Repentinamente, Sekhmet vira a ruína de sua aparente vitória na forma de um caríssimo vaso branco de tamanho médio voar em sua direção... e acertar-lhe na cabeça violentamente, o impacto ressoando em seus ouvidos. Cessara os raios ao piscar os olhos e se ver com um dor aguda no crânio, apoiando-se em dos tampos de vidro para as máscaras mortuárias.

Rosie olhara depressa para Hector, o responsável pelo feito corajoso.

— Eu não sei se agradeço ou mando você fugir de uma vez. — disse ela, sorrindo fracamente.

— Estava óbvio que se ela piscasse os olhos, os raios, ao invés de desviar de curso, iriam desaparecer. — disse ele, olhando com desprezo para a deusa, que se recompunha ao fita-lo com fúria.

Reavendo a compostura, Sekhmet erguera a mão direita apontando para Hector, sua testa não apresentando nenhum ferimento. Fechara a mão e, utilizando-se de uma telecinesia inerente, levantara o caçador, tirando-o do chão além de priva-lo da respiração. Logo, em um rápido movimento, o jogara para a esquerda com brutalidade. O caçador-detetive fora lançado até um pequeno compartimento, colidindo-se com estantes envidraçadas que expunham vasos de cristais antigos. O impacto de suas costas fez o vidro se estilhaçar inteiramente e lhe proporcionar alguns cortes no rosto e na boca, além da madeira das estantes ter sido danificada. Uma chuva de cristais fragmentados caíra sobre ele, fazendo-o se sentir cada vez mais impotente... por enquanto que a já conhecida sensação maldita não lhe vinha para assumir o controle de suas funções mentais e motoras.

"Não... Agora não!", pensava ele, sentindo os conhecidos efeitos aflorarem dentro de si, apertando com força a gola do sobretudo como sentisse-se sufocado, ao passo em que se esforçava para se levantar, os pequenos cacos de vidro tilintando ao cair do seu corpo.

"Rosie... Tome cuidado.".

A jovem canalizava, naquele instante, todas as suas forças para confrontar fisicamente a vingativa deusa solar, que, estranhamente, defendia-se e atacava com força equivalente à da adversária.

Com chutes bem movimentados e precedidos por giros rápidos, Rosie colocava em prática todo o aprendizado que conseguira com Êmina sobre artes marciais. A cada soco, revidara com uma investida de sua adaga. Logo em seguida, um desvio veloz de Sekhmet, forçando a coluna para baixo e retomando a postura para dar uma forte cabeçada na jovem de capuz. Mesmo cambaleando, Rosie não baixara a guarda, defendendo-se dos constantes golpes da deusa.

Rosie, em um impulso corajoso, pegara-a pela cabeça e a batera contra a parede, partindo da ideia de que a mesma mal conseguiria sentir dor ou ganhar ferimentos. Sekhmet, ainda mais rápida, a pegara pelo braço direito, investira com um chute no estômago e a pegara pelos ombros para joga-la longe, fazendo-a voar em direção a joias de ouro e artigos de vidro bastante caros, quebrantando-os com um forte impacto.

— Farei com que nosso símbolo seja a última que veja nesta sua vida medíocre! — atacou Sekhmet, andando a passos largos até Rosie.

Recompondo a força, a jovem se libertara dos fragmentos de vidro levantando-se depressa para lançar uma adaga contra a oponente, a lâmina cintilando enquanto arremessada horizontalmente.

Por meio de telecinesia, a deusa erguera uma mão para jogar a adaga para um lado, que logo cravara-se na parede. Depois mais outra lançada, jogada para a direita graças ao poder de sua fervorosa mente.

— Gostaria de saber porque está pegando leve comigo. — questionou Rosie, posicionando-se para lutar.

— Apenas desejo testar seus limites. — respondeu Sekhmet, com um sorriso sacana. — Desperte todo o seu ódio... e o entregue à mim! — exclamara ela, aproximando-se com ameaça.

— Não foi muito inteligente revelar seu plano dessa forma. — disse Rosie, afastando-se aos poucos, limpando o sangue de um pequeno corte na boca. — Minha calma é a sua fraqueza. O seu atraso e sua falha também. Não vou me irritar só porque está me forçando ou porque está lutando de igual pra igual comigo! — fez uma pausa, relanceando a parede atrás de si — Se é tão forte o suficiente para vir me atormentar, porque não o foi ao convencer Yuga a mudar de ideia sobre mim?

Antes que Sekhmet pudesse proferir alguma resposta, Hector irrompera da pequeno compartimento, correndo até ambas para impedir uma tragédia iminente.

— Rosie! Afasta-se dela! — gritava ele.

