Capuz Vermelho - 3ª Temporada

14 Senhor Escarlate (Parte 1)


Notas iniciais
Capítulo 3x05. Boa leitura!

"Tenho ciência das minhas forças, limites e fraquezas. Não tenho obrigação de provar nada à ninguém."

Trecho do Diário de Rosie Campbell — Pág 110.

***

O apartamento estava perfeitamente organizado. As janelas bem fechadas com as cortinas amarelo claro, a mobília de couro desempoeirada, os vasos de cerâmica em seus devidos lugares...

A proprietária discava um número no telefone sobre a mesa e próximo de um abajur ligado. Estava sentada numa cadeira de madeira, acariciando um belo gato preto sobre seu colo, mantendo as pernas estonteantes cruzadas. Pôs o fone ao ouvido e esperou alguém atender.

Após dois toques, uma voz áspera atendera-a.

— Alô?

— Olá General. — disse ela, o tom forçadamente suave. — Lembra-se de mim, certo?

— E como eu poderia esquecer? — perguntou Holt, enfezado. — Você arrancou um olho meu! Além do mais, saiu deixando uma mensagem da qual eu ouso reclamar!

— Estamos numa parceria afinal, mútua e justa. — argumentou ela. — Dentro dos meus padrões, é claro.

— Mútua!? Ouça aqui, sua aberração sobrenatural, estou me isentando das responsabilidades que tentou me impor. Ameace-me se quiser, possuo contatos com cientistas, estão trabalhando em tecnologias capazes de...

— Ah, pare, já chega destas ladainhas! — enfureceu-se ela, revirando os olhos. — Obviamente quer saber o motivo de eu ter ligado. Preciso saber se seu exército já se colocou em campo de batalha e Rosie Campbell já assumiu o posto que você a designou.


— Ela, no presente momento, está se preparando para iniciar sua liderança. — informou o General, sem alterar seu tom de voz severo. — A pus sob vigilância.

— Não me diga que... — Sekhmet franzira a testa, imaginando o que pode ter saído errado. — Você não teve a audácia de compartilhar o fato de termos nos encontrado, sobre o que conversamos e sobre meus planos com um de seus homens!? Sei que não faria isso em hipótese alguma.

— Tem mesmo tanta certeza de que eu não iria longe o suficiente para não baixar minha cabeça ante à sua arrogância? — perguntou o General, soltando uma risadinha zombeteira depois.

— Um item que possuímos em comum, devo ressaltar. — retrucou a deusa.

— Não me compare a um ser desprezível como você. — atacou Holt, tentando fazê-la sentir-se humilhada. — Se há deuses neste mundo, um dia os seres humanos tornarão a saber suas fraquezas, tanto quanto vocês sabem das nossas. E sim, eu confidenciei nosso encontro a um dos meus soldados.

Estremecendo repentinamente, Sekhmet deixou escapar um grunhido de raiva pelo fone.

— Seu maldito! Tem ideia do quanto isto pode prejudicar...

— Prejudicar apenas à você, de fato. Não quero uma aliança provisória com você e arriscar a vida de um dos meus subordinados.

— Se Rosie Campbell estivesse sondando esta nossa conversa agora, eu diria que ela se sentiria dominada por um homem arrogante e presunçoso. Ela está lutando por um propósito que considera nobre e, como se viu sem escolhas, resolveu se unir às suas tropas.

— Ela está tentando salvar seus amigos, a todo custo. — disse o General, com veemência.

— Oh, que gracinha, estou profundamente comovida. — ironizou Sekhmet, fazendo uma careta tristonha. — Seu coração ficou amolecido quando se conheceram? — ela fez uma pausa, notando o quanto o General fazia questão em se manter silencioso quando ouvisse qualquer coisa desnecessária. — Pelo que meus comandados me informaram, estes mortais desaparecidos são testemunhas.

— Testemunhas de quê? — exigiu saber o General.

— Presumo que aquela indigna não lhe contou tudo que merecia saber. Muito menos o tal caçador. — disse Sekhmet, aproveitando a deixa para se deliciar com a falta de informações que tanto aborrecia Holt. — Ambos também se enquadram nisto. Omitiram propositalmente a vinda do maior inimigo de meu amado... Aquele que atualmente deseja ver sua espécie de insetos rastejantes perecer até um fim trágico e definitivo. Ele está utilizando conceitos da ciência dos mortais e colocando-os contra vocês perigosamente. — afagou a cabeça de seu gato com gosto, fazendo-o miar levemente. — O que me diz, General? Sua nova líder agora lhe parece bem menos confiável do que quando lhe disse a respeito dela no nosso primeiro encontro... não é? — dera um sorriso de canto de boca.

