Sobre a mesa estava um pesado arsenal de armas, no qual incluíam-se pistolas de alto calibre, rifles, fuzis, granadas e facas. Adam e Êmina aprontavam-se em uma corrida contra o relógio para rumar até o palácio governado por uma versão maléfica da outrora simpática vidente, cujo destino como profetisa — a julgar pela fotografia na manchete — não lhe parece mais causar nenhum temor.

"Se a contraparte malvada se encontrasse diretamente com a boa... certamente a Alexia que conhecemos ficaria horrorizada com o que se tornou.", pensou Adam, enquanto colocava seu colete de resistência física, embora seu corpo fizesse tal serviço com mais da metade da eficácia do objeto. "Mas aí vem a dúvida: Ela se sentiria desapontada consigo mesmo... ou realizada por ter se tornado mais forte, mesmo de forma sombria? E... agora que começo a perceber. Nunca a conhecemos mais a fundo, mal sabemos da sua história da vida, as dificuldades que teve. Bem, obviamente não vai ser hoje que teremos a chance.". Por fim, carregara seu rifle com cápsulas cilíndricas prateadas.

— Já está pronta? — perguntou Êmina para Rosie, aproximando-se.

— Ahn... — a jovem visualizava o arsenal, especialmente a munição diferenciada. — O que são...

— Cápsulas de nitrogênio líquido. — interrompeu a caçadora, a fala rápida. — Versão em tamanho mais prático da tecnologia financiada pelo Exército. — pegara uma delas na mesa e colocara-a na sua arma. — Funcional apenas em miméticos de estágio final. Ah! — andara para um lado, agachando-se diante de uma caixa de papelão para retirar algo. — Por falar nisso... Rosie, hora de você trocar o figurino. Olha, sem mentir, acho que todas as vezes em que vi você, sempre esteve com essa roupa, esse capuz com esse vermelho berrante... — dera um sorriso nervoso seguido de uma risadinha no mesmo tom. — Err... bem, os miméticos supremos se tornaram mais fortes nos últimos três anos, eles conseguem assumir os três estados físicos da matéria. — mostrara a roupa protetora. — Quando assumem a forma gasosa, eles infectam entrando na boca da vítima, mas também suspeitamos que também podem entrar pelos poros e, por via das dúvidas, usamos esse traje. — ofereceu-o à parceira.

Suspirando longa e pesadamente, Rosie olhara para a roupa com hesitação e um ar de recusa.

— Desculpe, não posso. — disse ela, sem rodeios, assentindo negativamente. Olhou de soslaio para Adam. — Acho que Adam deve explicar isso.

— Explicar o quê? — indagou o caçador, terminando de se preparar ao voltar-se para as duas.

— Está bem. — disse Rosie, sentindo-se rendida, revirando os olhos. Voltou-se para Êmina, a expressão firme. — Não preciso dessa roupa, sou totalmente imune à substância.

— Como é? — perguntou a alquimista, franzindo o cenho, curiosa a respeito.

— Vocês lembram, sei que devem lembrar... — disse Rosie aos três. — Naquela noite nas Ruínas Cinzas, Abamanu disse à mim sobre eu estar sendo alvo de Yuga, logo me dei conta de que estava dividida entre dois seres superpoderosos. Ele havia dito sobre uma energia ter sido depositada em mim por Yuga...

— Espera um minuto aí... — disse Lester, o colete ainda frouxo. — O que isso tem a ver com os miméticos, a substância e todo esse caos, afinal?

Rosie virara-se para o caçador.

— Acontece que muito provavelmente o sangue de Abamanu faz parte da composição. E esse poder oculto dentro de mim... — pôs a mão fechada no peito, desviando o olhar para o nada, reflexiva. — ... é o que me faz rejeitar a infecção. Na missão de resgate de Adam, eu comprovei. Não senti absolutamente nada diferente no meu organismo, eu estava perfeitamente saudável. O gás não me afetou.

Adam aproximara-se mais para dizer algo importante.

— Bem... sobre as coisas que não contei à vocês dois...

— Então sabia disso o tempo todo?! — questionou Êmina, parecendo zangada. — Por que não nos contou desde que voltamos a ativa como um grupo?

