Capuz Vermelho - 3ª Temporada

50 O Voo da Fênix (Parte 2)


Croydon


Em seu quarto, Alexia aprontava sua mala pondo algumas peças de roupas, antes colocadas sobre a cama, dentro da mesma. Por fim, fechara o zíper com pressa, logo levantando a mala pela alça e carregado-a até a porta com uma só mão, suportando o peso médio.

A vidente mantinha-se ciente da única coisa que julgava ser a certa a fazer naquele momento. O ataque de Cassandra mostrou-se um alerta para iminentes perigos que possuem Eleonor como principal alvo. Todavia, parte da situação mudara com a inclusão da vidente neste jogo perigoso de gato e rato entre bruxas poderosas. Para ela, só o fato de estar ali, com sua condição já conhecida, a tornava um estorvo para sua mestra ou um chamariz estupidamente fácil, considerando a informação dada por Cassandra minutos antes de sua morte. "Sou um alvo fácil que torna outras pessoas como eu. Continuar aqui só vai atrair mais problemas. Se já faço isso naturalmente, quanto mais agora que um clã de bruxas obcecadas por vingança e sedentas de ódio sabem quem sou, o que sou e a quem estou associada. Espero que ela entenda, afinal vou estar fazendo um favor em vez e dar a impressão de que o objetivo não foi completado.", pensou Alexia, girando a maçaneta para abrir a porta.

No entanto, rapidamente assustou-se ao sentir uma mão tocar do outro lado da porta e empurrar levemente. Afastando-se um pouco, a vidente logo reconhecera a figura que entrava, respirando fundo e tentando passar o máximo de segurança. "É agora.".

— Alexia? Estive pensando se hoje nós pudéssemos ir a... — a bruxa cortara a frase ao se deparar com a mala segurada pela vidente, desfazendo o sorriso de animação que trazia, indiciando uma proposta para algum passeio. As chances para um entretenimento entre mestra e discípula arruinaram-se. — O que é isso? — perguntou, olhando-a com seriedade forte. — Não vai me dizer que resolveu...

— Sim! — disse Alexia, sua voz soando mais alta do que o necessário. Tentou se demonstrar menos nervosismo. — Ahn... Olha, já ficou bem óbvio que... não há mais condições de manter minha estadia.

— Estadia? Mas você nunca foi uma hóspede. — redarguiu Eleonor. — Esta casa também é sua. — olhou rapidamente ao redor do quarto — O vínculo que construímos aqui me convenceu de que não ia ser temporário.

— Nunca coube você a decidir isso. — disparou Alexia, mantendo a expressão séria, mas, ao mesmo tempo, nervosa. — Não pode me prender aqui. Entendo que quer continuar me ajudando, me tornando sua aprendiz, mas as coisas... tudo isso, chegou a um ponto crítico. — fez uma pausa, olhando-a profundamente nos olhos. — Cassandra só foi o aviso de algo muito pior a estar por vir. Tem que me deixar seguir meu caminho. Para o bem de nós duas.

Um nó na garganta acometeu a bruxa de imediato ao ouvir aquela justificativa. Mais do que a compreensão do situação perigosa intensificada, doía em seu coração ter de travar as futuras batalhas sozinha e o esforço em superar a despedida da aprendiz eventualmente.

— Não é minha prisioneira. — disse Eleonor, os olhos marejados, mas a expressão séria. — Muito menos meu artifício de fuga. Gosto de você, Alexia. Como uma filha. — deixara uma lágrima escorrer pelo rosto. — Você está coberta de total razão. É arriscado demais mantê-la aqui. — enxugara as lágrimas passando as mãos no rosto, sentindo-se envergonhada. — Desculpe... Não pensei que seria tão repentino.