Sekhmet levantara sua mão esquerda ao virar-se para o caçador, fazendo emergir do chão uma "parede" de fogo. Arregalando os olhos e praguejando em voz alta, o caçador recuara imediatamente ao se ver diante das chamas crescentes, um obstáculo intransponível. Por incrível que parecesse, o fogo não se alastrava pelas paredes ou pelo resto do chão, sendo, portanto, precisamente controlado pela deusa por enquanto que seu embate com Rosie prosseguia. As labaredas escaldantes ocultavam parcialmente as formas das duas. Hector se limitou a pôr as mãos na cabeça em desespero, sem absolutamente nenhuma ideia do que fazer. "Se eu chamar Áker, ela, obviamente, vai perceber num piscar de olhos e impedir! Mas do que adiantaria? Ela parece ser mais forte, talvez igualmente ou até mais do que o próprio Yuga. Rosie... Não, não posso pensar no pior! Tenho que sair daqui... e me acalmar... Áker pode aparecer uma hora ou outra para ajuda-la...". O caçador se afastava da parede flamejante, cambaleando como um bêbado desorientado, procurando, em vão, algo para se apoiar.
O mundo pareceu girar em velocidade máxima ao seu redor, até que todos os objetos pertencentes à sala lhe fossem apenas borrões disformes e irregulares, como se estivesse adentrando em um estado hipnótico ou entorpecedor. "Não posso me transformar aqui!", gritou ele, mentalmente, já alcançando a porta e bem sabendo da sua irrelevância para apartar a briga. Relutou em não olhar para as mãos e dar de cara com pelos e unhas crescendo ao sair discretamente da sala, tonto.

— Agradeça-me por poupar o seu amigo caçador. — provocou Sekhmet, sem alterar o tom ameaçador. — Não conseguiria nada sem ele na cruzada contra o inimigo de meu amado. Mas nem por isso retiro o que penso a seu respeito.

— É bom deixa-lo em paz. — disse Rosie, olhando-a com fúria. — Além disso, acho melhor mudarmos de local. Estou disposta a lutar pelo que me foi dado, isto me torna mais forte. Portanto, aqui onde estamos não é adequado para lutarmos. — sugeriu ela, sentindo o calor insuportável das chamas tomar conta do ambiente, fazendo-a ofegar levemente.

— O plano está cada vez mais surpreendentemente funcional. — disse Sekhmet, sorrindo maliciosamente, seus lisos cabelos pretos iluminados pelo alaranjado do fogo. — O local anteriormente sugerido. O caçador vindo me impedir. Eu tornando este lugar uma sauna... Tudo está indo de acordo com o planejado. — ela fez uma pausa, levantando uma mão com o indicador, o dedo maior e o polegar juntos — Seu pedido é uma ordem, privilegiada. — disse ela, soando sarcástica.

O barulho do estalar de dedos brincara com a percepção de Rosie.

Via-se em um lugar totalmente distinto, úmido, o ar frio, dando a impressão de estarem presas em uma sala subterrânea, sendo que, na verdade, era um antigo refeitório de um presídio fechado há anos, abandonado em péssimas condições de higiene e estrutura. No chão, expandiam-se poças d'água sujas, e nas paredes azulejos quebrados e uma única lâmpada fluorescente enfraquecida que esteve ligada desde o dia do fechamento definitivo da penitenciária, em seus últimos dias de vida útil.

— Então você previu mesmo meus movimentos? — indagou Rosie, questionando sobre a artimanha perspicaz da deusa.

— Não só previu — bradou uma voz grave em algum ponto do lugar à esquerda — como também quis chamar minha atenção.

Por reflexo, Rosie voltara-se na direção da voz e entreviu a figura de um homem vestindo um smoking, parado diante da parede, observando algo desenhado. Uma sensação de amparo acometeu-a de imediato ao saber de quem se tratava.

O arauto de Yuga apreciava o talento artístico de sua chefe expressado naquela sob a forma de um uma Cruz de Ansata — vulgo Ankh — parecendo partir ao meio um disco solar, ou, como o visitante esperado pôde depreender, o emblema do império. Os olhos analítico de Áker fitaram a "obra-prima" por vários segundos de puro silêncio.

— Uma bela declaração de guerra, devo admitir. — disse ele, por fim.

— É um aviso. — afirmou Sekhmet, o tom de voz orgulhoso. — Destinado a todas as tropas que se curvaram à nova e estúpida diretriz. Mas agora posso garantir à você que eu estou no controle, ou, indo mais além, a um passo de assumir o trono.

— Majestade está e sempre estará no controle de seus subordinados, incluindo à mim. — disse Áker, virando-se para encarar a deusa, logo em seguida tornando a andar na direção de Rosie com tranquilidade. Se pôs à frente da jovem, dando-lhe uma piscadela amigável com um sorriso discreto.

— Que grande piada. — zombou Sekhmet, revirando os olhos. — Eles tremem de medo assim que ouvem meu nome.

— Você quer reconstruir o império com os muros da sua arrogância. — atacara Áker, olhando-a seriamente. — Além do mais, o que fez foi uma clara demonstração de traição. Onde já se viu firmar uma aliança com um membro de uma classe de seres mais perversos e letais que existem no universo para alvejar uma vida inocente?

— Inocente?! — repetiu ela, franzindo o cenho e sorrindo cinicamente. — Rosie Campbell está longe, muito longe do arquétipo de inocente.

— Ela está sob minha proteção. — afirmou o arauto, reforçando sua postura, sem se abater com o soberbo tom da deusa. — Ganharia mais se apoiasse o ideal de majestade, deveria estar do nosso lado! — exaltara-se, fulminando-a com o olhar.

— Eu estava, antes de meu amado cometer o pior erro de sua vida! — rebatera Sekhmet, dando alguns passos à frente. — Jurar o fim de uma guerra a uma reles mortal. Escolheu, dentre 4 bilhões dos protozoários que vivem neste mundo subalterno às forças da natureza, logo a filha de um seguidor do inimigo que atrasou o progresso do império. Ele traiu a mim e a si mesmo!

