Notas iniciais
Capítulo 3x02 Tenha uma ótima leitura!

"Ataque e sempre seu inimigo encontrará um modo de se defender. Defenda-se, e ele achará mil maneiras de lhe atacar."

Trecho do Diário de Rosie Campbell; Página 95.

***

Passos apertados e rápidos passeavam em linha reta por aquele chão de pedra nauseabundo, repleto de coliformes fecais esparramados pelas poças d'água irregulares. O local era detentor de uma atmosfera soturna, dispondo-se de uma parede com azulejos brancos sujos de terra úmida, além de uma mortiça luz fluorescente, meio esverdeada, que contribuía para o aspecto sombrio do recinto, iluminando apenas uma pequena parte, deixando o restante em certas "camadas": semi-escuridão no centro e breu total nos fundos. No teto molhado, gotículas de água caíam em direção às poças e o único som predominante, como se várias torneiras estivessem dispostas.

A figura foi se aproximando... e parara bem diante de parede esquerda do local. Alheia ao odor fétido exalado pelo piso, a pessoa respirara fundo, logo expirando o ar com decisão.

Vestindo um sobretudo cinza escuro e muito bem abotoado, típicos de espiãs norte-americanas e inglesas, e uma calça apertada preta e botas de couro de mesma cor, a mulher exibiu uma gradativa luz amarelada tomando conta de seus olhos azuis.

Rapidamente, dois finos raios luminosos e amarelos saíram das pupilas daquela moça, penetrando diretamente na parede. Meneava levemente a cabeça... como se estivesse realizando uma obra de arte para expor a alguém em específico.

Com um piscar, os raios sumiram em segundos.

Dera um sorriso presunçoso à "obra-prima" e saíra pela direita com o ritmo com o qual chegara.

Na parede, desenhado com exímio talento, havia um símbolo brilhando a mesma luz amarela do raio que o havia formado.

Um Ankh aparentemente "quebrando" o que parecia ser um disco solar...

***

Área florestal de Raizenbool — 07h52.

Enfiando uma série de apetrechos de caça em sua mochila, Hector se preparava para se encaminhar ao lado de Rosie até a sede dos caçadores de aluguel que participavam da operação de desmanche das fábricas instaladas pelas tropas de Abamanu, ficando cerca de 90 quilômetros ao norte. A base era subterrânea, com capacidade máxima para abrigar mais de 200 pessoas, e escondia-se através de uma fachada de um velho condomínio abandonado, tendo seu acesso por uma entrada secreta no chão.

Edgar fora contactado por Hector, o caçador-detetive revelando uma brusca mudança de planos que intrigara o líder da operação. A vinda daquele homem afro-descendente e vestido de smoking tirara-lhe o sono na madrugada que se passou. Após pôr a última caixa com munições de balas de prata dentro da mochila, pegou-se vislumbrando um último item na mesa.

O pequeno amuleto dado por Áker que serviria como comunicador em casos de emergência... ou quando Rosie finalmente se decidisse acerca da atordoante proposta oferecida.

Encarou aquele pequeno objeto dourado e circular com uma certa tensão. Com os dedos trêmulos, pegara-o com hesitação e o enfiara em um bolso externo do sobretudo.

Rosie chegara à cozinha com rapidez, aproximando-se da mesa.

— Já está pronto? — perguntou ela, olhando-o.

As palavras daquele ser ainda ecoavam na mente do caçador. "Usem-os quando quiserem se comunicar comigo.".

— Hector? — insistiu Rosie, estranhando o comportamento do parceiro. — Você está bem?

Desvencilhando-se de suas divagações, Hector estremecera levemente e olhou-a com firmeza, assentindo positivamente.

Abruptamente, pôs as duas mãos nos ombros da jovem, assustando-a.

— Rosie, aconteça o que acontecer, livre-se do amuleto. — disse ele, com urgência na voz.

