Capuz Vermelho - 3ª Temporada
47 E tudo se transforma (Parte 5)
Julian arregalara os olhos em um misto confuso de estranhamento e felicidade.
— É um delírio? — se perguntou, piscando várias vezes — É você mesmo?
Êmina se pusera diante das grades frontais da jaula, procurando a fechadura.
— Bem, para a alegria do senhor... Não está delirando e sou bem real. — disse ela, enfática. Encontrara a fechadura — Ótimo... Roubei um molho de chaves que estava no escritório. — disse ela, retirando o conjunto de chaves — Talvez uma delas seja a cópia da chave original. — selecionara uma aleatoriamente e inserira-a.
— Êmina... Por favor, vá embora, salve-se. — pediu Julian, desesperançoso, suando profusamente — Ophelia tem capangas que são... — engoliu a saliva — ... alquimistas profissionais. Não sei como escapou ou avançou sem ser vista, mas... se chegarmos a bater de frente com eles de novo, não vamos ter a mesma sorte de antes.
— Fica tranquilo. — aconselhou Êmina, tentando outra chave. — Estou aqui desde o fim da tarde, me mantive escondida no escritório na maior parte do tempo. O soco daquele desgraçado foi tão forte que conseguiu me apagar por horas.
— Bateram em você? — indagou Julian, deixando uma raiva brotar — Covardes. Vão se arrepender...
— Guarde essa fúria para quando encararmos a chefia. — disse a caçadora, tentando a penúltima chave. — Mas que droga...
— Olha, é melhor você ir. — insistiu Julian, olhando-a — Essas algemas estão me matando... Na verdade, toda essa jaula é feita do único material imune à alquimia.
Empertigando-a, a jovem expressou preocupação.
— Oh, essa não... — bateu de leve com seu indicador esquerdo numa grade — Me parece uma combinação de metais raros. Um hibridismo alquímico desse tipo chega a ser insano. Ela transmutou essa jaula... para prender o homúnculo. — deduziu ela, imersa em pensamentos. — A pedra filosofal talvez esteja dentro dele e lhe dá habilidades.
— E eu serei o próximo. — disparou Julian, sem rodeios.
Êmina fez cara de que não entendeu.
— Como é?
— Ophelia pretende me usar como bucha de canhão para finalizar sua vingança contra o Conselho. — revelou ele, aguentando a pressão das algemas o máximo que podia. — Me matar para depois utilizar meu corpo para realizar uma transmutação humana e reanima-lo como uma nova criatura.
— Uma transmutação humana. — compreendeu Êmina, estarrecida — O maior tabu de toda a alquimia.
— Exatamente. Ela precisa ser detida, filha. — disse Julian, tentando transmitir força de vontade — Só você pode ser capaz de fazê-lo. Portanto, vá. Por favor. Tenho certeza que sua amiga Rosie também veio, mas Ophelia, creio eu, pode estar a mantendo ocupada com o homúnculo, portanto concentre-se em para-la.
Constatando que absolutamente nenhuma das chaves funcionava, a caçadora, desconfortável, fitou o pai estando dividida entre aceitar o pedido e permanecer tentando achar um modo de liberta-lo.
***
Croydon
Eleonor voltava da cozinha com um certo entusiasmo por ter finalmente preparado um cardápio com mais esforço do que em ocasiões anteriores onde seus dotes culinários provaram-se inferiores aos de sua aprendiz e, consequentemente, teve de se admitir que havia algo importante a ser absorvido em um aprendizado necessário com a vidente. Uma das razões pelas quais se orgulhava em tê-la.
Os preparativos para a refeição poderiam parecer estranho, como que para amenizar o clima desconfortável no flagra de horas atrás, apagar qualquer indício de desconfiança e fortalecer os laços.
— Alexia, o jantar está pronto. Não vai acreditar, mas arrisquei aquele prato que você ado...
Um susto cortara subitamente a sua frase logo quando dobrou para a sala de estar, parando no caminho ao fitar a cena com espanto e lividez instantâneos.
