Capuz Vermelho - 3ª Temporada
17 Senhor Escarlate (Parte 4)
"Onde está você, Áker?", pensava Rosie, desesperando-se gradualmente pela insuportável demora do retorno do arauto de Yuga. Já podia sentir o fio cortante da lâmina dourada apertar contra uma veia de seu pescoço. A cada minuto, o nível de ameaça elevava-se. Engolindo a saliva, a jovem tentou manter sua tranquilidade mediante às infâmias de Sekhmet.
— Acho que não precisará mais disso. — disse a deusa, visualizando o amuleto largado no chão. Arregalou bem os olhos, tentando forçar algo contra o objeto. — Mas o que... — algo não funcionava. Apertara a espada com mais força no pescoço de Rosie. — Por que não estou conseguindo desintegrar aquele emblema? Não minta desta vez!
— Como eu vou saber? — indagou Rosie, sem manifestar raiva.
— Não se faça de desentendida, sua verme! — disparou ela, colérica. — Algo está me impedindo de agir, sei que teve um encontro com o inimigo de meu amado... Provavelmente, preferiu à ele, mas estava tão indecisa, não sabia se preferia a morte ou o corrompimento. Isto é obra dele! Não é?
— De onde tirou essa ideia? — perguntou Rosie, franzindo a testa. — Abamanu, Yuga... Não tenho preferência por nenhum dos dois. Eu apenas quero salvar meus amigos. Eu não escolhi ter este poder dentro de mim. Se precisa culpar alguém... — sua impaciência começava a demonstrar sinais. — ... culpe à ele! O seu esposo! Para você, que é uma deusa com poder ilimitado, é muito fácil julgar um reles mortal por um erro cometido por outro. — fez uma pausa, sentindo um suor frio formar-se na testa. — Sei como se sente... sei como é se sentir traída por alguém que depositou tanta confiança.
— Cale-se! — exclamou Sekhmet, esbaforida, agarrando-a mais fortemente. — Ou eu a mato aqui e agora.
— Então vá em frente. — arriscou Rosie, sem hesitação. — Não vou culpa-la, nem julga-la por isso. Pensando bem, seria uma libertação. Estaria me livrando de um fardo que só me consome a cada dia. — olhou para o amuleto no chão, a expressão cansada. — Não sou merecedora deste poder. Então me mate... antes que isso me mate.
A deusa, exibindo sua chacota escarniante, dera uma risada mefistofélica. Rosie sentira seus tímpanos vibrando, seguido de um eriçamento dos pelos.
— Matar você!? O que armazena dentro de si mesma?! Inacreditável... — zombou ela, forçando a espada cada vez mais no pescoço da jovem. — É mais débil do que mais imaginei. Veja bem: Você está viva... por enquanto. Se o poder avassalador de meu amado alcançasse sua pele, caso você fosse realmente indigna, seu corpo explodiria em mil pedaços instantaneamente. Não... — arqueou as sobrancelhas, novamente pondo sua boca ao pé do ouvido de Rosie. — Você não é indigna. Se fosse, seu corpo rejeitaria tamanho poder. É isso que me revolta. Ele ter escolhido um execrável mortal para em seguida utilizar como carcaça e acabar com a raça daquela quimera.
— E o que você queria que acontecesse, afinal? — perguntou Rosie, sentindo que seu tempo estava quase se esgotando.
— Que ele aceitasse o meu amor pelo império... e por ele. A salvação do reino estava diante de seus olhos... mas ele preferiu uma simples vida humana. Eu me perguntei: "Por que?". Por que ele teve de tomar uma decisão tão precipitada, alimentando um ego ferido... uma ferida que meu governo sararia, se ele confiasse nos meus instintos, nas minhas propostas, na minha gestão! — exasperara-se Sekhmet, deixando escorrer uma lágrima de seus belos olhos azuis. — Eu vou tomar de você aquilo que me foi negado.
— Não enquanto eu respirar. — disse uma voz, repentinamente surgindo no recinto. Os olhos de ambas se direcionaram ao mesmo tempo para a figura que aparecera. Um mordomo negro, vestindo um smoking e de face séria.
