Capuz Vermelho - 3ª Temporada
52 O Voo da Fênix (Parte 4)
Palácio subterrâneo de Abamanu
Como indicação de seu cansaço para com as atormentadoras paredes rugosas naquele ambiente cavernoso e soturno, Charlie dormia em sono profundo, mergulhando em sonhos sequenciais como várias camadas de realidades diferentes sendo removidas. Em pelo menos um deles, uma bela ruiva corria sorridente por um campo aberto e gramado sobre um dia claro e agradável. Meio borrado e um tanto contrastante, via-se um jovem de cabelos castanhos bem penteados, vestindo um colete marrom por baixo de uma camisa branca e calças sociais, também correndo, atrás da garota, mas exibindo uma expressão oposta... de clamor e melancolia. Chamava seu nome inúmeras vezes, mas ela não parecia escutar, permanecendo a correr alegremente como se quisesse criar asas para voar.
Sua voz foi ficando mais baixa... a cada segundo a medida que a escuridão tomava conta da visão e a garota ruiva tornara-se distante, praticamente inacessível.
O sonho se perdeu quando um estalido alto quebrou o silêncio bruscamente.
Charlei despertou com um arquejo súbito, a boca bastante aberta como se esforçasse para reaver o ar. Inclinou-se para frente, ofegando com a mão direita no peito.
Nem precisou desviar o olhar para saber quem estava do lado de fora da cela. A energia lhe era inconfundível.
— Finalmente chegou o dia? — perguntou Charlie, os braços apoiados nos joelhos meio dobrados. As chamas da única tocha que servia como fonte de luz banhava-lhe com sua luminosidade alaranjada.
— O grande dia você quer dizer. — disse Abamanu, na frente das grades, com toda a sua pomposidade. — No entanto... Dessa vez pedirei que me faça um favor extra.
— O que você quer? — perguntou o mago do tempo, sem olha-lo.
— Ontem a noite, tive uma sensação que em anos eu não vinha tendo. — disse o deus lunar, misterioso. — Uma aura ligeiramente familiar me pegou de surpresa. Demorou tempo suficiente para fazer um reconhecimento. Mas agora sei... Sua energia oscilava entre medo e desconforto. Não estava sozinho. E desejava mais do que tudo que aquela conversa terminasse logo... só para voltar a se camuflar.
— Vá direto ao ponto. — pediu Charlie, a voz ríspida.
— Quero que o encontre. Meu valioso escriba. — exigiu Abamanu, inclinando-se um pouco para frente das grades. — Será que magos do tempo são capazes de detectar tamanha instabilidade psíquica? Conheço alguém que agiria assim. E é ele, não há dúvidas.
— Então, você... — disse Charlie, cortando a fala ao engolir a saliva — ... está me pedindo para encontrar o seu antigo sócio... apenas para mata-lo?
— Matar sem questiona-lo não me convém garantia nenhuma. — retrucou o deus lunar, frio, com os braços cruzados. — Vamos lá, Charlie, acredito no seu potencial, sei que há aí dentro um poder tão adormecido quanto você estava agora há pouco.
— Pare de me pressionar! — esbravejou Charlie, levantando-se subitamente em evidente ataque de fúria. Andou em direção ao deus, bufando colericamente. Segurou as grades com força, os dedos das duas mãos sujos de terra. Os olhos verdes brilhavam como nunca. — Já estou cansado... dessa loucura! Me manter preso aqui foi a estratégia mais estúpida que você já considerou! Um imperador inteligente saberia disso.
— Podemos ignorar seu surto imaturo e voltarmos ao assunto. — disse Abamanu, odiosamente desdenhoso ao encarar o mago do tempo com seus gélidos olhos amarelos.
— Que se dane o seu maldito favor! — disparou Charlie, a face desafiadora. — Além do mais, magos do tempo não possuem habilidades psíquicas avançadas. Então, pode esquecer de uma vez. Só está perdendo seu precioso tempo comigo.
— O que está querendo elucidar, seu transeunte patético? — perguntou o deus lunar, o tom rosnante. — É bom não me provocar.