Rosie mordera os lábios enquanto cerrava os punhos, de modo que mal conseguia conter sua raiva contra aquela deusa de natureza repulsiva. Sentia raiva por ter de compartilhar este sentimento com sua mais nova nêmese. "A raiva que gera mais raiva. Ela continua tentando me intimidar, querendo despertar meu lado negro.".

— Veja pelo seu lado também e repense seus conceitos. — afirmara ela, intervindo. — Cometeu uma traição que você nem mesmo consegue justificar. Olha, eu posso jurar à você que não gosto nem um pouco da ideia de Yuga em querer me usar para vencer Abamanu. — virara-se para Áker, o semblante fechado. — E minha resposta continua sendo não.

O arauto a fitou com preocupação por um instante.

— Então eu estaria lhe fazendo um favor ao mata-la. — disse Sekhmet, cruzando os braços e olhando para Rosie com escárnio. — O estranho é que você resistiu, com aquele argumento de "lutar pelo que é meu". Tendo negado a proposta, não acha sua posição um tanto controversa? — desafiou ela, encarando seu alvo com mais incisão.

— Já chega. — disse Áker, severo. — Rosie, continue atrás, melhor ficar afastada. — avisou o arauto, parecendo ciente de suas ideias, fosse o que fosse o que estava prestes a fazer.

Obedecendo ao pedido, a jovem recuara alguns passos, apreensiva.

Áker, defrontando com a colérica deusa, fechara o punho direito com extrema força... até fazer surgir uma luz alaranjada irradiar, como se sua mão estivesse prestes a queimar. Foi se aproximando com cautela, as pupilas de seus olhos reluzindo um brilho amarelo implacável, clareando parte de seu rosto.

Ao reunir e ganhar força suficiente, por fim abrira a mão, liberando uma rajada luminosa e flamejante, como o vento de uma tempestade solar mas em menor escala. Ao disparar o ataque, seus olhos ferveram incontrolavelmente. Sekhmet andava até ele, completamente alheia aos efeitos... ou a ausência deles.

O brilho cessara rapidamente, e a deusa continuara andando, sorrindo despreocupadamente.

— Sua vibração solar não me fez nem cócegas. — disse ela, parando a poucos metros à frente dele. — Que soldadinho patético você é. — relanceou Rosie com os olhos. — Como consorte de Yuga, eu ordeno que me entregue Rosie Campbell para que eu possa mata-la... — inclinou um pouco o rosto para ele. — Ou farei com que se sinta obrigado a fazê-lo por mim.

***

Trôpego, Hector seguia deambulando por um corredor — que, na verdade, era apenas mais um dentre vários em um labirinto -, esperançoso por alguma saída alternativa pelos fundos do antiquário. A vertigem que lhe pegara desprevenido o fez esquecer por alguns instantes que estava envolvido em um conflito de interesses entre divindades. Sua preocupação naquela hora era unicamente em Rosie.

Ao chegar na metade do corredor, lembrara-se do amuleto dourado dado por Áker e, por fim, de chama-lo para apaziguar as tensões. "Não posso sair daqui... sem Rosie. Áker deve conhece-la... Não, ele, obviamente, a conhece! Mas não sei. A aparição dela me faz duvidar do verdadeiro papel de Áker. Será que ele não passa de um escravo? Quem a enviou? Yuga? Os planos mudaram e ele agora quer Rosie morta para reaver seu poder máximo?", perguntava-se o caçador, recobrando a orientação por definitivo e caminhando com mais postura.

No mesmo momento em que iria tirar o amuleto do bolso externo do sobretudo, o caçador vira dois homens do Exército chegarem ao corredor dobrando pela direita. Fitou ambos por alguns segundos com desconfiança, de certo modo surpreso com as aparições repentinas. "Mas... O que soldados do Exército fazem aqui?".

— Sr. Crannon. — chamou um deles, andando mais rápido até o caçador.

— Sim... — respondeu Hector, pouco à vontade. — Eu posso saber por que estão aqui?

— Nós quem lhe perguntamos. — redarguiu o outro, sacando algemas do bolso de trás. — O que o senhor faz em um lugar desses quando deveria estar supervisionando a operação?

— Ahn... Acho que o general Holt não lhe explicou direito... — disse Hector, dando um sorriso nervoso. — Assinei um contrato exclusivo... para firmar meu anonimato e ajudar apenas por meio de ligações e gravações.

Os soldados permaneceram calados por alguns segundos, aproximando-se com uma severidade cuja impressão dada era a de que aumentavam de tamanho.

O da esquerda puxara um saco de veludo preto do bolso, mas mantendo-o escondido por enquanto.

— Além disso — continuou Hector, não gostando nem um pouco do tom da situação. — nós tivemos um pequeno contratempo e...

— Nós!? — murmurou o soldado da direita, expressando incômodo. — O general não especificou nada sobre um segundo supervisor. Quem mais você envolveu?

— Tudo bem, eu confesso, é uma amiga... Ela se chama Rosie Campbell... — fez uma pausa, reparando nas algemas produzindo um tilintar. — O que significa isso?

— Viemos porque detectamos atividade e o radar nos trouxe até aqui. — respondeu o soldado que trazia o saco de veludo, chegando mais perto. — É uma surpresa o encontrarmos neste lugar justo quando o general reduziu seus níveis de confiança no senhor.

