Com a vontade de avançar contra ela fervendo em seu sangue, Rosie se limitou a defronta-la com o olhar cada vez mais agastado.

— Então Charlie é o prêmio. — disse Hector, assentindo. — Não estou nada surpreso.

— A foice de Chronos está aqui. — declarou Rosie, apontando para a referida arma à sua esquerda. — Então é óbvio que você sabe o que houve com ele.

— Estamos fazendo um favor à ele. — argumentou a mulher, ajeitando uma mecha do cabeço, colocando-a atrás da orelha. — O único fato que o livrará da condenação é a morte de Charlie, o único mago do tempo remanescente...

— Já chega. — interrompeu Hector, voltando-se para o outro lado, dirigindo-se à saída principal da sala. — Já ouvi o bastante. Vamos, Rosie.

— É mesmo? — indagou a mulher, em um tom irônico. — Não gostaria de saber o nome do mortal que fez o acordo com um dos nossos?

Estacando de repente, o caçador fechara os olhos, sentindo sua cabeça, aos poucos, tornar-se algo similar a uma bomba-relógio.

— Pare de testar nossa paciência e nos deixe ir! — exigiu ele, ríspido, mantendo-se de costas para ela.

Rosie se aproximara depressa dele, agarrando-o de leve no braço em um gesto de convencimento.

— Ela parece estar dizendo a verdade nua e crua. — sua expressão era de uma palidez aliada a uma apreensão sem tamanho. — Além disso, ela talvez saiba onde Charlie está.

— Rosie, lembre-se do que Charlie nos disse no dia em que iríamos deter Mollock. — sussurrou Hector, preocupado. — Não se deve intimidar um Coletor de qualquer forma. Ela pode e quer nos matar aqui a qualquer momento, sem nenhum esforço. Então, eu duvido que qualquer tentativa de fazê-la falar funcione. — ele fez uma pausa, olhando de esguelha para ela. — Pode até ser possível, mas ela teria que nos matar depois.

— Ela me matar não tem problema nenhum. — arriscou Rosie, idealizando uma medida desesperada.

Hector lançou-lhe um olhar reprovativo.

— Mas é claro sim. O que está pensando em fazer? Nós lutaremos juntos até o fim, foi o que prometi a nós dois. A operação precisa de nossas presenças.

— Não precisa de mim para comandar um bando de caçadores em treinamento. — disse Rosie, balançando a cabeça. — Pense nas vantagens ao invés dos riscos, por favor.

— Rosie! — disse Hector, seus sussurros tornando-se um tanto mais altos. — Não vou deixar que morra com a ideia de que isso vá dar fim à essa guerra. Como eu disse antes: Vamos encontrar uma alternativa. Só segure um pouco mais as pontas. Enquanto isso, vou encontrar um modo de sairmos daqui ilesos.

Um rascante som de palmas batendo fora ouvido. Era a moça aplaudindo a dupla enquanto assistia-os cochicharem sobre como deverão escapar daquele antiquário. Seu semblante era de genuíno tédio.

— Estão de parabéns. — disse ela, novamente soando irônica. — Conspirando em um lugar onde residem seres letais e com poderes de observação a longa distância. Tiveram partes de suas vidas sendo criados por animais selvagens? — implicou, elucidando um eufemismo na frase, dando a entender que estava chamando-os de idiotas ou estúpidos.

Ambos viraram-se para ela, os olhares fuzilantes.

— A partir do momento — começou Hector, firme no tom — em que você largou sua atuação, já estava claro que não iria ter a audácia de retomar com sua observação secreta, por isso eu e Rosie tínhamos uma chance de nos falarmos em voz baixa. — fez uma pausa, olhando em volta da sala para os dois lados. — Além disso, presumo que seus superiores não estejam nas outras salas.

— Oh, como adivinhou? — indagou ela, fingindo surpresa, levantando uma sobrancelha.

— Não tenho tempo para explicar. — desconversou Hector, olhando de soslaio e relance para Rosie, demonstrando temerosidade. — Você está sozinha, a deixaram na esperança de que assumisse o controle da situação. Essa é a nossa chance.

Rosie virara o rosto para ele rapidamente, engolindo a saliva enquanto fitava a face do caçador assustadoramente confiante. "Espera aí! O que ele pretende fazer? Negociar com ela mesmo tendo lembrado do que Charlie nos disse?! Não... ele não seria tão estúpido. Hector, seja lá o que estiver pensando, é bom que seja direto e rápido. Nosso tempo está se esgotando.".

