Capuz Vermelho - 3ª Temporada
48 E tudo se transforma (Parte 6)
— Caramba... — disse Êmina, espantada com a aparência da criatura — Então foi pra isso que ela sacrificou seu bem mais precioso que a permitia amar alguém? — se perguntou, balançando a cabeça em negação, aturdida.
— Wallace... — disse Julian, fitando-o comovido — Sei como deve estar gritando por ajuda aí dentro. Merecia um descanso, não essa tortura!Era totalmente compreensível vê-lo fitando sua segunda figura paterna completamente estagnado segurando uma arma pontiaguda. Ainda que a troca de olhares fosse desproporcional, Julian sentia-se tocado por uma ânsia incontrolável que o fazia enxergar um único vestígio de humanidade por detrás daquele corpo cinzento e gélido. Enxergar uma imagem transparente de seu enteado ainda na tenra idade projetada na figura bizarra e desagradável que a prática proibida da alquimia o transformou.— Se lembra de mim? — perguntou Julian, dando uns passos adiante, em uma tentativa improvável de reaproximar-se emotivamente e resgatar os sentimentos que ambos nutriam entre si — Sou eu. Julian. Ou papai número dois, como você chamava. — disse ele, sorrindo fracamente por um segundo.O ser permanecia a observa-lo imóvel. Êmina olhou para seu pai adotivo com receio mediante ao plano impulsivo. "Vai com calma, não é assim tão fácil... Se é que é possível".— Sua mãe, pelo visto, pôs uma coleira em você. Mas... eu estou aqui para liberta-lo desse sofrimento.Aparentemente, a ideia começava a surtir efeito. A começar por largar a lança no chão ignorando completamente, a partir dali, a missão a qual fora incumbido.Ainda restava algo do antigo Wallace no monstro sanguinário e abominável. Daquele único olho estático brotara uma lágrima... aos poucos escorrendo pelo rosto acinzentado e sem vida.O primeiro passo em direção ao revival de uma amizade interrompida ocorreu de forma literal. Mais dois passos reavivaram as esperanças do padastro.— Isso... Pode vir, não há nada a temer. — disse Julian, de braços quase abertos para acolhe-lo.— Pai... — dizia Êmina, hesitante.— Está tudo bem... — disse Julian, disfarçadamente em tom baixo. — Isso, filho, chegue mais perto. — incitou ele, aumentando sua expectativa.Ao ganhar proximidade, o homúnculo estacou, ficando a encarar seu padastro por vários segundos."Nem tente abraça-lo.", pensou Êmina, preocupada.— Quer me tocar? — perguntou Julian, vendo-o erguer sua mão direita e direciona-la até sua cabeça. Sentiu o gelado dos dedos de Wallace em sua têmpora direita, algo que fez Êmina contorcer-se interiormente em aflição. De repente, um som cavernoso de respiração profunda ecoou pela mente de Julian, causando estranheza no mesmo.— Por que fizeram isso comigo? — perguntou a voz angustiada de um menino em telepatia. A saudosa voz do pequeno Wallace. — Queria ter continuado morto em vez de ver você desse jeito. Com ela. Sem mim. Você me quis de volta... Mas você e a mamãe falharam. Preferem ela do que a mim. Por que? Por que tem que ser assim?— Não... Wallace... Ouça, isso não é verdade... — disse Julian, atordoando-se. — Êmina é a sua irmãzinha. Costumava chama-la assim. Ainda lembra?— Antes eu os amava... Agora odeio... Odeio todos vocês! — disse Wallace, gritando na mente desesperada de Julian.O homúnculo desferira um brutal gancho de direita contra seu padastro ao aproveitar da vantagem que a fragilidade emocional do ex-marido de sua mãe lhe dava.