Ouviu um suspiro pesado do outro lado. Aquilo soou como música sinfônica aos ouvidos da deusa.

— Diga-me de quem se trata. — exigiu ele.

— Não acho que agora seja a melhor hora...

— Olhe aqui! Pessoas estão morrendo dia após dia, sendo infectadas por algo que nosso melhores cientistas nem sabem explicar com exatidão! Eu exijo saber quem é o responsável!

— Saberia se me dissesse onde está o caçador. Sei que não foi por nenhuma razão aparente que não o mencionou. — disse Sekhmet, apurando seus sentidos.

— Não sei onde ele se encontra, ainda estou aguardando informações a respeito. Ele está em mal lençóis com minha equipe, infringiu uma regra deliberadamente. Rosie Campbell também, mas, em comparação ao caçador, sua ficha é bem mais limpa.

— Então, nesse caso, a revelação se torna indevida, por ora. — decretou a deusa, o tom firme.

— O quê!? — exclamou Holt, irritando-se com a negligência de sua "parceira".

— Exatamente. Só poderá me dar a prova de que está disposto a cooperar comigo se conseguir a localização atual do caçador. Só assim saberá o nome da maldita escória, principal causador da ruína do nosso império... o império que estou destinada a governar se eu impedir Rosie Campbell a tomar sua decisão.

— Espere. — pediu Holt, ansioso desta vez. — Do que está falando? Afinal, qual decisão acerca de vocês Rosie Campbell deve tomar? Não adianta tentar esconder agora! Sei que ela possui um propósito relacionado com os deuses e...

Sekhmet desligara rapidamente, batendo com força o fone no gancho. Olhou para o nada, sua expressão de completa insatisfação. Suas mãos afagando os pelos do gato começavam a querer praticamente machuca-lo, tamanha era sua fúria ao pensar na fisionomia de Rosie.

— Preciso mata-la... antes que seja muito tarde.

***

No escritório do General, os raios matutinos do sol atravessavam as aberturas das venezianas, banhando a mesa do proprietário com sua luz dourada.

Pensativo, Holt massageava as têmporas calma e pacientemente, de olhos fechados, tentando não pensar em cometer qualquer ato de loucura que o fizesse perder pontos naquela batalha de egos entre homem e deus. Seus pensamentos direcionavam-se á Rosie, fazendo-o sentir algo que jamais imaginaria ter. A culpa. Naquele instante, tornou-se sua responsabilidade a segurança da jovem que supostamente, segundo sua sócia mal-intencionada, escondia dentro de si um poder altamente destrutivo. "Ela assumiu o corpo de uma agente militar... para que conseguisse se ligar à mim? É bem plausível, sendo que estamos lidando com uma entidade evidentemente superior! Pode ter previsto os eventos que achou que lhe fossem convenientes.", conjeturou o General, abrindo os olhos e encarando a soleira da porta.

Nada mais pareceria estar certo. A maior parte das respostas só geravam mais perguntas.

A entrada abrupta de um afoito soldado o fez sobressaltar na cadeira. O homem se encaminhou até a mesa de seu chefe, a face indicando ser algo bombástico.

— Senhor, eles acataram as ordens: Vasculharam a casa inteira, uma varredura completa, de dentro para fora e vice-versa. — ele fez uma pausa, retirando algo do bolso, mas hesitando em mostrar de uma vez. Olhou para o objeto rapidamente e voltou-se para Holt. — Não vai acreditar no que acharam...

— Por que todo esse mistério?! — explodiu Holt, levantando-se. — Fale logo de uma vez!

— Havia pedido provas que corroborassem suas suspeitas... Bem, acharam um diário de propriedade da senhorita Campbell, corpos de homens espalhados pela sala... — com a outra mão, retirou um pequeno saco do bolso de trás. — E isto. — pôs na mesa do General.

Holt olhara para o recipiente com desdém.

— O que é isso? — perguntou, grosseiro.

— À primeira vista, pensamos ser areia... mas dando uma olhada mais de perto, concluímos serem cinzas... de um ser humano. — informou o soldado, engolindo a saliva de estupefação.

