Capuz Vermelho - 3ª Temporada
8 Deuses entre nós (Parte 2)
O ruído do motor de um veículo blindado — pintado de verde escuro e marrom claro — entrava em ignição, estacionado no enorme pátio do lado de fora do QG.
Alguns caçadores e soldados do Exército conversavam antes de entrarem, empunhando suas metralhadoras e rifles de grosso calibre.
De uma porta dos fundos do prédio saíra Hector, dirigindo-se com pressa à Edgar — que o aguardava próximo ao carro, seu colete marrom escuro repleto de munições prendidas em cintos envoltos do corpo.
— E então, como foi com o General? — perguntou ele, olhando para Hector com expectativa.
— Um pouco tenso, eu diria. — respondeu, parecendo cansado, mas preparado para a missão. — Ele aceitou minhas solicitações, até aí tudo bem. Você soube de antemão que eu estaria em uma missão de teste?
— Bem, eu não fui totalmente honesto com você... — disse Edgar, coçando a cabeça e olhando de soslaio para um ponto do chão, meio sem jeito.
— Ah, como isso me assusta... — reclamou Hector, desviando o olhar para um lado, temente.
— Está tudo bem. Podemos assumir que eu estava querendo que você se surpreendesse.
— Eu me prepararia melhor se tivesse me contado antes. — retrucou Hector, lançando um sorriso nervoso.
— É a primeira vez que vou ver um caçador da Legião em ação, então... — ele tocara o ombro direito de Hector sorrindo abertamente. — ... não me decepcione.
Hector baixara a cabeça, também sorrindo, um tanto encabulado por ter que servir de exemplo para inspirar um caçador de aluguel que se auto-exilou do Colégio dos Caçadores.
— Ahn... Edgar. — chamou Hector, antes que o companheiro entrasse no carro. — O General não me especificou o objetivo do teste. Para onde nós vamos.
Suspirando, decepcionado com a falta de clareza do general Holt, Edgar descera do veículo.
— Ele disse isso mesmo? Teste?
— Sim. — disse Hector, assentindo com a cara fechada ao lembrar da forma quase indiferente do chefe ranzinza em se portar diante do caçador.
— Teste o cacete. — respondeu Edgar, balançando a cabeça levemente em negação. — Esta é sua primeira missão oficial conosco. Ele apenas disse isso porque está o subestimando. Acha que conhece os homens que recruta como a palma da mão. — deu de ombros, despreocupado. — Não ligo para o que ele pensa. Acredita que é o único que está no controle.
— Pode não estar totalmente... — disse uma voz áspera por trás de Edgar. — Mas é o que está mais gerando influência sobre nós. — argumentou um soldado de alta estatura e face vigorosa. — Seu chefe caçador pouco está contribuindo e ainda se acha no direito de dar palpites na administração do General?!
Edgar virara-se para ele, exibindo um semblante de tédio e pouco interesse.
— Olha, se vamos discutir qual chefe é melhor... Prefiro que seja quando tudo estiver acabado, quando não formos mais "colegas". — disse, fazendo aspas com os dedos.
O soldado o fuzilou com um olhar.
— Meça suas palavras... soldado. — rebateu ele, virando as costas.
— Você também... caçador. — redarguiu Edgar, com ironia. Voltou-se para Hector, empertigando-se. — Muito bem, hora de irmos. Chesterfield, condado de Derbyshire. Lar dos meus tios e primos. As tropas que comando estão posicionadas lá como vigilantes e nos informaram que há várias vans estacionadas perto das residências. Eles suspeitam que os infectados estejam sequestrando pessoas para conduzi-las ao covil do cabeça desse plano ardiloso. — inclinou-se para frente para sussurrar algo. — Aquele que você não quer que eu mencione entre eles.
— Há quanto tempo receberam o último alerta? — perguntou Hector, adquirindo tensão.
— Uns dez minutos, aproximadamente.
— Então devemos ir rápido. — disse Hector, abrindo a porta do veículo. — Seja lá o que nos espera... É bom que tenhamos a chance de ir mais longe e cortar o mal pela raiz.
***
A respiração calma de Alexia tranquilizava os nervos de sua mais nova mentora.