Sua aprendiz estava imobilizada contra à parede com a boca aberta em arfares desesperados e olhar agoniante. A mão cruel que a mantinha daquela forma estava esticada e pertencia a uma bela mulher caucasiana e de cabelo preto estilo chanel, usando uma gargantilha e um vestido negro que ia até seus joelhos — sob ele estavam botas de couro da mesma cor, o que lhe conferia um ar meio gótico.
— Oh, que pena, parece que ela perdeu a fome. — disse ela, zombeteira, sorrindo com canalhice. — O que foi? Não vai dizer "Há quanto tempo"?
— Cassandra!? Como você...
— Alto lá... traidora. — acusou ela, tomando seriedade — Nenhum passo adiante. Ou o próximo suspiro que sua protegidinha aqui der pode ser o último. A menos que você diga as três palavras mágicas que talvez farão você se sentir menos culpada por envolver uma inocente alma nos seus problemas.
— Já chega! — vociferou Eleonor, desesperando-se — É isso que você tanto quer, então aceito. Eu me rendo! Mas por favor deixe Alexia fora disso, eu imploro!
— Implora? — indagou ela, dando uma risadinha irônica — Diz isso na frente dela para livra-la, estou curiosa pra ver como será entre mim e você quando eu coloca-la de joelhos sendo obrigada a lamber o próprio sangue empoçado no chão.
A bruxa perseguida fechara os olhos por um segundo, procurando manter-se estável.
— Solte ela, por favor. E nem vou perguntar como conseguiu chegar à mim...
— Ah, mas eu faço questão de explicar. — declarou Cassandra, libertando Alexia de seu controle telecinético ao baixar o braço esquerdo. A vidente caíra no chão, com ofegações intercaladas com tosse. — Sabe aquela sua velha amiga... Yvette? Pois é... Foi bom conhece-la pela primeira e última vez.
— Sua maldita... — disse Eleonor, encarando-a com fúria e elucidando amargor na voz — Sabia... Sabia que havia alguma coisa suspeita no dia em que fui na loja...
— Mas tem que concordar que minha atuação foi convincente. — provocou ela, aproximando-se com altivez — Ela só era uma dentro de uma lista bem longa. — falou, arqueando as sobrancelhas. — Ela já estava morta há dias e acabei sendo obrigada a tomar conta daquele pardieiro. Você foi minha primeira cliente desde o dia em que a matei. Eu mal pude conter minha empolgação, mas fiz o possível e funcionou.
— Espera aí. Como sabia que eu ia recorrer à Yvette? — perguntou Eleonor, confusa.
— Não sabia. Pura coincidência. — disse Cassandra, dando de ombros e sorrindo — Tudo bem, sendo honesta... Diria que aquela loja era um dos pontos de encontro que nós deduzimos aonde você pediria por ajuda com o objetivo de driblar nossas ações. E finalmente estou com a faca e o queijo na mão, pronta para leva-la feito um cão surrado.
— Não conte com isso. — retrucou Eleonor — Não vou deixar que me leve de volta para novamente olhar nos olhos daquela serpente peçonhenta que vocês ainda chamam de mestra. Jamais vou perdoa-la por Yvette... — relanceou Alexia ainda meio debilitada.
— Você realmente acreditou que comprando uma Ônix seria possível se manter fora do nosso campo de visão? — questionou Cassandra, mantendo-se com postura ameaçadora — Essa sua atitude até fez mudar um pouco o plano. Em vez de mata-la de uma vez, preferimos que fosse trazida gravemente ferida, só depois é que usaríamos uma Ônix para drenar sua magia à força e, por último, você seria jogada num esgoto após ser esfaqueada, ou, talvez, decapitada...
— Ultimun confractus! — dissera Alexia, levantando-se de repente, com a mão direita aberta e o braço esticado em direção à fervorosa rival de sua amiga. Instantaneamente, Cassandra tivera seu cada osso de seu pescoço fragmentando em uma quebra violenta que a fez quase girar a cabeça em 360º. Por fim, a bruxa caíra desfalecida e com os olhos abertos.
Eleonor petrificou-se de espanto, ficando boquiaberta com o que testemunhou.
