Capuz Vermelho - 3ª Temporada
23 Sinais do Fim (Parte 2)
A dupla correra a fim de se afastar do resultado do único plano viável para escapar do exército de miméticos. Ficaram parados a uma certa distância, observando com expressões sérias as chamas consumirem cada pedaço da casa. Medida desesperada idealizada por Lester como único meio de salvação. Felizmente, todos os invasores que seguiram o rastro de Rosie foram incinerados. Contudo, a densa fumaça do incêndio mostrava-se um sinal para atrair mais miméticos àquele ponto da Grande Londres, embora fosse um risco aceitável a se lidar.
Dando as costas para o incêndio — já em seus derradeiros instantes, por conta da elevada umidade do ar -, Rosie e Lester andaram juntos em frente. O caçador vestia seu figurino comum para o ofício e empunhava um rifle preto, mas de origem e tipo desconhecidos.
— Me diz uma coisa, Rosie... — quis saber Lester, voltando-se para a jovem. — Ahn... Como posso dizer...
— Deixa eu ver se adivinho: Achou que morri e ressuscitei milagrosamente. — especulou Rosie, parecendo perdida.
— Na verdade, eu iria perguntar sobre como você... "morreu". — fez sinal de aspas com os dedos, dando um sorriso nervoso. — Todo mundo ficou preocupado. Você... inexplicavelmente desapareceu depois que... — fez uma pausa, notando algo estanho por trás.
— Depois de quê? — perguntou Rosie, curiosa, seguindo o olhar do caçador.
Ambos afastaram-se em simultâneo ao darem-se conta do que estava à espreita. Lester destravou seu rifle puxando o ferrolho e apontando para o alvo.
— Deixa comigo. Esse aqui vira geleia num instante. — disse ele, mirando precisamente na cabeça.
A ameaça tratava-se de uma mulher loira, com um sujo vestido amarelo, de braços finos e extremamente pálidos rastejando no chão, mantendo a cabeça baixa. Apenas ao escutar os ruídos da arma de Lester foi que resolvera erguer a cabeça... para, enfim, exibir uma face dantesca e ojerizante. Seus olhos totalmente negros lacrimejavam o líquido tóxico, tal como sua boca que expelia a substância em um profuso vômito negrejante. Emitia um gemido quase agonizante.
— Argh. — disse Lester, baixinho, pronto para atirar.
No entanto, um forte estampido ecoou no ar. Um tiro certeiro atingira a cabeça da mulher, que logo desmanchou em gosma preta devido a pele frágil, restando apenas os cabelos e o corpo inerte.
O autor do tiro viera correndo, seus fortes braços segurando um fuzil de grosso calibre.
— Rosie! — gritara Adam, chegando mais perto.
— Adam!? — espantou-se Rosie, arqueando as sobrancelhas.
— Poxa... — reclamou Lester, irritado. — Era... era meu momento, cara!
— Agradeça por eu ter salvado sua vida, não se zangar por impedir você de atirar. Não esquenta, um dia chega sua vez. — disse ele, logo dando uma risada ao se aproximar mais.
— É... — disse Lester, aborrecido. — Como se pra nós restasse mais dias.
— O otimismo não nos deixa imune à infecção, mas nos torna mais fortes para enfrentarmos aqueles que a tiverem. — disse Adam para Lester, logo voltando sua atenção para Rosie, sorrindo levemente. — Rosie... Eu...
— Não, está bem. — disse ela, forçando um sorriso. — Sei o que está achando.
— Ahn... ah, sim, é verdade. — aquiesceu o caçador robusto, suspirando. Olhou para ela de modo condescendente. — Estou... feliz que esteja aqui. Pensamos que havia morrido depois da explosão da última fábrica.
A face de Rosie ganhou mais palidez e seriedade após ouvir aquelas palavras.
— Espera aí... — disse ela, pondo as duas mãos na cabeça, parecendo querer se orientar. — Você me escreveu uma carta, dizendo que partiria para longe e que não tinha certeza se voltaria ou não. O que o fez mudar de ideia?