— Rosie estava desaparecida, então achei que não era importante falar sobre isso. Além do mais, precisávamos de foco, e isso só iria prejudicar nosso desempenho. — argumentou Adam, na intenção de convencer a parceira sobre as revelações omitidas necessariamente.

— Um voto a favor pela justificativa sincera. — disse Lester, erguendo levemente uma mão em apoio à explicação direta de Adam.

— Tudo bem... — disse ela, erguendo levemente as duas mãos. — Vou relevar. Afinal, pelo bem dos amigos, somos capazes de tudo.

"Até mesmo de guardar segredos com a desculpa de proteção.", pensou Rosie, divagando ao rememorar sua última e tensa discussão com Hector no casarão. "E pensar que quase o matei...".

Um estalo de dedos se fez diante do rosto da jovem. Era Êmina tentando um contato para chamar sua atenção.

— Rosie, acorda. — disse ela. — O que foi? De repente, ficou fora do ar. — deu um sorriso brincalhão.

— Ahn... Sim, melhor nós irmos. — disse Rosie, reorientando-se. — Vamos acabar com esse reinado de terror.

Um assovio rápido de Lester chamara as atenções dos outros três.

— Muito bem, pessoal. Hora da foto. — disse ele, preparando uma máquina fotográfica, que nada mais era do que uma caixa preta de caráter rudimentar, cuja lente era um pequeno círculo no meio. Pousara-a sobre a mesa apertando um botão.

— Ué, mas para quê isso? — perguntou Adam, desconcertado com a ideia.

— Desculpa se soar meio mórbido, mas é que... — hesitou em dizer, em uma pausa dramática. — ... alguém vai ter de guardar a lembrança de que fomos à luta com todas as forças.

— Quem, Lester? — perguntou Êmina, inquieta. — O que quer dizer?

— Um de nós provavelmente morrerá. — disse Adam, falando pelo companheiro ao compreender, sua expressão duramente séria. — Vamos lá, pode ser assim ou diferente. Mas... temos que lidar com essa possibilidade. Vamos em frente... sem medo do que vier. — falou, transparecendo intensa carga de auto-confiança, intencionando estimular os demais com tais palavras.

Rosie e Êmina produziram um entreolhar de aflição contida.

Adam prosseguira, colocando-se no meio das duas jovens a fim de posar para a foto.

— Nós matamos pessoas. Pessoas inocentes... corrompidas por um mal irreversível. — disse, olhando para Rosie e Êmina, em seguida para Lester. — Mas isso não muda quem somos. A Legião não está morta. Não enquanto defender o mundo que a permitiu viver.

Lester andara a passos lentos em direção ao trio, visivelmente comovido com as palavras do companheiro de caçada, aparentando reprimir lágrimas. Parara próximo à Rosie, olhando para a máquina ao respirar fundo e manter a cabeça erguida em sinal de perseverança.

— Quer saber? Dane-se se for ou não uma viagem só de ida. — disse ele, sem temor. — Vamos lutar pra valer, como sempre fizemos.

Após assentirem convencidos, os quatro olharam em simultâneo para a lente da máquina. Logo viera o ofuscante flash... marcando definitivamente aquele momento.

***

Mesmo a terra estando com uma umidade variando entre moderada e considerável, felizmente foi possível cavar um buraco e esconder o cilindro metálico, cujo contador convencional estava em 30 minutos e 24 segundos, além de um minúsculo círculo vermelho que emitia uma luz levemente intermitente de mesma cor. Quando a "bomba" estivesse prestes a detonar, um som quase inaudível apitaria, acelerando a alternância da luz gradualmente até o momento principal.

Lester passara a pá de ferro na terra meio molhada a fim de não dar indícios de que fora cavada ali. Largara-a no chão, tornando a se juntar aos outros. A cura explodiria no tempo pré-definido a 8 quilômetros da fortaleza, em uma área cheia de muros, barricadas e cercas de arame farpado.

Atrás de Lester e Adam, Rosie caminhava ao lado de Êmina, embora sua andança estivesse vagarosa com seus passos nervosos. Olhou ao redor, ainda abismada com o cenário deplorável e deprimente.