— Alexia... — a bruxa mal conseguia expressar uma reação — ... Vo-Você... Quando aprendeu... Desde quando...
— Não precisa ficar assustada. Eu tive que me preparar para algumas... contingências. — justificou a vidente, um tanto arrasada. — Jamais imaginei que um dia pudesse cometer um assassinato para salvar a vida de alguém... Talvez eu me odeie por isso por um bom tempo... Ou quem sabe esse sentimento ambíguo e confuso passe como se nem tivesse existido e eu me acostume. Nesse caso, eu prefiro me odiar por ter feito a coisa certa, pela razão certa mas do jeito errado.
A vidente andara em direção ao seu quarto, ignorando o cadáver de Cassandra largado ao chão.
Eleonor derramara uma lágrima pelo estado da aprendiz, enquanto questionava no que poderia estar tornando-a com o uso da magia. "Ela se viu forçada a estudar magia ofensiva para tentar me proteger e agora está com medo de que isso venha a confundir sua mente a ponto de nem mais se reconhecer no espelho. Ela sabia que Cassandra poderia me atacar de surpresa a qualquer momento, então não houve escolha. Acho que devo tomar uma iniciativa... devo proibi-la de utilizar qualquer tipo de magia, ainda que seja para me salvar, mas... sinto medo da decisão que ela pode tomar para afastar essa sensação estranha.", pensou a bruxa, mantendo-se de pé no meio da sala de estar, rendida à um ácido sentimento de impotência.
***
Um dos pontos mais prováveis de subtrair a verdadeira chave seria em dos depósitos, nada mais que salas pequenas que serviam de abrigo para diversos objetos pertencentes ao ancestral proprietário da mansão. Êmina, arriscando e confiando na aposta de Julian, enveredou-se para um deles, sem querer deixando a porta entreaberta ao entrar depressa.
O ar de decepção predominou em sua face por vários segundos ao visualizar o recinto.
"Tá de brincadeira comigo, não é? Não tem absolutamente nada aqui! Que dirá nos outros..."
Mal se virou para sair e estacou no mesmo instante com a desagradável aparição de Ophelia, quase que dando uma impressão fantasmagórica.
Lívida, a caçadora recuou poucos passos, procurando manter o foco da missão.
— Surpresa em me ver? — indagou Ophelia, entrando na sala.
— O que você faz aqui? Onde está Rosie? — perguntou ela, usando um tom petulante.
— Se divertindo com o meu filho em um jogo de gato e rato. — disparou ela, dissimulada — O meu verdadeiro e único filho. — declarou, com ênfase intensa.
— Do que você está falando? — perguntou Êmina, franzindo o cenho — Papai uma vez me disse que era infértil... que pelo destino ter lhe negado a capacidade de gerar uma vida você se sentiu obrigada a cuidar da prole do homem que você amava como se tivesse saído do seu ventre. — falou, em comoção.
— Então permita-me refrescar sua memória. — disse a vice-presidente da AA, aproximando-se — Wallace. Esse nome lhe soa familiar?
Êmina podia jurar não saber definitivamente nada do ponto em que ela almejava chegar.
— Não lembro de ninguém com esse nome que eu tenha conhecido. — disse a alquimista, parecendo estar incerta pelo entendimento de sua mãe adotiva, algo que a fez insistir um pouco mais.
— Talvez não exatamente do nome... — disse Ophelia, fitando-a com expectativa contida — ... mas sei que existem fragmentos dessas memórias que com o tempo vão sendo ofuscados até não restar mais nada. Vamos lá, você consegue.
— Pode parar. — disse Êmina, furiosa, apontando para Ophelia com o indicador direito em sinal de barreira — Não vou cair nesse seu incentivo falso. Não vou deixa-la me manipular. — fez uma pausa, ficando pensativa — Me forçando a lembrar do passado só para que eu tenha certeza do seu filho que você transformou em homúnculo. — ergueu o olhar marejado e desapontado para ela. — Seja lá quem for Wallace... está morto tanto nesse mundo quanto na minha memória.