— Posso enfrenta-lo quantas vezes forem necessárias, você não pode me matar. — salientou Charlie, o olhar estático e pulsante. — É parte do acordo, se lembra? Meu cadáver pode sair de bandeja só para os coletores. E vou repetir: Me manter preso aqui foi uma estratégia bem estúpida da sua parte. — fez uma pausa, esboçando gradativamente um sorriso enigmático. O deus lunar o fitou com desconfiança. — Esteja ciente de minhas palavras. Sequestrar um cientista famoso, disseminar uma praga para corromper a humanidade, construir fábricas em várias cidades... — mordera os lábios, balançando a cabeça em negação. — Não faz ideia do quão ineficaz foi o seu plano. Sendo mais direto... Eu não posso mais lhe ser útil. Minha serventia se esgotou... durante os dois anos que se passaram.
Abamanu enfureceu-se ao fita-lo com mais agressividade, movendo seus dedos como que querendo se render a vontade de esmagar a cabeça do mago do tempo com suas próprias mãos ali mesmo.
— Está blefando? Por que diria isto logo agora? — questionou ele, rude.
— Para que quando fosse tarde demais eu pudesse ver a frustração no seu rosto diabólico. — disse Charlie, sem rodeios, encarando-o com dura seriedade.
— Adoraria estar convencido disso de uma forma mais... prática. — disse o deus lunar, estreitando os olhos. — Mas vejo que não passa de uma artimanha desesperada para se ver livre de mim e dos planos que reservei. Que tipo de explicação brilhante você inventou para se driblar do seu destino.?
— Quando um mago do tempo se abstém de suas atividades, a energia expansora que consegui graças ao disco cronal, no dia da iniciação, começa a definhar gradualmente. — explicou Charlie, tentando transparecer completa honestidade. — Posso constatar... com precisão... que ainda possuo, ao menos, 30% da minha capacidade para exercer minhas funções.
— Me parece um tanto aleatório. — retrucou Abamanu, inflexível. — E pouco verossímil.
— É a mais pura verdade. — rebateu Charlie, resistente. — O que tenho agora certamente não basta para realizar a abertura expansiva. Em outras palavras, uma parte do seu plano arruinou com ele todo. De fato, é bem tarde para dizer isso, mas foi apropriado.
Um sensação de contrariedade acometeu o deus lunar, fazendo-o se afastar aos poucos.
— Está confuso, não é? — perguntou Charlie, sorrindo de canto de boca — Ainda insiste em duvidar de mim, mas uma pequena parte sua está o forçando a acreditar, empurrando lentamente essa dura verdade no seu subconsciente, logo trazendo a tona um indício de que você considera isto como sendo um possível fato irrefutável.
— Cale-se. — ordenou Abamanu, severo. — Preciso que prove. Palavras não me convencem tão fácil.
— Olhe pra mim! — disse o mago do tempo, o tom exaltado. — Esse é o estado de um mago do tempo mental e fisicamente saudável para cumprir uma tarefa que exige muita concentração? Agora não preciso que me liberte. Não até estar convencido disso e desistir do plano.
— Isso nunca. — disse Abamanu, cerrando os punhos. — Isto é uma completa mentira. Você, ao meu ver, está perfeitamente são, portanto ainda está apto a fazer o que mando!
— Então peça para um dos coletores associados a você a fazer o trabalho, porque comparados a mim atualmente eles são bem capazes de abrir uma brecha mais ampla do que eu. — argumentou Charlie, impaciente e aborrecido. — Grave minhas palavras, Abamanu: Você fez deste plano a sua nova ruína.
Antes que o deus lunar conseguisse rebater aquela declaração com o sangue fervendo, um de seus soldados quiméricos surgira de repente por trás para informar algo.
— Senhor. — chamou o soldado.
Abamanu virou-se, rosnando em fúria.
— O que foi desta vez? Espero não ser tão preocupante.
— Acabamos de receber uma informação relativamente urgente sobre... Rosie Campbell. — disse o soldado.
Minutos de silêncio indicavam que os pensamentos do deus-quimera convergiam para a vida da jovem que tanto tentou convencer a estar do seu lado para arrefecer as expectativas de Yuga quanto ao confronto decisivo.
— Conte-me mais... em outro lugar. — olhou para Charlie por cima do ombro.
O mago do tempo ainda o encarava com petulância.