Uma lâmpada de luz amarela e de pouca expansão era a única fonte de claridade utilizada, algo que, segundo julgava a administradora do procedimento, favorecia o relaxamento dos músculos da pessoa, sendo assim a pouca luminosidade não causando nenhum tipo de tensão. O ensinamento primordial era focar-se no processo, não nos cantos escuros e penumbrais da sala.
Estavam em uma cabana abandonada, tendo chegado no início da tarde. A vidente decidira que fosse melhor encarar a prova no dia seguinte, logo pela manhã. Na noite passada, as duas foram ao teatro divertir-se um pouco... com Eleonor disfarçada com uma peruca loira e estilosa e vestidos com os quais não estava nem um pouco familiarizada. Era desconfortável, de fato, mas era por uma boa causa... uma causa de sobrevivência, de manter-se irreconhecível por quem quer que estivesse observando-a. "Elas podem estar por toda parte.", avisara ela para sua nova amiga logo na entrada do teatro, a atenção redobrada.
Naquela manhã, a vidente estava sentada em uma pequena cadeira de madeira e sem braços. Os olhos fixos em Eleonor, apresentando uma coragem para processar o que viesse lhe surpreender.
A bruxa a fitava condescendente, vestindo seu costumeiro vestido de seda azul com decote.
— Antes de mais nada, apenas quero perguntar... — disse ela, chegando mais perto. — Está pronta?
Alexia fez que sim com a cabeça.
— Estou disposta a enfrentar esse desafio, não importam as consequências. — afirmou ela, decidida.
— Tem certeza? Está tão calma que está me assustando. — disse a bruxa, tornando a rir.
A vidente retribuíra com um riso leve, mas que não desviasse seu foco.
— Bem, vamos lá. — disse Eleonor, sacando um pêndulo dourado. — Prometi a você que não iria esconder absolutamente nada sobre o papel que você representa para o mundo. — ela fez uma pausa, afastando uma mecha do cabelo. — Alexia... Você possui uma importância que jamais pensou que teria. Pertencente a uma das mais misteriosas linhagens já conhecidas. Os Profetas nunca foram totalmente reconhecidos, mas as bruxas, creio eu, teriam sido um dos poucos clãs que tinham conhecimento deles, talvez o único.
— Causar problemas é o papel que mais exerço. — disse Alexia, assumindo uma espécie de auto-depreciação. A sensação de inutilidade sempre retornava.
— Não diga isso. Os Profetas são extremamente essenciais para o mundo... mas também podem causar malefícios se suas visões forem expostas, e o maior risco que eles enfrentam é terem seus dons descobertos e acabarem sendo explorados por aproveitadores, essa é a parte perigosa. — informou Eleonor, deixando-se contagiar pela tranquilidade da vidente. — E isso ocorreu à você, infelizmente. — disse ela, sem se dar ao luxo de mencionar Robert Loub. — A cada 100 anos um Profeta ou Profetisa vêm ao mundo. Você, Alexia, é a profetisa desta geração, além de ser a primeira que conheci. — aproximara-se mais dela, erguendo o objeto que segurava. — Este pêndulo... é algo comumente utilizado em sessões de hipnose. Eu sabia que você estava um pouco nervosa por temer que eu fosse usar bruxaria...
— Não, está bem. — disse Alexia, interrompendo-a. — Contanto que me ajude a controlar os impulsos dos meus sonhos... acho que qualquer método eficaz seria bem-vindo. — ela assentiu, seus cabelos ruivos alaranjados reluzindo à luz da lâmpada.
— Não tenha tanta certeza. — reprovou Eleonor, balançando a cabeça de leve. — A hipnose é o único meio que não abrange riscos maiores. Eu conheço pouco dos Profetas pelo fato que mencionei antes. Quanto mais o tempo passa mais eles vão sendo esquecidos. Mas foi o suficiente para crer que a técnica de regressão pode responder suas dúvidas. — disse a bruxa, intencionando transmitir perseverança à vidente.
— Sim, já ouvi falar. Para os médiuns, se tratava de um modo de se conectar às vidas passadas.
— É verdade, mas como você é uma profetisa... — ela suspirou. — Você não exatamente verá o que foi em uma outra vida... mas sim o que ocorreu no passado mais distante possível.
