Capuz Vermelho - 3ª Temporada
46 E tudo se transforma (Parte 4)
Croydon
A porta do quarto de Alexia fora aberta em um vagaroso ritmo. A mão na maçaneta era limpa e feminina. Uma oportunidade abraçada com unhas e dentes como nunca antes ela pensaria obter. A emoção proporcionada só desestabilizava sua discrição em seguir de forma equilibrada até aquele criado-mudo de madeira pintada de azul claro, mais especificamente uma das gavetas.
Eleonor, em receio, preferira manter a porta escancarada, se concentrando em qual gaveta vasculhar primeiramente, sua mão esquerda aos poucos se afastando da maçaneta. Afastou uma mecha do cabelo castanho liso e avançou mais à vontade.
Estacou em hesitação logo ao erguer a mão direita para abrir uma gaveta, a expressão de incômodo. "Vamos lá, Eleonor. Não há o que temer. Uma bruxa moralmente ambivalente como você deveria ouvir mais o que seu coração diz, embora se mantenha esforçada em aprender a se perdoar. Só que isso é diferente... Ela é minha aprendiz. O que eu faria se fosse o inverso? Como me sentiria? Deveria escutar o lado mais gritante da minha consciência e dar meia volta? Não... Não é essa a voz que quero seguir, não agora que consegui essa chance! Que Alexia me desculpe... Mas pela primeira vez, em muitos anos, vou fazer o que o diabinho no meu ombro manda.", pensou ela, conflitando-se consigo mesma em uma guerra de decisões que em boa parte fazia pensar em desistir.
Tocara o puxador enferrujado da gaveta e abrira-a com cuidado.
"Conhecendo bem Alexia, ela apelou para o velho truque...", pensava a bruxa, nem um pouco convencida com os lápis e livretos guardados, logo retirando-os até deixar vazio. "... do clássico fundo falso.". Percebeu a saliência evidente na ponta inferior esquerda do fundo que parecia estar um pouco inclinado e logo removera-o. "Garota esperta".
Engoliu a saliva subitamente ao deparar-se com o objeto outrora oculto. "Um diário.", pensou ela, em seguida pegando o médio caderno de arame espiral duplo e capa cinza. Ao abrir, leu os dizeres na primeira página: "Anotações proféticas. Você, que ousou em retirar esse caderno de seu aposento, tenha consciência do que lerá a seguir. Se não quiser viver os próximos anos de sua vida com medo do que vem depois, sugiro que o feche e jure nunca mais toca-lo outra vez. O que vai escolher? O segredo ou a sua sanidade mental? ".
Não deu outra. Seus dedos, por instinto de curiosidade, já virara para a página seguinte. "1941: O imenso gigante de fogo está faminto e arrasta tudo o que estiver ao alcance. 1945: Duas bombas nucleares devastam duas cidades no Japão. 1947: A bandeira vermelho, azul e branco é levantada e sagrada com glória após seus apoiantes acordarem do pesadelo. 1972: Homem de branco e sem rosto vendo um pontinho azul em um vazio negro. 1999: Apagão mundial. 2001: Pássaros metálicos derrubam duas torres ceifando inúmeras vidas e causando o prenúncio da guerra mortal. 2004: A onda varredora. 2014: Vírus propagado, manchas negras e sangue. 2017: A nova peste traja-se de preto. 2023: O homem de metal furioso que profere um ultimato terrível. 2031: Cogumelos flamejantes brotam de várias partes do mundo sem deixar espaço para ninguém. 2035: Nós somos apenas vermes rastejantes, moribundos e carentes. 2040: O eclipse solar da nova guerra. 2048: A rocha gigante dos céus esmaga tudo e a todos. 2061: Transformação turbulenta. 2076: Novos habitantes. 2089: O céu sangra e a escravidão começa. 2094: Ele vem vindo... 2112: Tentáculos no céu. 2118: As bestas do céu e da terra em confronto. 2123: A morte do sol. 2126: A transmutação dos mundos e do universo...
"Chega!", pensou Eleonor, visivelmente perplexa, largando de repente o diário sobre o criado-mudo.