Hector franzira o cenho, sem entender.

— O quê? Mas o que eu fiz para o general ter deixado de confiar em mim?

— Saberá no interrogatório. — disse o soldado da esquerda, rapidamente lançando o saco de veludo sobre a cabeça de Hector, cobrindo-a por inteiro. — A diferença é que o general é quem fará as perguntas.

O outro viera em seguida, algemando o caçador.

— Lamento, Sr. Crannon. — disse ele, fechando as algemas. — Mas terá que vir conosco. Para o bem da sua reputação e do seu próprio.

Sem questionar, o caçador se deixou ser conduzido até a saída no final do corredor. Encararia a escuridão durante todo o trajeto até enfrentar a ira do general Holt e sua série de questionamentos.

"Mas e quanto à Rosie?! Não!"

***

Deliciando-se com a leveza da brisa que passava pela janela, Alexia ocupava-se, lendo um livro de ficção sossegadamente, enquanto Eleonor, sentada à sua frente, organizava alguns folhetos com escritos em latim, fazendo uma espécie de seleção cuidadosa. Ambas haviam pegado a tempo o trem das nove e embarcado com segurança — com Alexia passando-se por sua filha em um passageiro disfarce.

Situadas no sexto vagão e separadas por uma média mesa de madeira fina, com uma ampla vista da paisagem externa, elas permaneciam em silêncio, como que ainda tementes quanto a segurança do local — algum soldado nazista infiltrado e disfarçado entre os passageiros, estando, implacavelmente, no encalço da dupla.

A vidente baixara o livro, esboçando um semblante de preocupação e tirando seu foco.

— Algum problema? — perguntou Eleonor, notando a apreensão da jovem.

— Você tinha dito que o seu Coven havia começado uma busca incansável... — disse Alexia, desviando o olhar para a janela.

A bruxa suspirara, sorrindo.

— Não há o que temer no presente momento. — garantiu ela. — Primeiramente vou me comprometer com seu caso. Vou explicar tudo em detalhes quando chegarmos.

— Eu tive uma visão. — disparou Alexia, sem alterar a expressão.

— Sobre o quê?

— Olha... — ela resistiu, levando uma mão à cabeça e fechando os olhos. — Eu só consigo pensar em reencontrar meus amigos, só isso. Principalmente Charlie... lembro que ele foi levado por Abamanu.

Empertigando-se ao ouvir as palavras da vidente, Eleonor rapidamente interessara-se pelo assunto.

— Também estava nas Ruínas Cinzas? Hector especulou que você ficaria de fora.

— Não, minha presença era necessária lá, embora Charlie não aprovasse a ideia. — contou Alexia, sentindo-se mais calma. — Eu tenho que confessar... minhas últimas visões tem sido relacionadas à Rosie. Hector falou com você sobre ela?

Uma pontada de angústia embargou o coração de Eleonor, uma recordação inesperada de sua neta ainda inocente quanto ao mundo lá fora... um mundo no qual ela seria vítima de uma série de pesadelos. Tentando responder da melhor forma possível, a bruxa não se intimidou mediante à sensação entristecedora.

— Sim... Na verdade, foi a primeira coisa que o ouvi falando no dia que nos conhecemos. — revelou ela, olhando para a paisagem banhada pelo sol matutino. — Se sentia culpado. Como se tivesse cometido um erro que talvez não consiga reparar.

Um silêncio caíra sobre as duas. Alexia ficara pensativa quanto à fatídica noite... e lembrou-se das palavras do ex-amigo de Hector, Michael, nas quais o mesmo afirmava que o caçador seria o melhor dos membros da fraternidade. "Nós fomos traídos... por Hector?!", pensou ela, recusando-se a acreditar.

— Eleonor. — disse Alexia, cabisbaixa. — Desejo boa sorte quando for iniciar sua busca por Hector.

A bruxa a olhou com condescendência e tocou em sua branca mão.

— Pode deixar. Isto não vai ser nem um pouco difícil. — disse ela, sorrindo levemente.

Erguendo a cabeça lentamente, Alexia assentira devagar.

— Espero realmente que não seja. Pois ele vai precisar bastante do seu apoio. — disse ela com seriedade.

O trem dirigia-se a todo vapor, rumando à Estação Ferroviária de Londres, com horário de chegada determinado para o meio-dia.

***

Áker dera uma risadinha escarniante, zombando da prepotência de sua chefe. Era-lhe risível o fato de ainda continuar sendo subordinado de alguém que claramente desonrara para com os propósitos do império, se tornando uma vergonha para o que o emblema representa.

A deusa fechara a cara, enfurecendo-se com a zombaria.

— O que é tão engraçado, serviçal?

— Não sei qual das duas ordens: Você ainda assumir comando sobre mim ou me pedir para que mate Rosie. — disse ele, recobrando a seriedade. — Quem está sendo patético agora?

— Ou então eu o mato. — sugeriu ela, sacando uma média espada de lâmina dourada.

— Não vou impedi-la de tentar. — afirmou Áker, balançando levemente a cabeça. — Mas algum soldado tomará coragem e vai relatar à majestade todas as atrocidades que cometeu: Ter se aliado a uma aberração, perpetrar um atentado à vida de Rosie Campbell e ter me matado. — a olhou estreitamente. — O que ele vai achar disso? Quão decepcionado você acha que ele ficará?