— Eu só fiquei por apenas um ano lá. — revelou Adam, pondo o fuzil atrás de si, prendendo-o em um cinto diagonal. — A disseminação em larga escala da substância me instigou a voltar.
Lester decidiu intervir.
— E foi então que nos reencontramos. Eu estava em um hotel barato, pago pelos caras do Exército, Adam, através deles, veio até mim, e Êmina voltou de sua terra natal, desistiu de estudar alquimia só para se juntar a nós e lutar nessa guerra. — contou ele.
— E há quanto tempo... — olhou enviesadamente para um lado. — ... as coisas ficaram assim? Há quanto tempo o mundo virou essa coisa horrorosa?
Uma pausa silenciosa marcou um rápido e preocupado entreolhar entre os dois caçadores.
— Há cerca de três anos. — disse Adam, a voz embargada em um misto de tristeza e desconfiança. Olhara-a com suspicácia. — Não se lembra?
Interrompendo a conversa, um incômodo barulho de um carro derrapando com uma freada brusca os fez sobressaltarem e olharem para a direção de onde vinha.
A porta do veículo militar roubado fora aberta, revelando seu motorista que acabava de descer.
— Muito bem, pessoal. Por ora, nosso trabalho terminou por aqui. — anunciou Êmina, com seu cabelo preto preso em um rabo de cavalo e suas duas tranças laterais que iam até seu busto.
Correndo até ela, o trio se dirigiu com certa urgência.
— Não acredito... — disse a caçadora, deixando-se formar um largo sorriso, seus olhos castanhos focados em Rosie. — Rosie! Você...
— Pois é. — disse a jovem, dando uma rápida risada. — Pelo visto, estou de volta. Parece mais...
— Encorpada? — interrompeu Êmina, pondo as mãos na cintura, gabando-se de sua boa forma. — Sejamos realistas: Andei treinando mais do que esses dois podem suportar em um mês.
— Ah, não brinca. — ironizou Lester, entediado com a forma com que sua companheira de caçada exibia-se.
— Verdade seja dita. — disse Adam. — Êmina foi a que mais cresceu fisicamente em relação a nós. Contabilizamos, precisamente, o número de miméticos mortos por ela. — disse, com ar de mistério.
— Sério? — perguntou Rosie, parecendo curiosa a respeito. Voltou-se para a amiga. — Quantos foram?
Com uma interrupção proposital antes que Êmina abrisse a boca para revelar o número, Lester sacara seu rifle e disparara três vezes em um hidrante vermelho próximo a um poste de iluminação caído sobre a lataria amassada de um carro.
— Viu só, Rosie? — perguntou Lester, olhando para ela por cima do ombro. — Isso refresca sua memória?
Dos orifícios causados pelos tiros no hidrante, jorrava o líquido negro em abundância.
— Não seja estúpido, Lester. — repreendeu Adam, incomodado com o ato do caçador. — Pra mim é lógico que Rosie já tinha conhecimento da poluição global enquanto esteve desaparecida.
— E além disso — disse Êmina, olhando-o com reprovação. — não desperdice munição. Por sorte, não são as cápsulas de congelamento instantâneo.
Rosie passou as mãos pelo rosto em claro sinal de exaustão.
— Pessoal, eu... acho que preciso de um tempo para digerir isso tudo. — fizera uma expressão incomodada, olhando para os três. — Eu tenho que admitir: É animador ver todos vocês vivos... — fez uma pausa, pensativa. — Mas eu necessito de respostas. Por que... estou com a sensação de que esse mundo não faz parte de mim. E me dói ainda mais saber que talvez seja culpa minha.
— Culpa sua? — indagou Êmina, franzido o cenho. — Mas, Rosie...
— Adam não lhe falou, certo? — perguntou Rosie, referindo-se à proposta oferecida por Yuga, confidenciada apenas com Adam até aquele momento.
— Sobre o quê? — questionou Êmina, ainda sem entender.