— Pai! — gritou Êmina ao ver Julian chocando-se contra uma parede próxima à porta. Virou-se para o homúnculo, discretamente retirando do bolso dois objetos convenientes. — Muito bem, hora de acabarmos com isso de uma vez por todas. — pusera as luvas alquímicas decompositoras e avançara contra o homúnculo, rapidamente desviando de seus golpes e tocando-o nos braços com as duas mãos de uma só vez. A pupila de seu olho central movimentava-se veloz como que sinalizando apreensão — Ter só um olho deve ter suas desvantagens. — disse a caçadora, imobilizando-o com as metálicas luvas. — Nunca mais vai ferir alguém. — sua expressão suavizou-se — Descanse em paz... irmãozinho.Com ativação dos círculos alquímicos, raios elétricos azuis dispararam do tronco e do olho da criatura diretamente para cima, representando o processo de decomposição instantânea do corpo transmutado.Julian, tentando levantar-se, protegia os olhos com uma mão devido à intensa claridade, impressionando-se com a coragem da jovem. Pedaços do teto caíam de Êmina e as lâmpadas fluorescentes queimavam liberando várias faíscas contra o chãoO corpo do homúnculo iniciava um apodrecimento rugoso, de baixo para cima, que lembrava uma petrificação.Com seus cabelos esvoaçando, Êmina já conseguia certificar-se do enfraquecimento acelerado do corpo. Inesperadamente, o corpo apodrecido do homúnculo explodira em uma densa nuvem de fumaça cinzenta escura, finalizando, assim, a decomposição, livrando a alma do pequeno Wallace.As luvas alquímicas metálicas caíram no chão como se houvessem acabado de serem forjadas, exibindo uma coloração alaranjada devido ao intenso calor em brasa gerado pela decomposição.
Um tilintar de um objeto pequeno caindo fora ouvido pela jovem enquanto ela tossia em meio à fumaça que tentava dissipar com o abanar de uma mão.Julian apontou para algo brilhante no chão.— Veja. — disse ele, chegando perto.O objeto nada mais era que uma esfera transparente do tamanho de uma bola de tênis. Êmina a apanhara e estudara-a, não tendo dúvidas de sua natureza.— A pedra filosofal. O que mantinha a alma fixa ao corpo.— Êmina... — disse uma voz entrecortada e conhecida.Ambos se viraram em simultâneo e surpreenderam-se, porém aliviados.— Rosie! — disse Êmina, correndo na direção da amiga que andava meio trôpega — Achávamos que estava escondida. Você está bem?— Considerando que fui arremessada como um frisbee... — disse a jovem, pondo a mão direita na cabeça ao sentir um latejo atormenta-la, expressando incômodo na face — ... Eu diria que os últimos cinco dias me deixaram um pouco fora de forma. — disse ela, sem perder o senso de humor apesar da dor.Êmina afagara o ombro da amiga, sorrindo em satisfação com um olhar condescendente. Julian se aproximara.— E quanto à Ophelia? — perguntou Rosie, curiosa, olhando para o ex-companheiro da perversa mulher.— Antes de virmos, nós a amordaçamos — contou Julian — e a colocamos na jaula para ela sentir na pele o quanto é agradável ser tratada como um animal selvagem. — olhou para Êmina, com um nítido sentimento de missão cumprida. — Não teria conseguido sem ela. — a tocou no ombro — Rosie, você é uma garota de muita sorte... por ter Êmina Flower como sua grande companheira de aventuras. — sorrira abertamente para as duas.A caçadora demonstrou enrubescimento, pouco à vontade em meio aos elogios.— Bem... Melhor os dois pararem, senão meu rosto ficará da cor do capuz da Rosie. — dissera ela, dando uma risadinha bem humorada.Contagiado, Julian também rira, pondo-se no meio das duas guerreiras enquanto saíam do depósito. ***Caminhando lado à lado pela pequena trilha de cascalho no jardim em frente à mansão Flower, Rosie e Julian contemplavam o céu noturno enfeitado de inúmeras estrelas.— Então usa o capuz em honra à memória do seu pai. Que gesto nobre. — comentou Julian, andando de braços cruzados em meio ao florido jardim. De uma coisa ele depreendeu certeza absoluta — Você tem todos os elementos necessários para inspirar a Êmina. Percebo só pelo jeito como interagem, parecem mais que amigas. — disse, olhando-a.