Capuz Vermelho - 3ª Temporada

45 E tudo se transforma (Parte 3)


Pensão Flower; 07h25.

— Prontinho. — disse Êmina, terminando de transcrever a carta em uma outra folha e a mão direita que segurava o lápis tremulando em nervosismo. A alquimista suspirou pesada e longamente, encostando suas costas na cadeira de madeira, por alguns segundos olhando pela janela do quarto para onde a mesa onde escrevera estava diante. Pôs as duas mãos juntas na frente dos lábios carnudos. "Tudo está se encaixando. Ele voltou convenientemente para me avisar. Será que ele já sabia que a mamãe voltaria ontem? Estão em pé de guerra, não é nenhuma novidade, mas soa estranho demais estarem na mesma cidade, porque eu conheço muito bem como termina cada briga que eles começam, então, por sorte, eu devo dar graças por não ter presenciado a que causou a última separação. Oh... droga... o que eu faço?", pensava ela, deixando as dúvidas assaltarem-lhe a calma.

Rosie entrara rápido no quarto após voltar de um restaurante.

— Bem, acabei de reservar uma mesa no restaurante mais próximo. Não sabia que estabeleciam um limite de tempo, então é melhor corrermos se quiser tomar café da manhã hoje. — disse ela, aproximando-se da amiga. Vislumbrou os dois papéis na mesa. — O que está fazendo? — perguntou, seus olhos focando no semblante pálido da caçadora. — Êmina, o que foi? Que cara é essa?

— Você tem um isqueiro aí? — perguntou Êmina, levantando-se rápido e pegando a folha da carta, pegando Rosie desprevenida.

A jovem a olhara com estranheza.

— Ahn... Eu acho que sim. — disse, tateando os bolsos dos cintos e abrindo um deles aleatoriamente — Conheço essa cara, você não me engana. Cara de quem quer contar algo que descobriu e de tão surpreendente não sabe por onde começar. — decifrou, achando o objeto e entregando-o.

— Acertou em cheio. — respondeu Êmina, recebendo o isqueiro, logo acendendo-o.

— Por que vai queimar a carta? — perguntou Rosie, curiosa e surpresa.

— Para que a mamãe não a recupere. — disse a alquimista, depositando sobre a mesa o papel pouco à pouco sendo consumido pela chama a partir da ponta inferior esquerda. Pegara o outro, mostrando para Rosie — Olha aqui. Este é o texto que transcrevi da carta original. A mensagem do meu pai para minha mãe depois da separação. Eu pensei em lê-la pra você, mas você já tinha saído depois que acordei. E pelo que aconteceu ontem à noite, deduzi que a mamãe viria até aqui para pedir consolo ou perguntar porque eu não me juntei à ela depois da conferência e descobriria a carta. — fez uma pausa, dando alguns passos e ficando de costas para Rosie — Você leu um pouco ontem, deve ter percebido as letras maiúsculas em negrito depois de cada frase.

— Sim, eu vi. — confirmou Rosie, assentindo positivamente. — Aonde você quer chegar? O que isso significa?

— Acontece que... — disse ela, virando-se para a amiga — ... honestamente, eu sempre tive um pé atrás com relação à índole dela. Ela sempre foi tão... cheia de si, confiante demais, que isso me fazia ver algo ruim e eu sempre afastava esse pensamento... porque ela era a mãe que me acolheu em seu lar e devia muito à ela em retribuição. Aliás, eu sinto que ainda devo. Mas depois disso — mostrou a folha -, já não tenho tantas dúvidas quanto a essa suspeita. — fez uma pausa, suspirando — Meu pai usou um truque que lembro de ele ter me mostrado quando criança. As letras maiúsculas em negrito formam, com exceção de nomes próprios no meio de uma frase, uma mensagem oculta.

A revelação fizera Rosie empertigar-se e aguçar sua atenção ao máximo, o olhar de interesse.

Êmina prosseguiu:

— Está sendo difícil de engolir isso, mas... parece ser verdade, tenho de lidar. Na verdade, estou começando a achar que... — ficara pensativa em poucos segundos — ... que ela mereceu todo aquele escrutínio dos membros do Conselho. — seu tom assumira severidade — Ela é uma farsa.

