Capuz Vermelho - 3ª Temporada

19 Quando se rompem as correntes (Parte 1)


Notas iniciais
Capítulo 3x06. Boa leitura.

Era como se cada pensamento fosse uma peça de um vasto e complexo quebra-cabeças, lentamente se conectando às suas irmãs. As pálpebras pesadas denunciavam uma exaustão que indicava ser temporária, embora fosse tremendamente desgastante. Pouco a pouco abrindo os olhos, a realidade novamente se delineava à visão de Hector. Após reaver a consciência, pensou estar escutando gritos abafados... alguém desesperado próximo à ele.

— Hector! Fique comigo! Hector! — dizia Eleonor, aos prantos, tentando socorrer o caçador que havia desmaiado inesperadamente. Tocara nos ombros do caçador, balançando-o de leve para ver se o mesmo retornava. O colocara na cama de seu quarto.

A bruxa inclinara-se e encostara seu ouvido no peito de Hector, a fim de certificar-se de que ele estava respirando. "Ainda bem", pensou ela, passando suas delicadas mãos pelos cabelos pretos do caçador. Suas lágrimas escorriam e pingavam nas vestes esfarrapadas de seu parceiro.

Notara-o abrindo os olhos devagar, recuperando a lucidez. Abrindo um largo sorriso, Eleonor se prontificou a apoia-lo.

— Hector! Que bom ainda estar vivo! Nossa... não faz ideia do quanto...

O caçador arregalara os olhos repentinamente e se sentara, como que querendo se afastar da moça.

— Mas... O quê?! O que aconteceu? — fizera uma expressão de confusão. Olhara para o recinto onde se encontrava.

— Preciso que me diga, Hector... — disse Eleonor, sentando-se na cama e pegando a mão esquerda do caçador. — Qual a última coisa de que se lembra?

— Por que está me perguntando isso? Sinto que apaguei desde que... — cortara a frase, olhando para o nada, boquiaberto.

— Desde quando? — insistiu a bruxa, olhando-o ansiosa.

— Quando estávamos tendo aquela conversa sobre proteger Rosie... — disse Hector, voltando-se para ela, formando um semblante de desconfiança. — Isto explica tudo. Você apenas me enfeitiçou para me silenciar a respeito de Rosie e minha promessa. Não somente isso... mas para me manter preso aqui, um impedimento bem descarado da sua parte! — reclamou ele, fuzilando-a com os olhos.

"Impossível! O feitiço...", pensava Eleonor, estupefata, as palavras travadas na garganta. "É inconcebível! Eu treinei de modo que pudesse fazê-lo durar três dias inteiros! Não pode ser verdade... ele ainda deve estar sob o efeito... talvez ele volte ao transe em questão de minutos, o desmaio pode ter causado uma ruptura temporária.". Tudo o que ela mais gostaria naquele momento era estar errada.

— Não! — exclamou ela, levantando-se rapidamente da cama, tornando a andar de um lado para o outro com as mãos na cabeça em um evidente sinal de desespero absoluto. — Que merda! Que droga! Não era para isso acontecer de modo algum!

— Ei, ei! — repreendeu Hector, levantando-se. — O que há com você? Por que está agindo dessa forma?

— E você não me venha com sermões! — ditou ela, raivosamente, erguendo um indicador. — Eu tive minhas razões para recorrer à esse método, por mais... maldoso que fosse parecer, mas foi a única maneira que encontrei de mante-lo aqui, mante-lo em segurança.

— Eu não teria tanta certeza. — disse uma voz feminina vinda da porta do quarto.

Em simultâneo, ambos olharam para a entrada do cômodo.

Parada próxima à porta entreaberta, Alexia fitava a dupla com determinação e uma face séria. Seus cabelos ruivos estavam um pouco desarrumados e olheiras evidenciavam noites em claro.

Desconcertada com a presença da vidente, Eleonor deixou escapar um grunhido de frustração. Alexia, tomando uma posição firme, andou até Hector... que estava bastante surpreso por saber que a jovem estava morando lá.