— Imaginei que diria isso. — disse Alexia, desviando o olhar para um canto da sala, a cabeça meio baixa. Voltou-se para a bruxa, o ar mais sério. — Perto da entrada do cinema onde fomos há uma semana... avistei um rapaz vendendo passaportes e havia uma pequena fila de pessoas... e aproveitei a deixa enquanto você comprava mais pipoca. Tenho amigos e parentes em Cambridge... e meus pais, eles... com certeza estão bastante ansiosos pela minha volta, telefonei na mesma noite, pouco depois de voltarmos. Terei um futuro na minha cidade natal. O embarque sai as 10, preciso estar na estação com uma hora de antecedência. — disse a vidente, andando até a porta com bastante pressa.

— Espera. — disse Eleonor, pegando-a pelo braço sem machuca-la.

— Já sei: não vou estar totalmente segura, não importa onde eu pise. Vou colocar minha família em perigo já que também vou ser incluída na lista negra das bruxas e serei perseguida por todo o país. Simples assim. — dissera Alexia, sem olha-la, soando meio irritada.

Eleonor a fitou condescendente.

— Não. Não vou convence-la a ficar, não tenho esse direito. — afirmou a bruxa, segura de si. — Tenho algo importante a lhe contar.

A vidente voltara-se para ela, emanando uma postura de aborrecimento.

— Seja rápida.

— Mexi nas suas coisas... — confessou a bruxa, baixando a cabeça por uns segundos, sentindo-se mal. — ... e descobri as anotações de suas visões.

Um arrepio perpassou o corpo de Alexia como uma descarga elétrica. Lívida, a vidente encarou a bruxa com um semblante estático, seus estonteantes olhos azuis realçados e marejados.

— Não pode ser... — falou, descrente. — Você... você leu tudo? — perguntou, sem parecer muito abalada.

— Cada palavra. — respondeu Eleonor, honesta. — O futuro... é assustador.

— Foi o que eu tentei avisar. — disse Alexia, assentindo e arqueando as sobrancelhas. — Mas não vá pensando que com isso eu vá passar a odiá-la. Aquelas visões não tinham nada a ver com os amigos que fiz nos últimos dois anos e revelar as que tinham me deixava apavorada.

— Sem ressentimentos, então? — perguntou Eleonor, sorrindo levemente, dando de ombros.

Alexia também esboçara um sorriso no mesmo teor.

— Não, eu... Eu só tenho a agradecer. — disse ela, emocionada. — Por cada ensinamento. Por cada gesto de apoio.

— Bem... — disse Eleonor, relanceando a mala. — O que estamos esperando? Me permite acompanha-la até a estação?

— Tudo bem. — disse Alexia, abrindo mais a porta. — Mas... — ergueu de leve o indicador esquerdo. — ... não vou me tornar uma bruxa como você.

— Não seja estúpida, vamos logo. — disse Eleonor, quase dando rindo, prestando-se a ficar ao lado da discípula até o momento da verdadeira despedida.

***

Área florestal de Raizenbool

Hector entrara no Casarão pela porta da frente com certo alarde e em passos largos e firmes. Em aflição nítida, estava tendo dificuldades em resolver se iria primeiro ao local informado por Áker ou verificar o estado de Rosie, tendo em mente a ideia de que Lester poderia ter saído para comprar algo que a jovem necessitasse em função de aliviar suas dores.

Olhou para a escada, prestes a subir ao segundo andar.

— Lester! — chamou ele, o tom de voz elevado.

Surpreendentemente, Áker irrompera pela cortina que dava entrada à cozinha, andando a passos rápidos ao avistar Hector prestes a subir a escada. O caçador se direcionou à ele prontamente.

— Áker, o que está fazendo aqui? Não ia prosseguir com a investigação? — perguntou ele.

— Não há sinal de soldados inimigos pelos arredores. Tudo está limpo. — disse o arauto, persistindo na desconfiança pelo estranho recuo dado pela deusa. — E você não iria até a casa?

— Na verdade, sim. Mas antes, só vim ver rápido como Rosie está se sentindo. — disse ele, logo olhando para o topo da escada. — Lester está com ela, ouço os passos dele. Está fechando uma porta... acho que do último quarto, o depósito de armas recém-criado. — constatou, fazendo bom proveito de sua audição aprimorada graças a licantropia sob absoluto controle. — Deve estar tudo bem. — disse, voltando-se para o arauto, tentando expressar esperança.