***

"Sinto saudades desde aquele terrível dia em que nosso elo se quebrantou, que até cheguei a pensar que seria para nuncas mais. Uma vez covarde, sempre covarde, eu captei a mensagem perfeitamente, mas ainda sinto raiva quando acredita que, em qualquer discussão, detém a voz da razão, achando que tem o direito de lançar um ultimato e bater a porta como se estivesse fechando uma ferida na sua vida. A ferida. no caso, sou eu. Meses cuidando da nossa linda filha não serviram de nada?

Apenas desejo uma resposta honesta, quero fazer você se permitir dar uma chance de recomeçarmos. Eu estou pronto para o que der e vier, não importa mais o quanto lutemos mas sim como devemos lutar. Eu quero apoia-la, satisfazê-la das melhores forma que estiverem ao meu alcance. Sabe muito bem o quanto tentei e fiz o melhor que pude. Talvez deva repensar nas palavras afiadas que disparou naquela noite e encarar a situação como um todo, com um toque de lucidez. A verdade é só uma, eu preciso de você e você de mim. Com toda a certeza nada nesse mundo pode mudar isso.

Relembro, todos os dias, você, aos berros, reclamando sobre o que eu disse da Jo: Insubstituível. Além do mais, se pretender mandar uma resposta, por favor, não jogue na minha cara novamente que exagerei. Na verdade, não é obrigada a responder, posso conviver com esse peso sozinho, mas chegará uma hora em que isso vai me consumir aos poucos. De todas as vezes em que recordei do nosso passado, a mais torturante foi antes de escrever esta carta. O meu coração sangra por essa decisão, Ophelia. Haverá um dia em que finalmente você veja nossa pequena como o elo que nos une? O que me dá mais raiva é você não ter percebido o óbvio.

Mas não encare isso como um sermão. Uma vez só na sua vida aqueça seu coração congelado pela sua mágoa. Certamente fará toda a diferença se tentar. Uma vez mais: Lute por Êmina, não por mim. O motivo que fortaleceu nossa relação foi ela ter entrado em nossas vidas. Se não for por mim, então que seja por ela."

"SUA MÃE ESTÁ CRIANDO HOMÚNCULOS"

***

— O quê!? Homúnculos?! — indagou Rosie, evidenciando perplexidade. — Já ouvi histórias sobre isso, até agora não passava de pura lenda urbana...

— Ah, Rosie, abra os seus olhos. — disse Êmina, soando aborrecida. — Vivemos num universo onde existem deuses psicopatas, genocidas e sedentos por poder. Por que não homúnculos? Isso anda de mãos dadas com a lenda da pedra filosofal, então é plenamente óbvio que minha mãe está praticando um ato que vai contra os princípios da Associação.

— Sim, mas como seu pai obteve essa informação? — perguntou Rosie, partilhando da dúvida.

— Somos duas perdidas, então. — disse ela, andando de um lado para o outro lentamente, os braços cruzados e a cabeça fervilhando em teorias — Devem estar se encontrando em segredo. Se comunicando por cartas. Usando porta-vozes. Há várias possibilidades.

— Só há um jeito de descobrimos. — propôs Rosie, aproximando-se da amiga — Vamos ter de encontra-lo, mesmo expostas ao perigo.

— E se ele tiver já saído da cidade hoje cedo temendo que não fosse dar certo ou que... — cortou a fala, mordendo os lábios, os olhos marejando e a emoção tornando-se mais incontrolável

Rosie prestou-se a tranquiliza-la tocando-a nos ombros.

— Fique calma, vamos tratar de resolver isso ainda hoje. Estou com você nessa luta, ela não é só sua.

Três batidas na porta quebraram a atmosfera de forma brusca.

— Quem é? — perguntou Rosie, pondo-se próxima à porta, intencionando tocar na maçaneta.

— Gerente do restaurante. — respondeu uma voz ligeiramente grave — É a garota que veio agora há pouco? Um dos inquilinos me avisou que você é amiga da herdeira dos Flower e isso automaticamente as torna nossas clientes especiais. Todo o café da manhã que quiserem é por conta da casa. A mesa está reservada.