— Eu fui a responsável. — disse Alexia, sem medo, virando-se para Eleonor. — Andei mexendo naqueles livros velhos de bruxaria enquanto você estava ocupada demais iludindo Hector... e me senti no direito de salva-lo.

A bruxa fizera uma cara de confusa, imaginando como Alexia, em tão pouco tempo, manipularia magias tão complexas... sobretudo as de reversão.

— Eu... não consigo acreditar. — disse Eleonor. — Salva-lo!? Olha... acho que fez um julgamento bem precipitado a meu respeito quando resolveu agir...

— Não, não fiz! — disse Alexia, aborrecida. — Eu vi absolutamente tudo. Você o beijou e o enfeitiçou com uma magia de ilusão, pouco ortodoxa, mas muito eficaz, o que pra mim é algo a ser usado para benefícios próprios, incluindo fins malignos.

Eleonor não conseguira reprimir uma risada.

— Está certa quando a benefícios próprios... — a bruxa continuava rindo, sem conseguir olhar para a vidente. — ... mas propósitos malignos!? — voltou-se para ela, assumindo um tom sério. — Jamais me rebaixaria a intenções assim, ainda mais se tratando de alguém que amo. É uma questão de proteção, Alexia. — apontara o dedo em direção à Hector, com um certo ar acusador. — Este não é mais o caçador que conheceu há dois anos.

— O quê!? — soltara Hector, esbaforido com o apontamento, olhando a bruxa com nítida reprovação.

— Nem tente fingir inocência agora, Hector. — disse Eleonor, colocando-se entre o caçador e a vidente. Voltou-se para sua "aprendiz". — Tentou impedir o livramento de um amaldiçoado.

Alexia engolira em seco, numa tentativa de não se abater com qualquer atitude ofensiva provinda de Eleonor. No entanto, um lampejo de curiosidade pareceu ter fragilizado suas barreiras.

— Do que está falando? O que quer insinuar? — perguntou Alexia, incomodada com as dúvidas.

— Que me tornei um monstro. — interveio Hector, antes que a bruxa respondesse prontamente. Aproximou-se da vidente, transmitindo um estado mais ameno. — Eis o motivo pelo qual ela e eu nos separamos. Presumo que ela se recusou a contar. — olhou de soslaio para Eleonor.

— Por uma boa razão. — defendeu-se a bruxa, irritada. — Que confiança ela teria em mim se caso eu revelasse o que houve naquela noite?

— Confiança esta que diminui a cada minuto que passa. — retrucou Alexia, desafiadora.

— Sob que ajuda você tentou conquistar a confiança de Alexia? — quis saber Hector, olhando-a seriamente intrigado. Naquele instante, sua avidez por respostas pulsava mais do que nunca.

— Em relação ao seu dom. Ela é uma profetisa. — disse Eleonor, olhando a vidente de relance, parecendo preocupada. — Parte de uma classe de seres humanos que vem à Terra a cada mil anos, um por vez. Me dispus a ajuda-la a superar as dificuldades que esse fardo trazia, graças a hipnose ela pôde visualizar eventos do passado. — fez uma pausa, mostrando-se hesitante.

Voltado-se para Hector rapidamente, Alexia se apresentou disposta a não esconder mais nada.

— Na primeira sessão eu viajei ao passado. Estive presenciando o exato momento em que Abamanu e seu oponente, Yuga, lutavam nos céus, exatamente nas Ruínas Cinzas... — dizia a vidente com a voz embargada de comoção ao revisitar o traumático fato em devaneios rápidos.

O caçador permanecera boquiaberto e estupefato por vários segundos. Não sabia mais a qual das duas se dirigir. Balançou a cabeça, desnorteado e confuso.

— Isto... me parece completamente implausível. Como assim, afinal? Profetas... eles veem o futuro, logo não faz sentido...

— Alimentar seu ceticismo estúpido não vai ajudar a sua mente a assumir esse fato. — provocou Eleonor, insatisfeita com o modo que o caçador reagiu á revelação.

