Capuz Vermelho - 3ª Temporada
15 Senhor Escarlate (Parte 2)
As ataduras nas costas pareciam mais macias sendo colocadas por aquelas mãos cuidadosas.
Os pensamentos de Hector se sobrepunham uns aos outros, enquanto seus ferimentos eram tratados por Eleonor. A bruxa detectara pequenos cortes abertos e escoriações de moderado grau no corpo do caçador. Estavam numa parte pouco iluminada da biblioteca improvisada: Hector, de costas para ela, sentado sobre uma mesa velha e Eleonor mexendo em uma caixa de primeiros socorros.
Mal acreditava que voltara a encontrar aquela mulher e da maneira mais súbita e inesperada possível. "Ela se recusa em responder minhas perguntas desde que chegamos aqui...".
Erguendo um pouco a cabeça, Hector respirou bem fundo antes de falar.
— Acho que já está bom. Me sinto bem melhor agora. — disse, lutando contra a vontade de agradecê-la.
— Não, mocinho. — ditou ela, o tom sério. — Não está nada bem. — fechara a caixa, colocando-a no chão. — Hector, preciso que me ouça... Eu sei que está profundamente chateado comigo e exige explicações, mas não se trata mais de nós.
O caçador olhara-a por cima do ombro, cético.
— É pouco para me convencer, não acha?
— Acredite... eu sacrificaria qualquer coisa para desfazer todos os meus erros. — disse Eleonor, o olhar tristonho, denotando arrependimento.
— Como o quê, por exemplo? — indagou Hector, soando irritado.
— Agora isso não importa. — disse ela, dando a volta na mesa e colocando-se diante dele. O olhou fundo nos olhos. — Nada pode mudar o que eu comecei e estou disposta a assumir os riscos que me forem impostos. Eis a razão de eu ter que mante-lo preso aqui: Rosie.
O caçador franziu o cenho, atordoado com o motivo.
— Desculpe... — disse ele, passando a mão pelo rosto, cansado. — Eu pensei ter ouvido você menciona-la enquanto me levava para fora da casa. Mas todos os sons... estavam tão vagos e abafados. Mas com certeza deve ter sido em decorrência do efeito daquela bala...
— Ah sim, eu já sei. — disse ela, sorrindo forçadamente e olhando para o chão. — Gostaria que eu fosse uma alucinação como um segundo efeito colateral.
— Agora que me encontro são e salvo, não sei se teria sido a melhor coisa que fosse me ocorrer. — respondeu ele. — Aquele homem misterioso estava prestes a me matar... e... — ele hesitou por um instante, baixando a cabeça.
Eleonor rira levemente.
— Está bem, não há necessidade de me agradecer, não quero obriga-lo à nada...
— Não, eu faço questão. — interrompeu ele, tocando-a no ombro. — Obrigado. — conseguira dizer, por fim. — Mesmo com o que me fez passar...
— Shhh... — chiou ela, colocando seu indicador nos lábios do caçador para silencia-lo. — Já chega. Que tal não remoermos o passado e nos unirmos novamente? Tive a chance de voltar, de reencontra-lo, e agora tenho uma oportunidade de me redimir. Mas apenas se você me permitir fazê-lo.
Hector a fitara por alguns segundos, parecendo confuso. Vislumbrava uma súplica ardente nos verdes olhos daquela mulher, parecendo querer fazer despertar o pouco da confiança que havia restado... as sobras de um tesouro perdido numa noite trágica. "Não sei o que pensar. O que faço? O que digo?".
Limpando a garganta, Hector assentiu.
— Sim, você possui total liberdade para fazer o que bem entender se quiser reconquistar minha confiança. Mas eu não posso... não posso correr um novo risco que coloque minha humanidade em total perda. Você é imprevisível demais e por isso devo continuar seguindo sozinho...
— Ora, mas que merda! — reclamou ela, aborrecida. — Será que vou precisar desenhar para que você entenda de uma vez? Eu quero ajuda-lo, Hector. É disso que estou falando! Agora é a hora de mostrar que posso corrigir as lembranças de minhas falhas, preenche-las com um bem que sei ser capaz de fazer.
— Ah, então acredita piamente na sua magia para tentar me salvar de algo que já se apossou completamente de mim?! — disse Hector, balançando a cabeça negativamente. — Na sua magia? Sinto em lhe dizer, mas uma ironia foi esquecida.
— Sim, Hector, é exatamente isso que quero dizer. — disse a bruxa, cruzando os braços, mostrando-se inabalável quanto à crítica. — Obviamente, não existe uma cura para o mal que eu lhe causei, mas eu posso mantê-lo sob controle absoluto.
