Capuz Vermelho - 3ª Temporada

44 E tudo se transforma (Parte 2)


O auditório possuía lamparinas fluorescentes no teto, um palco que mais parecia uma grande plataforma de concreto semi-retangular e capacidade máxima para comportar mais de 250 pessoas.

O local, àquela hora, já estava relativamente movimentado, com os membros da Associação já todos presentes. Rosie e Êmina procuravam assentos melhores para se acomodarem após chegarem 5 minutos adiantadas. A alquimista emprestou à amiga um vestido vermelho carmesim escuro e decotado. Já a própria resolveu vir com um vestido mais curto, com alças finas e de cor cinza, além do cabelo preto sem as suas amadas tranças laterais, naquela ocasião estando em um coque.

Por fim, sentaram-se confortáveis em seus lugares.

— É sério mesmo? A pedra filosofal? — questionou Rosie, ainda incrédula. — O lendário elixir da vida eterna?

— Aparentemente, não será mais lendário daqui há poucos anos. — disse Êmina, olhando para o palco ainda vazio, dando um ponta de ceticismo que interessou Rosie.

— Ainda custo a acreditar. Sua mãe voltar assim tão de repente com uma notícia tão impactante dessas... — disse a jovem, suspeitando. — Claro, no mesmo dia que nós viemos é mera coincidência, mas vou ser honesta com você, Êmina: Há algo estranho.

— Olha, Rosie, por um momento até odiei admitir, mas depois de alguns minutos de reflexão... — confessou a caçadora, suspirando e assentindo positivamente — ... eu sabia que nossa diversão não seria do jeito livre, leve e solto.

— Então realmente sente que nem tudo é o que está parecendo ser? — perguntou Rosie, olhando-a.

— Estou tentando lidar com tudo isso da forma mais natural possível, mas sim, você está certa, ela foi muito parcial. — declarou Êmina, séria, visualizando a bancada dos membros do Conselho. — A última vez que vi minha mãe antes de ir para o Colégio dos Caçadores ela estava furiosa comigo pela decisão que tomei e disse que eu só teria uma nova oportunidade de voltar para casa quando finalmente minha consciência se tornasse um peso que me faria pensar com clareza. — baixou um pouco cabeça, aparentando tristeza. — O sonho dela era que eu me tornasse uma alquimista relevante a ponto de ser futuramente nomeada vice-presidente, substituindo-a, ela sonhou com um legado...

— Melhor pararmos de falar e só esperar. — recomendou Rosie, tocando na mão direita da amiga em consolo — Ficar remoendo desavenças só vai estragar o clima. Sua mãe parecia mesmo orgulhosa de você, redimida de todas as coisas que ela falou para fazer você desistir do seu sonho. Ela quer ver você sorrindo quando ela estiver compartilhando a conquista dela. Mesmo que não seja sangue do mesmo sangue.

Êmina se recompôs, fazendo que sim com a cabeça, assumindo a total desnecessidade para recordar a tensa divergência de opiniões do passado. No entanto, ainda assim restava a dúvida sobre o modo como a mãe explanou a respeito dos avanços na pesquisa altamente promissora.

— É... você tem razão. — aquiesceu ela para Rosie — Vamos aproveitar essa noite.

Uma salva de palmas foi dada pela multidão que se levantara quando Ophelia subia no palco com um vestido roxo que ia até seus pés. Rosie encorajou Êmina a aplaudir, pegando-a pelo braço direito e ambas o fizeram.

A vice-presidente se encaminhou ao palanque com um pequeno papel dobrado várias vezes. Tocou no microfone já ajustado há minutos, desdobrando o papel depressa.

— Primeiramente, boa noite. — disse ela, bem disposta, olhando para toda a plateia, os cabelos castanhos deslumbrantes. — Bem, como podem ver, não tive tempo de decorar todo o discurso então vou precisar trapacear. — falara, arrancando algumas risadas do público.

— Ela parece até ter seu senso de humor. — comentou Rosie, notando a semelhança.

