobressaltados, a dupla se posicionou com mais vontade. Hector, sem sacar nenhuma arma, parecia soltar rosnados quase inaudíveis ao ranger os dentes.
Erick continuava a se lamentar pelo seu erro.
— Por favor. — dizia ele, chorando. — Acreditem em mim! Eu faço tudo que vocês quiserem...
Um dos homens sacara um revólver de grosso calibre do coldre. Sem olhar para o garoto, ergueu a arma e apontou-a para ele, logo disparando friamente. O som do estampido ecoou pelo recinto, a bala atingindo em cheio a testa de Erick, seu sangue espirrando na parede, formando uma grande mancha. O jovem caíra no chão, jazido morto de imediato. De fato, ele cumprira seu papel, além de que estava sob completo domínio do desespero, cegando-o quanto à possibilidade de ser morto por um daqueles asquerosos seres.
O executor partira para cima de Hector. Ambos bolaram no chão, se esmurrando intensamente. Rosie avançava, manejando suas adagas enquanto girava rapidamente, intercalando alguns bons cortes nas faces dos inimigos com chutes violentos. A cada corte, o líquido se lançava no ar. Ao dar uma rasteira num deles e logo em seguida um chute no rosto de outro, o mais forte dos seis viera até ela enquanto a mesma se levantava com rapidez. Agarrou o pescoço da jovem com o braço, prendendo-a. Rosie sentira o ar de seus pulmões terem sumido numa fração de segundos. Arquejou enquanto lutava para se libertar, debatendo-se. Dera um empurrão para trás com toda sua força, fazendo-o ir de encontro à parede mais próxima. O impacto não a rachou muito, contudo. Arriscou golpe-a-lo com a cabeça repetidas vezes a fim de conseguir se desvencilhar daquele forte braço que apertava seu pescoço. O homem, após vários golpes, já sentia o sangue negro escorrer da sua boca. Ainda assim, tentava mantê-la presa até que não lhe restasse mais forças para suportar. Rosie já podia sentir seu rosto esquentar, tornando-se vermelho devido a dificuldade respiratória, rangendo os dentes com os olhos fechados. Continuava golpeando-o por trás com a cabeça, mesmo que ficasse dolorido depois e uma dor lancinante a torturasse mais tarde.
Já Hector... estava em um patamar bem diferente. Conseguira se livrar do primeiro que lhe atacara. Agora estava lutando contra três. Pegara um pela gola da jaqueta e o lançara contra uma mesa de vidro violentamente, fazendo o mesmo se cortar severamente com vários estilhaços. Ao que parecia, a pele de humanos infectados pela substância ficava mais frágil. Viera outro atingindo-o com uma barra de aço bem no meio do rosto. O terceiro o chutara no estômago, depois golpeando-o na face, duas vezes, com as mãos juntas e dedos cruzados. Mesmo sangrando no nariz, o caçador não se deixara abater estando parcialmente caído. "Rosie!". Era seu único pensamento e sua única preocupação naquele momento. Ficara tonto por alguns segundos... para logo depois se erguido novamente e lançado contra uma coluna de concreto que se rachou forte com o impacto. A dor nas costas veio rápida e incisiva. Conseguiu se sentar, ao menos, ignorando o incômodo na coluna vertebral. Eles se aproximavam furiosos. O caçador encarou colericamente os três homens, a ferida em seu nariz fazendo escorrer mais sangue.
Houve um misto de infelicidade e vitória ao se dar conta do único modo de sair daquela situação. "Devia ter me preparado... previamente... para uma ocasião como essa.", lamentou, arrependido por não ter revelado a verdade à Rosie antes. "Não existe outra forma. Não há outra saída... a não ser esta! Seja forte, Hector! Você consegue...".
Quando o próximo golpe estava prestes a ser perpetrado, Hector reunira toda a carga de adrenalina em seu coração, transformando-se em um turbilhão incontrolável de emoções. Levantara-se com determinação. Com a máxima velocidade com a qual pôde contar, o caçador abandonara todos os aspectos humanos ao se transformar — os pelos, as presas e unhas crescendo assustadoramente.