— Eleonor?! — chamou a vidente, sua voz tornando-se próxima no corredor.
Alarmada, a bruxa, velozmente, tratara de guardar o caderno pessoal da aprendiz na gaveta, logo recolocando o fundo falso desajeitadamente e pondo de volta os livretos e, por fim, fechando a gaveta com certo barulho.
Eleonor virou-se rápido em exatos três segundos antes da vidente chegar ao quarto. Tentou ser rápida o bastante para disfarçar a completa estupefação pelo conteúdo que lera. "Sorte que profetas não leem mentes...".
— O que está fazendo no meu quarto? — perguntou Alexia, a expressão tornando-se severa, entrando. — Estávamos na biblioteca, me desculpa por ter dormido enquanto você falava...
— Não, Alexia, está tudo bem, sou eu quem devo desculpas. — disse a bruxa, erguendo de leve a mão esquerda e fechando os olhos por uns segundos — Não devia ter entrado no seu quarto sem permissão.
— O que veio xeretar? — indagou Alexia, cruzando os braços, desconfiante
"Também não precisa ser indelicada.", pensou Eleonor, forçando tranquilidade.
— Eu... Eu apenas vim — forçou um sorriso — procurar um livro seu, estou afim de refinar um pouco o meu prestígio literário. — fez uma pausa, olhando para a gaveta — Dei uma olhada em alguns... mas não fiquei tão interessada quanto esperava.
— Tem certeza? — perguntou a vidente, estreitando os olhos — Dormi só por uns 20 minutos e é impossível para uma mulher com um gosto tão limitado por leitura não ter gostado de nenhum deles em metade desse tempo só por meros vislumbres e folheadas. Primeiras impressões enganam, sabia?
— É, estou sabendo. — disse a bruxa, dando uma risadinha meio nervosa — Mas não, nenhum deles prendeu minha atenção. E pra sua informação, minha leitura costuma ser rápida e dinâmica. — falou, andando para sair do quarto.
— Devia dar uma segunda chance. Tenho um que praticamente mudou minha visão de mundo. — recomendou Alexia, acreditando no propósito forçado da bruxa.
— Livros não mudam pessoas. — disse Eleonor, atravessando a soleira da porta e virando-se para a vidente — Pessoas mudam pessoas.
— Pessoas mudam o mundo. — retrucou Alexia, sorrindo fechada e levemente. — Talvez, um dia, quem sabe, para melhor.
"Eu não teria tanta certeza.", pensou Eleonor, assentindo positivamente com um fechado sorriso, falsamente concordando com a aprendiz, logo indo embora.
Uma expressão séria e suspeitosa formou-se na face de Alexia após detectar um misto de lividez e continência na postura da bruxa.
***
Waytehaal — à alguns quilômetros ao norte do parque
"Que vontade louca de voltar só para saber se ela está bem!", pensou Êmina, a expressão de preocupação e cansaço ao mesmo tempo em que corria pela floresta desviando de árvores e pulando sobre galhos e raízes grossas sem tropeçar. "Mas por que toda essa aflição irracional? É a Rosie... Já enfrentou coisas piores, é claro que ela deu um jeito de se sobressair ilesa.".
Seu principal objetivo naquele instante consistia em chamar a atenção do Conselho Alquimista com as pistas que possuía em mãos. Sorte que aproveitou a distração oferecida por Rosie durante o confronto para pegar a carta transcrita e fugir despercebidamente. A floresta, por sinal, lhe era o atalho mais curto ainda que um ambiente propício para emboscadas.
Resolveu parar de correr a fim de reaver o fôlego, inclinando a coluna para frente e apoiando as mãos nos joelhos em ofegações rápidas. Gotas de suor pingavam brilhantes pela luz do sol que atravessava as copas altas das árvores.
— Êmina?! — ressoou uma voz masculina e alarmada.
O tom era inconfundível de modo a fazê-la empertigar-se como se um alarme soasse estridentemente.
— Pai?! — disse ela, um pouco confusa na expressão. Ambos correram para se aproximarem.
— Como se sente? — perguntou Julian, tocando-a nos ombros.