— Áker! — chamou Rosie, inquieta com a chegada inesperada do mensageiro.
— Calada! — ordenou a deusa, severa. Voltou-se para o arauto, fuzilando-o com o olhar. — Já devia imaginar que tomaria uma atitude para barrar minha próxima investida.
— Não é óbvio? Rosie está sob minha proteção. — disse Áker, dando alguns passos à frente. — E vou reafirmar isso quantas vezes forem necessárias quando você contrariar este fato. — fez uma pausa, olhando de relance a espada dourada na mão de Sekhmet. — Largue-a. Sei por que está aqui e não é apenas sobre Rosie.
— Ah é?! — disse a deusa, andando alguns para trás, levando Rosie. — Já posso adivinhar...
— E nem precisa. — retrucou Áker, austero. — Mihos violou uma regra. Estava sob detenção. Não vou me responsabilizar pelas imprudências que ele cometer. Aliás, já está o fazendo. Me deparei com inúmeros cadáveres humanos espalhados, e é evidente que ele é o autor destas barbáries.
Um sorriso cínico esboçou-se na face implacável de Sekhmet. O arauto, por outro lado, a fitou com olhos estreitos, suspeitando de seu envolvimento.
— Espere. Não me diga que parte daquelas matanças também foi sua obra...
— Mas é claro, seu serviçal imprestável! — redarguiu a deusa, impaciente. — Eu precisava me certificar de que ele havia escapado do castigo. Isto só foi possível graças a sua presença, que pude sentir por conta do amuleto que Rosie Campbell carrega. Havia emitido um sinal e assim o captei. Um mortal, estando na presença de um deus, pode ser detectado por outro ser superior se caso portar um emblema do império. — olhou para Rosie, permanecendo a ameaça-la. — Não consegui desintegrar o emblema, e isto também o coloca no mesmo pedestal que os mortais. Como se a traição de meu amado não fosse humilhante o bastante!
— Já chega! — disse Rosie, externando sua fúria. — Me mata de uma vez, se é o que você quer! Já disse que não me sinto merecedora, provei que estou pouco me importando se isto me torna especial ou não. Então, anda logo! — olhou para Áker, decididamente preparada.
— Rosie, não precisa ser assim. — disse o arauto. — Há sempre uma outra saída. E você sabe muito bem qual.
Um certo alarido incômodo foi tornando-se audível à medida que se avizinhava das portas duplas. A confusão resumia-se a sinistros gritos de dor, súplicas descontroladas e ruídos indistinguíveis. As atenções dos que estavam presentes na sala voltaram-se para as portas. Pegando-os de surpresa, um rápido e denso espincho de sangue manchou os vidros quadrados das portas duplas, fornecendo um indicativo de um brutal assassinato... e uma presença já imaginada por Áker e Sekhmet.
As portas foram abertas com estardalhaço, através de um chute dado por ninguém menos que o herdeiro do deus solar Yuga, Mihos.
O rapaz segurava nas mãos dois corações humanos, saboreando a carne ao morder um pedaço como se estivesse apreciando uma iguaria saborosa. Seus antebraços e mãos estavam completamente encharcados de sangue.
— E veja só... — disse, olhando para Rosie com um sorriso sacana, ainda mastigando. — A leoa feroz finalmente conseguiu agarrar sua presa. — voltou-se para Áker. — E o empregado voltou para me buscar.
— Muito pelo contrário, Mihos. Vim auxiliar esta missão. — disse o arauto, firme na sua posição. — Abomino completamente o que tem feito nas proximidades, mas por uma causa de força maior, você não será punido. Não hoje.
O assassino mordera mais um pedaço de um coração, sua boca sujando-se de sangue puro. Rosie o olhava, abismadamente enojada com o que assistia. "Preciso sair daqui o mais rápido possível!".
— Áker. — chamou a jovem. — O que realmente quis dizer com auxiliar na missão?
— Na verdade... — intrometeu-se Mihos, falando de boca cheia. — ... ele trouxe alguns companheiros de aventura. Sem querer ser dedo-duro... mas acho que ele acabou se envolvendo em algo que não lhe dizia respeito.
