Capuz Vermelho - 3ª Temporada

43 E tudo se transforma (Parte 1)


Notas iniciais
Capítulo 3x12. Boa leitura.

Nas profundezas de um local rústico, cinzento e sombrio, jazia um ser inerte, pálido, nu e envolto de correntes dentro de uma enferrujada jaula capacitada para comportar um ser de seu tamanho.

A única luz provinha de uma abertura ínfima e quadrada, localizada à uma curta distância da jaula. Através dela, a luz do luar penetrava no imundo piso de concreto.

E por uma pequena brecha na porta, olhos atentos fixavam-se na criatura fadada a estar trancafiada.

— Somente uma visita casual. — disse a mulher, em tom sussurrante. — Logo irá acordar... filho.

A brecha ia diminuindo... até que, enfim, sumira com o fechar silencioso da porta.

***

Ferrovia Leste, à caminho de Waytehaal

A todo vapor, em uma bela e refrescante manhã ensolarada, o trem seguia direto à cidade natal da integrante da Legião dos Caçadores mais requisitada por seu incrível manejamento de uma ciência há muito tempo menosprezada pela massa consumidora de bobagens e pela elite que inclinava-se na observação e acompanhamento da dita "ciência única e verdadeira" com uma indiferença muitas vezes até mais infame que a da outra classe.

Sentadas em assentos do quarto vagão de passageiros, uma diante da outra, Rosie e Êmina aguardavam esperançosas o fim da longa viagem de duração aproximada de 4 horas e meia. A primeira ansiosa por conhecer uma cidade vista como peculiar por olhos preconceituosos devido ao seguimento da tal falsa ciência — ou, para os mais fervorosos, a "ciência do diabo". Já a segunda, lia um guia oficial da cidade como se quisesse se familiarizar novamente aos costumes e rotina da cidade em que nasceu e viveu sua infância e parte da adolescência antes de ingressar no Colégio de Caçadores para o disputado teste de qualificação. Por um instante, ela pegou-se num momento fugaz de uma nostalgia ácida, mal olhando para o livro, ao revisitar cenas de discussões acaloradas acerca do seu sonho incompreendido. Tão imersiva que quando recobrou a concentração sentiu que durante o transe nem estava segurando algo ou dentro de um trem em movimento.

Rosie percebeu a instabilidade e se viu obrigada a perguntar.

— Esse livro está te entediando? — perguntou ela, o bom humor irônico nítido, os olhos voltados para a amiga. — Há pouco tempo parecia até mais interessada em se reabituar à sua amada cidade.

— Ah, não é isso, é que... — pausou, baixando o guia, hesitante. Relanceou a paisagem exterior e voltou-se à Rosie. — De fato, estou animada, até demais, mas às vezes penso que quando saí de lá aos 16 anos as pessoas mais próximas da família tenham formado uma impressão negativa, não que eu esperasse um comitê de recepção super caloroso... — sorriu pra si mesma, um tanto emocionada. — Mas é a minha família. Tanto tempo longe deles, e ainda nem sei por onde começar quando me perguntarem se valeu a pena ou não.

— Não acho que deve provar nada aos que duvidaram de você. — disse Rosie, conselheira. — No seu lugar, eu me importaria em dividir os frutos dessa experiência com aqueles que realmente estavam dando algum apoio.

— Não se trata dos "amigos" da família — disse, fazendo aspas com os dedos -, muito mais em parte da minha mãe... postiça.

— Postiça não soa meio... pesado? — indagou Rosie, estreitando os olhos, um tanto incerta.

— É até mais aceitável do que mãe falsa. — respondeu Êmina, dando de ombros, voltando à sua leitura.

— Bem, até agora você não me falou nada a respeito dela. — disse Rosie, curiosa, olhando pela janela.

— Eu prefiro falar sobre o porque de você recusar minhas dicas de moda, mas daí pensei: "Que imbecil eu sou, é a minha melhor amiga, não acho justo dar palpite no que ela deve ou não vestir para se portar adequadamente ao meu povo".

— Você disse... melhor amiga?! — disse Rosie, empertigando-se, como se não tivesse ouvido direito.