— Sou só eu ou estou sentindo que armaram terreno para uma emboscada? — teorizou Rosie, desconfiada sobre o território onde estava pisando. O silêncio do local trazia tal sensação.

— A única certeza que temos agora — disse Êmina — é que a guarda dos miméticos supremos está suspensa. Por enquanto.

— Lembrete, pessoal. — anunciou Adam, segurando bem seu rifle. — Ponham os capacetes quando atravessarmos o terceiro muro. Alexia não vai nos reconhecer tão facilmente, então acredito que já é um bom início para invadirmos.

Êmina sentiu-se obrigada a discordar.

— Duvido muito que ela ache que estejamos mortos. Esqueceu? Ela pode ver o futuro, a contaminação não inibiu o dom dela. — disse a caçadora, direcionando seu olhar cético para o líder.

De repente, Rosie escutara um leve barulho de batidas abaixo do solo, o que fez desviar sua atenção da conversa entre os amigos. Seguindo a direção do ruído, ela olhara para o chão, precisamente à uma tampa retangular de um esgoto com pequenas aberturas estreitas. Passara direto e não notara, a princípio, de algo que estivesse tentando chamar sua atenção, de modo perceptivelmente urgente.

Andando até a tampa, Rosie logo agachara-se e entreviu uma face humana meio escura. A mulher estendera sua mão de pele levemente morena para a jovem.

— Por favor... qualquer coisa, eu agradeço de coração se me oferecer uma ajuda. — pediu ela, a carência gritando em seus olhos verdes.

Sensibilizada, Rosie transmitiu uma expressão tristonha em seu olhar. "Infelizmente, não tenho como.".

— Me... me desculpe, senhora. — disse ela, comovida, balançando levemente a cabeça. — Não sei como ajuda-la, muito menos lhe dar algo. — levantara-se devagar, sem tirar os olhos daquela mão ainda estendida. — Eu sinto muito. — finalizou, voltando a seguir em frente.

"Muito bem, Rosie, que bela demonstração de frieza.", pensou ela, culpando-se. "Não basta ter que suportar as dúvidas sobre a sobrevivência dos meus amigos, agora terei de encarar meu lado insensível. Nunca sou boa o bastante para passar sensibilidade à alguém.".

Sentindo-se decidida a fazer aquilo, Rosie apressou o passo para alcançar Êmina.

— Ahn... Êmina. — chamou, falando depressa e em tom baixo.

A caçadora virou-se para ela, gesticulando com a cabeça ao querer saber do que se tratava.

— O que foi?

— Será que posso ter uma breve conversa em particular com você? — perguntou Rosie, apreensiva.

Êmina voltara-se para os dois rapazes que já ganhavam certa distância.

— Alcanço vocês depois! O.K? — falou a alquimista.

— Pode deixar! — concordou Adam, olhando por cima do ombro.

Curiosa, a jovem sobrevivente virara-se rapidamente para Rosie, mal contendo-se.

— Me diga que é importante. — salientou o requisito da mensagem.

Rosie suspirara dramaticamente, ao fechar os olhos. Quando abrira-os, já respirava fundo e preparada para revelar-se.

— Não sou quem você pensa. — disse Rosie, em um vão esforço para ser lacônica. — Quero dizer... — balançou rápido a cabeça, negando, baixando o tom. — Eu fui enviada para cá de surpresa. Rosie Campbell não existe mais nesta época, eu estou morta aqui, portanto você está diante daquilo que você pode chamar de versão do passado...

— Espera, espera, espera Rosie. Pisa no freio. — interrompeu Êmina, empalidecendo de vez. — Primeiro: pelo jeito como você falou, eu não tenho nenhum motivo real para não acreditar. Segundo: quem diabos mandou você até aqui e porque?

— O mensageiro de Yuga, Áker. — dissera Rosie, apressada. — Sei que vocês tiveram um contato com ele, Sekhmet deixou bem claro, vocês a prenderam com a ajuda dele. Eu não sei como ele fez isso, mas estou... pasma até agora. A primeira coisa que pensei foi que nada disso aqui é real.

