Capuz Vermelho - 3ª Temporada
25 Sinais do Fim (Parte 4)
Abrindo os olhos de súbito, Rosie tivera o rápido lampejo de querer ter acordado de um pesadelo, desejando intensamente que nada do que vivenciara horas atrás fosse real. Ao se levantar, veio a decepção causando-lhe um desalento pesante.
A sensação do déja vú perpassou-lhe a mente ao correr os olhos ao cenário em sua volta. "Espera aí... Alexia com certeza previu que eu invadiria a fortaleza com os outros... Então ela já sabia. Sabia que estou morta nesta época e que vim do passado. Agora sei... O ponto de partida pode estar bem perto.", pensou ela, olhando ao redor, desolada. A jovem encontrava-se no meio da rua onde havia os vários bares e restaurantes que vira após sair do local onde iniciou sua jornada. Diferentemente de horas atrás, a deserta e silenciosa rua estava imersa em uma névoa meio cinzenta, proporcionando um aspecto tenebrosamente frio. Além disto, o céu exibia nuvens carregadas e meio escuras, deixando à vista no horizonte um céu limpo mas pálido e desanimador.Toda aquela atmosfera meio "azulada" causava desconforto absoluto em Rosie, que se limitou a estreitar os olhos em um esforço apressado para encontrar o bar de onde entrara naquele mundo caótico.— Mas que... Mas que droga! — praguejou em voz alta, a face em cólera. A névoa dificultara sua visão.Um lufada suave de ar frio fizera expirar um sopro gélido, sentindo o clima diminuir sua temperatura drasticamente. Rosie afagara os braços e esfregara as mãos. "Sinto que vou congelar...".Uma presença abrupta fora sentida por trás, revelando-se através de uma conhecida voz séria.— Tentaram obstruir o reinado com este... pedaço de lixo? — questionou Hector, jogando o cilindro metálico no qual continha a cura ineficaz. O objeto estava feito aço retorcido, largado no chão.Rosie virara-se rápido, deixando-se ficar surpresa com a figura ali diante.— Hector? — balbuciou ela, a fala mansa, quase sem acreditar.O caçador estava vestido com um traje de cor preta, semelhante à uma túnica ou mortalha. A jovem notara na parte central da vestimenta uma curioso detalhe: Uma espécie de broche na forma de uma lua minguante prateada. O rapaz dera um sorriso de canto de boca.— Olhe mais de perto. — pediu ele, misterioso, tentando esclarecer através do olhar.Ligando o teor da frase dita pelo caçador ao broche no manto negro, as dúvidas dissiparam-se na rapidez de uma forte corrente de vento. Primeiro viera o choque. Depois a tentativa de aceitação.— Não pode ser verdade... — disse ela, balançando a cabeça em negação. Deu uma olhadela no broche. — Você... — rangera os dentes, enfurecendo-se. — Por que? — perguntou, elevando o tom.— A razão é extremamente simples. — disse ele, aproximando-se com as mãos para trás a passos lentos. — Ele pediu por isso, embora achasse que era menos relevante do que você. Muito pelo contrário... Ambos são meus maiores tesouros.— Fica longe de mim. — avisou Rosie, fulminando-o com o olhar. — Não vou ser seu instrumento de luxo, muito menos um degrau na sua escada banhada por sangue.— Uma hora irá. Sei que vai. — disse ele, continuando a andar devagar em direção à jovem. — Veja só. Veja aonde nós estamos. — dera uma risada rápida. — O lugar onde tudo termina... para sua espécie.— Para nós dois. — rebateu Rosie, recuando alguns passos.— Engana-se. — disse Abamanu, logo utilizando-se de uma supervelocidade além dos limites, ficando bastante próximo à Rosie em milésimos. A pegara pelos ombros, fixando sua expressão e olhar cheios de expectativa à ela. — Olhe bem no fundo dos meus olhos. O que consegue ver?Sabendo que não haveria nada que pudesse fazer para se ver livre das garras do deus, Rosie cedera ao desejo profundo, cravando uma visão minuciosa do que estava vendo nas pupilas de Hector. "Não, aquilo de novo não. O sonho... Eu sinto como se estivesse acontecendo outra vez!", pensou ela, inquietando-se internamente ao deparar-se com algo que lhe fazia rememorar o pesadelo que tivera antes de despertar do coma. Nas pupilas daqueles olhos sérios a jovem contemplava dois sois negros.— Diga-me. — ordenou Abamanu, severizando o tom.— Um eclipse solar. — disse Rosie, apressadamente. — É o que quer me mostrar, não é? Eu já vi isso antes...— Ótimo. — disse ele, recuando alguns passos. — Foi esta a sensação que quis lhe transmitir. — a olhou com certa condescendência. — Não faz ideia do quanto eu a admiro.— Você tem um jeito bem estranho de demonstrar amor. — retrucou Rosie, sentindo ojeriza.— E você tem um modo fascinante de expressar seu ódio por mim. — redarguiu o deus, levantando uma sobrancelha. — Deveria entender melhor do que ninguém o porque de eu ter feito isto com sua morada. Humanos com suas naturezas nefastas não devem sair impunes. Havia desabafado sobre isso com meu escriba. — fez uma pausa, olhando para o nada. — Eles devem ser postos em seus devidos lugares. E... olhe ao seu redor. Deseja uma prova mais concreta do que esta? Diga-me, Rosie. — fingira um olhar encarecido. — Vou torna-lo melhor. Tudo que mais quero é experimentar tempos mais prósperos e positivos. Quero restabelecer o contato com meus irmãos e manter a sobrevivência de meu exército. É pedir demais que um imperador parcialmente falido sonhe com dias melhores?