— Já chega. — ditou Alexia, respirando fundo. — Já fiz e falei tudo o que tinha em mente. E se quer saber... — voltou-se para a bruxa. — ... não sinto culpa alguma pelo que fiz. Ameace-me se quiser. Prove o que quiser provar à mim... mas nada mais me fará confiar em você da mesma forma como quando nos conhecemos. — disse ela, enfezada.

— Ainda não me deu uma chance de me explicar. — disse Eleonor, transmitindo um ar tristonho. — Não vi outra saída a não ser esta. Eu esperava que o feitiço durasse o tempo pré-determinado para que assim a magia que utilizaria para fazer Hector controlar os impulsos de seu demônio interior estivesse em total equilíbrio sobre minhas mãos. Foi uma tentativa desesperada, eu sei... mas foi com a melhor das intenções, Alexia. — deu alguns à frente, aproximando-se da jovem. — Precisava ganhar tempo. Mas eu compreendo. Sou uma bruxa, afinal. — dera um sorriso forçado enquanto uma lágrima caía de seu olho direito. — Devido à meu clã ser rotulado como maligno e impuro pelas pessoas mais doutrinadas, não sou digna de confiança por fazer parte dele, ainda que me mostre divergente às regras. Eu perdoo o seu preconceito, Alexia. Assim como também sua atitude em tentar salvar Hector de mim. — enxugara os olhos com as duas mãos. — Talvez eu tenha errado, estou longe de ser perfeita. Talvez eu não tenha feito a escolha certa... Mas eu me senti obrigada a fazê-lo. Pelo bem de Rosie. Pelo bem de Hector.

— Nós já havíamos conversado sobre isso. — disse o caçador, austero e inflexível. — Mas você... rejeitou minha intenção de convence-la de que eu estava certo sobre mim mesmo. Eu... estou apto a proteger Rosie, custe o que custar, mesmo que eu carregue esta maldição dentro de mim. — olhou para Alexia. — Agradeço à você... por ter feito a coisa certa. — novamente voltou-se para Eleonor. — Acho que... você me impede que eu me veja pronto para confiar em você. Sairei por aquela porta de cabeça erguida. Com a certeza de ser capaz de controlar o monstro que há em mim. Eu sei o que sou. — olhou-a firmemente, de modo focado.

Alexia andara para um lado do quarto, estando aos prantos e soluços.

Sentindo-se como um pássaro livre de sua gaiola, Hector iniciara suas largas passadas, saindo do quarto e percorrendo o longo corredor que levava à sala de estar. Em estado de choque, Eleonor chorara com a face estática, atônita pelo que acabara de ouvir. Parecia que uma parte importante de sua vida desaparecera de sua frente como um fantasma. "O que foi que eu fiz? Ele... ele nunca mais vai voltar!".

Percebendo que Hector saíra do quarto, Alexia virara o rosto para a porta e andara para alcança-lo, deixando sua mentora sozinha e desolada no cômodo.

***

Antes que Hector pudesse tocar na maçaneta da porta, Alexia o avisara para parar e ouvi-la.

— Hector! — disse ela, logo parando. — Sei que está afogado em dúvidas. Principalmente sobre como sobrevivi nas Ruínas Cinzas.

O caçador lentamente se virara para ela, a gola do sobretudo de couro marrom levantada. Seu olhar era de curiosidade expectativa, porém, parecia apressado e incapacitado de suportar mais do que conseguia ouvir sobre coisas das quais desconhecia.

A vidente fora chegando mais perto, vagarosa e timidamente. Seus aflitos olhos azuis e seus suaves lábios meio trêmulos indicavam forte insegurança.

— Não há tempo para falarmos sobre isso. — disse Hector, categórico. — Sinto muito, Alexia.

— Deixe-me resumir em poucas palavras. — insistiu ela. — Dois dias depois daquela noite. Aviões. Pessoas misteriosas. Sedativos. Alemanha. Campo de concentração. Magia de teleporte.