Êmina ergueu a cabeça e olhou-a meio nervosa.

— Ahn... Foi. — respondeu, rapidamente, as pupilas movendo-se depressa. Deu um veloz sorriso aberto. — Por que a surpresa?

— Não, é que... — disse Rosie, sem saber como reagir. — Você é a primeira pessoa que me diz isso. — revelou, a cabeça meio baixa e os braços apoiados na mesa. — É meio estranho, não acha? Nos conhecemos há tão pouco tempo.

— Nem tão pouco assim. — retrucou Êmina, os olhos nela, balançando levemente a cabeça com um não. — Amigos de verdade se sentem desse jeito. Quando o entrosamento chega a certo ponto a noção de tempo meio que muda e ambos se sentem como se tivessem se conhecido há anos. E eu sinto que foi assim conosco. Mesmo que tenhamos perdido dois anos de nossas vidas, os fracassos não abalaram nossa amizade. Esperei muito por você... desde o dia em que me colocaram naquela cela imunda. E tenho certeza que os outros também esperaram.

Aquelas palavras reanimaram a confiança de Rosie de um modo arrebatador. Ela assentiu, um pouco sem jeito e séria, mas certamente grata pelo apoio.

— Eu sei disso. — disse ela, sorrindo de leve.

— Vai escrever para o Adam? — perguntou Êmina, de supetão ao voltar para sua leitura, assustando Rosie.

— Ei, vai com calma. Não íamos falar sobre você quase me proibir de usar meu manto? — indagou ela, meio desconcertada.

— Só responde a pergunta, por favor. — disse ela, rendendo-se à desconcentração mais uma vez, baixando o livro e olhando-a com expectativa. — Tenho quase certeza de que deixaram acontecer naturalmente...

— Agora você já está indo longe demais. — disse Rosie, sorrindo, apontando para ela com o indicador direito. — Na verdade, foi o contrário, ele escreveu pra mim. Mas não penso em enviar uma resposta. — fez uma pausa, assumindo um tom mais sério. — Ele precisa de um tempo. Talvez depois de quebrar a cara de uma forma tão traumática ele nem pense mais em caçar.

— Deve estar se perguntando... se Lester e eu estivemos errados em perdoar o Hector. — disse Êmina, olhando para Rosie fixamente, depois afastando um mecha do cabelo para atrás da orelha esquerda.

— Não, não estavam. Nessa situação, a única coisa que o Adam e eu tínhamos em comum foi o fato de termos reagido de maneira agressiva quando descobrimos a verdade. — disse Rosie, pensativa. — Hector mentiu por medo, não confiou nos próprios amigos. — Não tenho porque culpa-lo, porque eu fiz praticamente o mesmo. Mas eu esperava que ao menos ele se permitisse superar, deixar essa nuvem negra passar aos poucos.

— Mas pelo visto ele não confia no ditado de que o tempo cura todas as feridas. — disse Êmina, parecendo desapontada pela decisão do amigo.

— As vezes cicatrizar velhas feridas significa abrir novas. — disse Rosie, novamente olhando a vegetação pela janela.

— Veja pelo lado bom: Se não fosse por ele, não teríamos conhecido você. — disse Êmina, assumindo a posição aconselhadora há poucos minutos pertencida à Rosie. — Também não critico o Adam por ter surtado de raiva, foi uma reação natural porque eles eram muito próximos e aquela amizade tinha um significado que ele faria de tudo para preservar, o que é uma pena já que, em se tratando disso, só dependeu do Adam. — fez uma pausa, pegando novamente o guia de Waytehaal. — E, francamente, parar de caçar só porque seu melhor amigo te decepcionou de pior forma possível é, no mínimo, idiotice. Conheço o Adam talvez até mais do ele mesmo. Ele não larga o osso assim tão fácil. É só uma fase e como qualquer uma... vai passar.

— Assim espero. — disse Rosie, assentindo positivamente enquanto observava a paisagem.

Um garçom veio até elas para servir o café.

— Aqui está. — disse ele, pousando as duas xícaras na mesa.