Por alguns instantes, Holt examinara o conteúdo e o tocara com os dedos. Com o indicador e o polegar, pegara um pouco das cinzas e analisara a textura das mesmas enquanto as deixava cair no saco. Voltou seus olhos azuis claros para o soldado à sua frente.

— O quê mais?

Por fim, o subordinado apresentara o objeto que primeiramente havia tirado.

— Sei que a desilusão com o senhor Crannon foi um baque tremendo para o senhor... — disse o soldado, entregando o objeto com a mão trêmula. — Agora tenho minhas dúvidas sobre estarmos envolvidos com as pessoas certas para dar um fim à calamidade.

Rangendo os dentes, Holt percebera, bem no fundo de seu âmago, o quão ingênuo havia sido.

— Aquela garota... eu devia ter submetido ela a um teste do polígrafo mediado por mim mesmo.

— Teria sido uma ótima ideia. — comentou o soldado.

Holt o fuzilara com os olhos, como que querendo emitir uma ordem através daquele contato visual.

— Está dispensado. — disse, friamente.

Assim que o soldado fechara a porta, o General tornou a sentar-se na cadeira de couro, passeando os dedos por aquele pequeno objeto cilíndrico... cujo conteúdo era um líquido preto e espesso.

"Crannon reclamou de omissão ao seu tutor. E veja só isto... Justamente sua parceira é quem comete esta atitude desprezível.", pensou ele, observando a negrejante substância, sacolejando de leve o cilindro de plástico.

***

4 dias antes.

A sala do General possuía um estranho ar abafado, parecendo uma sauna improvisada. Na mesa estavam vários papéis desordenados. Declarações, formulários e fichas de caçadores escolhidos aleatoriamente para a formação do grupo que se encarregará do primeiro resgate a ser feito na primeira das três fábricas que restaram.

Rosie pegara uma caneta, assinando seu nome na linha da parte inferior da última folha que lhe foi entregue. Tinha que admitir que estar diante de alguém com tamanha influência como William BuckyHolt lhe causava preocupações acerca da impressão que passaria ao se portar com pouca vontade. Além disso, havia outro detalhe que a deixava apreensiva: O tapa-olho. Reparando nos contornos, a jovem constatou que a ferida era recente. Muito recente. Voltou, rapidamente, sua atenção para a folha, finalizando a assinatura do contrato.

— Pronto. Aqui está. — disse ela, pondo a caneta sobre a mesa.

— Muito bem.. muito bem... — disse Holt, olhando para a folha, um tanto entusiasmado. — Seja bem-vinda à iniciativa, senhorita Campbell.

— Ahn... Obrigada. — agradeceu Rosie, juntando as mãos para trás, dando um sorriso fraco.

O corpulento homem militar desviou os olhos para o corpo da jovem, olhando-o com análise crítica.

— Hum... Sua estatura física me parece bem desenvolvida. A qual tipo de treinamento você recorre?

— Bem... — Rosie não sabia como responder. — Digamos que o bastante para extravasar meu estresse. Alguns sacos de areia e levantamentos de barras com pesos médios. Nada muito sofisticado... mas é o que há, então estou satisfeita.

— Eu também estou. — disse ele, sorrindo de modo enigmático. — A perspectiva que isso me oferece... me dá uma visão de algo promissor. Possui um histórico com caçadores?

"Isso depende.", pensou ela, nervosa.

— Apenas com os da Legião, que, como o senhor deve saber, estão mantidos em cativeiro nas fábricas. E também com... — ela hesitou por alguns segundos, baixando os olhos para o chão, pensativa. — E também com Hector Crannon.

— Então foi através do senhor Crannon que pôde estabelecer uma relação com os caçadores da Legião, certo? — perguntou Holt.

— Sim. Fui apresentada à eles quando foram chamados para uma emergência em Raizenbool.

— Ah sim, claro. — disse o General, arqueando as sobrancelhas. — Fui informado desse incidente. Mas Walter Vannoy me convenceu a não intervir.

— O fundador do Colégio dos Caçadores sabia dessa invasão? — perguntou Rosie, estreitando os olhos, intrigada.

— Até onde eu sei, o protocolo vigente do Colégio dos Caçadores consta a obrigação direcionada ao membro da Legião de informar, com máxima de riqueza de detalhes, um evento de classe B. Em algum momento, algum caçador da Legião contactou Vannoy para inteira-lo quanto à ameaça. — fez uma pausa, apoiando os cotovelos sobre a mesa e cruzando os dedos. Na situação atual, estamos em confronto com um evento classe A. Já até tenho minhas suspeitas quanto ao cabeça...