— Fale aqui mesmo! O que houve com Rosie? — exigiu saber, elevando o tom de voz.
Em nanosegundos, tanto Abamanu quanto seu subordinado desapareceram dali, deixando o jovem mago do tempo a ver navios.
E por fim o silêncio torturador voltara a cela pedregosa.
***
— Havia uma lenda... — dizia Údon, de costas para seus novos aliados e de frente um grande quadro retangular na parede próxima à estante com portas de vidro. — resvalada ao esquecimento por eras... até que, então, o imperador solar, Yuga, a remoeu confidenciadamente a mim.
Lester sentiu-se no direito de questionar.
— Espera aí, está nos dizendo que... você agia como um informante duplo? — perguntou ele, o cenho franzido.
— Obrigatoriamente, sim. — confirmou o escriba. — Antes de me propor o acordo, Yuga provou ter descoberto minha serventia a Abamanu e após a última grande guerra tentou me usar como artifício para obter informações sobre as táticas do inimigo. Mas também, além disso, me revelou seu maior plano. Me garantiu que Abamanu não sentiria minha ausência depois de minha parte ter sido concluída, então arrisquei jogar no lado mais confiante. Quando enfim os seguidores mortais de Abamanu obtiveram sucesso com seus cultos de adoração, Yuga determinou um prazo para que pudesse agir. Ele desejava com muita vontade assistir aqueles mortais crédulos sentirem-se frustrados, humilhados, desonrados e afrontados. Quando a época propícia chegou, ele viu naquela criança a chave para destruir todas as chances de Abamanu em se reerguer.
— Rosie. — disse Hector, fixamente atento ao discurso. — A criança era Rosie. A escolha, obviamente, não foi aleatória. — disse, olhando para Áker e Lester.
— Particularmente, pensei que fosse. — disse Údon, virando-se para o caçador, interessado em descobrir mais. — Afinal, ele claramente estava desesperado por um contra-ataque.
— Faz todo o sentido. Rosie é a filha de Richard Campbell, um Red Wolf acusado de traição por ter concebido uma fêmea, o que é contra as regras da fraternidade, cabendo ao Grão-mestre executar o herege na frente de seus irmãos. — disse Hector, olhando para os três ao perceber a situação como um todo. — E sendo a filha daquele que traiu a sociedade de adoradores de Abamanu, Rosie foi escolhida por Yuga...
— E foi agraciada pela energia divina bruta. — completou Údon, fitando Hector com certeza no olhar. — Em uma das minhas visões, eu via um homem correndo com um bebê recém-nascido nos braços numa floresta, em meio a um belo pôr do sol.
— Tudo está se encaixando. — disse Áker, um tanto pensativo. — Rosie foi transformada, logo no dia de seu nascimento, no ser que se oporia aos ideias dos que louvavam a Abamanu.
— E sobre a lenda? — perguntou Hector, olhando-o curioso.
— Aposto que Áker terá sua memória muito bem refrescada depois disso. — disse Údon, voltando-se para o arauto.
— Não tenho tanta certeza. O pouco que ouvi sobre essa lenda está absurdamente vago na minha mente. — declarou ele, sem estar muito seguro do que dizer a respeito. — Tem algo a ver com a palavra Fênix, certo? O básico que sei é que envolve uma antiga profecia, tão velha quanto eu, talvez mais.
— E quantos anos você tem? — perguntou Lester, sorrindo de modo brincalhão.
— Esta casca possui cerca de 42 anos. Eu mesmo tenho o equivalente a cinco milênios, no sistema adotado pelos humanos. — respondeu Áker, parecendo ter deixado o caçador boquiaberto.
— Podemos retomar o foco? — perguntou Hector, entre os dois, olhando-os. Voltou-se ao escriba de Abamanu. — Prossiga, Údon. — assentiu para ele.
— A lenda gira em torno de um indivíduo tornado especial por alguma divindade de grande influência na classe solar. Yuga me assegurou de que minha eleita, muito provavelmente, iria também profetizar o evento.
— Alexia. — soltou Hector, a expressão séria.