Voou para cima dos dois homens com uma rapidez sobre-humana. Pegara-os pelas cabeças, fazendo-os chocarem contra o chão, produzindo, assim, um choque seco e brutal. Transpassou as faces dos indivíduos com suas garras em movimentos frenéticos, quase insanos, enquanto rosnava feito um cão enfurecido. Suas mãos peludas já se encontravam encharcadas pela gosma preta e espessa. As cabeças dos inimigos foram mutiladas, tornando as faces irreconhecíveis. Uma poça da substância negrejante foi se formando em torno dos corpos já mortos.
Rosie, felizmente, conseguira se libertar das garras do mimético robusto, sacando uma adaga e perfurando a barriga do agressor várias e várias vezes. O líquido foi jorrando até o chão enquanto seu portador gritava de dor, soltando sua vítima logo em seguida. Virando-se para frente, a jovem aproveitou a deixa. Com uma maestria nítida, girou a adaga na mão, depois fazendo um veloz corte vertical na garganta do homem. Da ferida, um jorro ainda mais forte da substância viera como uma cachoeira. Caíra no chão, banhando-se com seu próprio sangue escuro e fervente.
Ao virar-se para o outro lado, Rosie estremecera, sentindo seus pelos eriçarem-se. Se viu frente à frente à um monstro. Ele se afastava dos corpos caídos e estraçalhados. Petrificada de horror, a jovem não sabia como reagir, muito menos balbuciar alguma palavra. "Não... Não pode ser...", pensou ela, levemente balançando a cabeça em negação. "Então... isso só prova que eu não estava errada. Eles não estavam errados.".
Um baque seco vindo de uma porta atrás dela a desconcentrou daquela visão horrenda. Estava fechada com uma tábua de madeira quebradiça e velha. Algo ansiava para sair de lá. Fosse o que fosse, denunciava ser algo ainda mais furioso e amedrontador do que os caídos. As batidas ficaram mais fortes e insistentes.
Ao virar-se novamente para o outro lado, Rosie já não viu mais a fera em forma de homem. Hector já se dirigia até ela correndo, a expressão preocupada. O caçador mirou seu olhar aflito na porta, já temendo que mais deles se preparavam para vir.
— Melhor nós irmos. Agora! — disse ele, puxando-a de leve pelo braço para correr.
— Podemos acabar com mais deles! — retrucou Rosie, contrariando-o. Virou o rosto para a porta — Embora não sabemos o que está do outro lado.
— Você quer ficar e esperar? — indagou o caçador, impaciente. — Algo me diz que com certeza é de uma proporção superior ao que enfrentamos. Posso sentir!
— É, eu sei que pode. — respondeu ela, assentindo, com seriedade no tom e na face.
Ambos ficaram entreolhando-se por alguns segundos. Um contato visual que denotava desconfiança quase contagiante entre os dois. A tábua na porta estava se partindo. Logo mais, o que quer que estivesse atrás daquela porta avançaria contra eles sem escrúpulos.
Dominado pela pressa, Hector a puxou com força, correndo até a porta e forçando-a a correr também no mesmo ritmo. Agarrou a maçaneta da porta metálica, puxando-a com força. Um som baqueante ressoou... vindo de poucos metros atrás.
A dupla correra o mais rápido possível, mergulhando na escuridão do corredor.
— Perceba que a porta não estava trancada! — disse Hector. — Erick estava com a intenção de nos salvar!
— Como tem tanta certeza? — questionou Rosie, correndo com avidez para chegar logo a superfície.
— Há duas especulações: Ele estaria desesperado demais para não perceber que deixou a porta escancarada ou a manteve daquele jeito para que nos salvássemos!
— Bem... Seria tolice minha dizer que não faz sentido. Ele realmente estava arrependido. — disse Rosie, sentindo-se perseguida.