— Tem?! — indagou Rosie, levantando uma sobrancelha. — Ahn... Me disseram que Hector estava sob custódia, então...

— E ainda está, pode acreditar. — mentiu Holt, olhando-a firme.

— E o senhor não o obrigou a revelar nada sobre aquele que pode estar por trás disso?

— Havia questões de maior prioridade a serem tratadas. — afirmou ele, lacônico.

— Como quais? — perguntou ela, curiosa.

O General dera um suspiro longo e cansado.

— Senhorita Campbell, logo mais algum dos meus homens irá lhe entregar uma tabela de horários em que você deverá comparecer ao QG.

— O que pretendem fazer?

— Por enquanto, a primeira operação encontra-se sem agendamento. Nesse período de indecisão, você receberá orientações, algumas regras básicas sobre os métodos da corporação. E sobre o senhor Crannon... — fizera uma pausa, olhando de soslaio para a sua esquerda, como se não quisesse enveredar por esse assunto. — Prometo que ficará sabendo de certas coisas sobre ele nos próximos dias. Merece estar ciente de que tipo de gente está confiando.

A jovem fitou o General com desconfiança por um instante.

— Isso pode significar... que Hector não vá mais participar das missões? — especulou ela, aumentando seu estado nervoso.

"Esta menina não se deu conta de que informações de certo impacto não podem ser compartilhadas em um primeiro encontro?", pensou Holt, incomodado com as perguntas de Rosie.

— Ainda estou decidindo como vou seguir com seu caso, isso inclui, claro, sua liberdade. — respondeu ele, soando evasivo.

— Está bem... — disse ela, suspirando levemente. — Acho que é um pouco cedo para pedir que me contem tudo. Sinto que estou sendo... deselegante. — encolheu os ombros, tornando-se acanhada.

— Muito pelo contrário. — disse ele, balançando a cabeça com veemência, dando um forçado sorriso. — É perfeitamente natural que esteja com muitas dúvidas... Mas como uma boa líder que espero que seja, sei que irá tomar as decisões certas.

— Mas... é claro. — disse, forçando um risada rápida. — Afinal, são as vidas dos meus amigos que estão em jogo. — tornou o semblante mais sério. — E estou disposta a assumir qualquer risco. Não posso prometer algo que está fora do meu alcance, uma habilidade ou qualquer outra coisa mais distante... Apenas quero salva-los e dar um fim nessa guerra.

Inclinando-se, o General pareceu alimentar um interesse ainda mais atento na jovem. Mostrou uma expressão de confiança e determinação.

— Saiba que já tem alguém que acredita em seu potencial. Esqueça a proteção forçada que o senhor Crannon lhe prometeu há tempos. Ele já deu sinais óbvios de que é insuficiente para esse papel. — fez uma pausa, sorrindo com condescendência. — À você eu ofereço todo meu apoio e, sobretudo, minha amizade. — estendeu a mão para ela.

Surpresa com o gesto, Rosie retribuiu, formando um forte aperto de mão.

— Sua mão está gelada. — comentou o General, franzindo o cenho. Olhou para ela com uma suspicácia brincalhona. — Eu não a intimidei, certo?

Rosie dera um riso solto.

— Bem, se não for incômodo... a última coisa que eu perguntaria era sobre esse tapa-olho.

— Ah, então foi isso? — perguntou ele, apontando para o círculo negro que ocultava seu canal ocular danificado. Ele rira, como nunca o fez há eras. — Devo dizer, com muita honestidade, que foi uma experiência libertadora.

— Libertadora? — indagou Rosie, sem entender.

— Exato. Mas também foi aterrorizante. Foi como se o Todo-Poderoso estivesse me punindo pelos meus pecados, me tirando algo valioso. Talvez um castigo pelo meu materialismo exacerbado. — disse, dando de ombros. — Uma ocasião passada, turbulenta, que deve ser deixada no seu devido lugar: Naquelas fotos amareladas e perturbadoras. — mentiu ele.

Rosie agradecera pela confiança depositada, virando as costas para sair da sala... mas uma questão excruciante martelava em sua cabeça. "Alguma coisa muito estranha está pairando no ar. Ele não pareceu querer falar abertamente do acidente que sofreu, mas passou a impressão de que... estava angustiado de certa forma. Pensou que me deixei intimidar com esses detalhes. Mas na verdade só queria saber o que estava por trás. Ainda assim, ele não deixou claro. É como se ele estivesse tentando preservar seu ego... como se seu orgulho tivesse sido ferido.", pensou ela, logo passando pelo soldado que ficara como testemunha... e a cargo de vigia-la.