— Tudo bem, tudo bem. — amenizou Êmina, tocando-a no ombro. — Você é a Rosie do passado, você está morta aqui...- ela pensara consigo mesma por alguns segundos. — Espera, isso não faz nenhum sentido. — voltara-se para a amiga. — Mas não importa. Seu segredo está seguro comigo. Há como voltar, certo? Você tem que voltar.

— E vou. — disse ela, assentindo com veemência. — Mas quero continuar seguindo mesmo assim. Não vou abandona-los.

— Está bem... — aquiesceu Êmina, olhando-a incerta. — Eu ia tentar convence-la a ir embora e se salvar, mas conhecendo bem você... — dera um sorriso simpático. — É inútil, certo?

— Nem pense nisso. — disse Rosie, voltando a andar, dando um leve sorriso.

— Mas... me diz uma coisa: Por que me escolheu como sua confidente? — perguntou a caçadora, olhando-a com curiosidade.

— Por que... — Rosie não sabia muito bem como afirmar. — ... você me parece mais compreensiva. — deu de ombros, olhando para ela.

— É uma resposta bem vaga. — disparou Êmina, levantando uma sobrancelha com um sorriso misterioso. Voltara seus olhos para a frente, suavizando a expressão. — Mas... de alguma forma, me fez sentir especial. — olhara para Rosie. — Obrigada. Pela segunda vez.

***

As correntes com trancas tombaram ao chão ao serem rompidas. O metálico portão duplo da terceira e última muralha fora aberto com um forte chute de Adam.

— Isso foi meio desnecessário. — opinou Êmina, colocando-se lado à lado com Adam, ambos entrando apressados. — Um tiro para o alto seria mais discreto.

— Essa reclamação não tem fundamento nenhum. O palácio é enorme, ondas sonoras soam bem abafadas quando ultrapassam as paredes — falou Lester, ao lado de Rosie, a arma sendo preparada. — Qualquer coisa do tipo seria chamariz fácil, ser sorrateiro em um lugar desses é praticamente impossível. Só o que basta é mostrar nossas armas, depois todo mundo vem correndo para o abraço.

— Lester cala a boca. — ditou Adam, o tom equilibrado, erguendo a mão direita. O caçador estava em pleno estado de alerta máximo.

— O que foi? — indagou ele, franzindo o cenho.

— Acho que seu falatório foi o chamariz perfeito. — disse Êmina, estacando, mantendo a arma apontada para uma direção.

— Shhh! — chiou Adam, o olhar estático como uma rocha, pedindo silêncio. — Não estão ouvindo?

As audições elevaram-se em um instante após o pedido do caçador. De fato, ouvia-se um som distante, mas claramente gradativo, aumentando de maneira aterradora. Um leve tremor fizera as poças d'água ondularem. O silêncio quase absoluto naquele cenário cinzento e nebuloso parecia prenunciar um ataque inesperado a qualquer momento. A percepção aguda de Adam salvara-os de uma guarda baixa durante um bem articulado golpe-surpresa.

Rosie virara o rosto para o horizonte, deixando descorar-se enquanto arregalara os belos olhos.

— Mas que merda... — disse, baixinho. — Pessoal! — berrou, preparando-se para correr.

Os três seguiram o olhar da jovem e vislumbraram com terror nas faces.

— Essa não! Vamos! — disse Adam, correndo na frente em disparada.

— Por que logo agora os guardas precisam vir? — resmungou Lester, correndo, agarrando a arma fortemente.

Os miméticos de estágio final voltavam para seus postos na forma de nuvens negras voadoras super-densas e tenebrosas, feito mísseis militares disparados em alta velocidade.

— Os capacetes! — lembrara-se Adam, escorregando e se escondendo rapidamente em uma parede ao rolar no chão. Pegara o objeto e colocara na cabeça, afivelando o prendedor na parte do queixo, logo em seguida pegando de volta seu rifle e torando a correr. Não tardou para ver um dos inimigos adentrarem com estardalhaço violento em uma das janelas da fortaleza de concreto. Olhara para os outros enquanto corria. Felizmente já haviam feito o ordenado.