Empertigando-se, Alexia fez uma expressão de alguém que não acreditou no que acabou de ouvir.
— Visões do passado? Não faz nenhum sentido.
— É o que parece, mas é possível, acredite. — confirmou Eleonor, com um aceno positivo de cabeça. — A regressão torna isto possível. O que verá terá total relação com as recentes visões que teve. — ela levantou uma sobrancelha, indicando suspicácia. — Que com certeza você ainda pretende guardar pra si mesma.
Um ligeiro desconforto acometeu a vidente, fazendo os músculos deixarem de se retesar.
— Acho que a razão pela qual eu escolho deixar assim seja bem óbvia pra você. — disse ela, desviando o olhar para um canto do chão. — E como eu disse antes... Minhas últimas visões tem relação direta com Rosie, por isso estou tentando manter a calma, ou ao menos afastar os pensamentos ruins.
— Então são premonições maléficas?! — murmurou Eleonor, deixando escapar um ar de preocupação.
— Bem... — Alexia relutava em querer relatar algo além daquilo. — Não acha melhor começarmos logo? Me sinto tão... preparada. — ela deu um sorriso confuso, desconversando.
"O que pode ser tão grave sobre Rosie que Alexia insiste em esconder?", pensou a bruxa, pensativa por alguns segundos. "Mais um motivo pelo qual devo reencontrar Hector. Estou com a estranha sensação de que... há algo muito sério ocorrendo, algumas coisas parecem fora do lugar, tudo está muito diferente... desde aquela noite.".
Dando um suspiro pesado, Eleonor erguera novamente o pêndulo, iniciando de vez o processo.
— Muito bem, Alexia, preciso que se concentre. — disse ela calmamente, balançando o objeto de um lado para o outro. — Acompanhe o movimento... atentamente. — suavizou o tom para que mantivesse a calmaria da vidente inabalável. — Relaxe... somente relaxe... como se sentisse com sono... bastante sono.
Os azuis olhos de Alexia seguiam concentradamente os repetitivos movimentos do pêndulo, ignorando o silêncio da sala que permitia que ela ouvisse as batidas do próprio coração. Uma sensação de paz invadira seu âmago, seguida de uma estranha fadiga que lhe proporcionava mais relaxamento. Suas pálpebras, a cada segundo que o pêndulo se movimentava para a direita e esquerda, ficavam mais pesadas e isto se intensificaria até que não pudesse mais controlar ou resistir.
O pêndulo balançava um pouco mais rápido. Os olhos estreitados e cansados de Alexia ainda acompanhavam-o...
Passaram-se, então, 3 minutos. O tempo preciso para que alguém já se encontre em completo domínio perante a regressão.
E Alexia adormecera, a cabeça inclinando-se levemente para um lado.
"Excelente. Agora só basta esperar...". Eleonor mantinha-se em pé, observando-a com máxima atenção. "Parece ter entrado em um sono profundo instantaneamente. Provavelmente não vai demorar a sonhar, pelo menos não mais do que cinco minutos.".
O pequeno relógio na parede à direita, pouco iluminado pela lâmpada, marcavam 09h35. Eleonor se limitou a andar vagarosamente de um lado para o outro, esperando pacientemente por uma resposta.
A vidente, em sua mente, sentia-se em um outro mundo. Um campo aberto, meio gramado, com uma vegetação um tanto seca e não muito alta. O vento soprava forte, esvoaçando seus cabelos ruivos e seu vestido de seda púrpuro. O dia estava ensolarado, as poucas nuvens volumosas mas calmas.
Até que veio o retumbante estrondo, como um poderoso trovão... fazendo a terra vibrar por vários segundos. Alexia, quase perdendo o equilíbrio, sentiu o coração praticamente saltar pela boca. "Mas o que foi isso?", pensou, apavorada. Instintivamente, olhara para cima... e tivera a visão mais aterradora que já testemunhou.
Figuras espectrais desciam dos céus rapidamente, bloqueando a luz do sol intermitentemente, fazendo, assim, uma verdadeira, rápida e assustadora intercalação entre noite e dia.