***

Após trancar a porta do novo depósito e guardar a chave em um dos bolsos de sua calça, Lester caminhara assoviando em direção ao cômodo ao lado no qual Rosie estava repousando.

— Bem, agora é hora de ver como está a princesinha guerreira. — dissera ele, logo tocando e girando a maçaneta ao abrir a porta. Um susto lhe assaltara o ar.

Rosie estava parada ao lado da cama, verificando o fio de corte de uma de suas adagas. Pela postura, aparentava estar completamente recuperada.

— Nossa... — disse Lester, espantado. — Mas já? Agora há pouco, você estava desmaiada, respiração bem fraca e com uma febre de mais de 40 graus.

— Já desperdicei dois anos numa cama. — disse Rosie, o tom identificado como rude, ainda olhando para sua adaga. Logo desviou o olhar para Lester, visualizando-o de forma estranha e apática. — Não preciso que me olhem com piedade ou cuidem de mim como se eu fosse um bebê.

— Ahn... Tudo bem, ótimo, você quem sabe. — concordou Lester, fitando-a com estranheza. Ergueu a mão direita com o polegar apontado para trás. — Olha, eu... acho que ouvi o Hector chegar, então melhor chamar ele...

— Fique bem aí onde está. — ordenara Rosie, assumindo um tom cru e frio.

— Como é que é? — perguntou ele, franzindo o cenho. — Olha, me desculpa, mas eu tenho que admitir: Isso está me assustando. — dissera, apontando para ela e a adaga. — Melhor você largar essa faca ou senão...

— Senão o quê? — perguntou Rosie, com ar soberbo estampado em seu rosto. — Ora, para com isso, Lester. — disse, sorrindo de modo misterioso, andando devagar até ele e aliciando a lâmina calmamente. — Até parece que sou uma estranha para você.

— Não é nada disso, é que... — disse o caçador, recuando uns dois passos, até ficar na soleira da porta. — Você não está nada bem. Nós só queremos ajuda-la.

— Me ajudar? Deixa eu ver se entendi... — disse Rosie, fechando os olhos por uns segundos. — Me mantendo presa nesta coisa horrível e infestada de poeira que vocês chamam de lar? — apontou a lâmina para Lester. — É, pelo visto, você concorda. E quer me impedir a qualquer custo.

— O quê? Não, você entendeu errado. — tentou Lester, erguendo de leve as duas mãos para fazê-la se acalmar. — Você está doente, Rosie. Nós confiamos em você. Pode fazer o mesmo por nós?

— Existe um mundo a ser salvo lá fora. — disse ela, com fervor na face. — E ninguém pode me desviar dos meus princípios. Você é um deles, Lester. Parte dessa imundice de pessoas que acreditam em justiça mas falham miseravelmente em fazer qualquer coisa para mudar e para fazer a diferença. Você, Hector, Adam, Êmina, todos os malditos caçadores. É claro que vou retribuir essa... confiança. — disse ela, em tom debochado, logo em seguida arremessando velozmente a adaga contra Lester.

A lâmina atingira o caçador certeiramente no torso, fazendo-o grunhir em dor e cambalear um pouco para trás. Olhou de relance para Rosie, como se não a reconhecesse, logo visualizando a mancha de sangue no seu colete marrom se espalhando pela camisa branca.

Antes que o caçador retirasse a adaga, Rosie esticou rapidamente o braço direito empurrando Lester com uma surpreendente telecinesia. O caçador colidiu fortemente suas costas contra a parede, passando a sofrer com duas dores distintas. Tentou se levantar, expressando dor, ficando de um só joelho, a mão direita agarrando o cabo da adaga cravada na sua carne.

O esforço pouco valera.