— Wallace foi minha primeira cria, fruto do meu relacionamento anterior ao de Julian. — revelou Ophelia, andando alguns passos pela sala ao explicar — Quando me separei e me comprometi a Julian, depois que ele se separou da sua verdadeira mãe, tive que travar batalhas consecutivas no tribunal pela guarda da criança. Infeliz e injustamente, o desgraçado levou a melhor. Mas havia uma condição judicial de que eu teria o direito de vê-lo aos fins de semana. Com o tempo, ele se afeiçoou à Julian, eu diria que o via como um segundo pai. — disse ela, virando-se para Êmina, tentando passar uma impressão emocionada. — Tentei proibir Julian de leva-lo até a casa de Josefine nos fins de tarde, às escondidas enquanto eu trabalhava. Nesta época, você tinha uns 3 ou 4 anos.
— Espera... Como assim o papai levava o garoto até a casa onde eu vivi até os meus 4 anos? — perguntou Êmina, pondo uma mão na cabeça e sentindo-se confusa.
— Deve se lembrar vagamente de um garoto de oito anos brincando de casinha com você durante o pôr do sol. — disse Ophelia, cruzando os braços enquanto andava devagar — E obviamente a vaguidade dessas lembranças foi por minha causa. Vocês dois tiveram uma relação de quase irmãos muito curta.
A jovem sentira suas pernas bambearem de perturbação. No fundo de seu subconsciente, imagens borradas, alaranjadas e enevoadas de um garoto com roupas comuns rindo alegremente ao seu lado em meio à vários brinquedos espalhados pelo chão.
— Tem razão... Foi só você... me dar essas dicas que... tudo ficou mais claro. — disse Êmina, convencida, mas certamente mantendo o repúdio pela mão de criação. — Como você pôde?
— Depende do que você está me acusando. — disparou Ophelia, sem medo.
— Reanimou o corpo de seu filho com uma transmutação humana e o usou como artifício para o seu plano maligno. — disse a caçadora, revoltada. — Esqueci de mais alguma coisa? indagou, arqueando as sobrancelhas. — Ou será que não há mais nada que a grande Ophelia Flower possa revelar para sujar mais a sua ficha?
— Na verdade, tem sim. — falara ela, séria. — Você tinha que saber em algum momento e vai ser agora. Sua mãe biológica... segundo o seu pai, ela foi morreu carbonizada pelo incêndio na casa para a qual ela se mudou depois da separação. Afinal, ele, alguma vez, contou o que ocasionou o incêndio?
A pergunta pegara Êmina completamente desprevenida. "O estranho é que nunca me perguntei e ele nunca me disse nada, sempre foi tão vago!"
— Apenas eu e somente eu, Êmina, — disse Ophelia, sem nenhum resquício de comoção na face — Você sabe muito bem como lido com obstáculos.
— Não... — dizia Êmina, balançando a cabeça em negação enquanto sua expressão tornava-se pálida em tremendo horror — Não teve coragem...
— Ah, aí está algo que jamais me faltou. — disse ela, sorrindo tortamente — Só uma pena que as consequências também sobraram para meu querido Wallace.
— Não... Não... — exasperou-se Êmina, recuando vários passos, as mãos trêmulas — Tudo faz sentido agora. Você já tinha tudo em mente. Matar seu próprio filho... matar minha mãe... — uma lágrima derramara de seu olho esquerdo — Queimou a casa para que a ligação entre eu e Wallace se desfizesse pra sempre. Matou minha mãe por puro ciúme. E só vitimou Wallace como parte do seu plano para dar um golpe na Associação... — fechou os olhos, deixando mais lágrimas escorrerem pelo seu branco rosto — Você é um monstro. — acusou, com a voz chorosa.
— Matar três coelhos numa só cajadada nunca foi tão fácil. — disse Ophelia, destilando toda a sua audácia — Por sorte, foi salva pelo mordomo.
— É, não fico surpresa por também ter me incluída na lista negra. — disse Êmina, enxugando o rosto. Ao tirar as mãos diante da face, encarou Ophelia com um ar embargado de cólera que fervilhava seu sangue — Julian ter me levado para a casa de vocês deve ter a deixado muito zangada. — sacara uma faca do seu bolso — Enquanto ele me via como o orgulho da família... você me enxergava como uma intrusa.