— Um pouco cansada. — disse ela, arfando de leve e dando um fraco sorriso — Olha, é ótimo ver você, depois de tantos anos, mas estamos numa situação de vida ou morte. Eu ia diretamente ao prédio da Associação...
— E eu ia até a pensão ver você e aquela sua amiga. — disse Julian, interrompendo-a — Aconteceu alguma coisa grave?
— A mamãe enviou um assassino disfarçado de caçador e ele invadiu nosso quarto, atacou a Rosie, disse ter matado uma das alunas da escolinha, daí eu fugi e os deixei que Rosie cuidasse de acabar com ele...
— Espera, vá devagar. — pediu Julian, impaciente — Você iria até a Associação para mostrar a carta e denunciar Ophelia?
— Tecnicamente, sua carta não existe mais. — disparou Êmina, a fala mantendo-se rápida — Eu a transcrevi depois de decifrar a mensagem oculta e queimei a original para que não caísse nas mãos dela. Agora me diz: Por que voltou?
Um vestígio de relutância no pai não escapou aos olhos da caçadora.
— Sei que nem a hora e o lugar são apropriados pra isso... — disse ele, tocando-a e afastando-se junto à ela para um ponto menos indiscreto. — Mas ouça: Sua mãe e eu fizemos um pacto.
— Como é que é? — indagou Êmina, estremecida.
— Escute: É algo de que vou me arrepender pelo resto da minha vida e não me orgulho nem um pouco. Aquela foi a última vez que confiei a minha boa vontade à ela, jurei isso a mim mesmo. Em troca da ajuda-la a garantir uma candidatura segura para a presidência, ela... — pausara, baixando um pouco a cabeça aparentando desânimo — ... Nós... voltaríamos a ser uma família de novo. — falou, comovido.
A revelação pegara Êmina com a mesma facilidade de uma aranha que captura sua presa encurralada na teia.
— Isso é verdade? — perguntou ela, um tanto cética.
Julian fizera que sim com a cabeça.
— Mas não se engane. Ela é egoísta e maquiavélica. Sinto muito que tenha que descobrir assim.
— Não, estou bem. Aliás, eu já... até suspeitava que ela não tivesse boas intenções desde o início. Por isso que sempre preferia aproveitar meu tempo livre mais com você. Sua confiança nela... tornava mais fácil acreditar que ela tinha um coração puro.
— O coração dela sempre foi de pura maldade. — salientou Julian, convicto. — E agora que nos reunimos, podemos detê-la. Se tivermos que lutar, vamos lutar.
— Sim, mas e quanto ao roubo na sala do presidente? — quis saber Êmina, olhando de esguelha rapidamente para um ponto, em suspicácia. — O que havia lá de tão valioso? Tem a ver com ela?
— O homúnculo foi hipnotizado e ordenado a roubar a principal relíquia da Associação. — disse Julian, sucinto — O ouroboros.
— O quê?! Não brinca. — disse a caçadora, espantada. — Isso é sério? Sempre pensei que o ouroboros tinha uma base factual apenas simbólica. Então o presidente guardava uma pequena estátua de uma serpente engolindo a própria cauda num cofre? Isso sim que eu chamo de revelação bombástica.
— Eu, você e Ophelia somos os únicos que sabem disso, por ora. — disse Julian, notando duas presenças suspeitas que avizinhavam-se de um canto.
— É realmente uma pena para vocês. — declarou um homem de porte robusto, careca, de pele parda e um cicatriz no olho, vestindo um longo sobretudo preto por baixo de vestes da mesma cor. — Porque agora são cinco. — dissera, sorrindo cinicamente.
O outro — aparentando ser mais jovem, caucasiano com cabelos lisos castanhos bem penteados, rosto quadrado e estonteantes olhos verdes — surgira de um emaranhado de folhas, trajando as mesmas vestes do parceiro, batendo sua mão esquerda numa árvore.
Uma transmutação na forma de uma massa terrosa e "cilíndrica" partida do solo golpeara Julian no queixo de forma brutal, fazendo-o pairar no ar por milésimos e cair de costas no chão com forte impacto. Alardeada, Êmina se viu disposta a lutar.