A pergunta fizera com que Rosie rejeitasse qualquer tipo de reflexão, temendo dar uma brecha para ser manipulada e, consequentemente, raptada dali tendo em vista a suposta imprevisibilidade do deus. Qualquer movimento em falso acarretaria em sérios danos.— Quer saber de uma coisa? Você não me engana com essa conversa fiada. — atacou Rosie, olhando-o com desprezo máximo. — Eu sei o que você quer voltar a experimentar. Joias e tesouros para ostentar, sangue de inocentes na sua boca... Isso só mostra o quanto você é incapaz de admitir que não consegue viver sem sentir inveja da importância que os seres humanos tem para com o universo. Algo que talvez você jamais vai alcançar. Não sei o que pode ser, mas continuando assim você... — deu de ombros, olhando-o de cima à baixo. — Sem sua arrogância desmedida, sem seu império, sem seus subordinados... você não passa de um monstro. Nada mais e nada menos.Alguns segundos de silêncio pareceram perdurarem por bastante tempo. Abamanu sorrira levemente para Rosie, logo fechando os olhos. Dera as costas, denotando estar de saída.— Eu estava certo o tempo todo. — afirmou ele, andando e reabrindo os olhos. — Yuga, sem sombra de dúvidas, fez uma excelente escolha. Pena meu escriba não ter me fornecido detalhes prévios de seus movimentos, assim eu abraçaria a oportunidade singular em impedir que este veneno fosse depositado em sua cadeia orgânica.Dominada pela impaciência, Rosie sacara duas adagas, cada uma com três pontas, sendo duas menores entre a do meio — a maior.— Vamos acabar logo com isso. — determinou Rosie, disposta a enfrenta-lo. — Nós dois. Sem trapaças. Até o fim.O Cavaleiro da Noite Eterna, emanando um ar puramente soberbo, voltara-se para sua privilegiada, olhando suas armas com desdém.— Agora estou desapontado por proferir tamanha tolice. — disse ele, olhando-a com o cenho franzindo. — A energia residual se encontra em estado intermediário, o que a torna insuficiente para um conflito comigo. Um conflito desnecessário.— Estou ficando mais forte a cada dia, sei disso. — argumentou Rosie — É sua única chance. Não vou pedir novamente.— E não deve. — ditou o deus, autoritário. — Sua ânsia por luta não torna uma vitória sua garantida. Mas creio que se lembre do aviso. Yuga a fará pagar um preço mais caro. A menos que mantenha sua decisão. — fez uma pausa, sorrindo levemente. — Adeus, Rosie. — virara-se em despedida.— Isso não vai acabar assim! — vociferou a jovem, permitindo lágrimas escorrerem de seu branco rosto.Olhando-a por cima do ombro, Abamanu intencionava um ultimato.— Se sua escolha permanecer irrevogável, sim. Irá. Terá uma chance de reviver este momento, por isso deve voltar. — garantiu ele. — Mesmo que junte todas as suas forças e recursos para impedir, mesmo que tente mudar o curso de qualquer evento... É exatamente aqui onde tudo irá terminar. Sem reduzir, nem adicionar. — fez uma pausa antes de finalizar, suavizando o tom de voz. — Nós veremos daqui a três anos.Rosie o fitara com lágrimas caindo, o semblante entristecido ao visualizar, mentalmente, a perda trágica de seus amigos mediante à desilusão por parte da deslealdade de aliados obcecados por bens materiais esgotáveis e da rejeição à sobrevivência.O deus lunar sumira em um piscar de olhos, desaparecendo dali de imediato, deixando Rosie sozinha em meio à névoa.Um estrondo abafado e distante despertara o instinto de alerta de Rosie. Sobressaltada, a jovem virou-se na direção do som, a face congelada de apreensão. No horizonte pálido um ponto negro alçava voo verticalmente, aliado à uma fumaça que expelia-se através dele como sua "cauda"."Chegou a hora".Sem esperar um segundo a mais, Rosie dera início à uma corrida em direção ao local específico, irrompendo na névoa densa, o coração à mil.O tremor retornara, desta vez mais vibrante. Parte do chão de algumas ruas rachara-se, permitindo postes de iluminação caírem e carros serem virados. Ao dobrar para uma esquina, Rosie escapara por pouco de não ser atingida por um poste em plena queda, o mesmo lançando inúmeras faíscas ao tombar no chão.A bomba Ômega alcançara sua altitude pré-determinada para detonar, — armazenada em um