— Obrigada. — disseram ambas, em uníssono.

O garçom gentilmente meneou a cabeça fazendo que sim e se fora.

— Espere só para se surpreender com o acervo do museu. — disse ela, logo dando um gole no café. — É parte integrante da sede da Associação dos Alquimistas.

— Deixa eu adivinhar: Você só falou isso porque o guia ajudou você a lembrar. — disse Rosie, fazendo uma cara de suspicácia com um sorrisinho misterioso.

— Não, na verdade eu nem sabia que tinha um museu. Esse guia é bem atualizado. — disse ela, olhando para o livro, com um dedo entre uma página e outra. Olhou para Rosie, controladamente empolgada. — Mal posso esperar para conhecer.

***

Waytehaal — Ponto de entrada.

Alguns anos longe da sua amada cidade pareceram fazer Êmina esquecer-se dos rumos a se seguirem para chegarem a um determinado local outrora bastante frequentado por ela. Ambas caminhavam por uma esquina à procura da pensão administrada pela mãe adotiva da alquimista, Ophelia Flower, passando por várias residências em uma rua relativamente movimentada — e repleta de pombos.

— De acordo com o guia, fica em frente à praça central. — disse Êmina, com o livrinho aberto diante do seu rosto enquanto apertava o passo. — Onde eu costumava brincar com meu labrador nas manhãs de sábado, único dia livre das aulas sobre alquimia na escolinha para jovens aprendizes na Associação. — olhou de relance para Rosie, meio desconcertada. — Me diz aí: Estou parecendo uma guia turística ou uma saudosista praticamente amnésica?

— Um pouco das duas. — disse Rosie, o ar bem-humorado, andando no mesmo ritmo e visualizando a área urbana da cidade. — O que, convenhamos, não é uma combinação muito boa. — olhou para ela. — Você não precisa se lembrar de tudo para voltar a se sentir parte da sua cidade.

— Logo você, a voz da experiência... quem sou eu pra contrariar? — disse a caçadora, fechando o guia e guardando-o no bolso de trás.

— Minha experiência de amnésia não serve como parâmetro. — retrucou Rosie, franzindo o cenho e sorrindo de leve.

— A propósito, só uma dúvida: Quando Abamanu devolveu suas memórias, você continuou com as que você tinha quando estava andando com aquela coisa magrela e sem rosto? — perguntou ela, olhando-a com curiosidade.

— Não lembro de nenhuma coisa magrela e sem rosto como companhia. — disparou Rosie, fazendo que não lentamente com a cabeça, levantando uma sobrancelha.

— Ah, que bom. — disse Êmina, dando-se por satisfeita, atravessando a rua em direção á praça. Rosie a seguiu, apressando-se. Não tardou para avistar, mesmo com as árvores da praça quase ocultando, a placa retangular vermelha no alto da fachada com o letreiro. "Pensão Flower... Nem consigo acreditar!', pensou ela, andando mais rápido. — E terra firme à vista. — apontou para o local. — Vamos.

***

— Tem chamado muita atenção com esse capuz vermelho berrante. — disse Êmina, quase soando como uma reclamação, ao abrir uma porta dupla da entrada da pensão, sentindo toda a aura nostálgica logo ao pisar novamente no chão de tábuas de madeira cor de avelã. — Vou ficar famosa com minha amiga fantasiada.

— Pára, não tem graça. — disse Rosie, quase aos risos, batendo seu braço direito de leve com o esquerdo da amiga que rira com o gesto. As duas voltaram-se para a recepção. O jovem rapaz ruivo que cuidava do balcão e sardento as fitou com nervosismo contido.

— Você é novo por aqui? Recém-contratado? — perguntou Êmina ao jovem.

— Temporário. — disse ele, acanhadamente.

— Ah, sim... — disse Êmina, assentindo positivamente, logo tirando o dinheiro para a reserva. — Quarto para dois. — disse ela, entregando.

— Não há vagas. — disparou o rapaz, a expressão meio dura. Relanceou Rosie.