— Não! — gritou ela — Pai! — virou-se rapidamente para os malfeitores, posicionando-se para uma luta justa. — Andem, o que estão esperando? Se querem mata-lo vão ter que passar por mim primeiro! "Rosie seria ótimo você dar uma passadinha por aqui. Dois contra um não vale!", pensou ela, uma preocupação com a amiga reacendendo-se no peito.
— Hahaha. — rira o careca, debochado, olhando-a de baixo à cima e chegando perto — O que foi? Não trouxe seu giz ou sua lasca de carvão?
— Ei, Jay. — chamou o outro, olhando para Êmina de relance com escárnio — Sabe quem adora fazer rabiscos? Crianças — apontou para a caçadora de mão aberta, logo desatando a rir junto ao parceiro.
— Idiotas... — retrucou Êmina, pouco ligando para a chacota, mantendo sua posição — Transmutação sem círculo. Grande novidade.
— Você quer correr? Pode ir. Nós só queremos o papai. — disse Jay, apontando para Julian, ainda caído, com os olhos.
— Toque nele e eu juro que...
— Vai fazer o quê? — indagou o mais jovem, desafiador. — Está em desvantagem, mocinha.
— Achei que vieram para me matar. — relembrou Êmina, franzindo o cenho, não gostando nem um pouco do quanto aquilo soava suspeito — Qual é a jogada? — perguntou, olhando para ambos.
— Mudança de última hora. — revelou Jay, estralando os dedos em aquecimento.
— Mas para dizer que não somos generosos, nós te damos algumas opções: Pode escolher fugir, mas vai entregar seu pai de bandeja à gente. — disse o rapaz, erguendo de leve o indicador direito enquanto explicava — Pode escolher lutar com um de nós, mas vai ser morta e seu pai vai ser pego. — deu um sorriso infame — Pode escolher lutar com nós dois e morrer mais rápido, seu pai pode até escapar mas não será por muito tempo. Ou pode escolher a opção mais recomendada, que é nos entregar seu pai gentilmente e sem choramingo e sair correndo.
— Por que diabos ela o quer? — perguntou Êmina, o tom ríspido. Julian levantava-se com esforço, tocando no queixo machucado.
— Não importa. Ele é necessário. — respondeu Jay, aborrecendo-se pela demora da execução daquele plano que, em primeira análise, se daria de modo rápido e sem deixar rastros significativos. — Mas respondendo sua outra pergunta... Sim, fomos mandados para mata-la. Ela é uma mãe muito cuidadosa. — ironizara, para o total desprazer da caçadora.
Causando uma brusca — e ligeiramente conveniente — interrupção, Julian, reerguido, avançara contra Jay para lhe desferir um cruzado de direita. No entanto, o assassino segurara seu punho com um excelente reflexo, logo depois aplicando uma forte joelhada direita contra a barriga de Julian que expeliu um pouco de saliva devido ao golpe, logo, por fim, sendo apagado com um soco na têmpora esquerda.
Êmina decidiu avançar, embora desarmada, sentindo uma centelha de fúria, porém fora parada rapidamente pelo parceiro jovial de Jay que pôs suas mãos sobre o solo ao realizar sua alquimia. A caçadora, em um segundo, viu seu corpo ser envolvido por raízes emergidas do solo que a prendiam como serpentes, fazendo seus pés saírem do chão.
— Não! — exclamou ela, frustrada, desconfortada pelo aperto provocado pelas resistentes raízes. Uma delas enroscou em seu pescoço, desesperando-a. — O que vão fazer com ele? — indagou, o tom choroso, ao ver Julian ser carregado por Jay.
— Põe ela pra dormir! — ordenou Jay, andando mais rápido ao carregar o pai da caçadora sobre seu ombro direito.
— Com prazer. — respondeu ele, sorrindo sacanamente, e socando o rosto de Êmina com precisão suficiente para um nocaute.
Sacudiu um pouco a mão direita em sinal de dor enquanto recuava dali para alcançar Jay.