Hector sorrira... logo deixando-se entregar por uma risada nervosa e zombeteira. Eleonor ficara pensativa, tentando manter a paciência.
— É mesmo? — perguntou o caçador, ainda rindo. — Inacreditável. E incrivelmente irônico! Depois que sou salvo de um atentado contra mim, a mesma pessoa que idealizou minha transformação e minha completa ruína como ser humano agora está bem aqui, diante de mim, tentando me convencer de que a mesma coisa que me transformou em um monstro pode me salvar. Para quê? Ah claro, para se redimir de um ato inconsequente e desesperado! — tornou a assumir um tom sério e elevado. — E agora estou sendo mantido refém por essa mesma pessoa... que alega querer me ajudar a fortalecer um controle que já consegui faz tempo...
A bruxa, irritada, dera uma bofetada forte no rosto de Hector.
Andara para um lado, cabisbaixa e nervosa.
— Seu idiota. — disparou ela. — Como pode ser tão cego?
Esfregando de leve seu rosto, Hector gemera um pouco devido a uma certa dor na bochecha. "Que tipo de ser estúpido eu sou?", pensou, culpando-se pela maneira como havia se manifestado. Olhara para Eleonor, vendo-a com as mãos no rosto, provavelmente passando os dedos pelos olhos. "A fiz chorar? Por favor, vire-se e mostre que estou errado.", preocupou-se ele, temeroso quanto ao peso da mensagem.
Tentou se pôr de pé, sentindo algumas pontadas suaves. Seus pés descalços tocaram o frio chão da biblioteca e um intenso arrepio passou-lhe pelo corpo. Respirou fundo, aguentando o incômodo. Andara até Eleonor com certo esforço, imaginando uma forma que lhe fosse menos dolorosa para protestar a respeito do aparente cárcere privado benéfico.
— Eu propus uma reconciliação — disse Eleonor, a voz comovida. — e é assim que você se expressa. Deveria ter imaginando que essa maldição fosse torna-lo rancoroso.
— Não estou guardando rancor. — defendeu-se Hector.
— Então porque está agindo como se não se importasse mais com as pessoas que querem ajuda-lo? — perguntou ela, virando-se para ele abruptamente.
— Rosie me submeteu a um teste que quase custou minha própria vida. E eu aceitei de corpo e alma, além de conseguir provar meu auto-controle. — disse o caçador, aproximando-se mais da moça.
— E onde ela está agora? — perguntou Eleonor, apreensiva sobre a condição da neta.
— Foi levada por caçadores até uma base de acampamento para se preparar para liderar um grupo... — ele titubeou, incerto sobre o impacto que o fato teria sobre a bruxa. — ... que vai estar encarregado de desmanchar uma das últimas instalações criadas pelos soldados de Abamanu.
A afirmação de Hector parecia querer esmagar o coração da mulher. Lívida, Eleonor encarou o vazio por um instante, divagando sobre o que pode ter acontecido... ou do quanto se sentia ingênua.
— Espere. Eu achava que...
— Não. — disse Hector, balançando a cabeça negativamente. — Infelizmente... fracassamos em impedir Mollock nas Ruínas Cinzas. Além disso, fomos praticamente escravizados... e quase mortos.
Eleonor aparentava estar trêmula diante da visualização aterradora que acometia sua mente.
— Eu sinto muito. — disse ela, tristonha. — Devia ter pensado melhor... Acho que... — uma lágrima escorrera pelo seu rosto. — ... Sinto que deveria ter estado lá, lutando junto à vocês. Mas fui novamente consumida por esse... egoísmo... esse orgulho. — levou a mão ao peito. Olhou para Hector, na busca de algum consolo.
O caçador, contudo, não parecia estar disposto a considerar uma segunda chance.
— Talvez agora... possa estar conseguindo enxergar a oportunidade que teve para voltar atrás. — fez uma pausa, pondo uma mão sobre o ombro da bruxa. — Eu gostaria de poder voltar a sentir a confiança que eu tinha em você naquela época. Mas não... Eu preciso deixa-la que descubra sozinha. Não espere curar meu arrependimento me fazendo acreditar que não sou bom o bastante para salvar Rosie, mesmo depois de ter provado que sou mais forte do que meus demônios. — olhou-a bastante fundo nos olhos, aproximando seu rosto ao dela. — Eu preciso estar ao lado dela. Eu tenho que estar. Foi uma promessa... Ela precisa de mim nesse exato momento. — argumentou, seu tom baixo transmitindo certa calma.