A mulher exibiu um incômodo ar soberbo ao dar mais alguns passos à frente, movendo os dedos de maneira suspeita. Sentira a confiança de Hector e estava pronta para destruí-la dependendo do que ele fosse propor.

— Sua desobediência para com seus superiores a torna nossa escrava. — disparou o caçador, sem medo.

Rosie novamente olhara para ele, visivelmente irritada e tensa.

— Hector... — disse baixinho, mal movendo a boca, os dentes trincados.

O caçador devolvera-lhe uma piscadela discreta que durou milissegundos.

— Provisoriamente. — completara ele, respirando fundo.

— É impressão minha ou temos um novo acordo sendo proposto aqui? — especulou ela, a expressão aproveitadora. — Vocês tem muita sorte que meus chefes estejam a milhas de distância daqui e, como são bons no que fazem, estão extremamente focados na tarefa atual.

Ajeitando seu sobretudo, Hector adquirira uma postura que competisse com a dela, arriscando todas as esperanças naquela medida desesperada e incerta.

— Vocês tem Charlie como troféu. Nos leve até ele. — pediu, aguardando as reações da moça.

— Isso me desvincularia do acordo com Abamanu. — rebateu ela, insatisfeita. — Acham mesmo que vou deixar usarem minha independência secreta como catapulta para chegarem até o mago do tempo? Ambas as partes devem se beneficiar, certo? Portanto, se assim for, é bom que minha recompensa seja tentadora. — assumira um tom rigoroso, logo assimilando a verossimilhança do acordo.

— Tudo bem, ótimo. — disse Hector, sem se exaltar. — Darei uma relíquia folheada a ouro tirada de um museu do país. Só revelarei o que é quando tivermos Charlie conosco. — inclinou-se leve e ousadamente para ela — O que acha? Concorda?

A mulher mordera os lábios vagarosamente, parecendo pensar nas vantagens que obteria. Ser execrada pelos companheiros e banida do acordo com o Cavaleiro da Noite Eterna ao mesmo tempo em que sairia ganhando algo de valor equivalente às relíquias divinas roubadas lhe era verdadeiramente excitante. Havia uma constante universal e irrefutável entre os Coletores: Eles não podem matar uns aos outros. Tendo isso em mente, era compreensível que ela não exibisse quaisquer sinais de desespero. Era tão igual quanto aos seus auto-proclamados chefes, mesmo sendo rebaixada a uma reles servente e peoa em um jogo amplamente arquitetado.

Enrolando alguns fios de cabelo no dedo, a moça os olhara com ar de decisão.

— Se conseguirem o mago do tempo de volta, automática e obviamente meus irmãos ficam sem a recompensa proposta pelo acordo com Abamanu.

— Por que querer Charlie — interferiu Rosie — quando se tem um arsenal de armas e artefatos pertencentes aos deuses?

— Não será o bastante para eles enquanto uma missão estiver incompleta. — retrucou ela. — O acordo está feito. Mas quero que saibam que sofrerei as consequências pelo meu ato, embora ostentando uma incrível relíquia de ouro... — olhou para Hector com interesse. — mas submetida a um interrogatório sobre quem levou o mago do tempo. Ele vai ser alvejado novamente. E pode acabar morto... como deveria estar.

— Nós temos nossos trunfos. — afirmara Hector, novamente relanceando Rosie. A jovem retribuiu-lhe uma expressão de desconforto, já imaginando quais eram as intenções do caçador para o "último recurso" se caso Charlie for salvo e recolocado na lista negra dos Coletores. "Ele não pensa em todos os riscos. Que droga, Hector!".

— Adoraria que me revelasse quais. Sei que há muito mais em jogo. — disse ela, sorrindo.

— Um acordo que destrói outro. — comentou Hector, também sorrindo, mas de maneira forçada.

— Muito sagaz. — elogiou ela, andando em direção à saída principal com uma exuberante elegância realçada pelo seu vestido escarlate. — Sigam-me. — disse, abrindo as portas duplas de madeira marfim.

A passagem do outro lado revelara um extenso labirinto de corredores longos. Indo na frente, a mulher gesticulou para que viessem movendo o indicador, mirando os olhos em Hector, que pareceu ignorar a tentativa de sedução. "Minha preferência está em mulheres de verdade. E você, certamente, não é uma.", pensou ele, caminhando ao lado de Rosie ao atravessar a soleira da porta.

As portas fecharam-se com um baque através de uma telecinesia perpetrada pela mulher. O corredor possuía as mesmas cores do qual estavam anteriormente, bem como os mesmos lustres e suas luzes amareladas suaves. O piso estava coberto por um tapete vermelho macio que se estendia até o final do corredor.

