Capuz Vermelho - 3ª Temporada

53 O Voo da Fênix (Parte 5)


Os dois indivíduos mal alteraram o ritmo dos passos, ambos pisando nas secas folhas de pré-outono.

— Consegue sentir? — perguntou um deles, o que estava usando o corpo de um caçador com cabelos pretos em gel e partidos na direita e rosto quadrado e não tão caucasiano.

— Não resta dúvidas, é ele. Na certa, o lugar foi revestido por sigilos. — disse o outro, um homem de cabelo semi-raspado e de face meio redonda. — E não está sozinho.

— A quem ele quer enganar? Chamar reforços, à essa altura, é desnecessário.

— Não parece ser um chamado. — disse o outro, visualizando a casa em desconfiança. — Está mais para uma busca. Desesperada, por sinal.

— Está no encalço de alguém?

— Obviamente, da indigna.

— E porque nossa imperadora não resolveu tirar conclusões antes se poderia facilmente achar o traidor?

— Ela tem andado estranhamente indiferente quando tocamos nesse assunto. — salientou o semi-careca.

— Melhor deixarmos. Quem somos nós para questionar as razões de nossa rainha sobre o que é certo a ser feito?

— De pleno acordo.

Apressaram os passos, por um minuto cogitando teleportarem-se de uma vez, mas preferiram ser cuidadosos a fim de respeitar as suas intenções para aquela ocasião.

***

— E então, Áker? Algum progresso? — perguntou Hector, permanecendo a fitar os dois indivíduos pela ínfima brecha da cortina do lado direito da janela.

O arauto abrira os olhos lentamente, deixando formar-se uma expressão mista de preocupação e urgência. Virou o rosto para Hector, como se decidisse que ele seria de grande auxílio para correrem contra o tempo a fim de resgatar a essência de Rosie e impedir um advento que poderia ter consequências inimagináveis.

— Devemos nos apressar. — disse o arauto, aproximando-se do caçador. — De acordo com meu rastreio, Rosie está rumando diretamente a um Museu de História Mitológica, uma rota que ela não conseguiria seguir com tanta precisão se sua mente não tivesse sido bombardeada.

— A hora não poderia ser pior. — disse Údon, contagiando-se pela aflição de Áker. — E nem sabemos o que esses dois patifes querem conosco. Provavelmente tem contas a acertar com você. — olhou para o arauto, esboçando incerteza.

— Não vou perder tempo tentando desvendar quais são as intenções deles. — determinou Áker, seguro de si, o ar de seriedade transparecendo intensamente. — Ainda que seja estranho Sekhmet enviar apenas dois de seus lacaios, é perigoso demais contarmos com a chance mínima de eles terem vindo sem um pretexto para um conflito. — Olhou para Hector. — Precisamos chegar antes dela, Hector. Toque no meu ombro. — pediu ele, preparando-se. — Está indo numa velocidade sem igual. Se chegarmos a tempo, iremos barrar a passagem, ou, na pior das hipóteses, enfrenta-la se for necessário.

— Esse Salão das Duas Verdades fica exatamente nesse museu? — perguntou Lester, confuso, o cenho franzido.

Údon revirara os olhos ao ouvir a pergunta.

— Um lugar fora do tempo e espaço, como eu disse. — relembrou ele, impaciente. — Não é uma localização geográfica.

— Alguém, certamente, está lá para acionar o sigilo — disse Áker, a fala apressada -, e se preciso for deveremos mata-lo caso ele tenha sido designado por lorde Yuga.

A ideia fizera Hector estremecer por dentro.

— Mudou tão de repente de posição a ponto de até mesmo sacrificar um dos seus? — questionou ele, intrigado.

— Vamos mesmo discutir isso à essa altura? — rebateu Áker, arqueando as sobrancelhas. — O tempo é curto, Hector, vamos, toque no meu ombro e talvez cheguemos primeiro.

— Ah é, senhor espertinho? E como nós ficamos? — indagou Lester, cruzando os braços e encarando o arauto de modo rude. — Por que até onde eu sei, esses caras estão além do que minha performance de caçador exige.