— Não, espera aí Rosie! — gritou ele no mesmo instante em que a jovem batera com a porta telecineticamente, trancando-a. As mãos ensaguentadas de Lester tentaram forçar a maçaneta, mas obviamente mostrava-se inútil.

Em vez de tentativas em vão para impedir Rosie, concentrou-se em retirar a adaga de seu torso, agarrando firmemente o cabo. Trincou os dentes e apertou intensamente os olhos, sentindo a lâmina com filetes sinuosos de sangue sair aos poucos.

Ao terminar, largou a faca no chão, arquejando com mais força e pressionando a ferida a fim de estancar o sangramento ao mesmo tempo em que se levantava para descer as escadas e avisar rapidamente à Hector.

***

Alarmados com os barulhos escutados do andar de cima, Hector e Áker correram para dentro da casa para saber o que ocorrera.

— Lester! O que houve? — perguntou Hector, não demorando a notar a sangrenta ferida no amigo. Aproximou-se com mais pressa. — Está ferido... Onde está Rosie?

— Ela ficou completamente insana de vez! — disse o caçador estrategista, aturdido. — Quando entrei, já estava de pé, bem melhor, mas... havia algo diferente nela, como se não fosse a mesma de antes.

— Vamos cuidar desse ferimento primeiro. — decretou Hector, voltando-se para Áker. — Ákér, se tiver a gentileza...

— Sem problemas. — aceitou o arauto, esticando o braço direito para tocar na ferida de Lester. Ao fazê-lo, uma luz amarelada surgira em torno do dano, abaixo da mão do arauto. O ferimento desaparecera instantaneamente, deixando o caçador estupefato.

— Quem é esse engomadinho? Aliás, o que ele é? — questionou Lester, os olhos esbugalhados, passando a mão no ponto da ferida.

— Como se tivéssemos tempo para explicar. — retrucou Áker, andando em direção a escada.

— Ela escapou. Ouvi o vidro da janela quebrando enquanto eu tirava a faca. — revelou Lester, sucinto. Áker estacou no mesmo instante. — Além de ter me esfaqueado, me jogado contra a parede e trancado a porta de um jeito... bizarro, se é que vocês me entendem.

— Ela ganhou habilidades. — disparou Áker, chamando a atenção de Hector imediatamente. O arauto virara-se para os dois caçadores, exibindo seriedade máxima. — A situação está piorando.

— E ainda nem sabemos exatamente com o que estamos lidando. — lamentou Hector, a expressão ainda mais preocupada e aflita. — Agora ela some...

— Nós vamos encontra-la, certo? — disse Lester, procurando estimula-lo a não desistir. — Olha, vou dizer uma coisa: Ela mencionou um lance de querer salvar o mundo, trazer justiça as pessoas, e ainda desonrou o nome da Legião. Do jeito que ela estava... ela não vai pegar leve.

— Precisam detê-la. — sugeriu Áker, aproximando-se dos dois. — Estamos lidando com alguém associado a deuses, sem dúvidas. Seja o que for, distorceu a psiquê dela a ponto de fazê-la abraçar seu lado mais perverso e implacável.

— E sendo assim — disse Hector, convicto -, a investigação no local específico vai ter de esperar.

Áker denotou estar em desacordo com a ideia.

— Irrelevante. Eu mesmo posso cuidar disso, me responsabilizar pela captura. — disse ele, prontificando-se para o trabalho. — Sei que está desesperado, Hector. Mas também me importo com Rosie tanto quanto você. Levei dias para conseguir achar localizações prováveis para encontrar essa força misteriosa que agora está subjugando-a e a transformou em uma criatura malevolente. Se quisermos que isso se resolva logo, então teremos de fazer nossas partes. Como uma equipe.

— Talvez ele tenha razão, Hector. — disse Lester, de pleno acordo ao argumento do arauto. De repente, voltou-se para ele. — Espera... E quanto a mim? Também quero ser útil.

— Você pode me manter informado caso aviste algum indício de invasão domiciliar. — disse Áker, retirando um amuleto do bolso do smoking e oferecendo-o a Lester. O caçador levantou uma sobrancelha, encarando com estranheza pura o pequeno objeto dourado.