Rosie era só insegurança, enquanto Hector vigiava a "escrava" com afinco, sem alterar o ritmo dos passos. A jovem visualizara uma deixa para sussurrar suas aflições que brotavam e cresciam mais e mais.

— Hector, se ela estiver mesmo nos levando até Charlie... onde vamos arranjar uma relíquia folheada à ouro e retirada de um museu? — questionou ela, aborrecida.

— Lamento dizer, mas... Honestamente, não sei. — disse ele, dando uma risadinha tensa. — Mas confie em mim. Sinto que ela vai tentar algo que dificulte as coisas para nós... e é aí que Áker entra em ação.

— Além de não ser nosso guarda-costa, ele não é nosso super-herói protetor. — redarguiu Rosie, incomodada com a ideia do caçador em usar o arauto como meio de escapar de situações difíceis. — Por incrível que pareça, eu meio que consigo sentir a presença dele... em algum lugar fora daqui. Nem sei porque ele me deu o amuleto.

Hector virara o rosto para ela, parecendo intrigado com aquela súbita revelação.

— Isso só se manifestou depois que entramos aqui? — perguntou ele.

A jovem assentiu, ajeitando um pouco mais o capuz sobre a cabeça , sem tirar os olhos da moça que caminhava a poucos metros à frente deles, sem pressa.

— E se ele lhe deu o amuleto... significa que ele confia em você também. — disse ela, em tom convencedor.

— É, talvez você tenha razão. — sussurrou Hector, o tom quase inaudível. — Eu fui injusto. O julguei mal e cedo demais. Mas ainda não consigo processar a ideia de você ser o receptáculo de Yuga.

— Por isso vamos encontrar uma alternativa... como você mesmo disse. — afirmou Rosie, concordante com as expectativas do caçador e fitando a mulher de modo mais incisivo. — E já repito: Minha resposta é não.

***

Um ar aprazível fluía naquela atmosfera de aparente tranquilidade plena.

Fachos de luz solar atravessavam a janela, banhando o pequeno aposento. Um quarto de hóspede localizado em um hotel declarado sem classe, além de absurdamente barato.

Uma figura feminina se remexia lentamente na cama, despertando aos poucos de seu profundo sono. Desconfortavelmente, ela parecia querer se desvencilhar de algo...

Seus belos cabelos ruivos alaranjados estavam jogados sobre o travesseiro branco e macio. Abriu os olhos abruptamente, deparando-se com a intensa claridade provinda do mundo externo. Levou as mãos ao do rosto, gemendo de incômodo e virando-se para o outro lado. Pela fresta entre os dedos, entreviu uma silhueta humana arrumando o que pareciam ser malas de viagens. "Onde eu estou? Quem é essa mulher?", se perguntou ela, tirando, por fim, as mãos da face.

Alexia, com rapidez, erigira seu corpo, sem desviar o foco naquela bela mulher que estava de costas, preparando maletas com roupas dentro. Os estonteantes cabelos castanhos e lisos da moça reluziam à luz que adentrava. Tremendo, a vidente ficara alguns minutos imaginando como pudera ter chegado ali. "Não lembro de ter vindo pra cá. Como cheguei aqui, afinal?".

— Pode deixar, eu sei exatamente o que deve estar pensando. — dissera Eleonor, fechando a última mala. — Não se queixe por não estar lembrada do que houve. Mas afirmo que você não foi sequestrada por mim, meus hábitos podem parecer criminosos, mas não sou nenhuma fugitiva da polícia. — ela se virara para a jovem, exibindo uma expressão suave e condescendente, seus olhos verdes destacando-se. — Você, finalmente, está salva.

Alexia balbuciava algo inaudível, mas as palavras pareceram não querer sair de seus trêmulos lábios.

— Shhh. — chiou Eleonor, aproximando-se dela na tentativa de acalma-la. — Está tudo bem. Você está segura. Não precisa ter medo. — ela se sentou na lateral, passando sua mão pelo branco rosto da vidente. — O pior já passou. Acabou. Você está livre.

— Não consigo entender... — gaguejou Alexia, sem alterar seu desespero. — Com pude ser salva justo no dia em que eu estava prestes a ser morta? Quem é você, afinal?

— Me chamo Eleonor. Nos conhecemos no campo de concentração. — respondeu a bruxa, séria. — Não quis revelar meu rosto como medida de precaução. A salvei por uma razão muito especial.

Alexia parecera não compreender, fazendo uma cara de confusa e balançando a cabeça.