— Onde é que ela está? — perguntou Lester, aparentando um pouco de preocupação ao recordar-se da amiga. — A última vez que a vi... — pensara por alguns segundos. — ... nossa, caramba, foi na noite em que íamos impedir aquele monstrengo do Mollock nas Ruínas Cinzas. Ela sobreviveu? Se sim, como?
— Falarmos sobre o estado de Alexia agora só vai nos desviar ainda mais do foco. — disse Hector, pouco disposto a perder tempo. — Mas sim, ela está viva... — olhou de soslaio para Údon — ... e sentindo bastante dor de cabeça.
— Eu precisava avisa-la. — disse o escriba, a postura tranquila.
— Fez uma ligação psíquica com sua eleita? — perguntou Áker, desconfiado.
— Se tivermos que sobreviver a tudo isso, teremos de estar juntos. — declarou Údon, a expressão de decisão. Cofiou de leve a volumosa barba cinzenta.
— E está tão calmo porque certamente ouviu toda a conversa que tive com a pessoa para a qual liguei. — constatou Hector, acertando exatamente no alvo, encarando o escriba com um leve sorriso torto.
— Devia ter passado a ligação. — disparou Údon, levantando uma sobrancelha. — Áker, você também ouviu aquela linda voz?
— Preferi não ouvir, pois é indelicado sondar conversas alheias. — justificou o arauto, desaprovando a atitude do escriba.
— Linda voz, é? — indagou Lester, externando sua curiosidade. — Pra quem você ligou? — perguntou, olhando de modo suspeito para Hector, com um sorriso malicioso.
— Ninguém em especial. Foi um erro. — disse o caçador, sem meias palavras. — Ela... Quero dizer, ele não está em condições de ajudar.
— Mas era uma mulher. — corrigiu Údon, para o desprazer do caçador.
— Será que dá para você continuar de onde parou? — pediu Hector, o tom meio ríspido e apressado.
— Nos fale a respeito de quem profetizou o tal evento. — disse Áker, pouco interessado em saber a identidade da mulher "misteriosa".
— Um arqueu do panteão onde Yuga vive. — respondeu Údon, olhando para o arauto. — Existe uma regra entre arqueus e profetas: Ambos podem não ter as mesmas premonições.
— E Alexia se recusava a nos revelar suas visões por mero receio. — salientou Hector.
— Significa que provavelmente, em algum momento, antes do retorno de Abamanu, ela profetizou algo relacionado a Rosie. — especulou Údon, fitando Hector. — Nós arqueus, por mais ligados que estejamos com nossos eleitos, não conseguimos prever os mesmos eventos. Se ocorresse, seria por ângulos distintos, mas seria extremamente raro, talvez único na história.
— Então previram eventos opostos. — disparou Áker, mergulhando fundo na discussão. — Se você profetizou a vitória de Abamanu e a queda da humanidade...
— Então Alexia previu o surto de Rosie. — complementou Hector, também indicando estar apenas teorizando.
— Talvez não exatamente. — apontou Údon, com uma mão no queixo, bastante imerso em pensamentos. — O escolhido da lenda era tido como uma fênix... Este arqueu era inteiramente ligado ao panteão, mas por alguma razão foi exilado... talvez esteja no mundo dos mortais, como condenação a algum ato ilícito que cometeu, fadado a viver em um receptáculo eternamente.
— Ótimo, podemos encontra-lo e, com sorte, conseguirmos mais informações. — sugeriu Lester, exibindo uma postura participativa e intencionalmente motivadora.
— Não, não podem. — negou Údon, sério. — Seria necessário um indivíduo específico o bastante para ser capaz de abrir fendas inter-dimensionais.
— O melhor que conhecemos está sendo prisioneiro de Abamanu. — disse Hector, referindo-se a Charlie, com certa frustração no tom.
— Ou sequestrar um Coletor. — disse Áker, deixando claro que aquilo passava longe de ser sugestão.
— Somos persistentes, mas não suicidas. — disse Údon, olhando de modo sério para o arauto.´
— Então esse cara se encontra em outro universo!? Que merda. — lamentou Lester, cruzando os braços sobre o peito, a face de insatisfação.
— Não precisamos dele. — declarou Údon, despreocupado. — O que Yuga compartilhou comigo já basta para termos uma noção suficiente. Foi um dos poucos que não esqueceu da profecia. A fênix lendária, segundo a premonição, era a retratação de um ser visto como inferior mas que é alçado aos céus envolto de uma luz com aura divina.