— Com um anel? — indagou ele, confuso. Voltou-se para Hector. — Cara, você precisa de novos amigos.

— Não é um anel. — retrucou Áker, soando aborrecido. — Basta por na palma da mão e fazer seu chamado.

— Gostei. Muito simples. Pura magia. — disse Lester, encantando-se com o brilhante dourado. — Quanto será que vale?

— O amuleto não está avaliado em nenhum preço. — disse Áker, paciente. — Nem pense em oferta-lo. Itens de caráter divino devem permanecer longe do alcance de mortais desavisados.

— Ótimo. — aquiesceu Lester, guardando o minúsculo objeto em um bolso de trás da calça. — Ah, e obrigado por ter... me curado. Tenho tantas perguntas.

— Tudo no seu devido tempo. — disse o arauto, afastando-se um pouco. Olhou de esguelha para Hector que se encontrava parado diante da janela próxima à estante vitrificada, com as mãos juntas diante dos lábios em claro sinal de preocupação constante. — Avise-o de que precisa ir hoje.

— Espera, ir pra...

O teleporte super-veloz do arauto deixara a frase do caçador no ar. Procurando ao redor, Lester estava novamente espantado com as habilidades de Áker.

— Uau. — disse ele, surpreso. — Para onde ele foi? Sumiu num piscar de olhos.

— Ele se teleportou. — respondeu Hector, secamente.

— Vai demorar para me acostumar com isso. — comentou ele, sentindo-se meio desconfortável. Logo tornou a observar o amigo por alguns segundos, motivando-se a mantê-lo auto-confiante quanto a busca por Rosie cujo início já havia ocorrido assim que Áker partira para rastreá-la. — Ei, você vai ficar bem?

Erguendo um pouco a cabeça, Hector virou-se para o amigo com uma determinação revitalizada.

— Vamos acabar logo com isso. — disse ele, firme no tom. — Salvaremos Rosie.

***

Estação Ferroviária de Croydon

A tutora e a discípula caminhavam a passos apressados em direção ao ponto onde o trem embarcaria as 10 horas pontualmente. A bruxa pudera sentir em sua aprendiz o gosto da satisfação por estar se livrando dela tão facilmente. Mas ainda havia perguntas não respondidas. As olhadelas de esguelha de Eleonor comprovavam tamanho anseio em querer saber como se saiu.

— Começo a achar que não foi uma boa ideia vir me acompanhar. — disse Alexia, intrigada. — Você mesma disse: Elas podem estar em qualquer lugar, disfarçadas ou com informantes agindo nas sombras. Estou expondo você ao perigo.

— Não, Alexia, pare já com isso. — disse Eleonor, repreendendo-a. Cessou a caminhada, virando-se para a vidente. — Quero que me responda: Eu fui boa o bastante?

Alexia não entendera o porque da pergunta, sem saber como reagir.

— A troca de corpos funcionou até demais. — disse ela, soando irônica. — Isso parece... tão eu. — fez uma pausa, olhando para os lados, pensando no que diria. — Eu não sei...

— Acho que não fui específica. Quis dizer sobre mim como... — cortou a frase, receosa acerca de como soaria. — ... Sobre como eu me redimi dos meus erros.

— Olha, não temos tempo para isso, melhor nos apressarmos... — disse Alexia, pouco disposta a prolongar aquela conversa mais do que a bruxa gostaria. No entanto, no exato instante em que virou o rosto para demonstrar seu desinteresse, a vidente sentira uma sobrecarga mental acometê-la subitamente, fazendo-a apertar os olhos fortemente e pôr as duas mãos na cabeça devido a uma intensa dor seguida do efeito primário. Eleonor rapidamente preocupou-se com o estado da jovem.

— Alexia, o que foi? — perguntou a bruxa, tocando-a nos ombros, a expressão aflita. — O que está sentindo?