— Hector, conversamos sobre isso ontem. Ao meu ver, ele falou a verdade. Não vou abrir mão disso aqui. — disse ela, retirando o amuleto do bolso de sua calça de couro apertada. Mostrara-o, o objeto reluzindo à luz solar que entrava pela janela. — Fique tranquilo. Minha resposta continua sendo não.

— Mas nada garante que você permaneça com essa recusa por muito mais tempo. — afirmou ele, tornando a andar de um lado para o outro, desesperado. Parara de repente. — Ele ainda não deu sinais convincentes para que possamos confiar nele.

Extasiada, Rosie caminhou até a janela com um olhar cansado, erguendo o capuz e pondo-o sobre a cabeça.

— Diferente de você... Naquela hora, não me senti ameaçada. — relatou, a expressão desconfortável. — Foi como se eu já o conhecesse, como se eu já estivesse familiarizada com ele. — virara o rosto para o caçador, o olhar aflito. — Sei que acredita que ainda exista um jeito de pararmos isso... de impedir que essa guerra venha até nós com força total. Tenho medo, Hector. Medo de que isso possa colocar nossos amigos em perigo, de uma forma ou de outra eles vão querer estar envolvidos.

Hector lembrara-se da excruciante possibilidade de se depararem com seus companheiros de caçada sob os efeitos devastadores da substância tóxica liberada. "Se conseguirmos chegar até a fábrica central, há uma chance de encontrarmos o verdadeiro responsável pela criação e liberação da substância... bem como também encontrar Charlie! Sim, a origem da substância é mundana! O que implica dizer que há alguém... algum cientista sequestrado que está trabalhando sob ameaça de Abamanu!", pensou ele, mal contendo suas emoções.

— Como ele disse: Ainda é cedo para abandonarmos as esperanças. Ao menos nesse único ponto eu concordo. — afirmou Hector, andando devagar até Rosie. — Eu tenho feito algumas especulações comigo mesmo, e já me desculpo por não compartilha-las com você. — fez uma pausa, endurecendo o semblante. — Vai haver algum momento em que vamos encontrar um outro modo de acabarmos com isso. Sei que vai. Eu acredito.

— Agindo assim, só estarão adiando o inevitável. — disse uma já conhecida voz em algum ponto da cozinha.

Ambos olharam simultaneamente para o mesmo lugar, e fitaram estupefatos.

— E, consequentemente, adiantando a extinção de sua espécie. — afirmou Áker, parado próximo ao fogão. Andara até a dupla, um tanto apressado. — Mas não tenho tempo para discutir a respeito, temos um grave problema.

Hector o estudou com fogo nos olhos, enraivecido.

— Não havia dito que apareceria apenas quando nos comunicássemos com você? — questionou ele, esbaforido.

— Estamos no meio de uma guerra, acostume-se quando surgirem ocasiões inesperadas que resultem nas minhas visitas sem aviso. — disse ele, convicto. — Posso aparecer quando e onde eu quiser, não necessariamente quando me chamam através dos amuletos.

— Acredite — disse Hector, sem minimizar o tom. -, pensei em jogar isso aqui fora. — mostrou o pequeno amuleto tirando-o do bolso. — Mas mudei de ideia quando percebi que pode nos ser muito útil caso corramos perigo.

— Sou um arauto, não um guarda-costas. — retrucou ele, franzindo o cenho.

— Acho que sei o que pode estar pensando: Que somos aproveitadores e que podemos desfrutar das suas habilidades quando nos convir. — fizera uma pausa, afastando o cabelo dos olhos. — Talvez não pense isso de Rosie, mas de mim...

— Já chega, Hector! — vociferou Rosie, puxando-o de leve pelo braço. Virara-o com força. — O que você tem na cabeça? — sussurrou ela, fulminando-o com os olhos.

— Atente-se, Rosie: Ele não é confiável. — cochichou o caçador, balançando a cabeça de leve.

— Você não é confiável. — salientou Rosie, desviando lentamente o olhar para Áker, logo tornando a andar em sua direção.