— Um pássaro de fogo subindo até o céu. Diga algo menos óbvio. — exigiu Lester, demonstrando incredulidade ao estar pouco convencido.
— Sua interpretação é óbvia. — retrucou Údon, com rigorosidade. — Um indivíduo inferior... Estamos tratando de uma pessoa, um mortal... mas que é agraciado por um deus, ascendendo a um patamar inalcançável para os outros.
— Como uma apoteose... — disse Hector, fitando o nada ao se ver imerso em pensamentos.
— Uma fênix... apoteótica? — indagou Áker, franzindo o cenho, julgando o conceito como sendo absurdo. — Isso é mesmo possível?
— Rosie está apenas em uma das fases do processo. — disse Údon, desta vez indo direto ao ponto crítico da discussão. — As lembranças perturbadoras... lançadas a uma mente despreparada como um forte e imparável jato de água corrente. Portanto, eu tornei isto totalmente possível.
— A mando de Yuga. — depreendeu Hector, pouco sabendo como encara-lo.
O escriba se limitou a assentir dando uma piscada rápida nos olhos.
— Áker, consegue rastreá-la? — perguntou Hector, virando-se para o arauto.
— Estou numa casa repleta de sigilos inibidores. Mesmo não estando ativos, eles bloqueiam meu esforço sensorial. — disse Áker, sentindo-se um tanto impotente, sabendo que precisaria se expor logo mais.
— E como isso termina? — perguntou Lester, com vestígios de preocupação no rosto.
— Eis a resposta: Não termina. — disse Údon, sem medo de como iriam reagir. — A visão pode não ter sido muito específica, logo é válido acreditar que todos daquele panteão apostavam em alguma divindade que assumiria um nível superior e único. Poucos vão se dar conta de que estavam enganados. A fênix, no caso Rosie, terá como única alternativa ceder a obsessão de Yuga se quiser estar libertada do fardo que seu lado obscuro a faz carregar. — fez uma pausa, dando alguns passos a frente. — Ela terá de fazer uma difícil escolha. Um terrível dilema está reservado. E só existe um lugar para o qual ela irá quando a última carga de lembranças moldadas vier atormenta-la.
— E que lugar é esse? — perguntou Hector, emanando uma intensa curiosidade ao fitar o escriba.
— O Salão das Duas Verdades. — respondeu ele, secamente.
***
Grandes Londres
O ar seco da manhã predominava por boa parte dos becos e ruas mais estreitos. Em uma das intersecções, Rosie desfilava seguramente, como se nada que viesse à frente para lhe afrontar ou atacar pudesse atingi-la fácil. Parou num ponto central entre o labirinto de becos feitos com tijolos vermelhos e retangulares, no mesmo momento em que ouviu uma autoritária voz bradar atrás de si. Por um segundo, percebera outras presenças, o que a fez se virar para saciar a curiosidade e a sensação de divertimento sádico com o qual estava se habituando viera a tona de novo.
— Você! Encapuzada! — gritou um homem caucasiano careca, com barba por fazer, de olhos meio fundos, sobrancelhas arqueadas, vestindo um casaco branco com uma gravata roxa no meio por cima de uma camisa preta — as calças também eram brancas, bem como os sapatos. Segurava uma sub-metralhadora modelo da década de 20, mirando-a em Rosie. Atrás dele, outros quatro rapazes com aparências que facilmente se denotava serem da máfia mais infame que a cidade já possuiu. — Isso... vire-se, como uma boa menina.
— Parece que alguém não está tendo um dia muito bom. — disse Rosie, sarcasticamente, visualizando cada um deles. — Mas enfim... O que meus admiradores não mais secretos vieram me dizer? — juntou as mãos entre as coxas, em um ato de pura tranquilidade.
— Não venha com gracinhas, pequena vadia de vermelho. — provocou o líder, dando um passo adiante. — Você e seus... — gesticulou com a outra mão, tremendo-a. — ... supostos poderes mágicos deram muito trabalho para meus comparsas.