Alexia não entendia o porque. Apenas fitou, horrorizada e sem palavras, o confronto que ocorria nos céus. Dois seres alados se digladiando, os sons de suas armas reverberando de modo estridente por todo o espaço. Um possuía asas similares a de um morcego e poderia-se assemelhar sua cabeça a de um lobo. O outro claramente tinha longas asas de pássaro e uma cabeça similar a de uma ave de rapina.
A luta ficara mais brutal e intensa, parecia não ter fim. Tudo soava como uma tempestade de caráter apocalíptico.
Ajoelhando-se e sentindo-se sem forças, Alexia chorava, pondo as mãos nos ouvidos... até gritar como forma de súplica.
— Parem! Parem! Parem! PAREM!- berrava ela, sua voz extremamente abafada devido a confusão de barulhos estrondosos que ressoavam nos céus.
No mundo real, Eleonor começou a notar os primeiros sinais de reações. Se aproximou e inclinou-se para ela a fim de acalma-la. Alexia suava em demasia, fazendo uma cara de desconforto e querendo se debater como se algo estivesse prendendo-a.
— Alexia... — sussurrava a bruxa, amparando-a. — Diga-me. O que está vendo?
Ela se esforçava para emitir algum som, enquanto seu tormento só aumentava. Soltou apenas gemidos angustiados e chorosos, virando o rosto para os lados rapidamente.
— Está tudo bem. Só me diga o que vê. — disse Eleonor, mantendo o tom de voz.
— São... São enormes! — exclamou ela. — Eles não param! Não param!
Percebendo que não conseguiria nada enquanto ela estivesse no transe, a moça suspirou longamente e resolvera cessar o processo. "Certamente deve ser uma visão bem trágica.".
— Hora de acordar, Alexia. — bradou ela, logo em seguida estalando os dedos próximo ao rosto da vidente.
Com um súbito sobressalto, Alexia despertou arquejante e com uma face de pânico estampada. Eleonor a segurou para que não caísse da cadeira, chiando levemente para acalma-la.
— Está tudo bem, você já acordou... — apoiou a bruxa segurando os ombros dela. — Como se sente?
A jovem olhou para ela com caráter alertante.
— Como se tivesse voltado milhares de anos no tempo. — disse ela, a respiração forte. — Pareceu tão real. Aqueles dois... seres gigantes se enfrentando nos céus...
— Que tipos de seres? — perguntou Eleonor, com expectativa.
— Algo me diz... que presenciei a luta entre Abamanu... e seu oposto, Yuga. — disparou Alexia, deixando uma lágrima escorrer pelo rosto. — Na noite em que estávamos nas Ruínas Cinzas, Abamanu disse à Rosie que ela está sendo ameaçada pelo seu inimigo... Yuga. E que deveria protege-la dele.
— Então... é isso. — Eleonor ficara reflexiva novamente, baixando a cabeça para pensar. — Rosie provavelmente foi forçada a escolher qual dos dois lados ficar... e agora pode estar dividida e desesperada.
— Você parece se importar bastante com ela. — comentou Alexia, percebendo a aflição repentina da bruxa sobre o destino da jovem. — Mas mal a conhece.
— É... eu sei, é estranho. — disse ela erguendo a cabeça, reprimindo uma lágrima. — Hector me falou tão bem dela que... — ela rira. — Acho que me tornei uma bruxa muito sentimental, que se importa com qualquer pessoa que necessite de ajuda. Principalmente com aqueles que tem ligações com os que já cruzei e formei uma aliança.
Levantando-se, Alexia recobrou a compostura tranquila com a qual inicialmente estava, cravando um olhar penetrante em Eleonor, como se fosse fazer um pedido apressado.
— Ainda não me contou por que você e Hector se separaram.
— Irei cumprir minha promessa, Alexia, fique sossegada. — garantiu ela, determinada. — Mas confesso estar arrependida de ter feito o que fiz à ele. — fez uma pausa, adquirindo uma expressão aflita. — E o resultado me faz sentir culpada pelo perigo que Rosie pode estar correndo.