Sekhmet se limitou a fechar os olhos, aparentando estar controlando mais uma de suas explosões.

Rosie aquietava suas emoções, observando a conversa e imaginando até onde aquilo iria culminar. "A única saída que existe é Áker me tirar daqui. Ele tem que saber uma forma para deixa-la longe de mim."

— Você é apenas um mensageiro. — insultou a deusa, fuzilando com o olhar. — Não fale como se ele depositasse mais confiança em você do que em mim. Se o que disse ocorresse, ele compreenderia minhas motivações!

— Ele a trancafiaria em uma cela — redarguiu Áker, igualando-se ao tom da deusa. — para que aprendesse a lição de que jamais deve-se contrariar as vontades do imperador.

— Não tenha tanta certeza. — rebateu ela, afastando uma mecha do cabelo. — Possuo direito a uma boa parcela dos bens do império, ele me conferiu estas regalias. Quero impedi-lo de realizar a ruína do reinado.

— Vai salvar o império ceifando uma vida inocente? Quão correspondente isso é aos nossos princípios. — ironizou Áker.

— E que escolha eu tenho?

— Várias. — disse ele, olhando de soslaio para a parede da esquerda. — E uma delas é você aceitar a minha ordem de restrição, para que fique distante de Rosie Campbell.

Sekhmet deu uma risada alta repleta de escárnio.

— Não pense que vou desistir tão facilmente! Se depender de mim, esta mortal não chegará nem perto de conhecer a grandeza do poder de meu amado... muito menos de senti-la correndo por suas veias! — vociferara ela, olhando para Rosie com extremo ódio.

— Está na hora de você ir. — disse Áker, estalado os dedos com boa vontade.

Instantaneamente, surgira uma figura diferenciada na parede à esquerda... exatamente no ponto de onde estava o símbolo desenhado, exibindo um completamente distinto, brilhando intensamente uma luz amarela em seus contornos e linhas.

— O que você fez? — indagou Sekhmet, olhando para Áker com um misto de raiva e desespero.

— Afastando você de seus alvos. — disse o arauto.

De repente, a deusa perdera totalmente o controle de seu corpo, ficando inerte mediante ao poder daquele façanha.

— Não consigo me mover! — gritara ela, sentindo seu corpo ser atraído para a parede gradativamente. — Está cometendo um grande erro! Proteger esta mortal lhe custará muito caro! Grave minhas palavras, serviçal maldito! — esbravejava, enquanto seus pés imóveis eram arrastados em direção ao símbolo.

Em uma fração de segundos, Sekhmet fora puxada pela força implacável, gritando em altíssimo tom desesperadamente como uma alma torturada... até, por fim, desaparecer através de um brilho ainda mais intenso, dando a impressão de seu corpo ter se colidido com a parede.

Protegendo os olhos com a capa vermelha, Rosie, contudo, pensava não ter se livrado completamente da vingativa deusa solar.

O símbolo diminuíra velozmente sua luminosidade, até suas linhas sumirem por completo na parede.

Com uma condescendência genuína, Áker voltara-se para sua protegida.

— Você está bem?

— Sim. — respondeu Rosie, recompondo a calma e esfregando os olhos. — O que foi aquilo?

— Modifiquei o símbolo e o transformei em um portal. — disse ele, sucinto. — A mandei diretamente de volta ao palácio.

— Mas isso com certeza não me livra das tentativas dela. — argumentou Rosie, preocupada.

— Sim, eu sei, ela não vai parar. Mas enquanto eu estiver ao seu lado... e enquanto você não estiver decidida, e eu sei que ainda não está... eu estarei, firme e forte, protegendo-a. — disse ele, pondo uma mão no ombro da jovem.

— Nós entendemos sua motivação. Queria nos mostrar o que os Coletores haviam feito. As armas dos deuses...

— Tudo bem. — interrompeu ele, assentindo vagarosamente. — Elas serão devolvidas quando eu conseguir uma oportunidade. No momento, é impossível. Tanto pela vigilância dos Coletores quanto pelos portadores originais estarem ocupados com o julgamento de Chronos, que espero que dure até que a guerra entre majestade e Abamanu cesse por definitivo.

— Hum... — Rosie ficara pensativa por alguns segundos. — Ela também tinha mencionado isso. Que a morte de Charlie livraria Chronos da condenação.

— Não estou muito informado quanto a isso. — disse Áker, pondo a mão no queixo e refletindo a respeito. — Mas pelo que me lembro, Chronos conferiu a mortais o saber divino, e isto, para o Conselho, é um crime grave de primeira classe. Espero que consigam libertar o mago do tempo, embora não possam evitar a iminente punição de Chronos.

— Se Hector estivesse aqui... — ela cortara a frase, alterando sua expressão de calma para aflição. — Essa não! Hector... Onde ele pode estar? Consegue sentir a presença dele?

O arauto se concentrava, apurando seus sentidos ao máximo. Tornou a olhar para Rosie com igual preocupação.

— Infelizmente, sinto sua energia sendo transferida para outro lugar.

Rosie franzira o cenho, sem estar convencida.

— Dá pra ser mais específico?

— O amuleto ainda está com ele... No entanto, ele não está sozinho. — fez uma pausa, tocando-a novamente no ombro. — Melhor eu leva-la para casa. Vou mante-la informada se caso eu descobrir a respeito.