— Não... Está completamente enganado. — disse Eleonor, tocando o caçador nos ombros, deixando-se levar por uma leveza instantânea, olhando-o de modo sedutor. — Nós precisamos um do outro. Ainda não está pronto. — foi aproximando seu rosto calmamente — Vou torna-lo merecedor. Não de cumprir esta promessa que certamente não foi algo que Richard o incumbiu. Mas sim de um poder que vai favorece-lo e muito sobre controle... força... e precisão.
Subitamente, Eleonor colidira seus lábios com os de Hector, em um beijo caloroso e ardente. Sem nenhuma chance de conseguir se desvencilhar — devido aos inebriantes olhos verdes que havia encarado -, o caçador sentiu seu âmago ser invadido por uma torrente de sensações indistintas. manteve os olhos bem fechados por vários segundos... até que os abriu arregalados, apresentando um estranho brilho azulado nas pupilas. A bruxa manteve sua boca praticamente fixa na do caçador por um longo instante, abraçando-o com uma suavidade entorpecente.
Quando, por fim, conquistara sua glória, Eleonor se afastou poucos metros, olhando seu parceiro com alegria estampada no rosto na forma de um sorriso amigável. "Fácil demais". De fato, fora uma artimanha bem calculada e prevista. Enquanto estava de costas para o caçador, a moça fingiu tristeza pelas palavras ingratas ditas pelo mesmo para que o fizesse pensar que ela estava debulhando-se em lágrimas de modo discreto. Mas, na realidade, era apenas um ganho de tempo para premeditar um feitiço. O conceito era simples: Marcações de símbolos que gerariam a magia pensada, algo que atingiria o alvo facilmente.
Primeiramente, Eleonor marcara a palma da mão com um símbolo comumente usado na bruxaria e o beijara em seguida. Por último, e não menos importante, deveria-se transferir a magia extraída da marcação para a vítima através um beijo, da mesma forma como ocorreu inicialmente. Era uma prática comum para as bruxas mais audaciosas e motivadas a verem suas vítimas da forma como querem, e que consistia em deixar o infortunado completamente imerso em uma ilusão criada pela mente dominada pela magia transferida, o que permitia-o criar mundos próprios, sejam utópicos ou desastrosos.
"Me perdoe, Hector, foi o único jeito que encontrei para fazê-lo ver que estou certa... que posso ser uma bruxa menos errática.".
— Onde estou? — perguntou o caçador, ingenuamente olhando ao redor. — Este lugar... me fornece uma sensação bem prazerosa, devo dizer. — sorrira, contente.
— O que está vendo? — perguntou Eleonor, olhando-o com expectativa.
— Um ambiente arejado... repleto de estantes, livros, mesas, lamparinas e janelas. E o teto... nossa, que incrível! — disse ele, olhando para cima, radiante, cobrindo a boca com a mão em seguida. — Este é, simplesmente, o melhor abobadamento que já vi em toda minha vida, sem dúvidas! — andou rápido pela biblioteca, maravilhado com o que estava vendo.
Eleonor pegara as roupas do caçador que estavam penduradas em um cabide afixado numa parede. Entregara-as educadamente.
— Hector, aqui está. Seria péssimo se as esquecesse.
— Oh, obrigado. — disse ele, recebendo as vestes, pegando-as com cuidado, sem deixar de passear os olhos pela sala. — É um agradecimento duplo, quero que saiba.
— Pelo quê? — indagou Eleonor, fingindo não saber.
— Por ter me trazido até aqui. — a olhou amigavelmente, mostrando-se sinceramente agradecido. — Você me fez alcançar a paz que eu tanto almejava. Graças ao seu incentivo, isso foi possível. — vestira a camisa o sobretudo apressadamente.
"O feitiço se manterá funcional por pelo menos 48 horas, devido ao meu nível de prática. É só uma questão de tempo para que eu o convença a se unir à mim e só assim poderei agir com meu método para deixa-lo mais forte.", pensou Eleonor, acompanhando-o em direção à porta de um armário... a qual ele enxergava ser a saída da "vasta" biblioteca a fim de experimentar o ar aprazível do mundo externo.
— Bem... — disse Eleonor, tocando a maçaneta. — Imagino que deve estar ansioso para ver como o mundo é lá fora. Está livre para dar pulos e cambalhotas de felicidade, se quiser. — ela rira levemente.
