Capuz Vermelho - 3ª Temporada
21 Quando se rompem as correntes (Parte 3)
— E aqui está! — dissera Adam, levantando da cadeira de modo abrupto e apontando para uma página do livro que estava utilizando para pesquisar.
Hector o fitara com uma expressão neutra, depois levantando uma sobrancelha em denotação de espera pelo caçador dizer o que descobrira. Desfazendo o sorriso, Adam franziu o rosto e virara o livro para Hector a fim de que o mesmo visse a criatura alvejada e selecionada. Ao lado do número 44 havia uma pilha de livros sobre seres das mais diversas espécies, naturezas e singularidades extraordinárias. Ambos estavam frente à frente, sentados em uma mesa redonda branca no interior do trailer que mais assemelhava-se a uma biblioteca de uso gratuito. Luminárias esguias na mesa com luminosidade amarelada proporcionavam toda a facilidade para a compenetração necessária, além de tornarem o lugar menos tenebroso.As estantes de madeira vermelha abrigavam coletâneas de valores incalculáveis, todas pertencentes ao vasto acervo do Colégio dos Caçadores e retiradas das bibliotecas extensas da base principal e postas naqueles veículos imóveis nos arredores da floresta especialmente para aquela importante batalha final para a garantia de uma vaga na fase preparatória. Adam empurrara o livro aberto até Hector, mantendo-se levantado. Apoiou as grossas mãos na mesa e ficara no aguardo da opinião do parceiro acerca do escolhido. Hector colocara a mão no queixo, avaliando os atributos da criatura. — E então, o que acha? — perguntou Adam, ansioso. — Lupus. — deu um sorriso de canto de boca, em satisfação. — 'Conhecidos por deterem código genético totalmente mutável quando transformados. Influenciados pela lua cheia, embora possam metamorfosear livremente durante qualquer hora do dia. — olhou para Adam. — Há uma lua cheia lá fora? — Sendo tão detalhista, pensei que já havia percebido antes. — disse Adam, em tom brincalhão. — Bem... — disse Hector, voltando à leitura. — Seletivamente, posso reunir as informações que nos são úteis, tais como: São quadrúpedes, bastante semelhantes à lobos selvagens, demarcam território assim que veem humanos ou outros que não pertencem a seu clã, também adquirem olhos vermelhos quando incitados a atacar... e são vulneráveis á prata. Ah, e uma informação adicional: Suas habilidades são amplificadas em ocorrências de eclipses lunares. — fechara o livro, por fim. Com um fino baque, uma pequena nuvem de poeira saíra e lançara-se no ar, evidenciada pela luz da luminária. — Tem mesmo certeza? — Tem uma sugestão melhor? — indagou Adam, arqueando as sobrancelhas. — Pelo que percebi, os livros que estava lendo não pareciam tão interessantes. Além do mais, é vantajoso para nós dois, ainda mais se formos vitoriosos. É um licantropo, uma das criaturas mais temidas em todo o país e nos fronteiriços, mesmo sua existência não sendo de conhecimento geral. — Parabéns, acabo de descobrir que Adam Bolton possui um gracioso poder de convencimento. — disse Hector, sorrindo satisfeito, levantando-se. — Será que teríamos chance contra um Wendigo ou um vampiro ? Eu creio que nos sairíamos bem. — pegara sua mochila com armas e dirigira-se à porta do trailer. — Vamos logo, não reclama. — disse Adam, empurrando-o de leve e rindo. Hector rira em seguida ao sair, inflando o peito ao adentrar novamente na sombria noite, indo na frente. Seu peito carregado de bravura o convencia de seu possível êxito. Após cerca de meia hora, os dois andarilhos noturnos empunhavam rifles médios munidos de balas de prata. Ambos olhavam para os lados, os instintos em alerta. Por um instante, Hector pegou-se reparando nos braços musculosos do parceiro, rapidamente fazendo uma comparação e refletindo sobre a importância daquilo para a missão. — De fato, esses músculos serão de grande ajuda. — disse, voltando as atenções para os arredores, mirando a arma próximo às árvores mais altas. — Para no caso de um ataque-surpresa. — Queria ter os usado para algo útil num passado distante. — disse Adam. — Queria ter evitado a tragédia.