— Tudo bem. — dissera Rosie, assentindo e denotando exaustão na voz. — Só me tira daqui.

***

O aperto de mão dado expressava uma confiança mútua entre ambos os concordantes.

A mão grossa e pesada do general Holt praticamente queria esmagar a de Hector, tamanho era o entusiasmo do comandante das tropas militares inglesa, autorizado pelo comitê superior a agir de forma alheia e isolada à guerra que ocorria entre as potências mais influentes do mundo.

Edgar havia avisado o caçador-detetive antes do mesmo entrar na espaçosa sala: "Prepare-se para conhecer uma das mentes brilhantes desta iniciativa.".

E Hector, num instante, havia capturado o espírito bravo do general e contagiado-se com sua empolgação equilibrada.

— É uma honra conhece-lo, general. Ainda mais por ter me autorizado a ser supervisor. — disse Hector, contente pela aceitação... e mentido sobre a ideia da supervisão, que, na verdade, fora sugerida por Vannoy e repassada por Edgar ao caçador.

— Fiz um estudo sobre a tal Legião dos Caçadores. Claro, por insistência de Vannoy. — disse Holt, retornando à sua mesa, deixando-se iluminar novamente pela luz do sol que atravessava a alta janela. — Não sei como sobreviveu ao incidente da noite passada, senhor Crannon, mas fico feliz por ver que aparenta ter envergadura suficiente para conduzir nossos planos.

— Ahn... Quantos caçadores, ao todo, irão participar da operação? — perguntou Hector, sem jeito.

— Caçadores de pouca experiência, o senhor quer dizer. — corrigiu Holt, o fitando intensamente e sorrindo. — Cerca de 52 ou 60, no máximo, entre 18 e 20 anos.

"60 caçadores de aluguel... e nesta faixa etária!?", pensou Hector, incerto sobre o número.

— Senhor general... eu me sinto obrigado a sugerir uma mudança radical na minha posição.

Holt arqueara uma sobrancelha, intrigado.

— E o que seria? Algum problema quanto à supervisão?

— Na verdade... sim. — respondeu ele, tenso, cofiando a barba de leve. — Como são novos demais, talvez não se sintam muito à vontade recebendo orientações de um caçador da Legião. Podem se sentir pressionados.

O general passara vários instantes avaliando a decisão com cuidado.

— Hum... Pode estar com razão, senhor Crannon. — concordou ele, colocando os pés em cima da mesa de trabalho e acendendo um cigarro, relaxando. — Tendo em vista... que são todos sonhadores... querem, um dia, estarem no mesmo patamar que seus colegas... Meus pêsames sobre eles.

"Não estão mortos! Quem lhe disse isso?", pensou Hector, em polvorosa com a afirmação do general.

— Como pretende agir, afinal? — perguntou Holt, lançando uma baforada.

— Hum, deixe-me ver... — disse Hector, pensando nas possibilidades. — Por meio de gravações ou telefonemas. Poderia ser? — perguntou ele, dando de ombros.

— É, me parece efetivo. — disse o general, assentindo, pondo as cinzas no cinzeiro. — Partilho da mesma crença. Um orientador anônimo pode lhes proporcionar mais... coragem. — ele fez uma pausa, olhando para Hector. — Com direito a modificador de voz, é claro.

— Ah sim, isso seria... de grande ajuda. — disse Hector, sorrindo nervosamente. — Quando vão me repassar os detalhes da primeira operação?

— Você começa hoje. — disparou ele. — Edgar divide o comando com você.

— Não estou entendendo. — estranhou Hector. — Não me disseram nada sobre agir em campo aberto na zona de perigo.

— Sua supervisão... começará amanhã de manhã. — informou o general, espreguiçando-se. — Hoje será seu teste.

— Um teste?

— Sim, isso mesmo. Veremos se suas qualidades como caçador foram mantidas. — disse ele, abrindo uma garrafa de uísque. — Daqui a pouco um dos caçadores subordinados de Edgar vai estar lhe informando tudo. — após tomar um gole, o líquido alcoólico descendo fervente na garganta, mostrara uma folha com uma caneta em cima para Hector. — Assine aqui. — apontara para uma espécie de tinta preta em um pequeno recipiente de metal. — Depois ponha seu polegar aqui e coloque no devido local, abaixo da assinatura.

— Sim, senhor. — assentiu Hector, aproximando-se da mesa, logo pegando a caneta para assinar.

— Seja bem-vindo à iniciativa, senhor Crannon.

***

Em todos os anos atuando como um agente da proteção à vida humana, Hector jamais se vira vítima de uma situação daquela natureza.

A ideia de ser preso e vendado, sem nenhum direito de fazer perguntas ou esboçar resistência, ainda mais com o fato de ter abandonado uma missão por um evento do qual não teria o menor controle, era-lhe torturante.

Sentia-se como um genuíno criminoso sendo flagrado fugindo da lei.

Mãos e pés amarrados por fortes nós de cordas. Uma dormência no corpo provocada pela circulação afetada pelas amarras. E um úmido odor indiscernível que lhe entrava pelas narinas, mesmo estando com a face coberta. A dormência lhe foi positiva quanto a conter os subsequentes arrepios.