— Não, melhor não. — disse ele, referindo-se aos pulos, rindo também. — Prefiro apreciar a beleza desse mundo de um modo mais reservado, contido. Acho que aqui se tornou meu novo lar. Eu vou ler o que estiver a meu dispor, expandir meu conhecimento sobre tudo o que me interessa. — ele fez uma pausa, alterando a expressão. — Na verdade, sempre foi meu sonho morar numa biblioteca deste tamanho. — olhou para Eleonor com certa admiração. — Quem é você? Uma deusa no corpo de uma mortal?
A pergunta pegara-a de surpresa. "Por favor, sem exageros.", pensou ela, corada e sorrindo timidamente. A modéstia era o sentimento mais árduo de se reprimir ou esconder para a bruxa. Sem responder, abrira a porta rapidamente. Sorrindo, ela estendeu o braço direito para o lado de fora, concedendo permissão para que o caçador saísse primeiro.
Uma luz dourada banhou o rosto admirado de Hector esplendorosamente. O jovem caçador-detetive dera passos lentos para frente, sentindo a grama fresca e o frescor do ar atravessar seu corpo. A paisagem era notoriamente magnífica. Um absurdamente espaçoso campo gramado, com algumas árvores ao longe, além de um lago contendo os mais belos cisnes. O sol estava poente no horizonte, entre as montanhas longínquas. O céu azul meio alaranjado proporcionava ainda mais exuberância.
Observando tudo com atenção, Hector sentia algo que parecia não ter vislumbrado por um bom tempo: Uma felicidade genuína. Todavia, estava sério e divagante diante de toda aquela vista. Seus pensamentos mostravam-se confusos.
— Que coisa estranha. — disse ele, baixando a cabeça, pensativo. — Por qual motivo eu estaria pensando que isso tudo não me pertence?
Eleonor vinha andando a poucos metros atrás dele, olhando-o atentamente.
— Por que ainda precisa vivenciar esta nova vida de forma mais simples e forte. — aconselhou ela, sem tirar os olhos dele. — Nunca é tarde para voltar acreditar em si mesmo, Hector. — desviou a atenção para o pôr-do-sol à frente, tocando em seu belo colar de esmeralda. — Nunca é tarde demais.
***
A pressa que cegara Eleonor havia deixado escapar um deslize. A porta da biblioteca estava entreaberta... uma fresta perfeita para curiosos olhos humanos espiarem sem nada a temer. Olhos azuis claros observaram cada detalhe.
Quando vira a porta do armário abrir-se e as duas pessoas entrarem, Alexia abortou a "missão" e resolveu encostar-se na parede, suando de tanta perplexidade. Sua expressão era um misto de surpresa e descrença. Contudo, era mais real do que imaginava. "O que ela fez com Hector?", perguntava-se ela, preocupando-se acerca da magia utilizada por Eleonor para manter o caçador menos tenso. "Uma ilusão... ou simplesmente um feitiço de insanidade.", conjeturou ela, sentindo-se revoltada com o que vira.
A bruxa esquecera-se de trancar a porta antes de cuidar dos ferimentos de Hector. A porta que levava ao porão não possuía chave e mantinha-se fechada sem estar trancada, logo, naturalmente, permitindo que qualquer pessoa descesse a escada que direcionava-se à porta da biblioteca.
Deu uma nova olhada pela fina brecha, desta vez bem rápida. O armário continuava aberto.
Correra até a escada, subindo desesperadamente os degraus, cautelosamente sem tentar produzir nenhum ruído. A vidente se viu obrigada a agir prontamente para reverter as possíveis consequências adversas que aquele ato poderia desencadear.
E, felizmente, sabia onde se armazenavam os prováveis livros contendo feitiços reversivos. "Não custa nada tentar. Sejam lá quais forem as intenções dela... eu preciso impedi-la! Se estiver obcecada, pode acabar o matando!".
***
Estranhamente, Rosie sentia um clima estorvante. Andou com passos mais apertados pela trilha de cascalho que direcionava-se à uma das portas da instalação — que nada mais era do que um aglomerado de cubículos cinzas praticamente empilhados um no outro, dando-lhe um aspecto rústico e incômodo de certa forma.
A jovem pôs o capuz escarlate sobre a cabeça, enquanto forçava uma extrema vontade de olhar para trás... para o homem que a seguia, mantendo-se incansavelmente vigilante. "Algo não está certo aqui.".
O exército de homens já havia sido dividido, as equipes encaminhadas para várias direções nas quais pudessem se deparar com as aberrações que faziam guarda no interior do gigante de concreto e fazê-las congelar até o grau mais absolutamente baixo.