— Honestamente... — disse Ophelia, pouco se intimidando com a ira da jovem caçadora — ... não tiro a sua razão. — confessou, sem se importar.
Em rápido impulso, Êmina avançara contra ela com a faca em riste.
Movimentando-se, Ophelia segurara o braço da alquimista com força, sem precisar dar nenhum passo.
— O meu capanga que sua amiga poupou me disse que ela é extremamente habilidosa com lâminas. — disse ela, zombando da filha pela expressão — Você só é boa mesmo em rabiscar círculos.
— É melhor tomar cuidado. — alertou Êmina, forçando seu braço agarrado — Muito do que ela demonstrou contra o seu capacho foi ensinado por mim. — disse ela, logo chutando-a fortemente na perna e libertando seu braço. Em um movimento bastante eficaz e veloz, conseguiu derruba-la fazendo a dar um grunhido doloroso, colocar-se por detrás dela e segurar seu queixo com a mão esquerda e aproximando a adaga à garganta com a outra. — E agora? Quem é a criança?
— Minha perna está doendo... Pare! — gritou Ophelia, apertando os olhos e trincando os dentes.
— Vou quebra-la se fizer um movimento brusco. — ameaçou Êmina, rígida no tom — Ou cortar sua garganta. Agora me fala de uma vez: Como você conseguiu a pedra filosofal?
— A questão... não é como, mas com quem. — disse Ophelia, detestando estar naquela condição — Encare a realidade, filha. É misericordiosa demais, e isso a torna fraca.
— Não... me chame... de filha. — retrucou a caçadora, aproximando-se mais a faca à tireoide da alquimista profissional — Você não passa de uma fraude. A falta de provas foi proposital, só quis dar um motivo extra para odiar o Conselho e recorrer ao presidente. Se não conseguisse a ordem de banimento, usaria meu pai transformado em homúnculo para fazer o serviço sujo.
— Você quer a resposta para o mistério ou continuar me rebaixando? — questionou Ophelia, impaciente.
— Tudo bem. Quem lhe forneceu a pedra?
— Fui influenciada por colegas frequentadores de reuniões secretas e me recomendaram a ajuda de uma garota chamada Dora para obter a pedra filosofal de modo fácil e sem custo. Mas não foi bem assim. — disse Ophelia, a voz pressionada. — Ela me forçou a vender minha alma para me ofertar a pedra. Fiz a transmutação com o corpo de Wallace que havia sido 20% carbonizado e que preservei numa cápsula criogênica. Com o preço que paguei, restava fixar a alma de Wallace e assim o fiz. Em troca de minha alma, a dele retornou ao seu corpo original e modificado. Mas Dora me orientou que a ligação entre corpo e alma estabelecida por meio de uma transmutação humana não garantia um tempo otimizado até a realização do meu plano. Em outras palavras, uma rejeição colapsaria a conexão, destruindo o corpo e a alma vagaria sem rumo. Inserir a pedra foi o método mais eficiente para prolongar o período da conexão em anos o que a ausência dela conferia apenas em dias.
— Então a pedra filosofal não passa de uma bateria para o seu brinquedo. — constatou Êmina.
— E se ainda não estiver satisfeita — disse Ophelia, prestes a complementar -, saiba que é preciso do sangue de quatro Elementais misturado com o sangue de um humano morto para se criar uma pedra 50% mais operativa.
— Conseguiu matar Elementais? São extremamente raros, não tem como você ou os seus capangas terem os capturado em tão pouco tempo. Vocês nem são caçadores, só isso já basta pra refutar essa balela. — disse Êmina, profundamente incrédula.
— Pois é... Dora me ajudou muito a lidar com certas limitações. — declarou Ophelia, recordando-se do prestativo apoio oferecido pela misteriosa aliada. — E sobre o ouroboros... Potencializa o poder da pedra. Ou seja, torna meu filho renascido uma criatura indestrutível e imortal. Sua amiga que se cuide.