— O resgate de uma vida inocente, não. — argumentou Áker, parecendo irritado. — Mas a segurança de Rosie, sim. Eu já imaginava que sua mãe certamente tentaria algo contra ela, então tive que prontificar meus aliados e a mim mesmo para interceptar qualquer ação violenta contra Rosie. Deixei que cuidassem da primeira parte do plano, eu daria conta do restante. — revelou, voltando-se para Sekhmet, transparecendo certo amargor.
— E o que consiste esta primeira parte? Diga agora. — exigiu Sekhmet, mantendo sua refém imóvel.
— Abamanu não contava com a possibilidade de que eu trouxesse meus aliados até aqui para executar o plano. Por isso, há marcações invisíveis nas paredes desta fábrica, e, por esse fato, obviamente, não consigo utilizar boa parte dos meus poderes livremente. Nem mesmo você, nem Mihos. — contou Áker, sem intenção de esconder nada a respeito do que havia planejado. — Eu os orientei a agir corretamente, procurando liberar o máximo de energia possível para, ao menos, irradiar os emblemas para que pudesse encontrar marcações. Como nosso inimigo pouco sabe dos atributos de um emblema físico, foi viável a transferência de energia.
— Transferência!? — disse a deusa, intrigada com a artimanha de seu subordinado. — O que você e aqueles hereges fizeram?
— Muito simples. — disse Áker, calmamente andando pela sala com as mãos para trás. — Como as marcações, após serem descobertas, foram nulificadas após um período de 5 minutos, eles mantiveram os emblemas suspensos no ar e absorveram suas energias residuais. — fez uma pausa, dando um leve sorriso de satisfação. — Com muita sorte, não foram flagrados por nenhuma das aberrações ou mortais que participam da missão de resgate. Essa energia limitada foi suficiente para criar duas esferas de teor explosivo afixadas abaixo da terra... e assim permitir a destruição das maquinações responsáveis por produzir a substância maligna. — fitou seriamente sua superiora, querendo transmitir a urgência que a situação possuía. — Este lugar será completamente destruído daqui a 30 minutos. A escolha é sua, Sekhmet. — andara alguns passos à frente, encarando-a. — Deixe Rosie viver ou deixe-se morrer. Até o esgotamento do tempo, vai estar vulnerável demais para resistir à explosão. As marcações, mesmo invisíveis, vão consumi-la mais rápido.
Rosie conseguia sentir a pesada respiração de Sekhmet engrandecer, uma enervação desconfortável. A deusa bufara em ódio, desejando, mais do que tudo, reaver suas habilidades para fulminar seu criado até não que não houvesse sobras para que o mesmo pudesse reconstituir-se. Rosie fechara seu punho esquerdo, em uma tentativa de canalizar sua apreensão e converte-la em coragem para usar em um momento propício de escapatória. Por mais que parecesse improvável... ou sua vontade de morrer estivesse mais nítida, a sobrevivência provinda do instinto parecia possuir a voz da razão.
— Então foi isso. — disse Sekhmet, a voz carregada de rancor. — Já havia considerado essa possibilidade, isto explica sua confiança irritante. Tinha em mente me encurralar!
— Sendo honesto... — começou Áker, falando de modo solene. — ... não esperava que houvessem marcações invisíveis no interior da estrutura, embora sabendo que você estaria aqui para investir contra Rosie novamente. Mas veio a calhar.
— Seu maldito! — berrara a deusa, sem conseguir manter sob controle sua vontade em desferir um corte no pescoço de Rosie. — O que o deixa tão confiante desta forma? Está começando a construir os muros da sua arrogância, serviçal? — dera um sorriso cínico. — Eu vou mata-la e não existe nada que você possa fazer para me impedir.
— Aceite, mamãe. — disse Mihos, comendo o último pedaço de coração que restara nas mãos. — Não querendo desrespeita-la, mas... ainda existe uma chance de escapar com a cabeça erguida... e inteira. — dera uma risadinha zombeteira, olhando para a deusa e o arauto.
— Como se atreve? Está se rebelando contra sua própria tutora!? — reclamou ela, encarando-o ferozmente.