objeto esférico e metálico — explodindo á exatos 120 metros de altura. A detonação tivera um intenso impacto no ar, liberando uma poeira cinzenta que se alastrava a uma velocidade impressionante pelos quarteirões, adquirindo volume à medida que seu alcance engrandecia a um nível aterrorizante.A destrutiva poeira parecia bloquear a pouca luminosidade do céu — já inteiramente tomado pelas trevas. Prédios, casas, carros, bancos de praça e monumentos históricos foram cobertos por uma grossa couraça negra provinda dos efeitos da bomba. No distrito de Westminster, a Torre do Relógio — vulgo Big Ben -, tal como o palácio, foram inteiramente destruídos, tendo a torre, em especial, partindo-se pela metade e caindo com um tremendo baque no chão, causando severo estrago.O centro de Londres, em poucos minutos, tornaria-se uma terra infectada até a raiz.Adentrando, finalmente, na rua repleta de bares e estabelecimentos comerciais, Rosie atingira limites absurdos em sua corrida para salvar sua pele de não ser preenchida por uma espécie de "cristal negro e tóxico". "Vamos lá, falta pouco!", pensou ela, não tardando a avistar o bar. Graças ao tremor e a forte ventania provocada pela liberação da poeira, a névoa dissipara-se por completo, facilitando a visibilidade.Hesitando em olhar para trás e temer se deparar com uma espessa e colossal nuvem de poeira, a jovem obrigara a si mesma a permanecer focada no caminho adiante. Ziguezagueara pelos carros capotados e destruídos, em seguida dando pulos sobre pedaços de lixo espalhados pelos cantos.Enfim, pudera alcançar a maçaneta da porta do bar. Entrara com uma pressa que poderia provocar sustos apavorantes em qualquer um que estivesse sentando no balcão calmamente se deliciando com alguma bebida. A jovem correra em direção à porta, ignorando o som estridente da poeira se aproximando — tal qual uma tsunami imparável.Batera sua mão direita no símbolo gravado na porta, logo em seguida a luz alaranjada ofuscando todo o espaço e cegando os olhos de Rosie por alguns segundos.A sensação de atravessar uma parede invisível voltara à tona. Tão rápido, retornara para seu quarto, a luz desaparecendo ao redor. Rosie visualizara o cômodo, ainda mantendo-se atônita, piscando várias vezes para esclarecer sua visão completamente.Sem demora, notara a presença de Áker, bem próximo à porta. A postura reta e a face séria e solene do arauto transpareciam uma tranquilidade que fazia despertar a raiva que Rosie sentira ao se ver diante de seu inimigo.O mensageiro andara a passos calmos em direção à Rosie, fitando-a analiticamente. Tocara o rosto da jovem, usando os dedos para abrir melhor seus olhos, chegando a mover a cabeça da mesma de um lado para o outro como parte de uma estranha examinação.— Funções cerebrais intactas. Nenhum sinal de trauma. Condicionamentos físico e mental em perfeito estado. — disse ele, afastando-se um pouco.Rosie suspirara, olhando-o com estranheza.— O que foi isso? — perguntou ela, soando ríspida.— Uma tentativa de diagnóstico para algum efeito colateral que a viagem tenha trazido à você — respondera o arauto, a fala mansa.— Não é disso que falo. — retrucou Rosie. Sua expressão era de claro aborrecimento. — Eu quero saber... quero entender como fez aquilo tudo!— Está achando que os eventos que passaram diante dos seus olhos... — encarara-a com incisão. — ... estavam sob meu controle?— Acertou na mosca. — disse Rosie, ainda mantendo o tom. — Olha, eu não sei quantas habilidades impressionantes você tem, tenho que reconhecer que você me deixou muito alarmada e tenho certo medo do que mais você é capaz de fazer, mas... — fez uma pausa, apontando o dedo indicador para o arauto. — ... não vou cair nesse truque.— Me perdoe se lhe passei uma impressão errônea... — disse Áker, baixando um pouco a cabeça. Erguera-a novamente, olhando-a com seriedade. — Mas o que lhe mostrei não é nada além da verdade. O futuro de seus irmãos de espécie está em suas mãos, Rosie.— E quanto à Charlie? — questionou Rosie, lembrando-se do mago do tempo. — Eu esperava que fossem me informar alguma coisa em relação à ele, ou que talvez já o tivessem resgatado... Mas acho que...