— Como... como você sabia que eu estava...

— Também fui levada até lá. — disparou ela, interrompendo a vidente. — Injustamente, tal como você. Estava no meio de uma manifestação que pedia o cessar-fogo das tropas alemãs, bem como o fim do partido nazista. Me deixei levar pela curiosidade e acabei sendo confundida com um dos manifestantes. As tropas de Hitler vieram para recolhe-los dali e conduzi-los para os campos de concentração. — ela fez uma pausa, demonstrando uma face angustiada e abatida. — Fui espancada, molestada e humilhada. Fui submetida a interrogatório violento. Quando estavam fartos das tentativas em vão em arrancar respostas de mim, me trancafiaram num lugar imundo e fétido junto com alguns judeus. Meu rosto estava coberto por um capuz. E aí eu te encontrei.

Com a expressão petrificada e atônita, Alexia ouvia atentamente ao relato daquela misteriosa mulher.

— Hector havia me falado sobre você... — continuou Eleonor. — Sabe o parceiro que ele dizia estar acompanhado enquanto estava no palácio de Mollock...

— Era você!? — murmurou Alexia, estupefata. — Mas como ele a conheceu? Quando?

— Ele disse que você era um dos rostos mais lindos que já havia visto na vida. — disse a moça, forçando um sorriso fraco. — Reconheci você ao lembrar do desenho que ele fez. Revelou que é uma vidente... e que sofre por não compreender totalmente esse dom. — passou a olha-la com mais expectativa.

As lembranças da última vez em que vira o caçador se amontoaram em sua mente, levando-a a rememorar as figuras de Êmina, Lester, Adam, Rosie... e, sobretudo, de Charlie. Como se uma forte e bruta mão agarrasse seu coração, Alexia sentira um aperto no peito ao revisitar aquela excruciante cena, na qual assistia o mago do tempo ser carregado no ombro de Mollock — já dominado por Abamanu — enquanto seu corpo levitava completamente imóvel no ar... e em seguida, via o ofuscante raio de luz branca descer dos céus e levar seu amigo juntamente com o inimigo. Após o horror, veio a súbita queda. Depois a escuridão e a inconsciência completa.

Uma lágrima brotara do olho direito da vidente, ao passo em que ela reunia forças para falar.

— Eu... eu não consigo... — dizia ela, a voz embargada de comoção. — ... lembrar de quem me levou... depois que eu acordei nas Ruínas Cinzas, eu não sei como sobrevivi. Só lembro daquela noite, meus amigos lutando contra Mollock... e de estar naquele inferno, vendo companheiros de cela sendo açoitados e massacrados. — seu pranto se intensificara, de modo que a fizesse abraçar Eleonor, que retribuíra o gesto, fortemente emocionada. Os soluços da jovem carregavam toda a dor sentida no campo, expelindo toda a sofreguidão causada.

Eleonor afagara suas costas. Alexia estava vestindo um velho e sujo vestido preto-esverdeado.

— Eu sinto muito. — disse a mulher, fechando os olhos e deixando descer uma lágrima. — Deveria ter tido mais paciência para treinar o feitiço de memória...

Esbugalhando os olhos, Alexia soltara-se do abraço rapidamente, olhando para Eleonor como se tivesse sido traída.

— Você disso feitiço? O que você é? Uma bruxa?

— Sim. — respondeu ela, assentindo firmemente. — Estando diante de você aqui, Alexia, não possuo nenhum direito de esconder algo. Eu confesso ter usado uma magia em você... Queria que esquecesse todo o horror que passou naquela prisão. Me perdoe, por favor. — suplicara ela, juntando as mãos, o olhar tristonho. — Eu fui covarde. Fugi para a Alemanha para dar a impressão de que sumi do mapa. Nesse período, continuei meu treinamento, mas não havia sido o suficiente. Consegui trazê-la de volta graças a uma magia de teleporte aperfeiçoada.

— É por isso que estamos aqui? — perguntou Alexia, esquadrinhando com os olhos o recinto.

— Sim. — confirmou a bruxa. — Mas fique tranquila. Estamos em um hotel barato em Paris, foi o único lugar que consegui imaginar na hora de conjurar a magia.

A vidente a fitou com suspeita cautelosa.

— Por que simplesmente não imaginou a Inglaterra? Podíamos ter voltado para casa. Não faz sentido estarmos aqui. — seu tom elevara-se em aflição.

— É, eu sei. — disse Eleonor, esfregando o rosto com as mãos, levantando-se depressa. — Mas acontece que é um caso bem mais complexo do que você pode imaginar. Só posso dizer que estou sendo perseguida... por traição ao meu clã. — revelara ela, pondo a mão no peito com um ar taciturno.