Rosie mirara sua atenção em uma porta dos fundos, correndo a toda rapidez. Sentiu Adam tentar alcança-la, ao mesmo tempo em que Lester e Êmina corriam na direção da entrada principal. Mais miméticos tornaram a ziguezaguear em suas formas gasosas pelas salas do local através das janelas, entrando e saindo em uma aterrorizante apresentação do tamanho poder que obtiveram.

Adam vira uma luminosidade conhecida em um dos compartimentos, em simultâneo ao escutar tiros de metralhadora.

— Estão aqui! — gritou ele para Êmina.

— Pois é! — respondeu ela, atônita, continuando a correr. — Acho que nós somos os reforços!

Lester arrombara a porta principal com seu ombro esquerdo, praticamente jogando-se para dentro. Um mimético pousara no chão, rapidamente adquirindo sua forma sólida e humanoide. O mesmo andara em direção à Lester ameaçadoramente, entrando no primeiro corredor.

— É impressão minha ou vocês deram uma encorpada? — perguntou Lester, deitado no chão, arqueando as sobrancelhas ao visualizar o inimigo aproximando-se para ataca-lo.

O ser completamente coberto de preto soava como uma sombra trevosa de caráter letal. Apressara o passo, movendo seus dedos em uma espécie de aquecimento.

— Desculpe, mas não vou deixar nenhum de vocês me apalparem. — disse o caçador, apontando o rifle carregado com uma cápsula de nitrogênio líquido, logo disparando contra o mimético.

O tiro atingira certeiramente no peito da criatura, congelando-a completamente antes que começasse a correr para executar seu ataque.

Êmina viera logo em seguida, passando pelo mimético congelando e seguindo adiante no corredor.

— Anda logo! Vem! — disse ela para Lester. — Só temos dezoito minutos!

***

Ao tentar abrir uma porta de metal repleto de lodo seco, Lester avistara de relance, através da fina brecha formada, um grupo de quatro miméticos supremos correndo na sua direção. "Estas coisas parecem fantasmas de ectoplasma preto.", pensou o caçador, sacando uma granada carregada com um cápsula congelante.

Forçou mais um pouco para abrir a porta e conseguira jogar o objeto após retirar a tampa. Fechara-a com rapidez, produzindo uma batida seca.

O explosivo rolou pelo chão, dirigindo-se aos seus alvos.

Por fim, explodira, instantaneamente congelando os miméticos de uma só vez.

***

Êmina dobrara por um corredor, mantendo os sentidos alertas e a arma em riste. Deparou-se com um mimético supremo em forma líquida, deslizando feito água para uma brecha abaixo de uma porta.

Infelizmente, fora uma deixa perdida.

— Droga! — disse ela, frustrada, continuando a andar pelo corredor.

***

Adam e Rosie enfrentavam trancos e barrancos para alcançarem a tal porta dos fundos. Ambos corriam velozmente, mas sempre um mimético barrava a passagem ao passar de forma avassaladora, quase encostando nos heróis.

— Desse jeito nunca vamos conseguir! — disse Rosie, desesperada. Tudo soava como estar no meio de uma festa onde seres das trevas voavam e festejavam sua vitória. A jovem olhara para Adam, aflita. — Pode ir. Não se preocupe comigo, deixe Alexia por minha conta!

— De jeito nenhum, Rosie! — disse Adam, logo abaixando-se ao desviar de outro mimético. — Lester e Êmina vão se unir aos outros caçadores, eu vou estar ao seu lado, assegurando de que ficará protegida!

— Agora está agindo como ele. — disse Rosie, tornando a correr, referenciando Hector.

— Ei, espere! — disse Adam, tentando acompanha-la ao se levantar rápido.

Dois miméticos chegaram próximo de atingi-la e derruba-la, fazendo-a escapar por um triz.

Dois caçadores foram jogados das janelas quebradas, ambos os corpos pairando no ar por segundos para depois espatifarem-se no chão com intenso impacto. Das janelas saíram dois miméticos, tendo um deles alvejando Rosie e voando em sua direção.

Estando a poucos quilômetros da porta, Rosie sentiu-se em perigo extremo, logo tropeçando em uma pedra e caindo para frente.