O soldado Heller pôs-se de lado à Rosie, adquirindo o mesmo ritmo da caminhada. Tirara o boné e o jogou para um lado, em seguida olhara para a jovem como quem quer emitir uma mensagem urgente.
— Senhorita Campbell... Não acha um tanto imprudente não estar usando a máscara? — perguntou ele.
Para demonstrar sua despreocupação com qualquer risco de infecção pelo gás que era expelido da alta chaminé, Rosie jogara a máscara fora.
— Pode parecer estranho para você, mas... — disse ela, incerta. — ... algo me diz que não devo temer essa substância. — ela o olhou, séria. — Como se, de alguma forma, eu fosse imune à ela. Você é quem deveria estar usando.
Heller a fitou com uma suspicácia misteriosa. Ele rira em seguida.
— A quem estou querendo enganar? Estar se dirigindo à mim de uma maneira nem um pouco formal, já é uma evidência suficiente. — ele sorriu, parando de caminhar.
Rosie franzira o cenho para ele, desconfiada.
— Do que está falando? Que evidência?
Heller parecia infantilmente empolgado, parecendo reprimir uma risada.
— Não faz a menor ideia de como seu interior está agindo sobre seus instintos. — alterou o semblante, tornando-se sério. — É uma pena que deva saber desta forma...
De repente, a aparência do esbelto soldado assumira a de outra pessoa completamente diferente em questão de milésimos. Um caçador loiro com cabelos semi-espetados, de olhos azuis, vestindo um colete de couro marrom escuro e uma camiseta branca. Um sorriso irônico se formara no rosto meio gordo do rapaz, seguido de um olhar que parecia querer captar uma reação perplexa por parte de Rosie.
A jovem balançara a cabeça, afastando-se lentamente enquanto o encarava com incredulidade.
— Isso... isso não pode estar acontecendo! — disse ela, irritando-se com a revelação repentina. — Quem é você, afinal? Aliás, o que é você?
— Vamos com calma... e por partes, se não for pedir muito. — disse ele, erguendo levemente uma mão para acalma-la. — Em primeiro lugar, passo longe de ser um inimigo. E em segundo... estou muito ansioso para começar minha diversão. — ele sorrira.
Rosie desembainhara uma adaga velozmente, apontando-a direta e proximamente à garganta do caçador. O rapaz fitara o metal da lâmina, espelhando disformemente seu rosto, todavia, parecendo fingir nervosismo.
— Então é bom começa-la me dizendo quem é você, de onde veio e o que faz aqui? — exigiu Rosie, rigorosa.
Subitamente, um calor instantâneo superaqueceu a lâmina da adaga — tornando-a alaranjada -, fazendo com que Rosie a largasse de imediato, queixando-se da sensação dolorosa ao sacudir a mão.
Olhou-o por um breve instante, estreitando os olhos. O mesmo retribuiu com um "sim" com a cabeça e um sorriso enigmático.
— Então, você é...
— Isso, exatamente o que deve estar imaginando. — concordou ele, andando para um lado. — Foi a única chance que vi para que fôssemos apresentados formalmente. Sou Mihos, herdeiro de Yuga... e, bem, filho da fêmea psicótica que quer transformar você em pó.
"Só pode ser brincadeira!", pensou Rosie, desnorteada.
— Deixa eu adivinhar: Você foi enviado por seu pai até aqui para forçar minha decisão com relação à proposta que ele fez. É isso?
Mihos dera uma risadinha.
— Honestamente, eu vim por conta própria. As ordens de meu pai, digamos, perderam seus significados, tanto é que não o vejo há tempos. — relatou ele, mostrando-se determinado. — Não me pergunte o que ocorreu à ele. Ultimamente, apenas o mensageiro é quem detém as atualizações.
— Áker!? — disse Rosie, empertigando-se e chegando mais perto. — Sabe onde ele está?
— Até parece que alguém como eu obteria o direito exclusivo de reportar fatos acerca do arauto, ainda mais para uma mortal. — disse Mihos, olhando-a com certo interesse.
— Mas você é o filho de Yuga! — insistiu Rosie, impaciente. — Além disso, não parece conivente com os ideais de Sekhmet... sua mãe, por mais incrível que isso possa parecer. — disse, revirando os olhos.
— Espere um pouco... — arqueou uma sobrancelha, seriamente desconfiado. — O que a leva a assumir como fato o que está bem diante de seus olhos? Ou o que parece estar, dependendo da forma como está me vendo.
— O que quer dizer? — perguntou Rosie, fazendo cara de confusa.
