Capuz Vermelho - 3ª Temporada

51 O Voo da Fênix (Parte 3)


Noite do dia seguinte — Grande Londres

No restaurante mais frequentado da cidade, um diligente servente — um homem de camisa branca com mangas, meia idade e com cabelos meio compridos e grisalhos e barbudo. — molhava alguns pratos em água corrente na pia um pouco próxima do balcão onde o recepcionista atendia clientes desacompanhados que ali eram servidos. Pôs o pano sobre o ombro direito, suspirando longamente e limpando o suor de sua testa. Ao limpar as mãos, pegou uma pilha pequena de pratos e se virou para leva-las ao local reservado à eles.

O gerente do estabelecimento — um homem gorducho aparentando ter em torno de 56 ou 58 anos, ruivo, meio calvo e com uma barba volumosa — aproximava-se de seu mais esforçado funcionário com um sorriso no rosto.

— Robert? Tem um momento? — perguntou o homem, fazendo-o estacar e, em seguida, virar-se.

— Ah sim, chefe Lorry. — disse ele, sorrindo meio desconcertado. — O que veio me dizer? Não vou ser demitido não é? — seu sorriso ficara nervoso.

— Oh, de modo algum. Muito pelo contrário. — disse Lorry, desatando em rir. — Vou ascende-lo ao cargo de garçom, tendo em vista sua ótima fama com alguns clientes e você tem a desenvoltura para tal. Não sei porque não tomei essa decisão antes.

— Ai, chefe, não é que eu esteja duvidando de mim mesmo, mas... — fez uma pausa, ainda sorrindo de modo nervoso. — Ainda é meio cedo.

— Pare com essa modéstia toda, Robert. — repreendeu Lorry, olhando-o sério. — Você, em anos, foi a melhor adição ao restaurante que já tive o prazer de contratar. Caso ainda se sinta desconfortável, faço questão de lhe oferecer todo o tempo que precisar para refletir e repensar na escolha.

— Eu agradeço, chefe. Imensamente. — disse Robert, assentindo com satisfação.

Antes que se virasse completamente para enfim poder chegar ao local onde se guardam os pratos e talheres, Robert fora surpreendido por um subitâneo apagão, deixando cair um prato que quebrou-se no chão em vários pedaços. De forma rápida, constatou que a ausência de luz se deu apenas no restaurante. A luz dos postes ainda adentrava pelas janelas do estabelecimento.

Quando finalmente a energia restabeleceu-se, o servente arquejara de alívio, logo virando-se para a direção de onde ficava a entrada após sentir uma presença inesperada. Não só se deparou com um mordomo afro-descendente de estatura meio mediana e vestindo um smoking parado próximo à porta de entrada, como também viu as pessoas que ali estavam presentes desmaiadas sobre as mesas.

Engolindo a saliva, o funcionário mais estimado encarou o arauto de Yuga com certo receio.

— O que você fez, seu desgraçado? — perguntou ele, olhando para os clientes, ainda segurando os pratos.

— Não há com o que se preocupar. — garantiu Áker, andando até ele. — Estão apenas inconscientes.

— Diga logo de uma vez. O que quer? — questionou ele, pondo os pratos em cima do balcão. Ao terminar, sentiu as mãos do arauto agarrarem a gola de sua camisa e seu corpo ser levantado alguns centímetros do chão.

— Será que consegue limpar a mente de Rosie com a mesma rapidez que limpa estes pratos? — perguntou Áker, exibindo cólera em sua face.

— Não sei do que está falando. É melhor me soltar. — aponto Robert, não gostando nem um pouco da atitude do mensageiro.

— Você já se auto-incriminou logo ao fingir que não sabe. — retrucou Áker, irredutível.

— Oh, porque, afinal de constas, você tem tanta certeza de que pareço estar mentindo? Por que não usa mais um dos seus truques e tenta de novo? Ah, talvez eu esteja mais seguro porque... eu sei o que você é. — disse ele, levantando uma sobrancelha com um leve sorriso enigmático. — Pombo-correio.

Áker grunhira em raiva, apertando cada vez mais a gola da camisa daquele que suspeitava estar por trás do surto de Rosie.

— Minha protegida... está completamente fora de si e acredito que por sua causa ela vá se envolver em problemas ainda maiores caso não seja detida. Então, é fundamental você colaborar comigo ou as coisas podem ficar bem críticas para você. — ameaçou Áker, fuzilando-o com o olhar.