Um silêncio desconfortável permeou por alguns segundos. Parecia uma entonação de voz pouco característica para um gerente. Uma pressa na fala implicava em esforço preguiçoso.

Êmina sinalizou com o rosto uma instrução necessária à Rosie, balançando a cabeça negativamente.

— Rosie, não abre. — disse ela, o tom quase sussurrante — Roubaram o cofre do presidente da Associação dos Alquimistas na mesma noite da conferência em que a minha mãe postiça anunciou um projeto aparentemente inacabado sobre a pedra filosofal. Considerando as pistas que temos, não podemos confiar em ninguém.

— Talvez o risco valha a pena. — retrucou Rosie, girando a maçaneta. Olhou para trás e de relance para a amiga — Não dá pra ter certeza se não arriscarmos. — abrira a porta devagar, olhando para a figura alta e esguia de um homem de cabelo castanho partido de lado sendo curto e social, rosto robusto caucasiano com barba por fazer e vestes típicas de um caçador de aluguel. A boa aparência, no entanto, não fisgara o interesse súbito da jovem em vista da alta desconfiança. — O que quer?

— Não ouviu o que eu disse? — perguntou ele, franzindo o cenho. — São nossas clientes isentas e especiais.

— Desculpe, mas... — olhou rápido para trás em direção à Êmina -... nós decidimos comer no quarto de uma amiga daqui da pensão, ela nos ofereceu parte da comida. E, por falar nisso, já deveríamos estar lá há algum tempo, então se nos der licença...

— Deixa eu adivinhar. O nome dela é Josie? — indagou ele, dando um passo adiante que deixara Rosie em estado de profundo alerta. Êmina, por outro lado, recuara discretamente, tensa. — Que engraçado — disse ele, sorrindo tortamente para Rosie — Porque foi exatamente ela que me avisou que a ilustre herdeira dos Flower estava aqui... antes de eu cortar sua garganta! — dissera, sacando velozmente um punhal afiado do cinto e tentando golpear Rosie com movimentos bem ritmados.

A jovem desviava com maestria de cada tentativa de corta-la. Desferiu um cruzado de direita contra o homem, logo pegando o braço esquerdo dele que segurava a adaga, tentando torce-lo com toda a força. Segurou o mais firme que podia, enquanto o opressor forçava-se para fazer a lâmina encostar no rosto da jovem.

— Isso não é jeito de tratar uma serventia educada. — ironizou ele, lutando contra a força do braço de Rosie que impedia-o de rasgar sua pele.

— Até parece que um gerente de restaurante se veste assim. — redarguiu Rosie, trincando os dentes em demonstração de força.

— Seu desgraçado... Você matou a Josie! — vociferou Êmina, colérica.

— Êmina, fuja! — pediu Rosie, não aguentando mais, seu rosto ficando vermelho devido ao esforço — Rápido! Vá!

— Ah, dane-se, não tenho o dia todo. — disse ele, logo desferindo uma forte cotovelada do braço direito contra o rosto de Rosie. Em seguida, chutou-a na barriga, derrubando-a certeiramente. — Fique onde está! — falou, dirigindo-se à Êmina com rispidez. — Quero que assista a morte da sua amiga... — voltou-se para Rosie, passando o punhal para a mão direita, prestes a golpeia-la.

No mesmo instante, a jovem surpreendera ao fingir estar com dor e logo pegando-o desprevenido ao sacar uma adaga e desferindo um corte horizonte no antebraço esquerdo dele, o que o fez, acidentalmente, largar sua lâmina. Grunhindo em raiva, ele tentou ignorar o incômodo do corte, passando a concentrar-se em atacar Rosie com seus punhos. Rosie defendeu-se com o braço esquerdo, logo chutando-o e socando-o até fazê-lo encostar no guarda-roupa.

Rosie afastou o punhal ao chuta-lo para longe, o som do deslizar da lâmina soando ínfimo.

Ele a agarrara pelo pescoço, logo em seguida percebendo que Êmina já tratara de escapar. Rosie usou esta desatenção com sabedoria e não perdeu nenhum segundo ao bater sua testa contra a dele, logo chutando-o na barriga e pegando-o pelos ombros para joga-lo contra a outra parede.