— Você o encontrou... não foi? — indagou Áker, curioso.— De quem está falando?— Abamanu. — aproximou-se de Rosie. — O que ele fez? A ameaçou? Ou... se manteve disposto a persuadi-la?— Basicamente. — disse Rosie, assentindo. — Mas não... Não me conformo. — andara para um lado, cobrindo a boca com a mão.— O que viu? — perguntou Áker.— Achei que já soubesse. — retrucou ela, ainda de costas.— Eu tive rápidos flashes. A enviei para que completasse minha visão acerca disso.Em silêncio, Rosie virara-se para o arauto, o semblante desalentado mais gritante do que nunca.— Hector. — disse ela, a voz embargada de comoção.— O que tem ele?— Ele... — hesitou por alguns segundos. — Ele, na verdade, é o verdadeiro receptáculo de Abamanu. O definitivo. Mollock, talvez, não passava de uma casca temporária, e muito provavelmente foi destruído... ele não me disse o que realmente aconteceu, também não me senti obrigada a perguntar, eu estava... muito atordoada. Ainda estou, aliás. Se quis que eu sentisse um desespero que me corroesse até a alma... parabéns, você conseguiu. — enxugara uma lágrima.O arauto permanecera a fita-la, respirando com calma. "Obviamente não se decidiu ainda. Preciso atribuir mais tempo à ela. Talvez seja hora de correr para evitar que o estrago se realize.".— Presumo que já saiba o que fazer. E como fazer. — disse Áker, firme. — Novamente... — retirara o emblema de Yuga e o jogara para Rosie. — ... pense muito bem.— Me dê só mais alguns dias. — pediu Rosie, segurando o pequeno objeto. — Pelo menos até que as operações de resgate terminem e Abamanu sinta as perdas que sofreu e mobilize suas tropas para contra-atacar. Mas mesmo essa possibilidade sendo considerada... não é garantia de que vou dizer sim. — falou, categoricamente.Áker assentira lentamente.— Adam se foi. Partiu para outro país por não suportar minha parceria com Hector, ainda mais com ele sofrendo de licantropia, já odeio imaginar o que aconteceria se eu estivesse lá. — fez uma pausa. — Eu... trouxe essas duas coisas... — retirara algo do bolso de seu cinto de utilidades. — Aqui. — mostrara.Um olhar impressionado se formou na face de Áker.— Creio que sejam...— Sim. Este aqui... — mostrara um papel dobrado. — É a fórmula para curarmos os miméticos. O Dr. Lenox a criou, eu quase o conheci no dia em que Abamanu me chamou para aquele encontro, mas ele se recusou a sair. Se a versão beta da substância for liberada e atingir um grande número de pessoas, essa fórmula ficará ultrapassada. Então são três resgates.— Preciso avisar aos meus aliados para que o General Holt saiba. — idealizou Áker.— Não, não precisa. — negou Rosie, balançando de leve a cabeça. — Eu mesma falo. Deixe essa parte inteiramente comigo. Ouviu bem?— Não vejo motivos para discordar, se sente-se motivada para tal ação. — aquiesceu Áker, retribuindo com um leve sorriso. — E quanto à...— Isso aqui? Ahn... — disse Rosie, olhando para a fotografia em preto e branco que tirara junto aos seus leais companheiros. — Uma lembrança. — disse, sem tirar os olhos.— Eu sei do que se trata. — disparou Áker, surpreendendo Rosie de imediato. — Foi uma das últimas visões que tive ultimamente. É uma bela foto.— Mas não quero que aconteça. — disse Rosie, tornando a olha-la com angústia na expressão.— Então as chances para evitar o caos que presenciou estão lhe esperando... — disse ele. — Cumpra seu propósito. O futuro só depende dele.E, por fim, o arauto resolvera sumir da vista de Rosie em milissegundos.Tornando a observar a foto, Rosie experimentara a inefável sensação de nutrir sua capacidade de testar seus limites. "Então, vamos lá. Quero me reunir à vocês novamente... mas sem gosma preta por toda parte.".
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