Por um instante, Hector divagara sobre o que a vidente estava tentando expressar através daquele breve resumo e nada esclarecedor. Assentiu calmamente para ela, vendo-se sem tempo e palavras para discutir as razões que levaram Alexia e Eleonor a se encontrarem.

Dera novamente as costas, andando até a porta.

— Não conte à Rosie que eu estou aqui. — pediu a vidente, a voz triste. — Muito menos sobre Eleonor.

— Pode deixar. — garantiu Hector, girando a maçaneta e abrindo a porta. — Ela não saberá... por enquanto.

— Ah! — estremecera ela, lembrando-se de algo extremamente relevante. — Hector...

— Sim. — disse o caçador, parando bem na soleira antes de sair. Olhou-a por cima do ombro.

A vidente juntara as mãos, seu semblante de pura apreensão. Para o que fosse dizer, não intencionava fazer com que Hector especulasse sobre uma visão que tivera.

— Resgate os outros. Estou torcendo por você e por Rosie. — ficara cabisbaixa. — E também Charlie...

— Não se preocupe, Alexia. — disse Hector, a voz calma. — Por mais obstáculos que surjam, não vou esmorecer. Rosie e eu iremos trazê-los de volta. Tenha a minha palavra.

E, por fim, despedira-se, fechando a porta.

***

Notícias de última hora:

"Há dois dias havíamos informado que um intenso tremor foi sentido em toda a extensão do condado de South Yorkshire, mas que, por razões desconhecidas, sua causa não teria sido testemunhada. Eis que somente agora recebemos a informação complementar deste terrível fato. Vale novamente ressaltar que os dados sismográficos confirmaram um tremor na escala de 0.3, algo nunca antes visto na história da região ou do país. Uma investigação policial com o auxílio de sismólogos e cientistas conhecedores da radioatividade foi conduzida ontem, na área florestal de Sheffield, local onde pôde-se constatar a presença do epicentro que gerou o tremor. Um grupo de habitantes, que não quiseram se identificar, foi entrevistado por um dos policiais. Um deles — além de ter sentido o forte tremor — afirma ter avistado, a uma certa distância, uma densa nuvem de fumaça provinda da explosão. O relatório dos cientistas descarta a possibilidade de um uso criminoso da bomba nuclear, sendo que nenhum traço de radiação foi detectado.

Fica, então, em aberta a questão sobre a misteriosa e colossal explosão. Lá, como sabe-se, estava instalada uma base industrial de uma empresa cujo nome nunca foi confirmado ou conhecido. Uma falha em algum mecanismo? Um crime forjado para parecer um mero acidente?

Mais informações em breve."

Adam desligara o rádio em um rápido movimento, girando o botão do volume e apertando no de desligar em seguida. Deixara-se cair no sofá novamente, dando um suspiro com boca denotando exaustão. A prazerosa noite que tivera ao lado de Rosie parecia estar fixa em sua mente — tão resistente à vontade do caçador em esquecer tal ocasião. Olhara para o teto, divagante. Mais cedo, implorara para a jovem permiti-lo a participar livremente das operações de resgate. Entretanto, havia esquecido que Rosie estava seguindo ordens explícitas. "Esse General Holt parece que se acha acima do bem e do mal.", pensou ele, lembrando do que a líder disse, reproduzindo as palavras do austero militar: O primeiro a ser resgatado não pode ser incluído, em hipótese alguma, na operação seguinte. Caso seja feito, uma punição recairá sob o líder que permitiu a participação. O castigo nada mais era do que uma substituição imediata e a total quebra de acordo com o líder desobediente.

"Ah, dane-se. Ela ficará bem. Rosie parece saber cuidar de si mesma.", pensou Adam, inclinando-se no sofá, pondo os cotovelos sobre os joelhos. Massageara as têmporas, preocupando-se sobre quem seria a próxima pessoa a ser resgatada. A teoria mais aceita por ele e Rosie era a de que Charlie não se encontrava em nenhuma das duas fábricas restantes, seguindo a lógica antes discutida. "Um prisioneiro para cada fábrica. Três. Contando comigo, são cinco prisioneiros. Supondo que Lester e Êmina estejam na fábrica que vai ser desmanchada daqui a três dias e Alexia e Charlie na última também no mesmo dia. Isto quebra a lógica que eu propus. Mas ela volta a ser válida, já que Charlie é o pote de ouro de Abamanu... e pode estar muito bem escondido, num lugar bastante secreto. Se é um prisioneiro em cada fábrica... não pode ser só Lester em uma e Êmina e Alexia noutra. Faz sentido.".