O caçador suspirou de modo pesado, olhando para o chão cabisbaixo, depois tornando a fitar Rosie como se houvesse sido substituído. Como se sua figura de protetor fosse quebrada em vários pedaços. Um turbilhão de sentimentos lhe assaltou a quietude, dentre eles, talvez o mais forte, o ciúme. Cerrando os punhos, se pôs atrás de Rosie, tentando ao máximo conter seu incômodo mediante a influência de Áker sobre ela.

— Então, nos diga. — disse Rosie, a expressão séria. — Qual é esse outro problema que está metido no meio de todo esse pesadelo?

— À primeira vista — começou Áker caminhando em direção à Hector, mas ficando entre os dois. — pode parecer algo isolado... — fizera uma pausa, olhando para ambos de modo misterioso. — ... mas que somente irão entender se vierem comigo. — ergueu as duas mãos e tocara-os nos ombros.

Novamente tendo suas percepções desafiadas, a dupla se viu em um recinto completamente diferente de onde estavam, ambos sentindo como se a realidade ao redor tivesse se alterado e materializado um mundo distinto, desconhecido e inexplorado. Hector tivera dúvidas quanto aos atributos do arauto de Yuga, encarando-o com um olhar de estranheza.

— E aqui estamos. — disse Áker, tirando as mãos dos ombros de Rosie e Hector.

— Que lugar é esse? — perguntou Rosie, olhando em volta, espantada.

— Isso é algum tipo de teste? — indagou Hector, arqueando uma sobrancelha, desconfiado.

Do modo mais condescendente possível, o arauto voltou-se para ele, exibindo um ar tranquilo.

— Jogos são obras do inimigo. — andara até o caçador, fixando os olhos nele. — E, para ser franco, eu estou longe de me equiparar à eles. Não vou coagi-lo a confiar em mim, isto iria contra os meus princípios. Mas vou dar provas de que sou confiável. No final, a decisão caberá a você. — fez uma pausa, virando as costas para Hector e caminhando à frente. — Tudo o que sei, tudo o que me foi concedido, apenas foi transmitir a mensagem de majestade sobre a proposta à Rosie Campbell...

Passando por Rosie, Áker a olhou incisivamente.

— Que com certeza, em vista de suas expressões e postura, ainda não se decidiu.

— E a resposta continua sendo a mesma: É não. — respondeu Rosie, o tom embargado de impaciência.

Áker fora percorrendo o curto corredor. O local possuía paredes pintadas de cinza, ornamentadas com estátuas pequenas e bustos de grandes figuras políticas de diversos países. No teto, pendiam lustres que iluminavam-no intensamente, enfileirados do início ao fim.

Entreolhando-se por um segundo, Rosie e Hector manifestavam as mesmas reações. Seguiram o arauto, sem escolhas a fazer, as dúvidas os torturando a cada passo.

— Será que dá para nos dizer o que está havendo? — perguntou Hector, soando ríspido.

— Não é adequado eu revelar do que se trata agora. — afirmou Áker, sem diminuir o ritmo dos passos. — Prefiro que descubram sozinhos... quando atravessarem aquela porta.

— Nós estávamos de saída. — retrucou Rosie. — Íamos organizar uma operação definitiva para...

— Shhh! — chiou Àker, olhando-a por cima do ombro com uma expressão severa, pondo o indicador frente aos lábios pedindo silêncio. — Cale-se. — sussurrou.

Franzindo o cenho e visivelmente sentindo-se ofendida, Rosie balançara a cabeça, sem entender.

— O quê?! Por que não posso falar?

— É inapropriado agora... estamos bem perto. — disse ele, mantendo o tom baixo. — Além disso, é perigoso, quase cometeu um erro terrível.

— Erro!? — protestou Rosie. — Eu só ia dizer que...

— Rosie. — disse Hector, tocando-a rapidamente. — Acho melhor fazermos o que ele diz.

A jovem o encarou por alguns segundos, aparentando estar perdida. "Áker também consegue hipnotizar? Se for verdade, estou vendo a prova agora mesmo.", pensou, intrigada sobre Hector aparentemente ter mostrado apoio à Áker de repente.