— Se não houvesse deveria ter uma placa avisando... — contestou Êmina, desconfiada. — Não acha? — perguntou, franzindo o cenho. Falou baixinho para Rosie: — Ao que parece, sua capa não agradou ao estagiário.

O jovem recepcionista pigarreou fortemente, dando a entender que ouviu ter sido chamado de estagiário.

— Olha, quero falar com a atual gerência dessa espelunca, se não for pedir demais. Ou você mesmo pode ir por mim, dizendo que Êmina Flower voltou para matar as saudades e acompanhada de uma amiga que não merece ser destratada pela maneira como se veste. — disse Êmina, soando rígida.

— Você disse... Flower? — indagou o rapaz, empertigando-se com surpresa. — Por que não disse antes?

— Por que você não me perguntou. — disparou ela, revirando os olhos, a expressão séria. — Eu preciso que vá, por favor. Nós somos apenas amigas, se está pensando que estamos em lua de mel.

— Não estou pensando em nada. — disse o jovem, estreitando os olhos, prestes a dar a volta no balcão para falar com o superior.

Rosie voltou-se para a amiga com um olhar de estranheza.

— O que foi? — perguntou Êmina. — Viemos para nos divertir. E foi bom começar quebrando alguns tabus.

— Espera aí. — disse o rapaz, aparentando suspicácia, apontando para Êmina. — Posso não conhecer muito da história dos Flower, mas sei quando alguém está mentindo pra mim. Quero que me prove que é quem diz ser.

— Agora ele está se soltando. — disse Rosie, não gostando da postura do rapaz.

De repente, uma voz quebrara todo o clima de tensão. Uma voz que fizera Êmina arrepiar-se por inteiro em questão de segundos.

— Você quer a prova? Aqui está ela. — disse uma bela mulher de rosto moreno, olhos verdes, sobrancelhas angulosas arqueadas, cabelos castanhos meio ondulados que lhe caíam até os ombros. Vestia um manto azul turquesa amarrado com um nó abaixo do pescoço, por cima de uma camisa branca com mangas que iam até os pulsos, além de um espartilho meio marrom meio bege e uma calça de couro preta apertada e botas marrom claro de salto alto.

Êmina virou-se no mesmo instante, dominada pelo poder daquela voz.

— A senhora é... — disse o rapaz, meio perdido.

— Mamãe!? — disse Êmina, sem saber o que pensar, por um lado espantada, por outro extremamente feliz pelo retorno inesperado.

— Mamãe!? — indagaram Rosie e o jovem em uníssono.

— Olá, filha. Há quanto tempo. — disse Ophelia, sorrindo para Êmina, entrando e carregando sua mala na mão direita.

— Se importa de eu ajudar com a mala? — perguntou o jovem, rapidamente indo até a moça, prestativo.

— Ficaria agradecida. — dissera ela, gentilmente. Voltou-se para sua filha, logo abraçando-a. — Oh... — interrompeu o abraço para estuda-la com ar de orgulho, tocando-a nos ombros. — Não tenho dúvidas de que se tornou uma grande mulher. Pelo visto, eu estava totalmente enganada sobre o lugar em que você quis se enfiar.

— Falando assim até parece que não mudou de opinião. — disse Êmina, não contendo sua emoção em rever sua mãe adotiva, aquela que lhe acolheu nos braços quando tudo parecia perdido.

— Que nada. Estou orgulhosa de você. Li todas as cartas que me mandou. — disse Ophelia, contente.

— E o papai? — perguntou Êmina, meio receosa. — Ainda estão brigados?

— Ahn... — Ophelia baixara um pouco a cabeça, mordendo os lábios. — A razão da viagem foi em virtude de outra coisa. Mas seu pai e eu estamos fazendo o possível para... resolvermos nossas diferenças o mais breve possível.

— Tomara. — disse ela, em seguida voltando-se para Rosie. — Mãe, quero que conheça minha amiga, diretamente de Raizenbool... Rosie Campbell. — apresentou-a com gosto.

— Muito prazer. — disse Ophelia, sorrindo, estendendo-lhe a mão.

— O prazer é todo meu. — respondeu Rosie, em um aperto de mão. — A Êmina tem falado muito bem de você a viagem inteira.