As batidas na porta da frente transpassaram os devaneios de Adam. Assustando-se um pouco, o caçador olhara para a porta, empertigando-se.

— Pode entrar! — concedeu ele.

O ranger fino ressoou pela espaçosa sala de estar bem arrumada. Uma figura de sobretudo de couro marrom e cabelos pretos que iam até a nuca e testa entrara ali calmamente. "Não pode ser...", pensara Adam, levantando-se depressa do sofá. Ajeitou as mangas de sua camisa branca, contemplando seus bons músculos.

Assim que terminara de fechar a porta, Hector estacara no mesmo ponto ao virar para a pessoa que estava de pé naquele cômodo. Sua expressão séria e travada logo transformou-se em espanto, deixando-o boquiaberto. Um sorriso enfraquecido foi se formando em sua face... e seus olhos ficaram marejados.

— A... Adam!? — disse o caçador-detetive, gaguejando e aproximando-se lentamente.

— Olá Hector. — disse o caçador de braços fortes, de modo sério. — Há quanto tempo, não? — perguntou, levantando uma sobrancelha.

O gesto causou rápida estranheza em Hector, que pareceu estar insatisfeito devido a falta de reciprocidade por parte de Adam. Algo aparentava estar muito errado. O que naturalmente se esperava de um reencontro parecia ter esfriado em uma estranha atmosfera negativa. Hector quase abriu os braços para abraça-lo, mas relutou em fazê-lo ao dar-se conta do quão inesperada foi a reação por parte de Adam, tendo que se limitar a encara-lo com confusão no olhar.

— Não faz... ideia do quanto eu esperei vê-lo de volta. — disse Hector, sorrindo forçadamente. — Sonhei com esse momento por inúmeras noites. Sofri com os pensamentos negativos que me atormentavam... — abrira um sorriso, olhando-o dos pés à cabeça. — Agora... estamos aqui, um diante do outro, eu não poderia estar mais feliz. Rosie, o Exército e os caçadores fizeram um ótimo trabalho. — andara para um lado, olhando para as escadas e a porta da cozinha. — A propósito, onde ela está?

— Saiu para uma reunião com o Exército. — disse Adam, também tranquilamente andando pela sala. — Tive que ficar aqui pois Rosie não tinha como pagar uma reserva num hotel. Parece que o chefe dela é bem casca grossa. — disse, em tom brincalhão, sorrindo.

— Ah... sim... — disse Hector, pouco à vontade. — O General Holt. Ele não parece ser do tipo de pessoa com quem alguém gostaria de ter no convívio.

Adam o fitou por alguns segundos, estreitando os olhos, chegando um pouco mais perto. Sua expressão estava mais incisiva do que nunca.

— Você... está bem diferente. — comentou Hector, notando a total ausência de cabelos na cabeça do amigo. — Imagino o quanto deve ter sido difícil suportar.

— Sim, verdade. Cada minuto parecia ser um salto para a morte. — desabafou ele, continuando a andar até Hector. — Me obriguei a passar dias em jejum. Em outros, tive que comer o que encontrava pela frente. As vezes, uma carne suculenta de um rato de esgoto ou camundongo. Em outras... baratas e lagartos. Para aliviar a sede que me consumia... eu tive que cuspir e beber de volta minha saliva... apenas para manter a ideia da água fresca passando pela garganta. — sua voz embargava-se de emoção. — Mas nem de longe esta foi a pior dor.

Hector franzira o cenho. Um inconfundível sentimento de nervosismo o acometeu. Uma rememoração súbita na mente se fez, fazendo seus pelos eriçarem-se. Uma voz alarmante e colérica gritava na sua cabeça, vibrante.