As portas duplas de madeira polida e brancas foram abertas com uma nítida precisão pelo arauto, revelando o outro lado como um aposento sofisticado: Paredes pintadas de laranja claro, ornamentadas com vários símbolos e linhas e decoradas com quadros de pintores renomados. A luminosidade calma dos lustres dava às obras expostas pela sala um aspecto épico sem igual. Preservadas por tampos de vidro sustentados por blocos de pedra maciços que ocupavam boa parte do local, as obras ali apresentadas pareciam, vistas da entrada, serem tipos peculiares de armas.

Estendendo a mão para permitir passagem, Áker lançou-lhes um sorriso calmo e leve.

— Contemplem as maravilhas divinas. — disse ele, alterando a expressão ao olhar de relance para as armas.

Rosie o analisou por alguns instantes de maneira curiosa.

— Onde realmente estamos?

— Isto aqui é um requisitado antiquário, um dos mais ativos destes país. — disse ele, a fala rápida. — É tudo o que posso revelar.

Sem esperar por mais nada, Hector adentrara na sala de exposição, dando-se conta de que qualquer outra pergunta feita resultaria em uma resposta vaga e nada convencedora. Rosie o acompanhara, olhando de relance para Áker meio preocupada. Enquanto fechava a porta depressa, o arauto, através da brecha, assentiu lentamente para Rosie com um semblante de confiança. Retribuindo com um sorriso fraco, Rosie entendera aquele recado. "Ele vai estar ao nosso lado quando as coisas ficarem críticas. Ele não está aqui somente para fazer uma oferta e ouvir uma resposta... Está aqui para me manter salva também. Quer que eu tenha tempo para decidir e que nada interfira nisso.", pensou ela enquanto seguia atrás de Hector até a parede oposta da sala que abrigava uma porta. "Agora sei porque Hector não foi com a cara dele.".

Pegou-se observando os objetos ali expostos. Armas que remetiam aos mais famosos deuses. Ou, pelo que se poderia constatar em primeira olhada, suas réplicas exatas.

Hector também ficara apreciando enquanto andava, com uma expressão intrigada no rosto. "Não lembro de ter visitado nenhum antiquário que preserve com tanta dedicação nenhuma réplica de alguma arma divina. Geralmente, são mais vistas em museus clássicos... como o finado Museu de História de Londres. Isso que me é estranho. Não são obras tipicamente expostas em antiquários.", pensou ele, sentindo uma pontada de mistério no ar naquele ambiente silencioso. "Áker deixou bem claro pela maneira como se expressou. Se eu mantivesse minha desconfiança nele, eu relevaria a sua suposta intenção de nos fazer perder o foco. Mas percebo que não é isso... Não parece ser um caso isolado... certamente não é.".

A porta dos fundos, localizada à direita, abrira repentinamente. Dela saíra uma bela mulher de pele morena com cabelos pretos cacheados e olhos castanhos, usando um vestido vermelho com alças e um colar cujo pingente era de diamante puro no formato de uma garra.

— Olá. Em que posso ajuda-los? — cumprimentou ela, soando gentil.

— Você é a atendente desta ala? — perguntou Hector, semi-cerrando os olhos.

— Sim. — respondeu ela, assentindo, estudando as figuras de ambos minuciosamente. — Minha vez agora: São clientes? — perguntou, sorrindo de modo misterioso.

Rosie respirou fundo, fitando aquela mulher como se não gostasse dela à primeira vista. Olhou discretamente para Hector, esperando uma reação do mesmo.

— Uma pergunta meio desnecessária... — disse ele, deixando transparecer sua desconfiança. — ... para alguém que parecia estar nos esperando.

A mulher rira baixinho, como se estivesse zombando do caçador.

— Tudo bem, então. Se não vieram comprar nada...

— Na verdade, viemos sim. — disparou Rosie, sorrindo forçadamente para a mulher.