— Não sei nem porque estou aqui... mas confesso que estou me divertindo. — disse ele, sorrindo.
— Não deveria mesmo estar aqui. — retrucou Áker, olhando-o reprovativamente. Voltou-se para Sekhmet. — E você esteve tão cega pelo desespero que não usufruiu das limitações.
— Veremos quem cairá primeiro. — desafiou a deusa. — Não vou solta-la até que você decida como vai ser. No entanto, sugiro que alerte seus aliados e ordene-os a abortarem a missão. Não se esqueça, criado. Nós três estamos vulneráveis.
— Ah, é mesmo? — indagou Áker, soando irônico em sua expressão. — As marcações estão fixadas em todas as paredes. Sim, eu deveria me sentir fraco... sem forças... mas apenas me sinto sem meus mecanismos de ataque e defesa. Você não pode matar Rosie com a faca dourada. — deu um novo sorriso leve. — Estou a menos tempo nesta sala do que você. Mihos está menos do que nós. As quatro paredes podem estar marcadas, mas não estou diante de nenhum perigo. Estou posicionado de modo que me deixa afastado delas. — apontou para trás com o polegar. — A marcação desta parede está poucos metros à minha esquerda, não estou diante dela, portanto estou fora de seus efeitos. Mas você...
Mihos parecia não conseguir reprimir uma gargalhada de escárnio contra sua mãe, segurando-se ao máximo.
A expressão da deusa alterou-se para um pânico repentino.
— Atrás... de mim?! — disse ela, frustrada. Olhara para o chão, desalentada. — Mas que... — fechou os olhos, apertando-os intensamente enquanto rangia os dentes em sua fúria interna.
Rosie sorrira consigo mesma ao perceber e entender a insinuação de Áker perfeitamente. Obcecada pelo desejo incontrolável em querer assassinar Rosie, Sekhmet compenetrou-se em sua missão. Contudo, sem antes verificar sua segurança, visto que estava em território inimigo, nem ao menos cogitando usar seu emblema para certificar-se quanto à presença de marcações de aprisionamento e enfraquecimento. A cortina da ilusão rasgara-se, fazendo-a sentir-se mais humilhada.
Agindo rapidamente, Áker abrira sua mão direita, telecineticamente pegando o amuleto que pertencia à Rosie. Fechara o punho, sentindo novamente o poder ser restabelecido em seu receptáculo, seus olhos brilhando uma luz alaranjada. A absorção fora apressada, mas necessária para aquele instante de pura tensão.
Erguera a mão esquerda diretamente à Sekhmet, utilizando sua telecinesia para tirar a espada dourada das mãos da deusa. Vendo a arma cair no chão, Rosie sorrira, se desvencilhando das garras da esposa de Yuga, logo em seguida desferindo uma cotovelada em seu rosto, depois virando-se e aplicando um chute na barriga da mesma. Sekhmet, sentindo o peso do golpe como jamais pensaria, tivera suas costas chocando-se contra a parede — na qual estava gravada a marcação invisível.
A fim de mante-la o mais distante possível de Rosie naquele instante, Áker a jogou, telecineticamente, direto para a parede à esquerda. A deusa soltou grunhidos de dor enquanto seu corpo chocava-se contra o concreto — que se rachou com o impacto — e tombara no chão.
— Obrigada. — agradeceu Rosie, aproximando-se de Áker, respirando com mais alívio. Colocou-se lado à lado com ele, voltando-se para Mihos. — Ainda não estou muito certa se foi interessante conhece-lo.
— Pode ter certeza que pra mim foi. — disse o filho de Yuga, sorrindo para ela, com malícia no olhar.
— Espero não vê-lo tão cedo novamente. — disse Áker, a face séria ao encara-lo.
— Idem. — respondeu Mihos, friamente, em seguida limpando sua boca antes suja de sangue.
Enquanto Sekhmet levantava-se, começando a sentir as limitações das marcações corroê-la aos poucos, um tremor leve ocorrera, fazendo cair do teto um pó fino e alguns pedaços pequenos de concreto. Estremecendo, Rosie virara-se para Áker, preocupada.