— Não tem problema. — disse Údon, aproximando-se do caçador. Olhou para Áker e Hector com decisão pulsando no rosto. — Ficaremos bem. Sejam rápidos. — tocou no ombro direito de Lester, desviando o olhar para ele. — Está pronto para experimentar uma sensação inédita?

— Para onde nós vamos? — perguntou o caçador, meio relutante e tenso.

— Um lugar aleatório qualquer. Na mesma velocidade que eles. — declarou Údon, sorrindo de canto de boca. — Promete não vomitar?

— Dependendo de como isso vai me afetar... talvez sim... talvez não...

— No três! — disse o arqueu, interrompendo Lester e dirigindo-se ao arauto e o caçador-detetive para teleportarem-se no mesmo instante.

— Contanto que não me deixe constipado por umas duas semanas... — disse Lester, fechando os olhos apertadamente em explícito medo.

— Um... — disse Údon, contando — ... dois... três!

— Agora Hector! — disse Áker, em um tom de voz alto. O caçador tocara no seu ombro rapidamente.

O quarteto desaparecera dali feito fantasmas no mesmo nanosegundo.

***

Museu de História Mitológica de Londres

Um dos poucos pontos de encontro para historiadores e arqueólogos que sobrara na cidade. Sua fachada deslumbrante lembrava mais um templo de arquitetura datada dos períodos mais filosóficos da história, muito associada também ao estilo grego — tal mitologia possuía uma larga e expansiva difusão no continente, mas a "supremacia grega" não impediu a iniciativa em expor outras perspectivas. À frente dos altos portões com grades verticais — entre um muro de mais de cinco metros de altura — havia um caminho de cascalho ladeado por duas áreas de vegetação média na qual viam-se arbustos e tipos raros de plantas em estado invejável de preservação. O jardineiro — um senhor de idade vestindo um macacão azul com alças por baixo de uma camisa xadrez nas cores vermelho e branco — vinha voltando para aguar a outra parte, trazendo um regador de alumínio na mão esquerda, quando tomara um susto impactante que o fez largar o objeto, o vento forte fazendo voar seu chapéu de palha. Olhou assustado e boquiaberto para a direção de onde o estranho borrão fora.

Correu pelo caminho, quase aos tropeços, parando com um arquejo de espanto.

Fitou, por vários segundos, sem a mínima ideia de como reportar para a curadoria ou a diretoria, o portão aberto mas quebrado em alguns pontos. Pedaços das grades estavam caídos no chão como se tivessem sido forjados pouco tempo antes, exibindo uma coloração quente e alaranjada. O homem baixara os olhos, sem desfazer da surpresa, e observou um rastro negro no chão que fumaçava vagarosamente.

Parado na ala de itens egípcios — toda revestida por uma camada dourada meio brilhante, inclusive as pilastras e iluminadas por lamparinas à óleo -, um jovem de cabelos lisos e castanhos bem penteados para um lado e de rosto amigável e adolescente, esperava com exemplar paciência diante de uma parede com uma porta dupla de maçanetas esféricas folheadas à ouro. Seu sorriso fechado e contido se alargou um pouco mais ao escutar os não tão silenciosos passos de sua visitante.

Rosie andava devagar até ele, a face de insegurança com receio. O rapaz virou-se, condescendente ao fita-la.

— É você... quem está me transmitindo todos esses... pensamentos? — perguntou Rosie, sem perder tempo, encarando-o intrigada. — Você quis ser achado... Por que? Eu matei... — encarou o nada, pensativa por uns segundos. — Eu assassinei várias pessoas... de forma tão brutal...

— Pessoas que não tinham traços de inocência ou sequer possuíam compaixão em seus corações. — disse o jovem, cortando-a, mantendo o semblante calmo. Deu alguns passos adiante. — Devo dizer que está enganada a meu respeito. Não respondo ao autor desta jogada psíquica.

— E você sabe quem é? Por favor, me ajude. — suplicou Rosie, o olhar pedinte. — Já não aguento mais. Começou com um dor de cabeça insuportável...

— Eu sei exatamente como começou... — interrompeu ele, assumindo um tom sério. — ... e como vai terminar. — fez uma pausa, estudando-a. — Seu lapso de sanidade não durará muito. Portanto, é melhor que me dê plena certeza do que está disposta a fazer: Você realmente está pronta?