— Foram dois anos da minha vida em uma cela, vivendo como um animal enjaulado. Dois anos jogados fora. — disse Adam, cerrando os punhos.

— Olha... Adam, se estiver ansiando por um abraço, saiba que... — fez uma pausa, sentindo-se inseguro. — Não, na verdade eu deveria ter feito isso desde que entrei e o vi. — tentou abrir os braços. — Pode vir... chore se quiser.

— Não vou chorar. — disse o caçador, indicando raiva no tom. — Afinal... por onde esteve? Onde estava quando Rosie veio com aqueles homens me resgatar?

— É uma longa história... — desconversou Hector, indisposto para falar sobre sua passagem pela casa de Eleonor. — Por que está falando desse jeito? Como se estivesse querendo me culpar por algo que fiz de errado. — olhou-o firmemente.

— Os escombros causaram amnésia em você, por acaso? — perguntou Adam, expressando desconforto. — Responda-me primeiro: Como sobreviveu? — aproximou-se um pouco mais, esbanjando um caráter de um interrogador ante ao criminoso.

— Achei que Rosie tivesse lhe contado. — retrucou Hector, a fala rápida e nervosa.

— Digamos que nós estávamos focados em outro assunto... — fez uma pausa, olhando para o chão, hesitante. — Mas isto não vem ao caso. Me diga. Como saiu vivo de lá? Depois da queda, tudo de que lembro é apenas... escuridão... depois uma cela imunda no subterrâneo. Eu pensei: "Sou o único sobrevivente?". Foram dias temendo o futuro, eu precisava de respostas o quanto antes. Primeiro você, Hector. — fez um rápido gesto com a mão estendida para permitir ao caçador falar.

— É difícil explicar com tantos detalhes... — resistiu Hector, intimidando-se. — Apenas sei que abri os olhos, senti o ar novamente encher meus pulmões e que a vida tornou a fazer parte de mim. Procurei por você, por Lester, Rosie, Alexia, Êmina... fui tomado pelo desespero absoluto, achando que todos haviam morrido. — fizera uma pausa, suspirando pesadamente, olhando para a janela. — Quando reencontrei Rosie... pouco tempo depois fomos até uma fábrica próxima à esta floresta. Mas ela já foi desmanchada há alguns dias atrás. Compartilhamos o mesmo temor.

— E o que temiam? — perguntou Adam, o tom duro, os olhos austeros fixados no amigo.

Hector voltara-se para ele com um semblante de angústia.

— Que Abamanu tivesse submetido-os à infecção da substância. Tendo isso em mente, os resgates não passariam de distrações, enquanto ele pressionava Charlie a aperfeiçoar suas técnicas de acesso a outros mundos. — dera alguns passos à frente, sem tirar os olhos de Adam. — Você... pelo visto, não parece demonstrar sinais claros de que está infectado...

— Não. — interrompeu Adam, balançando de leve a cabeça negativamente. — Nenhuma gosma preta e grotesca está correndo nas minhas veias. Sim, Rosie me contou sobre o hospital, o coma, o pesadelo que teve antes de acordar...

— Espere. — disse Hector, arqueando as sobrancelhas, instantaneamente tornando-se curioso. — Rosie teve um...

— Ah, sim! — disse Adam, estalando os dedos, olhando para Hector com certo deboche. — Acabo de descobrir que ela não contou à você. Sábia decisão ela teve. — dera uma piscadela rápida.

Hector, gradualmente, sentia como se o chão sob seus pés começasse a ceder e o lugar parecesse encolher até esmaga-lo ou sufoca-lo. Uma náusea perturbante pareceu arranhar sua garganta com aquela manifestação raivosa de seu grande amigo. A primeira impressão fora de um certo rancor externado pelo líder da Legião dos Caçadores. O caçador-detetive sabia muito bem a razão para tal comportamento. "Preciso sair daqui... antes que Adam fique completamente fora de si... e eu também!".