— Ahn... — interveio Adam, colocando-se entre as duas. — Talvez seja melhor discutirmos isso quando estivermos em casa.
— O que o Adam sabe sobre você que não nos contou? — perguntou Lester, curioso. — Mas... — desistira da pergunta anterior. — ... ao menos você sabia da poluição?
— Sim, eu vi em um jornal. — respondeu Rosie, assentindo. Olhou de modo nervoso para Adam e Êmina. — Alguns meses depois de escapar da explosão da terceira e última fábrica. — arriscou ela.
— Na qual você me resgatou. — disse Êmina, ligeiramente surpreendendo a amiga. Um olhar de gratidão foi demonstrado. — Naquela época não tive tempo de agradecer... então... Obrigada, Rosie. Por ter me tirado daquele pesadelo.
Um aperto no coração seguido de um devaneio breve sobre o sonho que tivera pareceram querer consumir as esperanças de Rosie. "A última fábrica. Êmina estava lá... Não, ainda está!".
— Rosie... — disse Adam, preocupando-se. — Você está bem? Parece pálida...
— Não... — disse Rosie, recompondo-se depressa. — Estou bem. Você mencionou casa... Onde fica o refúgio de vocês?
— Nosso novo esconderijo? — perguntou Êmina, entrando no carro e assumindo o volante. — É bem modesto, pra falar a verdade. Ele possui uma fachada nada discreta, mas foi o único que encontramos dentro das circunstâncias em que estávamos. — girou a chave, ligando o motor.
Abrindo uma das portas do veículo, Rosie entrara ao mesmo tempo em que Adam e Lester também o faziam — ela e o caçador magrelo ficando no banco de trás.
— Espera aí. — disse Rosie, sentindo um lampejo ao olhar para o carro. — Como conseguiu roubar um desses... do Exército Britânico? — questionou ela.
— Exército Britânico?! — disse Êmina, em tom brincalhão ao dar uma rápida risada. — Do que você está falando?
— Sim. O que aconteceu? — quis saber a jovem de capuz, sem achar a mínima graça.
— Apenas sucumbiram vergonhosamente. — disse Êmina, assumindo um tom de revolta ao olhar para Rosie por cima do ombro direito.
O carro dera partida e seguira por uma rua à frente. Mais adiante, no horizonte, podia-se ver nuvens azuladas e carregadas relampejando e chegando, anunciando a vinda de uma possível tempestade.
***
O prédio do principal jornal da capital aparentava estar fadado a reduzir-se em ruínas, sendo apenas uma questão de tempo para o desabamento total se realizar. A placa marrom que exibia o letreiro em relevo havia partido-se, ambas as partes jogadas próximas à entrada, especificamente sobre um carro abandonado e capotado. A parede de cor creme da fachada apresentava meio cinzenta por conta da sujeira propagada pela substância em forma líquida. Para não gerar suspeitas entre os miméticos que estivessem enfurnados nas sombras e à espreita, o quarteto decidira estacionar o veículo militar dentro de um estabelecimento semi-destruído, além de pagar seus rastros ao retirar qualquer detalhe ou objeto que comprovasse suas presenças no interior do automóvel. Miméticos em estado primário costumavam utilizar da análise prévia para detectar sinais de seus inimigos e criar expectativas para um vindouro ataque contra eles.
Tendo o que Rosie aprendera pouco tempo atrás, os de segundo estado captam o cheiro de humanos não-infectados à milhas de distância, entrando em um estado de frenesi intenso antes de seus corpos explodirem.
A pesada porta metálica fora enfim fechada, trancando-a com a válvula redonda. Segundo a explicação de Êmina, aquele bunker subterrâneo supostamente fora criado durante os primeiros indícios conhecidos de que o mundo estaria prestes a enfrentar uma calamidade de caráter global. Mas porque em um jornal? Não que Londres fosse a cidade mais segura que alguém prontamente pensaria em se refugiar — ainda mais tendo em vista seu status como marco-zero -, mas ali seria o local ideal para políticos de menor relevância e, sobretudo, para o prefeito se protegerem das constantes ameaças dos "Filhos do Caos". A medida preventiva caíra como uma luva para o grupo de caçadores, sendo eles a única frente combatente disposta o bastante a enfrentar os miméticos e seguir bravamente a perscrutar a raiz do problema... que, naquele instante, mostrava-se inalcançável e, aparentemente, fora de vista.