— Primeiro de tudo: Não tem porque você se dirigir a mim dessa forma tão agressiva sabendo que posso me justificar. Portanto, não me trate como um criminoso. Olha... só estou aqui para me adaptar aos costumes dos mortais. Eu só lavo a louça. Posso jurar que o que fiz foi em prol de minha sobrevivência. Uma decisão egoísta, obviamente. Mas não me foi dada nenhuma escolha.

— Isto implica dizer que você responde a alguém oculto que lhe coagiu a fazer isso... não é, Robert? — perguntou Áker, soando irônico, pondo-o no chão e soltando-o.

— E em segundo lugar: Me chamo Údon. — disse ele, erguendo levemente o indicador direito, quase apontando-o para o rosto de Áker. — Robert é somente um disfarce para caminhar e viver entre os mortais.

— Um nome falso? — questionou o arauto, olhando-o suspeito.

— O nome real deste receptáculo, se lhe satisfaz saber. — revelou Údon, limpando sua camisa com uma mão. — Agora falemos sobre você. — voltou-se ao arauto, fitando-o com certo aborrecimento. — Como ainda está vivo depois de cometer uma irregularidade da qual a única punição é a morte?

— Prefiro falar sobre Rosie e principalmente sobre o meio de liberta-la. — redarguiu Áker, austero.

— Lamento desaponta-lo. — disse Údon, a fala um tanto comovida. — O que ocorreu não pode ser desfeito.

— Tipos da sua espécie possuem um conhecimento vasto sobre a mente humana. Você não pode, mas quer. Estou certo? — arriscou Áker, permanecendo a encara-lo com suspeita no olhar.

— Negativo. — disparou Údon, franzindo o cenho. — Não posso e nem quero. Pela mesma razão.

— Mas você deve. — devolveu Áker, o tom autoritário. — Independente das ameaças que sofreu.

— Tenha dó. — reclamou Údon, andando e passando pelo arauto, ficando de costas para ele, mas sem intenção de fugir. — É complicado.

— A situação de Rosie está complicada. — redarguiu o arauto, aproximando-se dele. — E precisamos que isso acabe, antes que o pior aconteça.

— A propósito — disse Údon, virando-se para ele de repente -, o mortal que estou mantendo sob custódia é seu aliado?

— Se refere a Hector!? — disse Áker, espantando-se na hora. — Então é por isso que ele não tem mantido contato até agora. Por um momento, imaginei que ele tivesse iniciado uma caçada contra Rosie em vez de se concentrar na sua parte. — fez uma pausa, olhando-o com raiva. — Vai liberta-lo. Afinal, porque o prendeu?

— Perdi minha primorosa habilidade de vislumbrar através do véu ao possuir este corpo. Logo pensei que Abamanu, fixado ao corpo de seu verdadeiro vassalo, tivesse vindo fazer uma visita inconveniente a minha casa. — explicou Údon, desconfortando-se com aquela conversa.

— Isso quase aconteceu. — disse Áker, mantendo-se sério e centrado no principal problema. — Mas Rosie e eu impedimos. Mas atribuo este mérito muito mais a ela do que a mim.

— Que devoção cega você tem por esta mortal. — reclamou Údon, estreitando os olhos.

— Então realmente não se importa? — questionou o arauto, o ar de decepção.

— Eu disse que não. — insistiu Údon, irrevogável.

— Ao menos me revele quem de fato está por trás disso. Você não passa de um lacaio, pelo visto. — provocou Áker a fim de convence-lo.

— Veja só quem fala. — rebateu Ùdon com olhar desdenhoso. — Tudo bem. Desejo concedido. Mas deve ser realizado em outra ocasião.

— Amanhã. — determinou Áker, lacônico. Esticou um pouco o braço direito e pousou a mão sobre a têmpora esquerda de seu mais novo e improvável, transferindo uma informação de grande importância por via psíquica. Údon contorceu-se um pouco, fechando os olhos, devido ao incômodo que o envio causara-lhe. — Esteja no local e horário exatos. Está protegido com sigilos, ninguém além daqueles que prezam pela sobrevivência de Rosie vai nos ouvir.