— O que você fez? — indagou Alexia, curiosa sobre a história.

Virando-se rapidamente para a vidente, Eleonor enxugara suas lágrimas, sem nenhuma pretensão de responder aquela pergunta de maneira resumida. Sua postura denotava uma pressa contagiante.

— Não há tempo para contar histórias. — declarou ela. — Devemos partir em trinta minutos.

Alexia se empertigara, logo pulando da cama como se já se sentisse revigorada novamente. Sua face exibia uma profunda preocupação.

— Partir? Mas para onde vamos?

— Nós vamos voltar para a Inglaterra. — ela apontou para as malas postas sobre uma mesa pequena de madeira. — Preciso correr certos riscos.

— Planeja reencontrar Hector? — perguntara Alexia, empolgando-se e aproximando-se dela.

A bruxa pensara por alguns instantes indicando insegurança quanto uma decisão daquelas. Recordou-se do dia em que enviara uma carta para o caçador, contando sobre sua difícil vida naquele país mergulhado na tensão causada pela guerra, o que aprendeu e reaprendeu sobre magia e sua atitude equivocada ao enfeitiçar um lobisomem meta-simbionte para impedi-lo de interferir em sua fuga.

— Eu ainda estou pensando nisso. — respondeu ela, vagamente decidida. — Talvez sim, talvez não. — dera de ombros. — Não sei se há uma chance de nossos caminhos se cruzarem novamente. Apenas quero ajuda-la.

— Como assim? — Alexia franzira o cenho, perdida. — Você já fez muito por mim. E eu agradeço. Quando voltarmos para lá, seguiremos com nossas vidas. Fico na Inglaterra, talvez eu reveja meus amigos, ver se estão vivos e bem, enquanto você... sei lá, talvez continue fugindo.

Eleonor suspirara pesarosamente, a seriedade em sua face quase assustadora. Seus olhos pareciam transparecer algum tipo de desaprovação na ideia da vidente.

— Alexia, devo dizer que as coisas não serão exatamente assim. — afirmou ela, balançando a cabeça em negação. — Depois do que Hector me contou sobre você, não estou disposta a abrir mão dessa oportunidade. — chegara mais perto dela, tocando-a nos ombros. — Posso me redimir dos meus erros ajudando você. Quero provar que consigo fazer o bem. Quero ter essa sensação pelo menos uma única vez na vida. — a olhou ainda mais incisivamente. — Eu sei como ajuda-la a controlar este dom.

Voltando a tremer de nervosismo, Alexia encarou a bruxa com incerteza.

— Vai usar sua magia... para permitir que eu controle minhas visões?

Eleonor assentira com afinco. Por outro lado, a vidente se limitou a enxergar aquela possibilidade com desconfiança, tentando assimilar quais implicações aquela ideia teria em sua vida. "Este dom... essas minhas visões sempre me fizeram sofrer. Eu sofria enquanto várias pessoas buscavam minha ajuda. Agora parece que me encontro em uma situação inversa: Ela quer me ajudar para que eu não sofra mais.".

Os olhos verdes de Eleonor abrilhantavam cada vez mais sua vontade persistente em auxiliar aquela jovem mulher de 27 anos a alcançar uma luz no fim do túnel.

— Prometo não envolve-la nos meus problemas com o Coven. — garantiu ela, firme em seu tom. — Só basta que achemos um lugar bastante secreto... e que confie em mim.

Um lampejo de decisão desprendeu Alexia das amarras que a hesitação colocara em sua mente. Suspirou forte, assentindo com determinação, até sentindo-se obrigada a agradece-la novamente por te-la encorajada daquela forma, com apenas um olhar de compreensão e carregado de sinceridade. A culpa era um pormenor malévolo partilhado entre as duas.

— Sim. — respondera Alexia. — Eu aceito.

***

Com uma impaciência que dilacerava sua calma, Hector, novamente, tornou a conferir o relógio. Marcava-se 08:45. O horário, contudo, lhe despertou ideias tidas como absurdas, mas que, àquela altura, talvez pudessem se mostrar plausíveis. "Quando Áker nos teleportou não eram nem oito horas. Será que estamos mesmo em nosso mundo? Ou tudo não passa de um truque, uma ilusão? Afinal, ainda mal o conhecemos, suas habilidades ainda são um mistério. É provável... que seja minha maldição que esteja mexendo com minha noção de tempo.", especulou o caçador, caminhando à direita de Rosie rumo à porta no final do corredor.