— Não sei bem ao certo. — disse Rosie, abaixando um pouco cabeça — Digo... Sobre inspiração. Mas agora não estou muito afim de falar a meu respeito. É mesmo verdade que você e Ophelia... eram casados?Suspirando longamente, Julian cessou a andança.— Sim. — confirmou ele, virando-se para Rosie, o semblante franco — É verdade.— E... Êmina, por acaso, sabe disso? — perguntou Rosie, a curiosidade aflorando.— Honestamente... — disse Julian, olhando para a sua esquerda, a direção onde a alquimista foi para contactar a polícia — ... Não. — respondeu, voltando-se à Rosie. — Pouco tempo depois dela ter se despedido para trilhar a estrada dos seus sonhos, batalhei com Ophelia em relação à anulação dos papéis. Eu esperava que essa tempestade não fosse mais longa que meu relacionamento com Josefine.— Mas Josefine, a mãe biológica de Êmina, não tinha traído o próprio marido com você? — perguntou Rosie, um tanto intrigada — Bom, é que a ideia de traição me faz entender que, basicamente, você e ela não tiveram tanto tempo para aprofundarem a relação, pois a Êmina me falou que você tinha a dito que o verdadeiro pai dela não passava de um cara com problemas psicológicos, com sinais de psicose. Se era tão possessivo assim, como ele não chegou até você, sei lá... Tentando mata-lo ou querendo tirar satisfações na base da violência? — questionou ela, rapidamente, em seguida, se desculpando — Ah, desculpa, é que estou sendo muito intransigente, essa minha veia investigativa...— Não, está tudo bem. — disse Julian, sorrindo, acalmando-a — Tem todo o direito de se sentir desconfiada. A verdade é que nunca tive a oportunidade conhecer esse homem. Mas Josefine e eu tivemos uma relação duradoura. Secreta e cheia de restrições... mas deliciosamente duradoura. — afirmou ele, recordando-se, com saudosismo, dos momentos jubilosos que experienciou ao lado da única mulher que de fato havia amado genuinamente — Ophelia pagará caro pelo que fez. A começar pela candidatura anulada para as eleições presidenciais da Associação, além do afastamento definitivo. Fez bem em não ter matado os lacaios, farei bom uso deles como emissores de provas.— Obrigada. — disse Rosie, sorrindo fracamente, a cabeça meio baixa, olhando para a grama — Afinal de contas, nenhum deles eram bons de briga tanto quanto eram bons em fazer alquimia.— Ora, veja só, parece que ficaram mais íntimos. — disse Êmina, aproximando-se dos dois com um sorriso fechado. Sua postura esbanjava realização.— E então? O que a polícia disse? — perguntou Julian.— Eu dei a localização do laboratório secreto dela, garantiram que vão investigar dentro de poucos dias. — informou a jovem, assentindo positivamente com segurança — Já estão trazendo uma unidade pra cá, me passei por uma detetive particular chamada Melissa Branston que tinha uma apuração fiável dos fatos. — fez uma pausa, estranhando — O que tem de errado?— Não precisava se arriscar assim- repreendeu Julian -, ainda mais usando uma alcunha federal.— Então é melhor Rosie e eu voltarmos para a pensão antes que me peguem. — retrucou Êmina, completamente despreocupada, não levando a provável consequência do ato nem um pouco a sério.— Não se lembra do que eu disse antes de embarcarmos? — perguntou Rosie — As coisas aconteceram tão rápido que talvez você não tenha percebido que já estamos no fim do segundo dia.A expressão da caçadora entristecera um pouco ao finalmente recordar-se do aviso.— Ah, sim... Tinha me esquecido que ficaríamos juntas só por um fim de semana.— Pois é. — disse Rosie, assentindo — Marquei de encontrar o Hector perto da fábrica de plástico, alguns quilômetros do início da cidade, às dez.— Vou deixa-las a sós. — disse Julian, visualizando um distante barulho de sirenes policiais e luzes azuis banhando a fachada da mansão. Voltou-se à Êmina — Direi que não sou seu ajudante. — falou, apontando para ela enquanto ia na direção de onde as viaturas estavam.