— Veja bem: Até onde eu pude saber, os mortais, em sua maioria, são céticos por natureza. — ele inclinou-se levemente à ela, estudando-a com minúcia. — Faz parte da massa de incrédulos que é incapaz de abrir a mente para fatos que lhe pareçam... extraordinários?
— Não. — respondeu Rosie, secamente. — Com toda a certeza, não. — seu tom parecia irritado.
— Hum, que bom. — disse ele, tornando a andar calmamente para um lado, com as mãos para trás, observando a estrutura gigantesca à frente. — Bom também saber que não parece me temer, nem suspeitar de mim.
— Não tenha tanta certeza. — retrucou Rosie, encarando-o. — É melhor que diga para quê veio, senão...
— Senão... — disse ele, virando-se para ela. — ... o quê? — olhou-a firmemente.
Rosie suspirara olhando para as portas dos fundos, deixando nítido seu aborrecimento.
— Pra começar... — disse Mihos, dirigindo-se à ela. -... não sei o que meu pai viu em você para prefira-la e colocar o destino de uma guerra desnecessária nas suas mãos. Mas também não posso dizer se ele fez uma boa escolha ou não.
— E como você se vê no meio de todo esse caos? — questionou Rosie.
— A neutralidade é minha arma mais eficaz. — aproximara-se da jovem, o ar um tanto soberbo. — Finalmente pude encontrar o momento mais propício para saciar esta fome que me consome desde o dia em que nasci. Sabe qual foi a pior ideia que meu pai já teve sobre mim? — fez uma pausa, tirando um palito do bolso e passa-lo entre os dentes. — Foi algo completamente absurdo. Ele tentou me prender na pior prisão do universo, só porque eu tentei esmagar alguns soldados para minha refeição diária, recomendada por... por mim mesmo. Mas se existe algo que é justo entre nós... é o amor que tenho por ele. Nunca tive a chance de confrontar aquela tirania... aquela incompreensão pelos meus motivos para matar... apenas por eu o amava... por que eu queria preservar algo que poderia ser destruído com uma única falta de respeito.
Jogara o palito fora, voltando-se novamente para Rosie.
— Se me der licença, preciso preencher o vazio... antes que meu pai acorde e me ponha no verdadeiro vazio. — dera uma risada de caráter escarniante. — Ah, também diga para seus superiores que, infelizmente, haverá baixas na equipe de mortais que acabou de entrar nesse palácio de pedra.
Estremecendo, Rosie mostrou-se inquieta com o que aquela afirmação lhe dizia.
— O que planeja fazer? Matar vários soldados!?
— Não sabia que mortais respondiam suas próprias perguntas. — zombou Mihos, recuando alguns passos, cuidadosamente. — Mas sim, é verdade. Eu preciso. Eu necessito me alimentar... não posso contrariar minha natureza. Acredito que você também não deva fazer isso. Minha mãe, cedo ou tarde saberá onde você está. E, presumo eu, que você sabe o que tem que fazer.
— Não vou me arriscar novamente lutando contra ela! — disse Rosie, fervendo em cólera. — Ela chegou perto de conseguir me matar, se não fosse por Áker isso teria acontecido.
— Ah sim, havia esquecido que o mensageiro é sua escolta... ainda que não seja permitido, até posso imaginar como minha mãe reagiu à essa irregularidade. — disse Mihos, olhando rapidamente de esguelha para a sua direita.
— O quê!? Que irregularidade? Me diga, por favor! — suplicou Rosie, logo sobressaltando-se com um estrondo abrupto. Olhou para sua esquerda e avistou cerca de quatro miméticos correndo furiosamente em direção à ela, os olhos negros pulsando de ódio. Haviam arrombado a porta após detectarem presenças indesejáveis. Rosie voltara-se para ele com pressa, desesperada. — Você tem que me dizer rápido! Áker cometeu algum erro?
— Não cabe a ele protege-la da ameaça de minha mãe. — argumentou Mihos, bastante sério. — E ela reconhece o quão grave isto é. Qualquer ato de vontade própria cometido por um servo designado a cumprir uma única ordem pode colocar a reputação do império em jogo. É uma pena mesmo. E nem vou criar especulações, já que não faço a mínima ideia de como isso vai acabar, e quero estar bem longe para não ver uma catástrofe.
Olhando novamente para o grupo de infectados que se aproximava rapidamente, Rosie percebeu que sua única chance de conseguir adentrar em um dos compartimentos era matando-os de modo rápido e preciso... mas com uma ajuda extremamente improvável.