As costas do robusto homem impactaram-se, deixando algumas rachaduras. Sentiu que demorou um pouco para se dar conta da tamanha força de sua oponente.

Rosie pulou sobre a cama e andara até ele, pegando-o pela gola rulê da camisa branca.

— Quem enviou você e com qual propósito? — quis saber ela, o tom ríspido.

— Vai se ferrar. — disse ele, sacando uma faca pequena, logo lançando um corte contra o espartilho da jovem para distrai-la e afastou-a empurrando sua cabeça violentamente e fazendo-a cair no chão.

Tentara um golpe fatal com a mini-faca, que fosse rápido e preciso, mas a perna direita de Rosie fora mais veloz com um chute certeiro e intenso contra a face do bandido.

Rosie levantou-se depressa e, por fim, dera um giro rápido seguido um novo chute, este, desta vez, atingindo o nariz do misterioso matador e nocauteando-o instantaneamente para o alívio da jovem

Encarando o assassino contratado caindo no chão com o rosto e braço ensanguentados, Rosie afastava alguns fios de cabelo na sua face, ofegando bastante. Virou-se para o guarda-roupa, objetivando encontrar algo que pudesse imobiliza-lo, torcendo para que, ao menos, houvesse uma corda.

***

Mansão Flower

A antiga residência da família Flower mantivera-se intocada por vários anos. Abandonada por Josefine Flower, a mãe biológica de Êmina, a mansão permaneceu sob o poder dos avós logo após o conturbado rompimento entre ela e Julian em decorrência de um suposto caso de traição envolvendo Jo e outro homem de identidade desconhecida — o qual Êmina insistia em se tratar de seu verdadeiro pai. Com os planos para um noivado reduzidos à cinzas, Julian assumira sua traição ao revelar seu relacionamento com Ophelia, causando sua saída voluntária da casa e o fim definitivo do elo que fora construído ao lado da filha do então — e falecido — presidente da AA.

Josefine McGinnis morrera em um incêndio numa propriedade mais simples, depois de tanto tempo recebendo visitas esporádicas de Julian quando um curioso acordo de reconciliação limitada foi estabelecido — o qual significava o fim do romance, mas a permanência da amizade por ambos terem cometido o mesmo pecado e, sendo assim, como somente amigos, lutavam por uma distante redenção e por uma resistência árdua contra eventuais recaídas. Prometeram jamais sentirem o mesmo um pelo outro novamente. Jo: Por sentir-se intensamente amargurada pela traição ainda que ciente dos efeitos devastadores. Julian: Por estar comprometido com Ophelia, uma aspirante a professora de alquimia para crianças de 8 à 12 anos.

A porta principal estava aberta quando Julian aproximava-se.

Ophelia o esperava na sala de estar decorada com papéis de parede cor vinho com detalhes em dourados e mobílias de couro e madeira marrom escuro.

O homem a fitara com enojo.

— É bom que seja importante. — disse Julian, esperando que ela se virasse.

— O que poderia ser mais importante, à essa altura do campeonato, do que a fase final do nosso perspicaz plano? — questionou Ophelia, dissimulada, virando-se.

— O seu plano, pra começar. — retrucou Julian, enfático e duro no tom. — Isso já passou completamente dos limites. Já tem gente envolvida demais nessa história.

— Aceitou vir para carinhosamente pedir que eu pare? — perguntou Ophelia, arqueando uma sobrancelha — Vai ter que se esforçar mais, amor.

— Vamos logo, diga de uma vez o que pretende fazer. — exigiu Julian, aborrecido.

— Não andou verificando a caixa do correio ultimamente não é? Pois bem... Devo dizer que você nada mais foi que o primeiro convidado da lista, meu convidado especial. Tinha um lugar reservado na primeira fileira. Sua presença aliviaria toda a dor que eu senti naquele momento.

— O que aconteceu? — perguntou Julian, a expressão intrigada.

— Fui humilhada publicamente por uma bancada de jurados exigentes... — disse ela, dando de ombros sem saber como prosseguir para descrever o forte aperto que passara — Eu tentei convence-los dizendo que fiz o melhor que pude. Sou a vice-presidente, dei minhas razões, mas se recusaram a me compreender. Isso é... indesculpável. Passível de punição.