— Eu posso garantir à vocês que eles estão em um lugar muito melhor. — disse Rosie, dando uns passos por um lado. — Afinal, caixões de madeira devem ser bem confortáveis, eu acho.
— Agora chega, vamos acabar logo com isso! — disse um dos lacaios, — um gorducho meio calvo usando casaco marrom — sugerindo seguirem com a retaliação. Sacou um revólver e mirou-o em Rosie.
— Vão em frente, atirem. — desafiou ela, completamente despreocupada.
— Primeiro nos prove se é alguma bruxa ou coisa do tipo. — exigiu o líder, preferindo aguardar.
— Isso é verdade? Levam tão a sério o que esses jornais sensacionalistas dizem a meu respeito? Como os criminosos profissionais que eu sei que são, esperava bem mais. — disse Rosie, indicando estar zombando-os. Estreitou os olhos, mordendo os lábios em excitação. — Então, escutem com atenção o recado da vadia vermelha: — inclinou um pouco a cabeça para frente, a expressão séria — Não tenho obrigação de provar nada... a ninguém. — fez uma pausa — Se querem a prova, vai ter que ser do meu jeito.
— Enchendo você de bala? — perguntou um deles, mirando um rifle.
— Arrancou as palavras da minha boca. — respondeu Rosie, sorrindo com ironia explícita. — Só esqueceu de se perguntar se é possível me matar com a mesma facilidade que vocês tem contra os inocentes que assassinaram.
— Se diz justiceira, mas no fim das contas acaba se igualando a nós. — argumentou um cara baixinho com gorro preto na cabeça. Suas vestes eram mais grossas e rebeldes. — Você é um lixo!
— Foi ela quem pediu, então vou tirar a prova. — disse o homem gorducho com o revólver calibre 38 dando uns três passos adiante, quase ficando lado à lado com o careca que liderava o grupo. — Um pequeno teste preliminar. — apertara o gatilho.
O estampido ecoou intensamente.
O resultado se deu com Rosie, em milésimos, exibindo seus reflexos sobre-humanos ao pegar a bala — que acertaria seu peito — com apenas dois dedos da mão direita. Erguera devagar sua mão esquerda, aproximando o dedo indicador e polegar da bala que segurava. A unha do indicador foi de encontro à ponta da bala lentamente. Os mafiosos, por outro lado, viam-se confusos com o movimento de sua presa, cochichando e franzindo a testa.
Rosie mirara no líder impetuoso. Como se seu dedo indicador esquerdo tivesse a força de um estilingue, disparou a bala segurada pelo indicador e polegar direitos com toda uma simplicidade impressionante.
Um buraco abriu-se no meio da testa do líder, que revirou os olhos e gemia dolorosamente... até ajoelhar-se e cair para frente, sofrendo morte cerebral imediata. Um fino rastro de sangue despontou do ferimento até escorrer no chão.
Paralisados de medo por alguns segundos, os demais bandidos sentiam suas fortalezas derrubadas com a queda de seu considerado indestrutível comandante da maior rede criminosa atuante na Grande Londres. Rosie calmamente limpou as mãos como quem quer dizer "Acabei, finalmente".
— Alguém mais quer experimentar? — perguntou ela, as mãos na cintura.
O quarteto foi recuando imediatamente, trêmulos e estupefatos em pânico.
— Foi o que pensei.
A jovem fora embora, usando sua supervelocidade ao entrar num outro beco, o que serviu de estopim para uma fuga desenfreada para os mal-feitores esmorecidos.
— Vamos dar o fora daqui, essa garota não é humana! — disse o gorducho, quase empurrando um outro comparsa e dando olhadelas nervosas e tensas em direção à Rosie enquanto apertava o passo.
No outro lado do "labirinto", Rosie freara sua corrida superveloz, parando próxima a uma cerca de malha losangular, apoiando sua mão direita nela e ficando em uma posição meio corcunda. Uma ofegação insperada a desesperou de tal forma a fazê-la pensar que sua respiração terminaria a qualquer instante. Resultando disso, um suor profuso formou-se na sua testa, tão quente quanto o seu sangue. Com a outra mão, baixou o capuz e se recostou na cerca, arquejando a cada três segundos.
"Está acontecendo de novo... Agora não... Agora não!"