Ele a olhou por cima do ombro, a frieza de sua expressão indicando uma atenção predadora.

***

Sheffield — 14h20.

Aqueles olhares estranhos certamente não transmitiam uma sensação agradável ou uma confiança que pudesse se tornar mútua no mais tardar. A floresta esbanjava uma atmosfera amena, pouco gélida e estável. A luz solar estava enfraquecida devido às densas nuvens que passavam. Rosie não sabia o que fazer, observando o mutirão de soldados do Exército e caçadores — equipados com aparelhos modernos que eram mochilas metálicas quadradas, pesadas e grandes. A maioria estava cochichando, provocando zombarias discretas com sorrisos embargados de ironia. De fato, a escolha do General foi julgada como equivocada por boa parte da equipe. Uma rejeição daquele nível debochante não havia sido prevista.

Rosie tentou focar sua atenção no pequeno grupo que não estava caçoando dela, isto enquanto não pensava em algo que pudesse dizer para iniciar seu discurso de estratégia para a missão. "Nunca me senti tão pressionada antes.". Seus olhos azuis percorriam nervosos por todo o exército. Mordia os lábios cada vez que pensava no medo de não ser boa o bastante no comando de trinta homens aparelhados com armas de congelamento instantâneo — a tecnologia recém-inaugurada pelo Exército Britânico em parceria com cientistas inclinados no assunto abordado. "Parecem que vão fazer uma excursão na lua.", pensou Rosie, que não aprovou muito o resultado do projeto, tampouco sua aparência. A desvantagem óbvia era o peso proporcionado pelo material com o qual se fabricava a arma, mas era inegável que as horas de trabalho e os milhões investidos pareciam ter valido a pena.

Rosie fechou os olhos e respirou fundo. As conversas baixas cessaram, mas os olhares desconfiados e zombeteiros permaneceram. A jovem nunca sentira vergonha de falar em público, mas aquela ocasião lhe causava uma sensação desconfortável... ainda mais com o reforço do soldado que a fitava atentamente à sua esquerda com os braços cruzados e o semblante rígido.

— Deve começar, senhorita Campbell. O tempo urge. — falou ele, frio como um iceberg.

Descontraindo os músculos, Rosie assentiu para si mesma e olhou para cada um daqueles homens incrédulos.

— Muito bem... — disse ela, suspirando. — Me chamo Rosie Campbell e a partir de agora tenho a responsabilidade de lidera-los e incentiva-los para vencermos as forças que estão atuando com o objetivo de destruir o mundo que conhecemos. Não pensem que posso estar exagerando, essa é a mais pura verdade, é uma ameaça que vocês, que foram selecionados a dedo pelo General Holt, devem conhecer mais a fundo, pois é algo que pode aniquilar a espécie humana. — fez uma pausa. — Sei que chegaram a um ponto em que a vontade de desistir praticamente não existe... ou se tornaram fortes o bastante para resistir à ela. Conseguiram desativar 96% das fábricas e agora estou aqui para lutar junto à vocês... Eu sinto que fui escolhida no momento certo. Restam apenas três... e nestas estão aprisionados amigos meus... vidas inocentes que tiveram que pagar um preço muito alto por terem se envolvido nesta guerra.

— Só existe uma guerra. — disse um soldado do Exército na fileira da frente, parecendo descontente por estar ali.

Rosie arqueou um sobrancelha, olhando para ele.

— Então o que está fazendo aqui? — perguntou Rosie, semi-cerrando os olhos. Andou a passos lentos até o rapaz. — Prefere lutar em campos de batalha no meio de conflitos onde os egos de homens poderosos estão fervendo em uma guerra estúpida e sem sentido do que lutar para salvar vidas inocentes e evitar uma catástrofe que pode pôr fim à humanidade? — o fitou com rigorosidade. — Quanto discernimento. — disse, sorrindo com ironia.

O soldado a encarou por vários segundos, como se quisesse questionar o posicionamento de Rosie demonstrando com certo orgulho sua má vontade incompreendida. Contudo, se limitou a olhar para um canto do chão, decidindo permanecer silencioso, a expressão de incômodo estampada.

Rosie andou para um lado, percorrendo com os olhos o restante do grupo.