— Rosie! — berrava Adam, tentando alcança-la enquanto vários miméticos o cercavam a todo momento, sem parar de voarem de um lado para o outro. Sua voz soou abafada por conta do visor de vidro reforçado do capacete que compreendia toda a face do usuário.

Após levantar-se, Rosie virara-se para ver o que vinha por trás, sentindo seu sangue gelar em questão de milésimos.

— Rosie, cuidado! — gritou Adam, desesperado.

A jovem fora atingida pelo mimético que a tornara seu alvo, o choque fazendo-a ser lançada diretamente contra a porta dupla dos fundos.

Rosie, durante a queda, sentira uma súbita dor nas costas e coluna, deslizando no chão por alguns segundos. Esboçou um semblante de dor ao sentir a pancada mais profundamente. "Adam...", pensou ela, preocupada com o caçador, que no momento lutava para se desvencilhar das investidas cruéis dos miméticos. Levantou-se gemendo, a dor ainda presente em suas costas.

Antes que voltasse para tentar salvar Adam, um braço agarrara seu torso repentinamente, puxando-a para trás. Sentira um busto, o que, obviamente, significava uma mulher... esta sendo Alexia.

— Aonde pensa que está indo? — perguntou a vidente, ao pé do ouvido de Rosie.

A jovem de capuz, em uma rápida ação, tirara o braço da profetisa, virando-se para ela ao sacar uma adaga e apontar a lâmina para seu pescoço.

Alexia vestia uma túnica preta com um capuz. Para impedir que Rosie desferisse um golpe, agarrara o braço direito da jovem para fazê-la ceder.

— Olá Rosie. Há quanto tempo. — disse Alexia, dando um sorriso cínico. Com um único piscar, a mesma exibira seus olhos completamente negros.

Tirara a adaga das mãos de Rosie, o tilintar da lâmina caindo no chão soando aos ouvidos das duas. Logo, a vidente, com certa brutalidade, a pegara pelos ombros utilizando-se de uma força descomunal para depois coloca-la contra a parede. A segurou com sua mão direita agarrando o pescoço da jovem e subindo-a levemente, fazendo a capa vermelha manchar-se com o sujo concreto.

Rosie logo percebeu o ar querendo escapar totalmente, mas pensou resistir o tempo que suportasse.

— Alexia... Está não é você. — disse Rosie, olhando-a com súplica. — Você tem que resistir. Se esforce ao máximo.

— Me esforçar? — indagou a vidente, mantendo os olhos negros e o sorriso maligno. — Já possuo absolutamente tudo de que preciso. Vê-los caírem será um deleite para meus olhos.

— Isso não vai acontecer. — afirmou Rosie, a voz enfraquecendo-se ao sentir seu pescoço sendo apertado com mais força.

— Já está definido. Sempre esteve, aliás. — disse ela, externado ódio. — É nisto que sempre quis me transformar, Rosie. Eu escolhi. Prefere que eu regrida e volte a ser aquela garota insegura, fraca e inútil? — canalizara mais força à mão que apertava o pescoço de Rosie. — Hein? Me responda! — vociferou, o tom rude.

— Está... está errada. Completamente errada. — disse Rosie, sem achar uma maneira melhor de sair daquela situação. — Nós jamais menosprezamos você...

— Ora, cale-se. — interrompeu Alexia, impaciente. — Seu falso sentimentalismo me dá nojo. Eu apaguei qualquer vestígio de simpatia que eu tinha por você, Rosie. Acha que estou doente? — ela rira com deboche. — Nunca estive melhor.

— Sim. — respondeu Rosie, fuzilando-a com os olhos. — Você está. — escondera sua mão direita discretamente. — E agora está na hora do remédio. — sacara, para a surpresa de Alexia, uma seringa contendo um líquido branco. Rapidamente enfiara a agulha no pescoço da profetisa corrompida, injetando a cura teorizada pelo Dr. Lenox e desenvolvida por Sekhmet.

Alexia soltara gemidos entrecortados, mostrando uma face temerosa, ao passo em que seus olhos abandonavam o negrejante, deixando à mostra o belo azul das suas íris.