Fechou os olhos e apertou-os com força, quase trincando os dentes.
Em sua mente viera mais uma sequência rápida de números, placas, locais, ruas... algumas soavam como borrões esquecíveis, outras congelavam por uns dois segundos, mas não demorou o suficiente para não fazê-la perceber de que se tratava de um curso, sem sombra de dúvidas. "O que quer me mostrar? Que lugar é esse?", pensou ela, questionando a última imagem que tornou-se mais fixa: Uma estrutura de aspecto antigo, semelhante a um museu de história mitológica. E não estava tão distante.
Ao abrir os olhos, soube exatamente o rumo a tomar em seguida.
Uma centelha de lucidez explodiu em seu âmago. Talvez não sentisse-se mais como estava há pouco tempo. Mas lembrava, com vergonha, dos atos cometidos em nome de um senso próprio de justiça. No entanto, lamentar e andar aos prantos pelos cantos mal passou-lhe pela cabeça. Só havia um único objetivo em mente. "Então... é ali que está. A chave... para dar um fim nessa loucura.", pensou ela, a expressão meio tristonha e a boca meio aberta. Uma lágrima brotou até escorrer por uma maçã de seu rosto branco feito neve.
"Me perdoe, Hector. Mas é o que tem que ser feito. É... o único jeito". Fitou o caminho à frente com postura decisiva.
***
— Salão das Duas Verdades? — indagou Hector, a expressão cética.
— Sim. — confirmou Áker, firme no tom, olhando para o caçador. — Um lugar fora do tempo e espaço que funciona como abrigo particular para aqueles que se sentem presos em um forte dilema. Ele oferece a recompensa para a salvação, dependendo do problema que o visitante estiver passando.
— E se adapta de modo a representar a natureza do dilema. — complementou Údon, olhando para os três. — Ao que tudo indica, é realmente um fato inédito este lugar ser aberto neste mundo. É recorrido em casos extremos... — fez uma pausa, meio que frustrado. — como este.
— Acabo de ter uma ideia. — disse Áker, andando pela sala com uma certa pressa, visualizando as paredes e janelas. Ao piscar os olhos uma única vez, os mesmos ganharam uma coloração totalmente branca, como já fizera anteriormente na detecção de sigilos invisíveis na fábrica de Birmingham no dia das operações simultâneas de resgate. Lester reagiu mal com um arrepio assaltando-lhe a saliva.
— Nossa... Você tem mais surpresas do que eu posso prever. — disse o caçador, espantado.
— O que está fazendo, Áker? — perguntou Hector, fitando-o com curiosidade.
— Vendo os sigilos do lado de dentro. Vou apaga-los. — respondeu ele, esticando o braço direito com a mão aberta.
— Que irônico. — soltou Lester, a expressão de estranheza. — Até parece que ficou cego e simplesmente consegue ver além das paredes. Isso me faz lembrar outro super-herói... — pôs a mão no queixo, pensativo. — A diferença é que ele é de outro planeta, você é de um outro plano da existência completamente restrito...
— Eu não teria tanta certeza. — disparou Údon, contrariando a afirmação do caçador quanto ao acesso da morada dos deuses ser possivelmente negado à mortais.
— Como é que é? — indagou ele, virando o rosto para o arqueu.
Údon sorriu levemente, acenando negativamente com a cabeça.
— Não, nada. — desconversou.
— Áker, será que pode me dizer qual o objetivo de arriscar ficarmos desprotegidos? — questionou Hector, intrigado, aproximando-se do arauto em poucos passos.
— Apenas os sigilos internos bloqueavam meu rastreio. — explicou ele, direcionando a mão para as outras paredes, apagando cada sigilo gravado. — Mas não há probabilidade muito alta de Sekhmet vir acompanhada de seus lacaios em poucos minutos depois que eu terminar, tendo em vista o tempo que passou sem dar indícios de um plano de ataque mesmo com minha energia exposta.
— O barba cinza não pode fazer isso por você? — perguntou Lester, apontando para o arqueu com o polegar direito.
— E cair nas garras do meu ex-contratante? Nem pensar. — retrucou Údon, dando uns passos vagarosos perto do enorme quadro, com os braços cruzados.