Julian, desconfortando-se, andou uns passos vagarosos pela sala, pensativo.

— Tem que me ajudar a destruí-los — idealizou Ophelia, fitando-o com carência na face ao mesmo tempo em que o rancor transbordava na voz e no coração -, tenho a fórmula perfeita.

— Ah, não, não, não. — explodiu Julian, erguendo de leve sua mão direita em sinal de "pare" — Não me venha com essa sua chantagem emocional, não vai funcionar... Não desta vez. — a olhou firmemente — Sabe porque eu não apareci lá? Temi que fosse me passar a perna. Me descartar como lixo. — aproximou-se dela — Quer saber de uma coisa? Pra mim chega. — falou, desafiador — Prefere criar monstros a promover causas pelas quais valham a pena lutar! Que futuro você vê nisso?

— O nosso futuro! Novamente juntos, como uma família. É só o que eu quero. — defendeu-se Ophelia, exasperada.

— Você quer vingança, sangue derramado. — rebateu Julian, o olhar enfurecido. — E principalmente poder.

— Eles não merecem ser chamados de Conselheiros. Lá estão eles, há anos se gabando do que não tem a mínima competência, enquanto eu, uma promissora alquimista, é rebaixada e apedrejada por que mostrou uma versão teórica de seu projeto revolucionário.

— Então sua birra é apenas por causa da rejeição? — perguntou Julian, franzindo o cenho.

— Quero tira-los do poder pelo que são, não só pelo que me fizeram passar. — determinou ela, convicta — Além do mais — esboçou um sorriso sacana -, consegui uma preciosidade de milhões. A cereja do bolo direto do cofre do presidente.

A expressão de Julian converteu-se de raiva para assombro.

— O artefato... vo... você não...

— Sim, Julian. — assentiu Ophelia, tranquila. — A minha serpente trocará de pele hoje à noite. E já que sua posição contrária se tornou tão óbvia... Não há nada que você possa fazer.

***

Um forte tapa no rosto foi o método mais eficiente julgado por Rosie para acordar seu prisioneiro.

O assassino contratado para dar fim à Êmina, amarrado na única cadeira do quarto, subitamente acordou, logo em seguida sentindo uma ardência na bochecha direita. Fez cara de dor, aos poucos abrindo os olhos e gemendo. Rosie o observou com um sorriso fechado que parecia denotar certa satisfação ao vê-lo sob sua custódia.

— Você... é uma garota muito malvada... — disse o homem, logo formando um sorriso ao passo em que despertava — Muito embora saiba como dominar uma boa briga.

— Vamos direto ao que interessa. — disse Rosie, cruzando os braços, parada bem diante dele

— O que vai ser? Tortura? Não dá certo... já tentei. — disse ele, a face debochada.

— Quero que me fale quem está por trás disso. — exigiu Rosie, severa no tom. — Quem, afinal, pôs a cabeça da Êmina à prêmio?

— O plano era matar vocês duas, pra começo de conversa. — revelou ele, arqueando as sobrancelhas. — Posso dar uma condição se eu tiver que responder rápido?

— Não, mas posso esfaqueá-lo no peito num segundo se quiser ficar enrolando. — disse ela, aproximando-se. Inclinou-se levemente para ele, intimidadora — E, acredite — estreitou os olhos -, quando me enfureço de verdade as coisas não terminam nada bem.

Um sorriso de canto de boca foi quase inevitável para o assassino ao estudar a capacidade da jovem em lidar com interrogatórios.

— Aposto que teve um treinamento com alguém bem experiente.

— Essa não é primeira vez que conduzo um interrogatório. Então, vamos logo. Me dê um nome. — pediu ela, a expressão séria.

Após segundos de hesitação, o assassino deu suspiros que pareciam indicar uma fraca resistência ante à pressão incutida por Rosie. Passou a odiar ter de se render ao poder de ameaça de uma jovem que enganaria qualquer desavisado com sua aparência e modo de se vestir.