Um horda de seres dantescos corria sem praticamente reproduzir nenhum ruído. Hector entreviu a fresta da porta que levava para cima, a luz iluminando fracamente a escada.
Subiram com uma pressa quase ensandecedora. Rosie pensava que, a qualquer momento, algo fosse puxar sua perna e arrasta-la com tudo. "Vai logo! Rápido!", pensou, desesperada, subindo depois de Hector.
O caçador fechara a pesada porta após a parceira ter chegado à superfície. Enquanto fechava, vislumbrou figuras humanoides... mas completamente cobertas de preto, que subiam a toda velocidade. "O estágio final.", pensou ele, atônito, logo encaixando a trava da porta, trancando-a. Podia ouvir barulhos abafados no corredor abaixo. Como se as criaturas bizarras ainda insistissem em sair.
Passado um instante... os ruídos cessaram.
A dupla se encontrava ofegante. Hector tornou a fitar o chão com um olhar neutro... imerso em pensamentos. Rosie o observava, enquanto recuperava o fôlego encostada na parede. De fato, já não o enxergava mais da mesma maneira que outrora.
— Aqueles infectados... que saíram daquela porta e nos seguiram... — disse Hector, ainda desnorteado.
— O que tem? — perguntou Rosie.
— Eram do estágio final... Os desenhos que lhe mostrei há poucos dias. — falou, com ar de preocupação. — Exatamente o que nós tememos ocorreu. Provavelmente o que estava sob minha custódia e depois escapou... foi o responsável por infectar mais pessoas. Já estou quase certo disso. Não há muitas dúvidas.
Rosie refletira por algum tempo sobre a questão. A face cansada deu lugar à um semblante pálido.
— Pareciam correr mais rápidos do que nós... mais rápidos do que qualquer coisa que já vi.
— Verdade. — aquiesceu Hector, assentindo. — A situação está piorando. Por sorte, fomos mais ágeis. Mas como eu disse anteriormente... Basta apenas um toque para conseguirem infectar alguém. Imagine quantos destes podem estar espalhados por aí...
— Por favor, não. — disse Rosie, fechando os olhos ao pôr a mão na cabeça. Sentia-se nauseada. — Já não basta o que o Exército armou para nós...
— Também tenho essa suspeita. — disse Hector, interrompendo-a. Andou até a saída do local a passos largos e firmes.
— O que pensa em fazer? — perguntou Rosie, desconfiada, seguindo-o.
— Vamos dar uma lição à eles. — afirmou o caçador, decidido. — Deixa-los esperando, talvez, assim, verão que não somos estúpidos. Abusaram de nossa boa vontade.
— E se acharem que estamos mortos? — conjeturou Rosie, não muito certa da decisão.
— Não importa o que pensem. — disse ele, dando de ombros. — O General Holt, definitivamente, passou dos limites. Estamos marcados como suspeitos.
"Você mais do que eu, com certeza.", pensou Rosie, fitando com hesitação a postura rebelde do caçador... que parecia estar disposto a declarar guerra contra Holt e suas ideias.
***
A biblioteca estava uma verdadeira bagunça. Vários livros espalhados por todos os cantos, muitos abertos, se empilhavam aos montes como pequenos morros.
Para a felicidade de Eleonor aquele fora o lugar propício para realizar suas pesquisas de modo secreto, além de outros afazeres específicos que lhe requeriam concentração e calma. A tal biblioteca outrora fora um porão deixado para se empoeirar até o fim dos tempos. A luz amarelada da lamparina pendida no teto fazia reluzir de forma tenebrosa as paredes marfim descascadas.
Naquela manhã, a moça se trancara no aposento, utilizando uma chave que somente ela possuiria e soubesse da existência — inclusive a sala. Tudo para, nada mais e nada menos, esconder de Alexia o que fosse fazer lá, embora já houvesse dado a dica sobre seus métodos para localizar Hector o quanto antes. Não ter sido honesta o suficiente com a jovem vidente era a menor de suas preocupações.