— Não é necessário. Sabe que eu trabalho melhor sozinha. — disse ela, claramente em tom brincalhão.— É sério? — indagou Rosie, levantando uma sobrancelha com um sorriso sacana.A caçadora desatou a rir.— Brincadeirinha.Sorrindo de volta, Rosie respirou fundo a fim de preparar-se para ser forte em não derramar lágrimas proporcionadas pela chatice da despedida.— Bem... Eu sugiro que você me informe logo o dia e a hora que vai bater lá na nossa porta pra apaziguar toda essa... — faltavam-se palavras — ... essa sensação odiosa.— Sabe, Rosie... — disse Êmina, aproximando-se da jovem encapuzada — Tenha certeza de que nunca vai me ouvir dizer que não aprendi nada com você. Você...de alguma forma, é a minha inspiração que fortifica meu lado caçador. E, acredite, é um sinal positivo.— Um sinal? Pra quê? — indagou Rosie, estreitando os olhos.— De que tem todas as características de uma verdadeira legionária. — afirmou ela, sentindo-se orgulhosa dos talentos habilidosos da amiga. Retirou do bolso um objeto circular prateado semelhante a um broche e a entregou como que representando sua gratidão puramente sincera. — Tome. É a minha licença de caçadora. Tá, eu sei, é contra o regulamento, mas... estou oferecendo para que isto sirva de lembrança quando resolver abraçar sua vida de exterminadora de monstros.— Então quer dizer que... — disse Rosie, o coração descompassando ao surpreender-se com a decisão de Êmina.— Sim. — confirmou ela, interrompendo-a, enxugando uma lágrima — Eu quero ficar. Voltar a respirar o ar da minha terra natal com mais calma. Ser prisioneira naquela fábrica por dois anos jogados no lixo fez acender uma nostalgia tão intensa em mim que eu chorava, sem saber se era dia ou noite, com saudades dos abraços dos meus pais, dos amigos que eu tinha deixado para trás... Tudo isso só fortaleceu essa vontade de experimentar todos esses prazeres de novo. E agora eu finalmente obtive essa chance. Acho que você entende...
— Não, eu entendo perfeitamente. — disse Rosie, com veemência na fala, tocando nas mãos da amiga ao receber a licença — Você merece ficar. Sentir de volta a sua antiga vida. Abrace o seu pai, os seus amigos, a sua vontade de viver... e, quem sabe, você seja uma inspiração aos alquimistas iniciantes que valha a pena ser valorizada.— Eu vou tentar. Por você. — disse Êmina, visivelmente emocionada, não contendo as lágrimas — Olha, não é que não queira ajudar no resgate do Charlie, enfim, você entende... Mas saiba que vou estar aqui, torcendo por vocês. Não há guerra que não possa ser vencida, nem tormenta que dure pra sempre. — fez uma pausa — E vê se manda lembranças para aquele idiota do Lester, diga que vou sentir saudades de tirar sarro da cara dele e das nossas briguinhas infantis.Rosie dera uma risada rápida com um largo sorriso, olhando para o broche cinzento com as iniciais E. F.— Pode deixar. — disse ela, segurando o objeto firmemente e recuando alguns passos.— Ah, e pensa bem sobre a tal proposta divina. — alertou Êmina, exibindo pouca confiança na ideia — Sinceramente, tem cheiro de encrenca no ar. — fez uma pausa, enxugando o rosto — Vou ficar por aqui, meio escondida, mas vou dormir cedo... tenho um funeral para ir amanhã.Rosie assentira, rendida ao brotar das lágrimas.— Eu queria estar acompanhando vocês.— Eu também. — respondeu Êmina, direta. — Se cuida, Rosie. Diga ao Hector que mandei um abraço.— Está bem. — disse ela, o nó na garganta reagindo com um aperto tão forte quanto o do coração. — Isso não é um adeus. Diria que... um "Até logo". — afirmou, sorrindo rapidamente, as lágrimas ainda rolando pela sua branca face.