— Do que está falando? — perguntou Hector, apto a saber, andando mais alguns passos lentos. — Você tinha me contado sobre seus pais... — olhou para o parceiro, sério. — Eu sinto muito. Principalmente sobre seu pai.— Acha que é sua vez agora? Se for doloroso, não tem obrigatoriedade... — Não, está bem, faço questão. — disse Adam, parando de caminhar, abaixando a arma. Suspirara longamente, reflexivo. — Excursão da escola. Foi o dia mais divertido da minha vida. Depois veio a pior noite de todas... Hector virara-se para ele, interessado em ouvi-lo, aproximando-se um pouco. Adam prosseguira: — O sol já havia se posto. Cheguei em casa, eufórico, quase dando cambalhotas de alegria. Senti um cheiro estranho. Algo estava... apodrecendo... e então eu entrei... e os vi no chão... — deu de ombros, olhando de modo tristonho para frente. — Só lembro de ter me ajoelhado e petrificado. Depois eu fugi sem rumo. Não conseguia sentir mais nada além das lágrimas. E aquela imagem ficou gravada na minha mente. Eles me apoiavam... sobre vencer meus piores medos. Eu temia lobisomens. Quando relatei à polícia sobre o assassinato deles, fiquei sem chão, pois não acreditaram em nenhuma palavra do que eu disse. Mas eu tinha absoluta certeza — olhou para Hector. — Acho que é isso que nos torna iguais. Partilhamos de tragédias semelhantes... com pessoas que amamos.
— Eu sinto muito. — disse Hector, parecendo desalentado. — Também posso imaginar... que isto, de certa forma, o encorajou a seguir esse rumo. A ser um caçador. — Não faz ideia. — disse Adam, enxugando uma lágrima. — O mesmo deve ter acontecido com você. — Sim. — respondeu Hector, abaixando a cabeça. — Sinto presenças estranhas ao nosso redor. Acho que havíamos entrado no território há alguns minutos. — voltou-se para Adam, empertigando-se e puxando a trava do rifle. — É a nossa chance, Adam. Se quisermos amenizar nossas dores. — Então são duas metas. — disse o caçador robusto, também puxando a trava de sua arma. — Hora de pôr em prática nossos dons para atiradores. — andou alguns passos, à procura de algum sinal da presença dos Lupus. — Vamos lá, seus vira-latas, apareçam. Um estrondo provocado por uma forte trovoada o fez sobressaltarem. Olharam rapidamente para o céu, contemplando as nuvens preto-azuladas e carregadas que se avizinhavam com certa velocidade. Hector, permanecendo alerta, olhara de esguelha para sua direita, percebendo um inconfundível movimento das folhagens de arbustos próximos. O caráter era definitivamente selvagem. — Hector. — chamou Adam, baixinho, seu rosto iluminando-se por um relâmpago. O aprendiz de número 44 ergueu uma mão levemente, sinalizando para que o parceiro ficasse em silêncio. Inconformado e altamente apreensivo, Adam não conseguiu conter a sensação estranha que o acometera. Apenas previa um desfecho negativo, preocupação incentivada pela vindoura tempestade que ameaçava arruinar com o teste. — Hector.- insistiu ele, sussurrando, irritado. Os arbustos mexiam-se cada vez mais intensamente. Hector continuava sua aproximação cautelosa e arriscada, deixando que o papel dos barulhos incômodos ficasse para os trovões do que para seus passos. Apontara o cano do rifle para o ponto onde as folhagens estavam mais agitadas... Mais dois vagarosos passos. Enfim, a proximidade adequada. O dedo no gatilho começava a suar. Mais uma trovoada, desta vez seguida de um raio. Repentinamente, um borrão cinza irrompera do arbusto de modo veloz e animalesco, seguido de um poderoso rugido. Hector sentira nos ombros as cortantes garras da fera enquanto seu corpo era derrubado ao chão. Ambos, caça e caçador, rolavam pelo chão. Hector lutava para evitar que os presas daquele lobo de olhos vermelhos alcançassem seu rosto. A saliva pegajosa já mostrava-se o limite. Adam