A vidente resistiu o máximo para não ajoelhar-se de tanta dor. Mantendo uma só mão na têmpora esquerda, ela tentava não abrir os olhos até que tivesse acabado. Seus gemidos só deixavam Eleonor com os nervos a flor da pele.

— Me responda, Alexia! — insistiu Eleonor. — Consegue andar? Vamos voltar, agora!

— Não, não... — retrucou a vidente, aos poucos recuperando-se, segurando-se nos braços da bruxa. Abriu os olhos, a face embargada de temor.

— O quê? Isso foi alguma visão que você teve? — perguntou Eleonor, desconfiada.

— Minhas visões, você sabe muito bem... — disse Alexia, reavendo o fôlego. — ... só ocorrem nos sonhos. Não foi visão nenhuma. Foi um chamado. — revelou, olhando fixamente para a bruxa, séria.

— Um chamado? — perguntou Eleonor, franzindo o cenho. — Explique melhor.

— Senti algo familiar, tenho certeza. — disse a vidente, andando para um lado até parar para tomar ar. — Uma aura imponente e edificante. — fechou os olhos por uns segundos. — Chamando pelo meu nome. — virou-se para sua ex-tutora. — Talvez seja melhor nós voltarmos.

— Espere, que tipo de chamado? — questionou Eleonor, ainda não convencida.

— Como você quer que eu explique em detalhes se até para mim está confuso? — perguntou Alexia, assumindo um tom rude. — Foi tão... — disse, erguendo de leve o punho esquerdo fechado. Com os olhos fechados rapidamente, desistiu de encontrar uma descrição, suspirando. — Só preciso... eu só sinto uma vontade imensa de estar diante dessa pessoa que tanto se esforçou para chamar minha atenção, mesmo me fazendo sentir dor. É urgente, posso sentir. E não pode esperar.

Ambas passaram a concordar da mesma decisão.

— Então, vamos. — disse Eleonor, andando na direção em que vieram. — Já que é tão grave, não podemos desperdiçar nenhum segundo. O que quer que seja, estabeleceu um contato psíquico com você por tempo limitado. O suficiente para dizer apenas o seu nome.

— O que quer dizer? — perguntou Alexia, seguindo-se no ritmo.

— Essa pessoa, seja lá quem for, não tem permissão de fazer ligações psíquicas pelo tempo que desejar, por isso se torna restrita, ainda mais para profetas. — explicou Eleonor. — Você disse... Edificante e imponente. Como era o tom dessa voz?

— Bem alto, quase estridente. — respondeu a vidente.

— Conheço um feitiço localizador que talvez nos ajude a encontra-lo. — sugeriu Eleonor, apertando o passo. — Criado especialmente para psíquicos. Até para os mais raros, espero.

***

Ifley, Oxford

Hector parara o carro em frente à uma casa de cor branca e com várias janelas, estacionando-o próximo ao pequeno bosque bem arborizado A residência mostrada por Áker para a mente do caçador localizava-se em um vilarejo pacato de Oxfordshire.

O caçador estudou o local enquanto fechava a porta do automóvel, analisando cada detalhe. Notou a enferrujada caixa do correio entupida com uma pilha de cartas e se direcionou até ela. Ao puxar uma das cartas, mesmo que rasgando-a em algumas partes, ele vislumbrou o nome do destinatário, como se quisesse ter certeza da identidade do morador misterioso.

Estranhou ao olhar a data da correspondência.

"19 de Fevereiro de 1940!? Há exatamente um ano esta carta foi enviada. Para Christian Nevook.", pensou Hector, logo esquadrinhando o espaço para ver se havia alguém próximo.

Por sorte, avistou um garoto brincando com um ioiô perto de uma pessegueira, praticamente em frente à casa, acompanhado de um filhote de cachorro que tentava morder o brinquedo. Hector andou até o menino, ávido por respostas.

— Ei, garoto. — apresentou-se ele, gentilmente, fazendo-o tirar a atenção do ioiô e olha-lo estranho. — Você mora aqui por perto?