— Ao menos me ajude a acabar com aqueles malditos. — pediu ela, o olhar demonstrando carência.
Ao vislumbrar os monstros correndo até eles ferozmente, como feras selvagens e ensandecidas, o herdeiro de Yuga não precisou pensar duas vezes na sua conclusão.
— Lamento. Eles não são apetitosos. — disse, fazendo uma cara de enojo. Erguera a mão, logo estalando os dedos.
Sumira num piscar de olhos, em velocidade impensável. Rosie olhara para os cantos, procurando-o, achando ser alguma brincadeira e que ele fosse tentar surpreende-la ao querer ajuda-la. Mas provou-se o contrário. "É, não tenho outra saída..."
A jovem iniciara uma frenética corrida em direção a alguma porta que houvesse do outro lado, só cogitando parar para reaver o fôlego quando já tiver entrado.
Os miméticos mudaram o curso e seguiam Rosie exatamente naquela direção. Alguns estavam completamente fora de si, babando o líquido negro e o mesmo escorrendo pelos olhos.
"Não vou conseguir!", desesperou-se ela, deparando-se com outro compartimento de concreto e a porta de entrada para o mesmo. Sentia intensamente a velocidade com a qual aquelas abominações utilizavam para abocanhar suas presas. Já os sentia próximos o suficiente para perpetrarem o ataque.
Antes que a mão de um deles acabasse agarrando e puxando sua capa vermelha, Rosie fora rápida ao empurrar com as duas mãos a porta de madeira degastada e fecha-la no mesmo ritmo. Entretanto, o antebraço de um dos miméticos impedira o fechamento, em uma insistência desesperadora para conseguir entrar e agarrar aquele corpo com força esmagadora. A mão suja de líquido preto tentava, a todo custo, forçar uma entrada dramática. Rosie podia ouvir os rosnados das criaturas, enquanto colocava seu peso contra a porta para impedi-los. Seu ombro esquerdo já começava a ficar dolorido.
Após ver que sua tentativa não duraria por muito tempo, a jovem resolvera sacar uma adaga, logo em seguida cortando verticalmente o antebraço furioso do mimético. Um jorro de líquido negro saiu em abundância do corte, parte dele espinchando na parede. A porta fora, enfim, fechada, e o membro decepado caíra imóvel no chão sobre a poça negrejante.
Encostando-se na porta, fechou os olhos, tentando recuperar o ar.
Alguns sons de estouro e bem abafados vindos do outro lado a despertaram do descanso. Virou-se e puxou o ferrolho de uma pequena abertura retangular na porta. Seus olhos esbugalharam-se em espanto ao ver o que acabara de ocorrer. Um lampejo de memória lhe deu calafrios. "Hector tinha razão! Pelo menos ele não mentiu sobre os desenhos.".
Corpos e peles estraçalhados e horrivelmente despedaçados se banharam com volumosas poças do líquido espesso. Delas, emergiam figuras, gradualmente adquirindo formato humano. Rosie pensou em correr... mas, por alguma razão, sentiu-se obrigada pelo medo a ficar e observar o final do horrendo processo. "Eles explodiram... o segundo estado...". Os seres, totalmente compostos da substância preta, pareciam serem sombras sem face, movendo-se lentamente até que se "solidificassem".
Fechando a abertura, Rosie correra novamente. O corredor era fracamente iluminado por lâmpadas fluorescentes brancas. Arrepios na barriga faziam a jovem rememorar a mesma sensação que tivera enquanto tentava escapar do bunker junto à Hector. Para o aumento de sua aflição, um medo que soava irreconhecível a dominou completamente. Uma batida na porta fora ouvida. "Mas o que é isso? Agora mesmo sinto como se estivessem prestes a me alcançar e me atacar! O que eles possuem de tão especial que me faz sentir tanto medo?".
De súbito, esbarrara fortemente com um soldado do Exército que havia vindo de outro corredor à esquerda. Tentando se reorientar, pondo a mão na cabeça, Rosie tinha a impressão de que o mundo à sua volta girava loucamente. Olhara para o soldado, lívida.
— Senhorita Campbell... err... me desculpe... — dizia ele, a voz abafada devido à máscara protetora.
— Não, está tudo bem... — respondeu Rosie, virando o rosto rapidamente para a porta. As batidas não cessavam nem por um minuto. — Não... não está! — voltou-se para o soldado, tocando seu ombro. — Há miméticos querendo arrombar. Deixe que entrem e ataque!