A mulher, ao se ver diante do "fim da linha", parara bruscamente para agarrar a dourada maçaneta e, em seguida, gira-la tranquilamente. Olhou por cima do ombro, encarando os dois visitantes com certo escárnio. Ambos ficaram a aguardar a porta se abrir por completo.

O que se revelara foi um aposento provido de uma elegância nitidamente superior ao do cômodo anterior. Paredes revestidas com papéis marfim exibindo pequenos losangos, alguns candelabros pendendo no teto se fazendo deslumbrantes com suas luminosidades deleitáveis, além de carpetes escarlates e macios.

Expostas próximas nas laterais do recinto e sustentadas por pequenas estruturas verticais de madeira estavam as estonteantes máscaras mortuárias — cerca de 6 em cada lado — de grandes personalidades históricas, extremamente bem conservadas sob vidros reforçados, realçando a austeridade que a saleta proporcionava aos convidados.

A mulher fora andando mais alguns passos até o aproximar-se da parte central da sala, logo parando para, então, voltar-se aos seus "chefes". Suas pupilas castanho claro moviam-se com desenvoltura e sua expressão era de completo mistério. Rosie cerrara os punhos fuzilando a mulher com o olhar, sem a menor intenção de desperdiçar mais alguns minutos.

— E é aqui onde paramos? — indagou ela, desconfiada. — Sem querer ofender, mas não me parece nada convincente Charlie estar por aqui. — foi chegando mais perto, assumindo uma corajosa diretriz. — Alguma passagem secreta? Ou eu deveria considerar que você não nos disse tudo.

Hector demonstrara insegurança e procurou um meio de apoiar Rosie naquele interrogatório.

— São boas perguntas. — disse o caçador, também se aproximando. — Afinal, nós tínhamos a ideia de que algum soldado de Abamanu viesse a trocar de lugar com você para nos conduzir ao verdadeiro covil. Esta sala é um completo beco sem saída.

— Eu disse que estava sozinha, não disse? — questionou a mulher, olhando para ambos de maneira sonsa.

— Eu duvido muito. — retrucou Rosie, permanecendo a encara-la. Suas mãos já tocavam o cinto de utilidades de onde guardavam-se suas adagas. — Dá pra ver nos seus olhos...

— O que insinua? Que tenho mentido para vocês para que o acordo fosse selado? — perguntou a mulher, inclinando a cabeça para um lado, fingindo estranheza.

— Adivinhou nossos pensamentos. — rebateu Hector, forçando um sorriso novamente, embora mantivesse-se encarando-a com raiva.

— Oh, é sério? — disse a moça, andando para um lado com ar de ironia. — Pena que não adivinharam minhas intenções.

A afirmação fizera Rosie ganhar um impulso violento de fúria. Sacara sua adaga, o barulho rascante da lâmina desembainhando, dando alguns passos à frente mostrando-se desafiante. Hector a advertiu com um discreto aceno negativo de cabeça, erguendo a mão para impedi-la de atacar.

— Mas Hector...

— Está tudo bem, Rosie. — afirmou o caçador, olhando de volta para a mulher. — Abamanu jamais deixaria Charlie em poder dos Coletores enquanto orquestra seus planos de dominação global. Tendo em vista o papel de Charlie, ele só seria entregue aos Coletores apenas quando a expansão do império terminasse. — fez uma pausa de efeito, engolindo a saliva. — E quanto à você... pode ter certeza que não sairemos daqui sem antes sabermos de algumas respostas.

A mulher o fitou com um interesse mais elevado que outrora.

— Gosto de você, caçador. — provocou ela, sorrindo sacanamente. — Rápido no gatilho, mas ainda ingênuo demais para lidar conosco. — olhara para Rosie com desdém. — E a sua parceira... Bem, eu devo dizer que ela está bem encrencada.

— O que quer dizer? — perguntou Rosie, segurando firmemente a adaga, pronta para um ataque sem relutância.

— Você não está sozinha, não é mesmo? — questionou Hector, levantando uma sobrancelha.

— Há um bom tempo. — revelou ela, assumindo seriedade. — Não conto com meus chefes porque não passam de um bando de arrogantes e estúpidos, então eu esnobei eles por séculos, mesmo ainda exercendo as funções, afinal eu visava meus ganhos. Se não fosse por ela... eu estaria completamente perdida, eu me odiaria pensando não ser digna dos méritos.

Hector bufara, aproximando-se mais alguns passos.

— Ela quem? — perguntou, o tom de voz aumentado.