prontamente atirara contra o Lupus ensandecido, o estampido ecoando por todo o espaço. A fera tombou no chão, rolando por alguns metros até uma árvore, mas ainda resistente. Adam, apreensivo, olhou de soslaio para sua esquerda, cedendo a sensação de estar sendo observado. Hector levantava-se com dificuldade, visando o que o atacara. Além dos primeiros pingos de chuva, Adam se deparara com um Lupus de pelagem cinza, rosnando e mostrando seus olhos vermelhos e os brancos dentes pontudos — a face logo sendo iluminada rapidamente por relâmpago como um flash de uma câmera. Foi aproximando-se do corpulento caçador, prestes a aplicar seu ataque mortífero. No entanto, viera outro golpe surpresa, para o espanto súbito da dupla. Um Lupus viera de encontro à Adam em alta velocidade, através de um forte salto que havia dado. Seu rugido fora simultâneo a uma trovoada. A imagem daquele lobo selvagem extraordinário pairando no ar por poucos segundos surpreendera Adam, fazendo-o arregalar os olhos, mas, por instinto, mirar o rifle em um ponto específico. O tiro acertara-o no meio da cabeça, rapidamente o abatendo contra o chão. O outro que estava encarando-o já corria ao seu encontro, mas Hector logo disparara em sua costela esquerda, salvando o parceiro. Outros dois surgiram pelas costas de Adam, rugindo e intencionando abocanhar a presa mais próxima. O caçador número 52 virara-se velozmente e disparara nos dois antes que o atacassem. A chuva iniciara-se, ficando mais forte a cada segundo. — Adam! — gritou Hector, a voz meio abafada por conta do intenso barulho da chuva. Corria até o parceiro. — Hector! Não baixe a guarda! — retrucou Adam, afoito. Sentira mais um próximo à ele, logo virando-se e sendo atacado. — Não! — berrou Hector, tentando mirar no Lupus que tentava esforçadamente desfigurar o rosto de Adam com várias mordidas. As trovoadas e a chuva excessiva dificultavam a precisão. Infelizmente, antes que pudesse correr para salvar o amigo, Hector sentiu o chão perder-se sob seus pés. Algo abocanhara sua perna direita e o derrubara, fazendo-o cair para frente, o rosto batendo contra o solo molhado da floresta. Um Lupus faminto o arrastava para um denso arbusto. Para sua sorte, usava calças resistentes. Porém, as presas foram cravadas de modo que o fazia sentir pontadas agudas em sua canela. Sem conseguir ver muito bem a face da criatura por conta da chuva, Hector tentava manter o rifle em sua mão esquerda, por mais escorregadia que estivesse. Rangia os dentes, tentando livrar-se e soltar sua perna. O furioso Lupus mordia-a ferozmente, balançando a cabeça de modo frenético como se estivesse afim de rasgar um pedaço suculento de carne. — Adam! — gritara novamente, preocupado com o parceiro que ainda lutava com todas as suas forças... desta vez com dois Lupus. Os socava e os chutava sem cessar. Pelo visto, sua arma perdera-se. O último restante teve seu pescoço quebrado pelos fortes braços do caçador, que o mantivera preso e envolvido. Os trovões deixavam a cena cada vez mais bizarra, enquanto Hector lutava para se ver livre daquele monstro de uma vez por todas e salvar Adam de mais um iminente ataque. Com a chuva ficando mais forte, Hector só pôde escutar um estampido abafado próximo à ele. Tentou olhar para onde Adam estava... e já não sentia mais sua perna sendo mordida e arrastada. Entreviu uma grossa mão estendida para levanta-lo. A segurou com força e reergueu-se com esforço. — Obrigado. — agradeceu Hector, em voz baixa, tocando-o nos ombros. — Hã? O quê? O que você disse? — perguntou Adam,inclinando sua cabeça, sem conseguir ouvir nada além da implacável chuva. Antes que fosse responder, Hector olhara para baixo... e percebera um alarmante detalhe... no corpo de Adam. Um profundo corte no abdômen, em grave estado hemorrágico. — Precisamos sair daqui! — exclamou ele, denotando urgência. Olhou novamente, preocupando-se. — Como você não sentiu? — perguntou em voz