— Somos parecidas em muitos aspectos. — respondeu Êmina, um pouco ansiosa para ouvir o discurso.

Abrira todo o papel, pronta para ler o texto.

— Em nome de toda a comunidade alquimista, que tem se esforçado e lutado por durante várias décadas exigindo o reconhecimento justo de sua importância científica, eu, Ophelia Flower, atual vice-presidente da Associação dos Alquimistas, desejo compartilhar com todos vocês os primeiros vestígios de uma conquista outrora considerada utópica. Os diagramas e equações que vocês podem ver atrás de mim — apontou com o polegar direito para os cavaletes com as anotações transcritas em folhas quadradas grandes. — significam uma sintetização material baseada em uma combinação de metais raros, fundidos e energizados em um círculo de transmutação com algumas propriedades modificadas. Além do metais fusionados, restou um ingrediente essencial para completar o processo e torna-lo efetivo. Eu testei inúmeros elementos, como água, sal e até venenos de serpentes. Mas diante das falhas, eu sabia, eu sentia que ainda não havia tentado algo. E decidir arriscar. Uma coisa me dizia que eu estava perto. — fez uma pausa, andando devagar pelo palco, olhando para a elite de membros da AA. — Testei com meu próprio sangue.

Ouviram-se alguns cochichos abafados, poucos deles não escapando aos ouvidos de Ophelia que não permitiu a postura instabilizar.

— Uma pedra filosofal inconclusiva testada com sangue humano me soa drástico. — disse Êmina, estreitando os olhos para sua mãe. — Quase que como uma tentativa de desespero. Fico mais curiosa ainda sobre os resultados.

— Sim, é verdade, apenas uma gota do meu sangue, graças à energia sinérgica da transmutação foi o suficiente para tornar a pedra 50% eficaz. — revelou Ophelia, demonstrando exultação no semblante.

— E quais foram exatamente os resultados do primeiro teste? — perguntou um dos membros, aparentemente cético, um homem de meia idade calvo, rosto fino, usando óculos de armação pequena e redonda e terno preto.

— Ela disse pedra?! — indagou outro, um senhor acima do peso caucasiano e rosto meio avermelhado, dirigindo-se ao companheiro. — Isto é inconcebível. Não consigo imaginar transformar um reles delírio em uma prova factual com resultados comprovados em poucos anos. A menos que — olhou para Ophelia com suspeita — um sacrifício maior tenha sido feito.

— O sucesso dos meus testes provaram que a lenda estava errada. — disparou Ophelia, assumindo um tom sério. — Até agora seu uso permite somente a cicatrização instantânea de ferimentos.

— E onde estão as provas? Você as trouxe? — perguntou o membro com as maçãs do rosto avermelhadas, encarando-a com severidade.

Ophelia engoliu a saliva, mas não se abatera.

— Eu disse que estava com pouco tempo, não é?

— Lamento, senhorita Flower — disse uma membra, levantando-se, uma mulher ruiva de 40 e poucos anos de cabelo curto meio chanel, rosto um pouco flácido e olhos apertados -, mas não levamos a sério desculpas como essa. Falta de tempo não justifica fracassos.

— Verdade, como se apenas falar surtisse algum efeito impactante. — disse o conselheiro Geller, o homem acima do peso do grupo, também se levantando.

— Nossas ressalvas não podem ser contestadas, senhorita Flower. — disse o membro de óculos, Sebastian, levantando-se de sua cadeira. — Meros diagramas, projetos e equações não são o suficiente, o que nos faz pensar que possui um entendimento muito abaixo do esperado sobre a dimensão dessa descoberta e acabou supervalorizando a si mesma alimentando uma utopia, o último degrau da escada da alquimia que muito provavelmente não existe.