Sozinha na floresta, Êmina ficara sem assistência e à mercê do ataque de outros capangas enquanto mantinha-se presa, desacordada e com filetes de sangue despontando do hematoma próximo à boca após ser covardemente violentada.
***
As pálpebras pesavam durante o lento abrir de uma visão enturvada. De repente, um odor indescritível perpassou o olfato de Julian com um efeito similar ao de um tapa dado com a única finalidade de fazer despertar. Sobressaltado, piscou várias vezes, esquadrinhando com os olhos o ambiente fechado no qual havia sido colocado como prisioneiro. "Isso é loucura... Estou preso numa jaula... Mas que lugar é esse, afinal?".
Sentiu-se estúpido por não ter percebido pouco depois de acordar ao não sentir os pés no chão graças às firmes amarras que o prendiam por cima. Olhou para o chão e depois para os braços levantados com os pulsos imobilizados. "Só pode ser brincadeira... Ela não faria isso, não me torturaria gratuitamente só por mera represália pela minha saída do plano. A menos que..."
O som de passos aproximando-se cortara seu pensamento. Temeu ser um dos seus captores em vez de sua ex-mulher obcecada em pôr em prática um ardiloso plano de vingança. Moveu um pouco os pulsos para ao menos ter uma noção da firmeza das algemas de ferro preto e apostou no desgaste do mesmo para favorecer um não tão esperançoso movimento emergencial de libertação. Não havia força suficiente. "Ah, droga. Desgraçada". Voltou sua visão para a porta por onde quem quer que estivesse vindo entraria, sem esperar por mais nada.
"Aí está você... "
Ophelia adentrara esbanjando toda a sua postura altiva diante do seu mais novo prisioneiro, realçada por um tranquilo sorriso fechado.
— O que está achando? Confortável? — perguntou ela, irônica, chegando perto da jaula.
— Quando eu penso que você não pode mais me surpreender... — disse Julian, disfarçando sua cólera. Relanceou as grades de ferro ao seu redor, balançando a cabeça em negação — O que significa tudo isso? Fora o odor fétido....
— Meu sinal de que não se trata mais de "nós". — disse Ophelia, categórica. — Eu disse que não pararia. Você saiu, provavelmente duvidando de minhas capacidades e se encontrou com Êmina para mantê-la informada. Onde está a carta?
— Achei que seus capangas tivessem ouvido toda a conversa. — disse Julian, olhando-a sério, visivelmente incomodado pelas algemas — Já tem tudo o que quer. De que vai servir um mísero papel... quando você já me tem por inteiro e subjugado às suas vontades?
— Fico feliz que reconheça. — retrucou ela, levantando uma sobrancelha, a expressão debochada. — O que preservamos sobre família morreu junto com meu amor por você, Julian. Tudo o que construímos em família está completamente definhado.
— Por que você quis assim. — redarguiu Julian, fuzilando-a com os olhos.
— Eu quis? — indagou, franzindo o cenho com um sorriso cínico — Não... Nosso compromisso defendia a liberdade de um concordar com os propósitos do outro, ainda mais quando se trata de reatar laços familiares. Esse é o meu objetivo de vida, Julian. — assumira um tom sisudo — Trilhar uma estrada de sangue para alcançar um bem maior. Você quebrou o juramento. E está arcando com as consequências.
— O que planeja fazer comigo, Ophelia? Isso é insanidade! — reclamou Julian, esbaforido.
— Nunca me senti mais lúcida e sã nesta vida. — disse ela, com convicção estampada. — O indivíduo que já esteve nessa jaula era apenas um teste primário. As preliminares estão quase no fim.
— O que vai fazer? — perguntou Julian, sentindo um cansaço acomete-lo. — Por que roubar o ouroboros?
— Se lhe satisfaz saber, ele nada mais é que a chave para o aprimoramento que selará a condição ideal do meu filho. — revelou ela, dando as costas para Julian, mas mantendo-se parada — E considerando o significado desse poderoso artefato...
Um lampejo arrepiante inquietara o pai adotivo de Êmina.
— Você é louca! Irá usar um homúnculo tornado imortal para assassinar os membros do Conselho?!