alta. Chocado, Adam logo se dera conta da gravidade da situação, começando a sentir uma leve tontura e uma excruciante dor. — Tudo bem! — fizera cara de desconforto, apoiando-se no ombro de Hector. — Não deve ser nada... — Ande, venha comigo... — disse Hector, colocando o braço do parceiro sobre sua nuca para carrega-lo a qualquer lugar seguro. — Vamos voltar para o trailer agora! — Não Hector! — recusou-se Adam, fechando os olhos devido a dor. — É melhor... melhor que me deixe aqui! Você quem deve ir! Portanto, vá, salve-se! — Não! — confrontou Hector, discordando veementemente. — O que está pensando? Não vou abandona-lo, não vou deixa-lo morrer aqui! Por um instante, Hector percebera lágrimas jorrando do rosto do novo amigo. Lágrimas misturadas com as gotas da chuva que banhavam ambos e castigava aquela floresta. Seu rosto sôfrego ficou mais evidente graças ao clarão de um relâmpago. Adam o olhava com uma angústia jamais antes vista por Hector... algo que reconhecera como desistência pura e sincera. Adam estava disposto a abrir mão da promessa. — Você sentiu a dor diminuir ao matar aquele Lupus... eu tenho certeza disso. — disse ele. — Assistiu a morte de seu pai. Eu nem sequer vi os meus antes de morrerem, passei o dia inteiro naquele lugar... o lugar onde eu deveria ter ficado por mais tempo... assim talvez eu não sofresse tanto quanto me vejo sofrendo agora. — fez uma pausa, gemendo de dor e rangendo os dentes. — Você tem um ambição que eu gostaria muito de ter. Mas não o invejo. Eu estou admirado... pelo seu potencial. Por isso, deve correr atrás... Leve o corpo de um Lupus e saia daqui!
— Não... — negou Hector, balançando a cabeça, o rosto bastante molhado. — Não sem você! Fizemos um juramento! Vou me arrepender pelo resto da minha vida se me fizer o que está pedindo! Posso ganhar uma vaga para integrar a Legião se eu vencer a última fase... mas vou me sentir um caçador incompleto e envergonhado de si mesmo se eu deixa-lo para morrer! É assim que vai ser, Adam. Se lutamos juntos... ***— ... nós venceremos juntos. — disse Hector, voltando ao seu estado humano. — Foi essa a nossa promessa inquebrável.Um impulso de fúria estimulou Adam a exteriorizar toda a carga negativa que tal decepção fazia aflorar em seus instáveis nervos. Virou-se abruptamente para trás e socara com forte impacto o espelho oval com o punho direito. No reflexo, havia uma face encolerizada, um rosto quebrado em vários pedaços... e uma alma destruída e praticamente corrompida pelo desejo de aniquilar a dor provinda do sentimento de traição. Sangue escorria por entre as rachaduras do espelho e gotejando no chão, ao passo que Adam pressionava seu punho.Voltara-se para Hector, os olhos vermelhos após vários choros e raivas consecutivas.— Eu faço questão de quebra-la. — decretou ele, sem dó. — Naquele dia... vocês carregou dois fardos nas costas. Eu e meu corpo ferido... e o cadáver do Lupus que matei. Você resolveu levar justo o que matei do modo mais brutal. Encontramos uma caverna. Antes de perder a consciência, vi você fazendo uma fogueira... Senti algo cobrir meus ferimentos. — fez uma pausa, levantando um pouco a camisa branca, mostrando a cicatriz do corte profundo que levara. Baixara a camisa, voltando a olhar o caçador desalentado e surrado. — Passamos a noite lá até a chuva passar. Voltamos para o acampamento ao amanhecer. Minha ferida estava curada com uma folha, uma erva especial que sabe-se lá onde você encontrou... — colocara a mão ensaguentada no peito esquerdo, apertando-o. — Suas palavras não são capazes de curar as feridas da minha alma. Por mais que você tente, será inútil.Respirando profundamente, Hector se mantivera em silêncio e deprimido por alguns segundos. Razões para convence-lo já se mostravam em completa falta. Sentia-se desarmado contra o profundo ódio que seu ex-parceiro de caçada alimentava. "Não há mais como reverter o que já se corrompeu.".