— Espere um pouco. — disse Údon, atentando-se a um detalhe que o pegou desprevenido. — Você esteve me caçando? Por isso mandou aquele mortal vir a minha casa para investigar.

— Caçar é a especialidade dele, para sua informação. — disse Áker, recuando alguns passos. — Devo dizer que Rosie se tornou uma ameaça potencialmente perigosa à sociedade. E o caçador que mantém preso é bastante apegado à ela. — fez uma pausa, refletindo a respeito ao desviar o olhar. — Ambos se tornaram o que mais odeiam. Faz ideia do fardo que eles são obrigados a carregarem? Sugiro que reavaliei seus conceitos. Desdenhar vidas humanas nunca foi uma escolha.

E, por fim, o arauto desaparecera em nanosegundos.

As pessoas presentes nas mesas do restaurante começavam a despertar, sem se questionarem sobre terem estado desacordadas por um pequeno período de tempo.

Em pé em meio as mesas, Údon suspirou pesadamente com ar sério, tentando fazer o que Áker lhe recomendou. Para se engajar de corpo e alma seria preciso assumir um risco óbvio mas com consciência e coragem.

O cerco havia se fechado e, novamente, o psíquico se viu sem saídas alternativas para se ver isolado.

***

Área florestal de Raizenbool — 07h58

Lester folheava as páginas do jornal sobre a mesa próxima a porta dos fundos com uma expressão estarrecida. Inúmeros casos de criminosos assassinados estampavam as manchetes principais. "Ela está piorando", pensou o caçador, as mãos apoiadas sobre a mesa e a cabeça baixa, pensativo quanto as chances de salvar sua amiga. Segundo algumas notas, a polícia local teve sérias dificuldades, seja em abordagem ou captura, muitos alegando estarem diante de uma criatura inigualável em termos de fazer justiça com as próprias mãos do modo mais radical possível. Os detalhes acerca das extraordinárias habilidades da fugitiva foram vetados por ordem do alto escalão da imprensa. Nenhum policiais agredidos foi identificado nos trechos divulgados das entrevistas impressas.

Dentre eles, estava o ataque a um cartel de tráfico de armas compradas ilegalmente, uma invasão numa mansão para impedir um assalto e o assassinato de um homem que tentou arrancar o colar de pérolas de uma elegante mulher com o cano de sua arma. Este último caso resultou na morte do criminoso pelas mãos de Rosie, que quebrara seu pescoço ao aparecer "de repente" por trás dele, segundo relato da vítima.

Além disso, ela cuidou de um roubo a uma loja de conveniência, na noite do dia anterior. O proprietário e recepcionista foi considerado coagido pela justiceira radical a não relatar em detalhes, com base nas suspeitas dos investigadores responsáveis pelo colhimento de evidências.

Em apenas dois dias, Rosie adquiriu fama e prestígio por uma parcela da população e repúdio e opressão de outra mais prezada aos direitos humanos.

Quando menos estava atento ao mundo em seu redor, mais fechado em seus pensamentos do que nunca, o caçador empertigou-se, assustado, ao perceber presenças repentinas surgidas dentro da casa.

Tremendo um pouco, ele encarou com aborrecimento a dupla que havia chegado em uma velocidade sem igual.

— Já ouviram falar em portas? — perguntou ele, irritado, pondo a mão direita no peito. — Isso é sinistro.

— Perdão se o incomodou, Lester. — disse Áker, chegando mais perto do centro da grande sala de estar. — Mas na situação com a qual estamos lidando não podemos atrasar nossos passos.

— Hector!? — disse Lester, surpreso ao revê-lo. — Cara, onde você tinha se metido? Sabe que o mordomo aí mandou você cuidar de invadir a tal casa e somente.

— Não fui ao encalço de Rosie. — disse Hector, se pondo ao lado de Áker, os cabelos meio desgrenhados e o sobretudo meio sujo. — Na realidade, fui mantido sob custódia por engano.

— Espera, como assim? Por quem?

— A pessoa responsável por incutir memórias falsas em Rosie. — revelou Áker, olhando para o caçador estrategista. — Seu nome é Údon. Ele é um Arqueu. — andou calmamente por um lado, paciente. — Desculpe não ter contado a você antes, Hector, mas você entende, não tínhamos muito tempo.

O caçador-detetive fitou o arauto com um misto de expectativa e curiosidade elevadas.