— O que foi isso?
— Acabou o tempo. — disse ele. — Hora de irmos. — tocara-a no ombro. Ambos desapareceram da sala na velocidade de um pensamento.
Respirando fundo satisfatoriamente, Mihos andara tranquilamente até sua mãe, combalida pelos efeitos das marcações. Os tremores ficaram mais contínuos e elevados.
— É difícil de acreditar. — disse ele, logo fazendo ruídos com a boca e balançando a cabeça, decepcionado. — O que esperava, afinal? Tudo bem que ninguém disse que seria fácil, mas adentrou no território do inimigo. — fizera uma cara de incômodo. — Era óbvio que haveria armadilhas para qualquer um de nós. A senhora, melhor do que ninguém, deveria saber disso.
— Ora, cale-se, seu insolente. — disse Sekhmet, apoiando-se na parede, mal aguentando a pressão. — Você também deveria estar sendo afetado... — estreitou os olhos, a expressão de desconforto. — Por que?
— Mãe... — disse Mihos, dando um sorriso seguido de uma risada rápida. — Ficou estagnada atrás da marcação o tempo todo, mantendo aquela mortal como refém... E veja só. Não estou sentindo coisas estranhas pela mesma razão que o mensageiro: Reconheci as marcações com meus próprios instintos e não fiquei posicionado diante de nenhuma delas. A senhora costumava ser mais esperta.
— E o que pretende fazer? Me deixar aqui para morrer? — questionou a deusa, tentando suportar a fraqueza. — Pretende se aliar com Rosie Campbell e seus compatriotas medíocres? Nem pense em me trair... como seu pai o fez.
O herdeiro suspirara, sem abandonar o sorriso de cinismo na face.
— Consigo me virar melhor como espectador. E quero estar no melhor lugar da plateia para ver um desfecho surpreendente. — fez uma pausa, sacando um palito e tirando os restos de sua refeição nos dentes. — Sempre esteve tão aberta a desafios. Por que não experimenta sair correndo? Como uma vigorosa mortal. — sorrira com sarcasmo.
Soltando rosnados de raiva, Sekhmet vira seu filho desaparecer rapidamente. Seus olhos alteraram-se, adquirindo um aspecto animalesco... especificamente felino. Os tremores continuaram e a deusa resolvera, por fim, cambalear em direção as portas, saindo trôpega da sala e amaldiçoando internamente seu filho.
***
Rosie podia sentir a terra vibrar sob seus pés. Talvez parte daquela terra estava começando a rachar-se gradativamente. Vendo-se do lado de fora da fábrica, a jovem voltara a respirar o ar puro... ainda mais após olhar para cima e vislumbrar a chaminé deixando de expelir o gás tóxico e negro. Um fraco sorriso surgiu em seu rosto. Áker a fitava com orgulho.
— Sinto muito se eu tiver arruinado sua performance como líder... — disse o arauto, encabulado.
— Não, de forma alguma. — disse Rosie, mostrando-se grata. — Eu também já temia que Sekhmet fosse me pegar desprevenida.
O arauto, de repente, olhou de esguelha para a esquerda. Voltou-se à Rosie, decidido.
— Encontro você na sua casa. Preciso ir.
E sumira desafiando a percepção. Desconfiada, Rosie imaginou o que estaria para ser falado particularmente com ela. Dos fundos da fábrica uma porta se abrira, dando passagem para dois soldados carregando o pesado corpo de um homem vestindo uma camisa branca, molhada e suja. O sol voltara a brilhar com mais nitidez, as nuvens tornando-se menos volumosas.
Notara também, do outro lado, vários caçadores e soldados apressados e desesperados com o tremor, saindo e carregando caixas retangulares do tamanho de um ser humano, dirigindo-se à um dos veículos estacionados na floresta à frente. Contudo, as atenções da jovem retornaram para o resgatado que estava sendo trazido de volta ao mundo externo...
— Ei! — gritou ela, correndo, sua capa vermelha ondulando com o brisa. "Se for quem eu penso que é...". Ela já se via sorrindo levemente.