A fim de neutraliza-la efetivamente, Êmina retirou algemas do bolso de sua calça preta apertada e prendera os pulsos de sua mãe postiça. Inconformada com o ato, Ophelia se viu no direito de reclamar da "injustiça" cometida pela sua filha adotiva.
— Por que está fazendo isso? Precisa de mim para destrancar a jaula e libertar Julian.
— Em primeiro lugar: Não vou ser nem louca de pedir sua ajuda. — redarguiu Êmina, terminando de fechar as algemas. — E em segundo lugar: Não precisa, eu já encontrei. — disse, erguendo de leve com as duas chaves que retirara do bolso traseiro da calça de Ophelia, tilintando-as ao balança-las. Ela se levantou para enfim se direcionar à sala de confinamento. — O seu sonho de disputar as próximas eleições já era.
— Êmina... Por favor, você não vai deixar sua mãe aqui sozinha e algemada para apodrecer.
— Não se preocupe, vai apodrecer em outro lugar bem pior. — disparara ela, olhando-a com puro desprezo. — E você não é minha mãe. Só a vadia que destruiu minha família.
A jovem saíra em passos tranquilos, girando as chaves com o indicador e assoviando baixinho.
— Nããããoooo!! — vociferou Ophelia, enfurecida e deitada no chão, logo debulhando-se em dramático pranto ao sentir os primeiros indícios de sua evidente derrota.
***
As maçanetas da porta dupla de entrada para o depósito de automóveis encontravam-se em estado de oxidação avançado demais para que qualquer barra de ferro ou tábua servisse de tranca. Vendo suas opções esgotarem, Rosie adentrou depressa no amplo espaço com carros de vários modelos e marcas organizados nas laterais e esquadrinhou o ambiente com seus olhos rápidos em visível desespero. Os carros à sua direita tinham suas dianteiras voltadas para ela e atrás deles haviam janelas altas quadriculadas. Outras também se encontravam na esquerda e próximas à porta.
"Vamos, Rosie... Alguma passagem secreta, deve haver... ", pensava ela, procurando afastar-se da entrada e visualizando cada ponto minuciosamente em passos largos. "É detectar um modo de escapar daqui com vida ou enfrentar esse monstro com meu último e improvável recurso.".
Assustou-se de leve ao escutar a porta bater, o que naturalmente a fez virar para trás.
— Cacete. — disse ela, em tom baixo ao fitar o homúnculo encaminhar-se até ela de forma ameaçadora.
Por outro lado, seria tolice fingir que não existia um aquietado sentimento de comprovação quanto às habilidades e capacidades daquele ciclope sem abertura bocal.
Encarou o olhar sibilante e frio do ser, não teimando em demorar nenhum segundo a mais ao sacar duas adagas médias de seu cinto e lança-las contra ele. As lâminas avançaram no ar verticalmente e penetraram no peitoral avantajado do homúnculo.
Rosie, tensa, aguardou uma reação. No entanto, o oponente removera as adagas com as duas mãos tranquilamente, jogando-as no chão em seguida.
"É tudo ou nada. É agora ou nunca!", pensou ela, expressando bravura ao encara-lo, preparando-se ao respirar fundo. Esticara o braço direito com a palma da mão aberta, mantendo os olhos fechados e procurando concentrar-se unicamente no poder inestimável que corria pelas suas veias. "Mesmo ele não sendo mais humano, seu corpo cadavérico pode ser tão vulnerável ao fogo quanto o de um vivo".
Os passos do homúnculo tornavam-se cada vez mais hostis à medida que os segundos corriam e o trunfo de Rosie mal expressava uma reação significativa.
Ela apertou os olhos e mordeu o lábio inferior, vasculhando em seu âmago toda a nata daquele poder. "Não pode ser. Porque não funciona? Será a pedra filosofal? Ela estaria... dentro dele e inibindo a ação do meu poder? Não, impossível... Quando Êmina falhou em decompor a armadura de Abamanu, ele deixou bem claro que a alquimia dos humanos é extremamente fraca comparada a dos deuses. Mas aqui é diferente! É a energia bruta de uma divindade. Como isso pode..."