Uma lágrima brotou do olho direito da jovem. Acenou positivamente com a cabeça.

— Só existe essa forma. — disse ela, o desapontamento soando como uma adaga cravando em seu coração. — E o pior é que... — sorriu nervosamente, chorando mais uma lágrima. — ... é que não vai dar tempo de se despedir como se deve.

— Se despeça do que você era. — sugestionou o jovem, o tom aconselhador. — Dê boas vindas ao que vai se tornar. Uma nova criatura. Lorde Yuga tem planos brilhantes para você, Rosie Campbell. Por mais que tenha sido encorajada a não acreditar, sei que dentro de si há uma chama clamando por não se apagar. Esta é a fagulha de esperança que esta guerra precisa para enfim ser obliterada.

Um instante de silêncio imperou desconfortavelmente.

— Tudo bem. — disse Rosie, assentindo, logo fungando o nariz ao reprimir a comoção. — Eu vou nessa.

O rapaz acenou positivamente com a cabeça de olhos brevemente fechados, em seguida voltando-se para a porta e andando até ela.

— Ao menos me diz o seu nome. — quis saber Rosie, a voz meio enfraquecida devido a tensão.

— Helikot. — respondeu ele, levantando sua mão direita e tocando na linha entre as duas portas. Um sigilo específico acendeu-se com sua característica luz amarelo-alaranjada no centro da porta. Helikot puxara as duas maçanetas para trás, revelando um cenário surpreendente.

Com as portas totalmente abertas, Rosie encantou-se com a aparência do interior do Salão das Duas Verdades, seus olhos cor de lápis-lazuli brilhando em emoção. Baixou o capuz atrás de si e deu os passos rumo à entrada.

O interior do lugar tinha dois lados divididos por uma linha reta: À esquerda de Rosie via-se um caminho de ladrilhos dourados que terminava em um ponto no qual se encontrava a magnífica estátua de Yuga, iluminada por cima através de uma fonte de luz solar que despontava de uma abertura circular no teto. Já à direita via-se um caminho quase que completamente escuro, exceto pela estátua de Abamanu localizada no fim dele, iluminada fracamente por uma luz azulada e de aspecto gélido.

— Preciso avisar que — disse Helikot, antes dela passar da soleira — não é recomendável ultrapassar o limite permitido. Há portas em cada uma das paredes além das estátuas que não levam à absolutamente lugar nenhum. Se o fizer, caso se renda à curiosidade, correrá o risco de nunca mais sair do labirinto de corredores.

Rosie o ouviu atentamente, olhando-o por cima do ombro, compreendendo o aviso embora julgasse irrelevante por não agir com estupidez a ponto de explorar uma série de caminhos que a fizessem se perder completamente. Nenhum passo em falso ou possibilidade de estímulo para infringir o aviso lhe passava pela cabeça.

— Está bem. Obrigada. — agradeceu ela, por fim entrando no recinto, caminhando pela linha reta que separava as duas áreas. Enquanto fechava as duas partes da porta, Helikot sentiu uma ponta de indecisão ao ver a jovem seguir pela linha divisória, mas no fim das contas sabia que ela faria a escolha inevitável, portanto a hesitação era tão natural quanto temporária.

***

Correndo a todo vapor e em ritmo frenético, Hector e Áker desviavam das pilastras da ala egípcia, rumando diretamente ao ponto em que uma energia familiar, sentida pelo arauto logo quando chegou, emanou fortemente por milissegundos.

No entanto, uma intensa dor atingira Áker, fazendo-o apertar os olhos, trincar os dentes intensamente e cessar a corrida. Hector virou-se, assustado com o gemido doloroso do arauto, e correra em sua direção para ajuda-lo.

— Áker! — gritou ele, aproximando-se. Tocou-o nos ombros, preocupado. — O que houve? Foi uma mensagem de Údon?