— Aquela que quer a cabeça de Rosie Campbell numa bandeja para a próxima coroação. — ditara ela, relanceando a jovem de capuz que a ameaçava perfura-la. — E também aquela que fará de mim o que quiser... já que eu descumpri suas ordens! — dissera, adquirindo um tom de emergência e desespero.

Uma nova presença começou a ser sentida pela dupla de heróis. Com as batidas do seu coração descompassadas e aceleradas, Rosie se virou abruptamente para olhar para trás, a face empalidecida. Hector imitou seu movimento... e ficara igualmente surpreso.

Aproximava-se do trio uma bela mulher caucasiana, voluptuosa e de alisados cabelos pretos que iam até seu busto. Suas botas pretas com altos saltos faziam os sons de seus passos destacarem-se, propiciando-lhe uma altivez avassaladora aliada ao seu sobretudo cinza e bem abotoado com um cinto preto inclinado e outro em sua cintura com armas. Rosie se viu petrificada ao deparar-se com os penetrantes olhos verdes claros da moça furiosa. "Que sensação estranha é essa? Eu... eu sinto como se a tivesse visto em algum lugar... como se a conhecesse!".

— Quem é você, afinal? — perguntara o caçador em um timbre severo.

A moça o ignorou e concentrou todo o seu foco em seu principal alvo, sem desviar. Parou, ficando alguns poucos metros à frente de sua mais nova rival, a qual encarava com um ódio antes reprimido.

A Coletora arriscara-se na tentativa de sair despercebida, recuando alguns passos discretamente ao olhar de soslaio para uma suposta saída de emergência próxima.

— Parada aí! — bradou a mulher colérica, sem tirar os olhos de Rosie. — Traidores como você não devem alcançar nenhum tipo de salvação.

— Eu... — gaguejava ela, desconcertada. — Não tive outra escolha! Eu fui tentada! Culpe-o! — apontou para Hector com indignação. — Perceba que no fim das contas, eu trouxe Rosie Campbell à você. Eu já fiz meu trabalho por aqui!

— O seu trabalho... — disse a moça, agora voltando-se para ela. — ... era conduzir somente ela até mim. O que esse verme faz aqui? — disse, gesticulando com a cabeça em direção à Hector.

— Eu o enganei fazendo-o acreditar que o mago do tempo estaria aqui. Me prometeu uma boa recompensa em troca, mas tudo não passou de um falso acordo. — relatara ela, olhando para Rosie e Hector de modo aflito e rápido. — Por favor, tem que acreditar em mim! Eu o mataria aqui mesmo se ele recusasse cumprir sua parte.

— O que certamente não vai acontecer. — retrucou o caçador olhando de modo semi-cerrado. — E eu me recuso. Você nos levou até o fim de linha, agora mostra a verdade sobre para quem realmente vinha trabalhando.

— Então talvez signifique que você não saiba nada sobre onde está Charlie! — vociferou Rosie, fulminando-a com os olhos.

A moça de sobretudo com face jovial e severa levantara uma das sobrancelhas para a Coletora. Impôs um funcional suborno à sua nova criada para que vigiasse os passos de Rosie, sob a garantia da entrega de inúmeras riquezas destinadas apenas para seu deleite. Naquele dia, especificamente, lhe era sua chance de ouro para mostrar seu valor, embora se sentisse pressionada quase o tempo todo. A ideia de armazenar as armas e artefatos divinos roubados naquele antiquário fora sugerida por ela... o Coletor disfarçado de uma bela dama de vermelho. O feito possuía a intenção de atrair a atenção do arauto de Yuga imediatamente, de modo a faze-lo sentir a gravidade de uma situação que fugiria do controle se caso movesse seus pauzinhos para interferir. Com a chefia no encalço de Áker, ela teria toda e qualquer informação a respeito do fardo de Rosie, inclusive sobre a mesma estar sendo, aparentemente, protegida pelo mensageiro. Seu ódio pela jovem crescia quanto mais a olhava.

— Bem... Acordo é acordo. — enunciou a jovem mulher, calmamente abeirando-se em direção à sua incompetente aliada. — Agradeço por ter trazido a mortal. Mas abomino sua ingenuidade ao cair na lábia de um reles humano. — seus passos tomaram mais intensidade, enquanto a moça erguia levemente a mão fazendo surgir gradativamente uma esfera de luz amarela e irradiante na palma. — Um aliado se deixar ludibriar por seres inferiores para mim é um ato imperdoável.

A Coletora tremera em completo pânico, suando em demasia ao sentir o calor escaldante provindo da esfera luminosa, ao passo em que recuava com a mente bloqueada pelo medo, sem entrever nenhuma chance de fuga.