Um agarro forte em seu pescoço cortou seu raciocínio abruptamente. A jovem sentiu seus pés serem tirados do chão e a passagem de ar ser interrompida. Os dedos da mão direita do homúnculo apertavam seu pescoço com clara intenção de estrangulamento instantâneo.
Arriscou chuta-lo na canela esquerda, o que reduziu a força do aperto. O chutou mais uma vez e mais forte. Depois novamente. E de novo. De novo. De novo.
Até que, enfim, ele a largara, fazendo-a aproveitar a chance de toca-lo, de preferência dela na cabeça... e quebrar seu pescoço. O estralo dos ossos ressoou mais alto do que ele esperava.
Caindo desfalecido, o homúnculo perdera suas forças. Aparentemente. Com um pé atrás, Rosie foi afastando-se lentamente, olhando-o desconfiada e respirando ofegantemente.
"Fácil demais pra ser verdade".
Foi só virar as costas para novamente sentir a presença da criatura que reerguera-se como se nenhum dano tivesse sofrido.
— Já devia imaginar. — disse ela, séria, logo virando-se. O homúnculo a pegara pelos braços, permitindo uma luminosidade azulada ativar-se por baixo de suas mãos. Veias dos seus ante-braços ficavam em relevo, tornando visíveis pequenos filetes luminosos da mesma cor passando por elas.
"Mas o que é isso? Sinto como se toda a minha força de vida estivesse sendo drenada...", pensou Rosie, tentando intensamente desvencilhar-se, produzindo grunhidos apertados. O ser a olhava sem piscar nem por um segundo. "Ah não! Tudo bem, não custa tentar... Um, dois, três...".
De forma incrivelmente brusca, Rosie desprendeu-se daquelas mãos obstinadas e implacáveis e o pegara pelos ante-braços, cujas veias desapareceram. Porém, o efeito esperado permaneceu adormecido. "Mas que merda! Por que diabos não está funcionando?". O olhou nervosamente.
Como retribuição, o homúnculo a golpeou com um forte tapa dado pela parte superior de sua mão esquerda que a fez ser arremessada em direção ao para-brisa de um dos carros que, efetivamente, rachou-se no mesmo instante. Deslizando pelo capô e caindo, a jovem esfregou sua mão no rosto onde sentia sangue escorrendo. Reergueu-se e avançou contra o homúnculo, tentando golpeia-lo com chutes e socos. Para o seu azar, as defesas do corpo do adversário eram praticamente imbatíveis, de modo a não obriga-lo a se mover muito para barrar as investidas. Segurou um soco desferido com certa força pela jovem, apertando-o sem muito esforço para quebrar os ossos.
"Devolva minha mão, seu desgraçado!", pensou Rosie, sentindo a torturante dor do aperto, trincando os dentes em suportação.
Parecia que o homúnculo tinha plena noção de que incutir dor em um ponto de menor alcance não ajudaria muito no acatamento da ordem. Portanto, um lançamento precipitado foi a única saída clara. E assim o fez, ao usar o punho fechado de Rosie para arremessa-la brutalmente contra uma das janelas quadriculadas do lado direito.
O corpo da jovem impactou-se contra os quadrados de vidro que estilhaçaram aos montes e alguns pedaços da madeira da janela caíram sobre ela. Por sorte, não havia indício de um súbito desmaio, apenas algumas escoriações nos braços e rosto.
O homúnculo, objetivando um fim rápido para o serviço, pegara uma barra de um barril metálico repleto de ferramentas para consertos automotivos e andara em direção à janela destruída onde havia um espaço entre dois carros que ofereciam passagem. Tocou na barra, deslizando sua mão — com a mesma luminosidade azul — para a ponta da mesma enquanto transmutava-a em uma afiada lança.
De supetão, ouviu-se o barulho da porta abrindo-se.
Êmina e Julian chegaram alardeados para salvarem Rosie da ameaça imparável da cria corrompida e nascida da ambição tóxica de Ophelia.
CONTINUA...
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