Por um corredor com paredes de metal branco meio enferrujado, Rosie seguia ao lado de Adam, tendo Êmina e Lester caminhando à frente rumo à sala de reunião, ambos entrando nela primeiro.
— E quanto a guerra de humanos sedentos por poder contra... humanos sedentos por poder? — perguntou Rosie.
— Decidiram dar um fim no conflito de uma vez. — respondeu Adam, lacônico. — De que adiantaria guerrear por múltiplos interesses se uma ameaça ainda maior estivesse prestes a aniquilar toda a espécie?
— Boa pergunta. — disse a jovem, aquiescendo, tornando a andar mais vagarosamente pelo corredor.
As salas à esquerda chamaram a atenção de Rosie que não titubeou em olha-las. Percebendo isto, Adam se dispôs a contar.
— Esta é a sala onde armazenamos todos os suprimentos. — disse o caçador, apontando para a primeira porta com uma pequena janela circular. — Reunimos o suficiente para, no mínimo, quatro anos.
Passando pela segunda e última sala, a jovem observara rapidamente vários garrafões de plástico azul empilhados organizadamente.
— E este aqui... — apontou Adam. — ... é nosso estoque de água potável. — desviou o olhar para frente ao passar. — Já havia bastante aqui antes de todo esse pesadelo começar. Conseguimos mais graças ao Exército e outros caçadores de confiança. — revelou. — Talvez a durabilidade seja de três anos.
— E como a poluição afetou os rios e mares... — disse Rosie, pensativa.
— Nada do que foi obtido pode se esgotar antes de irmos para a batalha final. — disse Adam, confiante. Olhou para Rosie, sério. — Se persistirmos por mais tempo e não resultar em nada... a nova demanda pode antecipar nosso fim. Em outras palavras, se consumirmos mais do que o necessário antes de retomar nossa missão de chegar ao forte dos miméticos... e se chegarmos próximo do que jamais fomos antes sem sucesso e sair com vida... ficará mais difícil respirar nesse mundo. — voltou sua atenção para a porta da sala de reunião que estava perto.
O ranger estridente da porta de metal oxidado soou agudamente no pequeno recinto.
— Não tem claustrofobia, certo? — perguntou Adam, parando bem na entrada e olhando para a jovem por cima do ombro.
Rosie fez que "não" com a cabeça.
— Ótimo. — disse o caçador, entrando primeiro.
— Bem-vindo de volta Capitão. — disse Lester, em um cumprimento irônico à Adam. Ele e Êmina estavam próximos um do outro, curvados sobre uma mesa de aço analisando uma planta da fortaleza na qual os miméticos de último estado operam como guardiões implacáveis.
— Alguém ligou? — perguntou Adam, colocando-se diante deles, olhando para o projeto.
— Nada até agora. — respondeu Êmina, o tom de preocupação. — Olha... minha ansiedade para iniciarmos logo esse plano anda acabando comigo ultimamente.
— Se o Mestre não tivesse morrido... — disse Lester, lamentoso. — ... ainda haveria alguma chance de sermos autossuficientes. Não é? — olhou para os outros.
— Eu não teria tanta certeza. — discordou Adam, apoiando suas mãos na mesa. — O egoísmo de alguns remanescentes ia falar mais alto pela disputa por poder. Sorte a nossa nenhum dos que encontramos ter nos causado prejuízos até agora. Mas não ficaria surpreso se... se caso falhássemos...
— Nós não vamos falhar. — disse Rosie, firme, chegando mais perto.
Os três a fitaram por alguns segundos.
— Eu quero saber. — pediu ela, séria, olhando para cada um dos amigos.