— Não podem estar falando sério, meus testes são confiáveis, dediquei esses anos fora da cidade somente à essa ideia. — defendeu-se Ophelia, consternada com o posicionamento dos conselheiros. Os cochichos pareciam aumentar e algumas pessoas levantavam-se para deixarem o local. Ophelia percebera e sua expressão tornou-se mais desesperada, voltando-se rapidamente aos membros. — Por favor, preciso que reconsiderem. Por um momento achei que...

— Achou que nos contentaríamos com simples anotações? — disse a mulher ruiva, Clair, duvidosa.

— Afinal, por que estamos aqui ouvindo essas baboseiras? — perguntou Geller, impaciente, falando aos seus companheiros. — Esses anos de projeto e só o que essa "pedra" — fez aspas com os dedos — faz é curar feridinhas? Com 50% de eficácia?! Que exagero! Se afirma com tanta certeza então porque simplesmente não a trouxe para cá e chamou algum voluntário?

— Eu esperava exibi-la quando enfim estivesse terminada. — retrucou Ophelia, soando ríspida.

— Termina-la em quanto tempo? Cinco, dez, quinze anos? — perguntou ele, desafiador. — Uma pedra filosofal autêntica levaria décadas, talvez séculos para se aperfeiçoar, se é que um dia alcançaria o estágio definitivo!

— Eu não tenho obrigação alguma de provar mais do que minhas limitações permitem. Ainda estou aprendendo e quero continuar! — determinou Ophelia, encarando-os com fervorosidade.

— Você não é uma aprendiz, Ophelia, é uma sonhadora. — disse Clair, balançando a cabeça devagar e negativamente. — Não esperava que nos fizesse passar por esse vexame, além da perda de tempo.

— Tem razão. Adiei uma reunião em família pra isso?! Sinceramente... — disse Geller, prestes a sair da bancada.

Rosie, nervosa, olhara para Êmina como que querendo desperta-la de um transe.

— Êmina... — tocara-a no ombro — Melhor irmos embora. Você não merece assistir isso.

Com os olhos marejados, a alquimista levantou-se e andara em direção à saída a passos largos. Rosie, esperando ampara-la, seguiu-a no mesmo ritmo, resolvendo não olhar nem mais por um minuto para aquele palco onde via-se uma vice-presidente bombardeada por uma enxurrada de negativas carregadas de ceticismo.

Ophelia assistia seu público ir embora em grupos, transtornada e em lágrimas, recuando vagarosamente enquanto um sentimento de humilhação pública corroía-lhe por dentro.

***

Rosie esforçava-se para alcançar Êmina pelo corredor curvo de paredes cinzas nas quais se expunham obras de autores em representação de suas perspectivas com relação à alquimia para fins de aprendizagem. A caçadora enxugava algumas lágrimas, tentando recompor a tranquilidade.

— Êmina, me espera... — disse Rosie, caminhando em passos apressados. — Sei como está sendo péssimo, mas você precisa se acalmar, por favor.

— Era eu quem devia estar lá, Rosie. — disse Êmina, parando e virando-se para a amiga. — Em cima daquele palco, sendo humilhada, diminuída e arrasada por um bando de casca-grossas... não ela. — declarou, comovida e aturdida. — Ninguém merece passar por isso. E aí está a verdadeira razão pela qual eu rejeitei o legado que minha mãe de criação tanto sonhou pra mim. A nova diretriz que a Associação tomou nos últimos tempos, desde os meus 13 anos, é uma das mais infames e severas da história, sempre exigem demais e nunca movem um dedo para fazer algo produtivo acontecer.

— A quem você acha que ela vai recorrer depois disso? — perguntou Rosie, desconfiada.

— Não faço ideia. — respondeu Êmina, passando uma mão no rosto e virando-se para um lado. — Só sinto que... ela está escondendo algumas surpresas. Mas me recuso a ficar xeretando o que não me diz respeito.

— Você é uma caçadora, não? Investigar também faz parte do trabalho. — reforçou Rosie, apoiando-a.