— Pode crer. — disse Êmina, a face chorosa mas com um sorriso condescendente, assentindo completamente acometida pela sensação tão detestável e irrefreável. Ergueu levemente a mão direita e balançou-a em ritmo lento de um lado para o outro ao ver a grande aliada partir rumo à luta que não poderia travar ainda que a vontade insistisse. No entanto, a ciência de haver coisas pendentes a dar importância mantinha-se clara como água para ambas, um entendimento mútuo que, sem dúvidas, só intensificou o significado daquela amizade que aparentemente iniciara há tão pouco tempo e fora interrompida por uma tragédia, mas que sobreviveu para tornar-se mais sólida em virtude de uma dívida de gratidão.A partida foi sentida de forma satisfatória.Êmina sorriu ao observar o vermelho daquele capuz ser iluminado pelo luar, respirando aliviada como se houvesse cumprido uma missão de sua vida, cujo resultado faria perdurar em seu coração. ***As ruas posteriores à linha demarcatória do fim da cidade possuíam uma iluminação precária em boa parte, especialmente nas vielas. Rosie caminhava próxima ao prédio da fábrica, não tardando a avistar a figura de um homem com sobretudo marrom escuro parado no meio da estrada ladeada pela própria estrutura onde se fabricavam objetos de plásticos e por uma vegetação média.Ela sorriu um pouco timidamente ao se aproximar.— Tem certeza que a bagagem foi desnecessária? — perguntou Hector, sorrindo levemente para ela, andando alguns passos adiante.— Talvez nem tanto. O vestido que usei numa festa onde a mãe da Êmina se apresentou caiu tão bem que acho que me frustrei um pouco em não ter trazido uma mala. — disse Rosie, bem humorada.Hector apurou sua audição, franzindo o cenho.— Como disse? A mãe de Êmina esteve lá com vocês?— Não só esteve, como também armou um plano diabólico que incluía matar a mim, Êmina, os membros do Conselho Alquimista e qualquer um disposto a arruinar a sua vida bandida. — explicou Rosie, enfática — Em linhas gerais, ela é só mais uma escrava da própria sede de poder que a levou a matar a mãe biológica de Êmina, que nem tão acidentalmente matou o filho, e depois usou o seu corpo para transforma-lo em um homúnculo e manipula-lo para agir conforme seus interesses. Resolvemos tudo sem muitas dificuldades. É, foi um fim de semana... divertido. Nada fora da curva.O caçador a fitou em uma mistura de estranheza e suspicácia.— Nossa... Fico realmente impressionado com o quanto perdi. — disse ele, soando meio desapontado. — Como se sente?— Olha, estou bem. Vamos logo, porque o fabricante dessas botas deve odiar pés e quer destruí-los. — disse ela, apressando o passo, puxando de leve o caçador pelo braço.— Ao menos, Êmina avisou quando irá voltar? — perguntou Hector, pondo-se ao lado da jovem.— É mais "se" do que "quando", na verdade. — respondeu ela, ainda abatida pelo efeito da despedida, erguendo o capuz sobre a cabeça.— O quê? — indagou Hector, olhando-a desconfiado. — Mas eu pensei que...— Nós pensamos errado. — retrucou Rosie, interrompendo-o — Ela resolveu ficar para resgatar a alegria de conviver em família, o que inclui os amigos conterrâneos. Uma decisão que compreendi e não me arrependo de ter concordado. — olhou para o parceiro — Não sei quanto á você...— Tudo bem, eu a entendo perfeitamente, Rosie. — declarou Hector, aparentando flexibilidade na postura — Mas... por outro lado, isso evidencia que a Legião caminha para o seu fim iminente. Mestre Vannoy ficaria decepcionado.— Ela me deu a sua licença como lembrança. — disse Rosie, recordando-se do momento. — Mas está errado sobre ser o fim. Ainda tem à mim... ao Lester, ao Áker... à Alexia, até mesmo à minha avó.Hector retesara os músculos, olhando para um lado meio sem estar à vontade.— Quero visita-la amanhã mesmo. — propôs Rosie, decisiva — O que acha?