— Se fosse Údon... — disse o arauto, cortando a frase ao reaver a calma — ... Não, certamente não é ele. — olhou para o caçador firmemente. — Ouça, Hector... — ergueu um pouco mais coluna — Vá imediatamente, pode fazer isso sem mim. O sigilo foi ativado... pude sentir. — olhou para o nada, a preocupação alcançando um nível aterrador. — Sekhmet está aqui.

— Como é?! — indagou Hector, franzindo o cenho. — Não pode ser...

— Não é o que está pensando. — disse Áker, fitando-o sério. — Eu acharia estranho ela me contatar enquanto tivesse a oportunidade perfeita para matar Rosie. Tenho a leve impressão... de que desta vez ela não está para conflitos, o chamado foi tranquilo demais para uma circunstância como essa. — salientou ele, recompondo-se. Afastou-se em alguns passos. — Não perca mais nenhum segundo. Vá, antes que seja tarde.

— Espere, Áker, talvez seja alguma armadi...

O teleporte quase imperceptível do arauto cortara sua frase no meio.

Hector suspirara de olhos fechados por uns dois segundos, em seguida retomando a corrida ao se ver sem nenhuma outra escolha.

***

Seguindo pelo piso de ladrilhos dourados e relativamente brilhantes, Rosie contemplava com admiração sincera a estátua do deus solar Yuga — posicionada com o joelho esquerdo dobrado e segurando com o braço direito esticado a sua arma mais mordaz, a famigerada argola luminosa, muito também nominada de disco solar. As asas — bastante próximas uma da outra — daquela ave de rapina antropomórfica poderiam ser vistas com certo receio por qualquer um que se aproximasse por conta da sinistra impressão de que a qualquer momento a estátua esboçaria movimentos graduais até alçar voo ou realizar qualquer outro ato, logo pensava-se que as penas em um dourado escurecido, mas não menos estonteante, serviriam de mera distração que fisgaria entusiastas da figura a uma revelação impressionante de uma escultura incomum em todos os sentidos.

A jovem ganhou menor distância perante à imagem reluzente e parara para pensar um pouco no que diria antes de confirmar sua aceitação.

— Olha... — disse ela, a cabeça meio baixa, ainda meio pensativa — ... não faço ideia se está ouvindo ou não, mas... eu tenho que admitir: Você me pôs numa encrenca e tanto. — afirmou, erguendo um pouco o olhar tranquilo para a estátua. — Há poucos anos atrás eu não passava de uma garota vivendo num condado quase despovoado alimentando sonhos que a simples leitura de uma carta destruiu completamente. E pensar que foram vocês dois que começaram com isso... — fez uma pausa, balançando a cabeça em negação, mal sabendo como continuar, passando a língua nos lábios rapidamente. — Tem ideia do quanto o seu ego inflado afetou as vidas das pessoas que não passaram de peças nesse jogo de quem tem mais poder? A minha vida. — pôs a mão direita no peito. — Tamanha ambição... me impossibilitou de seguir com a vida que eu planejei viver desde que passei a ter uma visão mais clara do mundo. Só não sabia que esse mundo era tão... vasto. Então talvez seja certo assumir que Hector ter entrado na minha vida tão de repente teve um lado bom. Não fosse por ele, eu continuaria com a mesma visão limitada do verdadeiro mundo que me cerca. E se eu descobrisse por mim mesma, talvez eu nem estaria aqui falando com uma estátua gigante de um deus megalomaníaco. — fez uma pausa, dando alguns passos adiante, sem tirar os olhos da imagem cujos olhos de águia pareciam fitar o horizonte — Mas não vim convence-lo, embora eu esteja criticando, porque sei que só vou estar perdendo meu tempo e a garota fatal vai assumir o controle. Tem que admitir que não foi uma jogada limpa. Porem... eu compreendo. Eu entendo que está apressado, você quer mais do que tudo acabar com essa guerra e vencê-la, mas está fazendo pelos motivos errados. Então antes de conhecer sua nova casa — formou um sorriso fraco, os olhos marejados -, pense em como pode canalizar o seu poder para uma vitória justa e menos egoísta. Não vou perdoa-lo pelo que me fez passar, mas... — mordeu os lábios, uma lágrima caindo — ... como não me dá outra opção... eu só quero que respeite o que o símbolo que o seu império carrega representa, e sei que é algo muito mais do que só ostentar poder. — pisara na área circular do chão que a abertura no teto projetava com sua luz. Olhou para cima, uma centelha de determinação engolfando o seu âmago como nunca. — Portanto, estou aqui para que esse sofrimento acabe. Estou aqui... para aceita-lo.