Por fim, Rosie estava frente à frente com os soldados... e a vítima resgatada, que parecia estar fraca demais para compreender a realidade à sua volta.
— Senhorita Campbell, estávamos preocupados. — disse o caçador, ainda com a máscara de proteção, ofegando. — Cuidamos de tudo lá embaixo.
— Sim, é verdade. — disse o outro, eufórico. — Fomos até o subterrâneo, ele estava trancafiado lá, completamente pálido, acho que também está desidratado.
— Conseguimos acha-lo graças a um interrogatório conduzido por nós com um mimético. — disse o primeiro.
— Tivemos sorte em arrancar a revelação dele. Dois minutos depois de sairmos, ele estourou feito balão, deixando a sala encharcada de gosma preta. — fez uma pausa. — No entanto, ele pareceu ter sobrevivido... de uma forma estranha... foi muito grotesco e bizarro, era como se aquela gosma tivesse vida própria e criasse outro ser com aspectos humanos.
— Entendo. — respondeu Rosie, secamente. — Presumo que houve tempo para congelarem ele.
— Sim, precisamente. — disse o segundo, assentindo. — Como não participou de boa parte da missão, terá que fazer o relatório ao General, sobretudo em relação ao resgate.
— E agora não sabemos a causa desse terremoto... — disse o primeiro, aflito. — Ouvi suspeitarem de uma bomba ou algum outro dispositivo de explosão.
— Então é melhor irmos, rápido. — decretou Rosie, apressando-se. — Parece que vai mesmo explodir, não temos muito tempo. — correra até o veículo militar, os caçadores indo atrás dela e trazendo o resgatado.
Não havia contagem, mas certamente o tempo estava em seu fim. As estruturas de concreto da fábrica começaram a criar rachaduras continuamente. A primeira explosão ocorrera, próxima à chaminé, derrubando sobre algum teto de um corredor ou sala. Os baques foram sentidos de forma vibrante e retumbante.
Os veículos militares haviam iniciado a ignição dos motores, todos eles partindo para longe daquele território prestes a virar cinzas. Temia-se que a provável explosão cobriria um raio de 10 km até floresta, liberando uma densa nuvem de poeira e fumaça. Um papel foi entregue à Rosie por um dos soldados do Exército Britânico. Ela e alguns outros estavam na carroceria de um veículo em alta velocidade no solo da floresta. Lendo as especificações do relatório, ela compreendeu a forma selecionada para desativar a máquina produtora da substância. Todavia, algo a intrigou. Em uma linha dizia-se que "um estranho calor subia do chão, abafando o ambiente a uma temperatura relativamente alta na sala central, onde se encontra a enorme máquina que produz a substância tóxica em sua forma gasosa."
Franzindo as sobrancelhas, a jovem imergiu em devaneios profundos sobre a causa. "Áker havia mencionado esferas de energia com teor explosivo... seus aliados driblaram as marcações e assim conseguiram seguir sem se preocupar com nenhum outro obstáculo... Sim, não há dúvidas. Eles invadiram a sala central antes dos soldados chegarem para desativar a máquina.".
Um gemido do resgatado a desprendeu das divagações. Ele estava ao seu lado, seu rosto robusto iluminado pelo sol daquela tarde de verão. Abria devagar os olhos. Rosie sorrira de leve, observando-o acordar. Parecia ser o mesmo, mas com duas diferenças: Estava totalmente careca e pálido.
Em sua face formou-se um belo sorriso direcionado à Rosie. Policiou-se quanto a conter sua alegria ao revê-la.
— Está tudo bem. Você está livre. — disse Rosie, condescendente. — Bem-vindo de volta... Adam.
Um tremor súbito sacudira o veículo, como se a terra estivesse cedendo. Um intenso estrondo ecoou pelo ar, fazendo a brisa tornar-se uma violenta corrente de vento. Sobressaltados, os soldados observavam atônitos o que havia acabado de ocorrer. Rosie e Adam, alarmados e assustados, empertigaram-se e viraram-se para ver.
Ambos fitavam estupefatos a gigantesca explosão praticamente alcançando as nuvens.
CONTINUA...
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