— Ahn... — o caçador tentava vasculhar palavras para soar honesto e natural — ... talvez seja melhor nos concentrarmos no nosso próximo passo, Charlie precisa ser resgatado o quanto antes. O fim dos miméticos me faz crer numa aceleração ao plano de expansão imperial. Como eu disse antes: Acharmos uma maneira segura e eficaz de exorcizarmos Mollock de Abamanu. Áker esteve incomunicável nos últimos cinco dias, só deve estar rastreando Sekhmet para descobrir sua próxima investida, talvez suspeitando dessa trégua e...Ao olhar para sua esquerda, o caçador sentiu que Rosie desaparecera como um fantasma.Até, dois segundos depois, olhar para trás ao ouvir gemidos de dor.A jovem havia estacado no caminho e estava praticamente de joelhos com a mão direita na cabeça com a face de olhos fechados e apertados e dentes trincados.— Rosie! — disse Hector, correndo para ajuda-la — O que houve? O que você tem?— Já chega... Eu... — sua voz estava entrecortada enquanto recompunha-se — Já voltei a si. — disse, reabrindo os olhos e mantendo-se pensativa por alguns segundo em uma expressão de espanto que intrigara o caçador.— Está ardendo em febre. — disse Hector, tocando o rosto da jovem, preocupado. — Que tipo de dor foi essa? Muito intensa? Precisa ir à emergência...— Não, Hector, já disse que estou bem, acabou. — recusou-se ela, elevando o tom, sem olha-lo — Eu agora lembro...— Do quê? — indagou Hector, curioso, ajudando-a a levantar.— Por onde eu estive enquanto estava desaparecida. — declarou ela, visivelmente abismada — Depois que Abamanu roubou minhas lembranças... Agora lembro de tudo... — sua face ganhara um tom de aflição maior após um evento lhe chamar atenção — Eu matei um homem. — voltou-se para o caçador — Hector, eu matei uma pessoa! Não passei de uma marionete para aquele monstro maldito!O caçador a amparava, mas aos poucos desviava o olhar para o nada ao se lembrar do que Adam, Lester e Êmina lhe disseram a respeito da companhia desagradável que perseguia e ludibriava a jovem em mundos desconhecidos. ***5 dias depoisOphelia Flower recebera a condenação julgada pelo tribunal de Waytehaal pelas seguintes atrocidades: incêndio criminoso, duplo homicídio doloso, mandante de homicídio, formação de quadrilha, profanação de cadáver e, por último e não menos importante... transmutação humana.A determinação da sentença fora de 28 anos e 4 meses em regime fechado.O caso adquiriu repercussão de tal forma a considerar o famoso tabu como um crime imperdoável a partir do fim do julgamento — este contou com as presenças indispensáveis de Êmina e Julian, testemunhas cujo peso das palavras e provas conspiravam a favor de uma pena severa.Aquela era somente mais uma noite em que a ex-vice-presidente da Associação dos Alquimistas lamentava sua condição deplorável ruminando o passado em picos de tristeza e ódio. Uma efervescência no âmago pedia para libertar-se. Ela quis afastar o significado daquilo. Em vão.Sabia que o sentimento era inconfundível e atrevidamente tentador.Riscou mais forte a ponta da lasca de carvão na parede formando uma linha vertical ao lado de mais outras quatro. Depois riscou horizontalmente sobre elas.Seu rosto sério iluminado pela luz sombria do astro prateado que entrava pela pequena janela gradeada em cima da beliche virou-se para as grades frontais depois que passos foram ouvidos.Tratava-se de um policial, cujo rosto mal dava para se ver na semi-escuridão.— Noite de sorte, madame. Enfim uma alma bondosa veio para visita-la. — disse ele, a voz soando amigável demais ao ser dirigida logo à pessoa com a maior ficha criminal da cidade.— Visitas? — indagou ela, confusa, levantando-se do banquinho — Pensei que estava proibida até segunda ordem.— Mudança repentina, senhora. — falou o policial afastando-se.— Mas, espera... porque...— Aqui está ela. — disse ele, trazendo a visitante — Cinco minutos.