"Dois soldados estão em vigília...", pensou ele, apurando os sentidos ao sentir as presenças dos homens de Holt o observando com olhares frios e desdenhosos. Passados trinta segundos, antes que pudesse imaginar as suspeitas do general, uma pesada e grossa mão puxara o saco de veludo, retirando-o da cabeça de Hector com pressa.

Os olhos temporariamente turvos do caçador se depararam com um ambiente parcialmente escuro, iluminado somente por uma lâmpada branca e esférica que pendia do teto sob um fio elétrico. As paredes eram verdes, de um concreto decadente.

Ofegando, Hector se viu como um animal engaiolado, ou até mesmo um assassino perverso que fora condenado á cadeira elétrica. Para seu alívio, ao redro não havia nada de aparelhos eletrocutores ou ferramentas de tortura. Contudo, para sua infelicidade, uma figura robusta, de aspecto severo, avizinhava-se a passos soturnos.

Uma baforada de cigarro pairou no ar gelado da sala por vários segundos. Hector, mais cedo, desejara não ter que encarar aqueles intimidadores olhos azuis naquele dia.

Jogando fora o cigarro, o general Holt deixara-se visível, saindo da penumbra, a face que mostrava seus bem vividos 50 anos, exibindo seu bem conservado bigode grisalho e seu curto e comum cabelo prateado. Inclinou-se para Hector, mantendo a austeridade do semblante.

— Por que me trouxeram até aqui? — perguntou Hector, rebatendo com mesma rigorosidade.

— Suponho que Edgar tenha combinado com você... — começou o general, a voz áspera. — ... a mudança repentina dos planos... Sugerida por... Adivinhe. — disse, soando sarcástico. — Senhor Crannon, em nosso primeiro encontro, que, por sinal, desejei ter sido também o último, garantiu seu total comprometimento com as operações, sua supervisão voluntária...

— Era uma emergência! — vociferou Hector, apressado em demasia para dar explicações. — Nós fomos obrigados a prestar atenção em um problema de similar gravidade!

Olhando de soslaio para um lado, o general deu um suspiro de desalento.

— Senhor Crannon, por favor, coopere conosco. Não me obrigue a incluir desacato à autoridade na sua ficha. — afirmou ele, categórico. — Uma fonte aparentemente segura nos informou que você foi responsável por uma chacina durante uma de suas primeiras missões para deter um grupo de infectados. — provou o que todos diziam a seu respeito: ele prezava por ir direto ao ponto. — Será verdade que estivemos trabalhando com um caçador de dupla vida, com tendências assassinas? — olhou para os dois lados, lançando sorrisos maliciosos para os soldados, que também retribuíram com sorrisos e risadinhas zombeteiras. Voltou-se para o caçador, recobrando a severidade. — Nós temos a prova. Aliás, uma foto.

"Ótimo, acho que Rosie e eu estamos no mesmo barco".

— Com todo o respeito, general, mas isto tudo aqui é um exagero. — opinou Hector, balançando a cabeça levemente, desaprovando a ideia do general.

— É exagero um homem de minha posição manter preso um indivíduo perigoso enquanto lhe arranca informações? — perguntou Holt, arqueando uma sobrancelha.

— Eu sei o que significa perigo, senhor. E certamente não posso ser categorizado como tal. — desafiou Hector, fuzilando o general como olhar, enquanto uma gota de suor pingava da ponta de um dos fios de seu cabelo.

— O aviso "Procurado" abaixo de um retrato-falado seu já lhe diz o bastante? — questionou Holt, novamente inclinando-se para o caçador.

— Acredito que alguém esteja tentando me incriminar por um algo que não fiz. — afirmou Hector, forçando as amarras postas por trás da cadeira.

— Suspeitas? — indagou Holt, olhando-o fingidamente com expectativa.

— Lobisomens. — arriscou ele, a fala rápida. — Essa testemunha misteriosa talvez não tenha mencionado. Eu cheguei lá depois de impedirmos os infectados de fugirem. Algo chamou minha atenção, então eu tive que ir conferir. Verifiquei... todas as marcas nas paredes, as feridas profundas, a largura dos cortes.

— E por que um relatório sobre esse caso não chegou ao conhecimento de Vannoy ou dos caçadores? — pressionou Holt, cruzando os braços, tornando-se cada vez mais incisivo.

Ao engolir em saco o questionamento, Hector vasculhou mentalmente as alternativas, os caminhos que deveria percorrer para afugentar as suspeitas que pesavam como chumbo grosso.

— Não havia necessidade. Nosso foco eram os infectados, unicamente. — respondeu ele, sem rodeios. — Se puder, ao menos, me dizer de quem se trata essa testemunha...

— É anônima. — retrucou Holt, ríspido, fitando-o com desprezo. — Estupidamente, assim como você.

— Como assim estupidamente? — estremeceu Hector, sentindo-se ofendido. — Autorizou meu anonimato. Apoiou minha decisão e agora a despreza?

— Exatamente. — confirmou o outro, andando devagar para um lado. — E com isso eu quero dizer que suspendo sua licença para agir anonimamente. — disparou, virando o rosto para Hector. — Sua metodologia não é confiável.

Os nervos em ebulição enalteceram a desesperadora tentativa de Hector em provar sua inocência. Mas de que forma? Estava cativo, submetido a interrogatório e coibindo a si mesmo para não fazer declarações que vão além do necessário a se dizer àquela altura. O caçador o fitava estupefato, incrédulo quanto à decisão. Lívido, mal conteve-se em protestar.