— E de quebra fazer uma limpeza naquele lugar tão mal frequentado. — disparou ela, virando-se para ele. — Mas não será ele a cumprir essa tarefa. — falou, aproximando-se um pouco mais — Compreende agora a verdadeira razão pela qual foi trazido até aqui, Julian? — inclinou para falara mais perto — Você é o meu teste beta. Mas antes de começarmos, quero primeiro trabalhar as habilidades físicas dele com uma das visitas que estou esperando.
— O que quer dizer? Quem vai vir? Quem você vai matar? — perguntou Julian, exasperando ao ponto de canalizar sua fúria para quebrar aquelas algemas
— Nossa querida filha tende a me causar muitos problemas. — disse ela, dando de ombros. — Com sua enferrujada inclinação para alquimia, graças ao tempo jogado no lixo em uma escola estúpida e sem o menor charme, nem mesmo a sua heroína, Rosie Campbell, será capaz de se manter viva ou protege-la. — declarou, finalmente virando as costas para sair da sala.
— Ophelia... volte já aqui... — exigia Julian, o tom rude e autoritário — Êmina tocará seu coração amargurado e a fará redescobrir o que nos unia. Isso eu lhe garanto, pode acreditar!
Ela parara próxima à porta e o visualizou por cima do ombro.
— Veja só... Temos algo comum. — disse ela, não medindo a ironia no tom — Somos sonhadores.
Desalentado, Julian suspirou pesadamente com os olhos fechados enquanto Ophelia fechava a porta.
Quaisquer chances de uma reconciliação segura resvalaram-se à nulidade. E Julian reconhecera seu arrependimento penoso com relação ao seu envolvimento imprudente com uma ambiciosa mulher que não media seus desejos nem seus esforços para ser alçada a algum patamar que lhe conferisse determinado tipo de respeito. Não era o amor de uma família, mas de si mesma que a motivava a perseguir seus sonhos, independentemente do quão sujos fossem os meios utilizados. Afinal, era tudo por um bem maior. "O bem maior de Ophelia é somente o seu ego venenoso", pensou Julian, cabisbaixo.
Mal sabia ele que por uma brecha de uma porta na parede lateral à sua direita olhos atentos estavam observando-o.
"Ótimo. Hora de sair das sombras.", pensou Êmina, pronta para tentar salvar seu pai do destino terrível ao qual foi condenado.
***
A entrada de Rosie havia ocorrido de forma bastante sorrateira na imensa residência dos Flower.
A jovem, em passos lentos, explorava a semi-escura área que apresentava o alçapão em direção ao subterrâneo no qual continha uma série de corredores e salas, além de um depósito de automóveis colecionados pelo avô falecido de Julian, todos eles utilizados pelo ascendente.
— Vejo que o passeio está a entediando. — dissera uma voz feminina logo reconhecida por Rosie.
A jovem virou-se sobressaltada, o instinto de alerta pulsando.
— Nada contra se vestir de modo extravagante, mas esse capuz faz meus olhos doerem.- comentou Ophelia, saindo de uma passagem secreta aparentemente como meio alternativo de acesso ao bunker.
— Pra ser honesta, eu não ando com essa capa e capuz por exibição — disse Rosie, tratando de deixar claro -, mas por uma promessa. Tem um valor sentimental.
— É bom saber que a melhor amiga de minha amada filha preza pela lealdade. — disse ela, aproximando-se com arrogância na postura.
— Amada? — indagou Rosie, franzindo o cenho — Você mandou que a matassem! — vociferou ela.
— Shhh... — chiou Ophelia, baixinho, pedindo silêncio — Meça seu tom se não quiser deixa-lo irritado.
— Do que você está falando? — perguntou Rosie, severa.
— Eu a desafio a derrotar meu filho se quiser chegar até lá embaixo. — propôs Ophelia, a face confiante.
— Filho? Se refere... — Rosie balançava a cabeça em negação por achar absurdo — ... ao homúnculo? -fez uma pausa, recuando dois passos — Escuta aqui... Eu sei que Êmina está em algum lugar dessa casa e muito provavelmente no andar de baixo. Pelo vislumbre que tive do seu monstro ontem à noite, posso presumir que ele não tem muita chances.