A luz meio amarelada e meio embranquecida na abertura do teto intensificou-se repentinamente, banhando Rosie que reprimia o instinto de fechar os olhos, suportando a resplandecente luminosidade.

O clarão magnificente dilacerou seu limite na forma de uma rajada retilínea que caíra sobre Rosie com um impacto sobrepujante, velozmente envolvendo todo o recinto.

***

Helikot viu sua concentração total na porta, no aguardo do brevíssimo retorno da visitante, ser destruída pela aparição repentina de Hector que se avizinhava a passos apressados. Virou-se, um tanto surpreso ao olha-lo. O caçador chegara mais perto tentando, ao máximo, não soar inconveniente ou transparecer ameaçador, embora seu semblante extremamente sério pouco ajudava.

— Onde está Rosie? — perguntou ele, relanceando a porta. Uma impotência o acometeu, angustiando-o. Olhou para o sentinela com um misto de desconsolo e desespero. — Não pode ter permitido que isso acontecesse...

— Fiz o que a vontade de meu soberano acreditou ser o correto. — justificou Helikot, sincero. — É o destino dela.

— Não cabe a Yuga decidir o que é certo ou errado para Rosie! — vociferou o caçador, agarrando-o com as duas mãos pela gola da camisa, fulminando-o com os olhos. — Faça isso parar, agora!

— Mesmo que soubesse, jamais o faria. — retrucou Helikot, passivo quanto á reação do caçador. — Lamento se o frustra, mas... Foi uma escolha inteiramente dela, então creio ser plenamente justo que isso deva ser respeitado. Principalmente por você. — fez uma pausa — Ela teve total consciência de que não havia outro jeito.

O ranger da porta dupla abrindo-se interrompera a conversa.

Hector o soltara, visualizando a saída de uma Rosie em um estado não tão previsível.

— Rosie... — disse ele, a voz entrecortada e a face estática, com uma tensão incomum crescendo dentro de si. Viu a jovem sair um tanto camaleante enquanto as portas fechavam-se lentamente por detrás dela e logo em seguida andou rápido em sua direção para apoia-la. — Rosie, fale comigo... por favor, me diga — tocou-a nos ombros. — que recusou a proposta, era uma armadilha, Yuga não é quem diz ser.

— Blasfeme o quanto quiser. — redarguiu Helikot, olhando-o com rigidez — O que está feito não pode ser revertido. Devia agradece-lo por ter a salvado de um destino onde apenas a dor, o sangue de inocentes e a morte a perseguiriam.

— Hector... — disse Rosie, a voz de tom meio instável, mantendo a cabeça baixa e a respiração forçada.

— Você não está nada bem... — disse Hector, temendo pelo pior. — Me diga que não cedeu...

— Se afaste... — o desespero tomara conta da jovem que forçava-se para empurrar Hector. Ergueu um pouco mais a cabeça, o suor escorrendo pelo seu rosto. — Posso senti-lo... É forte demais! — de repente, seus olhos brilharam uma luz amarelada que durou milissegundos.

— Oh, não... — o medo elevara-se na expressão de Hector, que teimava em não tomar distância. — Não pode ser... — resolveu ceder ao pedido, encarando a parceira com estupefação firme. Olhou para Helikot, desconcertado.

O sentinela sorriu levemente para o caçador, logo desviando o olhar para Rosie, cuja resistência mantinha-se explícita. Deu alguns passos adiante, com certa confiança.

Hector observava o esforço de Rosie com abalo na face. "Toda a explicação de Údon nos tomou muito do nosso tempo. Mas não posso culpa-lo, precisávamos ser avisados. Chegamos tarde demais.", pensou ele, abatido.