— Estamos a 30 km da fábrica, e, assim que conseguirmos proximidade, vocês deverão se dividir em grupos de cinco por todas as direções. Lembrem-se de colocarem as máscaras assim que ultrapassarmos a linha que foi traçada... — apontou para trás com o polegar a demarcação feita 5 km de distância de onde estavam. — Somente quando avistarem um deles... ataquem à vontade. Um dos grupos deve conseguir chegar ao vaporizador em menos de quinze ou vinte minutos e, em seguida, instalar explosivos nesta área. Ao mesmo tempo, outro grupo deve cuidar do resgate, seja encontrando alguma passagem secreta ou interrogando um dos miméticos que atacarem. Fui suficientemente clara?

— Sim! — responderam quase todos, em uníssono.

— Alguém tem uma pergunta a fazer antes de partirmos? — perguntou Rosie, temendo que alguma dúvida ficasse no ar.

— Eu! — disse um jovem e alto soldado um pouco mais afastado, levantando a mão.

— Pode falar. — permitiu Rosie, educadamente.

— Por que o General não lhe ofereceu um fardamento adequado para se portar melhor? — indagou ele, com nítido deboche na face.

Revirando os olhos, Rosie suspirou, imaginando como conseguiu manter a calma até aquele ponto — o que já considerava uma primeira vitória contra a ansiedade crescente. Andou alguns passos à frente, olhando fixamente para aquele que o insultara.

— Algum problema com minhas vestes, soldado? — perguntou ela, como que querendo transparecer ingenuidade para surpreende-lo depois.

— Ora, vê se não fala como se fosse o General. — disse ele, soltando uma risadinha. — Você não parece ter um complexo de liderança apropriado... O que o chefe viu em você para nos fazer acreditar que estamos seguros e que iremos ganhar essa? — seu tom tornara-se rude.

— Diz isso porque sou mulher? — disparou Rosie, retomando o sorriso irônico, mas sem esconder sua insatisfação.

O rapaz estremeceu, passando a olhar desconcertado para os colegas à frente que o fitavam com ar de zombaria e vergonha. Voltou-se para Rosie, parecendo nervoso por ter passado uma impressão antagônica à qual esperava.

— Bem... eu...

— Acharia engraçado se eu dissesse que roupas de bailarina ficam melhores em você? — perguntou Rosie, acertando em cheio seu alvo. A face cínica e zombeteira do soldado dera lugar ao completo desconforto e a total falta de segurança.

O jovem curvou os ombros, desviando os olhos desalentados para a floresta, indiferente à metodologia de Rosie.

A bela fitou o exército de homens com vigor.

— Alguém mais está afim de se manifestar contra ou preferem manter suas honras em prol de um bem maior?

A maioria balançara a cabeça em negação, as expressões estando sérias e, desta vez, com determinação reconhecível e autêntica. Ao que parecia, a camada que fazia Rosie ser alguém impenetrável quanto à críticas destrutivas e piadas fizera com que boa parte daqueles homens, incrédulos quanto a uma liderança executada pelo sexo oposto, levassem sua força de vontade à sério. Satisfeita, Rosie dera as costas, andando com a postura mais reta e perseverante que poderia apresentar.

— Foi o que pensei. — disse ela, subindo uma parte íngreme do solo da floresta.

O mutirão acompanhou-a, muitos andando com certa dificuldade devido ao pesado equipamento sobre as costas. As futuras dores eram as únicas recompensas visíveis após o fim do serviço. Alguns resmungavam, relutantes quanto ao colocar suas vidas em risco em uma missão cujo conteúdo era de extrema gravidade e com teor de escala extraordinária.

Ainda que suportasse as conversas em baixo tom — certamente a seu respeito -, Rosie continuava andando, mantendo sua brava coragem intacta. Ela sorriu levemente, imaginando com expectativa quem poderia estar encarcerado na prisão da fábrica. "Será Alexia? Adam? Lester ou Êmina?".

O menos provável, obviamente, era Charlie. A jovem sentiu a presença do soldado encarregado de vigia-la, mas algo parecia errado e estranho... Um instinto suspeito de perseguidor com intenções ocultas. Hesitou em olhar para trás, concentrando suas atenções no exército que a acompanhava e no destino a seguir.

Com as mãos para trás, o soldado Heller seguia tranquilamente Rosie, um pouco distante do grupo... sem tirar os olhos dela nem por um minuto.

CONTINUA...