Assentindo com vigor, o soldado acionara a principal função do pesado aparelho que carregava nas costas. Apertara um botão em um pequeno motor de metal preto preso à sua coxa direita. Um ruído frugal se fez no interior do aparelho. O soldado sacara o disparador em formato tubular — o mesmo ligado à mochila metálica — e andara em direção á porta apressadamente.
Rosie retomara seu curso, rumando pelo restante do corredor a passos largos, mas dando constantes olhadelas nervosas para trás a fim de ver como o soldado se sairia em seu embate contra aqueles seres abomináveis.
A última batida, por fim, fora produzida, impactante. Os errantes cobertos de preto invadiram compartimento adentro à uma velocidade estarrecedora.
Uma fumaça gelada fora despejada pelo fino e comprido tubo, o qual seu portador o segurava com bastante firmeza. O soldado continuava se aproximando, girando um grande botão do motor, unicamente utilizado para aumentar a potência. Os miméticos contorciam-se agitadamente, sendo parados de modo abrupto no meio do caminho, a densa rajada congelando seus corpos em questão de segundos. Uma das regras proferidas durante o treinamento havia sido estritamente clara: Seria necessário que mantivessem-se os alvos em locais relativamente pequenos ou não muito exíguos, o que facilitaria um ataque direto e preciso, aliado ao poder congelante e os limites que a tecnologia proporciona — o que não, contudo, não incluía o zero absoluto. A temperatura mínima para deixar o alvo inerte por tempo suficiente seria de — 120ºF. Naquele caso, portanto, o número cairia bem.
O soldado ficara observando, entortando a cabeça e inclinando o corpo várias vezes para estudar os aspectos e características daqueles seres. Os quatro haviam se tornado praticamente estátuas de gelo. A observância também inclua notar se chegariam a fazer movimentos nos dedos, por mais leves e imperceptíveis que fossem.
Rosie já se encontrava um pouco longe dali, correndo para a parte menos iluminada do corredor. As portas duplas no final foram abertas por ela com estardalhaço seco. Se recostou numa parede, tentando descansar o máximo de tempo que precisaria.
Estranhamente, podia ouvir sons extremamente abafados... os quais logo distinguiu seres gritos, parecendo virem do outro lado da parede na qual estava encostada. Arregalando um pouco os olhos, Rosie compreendera. "Ele já começou! Droga!".
Embora não parecesse a intenção de Mihos arruinar com toda a missão, era sabido que o mesmo pouco se importava com as implicações desconfortáveis que seu desejo irreprimível poderia acarretar. Algum sobrevivente poderia reportar o incidente ao General ou para qualquer soldado que pudesse encontrar pelo labirinto de corredores que aquela fortaleza de concreto possuía. No caso de se perderem, deveria-se lançar granadas para explodir as paredes e portas.
Tirando o amuleto de Yuga de um dos bolsos, Rosie intencionou chamar Áker para auxilia-la secretamente a respeito de Mihos e da possível investida de Sekhmet. Pôs o minúsculo objeto na palma da mão esquerda, recitando um pedido de ajuda urgente.
— Por favor, Áker... Preciso que venha rápido... eu preciso de você, Sekhmet pode vir a qualquer momento e vou estar em perigo. Agora mesmo, por favor.
Guardara-o, e esperava-o, olhando para os lados. Passados trinta segundos.... quarenta... um minuto... e nenhuma aparição repentina.
"Mas o que houve?", pensou ela, desconcertada. Tentara novamente... aguardara... e o mesmo insucesso. Bateu o pé direito no chão, demonstrando raiva.
— Merda! — praguejou, recostando-se na parede e olhando para o teto, angustiada.
Pensara em Hector e no que haviam feito com ele ou onde ele poderia estar naquele momento. Embora soubesse que era forte o bastante para ser imune ao gás tóxico, nada garantiria que não seria possível ser infectada pelo estado líquido da substância. "Jamais senti tanto medo antes. Foi como se algo estivesse prestes a me alcançar e me consumir por inteira. Um pesadelo se aproximando. Significa que devo me manter longe, muito longe do último estágio. Tudo começa a fazer sentido. Esse poder... está aos poucos me mostrando quem devo ser e o que devo fazer para superar cada obstáculo... e me tornar o que estou destinada a ser.".
Passos apressados ouviam-se à distância, ao longo do corredor. Pensando serem mais soldados á caça dos miméticos que ainda estavam espalhados, Rosie se lançou a correr novamente, sacando duas adagas para se prevenir de ataques-surpresas.
O silêncio de toda aquela estrutura causava tensão em nível agudo.
CONTINUA...
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