— Apenas para que saiba... — começou Hector, explicando. — ... minha transformação é voluntária, ao contrário do restante desta espécie. O lobisomem que me infectou... havia sido estimulado por algo obscuro e dominador. Esta é a razão pela qual assumo controle sobre essa maldição. Em períodos de crise, sou facilmente influenciado pela lua cheia, me igualo á maioria da espécie. Mas quando ela termina reassumo o domínio. Isto ocorreu na mesma noite em que fomos às Ruínas Cinzas impedir Mollock, antes de reencontrar Rosie e irmos à casa de Charlie. — relatou, tornando a ficar cabisbaixo.— Então foi assim. — disse Adam, andando para um lado da sala, chegando perto da entrada à cozinha. — E pensar que minha suspeita, a cada vez que eu imaginava, sobre o responsável pela morte dos meus pais... tinha sido um meta-simbionte. Não sei como ousa estar ao lado de Rosie, insistir em querer resgatar nossos amigos... — esboçara ojeriza na face, olhando-o de baixo para cima. — ... desse jeito. Como se olha no espelho... sabendo que se tornou algo que você tanto desprezava?Um instante de silêncio pareceu esmorecer ainda mais as forças de Hector perante àquele ultimato.— Se eu tivesse uma estaca de prata na minha mão, agora mesmo, eu mataria você... — confessou Adam, honesta e corajosamente. — Rosie esteve e vai estar ao lado de um monstro, indecisa sobre se confia ou não em você. — fizera uma pausa, passando as duas mãos no rosto, demonstrando estar exausto. — Preciso... sair daqui. Agora mesmo... antes que eu enlouqueça.— Adam... ainda há...— Não há mais nada! — ditou ele, rigoroso. — Nada que você possa fazer para resgatar a confiança, o bem mais precioso que eu ofereci à você. Você viveu com ela... mais eu prefiro que morra sem meu perdão por ter quebrado-a. — andara para o corredor que levava aos três quartos. — Adeus, Hector."Eu o perdi... O que vira depois? Rosie? Não. Perder a amizade de Adam só me prova que devo lutar pelo que é meu. Eu causei essa quebra. Não posso reconstituir o juramento. Se devo me redimir... desta vez será por definitivo. É me tornando mais forte!", pensou Hector, sentindo suas pernas ficarem bambas.Ajoelhou-se, fechando o punho direito e olhando-o. "Estas mãos... que banharam-se em oceanos de sangue... não serão mais utilizadas para matar inocentes. Não serão mais dominadas pela minha contraparte obscura. Talvez nadar contra a corrente seja o único caminho próximo.".Reerguera a cabeça, sentindo-se decidido a rumar para a trilha que o levará à conquista do controle absoluto. Olhou para o corredor, o semblante de decisão e, sobretudo, de aceitação. "Por mais difícil que seja... Adeus, Adam.". ***"Esta mensagem vai para você, Rosie. Hector esteve aqui na manhã de hoje, e aproveitei minha deixa: Expressei toda minha decepção, tudo o que estava engasgado durante o tempo que fiquei naquele pesadelo em forma de prisão subterrânea. Quero dizer também que não contei à ele sobre como passamos a noite de ontem. Optei por não fazê-lo, já que sei exatamente o que ele sente por você... ele deixa isso bem claro só de mencionar seu nome. Indo direto ao ponto: Decidi partir. Não conseguiria conviver com esse fardo, essa desilusão por tanto tempo, não sei o quanto eu suportaria ou se eu suportaria. Me desculpe, Rosie. Sei que adoraria me ter ao seu lado, lutando para resgatar nossos amigos... Sinto uma imensa falta deles. Eu voltaria atrás se caso Hector estivesse excluído. Ainda não sei como o Exército o admitiu. Aliás, nem sei como o Mestre Vannoy resolveu se aliar com o Exército. Talvez casado com uma bruxa disfarçada e resolvendo negócios enfeitiçado? Quem sabe. Uma coisa é certa: Não pretendo voltar tão cedo. Não enquanto ele estiver presente nas vidas dos meus amigos. Vou para o Himalaia, dissipar essa nuvem negra na minha cabeça e aprimorar minhas habilidades. Acho que depois de um tempo, é provável que volte para devolver minha licença de caçador da