— Eu imagino. — disse Ophelia, dando uma risadinha bem-humorada.

— Mas e aí? Porque voltou assim tão de repente.? — perguntou Êmina, querendo saber logo o que motivou o retorno da mãe.

— Vim compartilhar com a cidade o sucesso mais recente dos meus estudos. Estive aprimorando minhas experiências com uma equação infalível para avançar o projeto da pedra filosofal definitiva. — revelou ela, com certa empolgação. — Diria que uns 85%, praticamente em fase conclusiva.

— Não brinca. — surpreendeu-se Êmina, contagiando-se pelo entusiasmo transparecido. — Isso é demais. Vai mexer com toda a comunidade alquimista. Já enviou uma carta para a Associação?

— Na verdade, resolvi apostar em uma divulgação menos discreta, selecionando alguns moradores da pensão a contribuir com panfletagens. Quero que pelo menos pouco mais da metade da cidade saiba que há um progresso real e em curso sobre a conversão de uma lenda em fato. — declarou Ophelia, confiante de si, olhando para Êmina e Rosie.

Ouviram-se passos descendo as escadas no lado esquerdo próximo ao balcão.

Eram os dois jovens designados a cooperarem com a proposta da vice-presidente da Associação de Alquimistas. Não contiveram a estupefação ao se depararem com a grande pioneira.

— Ela está aqui! — disse Josie, alegremente, pulando os degraus. Uma garota de descendência asiática de cabelos pretos e lisos usando uma tiara violeta e um vestido da mesma cor, florido e caseiro.

— Nossa, nem acredito! — comemorou Andrew, um rapaz de vinte e poucos anos, de cabelos pretos meio crespos e rosto quadrado e caucasiano, além do sorriso radiante e largo e os olhos castanhos. Vestia uma camisa listrada de manga longa, cinto e calças e sapatos sociais. Visualizou de relance Rosie e Êmina. — E você é...? — dirigiu-se à Rosie com interesse.

— Ah, eu sou uma simples acompanhante da herdeira Flower. — disse ela, meio retraída, sorrindo. Apertara a mão dele. — Me chamo Rosie.

— Andrew. — disse ele, entusiasmado. — Já soube da novidade? — olhou para Ophelia e voltou-se para Rosie. — Finalmente poderemos ter um sonho se realizando. É a pedra filosofal. Imagine um mundo sem doenças, sem mortes prematuras por causas naturais, imagine uma humanidade mais forte... É tudo o que sempre quisemos. Vai mudar nossas vidas. Vai mudar o mundo.

— Rosie, está é a Josie — disse Êmina, apresentando-a -, está na fase preliminar para ingressar na escolinha da Associação. — fez uma pausa, pondo-se entre as duas. — Rosie, Josie. Josie, Rosie. — dissera, em tom brincalhão, logo depois soltando uma risada.

— Nem acredito que será hoje à noite. — disse Josie, empolgada. — Trabalhamos duro, por 15 dias, para convencermos o máximo de pessoas possível a ir na conferência.

— E estão de parabéns pelo esforço. — congratulou Ophelia, tocando-os no ombros. — Pelo visto, estive certa de que vocês eram perfeitos para fazer isso acontecer. Mais de 100 bilhetes vendidos... não poderia estar mais feliz. — disse, abrindo um sorriso.

— Espero que dê tudo certo. — disse Êmina, confiante no trabalho da mãe. — Me admira muito passos tão largos em tão pouco tempo numa descoberta tão revolucionária. Estou... orgulhosa da senhora.

— E além de tudo isso, pretendo, em breve, me candidatar à presidência da Associação. — disse ela, transparecendo um pouco de modéstia na fala e na postura, embora sem ocultar sua satisfação.

— Uau — soltou Êmina, sorrindo de leve. — Já era tempo hein?

— Pode contar com o meu voto. — disse Josie, a fala rápida.

— E o meu também. — disse Andrew, erguendo levemente o indicador esquerdo.

— Quando será a eleição? — perguntou Rosie, curiosa.