No entanto, ela resistira ao agarrar o braço de Rosie, numa tentativa desesperada de se livrar da torturante agulha. Rosie demonstrara pavor e desilusão em sua face ao dar-se conta do erro.

A seringa fora largada do chão, vazia.

O olhar de Alexia mal se alterara, tornando a ser sombrio, como se não houvesse surtido efeito. Uma realidade inexorável parecia descortinar-se naquele instante.

— Não adianta, Rosie. Para sua tristeza, eu também previ isso. — disse Alexia. — Sei qual é o plano. E acreditaram cegamente que conseguiriam definhar meu governo por definitivo.

— O que quer dizer? — perguntou Rosie, não aguentando mais ser apertada.

— O que acabou de ver não lhe foi óbvio suficiente? A versão beta da substância corre em minhas veias, mas se trata de uma dose extra, criada especificamente para mim. Por isso não explodi em mil pedaços, nem me tornei igual aos meus súditos. Você sabe de meu sequestro, certo? Pois é. — assentiu ela, rangendo os dentes. — Eu tive que barganhar com aqueles malditos caçadores, oferecendo todo o dinheiro que resolvi roubar em vários dos saques que comandei nos últimos dois anos. E eles, naturalmente, aceitaram a oferta, como já era de se esperar de seres humanos gananciosos. Com a quantia ofertada, eles nos venderam equipamentos que teriam como base o plano que definiria este mundo como sendo habitável somente para mim e meus filhos.

— Que tipo de plano? — perguntou Rosie, a tensão em seu corpo fazendo-a ter arrepios.

— Um canhão disparador, infalível e sofisticado. Alteramos os projetos iniciais do Dr. Lenox e criamos a versão suprema. A bomba Ômega será disparada para os céus daqui a quinze minutos, cujo potencial de disseminação é capaz de se estender até uma parte do círculo ártico. Lenox formulou a cura em seu molde primordial voltada para a versão alfa, por isso seu estado atual é falho. E vocês, inocentemente, pensaram ter ganho a guerra antes de irem para o campo de batalha. Seus amigos foram traídos e enganados e morrerão sem saber.

— Não pode ser... — disse Rosie, lamentando-se por seus amigos ainda estarem crentes na vitória.

— Não vou permitir que se junte à eles para anunciar a tragédia. — disse Alexia, largando-a no chão violentamente. — Ainda assim... De que valeria? Não resta mais tempo à nenhum de vocês. — dera uma risadinha zombeteira.

Rosie caíra quase que sem forças, usando o tempo a seu favor para recuperar o fôlego.

Alexia aproximara-se, apanhando a adaga e realizando cortes nas palmas das mãos em seguida.

— Muito bem, está na hora de você voltar. — disse a vidente, jogando a lâmina. — Uma pena que não tenhamos matado a saudade como deveríamos. — ironizou.

Mantendo-se deitada, Rosie ofegava, fitando Alexia com um misto de decepção e raiva no olhar.

— O que você fez? — perguntou a jovem, direcionando sua atenção nos pingos de sangue que escorriam das mãos da vidente.

— Exatamente como vi. No ponto central. — disse Alexia, sorrindo sacanamente. Esticara os braços e mãos, deixando as palmas ficarem uma diante da outra. — Adeus, Rosie. — batera-as, irradiando uma luz branca e refulgente.

Rosie sentira o espaço ao seu redor distorcer-se em velocidade impensável. Uma espécie de singularidade formara-se sobre o símbolo no qual estava em cima, como uma bolha de plástico aquoso envolvendo sua vítima. Alexia, previamente, desenhara um sigilo que só poderia ser visível apenas quando fosse conjurado através da colisão entre dois símbolos iguais marcados na palma da mão com sangue. Uma artimanha privilegiada na bruxaria moderna, manipulada por aqueles que desejavam afastar seus oponentes, mandando-os para um local imaginado pelo usuário do feitiço. Assim era conhecida a magia para teleporte alheio.

O corpo de Rosie fora rápida e literalmente sugado por um portal dimensional, sem nem mesmo ter dado-a a chance de gritar por socorro.

CONTINUA...