— Ophelia Flower. — disparou ele, o tom sério. — Ela tem orquestrado um plano macabro... Coisa surreal. — afirmou, arqueando sobrancelhas.

***

— Pra mim já chega! Estou fora! — decidiu Julian, apontando o indicador para o rosto de Ophelia — O que pensa em fazer caso eu vá até o Conselho Superior de Alquimia e a denuncie? Sou ex-cúmplice, tenho acesso à provas substanciais.

— Eu diria que não mais. — retrucou Ophelia, virando o rosto, desdenhosa — Pode ser um excelente partido, mas nunca foi muito esperto.

— Não posso permitir que use criaturas vivas para terminar essa sua loucura. — disse Julian, sentindo o sangue ferver em ódio pela malevolência daquela ambiciosa mulher a quem lhe jurou uma vida próspera — É desumano... — falou, balançando a cabeça negativamente — Vai contra os princípios da alquimia, suas atitudes estão se contradizendo contra a ciência que você tanto se dedica.

— E que outra escolha tenho? — perguntou ela, aborrecendo-se. — Estou aberta a sugestões, mas não posso esperar muito vindo de você.

— Pode escolher perseverar mais nos estudos. — disse Julian, intencionando um aconselhamento que, no fundo, sabia que era improvável de convence-la. — Esqueça a vingança, Ophelia. Só nos trará infelicidade e sofrimento. Não quero que seja do meu jeito... Mas do jeito que for o mais correto possível, se quiser que voltemos a ser uma família.

A vice-presidente da AA grunhira raivosamente e se afastou ao andar alguns passos numa direção.

— Eu odeio quando você incorpora o pacifista que se acha sensato. — reclamou ela — Não preciso de você para terminar o que comecei. E vou terminar, custe o que custar. — salientou, fuzilando-o com os olhos.

Julian aproximou-se em largos passos e a agarrou pelo braço esquerdo.

— Escute aqui: Tentei ser flexível com você, mas vejo que é impossível, você é uma víbora. — acusou ele, apertando o braço da alquimista,

— Me largue... — disse ela, encarando-o furiosamente — Como eu disse... Vai ter que se esforçar mais se quiser me impedir. Ah... eu já tinha quase me esquecido. Você tem uma forte tendência a desistir na hora H, por isso nem estou preocupada. — aproximou um pouco o seu rosto ao dele — Você é fraco, Julian. Como esposo, como pai... e como homem. Só vai ficar... e assistir tudo desmoronar a sua volta. — dissera, o tom de deboche.

Como impulso, Julian erguera o punho esquerdo fechado.

— Isso. Bata. — disse ela, instigando sua raiva — Ainda sim continuará sendo fraco. E covarde também.

O pai adotivo de Êmina a soltara com rudeza, recuando alguns passos ao fita-la com ojeriza.

— Lamento por Êmina. — disse ele, desapontado. — Por isso vou me juntar à ela.

— E vou capturar mais quatro Elementais e criar uma pedra filosofal forte o bastante para aprimorar meu filho. E você sabe muito bem porque. — disse ela, mantendo sua postura auto-confiante e soberba.

Julian, consumido pelo estresse carregado, fora embora, saindo por onde entrara.

— Se juntar à Êmina? — falou Ophelia, em tom baixo para si mesma, olhando-o sair — Não por muito tempo.

***

"Então Julian tinha razão o tempo todo. A mensagem na carta era mesmo um aviso... Eu fiz mal em obriga-la a fugir? Ela devia ter ficado como ele mandou, o que me pareceu um alerta subtendido", pensou Rosie, imersivamente reflexiva quanto ao cerco perigoso no qual ela envolveu-se ao lado de Êmina. De repente, ligou a existência de capangas ao roubo na sala do presidente.

— O que sabe sobre a invasão à sala do presidente da Associação? — perguntou ela, voltando seus olhos sérios ao assassino.

— Ei, vamos por partes. — frisou ele, franzindo o cenho — Primeiro que eu não estava sabendo de roubo nenhum. E segundo: A chefia apenas nos encarregou de dar cabo na garota.

— A própria filha que criou com tanta dedicação?! — disse Rosie, sentindo-se revoltada — Que tipo de mãe com uma carreira tão promissora iria recorrer a meios tão malignos? Não faz sentido.