Alexia balançava a cabeça, esboçando uma face confusa. "Que estranho. Ela fala como se, de alguma forma, conhecesse Rosie há um bom tempo. Será uma parente distante? Se fosse, ela, obviamente, mencionaria enquanto me contava sobre o que ocorreu antes de me encontrar. Só está revelando aos poucos... E agora passo a me questionar quanto a guardar minhas visões em segredo. Quanto mais ela falar, mais obrigada vou me sentir a retribuir.".
— O que quer dizer? — perguntou a vidente, sem entender.
— Rosie e Hector não podem estar próximos. — afirmou ela, o tom firme. — Não nessa fase turbulenta onde Abamanu está reinando aqui na Terra. Rosie está triplamente ameaçada.
— Ainda não me convenceu. — disse Alexia, dando de ombros, mas curiosa pelo mistério que a bruxa fazia em torno da situação grave. — Por qual razão Hector, além de dois deuses poderosos, ameaçaria Rosie?
As mãos trêmulas de Eleonor se evidenciaram cada vez mais. A vidente percebera a apreensão da amiga e se limitou a encara-la com inquietação.
— Alexia... Eu preciso ir para meu quarto, agora mesmo. — disse Eleonor, aproximando-se do interruptor para acender a segunda lâmpada da sala, mais forte e mais nova. — Mas eu prometo que saberá o motivo, em breve. Só preciso ganhar tempo. — disse, acendendo a luz que banhou todo o recinto. Virou-se para a vidente. — Devo reencontrar Hector... e impedi-lo.
— De quê? — indagou Alexia, franzindo o cenho.
— De perder o controle. Vai saber com mais detalhes ainda hoje, prometo à você. — já se encaminhava para a porta. — Preciso ir rápido treinar uma magia, ela vai ser essencial para acha-lo. — girou a maçaneta, abrindo a porta.
— Espere! — disse Alexia, andando depressa até ela. — Preciso que faça mais uma sessão comigo.
— Ainda hoje? — perguntou a bruxa, levantando uma sobrancelha.
— Não... — balbuciou a vidente, intimidada com a urgência que Eleonor emitia em seus olhos. — Pode ser amanhã. — disse ela, suspirando calma. — Se conseguir... o que pretende fazer depois?
— Talvez eu considere trazê-lo para cá. — afirmou Eleonor, pensativa quanto àquilo. — Mantendo-o bem longe de Rosie e oferecendo meu apoio... só assim vou ter uma chance de me redimir.
***
Área florestal de Raizenbool; 22h20
A lua cheia se fazia reluzente e pálida em meio ao céu lindamente estrelado.
Em algum ponto da floresta estava Rosie... parada diante de Áker, proferindo, do modo mais cauteloso possível, a explicação referente ao inesperado convite pacífico de Abamanu. Estava à espera dos soldados do deus lunar para leva-la ao palácio secreto, tendo seu nervosismo e ansiedade crescentes.
— Uma trégua!? — disse o arauto, cético, balançando a cabeça em negação. — Inacreditável. Ao meu ver, é uma tentativa de golpe, e bem certeiro na sua esperança.
— Além do mais — disse Rosie, mal contendo sua inquietação — o soldado disse que se trata de algo importante. Posso estar errada, mas... sinto que se aproveitaram da minha curiosidade. — suspirou, desalentada. — Ameaçaram matar um dos meus amigos se eu recusasse.
— E se for uma armadilha? — deduziu Áker, andando para um lado, pensativo.
— Essa foi minha primeira suspeita. — retrucou Rosie, olhando-o com certa empolgação. — E o que me motivou a chama-lo.
O mensageiro de Yuga parara e virara-se para ela, encarando-a preocupado.
— Quer que eu interfira de alguma forma? — perguntou ele, parecendo já saber a resposta.
— O que você acha? — Rosie dera de ombros, deixando a questão bem clara. — Olha, tudo pode acontecer nesse encontro, inclusive uma ameaça direta à mim com base na suspeita de que seja uma cilada.
— Não espera que eu resgate o mago do tempo, certo? — indagou ele, franzindo o rosto.
— Se é que Charlie está lá... — disse Rosie, imaginando com pesar a figura do jovem físico. — A pacificidade é só uma fachada. Não entendo porque ele considerou essa ideia mesmo sabendo que não sou idiota pra não suspeitar.