— É, você me pegou. — disse ela, sorrindo fracamente. — A quem quero enganar? Curiosa devia ser meu nome do meio. Minha mãe volta de supetão, anunciando uma descoberta revolucionária cujos resultados não agradam aos especialistas por falta de provas concretas e simplesmente dá a entender que com tão pouco progresso não esperava uma reação tão desfavorável. Ela não é tão estúpida... — afirmou, imergindo em pensamentos. — Josie e Andrew já eram associados à ela pouco tempo antes de chegarmos, creio que uns 10 dias.

— E provavelmente vão ter mais trabalho cuidando do reembolso. — salientou Rosie, a expressão de desconforto por se sentir mal com aquele furdúncio.

— Pois é, vão estar atolados de serviços... — disse Êmina, pensativa, com um polegar nos lábios. — Meu pai está fora da cidade, se eu enviar uma carta ela vai descobrir...

Um moderado barulho de estilhaçar de vidros cortara o raciocínio da alquimista repentinamente. As duas olharam, alarmadas, para o além do corredor.

— O que terá sido isso? — perguntou Rosie, sentindo uma atração dominadora querer arrasta-la até o ponto onde o objeto quebrou-se. — Eu vou na frente.

— Não vai não. — disse Êmina, impedindo-a de passar com o braço esquerdo, o olhar implorante sinalizando que o necessário era deixar que ela assumisse por sua conta. — Você reclamava que o Hector tentava te proteger quase o tempo todo, então acho melhor você não querer bancar a heroína hoje, não na minha cidade. — falara, com certo humor. Rosie dera uma risadinha. — Você deve ir para o lado de fora, seja lá quem for ou o quê for, talvez haja uma chance de encurrala-lo.

— Toma cuidado. — recomendou Rosie, logo andando na direção em que vieram, quase correndo.

***

Êmina espiou cuidadosamente pela brecha da porta o interior do gabinete do presidente. Detectou ínfimos cacos de vidro espalhados diante da janela, sobre o carpete vermelho, o que a motivou de imediato a adentrar com urgência. "Essa é a primeira e a última vez que entro na sala do presidente!".

Esquadrinhou o recinto com os olhos, em busca de mais evidências, dando alguns passos vagarosos.

"Minha mãe é a organizadora dessa conferência... e, até onde eu sei, ela é extremamente rígida com segurança, não deixa nada passar. Nenhum penetra, por mais esperto que seja, escapa da direção que ela impõe à segurança, ainda mais quanto a um evento onde ela revela um projeto que envolve a pedra filosofal. Rosie tinha razão o tempo todo... ", pensou ela, imergindo em teorias, logo sua visão batendo de frente com o cofre. Andou até ele, embasbacada.

— Caramba... — disse ela, baixinho, para si mesma, tocando na pequena porta metálica do cofre. Percebeu algo estranho... um afrouxamento na porta logo ao primeiro toque — Ele conseguiu abrir... — disse, puxando a maçaneta e reparando colocado no chão. Não surpreendeu-se com o vazio de dentro. — O que quer que tenha estado reservado nesse cofre... certamente é valioso demais a ponto do presidente guardar em sua própria sala, afinal, ele mora na Associação. — fechou o cofre, correndo para sair dali o mais rápido possível, mas tratando de fechar a porta com o mesmo cuidado com que abrira-a.

Uma nova e mais desesperadora curiosidade a atormentara a partir daquele instante. Era a hora de usar da sua influência para solucionar um problema.

***

Enquanto Êmina tentava recorrer a algum membro de elite da AA, Rosie descia os degraus da escada de concreto em frente à estrutura, segurando as partes baixas do seu vestido carmesim.

Em meio às luzes dos postes, avizinhava-se a figura de um homem de estatura alta, troncudo, barba por fazer e de cabelo preto curto e meio "espetado" em algumas partes. Olhou diretamente para Rosie em um misto de expectativa e anseio, acelerando sua andança o que por conseguinte a fez parar a poucos degraus antes que pudesse pisar no chão. Sua observância suspeitosa não pareceu fazê-lo desistir.

— Eu posso ajudar? — perguntou Rosie, a voz retraída.