— Daqui à 2 anos. — respondeu Ophelia, fazendo que sim com a cabeça.

Rosie demonstrou certo espanto ao arquear as sobrancelhas.

Ophelia, por outro lado, sorrira para ela.

— É que não queremos nos apressar, ainda faltam vários detalhes, além de que seria bem desconfortável organizar uma eleição em plena época de sangue. — disse ela, desfazendo-se do sorriso ao lembrar-se da situação de tensão que alguns países estavam vivendo.

— É, faz sentido. — concordou Rosie, olhando para Êmina de relance.

— Bem, vejo vocês na conferência. — disse Êmina para Josie e Andrew. — Queríamos alugar um quarto, mas o estagiário ali — apontou com o polegar direito para trás — não nos atendeu de forma decente, então...

— Não precisam se preocupar, deixem por minha conta. — disse Ophelia, prestativa.

— Você tem sorte de ter uma mãe assim, Êmina. — disse Josie, olhando para Ophelia com admiração.

— Muita sorte. — complementou Andrew, com o mesmo sentimento de euforia da amiga.

— É, eu sei bem disso. — disse Êmina, meio encabulada. — Enfim, obrigada. Se um dia eu puder retribuir...

— Não, não é necessário. — cortou Ophelia, tocando suavemente no rosto da filha. — Apenas quero que aproveite ao máximo estando do lado de sua amiga. — relanceou Rosie. — Se possível protegê-la.

— Olha, devo admitir, mãe: A Rosie sabe se cuidar sozinha. — disse ela, quase aos risos.

— Não tiro a razão dela. — aquiesceu Rosie, sorrindo abertamente.

— Estejam lá na sede às oito. — disse Ophelia, entregando para ambas dois bilhetes gratuitos. — Se ainda desse tempo, eu faria questão de reservar lugares na primeira fileira. — voltou-se para os dois colaboradores — E quanto à vocês... presumo que queiram ajuda com a lista de convidados especiais.

— Bem, é verdade — disse Andrew -, os estudos praticamente sugaram muito do nosso tempo disponível.

— Ficamos imensamente gratos que queira ajudar numa tarefa tão simples. — agradeceu Josie, não deixando o entusiasmo se perder.

— Então, ótimo. Podemos fazer isso na biblioteca da sede. O que acham? — propôs Ophelia, transmitindo-lhes disposição.

— Por mim tudo bem. — concordou Andrew, esfregando as mãos.

— Eu topo. — disse Josie, sorridente.

— Vocês podem ir. Nos vemos mais tarde. — disse Ophelia para Rosie e Êmina, logo virando as costas para sair ao lado dos dois jovens engajados na iniciativa. — Escolham um dos quartos que está com a fita vermelha, significa que estão desocupados.

— Pode deixar. A gente se vê. — disse Êmina, carregando sua pequena mala, gesticulando com a cabeça para Rosie em sinal de que deveriam entrar logo. — Vamos lá, Rosie. — a jovem encapuzada acompanhou-a por trás.

***

Sede principal da Associação dos Alquimistas


No escuro gabinete do presidente — uma pequena parte iluminada apenas pelo luar que atravessava a janela retangular vertical — uma figura meio corcunda, umbrosa e esquelética se aproximava na ponta dos pés em direção a um quadro próximo à estante de trás da mesa.

Suas mãos magérrimas e meio cinza-azuladas tocaram nas laterais da moldura, logo removendo o quadro cuidadosamente e depositando-o no chão.

O quadro nada mais era do que uma fachada para um cofre de combinação obtida pelo giro do botão.

Ao tentar destravar com o número de voltas que lhe foi dito, sua segurança nos dedos era controlada de modo a fazê-lo como se não temesse nenhum possível flagra.

Por fim, a combinação se mostrou correta e puxou a maçaneta do cofre.

No interior jazia um objeto valioso conhecido por carregar um forte simbolismo. Uma serpente de prata, com rústicas escamas de dragão, devorando a própria cauda formando um círculo perfeito.

Pegara-o rápido e fechara a porta com o mesmo cuidado com que abrira-a.

CONTINUA...