Legião, e, talvez, me tornar um caçador independente fora do país. É a decisão mais sensata, ao meu ver. Desfrutei cada momento que tivemos juntos. Adeus, Rosie. Ah, e continue negando a proposta daquele tal de Áker. Não sei não... mas, por via das dúvidas, é bom manter sua convicção. Boa sorte à você e aos caçadores. Salve-os, por favor. Talvez seja você... a luz que vai impedir as trevas de recaírem sobre o mundo."As mãos de Rosie pareciam querer amassar aquele papel amarelado. A jovem estava ajoelhada sobre a lateral de sua cama, segurando tremulamente a carta escrita por Adam. De fato, o coração de Rosie era frágil contra despedidas e ela sentia como se o mesmo estivesse sob tortura naquele momento.Olhara de modo taciturno para aquelas palavras, relendo palavra por palavra para ter certeza de que era real.Cabisbaixa, levantara-se devagar, deixando o papel sobre a cama. Reprimindo lágrimas, a jovem encarou o nada, pensativa e, acima de tudo, aflita. A luz do pôr-do-sol adentrava pela janela de seu quarto, localizada atrás da cama.— Mas que droga. — disse ela, sem conter sua rápida insatisfação. — Aonde você está agora, Hector? ***Quatro batidas na porta foram necessárias.Hector aguardava de modo tranquilo a recepção de Eleonor, dando algumas olhadelas para o seu relógio de pulso. Saíra do casarão após Adam arrumar suas malas e partir para longe. A razão por ter voltado naquela hora tardia resumia-se em horas trancado em um dos quartos de hóspede no segundo andar, ora imerso em uma série de divagações, ora dando dormidas efêmeras. Lutar pelo que lhe pertencia não significava lutar sozinho. Não mais naquele período. O caçador intencionava fazer algo que Adam claramente mostrava-se incapaz: Oferecer uma segunda chance.As trancas fizeram ruído de cima à baixo, logo em seguida a maçaneta girando.Quase levando um susto, Eleonor, após abrir a porta, sabia que seu coração descompassara numa fração de segundos ao encarar, atônita, o visitante. Seus olhos verdes brilharam em emoção e espanto, e sua pele suavemente morena aparentava estar mais límpida e jovial.Mas do que a estupefação devido à aparição inesperada de Hector, prevalecia a preocupação pelo rosto do mesmo.— Hector... — gaguejou ela, notando os hematomas. — O seu rosto... — ergueu uma mão para toca-lo.— Não, não... — interrompeu o caçador, impedindo-a. — Está tudo bem.— Tem certeza? — perguntou ela, intrigada. — Não entendo. Pensei que jamais voltaria. O que o motivou a mudar de ideia?— Você tinha razão. — disse ele, seguro de si.— Sobre o quê? — indagou a bruxa, parecendo fingir não saber.— Eu sinto raiva. — confessou Hector, suspirando longamente depois. — E quero assumir qualquer risco que seus métodos me submetam... somente para obter o controle absoluto. Não tem a ver apenas com proteger Rosie.— Abamanu, creio eu. — arriscou Eleonor, assentindo.— Sim. — confirmou Hector, determinado. — Acredito que saiba uma maneira de me tornar imune ao poder destrutivo dele, da mesma forma como suspeito que Rosie seja. Me sinto... — hesitou, fazendo uma pausa. — ... mais motivado do que nunca a enfrenta-lo. Percebi pelo modo como ele me olhava nas Ruínas Cinzas. Foi um desprezo fingido.— E o que concluiu? — questionou a moça, aumentando a curiosidade, olhando-o fixamente.O desamparo do caçador estava nítido em seu rosto machucado.— Rosie e eu fomos tratados como as testemunhas priorizadas. Ela não é seu único interesse. Posso sentir. E preciso de ajuda para barrar qualquer atração involuntária que eu possa ter.O olhar de Eleonor adquirira amabilidade pura, mas com certa tristeza ocultada. Um fraco sorriso em seu rosto externou-se.— Veio numa boa hora. — disse ela, abrindo passagem.Hector entrara devagar, sentindo-se pouco à vontade. Ao fechar a porta lentamente, Eleonor não enganara a si mesma ao respirar o mais genuíno alívio com um sagaz sorriso de satisfação.
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