— Com certeza. — respondeu o homem, aproximando-se cada vez mais, seus olhos verdes parecendo estarem brilhando. Suas vestes assemelhavam-se as de um caçador: colete de couro por cima da camisa, cinto apertado, calças sociais e botas marrom. — Muito prazer, sou Julian... atual esposo de Ophelia Flower. Preciso que...

— Você é o pai da Êmina!? — disse Rosie, um tanto espantada. — Mas porque você não...

— Não, espere, só ouça-me, por favor. — pediu ele, educadamente, retirando uma folha de papel do bolso. — Não há tempo para explicações. Pelo menos não hoje. — falara, entregando-a à jovem que, relutante, aceitou. — Abra, leia e mostre à Êmina, e somente á ela, quando estiverem sozinhas.

— Espera aí. — disse Rosie, aparentando impaciência, fechando os olhos por uns segundos. — Eu quero entender... Como você sabe que Êmina e eu temos uma ligação?

— A pergunta óbvia seria: "Por que eu devo confiar em você?". Na verdade, não posso responder, talvez eu deva temer a mim mesmo pelas escolhas que fiz. — disse ele, tranquilo. — Só quero que faça esse favor, estará ajudando a capturar o verdadeiro responsável. Conto com vocês. — declarou, logo andando para a direção à sua esquerda, indo embora.

— Espera aí! — pediu Rosie, elevando o tom. Julian parou, porém sem se virar — Que verdadeiro responsável? Nós duas ouvimos um barulho e Êmina foi verificar. Se você tem alguma informação, se sabe mais sobre isso, então por que não fala exatamente agora? Do que está fugindo?

— Não é uma fuga. — retrucou Julian, ainda de costas. — É um ato corajoso. Estou me divorciando não só de um pacto, mas de uma relação que perdurou mais do que deveria e menos do que eu gostaria.

— Tudo bem, se quer manter no mistério, vou parar de questionar. — decretou Rosie, segurando a folha.

— É melhor assim. Mas me prometa. — pediu Julian, o tom sério. — Ophelia não sabe que voltei. Portanto, prefiro que sejam discretas e mantenham-se alertas. O resto deixarei que descubram por si mesmas. Até mais ver. — dissera, definitivamente caminhando para se afastar daquela área.

De fato, Rosie extraiu uma má impressão do pai adotivo da sua melhor amiga em vista de tantos segredos ocultados. Ele estaria sendo coagido a dizer menos do que queria? Trabalhando para alguém com intenções de sabotar a pesquisa de Ophelia e arruinar a sua tão ansiada candidatura à presidência da Associação?

Fosse o que fosse que estivesse escrito naquele papel certamente tinha conexão intensa com a suposta invasão ao prédio da Associação, embora os indícios de divórcio em nada pareciam apontar Julian como um suspeito primário. "A julgar pela aparência, não me é do tipo vingativo. Mas isso não basta, preciso encontrar Êmina rápido.", pensou ela, tomando a iniciativa de retornar ao local, novamente subindo os degraus, mais depressa.

Entretanto, um farfalhar desajeitado lhe chamou a atenção ao bosque que ficava logo em frente à parte lateral esquerda da estrutura. Virou o rosto diretamente ao bem arborizado lugar, a expressão de desconfiança pulsando na face. Pulando alguns degraus em descida, Rosie correra para certificar-se do que realmente estaria perambulando numa floresta pequena no meio da noite.

A corrida fez seus pés começarem a ficar ardentes em um incômodo causado pelo sapato apertado que estava usando, evidentemente inoportuno à uma situação como aquela.

Por conta disso, não avançou os quatro metros. Parada em meio às árvores banhadas pelo luar sombrio, ela logo detectou um vulto percorrer pelas folhagens prendedoras, mas sua intuição a orientou a hesitar. Viu um ser humanoide, ombros e costas curvadas, pálido e coluna vertebral saliente. Encarou com espanto contido, mas soube que a melhor opção foi permanecer estagnada com base na suspeita de que a coisa não sentiu a perseguição ou é desprovida de percepção aguçada.