— Senhora, por favor...

— Foi um prazer trabalhar com você. — disse a infame mulher, investindo ao agarrar o braço de sua informante com extrema força e puxa-la para mais perto, logo rapidamente fazendo-a engolir a esfera de luz amarelada e fechando o maxilar dela. A empurrara cruelmente, fazendo-a cambalear para trás enquanto seu corpo se debatia em desespero e suas mãos passeavam pela garganta, na tentativa de tirar, de algum modo, aquela energia potencialmente flamejante dentro de si. Levou as mãos à cabeça, ajoelhando-se. Uma luminosidade fora crescendo de seu corpo, de dentro para fora, dando a rápida impressão de sua falsa pele humana estar queimando depressa.

Rosie e Hector afastaram-se, tentando proteger seus olhos da intensa claridade, enquanto a executora sorria, saboreando o momento. A luz se expandia como se fosse tomar conta de todo o espaço, à medida em que o corpo da Coletora desaparecia, sendo incinerado.

Ouviu-se um abafado urro vindo da executada, a mesma exibindo uma face de horror com olhos brilhantes, seu rosto desintegrando-se.

A claridade diminuíra velozmente, reduzindo-se, logo exibindo o terrível resultado com uma pequena e densa montanha de cinzas no chão, que, por sinal, fumaçava um vapor lento e quente.

A dupla heroica encarara com estupefação o ato dantesco da odiosa mulher... que agora os mantinha como reféns por tempo indeterminado.

— Muito bem... — dissera ela, virando-se para os dois com ar bravio. — Hora de cuidar da tarefa pela qual me auto-designei. — ela foi se aproximando ameaçadoramente. — Eu, Sekhmet, irmã e consorte de Yuga, tenho a obrigação de acusa-la... Rosie Campbell.

Olhando de relance para Hector com surpresa, Rosie reunia coragem suficiente para digerir aquela informação alarmante. "Ela disse irmã?!".

— O Coletor disse — começou a jovem, adquirindo uma postura brava. — que você quer minha cabeça como prêmio. Por quê? — elevara o tom de voz, ríspida.

A deusa se limitou a dar uma risadinha de presunção, pondo as mãos na cintura.

— Eu não apenas vim para ser seu pior pesadelo... vim para reivindicar o que é meu por direito. — assumira um tom sério, olhando para Rosie com cólera.

Hector sentiu-se obrigado a intervir.

— E o que seria? — perguntou ele, curioso sobre o propósito da deusa.

— Não é algo que lhe diga respeito. — retrucou ela, bufando. — Meu amado cometeu um erro terrível. Estou aqui para conserta-lo.

— Vai ter que me matar se quiser descobrir como. — desafiou Rosie, assumindo as rédeas da situação, preparando sua adaga.

— Rosie — disse Hector, preocupado. — não acho que seja...

— É melhor você ficar fora disso. — declarou ela, autoritária. — Ela claramente tem contas a acertar comigo. Eu posso sentir... — pôs a mão esquerda cerrada no peito — A raiva. Estou sendo estimulada a lutar pelo que é meu. — foi andando alguns passos até sua rival, sacando mais uma adaga tranquilamente. — Não vou culpar Áker por ter nos trazido até aqui... talvez ele não sabia que essa vadia estava tramando algo contra mim.

Hector ia se afastando, temendo que a tensão aumentasse a níveis críticos... sem conseguir tirar os olhos da ameaçadora deusa solar e fiel esposa da divindade oposta à Abamanu.

— Olhe bem como fala... — instou Sekhmet, fechando os punhos e sorrindo levemente. — Deixe a raiva crescer. Isso vai facilitar minha conquista. — deixou seus olhos brilharem uma luz amarela, logo disparando dois retos e finos raios letais.

Como que por reflexo, Rosie exibira as duas adagas, cruzando-as em um "x" diante de sua face a fim de se defender do ataque. O calor dos raios instantaneamente dificultou a resistência imposta por Rosie, superaquecendo as lâminas, tornando árduo o processo para manter a defesa constante. Rangendo os dentes, Rosie forçou ao tentar empurrar as adagas na intenção de frear a gradual força dos raios. Jamais lutara contra tamanho poder. "Mas que droga! Minhas mãos já estão queimando e mal saí do lugar! Não pode ser... estão derretendo!", pensou ela, arregalando os olhos ao perceber as lâminas, pouco à pouco, se desfazendo em uma pasta quente feito lava de vulcão. "Ela vai me matar!".

CONTINUA...
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