— Quem quer saber? — perguntou o garoto, pouco simpático.

— Ahn... Na verdade, apenas quero uma informação. — disse Hector, retraindo-se um pouco. Olhou de relance para o cachorro de pelo branco e orelhas caídas que rosnava diretamente para ele. Voltou a atenção para o garoto.

— Sim. Por que? — questionou o menino, hesitante.

— Há quanto tempo? — perguntou Hector.

— Uns dois anos, eu acho. — respondeu o garoto, dando de ombros, não tão certo quanto ao período.

O pequeno cachorro tornou a latir ferozmente para Hector, mas sem querer avançar. Ambos olharam para o animal revolto.

— Acho que ele não gostou de você. — disparou o garoto, secamente. — E minha mãe me orientou a não falar com estranhos. Me mudei com ela faz dois anos, mais ou menos, pois... meu pai foi recrutado, ela não quis me dizer o porque.

— Eu tenho certeza que ele voltará são e salvo. — disse Hector, sensibilizado pela aparente solidão do garoto.

— Mas o que você quer mesmo saber? — perguntou ele, curioso.

— Existe algum Christian Nevook morando nesta casa? — o caçador apontou com o polegar direito para a residência.

— Não sei de nenhum Christian sei-lá-o-quê. — respondeu o garoto, balançando a cabeça negativamente. — Só tem um velho meio estranho morando nessa casa, não conhecemos ele. Mas ele sempre sai a noite.

— Acredita que sejam a mesma pessoa? — perguntou Hector, já querendo adentrar na propriedade o mais depressa possível.

— Não faço ideia. — retrucou o garoto, novamente dando de ombros ao olhar para a casa.

— Está bem... — convenceu-se Hector, sem olhar para o garoto, mas mostrando-se agradecido pelo tempo. — Obrigado.

— Disponha. — disse o menino, observando com desconfiança o caçador andar apressadamente em direção à porta de entrada da casa.

As condições aparentavam estarem satisfatórias, sem nenhum sinal que indiciasse falha de preservação do ambiente. Se aproximando da porta, o caçador aguçou seus sentidos, visualizando uma ínfima brecha. Olhando rapidamente para trás a fim de se certificar que o garoto não estivesse mais ali, sacou um revólver prateado, logo puxando a trava do mesmo após constatar que o menino correra dali com seu animal. Cautelosamente foi entrando devagar. "Estava aberta... O garoto disse que ele sai sempre a noite, indicando que esse é o único horário que o vê deixando a casa, embora não signifique ser o único horário no qual ele sai.", pensou o caçador, seus olhos passeando pelo interior da propriedade. As paredes do interior eram brancas, tal qual as da frente, e a repleto de mobílias, tapeçarias e itens valiosos e antigos na ampla sala de estar.

Hector foi movendo-se mais rápido, até avançar a uma espécie de ateliê artístico vizinho à cozinha, mas que possuía aspectos de um simples escritório. Passando pelas telas inacabadas, o caçador manteve a arma firme nas duas mãos. Fixou sua atenção em um curioso fichário de capa azul-esverdeado. Fazendo bom uso de sua visão detalhista, percebeu três folhas que destoavam do restante, com um amarelado nítido. Guardado o revólver num dos bolsos internos de seu sobretudo marrom escuro, o caçador abrira o fichário, rapidamente puxando as três páginas e verificando-as com uma expressão de curiosidade máxima.

"Sinto algo se encaixando. Estas... páginas lembram bastante as da Bíblia Original de Abamanu.", pensou, logo frustrando-se por Charlie ainda estar indisponível. "Droga, não posso leva-las, não com Charlie ainda mantido em cativeiro. O que faço?".

Repentinamente, uma força súbita arremessou o caçador contra uma estante de madeira à esquerda dele. Com o impacto do corpo de Hector, o móvel danificou-se severamente, fazendo derrubar vários livros sobre o caçador que perdera a consciência instantaneamente.

CONTINUA...