— Então pode-se entender como um aproveitamento. — afirmou Áker, chegando mais perto dela. — Ele quer algo de você. Há milhões de possibilidades e sugestões, mas, infelizmente, é uma coisa que só se descobrirá se for até lá. Não deixe que a usem. Não facilite o trabalho sujo dele.
— "Não deixe que a usem". — repetiu Rosie, soltando um resmungo de raiva e virando-se para um lado para caminhar lentamente, olhando para o chão. — Engraçado você dizer isso... Como se eu não lembrasse do que Yuga quer fazer comigo.
— Ainda há tempo de se decidir. — insistiu Áker. — Mas não vou pôr isso em discussão agora, portanto pretendo respeitar seu instante de pressa e ansiedade a níveis extremos. — ouvira, de repente, ruídos de passos por entre as folhas secas em todo o chão da floresta, olhando rapidamente para a exata direção de onde vinham. — Estão vindo. Melhor se preparar.
— Está bem. — disse Rosie aos sussurros e assentindo, — Você virá, não é?
— Desde que não a revistem... É bom que mantenha o amuleto seguro consigo, só assim poderei acha-la. Vou me manter escondido no ponto mais próximo em que estiver.
— O.k. — respondeu ela, sem olha-lo, fixando sua atenção nos soldados que se avizinhavam com suspense na densa floresta banhada pela luz fria da lua.
O arauto desaparecera em questão de milésimos, deixando Rosie solitária por um breve tempo. Cerca de três minutos passados, os dois lobos bípedes, segurando suas lanças, surgiram irrompendo pelas volumosas folhagens dos arbustos, os olhos amarelos fitando a jovem diretamente parecendo intencionar uma intimidação. Rosie não se surpreendeu com aquele gesto, sendo para ela algo forçado e desnecessário. "Idiotas. Tentem ser mais originais se quiserem me pôr medo.".
— Rosie Campbell — bradou um soldado, sua voz rouca e incômoda. — Venha conosco.
— Como pretendem me levar até lá? Alguma fórmula mágica? — perguntou Rosie, olhando-os com ironia na face.
— Graças as memórias do receptáculo de nosso Lorde compartilhadas com ele, temos em mãos uma magia para nos teleportarmos, mas só usaremos em casos específicos, como este. — disse o outro, empertigando-se soberbamente.
"Espera aí... Mollock sabia de uma magia de teleporte?! Mas como? E é possível que as memórias da casca sejam compartilhadas com as do possessor?", questionou Rosie, intrigada a respeito daquela questão, o que a fez lembrar de sua provável e iminente decisão sobre Yuga. Andara até eles, exibindo uma face mais séria desta vez, como se quisesse transparecer a completa ausência de temor perante à uma experiência daquelas.
— Muito bem. — disse ela, colocando-se ousadamente no meio dos dois. — Já podem nos tirar daqui.
***
A sala de estar estava com sua luzes acesas. Abajures a base de pilhas espalhados pelos móveis — estantes, cômodas e mesas pequenas. Áker andava tranquilamente de um lado para o outro, como se estivesse à espera do momento certo para agir, tratando o lar da dupla de aventureiros como um refúgio, talvez da ameaça de Sekhmet que, estranhamente, não deu sinais de sua presença naquele dia.
"Ela pode estar ocupada planejando uma ofensiva contra Rosie, recrutando soldados coagidos a agir a favor de seus interesses.", pensava ele, andando de um lado para o outro. "É exatamente isso que me preocupa. Sekhmet estando aliada com um Coletor... e os Coletores aliados à Abamanu... Não me soaria estranho que ambos estivessem juntos e Abamanu, incentivado por ela, tenha tido esta ideia. Uma condução perfeita para uma armadilha mortal...".
A presença sorrateira de Hector descendo devagar a escada cortara os pensamentos do arauto. Ele se virara, logo denotando sua surpresa.
— Hector?! Pensei que estivesse...
O caçador ergueu uma mão pedindo para Áker não completar a frase. Andara até ele, a expressão séria e dura.
— Tenho sorte que esteja aqui. — disse ele, tocando o arauto no ombro. — Preciso de sua ajuda. É urgente. — o caçador não demonstrava estar se sentindo bem, embora tentasse se conter.