Suspirando longamente, Êmina virou-se e logo retirou uma caixa numa estante de madeira, na qual constavam vários papéis, principalmente artigos jornalísticos.
Remexendo na papelada, ela pegara uma manchete em especial.
— E acabo de lembrar... — disse Rosie, parecendo aflita. — Alexia! Hector! Sabem o que aconteceu com eles?
— Sobre o Hector... — disse Lester. — ... nós, honestamente, não sabemos absolutamente nada do que houve com ele. Esperávamos que você fosse voltar com ele... mas pelo visto tomou chá de sumiço permanente.
— Sim, é verdade. — aquiesceu Adam, endurecendo o tom de voz. — O filho da mãe não escapou, pelo que parece.
Engolindo em seco, Rosie confirmara a si mesma ao sentir o rancor na face do corpulento caçador.
— Aqui. — disse Êmina, finalmente encontrando o que procurava na caixa. — Essa é de dois atrás, pouco antes dos veículos informativos fecharem as portas. — mostrara o artigo colocando-o sobre a mesa. — De cortar o coração, não? — perguntou ela, olhando para Rosie com certa tristeza nos olhos.
Rosie sentira ser pressionada por aquelas paredes daquele cômodo meio apertado ao ler o que estava escrito, ao mesmo tempo em que olhava para a impressionante imagem abaixo do título.
— "A Imperatriz da humanidade decaída retorna para espalhar mais terror.". — desceu os olhos para a foto mais abaixo, ficando boquiaberta. — Isso... não pode ser real. — afastou-se um pouco. — Mas como? Por que? — olhara para Adam e Lester, depois para Êmina com uma expressão desesperada.
A imagem exibia a profetisa de Abamanu, andando por uma rua, cercada de seres com formas humanas totalmente cobertos pela substância tóxica, e vestindo um traje — parecendo ser uma mortalha — da mesma cor de seus olhos: Preto.
Ainda abalada, Rosie tentou imaginar várias direções para que Alexia se tornasse um alvo tão fácil.
— Nós nem mesmo sabíamos que Alexia tinha sobrevivido depois que Abamanu retornou. — disse Êmina. — Boatos de caçadores sobreviventes contam que a capturaram e lhe submeteram a interrogatório por durante cinco horas, sem interrupções.
— Ela foi ameaçada de ser purificada caso não contasse a verdade. — disse Lester. — E funcionou. — disse ele, assentindo para si mesmo.
— A folha, Lester. — ordenou Adam, gesticulando com a cabeça para o companheiro retirasse um papel por baixo da planta.
Franzindo o cenho, Rosie inclinara-se levemente para estudar as transcrições na folha mostrada.
— O que significa tudo isso? Parece mais um tipo de fórmula matemática desconhecida.
— Muito mais do que números, elementos e incógnitas... — disse Êmina, o tom sério e firme ao olhar para Rosie. — É a única saída para livrarmos o mundo desse expurgo.
— O que quer dizer? — perguntou Rosie, pedindo por especificações.
— A cura. — disparou Lester.
— Graças ao Exército... de novo. — disse Adam, assentindo para si mesmo.
— E como conseguiram? — perguntou Rosie, ansiosa.
— O Dr. Lenox, como você deve saber, havia sido sequestrado pelos soldados de Abamanu para obriga-lo a formular a composição da substância. — ditou Adam, olhando para Rosie fixamente. — Foi então que, antes da invasão da última fábrica, ele, secretamente, gravou uma mensagem numa fita e a escondeu, com a certeza de que quem quer que fosse lhe resgatar faria uma varredura completa no laboratório e a acharia.
— Os caras do Exército confiscaram a fita depois do desmanche completo da fábrica. — informou Êmina. — Mas depois que o alerta de segurança foi soado e todos nós termos nos reunido outra vez, eles cederam à nossa vontade, queríamos aquela fita a todo custo.
— Alguém mais experiente que nós em química foi escolhido para ouvir a fita e transcrever a fórmula. — disse Lester, meio descontente com o fato de não ter sido selecionado. — Foi então que nós três decidimos tomar a frente maior, por sermos da Legião. Mesmo em desvantagem numérica.