— Vamos lá, Hector, admita. — continuou Adam, sorrindo com ironia, dando mais passos em direção à Hector. — Admita que não é digno da confiança valiosa que Rosie pode oferecer a alguém com um coração sincero.

— Sim. — aquiesceu Hector, mantendo a calma. — É um mérito que talvez não me pertença... Mas não vamos por Rosie entre nós nesta questão. Minha falha com ela não é nada comparada a que cometi à você e aos outros.

— Ótimo, falemos disso então. Os outros podem até sentirem certa piedade e deixarem passar, mas eu... — balançara a cabeça em negação, passando as mãos pela cabeça e andando pela sala. Voltara-se rapidamente para Hector, fuzilando-o com os olhos. — Como pôde ter sido tão fácil ela perdoar você? — perguntou, vociferando. — Será que também pensa que será fácil pra mim? Hein? Anda, me fala! — andara até o caçador a passos rápidos, logo pegando-o pela gola do sobretudo com as duas mãos, aproximando-o.

— Adam... por favor, não vamos... — afligiu-se Hector, permanecendo passivo.

— Por que? Só me diga o porque. — exigiu saber Adam, apertando a gola da vestimenta de Hector com toda força. — A primeira coisa... que pensei depois de acordar naquela maldita prisão fétida... foi em você. Você falhou com todos nós... Aquele seu amigo... Michael. Não é esse o nome daquele cretino que ia pôr uma bala na sua cabeça? — fez uma pausa, rangendo os dentes e o fitando com ódio. — Depois... depois do que ele disse... senti como se uma pedra tivesse esmagado meu coração. Olha, eu prezo pelos meus outros amigos, preservo muita estima por eles... — olhou-o de baixo à cima tristemente. — Mas você... Você era algo que considerava mais próximo de um irmão que já tive.

— Eu era!? — redarguiu Hector, sentindo-se preso a um gigante enfurecido. — É doloroso para mim... ter a oportunidade de admitir que também sentia o mesmo por você só agora... Desde o dia em que nos conhecemos, eu percebi que tínhamos uma conexão, um vínculo, como se nada pudesse impedir o destino. Aquele legado... não me pertencia. Meu propósito era estar ao lado de vocês.

— E falhou miseravelmente quando escondeu isso de nós. — atacou Adam, irredutível. — Por que logo você, Hector? Devo dizer que também está diferente... consigo ver... — soltou-o, recuando poucos passos, deixando sua expressão de desalento definhar seu âmago. — Eu já estava preparado para quando fôssemos ficar cara à cara novamente após meu retorno... Preparado para destruir todo o mal que essa decepção causa em mim.

Hector parecia perdido. Mas a apreensão interna soava como um furioso animal querendo se desprender de suas correntes e causar uma vasta série de reações possíveis. Cerrara os punhos, respirando mais fortemente, mantendo a cabeça erguida como uma demonstração de resistência.

— Eu tive minhas razões. Mais que suficientes para ter que aceitar esse fardo. Culpe Robert Loub... por ter ameaçado minha família e me chantageado descaradamente.

— Ah, então Loub e seu pai...

— Sim! Eles eram grandes amigos! — vociferou Hector, exasperado. — Adam, não estou disposto a discutir sobre o que me levou a esconder essa verdade. Eu estava dominado pelo medo. Rosie até me culpou por isso, por ter me entregado às ameaças daquele maldito.

— Isto só significa uma coisa: Você foi fraco. — disparara Adam, olhando-o com ojeriza tremenda. — Você e Loub... ambos possuem suas parcelas de culpa. — dera uma rápida risada nervosa. — Que coisa estranha. — tornara a olhar Hector com cólera. — Me parecem tão iguais agora.

Um fervor de sensações fizera o sangue de Hector adquirir ebulição. Fitara Adam com uma expressão de dor e desilusão, balançando a cabeça e tornando a ficar cabisbaixo.

— Como diz o velho ditado... — dissera Adam. — Quem cala...

Repentinamente, um rápido soco desferido por Hector cortara a frase do robusto caçador.

CONTINUA...