— E o que exatamente são esses Arqueus? — perguntou.

— Uma classe de terceiro escalão muito sub-valorizada. Eles não tem restrições quanto ao uso de viagens inter-dimensionais. — contou Áker, de costas para os dois, as mãos juntas para trás. — Tidos como deuses das profecias, são capazes de manipular a psiquê humana com a mesma facilidade que um mortal organiza um baralho de cartas. São também responsáveis por... — virou-se para os dois, sério -... selecionar profetas.

— E esse Údon? — indagou Lester, curioso. — Onde ele está? Deixaram ele fugir, não foi?

— A contragosto, ele está do nosso lado. — afirmou Áker, um pouco desapontado pela relutância do Arqueu. — Tem ligações com Abamanu. Em outras palavras, é o seu escriba.

— Então é ele?! — soltou Hector, arqueando as sobrancelhas, finalmente sabendo a identidade do misterioso escrivão que Abamanu contratara para redigir sua própria bíblia.

— Isso pode ser uma cilada. — preocupou-se Lester. — Qualquer um ligado a Abamanu pode não ser totalmente confiável. Melhor chutarmos ele do barco antes que ele planeje alguma traição.

— Não, precisamos dele, nos será muito útil, eu garanto. — assegurou Áker, sincero.

Uma voz grave e masculina surgiu no recinto, para o susto de todos.

— Então sou aliado porque sou útil?! — disparou Údon, parado próximo a janela do ponto esquerdo da sala após se teleportar. — É o tipo de tratamento que se espera quando se é visto como um mártir.

— E você é...? — perguntou Lester, olhando-o estranho.

— Údon, prazer. — disse ele, interrompendo-o e se aproximando. — Robert, para os mais íntimos. — olhou para Áker com deboche.

— Me manteve trancado naquele armário sem mais nem menos. — replicou Hector, fitando-o com decepção. — Iria fazer umas perguntas, mesmo não estando em posição.

— Ah é, sobre minha abordagem indelicada, me desculpe. — disse Údon, levemente erguendo a mão esquerda, se retratando. — Promete não me bater se eu perguntar o que achou da sauna?

— Prefiro não perder tempo com brincadeiras e me focar no que realmente importa. — retrucou Hector, sem a menor paciência, visivelmente tenso. — Fez isso com Rosie a mando de Abamanu, não foi?

— Nada disso. Me mantive fora de rastreio para unicamente não ser encontrado por ele. — contou Údon, assumindo seriedade. — Eu fugi, por anos tentei encontrar um meio para me ver livre de qualquer tipo de condenação. Quando soube que aquela quimera bestial regressou ao mundo dos mortais, não tive outra escolha a não ser adentrar aqui e tentar avisa-los de alguma forma sobre o futuro. — fez uma pausa, virando-se para Áker. — Só quando Áker finalmente se manifestou para vocês, sua energia ficou exposta ao meu rastreio psíquico e então achei o meu favorito.

— E me enviou aquelas mensagens terríveis sobre o futuro. — disse Áker. — Me fazendo compartilha-las com Rosie.

— E agora ela está por aí, cometendo atos que seu verdadeiro eu nunca faria. — disse Hector, preocupado.

— Na verdade, matando bandidos a sangue frio. — apontou Lester, cruzando os braços. — Todos os jornais estão pautando. Ela ficou famosa da noite pro dia. "A justiceira encapuzada é louvada por uns e perseguida por muitos outros". Lembra do lance de justiça que ela me falou? Pois é, agora faz sentido.

Hector andou por um lado, passando uma mão no rosto em sinal de apreensão.

— Não pode ser. — lamentou ele. — Está agindo como júri, juiz e executor. — se virou para Ùdon abruptamente, com raiva na face, apontando com o indicador para ele. — Se não tivesse me mantido refém por quase dois dias e permitisse Áker localiza-lo, o estado de Rosie não teria se agravado tanto.

— Não venha me culpar, rapaz. — defendeu-se Údon, levantando uma sobrancelha. — Juro, por tudo o que é mais sagrado, que não fiz isso para atrasa-los. Além do mais, Áker ainda está em conflito com sua superiora, a imprevisível Sekhmet, bem como seus sentinelas. Foi bem menos arriscado ele vir até mim espontaneamente. A escolha do lugar foi inteligente, aliás. — falou, visualizando as paredes e o piso. — Sigilos dentro e fora.