— E onde está o Dr. Lenox? — perguntou Rosie, com ar de expectativa pulsando no olhar.
Um silêncio recaiu sobre o ambiente, denotando um sentimento de autêntico pesar demonstrado pelas faces desalentadas do trio que se entreolhava rápido.
— Ele está morto. — revelou Adam, o tom baixo.
Uma estranha sensação de impotência acometera Rosie de repente. Olhara para o nada, divagante sobre a causa da morte do genioso cientista. "Abamanu o forçou se auto-infectar com a própria invenção. É meu único palpite.".
— Como sabem disso?
— Ele simplesmente foi considerado. — respondeu Êmina, dando de ombros. — A causa mais aceitável é que ele tenha morrido na explosão.
— Mas... — insistira ela, ávida por respostas. — E a cura? Por favor, me digam que a possuem... que alguém especializado a produziu. — seus olhos percorreram cada um deles.
Lester caminhara em direção a uma caixa metálica de tamanho médio, seu formato semelhante a um cofre. Girara o círculo inserindo a combinação correta. Por fim, abrira-o e retirara seu conteúdo: Um cilindro de ferro, tendo nos dois lados duas tampas similares à porcas de parafusos. No interior do objeto encontrava-se a salvação para o futuro de toda a humanidade.
O caçador estrategista pousara o cilindro sobre a mesa, o mesmo fazendo um ínfimo baque seco.
— E eis a caixa de Pandora do bem. — disse ele, tentando soar descontraído.
— É dentro dessa coisa que está o antídoto? — perguntou Rosie, analisando-o.
— Sim. — respondeu Adam. Olhou para ela com um sorriso misterioso. — Deve estar bem curiosa para saber quem é o responsável por tê-la criado... não é?
— Não faz ideia do quanto. — disse Rosie, dando um fraco sorriso.
— Em verdade, eu diria que é uma granada explosiva avançada. — comentou Lester, olhando para o recipiente bem fechado.
— Nossa última missão, que ainda precisa ser autorizada, consiste em lança-la exatamente em um ponto de proximidade com a fortaleza ou mesmo dentro dela. A prioridade é matar o maior número de miméticos possível antes da detonação. O gás vai se expandir em um raio de 200 quilômetros, espalhando a cura por toda a extensão do país, quem sabe até mais além. — disse Êmina, parecendo esperançosa.
— Será que podem me mostrar onde ele está? — pediu Rosie, olhando ao seu redor. — Se é que existe algum lugar onde ele possa se esconder... — falou, com ar meio risonho.
— Venha comigo. — disse Adam, puxando a mão de Rosie levemente em direção a uma porta que a mesma não havia percebido. — Devo dizer que ela menciona você com certo ódio. — revelou ele, levantando uma sobrancelha.
Um arrepio repentino aliado àquela dica fizera Rosie não ter mais dúvidas sobre quem a Legião havia sequestrado para favorecer seus esforços quanto à cura. A porta, enfim, foi aberta.
***
Os olhos azuis daquele ser amarrado na cadeira — bem no centro da escura sala — deram de encontro com os de Rosie. Um breve contato visual fez despertar duas reações diferentes. Em uma deu-se o renascer de uma fúria há muito abrandada. Já noutra fora a estupefação completa. A face atônita de Rosie permaneceu por vários segundos, a pessoa à frente fazendo-a estacar bem na soleira.
— Não tenha medo. — sussurrou Adam, bem no pé do ouvido da jovem. — A fera está desarmada e dócil. Pode entrar.
Convencida de que estava segura, a privilegiada de Yuga adentrara a passos lentos, encarando com extrema seriedade a mulher caucasiana de cabelos pretos bem alisados. Baixara o capuz por conta do ar meio abafado do aposento.
Adam as deixara a sós, permitindo a porta de ficar entreaberta.
Um som meio distante do toque de um telefone foi escutado, mas Rosie cravou sua atenção na subordinada dos amigos.