— Chega de resistir, Rosie Campbell. — disse Helikot, aproximando-se. — Permita se libertar desse fardo, é apenas uma questão de se entregar. Além do mais, jurei a mim mesmo que seria o primeiro a testemunhar a vinda de Lorde Yuga, portanto eu peço, encarecidamente, que deixe-o passar desta barreira que vai se fragilizando pouco à pouco. Não é forte o bastante.

Hector o encarou com repulsa no olhar. Depois voltou-se para a jovem, pensando em como instiga-la efetivamente quanto a impedir que o deus solar assumisse o controle absoluto de seu ser.

— Rosie, desde o dia em que tive a sorte de conhecê-la... não me restou dúvidas de que... de que você, dentre todas as pessoas que já cruzaram o meu caminho, é a mais forte que já vi.

— Desista, nada do que disser vai convencê-la a seguir na contramão. — avisou Helikot, sério. — É menos do que salva-la, é direciona-la a uma sentença de morte ainda mais rápida.

— Ele... — disse Rosie, arfando mais intensamente. — Ele está certo... — em seguida dera um grito rápido seguido de um gemido doloroso e arrastado, fazendo-a ajoelhar-se.

— Não se aproxime! — impediu Helikot, erguendo de leve a mão direita par Hector. — Vivi o bastante para ver esse momento chegar e você não pode fazer absolutamente nada. Posso lhe garantir que Lorde Yuga tem planos maravilhosos reservados à sua escolhida...

A fala do sentinela cortou-se bruscamente de modo assustador.

O peito esquerdo de seu receptáculo fora transpassado pela mão direita de Rosie. Uma mancha de sangue formava-se e crescia na camisa branca que vestia por baixo de seu colete marrom. Hector estremeceu, visualizando com espanto ao recuar dois passos.

Helikot foi desviando os olhos para a face de Rosie. A jovem o olhou com uma aura colérica intimidadora, as pupilas brilhando a mesma luz de cor amarela.

— Tem razão. Meus planos são incríveis. — disse Yuga, logo induzindo uma energia diretamente ao seu sentinela que ferira. Helikot parecia estar engasgado ao sentir o calor de mil fornalhas crescer dentro do corpo que ocupava. Hector assistiu, embasbacado, o jovem sentinela arder em chamas até a carne os ossos de sua casca carbonizarem-se em uma velocidade impressionante até que o corpo não pudesse ser reconhecido.

Fora largado no chão como um objeto que perdeu seu utilidade, fumaçando um vapor quente após ser reduzido à carvão tostado e crepitado.

Antes que Hector tomasse alguma atitude desesperada, Rosie resistiu novamente, fazendo o controle do deus durar menos do que pensaria ser forte em fazer. Caiu mais uma vez, pondo uma mão na cabeça, rosnando feito um cão raivoso.

— Rosie... Ainda é você? — perguntou o caçador, incerto, hesitando chegar mais perto.

— Não... — disse ela, levantando-se com esforço dobrado. Deu alguns passos adiante, mas com certa força, a ponto de deixar marcas de suas pegadas no chão que danificava-se com elas tamanho era o poder que estava pulsando em seu interior mais do que nunca. Com os olhos fechados, tentou detectar a presença do caçador.

— Como está se sentindo? — perguntou Hector, abismado. — O que ele está fazendo com você?

— Sinto como se... estivesse lutando por minha alma... em um cabo de guerra. — disse ela, arquejando, tentando manter sua resistência o máximo de tempo possível. — Hector... Jamais vou esquecer... das suas palavras... da sua cumplicidade... e da sua bravura. Mas faça como eu... Não precisa ser forte o tempo todo. — disse, deixando uma lágrima rolar.

Comovido, Hector chorara ao fita-la naquele estado angustiante, mal conseguindo reproduzir alguma palavra, tentando desatar o apertado nó na garganta que as palavras da amiga formaram.

Num instante, mal percebeu que ela havia sumido dali em teleporte.

— Não! Rosie! — exclamou, desesperando-se. Pôs as mãos sobre a cabeça, sua expressão ainda chorosa e aflita, imaginando uma variedade de possíveis coisas terríveis que ocorreriam ao não fazer a mínima ideia de para onde Yuga a teleportou. — Aaahh.... Droga! — socou uma pilastra que rachou-se um pouco.

CONTINUA...