— Do tipo que é capaz de tudo para eliminar qualquer obstáculo, não importando se é ou não parte da famíla. É uma disputa de egos. — atestou ele, firme. — E tem mais uma coisa.

— Diga. — pediu Rosie, rígida no tom de voz.

— Depois que matássemos a garota — dissera ele, aparentando desconforto com os nós nos pulsos -, seria a vez do papai coruja. Aliás, não matando-o, mas sequestrando ele, para só no mais tardar ela decidir se vive ou morre.

— Por que sequestra-lo depois de matar Êmina? — questionou Rosie, incisiva.

— Quando nós revemos os detalhes do plano ontem à tarde, lembro de ela ter mencionado uma acompanhante de sua filha, no caso você claro. Pediu que não a subestimasse, pois só pela primeira impressão já tinha uma noção básica do seu talento... E que talento, viu? — disse ele, sorrindo sacanamente.

— O quê mais? — indagou Rosie, o tom ríspido e impaciente.

— Ela sabia que você faria de tudo para proteger a herdeira, então me recomendou um disfarce. — revelou ele, olhando-a com expectativa em ansiedade pela reação da garota.

— Você veio sozinho não foi? — perguntou Rosie, desconfiando.

— Quem disse que vim sozinho? — indagou o assassino, a expressão de satisfação.

— Espera, então o que você quis dizer para Êmina ficar onde estava era realmente...

— Aí está, você matou a charada. — dissera ele, dando uma risadinha zombeteira em seguida — O que é uma pena, já que eu mesmo fui responsabilizado de mata-la. Você cometeu um grande erro, garota...

— Ah, então foi isso, né? — indagou Rosie, agarrando a gola da camisa do assassino com cólera na face — Essa maldito plano também incluía me matar, você contava que eu mandaria Êmima fugir, então por isso resolveu ficar e me enfrentar, não ia arriscar pular da janela e sair perseguindo ela porque eu também era um alvo e deixaria a sua missão original ao encargo dos seus comparsas!

— Há apenas um jeito de alteramos as coisas e ficarmos bem. — disse ele, insinuante na expressão.

— Defina "bem". — disse Rosie, fervorosa, soltando a gola amassada

— Você me desamarra e arranjo um modo de falsificar sua morte. — sugeriu ele, fitando-a com tranquilidade. — E então? Temos um acordo?

— Não antes de ouvir os meus termos. — disse Rosie, erguendo de leve o indicador direito. — Me prometa que depois de sair daqui e mostrar as provas da minha falsa morte, vai se desligar do plano da Ophelia e fugir do país.

— Por que eu fugiria? — perguntou ele, incrédulo.

— Para sobreviver. — disparou Rosie, lacônica, as mãos na cintura — Talvez os seguidores dela o cacem como ordem final depois que a trama maluca de vingança ir por água abaixo.

— Confia tanto assim que vai entrar, lutar e sair sem nenhum arranhão? Ela alimenta um monstro numa jaula.

— Sim, eu sei, o homúnculo. — disse ela, assentindo positivamente, a paciência atingindo o limite — Sei também que muito provavelmente foi ele quem roubou o objeto que estava guardado no cofre do presidente. Só queria saber qual e porque, mas como você só é um empregado que não pode saber demais, só me resta uma pergunta antes de chuta-lo daqui: Para onde planejavam levar Julian?

— Subterrâneo da mansão Flower. A chefia mandou construírem salas secretas para emergências. Satisfeita?

— Ótimo. — disse Rosie, convencendo-se — Agora sou eu quem faço a pergunta: Nós temos um acordo?

O assassino, por alguns segundos, limitou-se a esboçar um sorriso enigmático, o que Rosie, por um instante, compreendeu como um suposto flerte.

— Você quem manda. — disse ele, contentando-se pela liberdade oferecida ao concordar com a condição de desvinculamento imediato.

Rosie, permanecendo sisuda, retirou de seu cinto uma adaga de lâmina menor, pronta para desamarra-lo. "Por que será que estou sentindo que vou me arrepender?"

CONTINUA...