— Prometeu nos contar sobre a palavra-chave Fênix, a última que me mostrou nas visões. — lembrou Áker, parecendo mais apressado em sanar toas as dúvidas.

— Espere, Áker, só um instante. — pediu Hector, fitando o nada, bastante pensativo. Uma ideia perpassara num veloz lampejo, motivando-o a renovar as esperanças. — A... Acho que já sei a quem recorrer. — sorriu fracamente — Por que não pensei nisso antes? — se perguntou, logo virando-se ao ir diretamente ao telefone posto numa cômoda perto de um quadro.

Lester e Áker entreolharam-se rapidamente, desconfiados. Údon pareceu confiar na ideia do caçador, contando que seus serviços não fossem ser tão utilizados e abusados.

— Vai ligar para um detetive vestido de morcego? — perguntou Lester, retoricamente.

A confusão nas faces de Áker e Údon o deixou desconcertado e pouco à vontade.

— Ahn... É um lance de história em quadrinhos. Um cara que perde os pais e anos depois resolve sair pra combater o crime na cidade... vestido de "homem-morcego". Enfim, é bem divertido, leio desde o ano passado e... — virou o rosto, envergonhado, coçando a parte de trás da cabeça. — É, vocês deuses não se interessam por essas coisas mundanas.

Hector discava freneticamente o número da casa de Eleonor.

Dois toques foram ouvidos antes da voz inconfundível da bruxa atender.

— Alô?

— Eleonor. — disse o caçador, em tom baixo.

— Hector!? — disse ela, bastante surpresa. — Onde você está? Não deu mais notícias desde que saiu para enfrentar Abamanu carregando a pedra Ônix! Se está me ligando agora, deve ser bem grave. Melhor que seja rápido, Alexia não está nada bem.

— O quê? O que houve com Alexia? — perguntou, franzindo o cenho.

— Você primeiro, Hector. Por favor. — pediu ela, séria.

— Rosie está em apuros. — disse ele, sucinto. — Começou com uma forte dor de cabeça, evoluindo para uma mudança brusca de humor... até chegar um ponto onde não tem mais volta. A personalidade dela está alterada. Conheci várias versões da Rosie durante o tempo que passamos. Amigável, compreensiva, protetora, independente... Agora violenta, hostil e radical. — fez uma pausa, suspirando pesarosamente. — Em outras palavras, seu lado mais sombrio despertou por completo. O lado heroico e o assassino estão se confundindo em uma só personalidade.

A ligação ficara muda por alguns segundos, intrigando Hector.

— Eleonor? Alô?

— Sim, estou ouvindo. — disse ela, o tom entristecido. — Como isso foi acontecer? Há alguma explicação?

— É uma longa história. — desconversou ele. — Preciso de sua ajuda.

— Não posso deixar Alexia sozinha. — justificou ela, claramente preocupada com o estado de sua querida neta. — Mas que droga. Logo agora isso acontece. Já conseguiram localiza-la?

— Ainda não. Mas sabe-se que está sendo apontada como responsável por várias mortes de criminosos, com o objetivo de limpar Londres de todo o mal, mas ao seu modo.

— Que tipo de modo?

— Fazendo justiça com as próprias mãos de maneiras cruéis. Enfim, de fato ela está sendo procurada, creio que a essa altura, com a pilha de cadáveres aumentando, sua cabeça já esteja a prêmio. — contou o caçador, a fala rápida e baixa.

— Caramba... O que quer que eu faça?

— Um feitiço. Forte e eficiente o bastante para dividirmos ela em duas. — sugestionou Hector, parecendo querer transmitir confiança à bruxa sobre a competência do plano.

— Quer dizer separarmos as partes boa e má?! Com qual propósito? É ilógico, Hector. E de novo nos encontramos em um impasse mediante a tantas possibilidades.

— Seja mais específica. — exigiu Hector, fechando os olhos por um segundo.

— Me refiro a pior possibilidade dentre todas: A parte má acabar, por impulso, matando a boa. Sendo assim, não faz sentido uma divisão, não fará nenhuma diferença se a parte má assume o controle.