— Isso é absurdo! Não pode me desvincular da operação, ainda mais sendo eu um caçador da Legião. O Mestre Vannoy jamais admitiria que um de seus preferidos fosse tratado desta forma. — argumentou Hector, a vontade de se desvencilhar das cordas pulsando.

Holt deu uma risadinha presunçosa.

— Vannoy está sabendo apenas do que eu quero que ele saiba. — revelou o general, despreocupado. — E quanto a sua desvinculação... Ela só ocorrerá quando os resultados de nossas investigações nos forem satisfatórios... e comprovem nossas suspeitas.

— Que investigações? — perguntou o caçador, franzindo o cenho.

— O status quo da cena do crime... permanece o mesmo do dia da missão. — disse Holt, conciso, acendendo um novo cigarro. — Estamos colhendo várias respostas a cada dia. Se os peritos encontrarem suas digitais em um dos corpos das vítimas... é melhor nem pensar em fugir do país quando o mandado de prisão chegar à sua casa.

Relanceando os dois soldados ao seu lado que mantinham a observação atenta e segura de cada movimento brusco que viesse a fazer, Hector se limitou a encarar o vazio e se perder em seus pensamentos, imaginando as piores cadeias de eventos possíveis. "Áker! Se eu pudesse chama-lo agora... Não, é impossível agora, espere um pouco, controle-se... Holt ainda não deixou explícitas as suas intenções. Eu sou um criminoso. Mas ele chegará ao ponto de cometer um crime me mantendo preso aqui?", pensou ele, lentamente erguendo a cabeça para encarar a impenetrável e inflexível figura de William BuckHolt com suas densas baforadas e o olhar intenso e gélido.

O general se aprontava para sair da sala e terminar aquela conversa de uma vez por todas, ainda que dúvidas quisessem mante-lo ali por mais tempo.

— Diga-me... senhor Crannon... — colocara as mãos para trás, sem largar o cigarro da boca. Por fim, o tirara, jogando um pouco de cinza no chão. — O que sua amiga, Rosie Campbell, tem de tão especial?

A pergunta pegara Hector desprevenido, deixando-o petrificado de tensão por alguns instantes.

Holt virara-se para ele, pondo novamente o cigarro na boca.

— Sei que está a par de acontecimentos ocultos. As atividades mais recentes constatam que algo esteja ocorrendo fora de nosso campo de visão, aparentemente um caso isolado em relação ao nosso atual trabalho. — inclinou um pouco mais para frente a cabeça, estreitando os olhos. — Há uma ligação?

— Senhor... — Hector se esforçava para dar uma resposta decente, parecendo estar esgotado. — Há certas coisas... das quais o senhor e sua equipe não devem saber... pelo menos por enquanto ainda não. — fez uma pausa, entristecendo o semblante. — Rosie está sob minha proteção. Ela estava prestes a ser infectada, estava em coma em um hospital e eu a salvei. Ela não foi forçada... tanto a participar das operações quanto a aceitar um destino terrível.

Olhando-o com incredulidade, o general pareceu reprimir uma risada diabólica.

— Ela está sendo protegida por um suposto assassino?! — disse ele, acentuando as suspeitas.

— Espero que os resultados das investigações culminem na minha inocência. — disse Hector, desviando o rosto para um lado, enojado com a soberba de Holt. — O que eu falei a respeito de Rosie é tudo o que o senhor deve saber, por ora.

Holt soltara um resmungo raivoso, jogando o cigarro para um canto da sala, em seguida virando-se para a porta a fim de sair daquele sufocante recinto.

— Quem é você para dizer o que devo ou não saber?

"Aonde ele pensa que vai? Ele não pretende..,".

— Senhor Crannon — disse Holt, parando próximo à porta, quase abraçado pela escuridão da entrada. — eu vou emitir um comunicado a sua amiga ou talvez mandar um dos caçadores até ela. Seu anonimato acabou, embora ainda continue aliado à operação. No entanto, é bastante provável que apenas Rosie Campbell se encarregue de comandar as missões a partir de agora, então veremos se ela tem desenvoltura. — fez uma pausa, virando-se novamente para o caçador. — O que me leva a desconfiar de seu posicionamento... — disse ele, tirando algo do bolso. — É isto.

Hector o olhava atentamente, sem pestanejar, curioso quanto à imprevisibilidade do general.

Assim que viu um fugaz brilho na escuridão parcial em torno do homem, o caçador não tivera dúvidas. Um arrepio seguido de um embrulho no estômago lhe aprisionou ainda mais.

"Não pode ser! Seu maldito, devolva isso!". As palavras estavam engasgadas. Limitou-se a ranger os dentes em fúria.

— Enquanto não for totalmente honesto comigo, senhor Crannon, não tenho outra escolha a não ser mante-lo aqui sob custódia, levando em conta o perigo que o senhor provavelmente representa. — olhou para o que segurava com certa empolgação. — Houve uma época em que eu colecionava artigos caros e de luxo...

Hector tremia, forçando com mais vontade os nós das cordas, fazendo a cadeira balançar discretamente.

— Gostei desse aqui. — disse o general, mostrando o amuleto dourado de Yuga para o caçador... intencionando um confisco.

CONTINUA...