Hector a olhou como se a mesma tivesse enlouquecido. Antes que pudesse protestar, já via Rosie apontar para um dos artefatos expostos.

— Aquela ali. — disse ela, escolhendo aleatoriamente.

A moça fechara a cara, claramente incomodada com a escolha da jovem.

— Ahn... Desculpe, mas o Cinturão de Hipólita não está à venda. Quero dizer... — ela se interrompeu, mostrando uma postura desconcertada, como se não soubesse se portar adequadamente àquela situação. Olhara de modo rápido para Hector e Rosie, assumindo uma face de tensão. — Lamento, mas esta peça já está reservada a um comprador que veio na semana passada.

Hector se aproximou dela com ar austero. A mulher o encarara, recuando alguns passos.

— Como um bom detetive e especialista em conduzir interrogatórios, sei muito bem quando alguém está mentindo descarada e perfeitamente. — afirmou o caçador, olhando-a desafiador.

Rosie se interpôs, pondo-se lado à lado com o caçador, assumindo um tom semelhante.

— E, como diz o ditado, mentira possui perna curta. — redarguiu ela.

Se vendo perante àquelas duas desafiadoras composturas, a mulher esquadrinhou com os olhos toda a sala, em uma tentativa de demonstrar indiferença à ameaça que aqueles jovens visitantes representavam para sua incontrolável ambição. Praguejou internamente quanto a preferência de Rosie pelo valioso Cinturão de Hipólita. A sua "impecável" atuação se desfizera em segundos e de um modo desapontadamente fácil. "Aqueles malditos! Sempre achando que estão no controle da situação, enquanto faço o papel de uma reles lacaia! Apenas me disseram o básico do básico!".

Hector endurecera ainda mais a expressão, encarando-a do modo mais pungente e intimidador possível.

— Nós sabemos exatamente o que você é.

A moça deixou formar um sorriso de canto de boca aliado a um olhar escarniante para ambos. Era a hora de abandonar de vez o verniz teatral de uma bela atendente despretensiosa.

Caminhando pelo trajeto formado por um tapete vermelho que ficava entre duas fileiras de blocos de pedra maciça revestidos de veludo branco por cima e que preservavam relíquias invendáveis e inestimáveis, protegidas sob tampos de vidro quadrados.

Ela parara e colocou a mão sobre um dos tampos, olhando o objeto com certo orgulho. Erguera um pouco a face, o queixo levantado, esbanjando uma nítida arrogância ao se virar para os visitantes.

Seu semblante havia se alterado completamente.

— Não precisam me olhar desse jeito. Já me encontro em rendição. — afirmou ela, dando de ombros. — No entanto... Não significa que venceram.

Rosie andara alguns passos à frente, tomando cuidado para qualquer movimento imprevisível.

— Há uma razão bem especial para estarmos aqui.

— Ah, é claro, o guia de vocês foi bem competente em não expor o necessário. — disse ela, a expressão canalha.

— Ele mencionou grave. — disse Hector, pondo-se lado à lado com Rosie, cerrando os punhos. — Além do mais, Charlie nos fez um breve resumo sobre vocês... Coletores.

A mulher, em um gesto de total menosprezo aos "clientes", virou-se de costas, assumindo uma expressão de inquietação com um sorriso nervoso.

— O raio de Zeus, a foice de Chronos, o Escudo de Égide de Atena, o tridente de Poseidon, o elmo de Hades, o arco solar de Apolo, o arco lunar de Ártemis, a lança de Anhur, o cetro de Anúbis, a trombeta de Heimdall, o martelo de Thor, a lança Gugnir de Odin, a espada de Surt... e muitas outras. Todas elas nossas, para sempre. — disse a mulher, vangloriando-se da conquista.

Rosie tornou a completar o argumento de Hector.

— Se Áker nos trouxe até aqui, tendo em mente que vocês não passam de ladrões assassinos, quer dizer que cometeram um crime muito ousado. — ponderou ela, avançando em passos lentos e cautelosos. — Estes artefatos... — desviara o olhar para as peças ali expostas. — ... são autênticos?