O coração da jovem voltou a descompassar subitamente quando sentira uma mão tocar em seu ombro esquerdo com rapidez.

Rosie lançou um grito rápido ao se virar e quase partir para se defender. O alívio viera instantâneo ao dar-se conta de quem se tratava.

— Isso não tem graça... — disse Rosie, esboçando um fraco sorriso com a mão no peito.

— É, eu sei, me desculpa. — disse Êmina, desconcertada. — O que você estava fazendo aqui? Saí e parecia que você tinha virado fumaça.

— Eu... — disse Rosie, cortando a fala ao olhar para a direção onde o ser estranho se encaminhou — Vi alguém, aparentemente correndo, estava fugindo...

— Você viu o invasor? — perguntou a caçadora, sua voz soando mais alta até mesmo para ela.

— Shhh... — chiou Rosie, olhando de esguelha para a direção com o dedo indicador na frente dos lábios. — Nem deveríamos estar aqui agora, pode estar à espreita. — olhou para Êmina — Alguém realmente invadiu?

— Veio da sala do presidente. A porta escancarada, cacos de vidro espalhados no chão... — inclinou-se levemente para falar — Um cofre aberto.

— O que tinha dentro? — perguntou Rosie, preocupada.

A alquimista revirou os olhos.

— Ai, Rosie, até parece que não aprendeu nada na sua temporada de caça com o Hector. Se eu disse que o cofre está aberto, você acha que o que estava nele continuou lá?

— Deve ser a aflição. — disse Rosie, suspirando. — Além do mais, nos 5 dias que se passaram ele nem se deu ao trabalho de me ensinar algumas técnicas investigativas.

— Você também não pediu. — retrucou Êmina, sorrindo tortamente. — Não entendo. Achei que ser caçadora passava longe de ser sua profissão alternativa.

— Eu nunca disse que quero me tornar uma caçadora. — declarou Rosie, sorrindo fracamente. — Apenas jurei a mim mesma que... depois que resgatássemos Charlie e derrotássemos Abamanu eu finalmente estaria livre para seguir meu caminho.

— Eu até conversaria mais a respeito, mas estamos sem tempo. — disse Êmina, respirando fundo. — Vamos nos concentrar nesse caso. Conseguiu alguma pista, por menor que seja?

— Um cara supostamente nu, careca, magro e pálido correndo pela floresta... — disse Rosie, logo tratando de retirar o papel que Julian lhe dera do decote de seu vestido. — E isto. — entregou á Êmina. — Não vai acreditar em quem me deu.

— Ai caramba... — disse a alquimista, dando uma olhada no conteúdo, a expressão de preocupação. Ergueu a cabeça, fitando Rosie por alguns segundos. — Reconheceria essa grafia num piscar de olhos. — fez uma pausa, novamente visualizando a folha. — Meu pai está na cidade. E falou com você... Mas é estranho. Isso... isso aqui é uma carta que ele escreveu para minha mãe há anos.

— Ele disse que a solução desse caso só depende de nós duas. — revelou Rosie.

— Rosie... vamos para a pensão. — decidiu Êmina, dobrando a carta.

— Você não vai voltar para ver como está sua mãe? — perguntou Rosie, estranhando.

— Ela é uma das pessoas mais fortes que já conheci. Você em primeiro lugar, é claro. — disse ela, apressando-se. — Olha, só quero dormir. Não tenho cabeça para ler essa carta inteira ainda hoje.

— Tudo bem, afinal ele disse que deveríamos lê-la quando estivéssemos a sós. — disse Rosie, dando início à caminhada de volta. — E esta floresta não é o local mais adequado no momento.

Ambas enveredaram pelo caminho de volta, pretendendo avançarem direto para a pensão.

Ás escondidas, o ser esquelético e corcunda observava-as irem por detrás de uma árvore.

CONTINUA...