Hector não conseguia esconder sua incontrolável aflição em encontrar o paradeiro de Rosie, suspirando e fechando os olhos mais vezes que conseguia contar.
— Abamanu sabe que você está aqui? — perguntou Lester.
— Não significa que por ter o mago do tempo como seu troféu valioso — disse ele, virando-se para o caçador — ele depende das habilidades dele para saber minha localização. Basta lembrar de nossa ligação, não limitada apenas ao acordo de confidencialidade.
— Ligados psiquicamente? — indagou Hector, arqueando uma sobrancelha, com expectativa.
— Não só em termos psíquicos, como também em concessão. — revelou ele, aparentemente nervoso se for analisando pelos movimentos irregulares de suas pupilas. — Ofereci duas coisas em troca. Era uma cláusula de última hora.
— E você cedeu porque tinha medo de ser estraçalhado? — especulou Lester, estreitando os olhos.
— Ser o elo fraco da corrente era um peso e tanto, logo não me restou outra alternativa a não ser... — pausou, engolindo a saliva nervosamente ao se recordar de cada detalhe de seu mais tenso encontro com o deus lunar. — ... conferi-lo duas de minhas melhores habilidades.
— Ele leu minha mente quando o confrontei na fábrica de Liverpool e descobriu mais do que devia. — disse Hector, meio pensativo, logo voltando os olhos para o arqueu. Áker continuava deletando os sigilos, um à um. — Nunca parei para pensar que esse poder não o pertencia originalmente. Ele pode, de fato, acha-lo?
— A menos que eu permita. — disse Údon, não tão preocupado. — Mas se utilizo uma habilidade, automaticamente meu bloqueio se cancela, então me exponho por algum tempo até readquirir estabilidade.
Áker baixou seu braço, seus olhos retornando ao normal, logo voltando-se para os demais.
— Este foi o último. — disse ele, andando em direção aos companheiros. No entanto, sua expressão alterou-se de repente fazendo-o estacar e rapidamente olhar pela janela, pelo lado não coberto pela cortina — perto do pequeno "corredor" da entrada. — Não pode ser...
— O que foi, Áker? — perguntou Hector, e sem esperar andou uns passos até a janela acompanhando o olhar sério do arauto para aquela exata direção.
— Saia daí, irão vê-lo. — avisou Áker, o tom rígido. Hector ocultou-se apressadamente assim que seus olhos bateram nas duas figuras que se avizinhavam em passadas largas.
— Quem são? — perguntou Údon, sem ousar satisfazer sua curiosidade só de notar a tensão pelas faces de Hector e Áker. Lester, por outro lado, sentia-se perdido, embora suspeita-se que devia permanecer onde estava.
— Você quis garantir que ficaríamos fora de perigo mesmo com os sigilos de dentro apagados. — questionou Hector, dirigindo-se ao arauto. — Por que eles vieram?
— Como vou saber? — indagou Áker, franzindo o cenho, observando com cautela os dois homens com roupas de caçadores aproximando-se do Casarão. — Não é nenhuma coincidência aparecerem logo depois que apaguei todos os sigilos internos. É impossível. E estão em menor número, o que já descarta a possibilidade de virem com más intenções, podem não estar acatando ordens diretas.
— Acha que Yuga os autorizou para liquidar Údon? — teorizou Hector, olhando-os, a tensão tomando conta de seus nervos.
— Ele obviamente não faria isso, não nestas circunstâncias. — declarou Údon, assumindo seriedade na fala. — Em nosso último encontro, ele jurou a mim e a si mesmo que permaneceria em estado meditativo até que o alarme soasse. Em outras palavras, ele decidiu ser extremamente paciente quanto a resposta de Rosie. E diante dos recentes fatos, não está muito longe de acordar.
— Não temos tempo pra teorias, pessoal, melhor alguém tomar uma atitude e rápido. — recomendou Lester, erguendo de leve as duas mãos ao olhar para cada um dos aliados.
— Áker, rastreie Rosie antes que eles alcancem a última árvore. — disse Hector, olhando para os acólitos de Sekhmet, meio escondido, afastando um pouco a outra parte cortina criando uma pequena brecha para observa-los.
O arauto fechara os olhos, imergindo em máxima concentração.
CONTINUA...
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