— O julgou cedo demais, querida. — disse Ophelia, olhando de soslaio para a sua direita — Ele cresceu. Em todos os aspectos, para o meu orgulho. Existe uma constante na alquimia... caso Êmina não lhe tenha contado... que estabelece um conceito universal de que para se obter algo deve-se sacrificar um bem de valor equivalente.
Ligando os pontos, Rosie arriscou perguntar.
— Criar um homúnculo... exige algum sacrifício? — a olhou com suspicácia — Você, por acaso, abriu mão de alguma coisa tão valiosa a ponto de satisfazer um desejo maligno?
— Se desejar ter algo de volta e que você tanto amou é maligno... — disse Ophelia, deixando a frase no ar. Um vulto aproximava-se lentamente. Ao ganhar forma sob a luz alaranjada da lamparina à óleo, mostrou-se como um ser humanoide desnudo de pele cinzenta clara, porte atlético e, sendo o detalhe mais assombroso, com apenas um olho no centro da testa e sem boca.
Rosie encarou-o com estranheza pura, sendo assaltada por uma péssima sensação.
— Assim como a própria magia, a alquimia cobra seu preço. — disse Ophelia, olhando para seu homúnculo estagnado como um boneco. — Abdiquei de minha alma por um amor renovado. Considere-se privilegiada por ser a primeira e a última pessoa a saber disso.
— Vo... Você está falando sério? — disse Rosie, estranhando e ansiando por mergulhar naquele alçapão de uma vez — Sacrificou a própria alma... para isso? — questionou, apontando para o monstro com os olhos.
— Não é como dizem? Os fins justificam os meios. — defendeu-se Ophelia.
— Tem ideia de que causou todo esse mal por conta desse preço? — disse Rosie, sentindo-se consternada com o auto-controle infame da vice-presidente da AA.
— Eu agi conscientemente desde o início, Rosie. — disse Ophelia, sem se abalar — Depois de uma separação insuportável, tudo o que eu mais queria era experimentar novamente o verdadeiro amor de uma mãe.
— Mas e Êmina? — indagou Rosie, soando ríspida.
— Êmina não era boa o bastante para suprir essa falta, para saciar essa vontade. — revelou Ophelia, firme no tom. — Aliás, ela tornou-se um empecilho à minha conquista, ao lado do próprio pai. Imagino que meu subordinado tenha colaborado à base de ameaças fortes.
— Talvez o ser ao seu lado não seja o verdadeiro monstro dessa história. — disse Rosie, enojada. — Êmina ficará bem decepcionada quando souber que tinha um meio-irmão cujo corpo foi usado para dar origem a uma aberração.
— Ele é tudo, menos uma aberração. — retrucou Ophelia, elevando o tom — Pode fugir pelo alçapão se quiser, não importa, afinal será perseguida incansavelmente, ele fará dos seus esforços para achar Êmina completamente falhos. Neste exato momento, ela pode estar tentando um jeito de libertar Julian. Então, se me der licença, tenho de avisar ao meus súditos...
— Fala dos dois idiotas que apaguei e amarrei no teto do armário de ponta à cabeça? Pois é... — disse Rosie, arqueando uma sobrancelha em sinal de auto-confiança.
Ophelia a fitou em silêncio com seriedade por poucos segundos. Em seguida, tornou a se dirigir ao seu assecla mais efetivo.
— Mate-a. — ordenou ela, lacônica, logo saindo por uma porta.
Acatando a ordem, o homúnculo dera passos seguros em direção à Rosie a fim de ataca-la.
Sem perder mais nenhum tempo, Rosie virou-se e abrira a porta do alçapão, logo descendo a escada com bastante pressa. Fechara a porta antes que o predador pusesse um pé para dentro, ainda que tivesse plena ciência de que ele a perseguiria sem nenhuma dificuldade. Portanto, tal movimento, além de desesperado, obviamente era ineficaz.
Após descer os degraus da escada, saiu em disparada pelo primeiro corredor do bunker um pouco mais escuro que os posteriores.
CONTINUA...
Fale com o autor