— E se você incrementar algo que faça com que não exatamente a personalidade totalmente bondosa e passiva de Rosie venha a surgir, mas sim a Rosie que conhecemos, separada de seu lado assassino? — idealizou Hector, confiando nas opções, mas inseguro.

— Não, não, não insista mais nisso, Hector, chega. — disse Eleonor, recusando-se a investir em tal plano. — Há um feitiço dualístico de efeito permanente... Não posso arriscar, Hector, lamento. Só vai gerar mais problemas, vá por mim.

— Está bem... — aquiesceu Hector, respirando fundo, mas o tom de voz desesperançoso. — E como está Alexia? O que aconteceu a ela?

— Sentiu uma forte dor de cabeça enquanto estávamos indo a estação de trem, ela decidiu que o melhor caminho é estar ao lado da família. — contou Eleonor, o tom calmo.

— Espere, você disse dor de cabeça? — indagou Hector, arqueando uma sobrancelha ao rapidamente sinalar uma conexão. — Siga meu raciocínio, Eleonor... Talvez não seja uma mera coincidência. — alertou ele, olhando discretamente por cima do ombro e visualizando, em segundos, Údon com os braços cruzados e andando pela sala. — Que outros sintomas Alexia teve?

— Algo me diz que não está sozinho. — atentou-se Eleonor, o tom suspeitoso. — Quem mais está aí com você?

— É a sua vez de responder primeiro. — insistiu o caçador, apressado.

Um suspiro cansado ouviu-se do outro lado. A bruxa receava em fornecer maiores detalhes.

— Ela parece um pouco abatida. O baque foi demais para suportar. — disse a bruxa.

— Ela não estava ardendo em febre? — perguntou Hector, desconfiado.

— Febre? Não... pelo menos, não até agora. — respondeu Eleonor. — Agora me diga: Quem mais está lhe fazendo companhia? Seja honesto.

— Meu amigo caçador Lester... — disse Hector, preocupado com o que os três estavam pensando sobre o tempo da ligação. — O arauto de Yuga...

— O quê? — soltou a bruxa, claramente estupefata pelo tom.

— Não pergunte a respeito. Só mais uma longa história. — retrucou Hector, procurando encerrar a conversa. — E... — fez uma pausa de vários segundos.

— E...?

— E o escriba de Abamanu. — dissera ele, em tom baixo e firme. — Foi ele quem estabeleceu uma conexão psíquica com Rosie e manipulou sua mente para torna-la a assassina que atualmente anda espalhando um conceito distorcido de justiça.

— Então é isso! Achei a resposta! — disse a bruxa, parecendo realizada. — Não é coincidência nenhuma. Alexia disse ter ouvindo, em sua cabeça, uma voz estridente falar seu nome, depois sentindo que deveria encontrar a pessoa que tentou lhe contatar. Sendo Alexia a profetisa de Abamanu na Terra, faz todo o sentido.

— Na verdade, ele não é bem uma pessoa. — disse Hector, novamente olhando disfarçadamente para trás. — Se encaixa numa espécie de divindade com poderes psíquicos além da compreensão.

— Isso explica a ligação ter se dado de forma tão intensa. — constatou Eleonor, compreendendo parte da situação geral. — Hector... melhor passar a ligação à ele.

— Melhor eu desligar. — disse Hector, sentindo-se inseguro ao perceber os olhares suspeitos de Lester.

— Por que? Se revelar aliado de uma bruxa deixa você tão assustado quanto a opinião dos outros?

— Não é nada disso. — disse ele, suspirando longamente. — Prefiro que ele vá até Alexia, é mais justo. Além do mais, se não está em condições de ajudar, ao menos posso mante-la informada.

— Passe... o telefone. — insistiu Eleonor, o tom autoritário.

— Prometo não deixa-la desatualizada. Confie em mim. — disse o caçador, em seguida desligando de modo rápido.

Hector se direcionou até Údon exalando um ar de pura curiosidade, sem responder a série de perguntas de Lester. Áker respeitou a privacidade do caçador ao não questionar nada sobre a ligação, sabendo pela expressão dele que a ideia não correspondeu as expectativas.

Údon o olhou fixamente, pronto para ouvi-lo.

— Nos conte tudo sobre sua relação com Abamanu, quem está por trás desse plano maldito e sobre a correlação da palavra Fênix com o caso de Rosie. — pediu ele, o semblante extremamente sisudo.

CONTINUA...