Os dias anteriores serviram para o treinamento que definiria sua performance na hora de encontrar o paradeiro do caçador. Uma espécie de magia esquecida pelo Coven. Técnica que jamais fora ensinada à ela, não por negligência, mas por não ser tão útil. E também por não ser mortífera. "Dane-se a política de não usar magia inofensiva. Isto não vai rebaixar minha posição. Apenas mostra o quanto eu valorizo os ensinamentos que me foram passados, sem desdenhar dos que parecem não serem tão relevantes.", pensou ela, enquanto abria um velho mapa da Inglaterra sobre a mesa redonda. "Pois até mesmo os feitiços mais ignoráveis... tem suas conveniências.".
Pousou sobre a mesa um pequeno frasco de vidro em formato cilíndrico, mantendo-o aberto. Em seguida, pegara uma faca, anteriormente bem afiada, e fizera um ínfimo corte em seu indicador esquerdo. Uma gotícula de sangue despontou da ferida aberta, logo caindo dentro do recipiente.
Mais gotas deixaram-se cair. Uma. Duas. Três. Mais quatro...
Usou um pedaço de pano branco, enrolando-o no dedo para estancar o sangramento. Pegara outro frasco. Este contendo uma amostra de sangue de outra pessoa...
Olhou-o por alguns segundos... rememorado, com angústia, a noite em que conseguira aquilo.
***
Um assovio agudo ressoou pela floresta.
Eleonor estava à espera de seu "mascote" provisório. Seu corpo estava banhado pela luz sombria da Superlua, bem como boa parte dos hectares ao redor.
Passos apressados... animalescos. O monstro finalmente viera, trazendo em seus lábios um gosto forte de sangue humano.
De repente, tornara-se dócil ao se aproximar da bruxa. Inclinara-se para ela, demonstrando estar calmo ante sua presença.
— Muito bem. Bom trabalho, garoto. — disse ela, chegando mais perto dele, tratando-o carinhosamente. — Curve-se à mim... e abra bem a boca. pediu, erguendo uma mão.
Obedecendo sem hesitar, o meta-simbionte enfeitiçado mostrara as presas sujas de sangue, mantendo a boca aberta. Eleonor, em um movimento preciso e melindroso, apertara a presa direita do lobisomem. Com a outra mão, sacara um frasco, o qual pôs abaixo da ponta do dente. Apertou com mais força. Um sangue fresco gotejou da presa da criatura. Uma coleta realizada com esmero.
Satisfeita com o resultado, a bruxa fechara o frasco com um pequena rolha.
Para sua segurança, afastou-se da criatura recuando vários passos. Logo recitou algumas palavras, tendo, assim, quebrado o feitiço que o tornara submisso. Virou-se e correu a largas passadas floresta adentro, guardando o recipiente dentro do decote de seu vestido.
Durante aquela corrida sem rumo, lágrimas desciam pelo seu rosto...
***
Os sangues foram, enfim, misturados num mesmo frasco.
Eleonor derramara o líquido escarlate sobre o centro do mapa, proferindo as palavras específicas para o ato a ser concretizado.
— Ubi hoc ipsum. Reperietis eum. — recitou, num sussurro soturno.
A densa gotícula se avolumou de forma considerável. Num instante, o pequeno círculo de sangue já se encontrava movendo-se para vários lados do mapa de modo extremamente rápido. Ziguezagueava por alguns cantos, parando em outros e retomando o ritmo acelerado.
Até onde Eleonor sabia, o processo não chegava a durar mais do que 5 minutos.
Fitado a gotícula vermelha com ansiedade e bastante foco, a bruxa se limitou a reacender suas expectativas. "Vamos lá. Ele tem que estar no país... Tem que estar!".
O círculo parara, por fim. O ponto mostrado não lhe surpreendera, embora lhe proporcionasse um alívio reconfortante.
Ela sorrira consigo mesma. "Achei você. E mais perto do que eu imaginava".
O sangue secara rapidamente.
O círculo marcava a região florestal de Raizenbool.
CONTINUA...
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