Após um suspiro preguiçoso e demorado, a moça parecia refletir quanto a questão. "Como são previsíveis.". Bastara seguir com o roteiro que lhe havia sido entregue, que nada mais era que uma máscara para uma ordem direta e acatável pelo ditos "superiores".

— Você parece estar tensa. — comentou Hector, estudando-a. — O que denuncia que não possui as rédeas dessa artimanha, você foi enviada até aqui por que esteve nos observando o tempo todo, possuem esse poder.

Ela dera uma risadinha, tremendo os ombros, mal contendo-se.

— De fato, era uma de nossas maiores dádivas. Espionar nosso inimigos até que nossas miras estivessem precisamente formadas, possibilitando um ataque formidável. — ela fez uma pausa, olhando-os por cima do ombro em gesto de sedução para Hector. — Mas graças a algum aliado de vocês, nós não temos mais essa permissão.

Estremecendo, Hector arregalara os olhos, como se não acreditasse no que acabara de ouvir.

— Como assim um aliado nosso? Do que está falando? — indagar ele, furioso.

— Acho que não sou a única com tensão aqui. — ironizou ela, fechando os olhos. — O seu amigo mensageiro estava ciente de nossas habilidades, por isso se recusou a revelar os detalhes, sem saber que nós fomos proibidos de usarmos nosso alto poder de observação.

— E com isso — emendou Rosie — você confessa ter nos observado chegar aqui. — pôs as mãos na cintura, fechando a cara. — E também a única que não fez o dever de casa.

— Exato. Não obedeço protocolos desesperados quando viso uma vantagem. — retrucou ela, virando-se para Rosie.

— Ainda não respondeu minha pergunta! — vociferou Hector, ansioso. — Diga-nos de uma vez o que significa tudo isso! O que está havendo aqui, afinal?

— Ora, calma. — pediu ela, franzindo o cenho. — São jovens demais para perderem tempo se irritando inapropriadamente.

O caçador dera três firmes passos à frente, bufando em fúria ao fitar o rosto cínico da mulher.

— Me deu um bom motivo para me irritar. — disse ele, a respiração pesada. — Não vai querer que eu dê uma razão para irritar você.

— Assim como também não vai querer uma de minhas garras cravada no meio da sua cabeça. Desafiar a um de nós, para um mortal, é uma corajosa tentativa de suicídio. — declarou ela, cruzando os braços, logo relanceando os olhos para Rosie como se esperasse uma reação por parte dela. — Eu não faço o tipo "traficante de informações". Mas pelo que me relataram, um membro influente do grupo de vocês fez um acordo com um dos nossos... bem, ele foi escolhido e convencido a guardar segredo sobre nosso acordo com Abamanu.

A afirmação fizera Rosie sentir suas entranhas remexerem, transmitindo-lhe uma sensação de que o mundo parara de girar. "Se isso for verdade... Com o que Charlie nos disse sobre eles: O fato deles quererem assumir o lugar dos deuses no trono maior... As armas! Isso explica tudo!". Por fim, ligara os pontos e chegara à desalentadora conclusão.

Abruptamente, se virou para Hector com um alarde estampado no olhar.

— Hector! Estas armas são verdadeiras! O acordo com Abamanu explica tudo! O roubo desses artefatos é o resultado dessa parceria!

O caçador a olhou com espanto, logo tornando a voltar a encarar a mulher, lívido.

— Errado. — destacou a moça. — Com relação aos artefatos, eu confirmo com total veemência. No entanto, nossas aquisições em nada se correlacionam ao acordo. Foi tudo graças á influência que conseguimos ao realiza-lo, justo no momento mais propício.

— E que momento seria este? — questionou Hector, olhando-a com mais braveza.

— Deixarmos o jovem Charlie viver custará caro para nosso estimado Chronos. — afirmou ela, lançando um sorriso puramente enigmático.

CONTINUA...