A jovem dera uma rápida risada, como se quisesse exibir deboche.
— O que aconteceu você? — olhou a rival dos pés à cabeça.
— Não se vanglorie apenas porque se vê de pé diante daquela que deveria ter lhe dado o destino certo. A morte certa! — bradou Sekhmet, forçando as amarras que apertavam seus braços atrás da cadeira. A deusa vestia uma blusa branca sem mangas e a calça de couro preto e os coturnos. — Rosie Campbell, você pagará caro por isso. Assim que eu recuperar o que me pertence, vou faze-la em pedaços!
— Ótimo. — disse Rosie, fria. — Então me diga o que eu fiz. Aliás, como você veio parar aqui?
— Aquele maldito... mensageiro. — disse a deusa, virando o rosto para não ter que olhar nos olhos de Rosie. — Por sua causa, o favoritismo de meu amado foi engrandecido. Tentei respaldar meus argumentos sobre minhas motivações, mas todo o meu esforço para salvar o império me foi retribuído, injustamente, com punição. Tiraram aquilo que me tornava mais forte. — voltou-se para Rosie, fuzilando-a com um olhar. — Agora estou destinada a passar toda a eternidade fixada a esta... casca nojenta. — afirmou, o tom de repúdio. — Tentando me adequar a uma vida medíocre como uma reles mortal em um mundo decadente.
— Que tal irmos direto ao ponto? — sugeriu Rosie, claramente impaciente, dando alguns passos adiante. — Se sequestraram você, então significa que meus amigos... — fez uma pausa, hesitante. — ... agiram por influência de Áker.
A deusa petrificara sua expressão descontente.
— Vamos logo, fale. — insistiu Rosie, aborrecendo-se.
— A trouxeram para me matar? — questionou Sekhmet, a fala rápida.
— Claro que não. Seria mais tempo desperdiçado. — disparara Rosie, sem medo.
— Então por qual razão? Por que está aqui? Por que está viva? À distância assisti á destruição da derradeira base de operações do inimigo, e pude confirmar sua morte.
— Não vou pedir que me forneça detalhes. — decidiu Rosie, andando para um lado, determinada. — Não estou nem um pouco disposta a ouvir más notícias sobre o passado.
— O passado? — indagou Sekhmet, fazendo cara de estranheza. Dera um sorriso sacana e cínico ao fitar sua inimiga. — Você... não é ela? É? Não, você é Rosie Campbell, mas percebe-se a impotência e o medo nos seus olhos. A mesma falta de aptidão para carregar o imenso poder que, desmerecidamente, lhe foi conferido. — fizera uma pausa, olhando-a com suspicácia, inclinando-se levemente. — O mensageiro trouxe a versão despreparada de sua protegida... para assistir o fim definitivo da prole de insetos.
— Isso não vem ao caso. — disse Rosie, categórica e firmemente. — Sobre a fórmula para se criar a cura...
— Ah... — grunhira em incômodo, revirando os olhos. — Nós, seres superiores, possuímos uma capacidade singular de assimilar o conhecimento dos mortais, assim que nos fixamos a receptáculos. Agora diga-me que seu ínfimo intelecto compreendeu, para que eu não tenha de explicar novamente.
— Não precisa. — respondeu Rosie, secamente. — Já é o bastante. — dera as costas, estando de saída.
— Sei para onde irá com eles. — afirmou Sekhmet, fazendo sua rival parar no caminho. — Sugiro que separe-se deles e pegue um atalho... para visitar seu túmulo. Encare os fatos, mortal: Nossos mundos estão condenados.
Rosie mantivera-se de costas e parada, fechando os olhos ao suportar a implicância sórdida da deusa.
A pesada porta fora aberta subitamente antes que a jovem fosse sair.
— Rosie, melhor se preparar. — disse Lester, chamando-a com um ar de urgência.
— E a missão?
— Fomos autorizados, finalmente. — confirmou o caçador, assentindo com veemência. — Temos boas e más notícias.
CONTINUA...
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