— O.K. — respondeu a garota misteriosa, trajando vestes negras e um grande capuz que ocultava metade de seu rosto.— Não pode ser... — disse Ophelia, mal acreditando — Dora... O que está fazendo aqui?— Vim recompensa-la. — disse Dora, firme no tom.— Me recompensar?! — indagou Ophelia, franzindo a testa e balançando de leve a cabeça em negação — Mas pelo quê, afinal? Se ainda não percebeu, estou numa droga de cela! Eu fracassei!— Acalme-se, por favor. — pediu Dora, mantendo a voz tranquila. — Ao invés de puni-la, preferi manter nosso acordo de lealdade porque sei que não falhou por descuido, mas por ter subestimado seus empecilhos. Honestamente, você é talentosa demais para ser chutada feito um cão vira-lata. Não digo isso por piedade, mas por compreensão.A cabeça de Ophelia girava, tentando achar uma resposta urgente.— Bom... Já que ainda deposita alguma fé em mim... Me diga o que tem a oferecer. Já não tenho mais nada a perder mesmo.— Serei breve. — disse ela, retirando algo da manga de sua roupa. Mostrara um frasco pequeno e cilíndrico com um fluido vermelho e o passara pela grade — Vai fazê-la se sentir melhor. De um jeito único e inesquecível.— O que é isso? — perguntou Ophelia, pegando o frasco e o estudando. — Sangue? — voltou-se para Dora — De um elemental, de um mago... ou seu?— Sangue de uma hidra. — disse ela, o interesse em ajuda-la mostrando-se explícito — Uma entre as 7 mais poderosas fontes de imortalidade. Corte uma cabeça... e duas nascem no lugar.— Não posso aceitar, me desculpe...— Você deve. — retrucou Dora, enfática — Fortaleça-se com esta essência e sairá daqui da mesma forma que entrou.— Desolada? — indagou Ophelia, descrente — Arruinada? Humilhada? Perdida?— Olhe, por mais que eu me sensibilize por sua condição, não quero sair daqui com meu ombro encharcado de lágrimas. Não estou com pena de você, Ophelia. Estou orgulhosa. — disse Dora, aparentando sinceridade — Mas só vim para agracia-la com aquilo que pode torna-la como eu, seremos iguais.— Dora, eu agradeço, mas passar a desconhecer o temor pela morte não vai aliviar meu sofrimento. A alma de meu filho está vagueando sem rumo.— E pode ter certeza que graças à mim ele estará em um lugar muito melhor. — disse Dora, prometendo resgatar a alma de Wallace custe o que custar. — Tenho que ir agora.— Isso é estranho demais. Por acaso está fugindo? — questionou Ophelia, fitando-a com desconfiança.— Gostaria de dizer não. — afirmou ela, o tom baixo — Mas se quer a verdade... Não só vim por vontade própria, mas fui ordenada a convence-la. Eles odeiam desperdícios. Nas sombras observaram seu potencial.— Então por que diabos está fugindo? — insistiu Ophelia.— Não posso dizer. Têm olhos e ouvidos por todo o país. Se eu fosse você não arriscaria falar demais com nenhum dos policiais, aliás já é arriscado demais eu estar aqui falando com você. Mas estou calma pelo policial que me recebeu ter reagido bem à hipnose. Do contrário, eu estaria encrencada. Me desculpe por tê-la colocado nesse campo minado, mas esse é o destino daqueles cruzam com pessoas como eu. Se tornam melhores como nunca antes imaginavam. De um jeito ou de outro, você entenderá isso. — disse ela, recuando alguns passos para ir.
— Espere. — chamou Ophelia — Quando pretende me libertar?— Assim que um deles apresentar justificativas bem plausíveis sobre as provas que te colocaram aí dentro. — garantiu Dora. — E acredite: Eles são os melhores. — por fim, virara as costas ao ir embora.O presente que Ophelia segurava em suas mãos mudaria a sua vida à uma escala impensável.Baixou os olhos para o frasco com o líquido vermelho escuro que segurava firmemente, refletindo seriamente quanto à proposta de uma aliança obscura... em todos os sentidos.
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