— Rosie e eu estávamos preocupados. Por onde andou?
— Fui mantido preso... — relatou ele, seu olho esquerdo tremendo — Pela suspeita de um crime. Rosie não pode saber disso... muito menos que fui libertado.
— E por que quer manter sua liberdade em segredo? — perguntou Áker, sem entender as motivações de Hector. — Rosie não parece ser do tipo que aprecia boas mentiras.
— Ela odeia. — salientou ele, cerrando os punhos, a voz embargada de desconforto. — Além do mais, Áker... Eu sinto muito, mas muito mesmo. Meu amuleto foi confiscado pelo General Holt. Ser trancafiado naquela sala por horas... despertou meus instintos mais selvagens. — Hector começou a tremer discretamente, mas foi o bastante para o arauto notar algo errado.
— Não parece estar bem. — afirmou Áker, olhando-o com suspicácia. — De qualquer modo, não pode se esconder por muito tempo. Cedo ou tarde, você e Rosie estarão juntos novamente. — ele fez uma pausa, analisando-o. — O que sugere que eu faça para ajuda-lo?
Hector iniciou uma respiração mais pesada, um mal-estar de atravessar os nervos. Virou-se para a escada e andou até ela praticamente cambaleando.
— Siga-me. — pediu ele.
O segundo e último andar do casarão era composto por um corredor sem iluminação, dotado de paredes cinzas descascadas e rachadas e um piso de uma madeira insuportavelmente rangente. Na extensão, viam-se portas — umas quatro ao todo -, sendo estas entradas para quartos de hóspedes que não receberam atenção adequada para serem organizados e higienizados.
Curiosamente, havia uma porta no fim daquele corredor, sendo esta a quinta. Abrindo-a com cuidado, Hector sentiu o forte cheiro de poeira invadir-lhe as narinas. Indiferente aos odores execráveis, ele seguiu adiante, andando mais rápido até a parede oposta. Áker o seguiu paciente e em silêncio. Uma janela envidraçada deixava a luz do luar chegar a boa parte do recinto.
Aproximando-se da penumbra, o caçador deixou à mostra dois ferros circulares conectados à correntes enferrujadas e prendeu-os próximos aos calcanhares. Pegara mais outros dois e colocou-os nos pulsos, a dor do aperto lancinando com estalo dos fechos.
O arauto observava-o com certa curiosidade na escuridão.
— Sei muito bem o que está sentindo. Anseia por entender algo que parece domina-lo completamente. — ele fez uma pausa, olhando para a janela. — Os estímulos externos... pulsando dentro de seu ser. Influenciando-o sem escrúpulos.
Hector tentava manter-se consciente da realidade enquanto olhava desalentado para o arauto.
— Não vou culpa-lo por ter se feito de desentendido. — afirmou o caçador, respirando cada vez mais pesadamente.
— Mas eu não sei o que você se tornou. — retrucou Áker, firme. — Não conheço as maldições humanas.
— Então verá. — disse Hector, olhando de soslaio para a lua cheia. — A razão... pela qual eu não posso, em hipótese alguma, proteger Rosie, como me prometi há algum tempo. Depois que fui libertado, sabe-se lá porque, a única pessoa que me veio à cabeça... foi você. Eu não sabia mais a quem recorrer. — fez uma pausa, fitando o chão com os olhos marejados. — Não consigo controlar... essa ânsia... essa sede que me consome até o limite da loucura.
Áker estreitou os olhos, estudando-o e compreendendo exatamente a situação.
— O que lhe atormenta tanto? — perguntou ele, interessado em apoia-lo.
— Há... um monstro dentro de mim... — começou Hector, ainda cabisbaixo. — Ele consegue me abater com afirmações que vão contra meus princípios. Me faz ver que me perdi de mim mesmo. Corrói tudo que me torna eu. — erguera a cabeça, olhando para Áker, chorando. — Não vou pedir para que me livre dessa provação. Mereço estar nesta condição, cometi mais erros do que consigo suportar. Este é o preço.
— Significa que está disposto a sacrificar sua própria humanidade... em prol da sobrevivência de Rosie? — disparou Áker, rapidamente assimilando o ponto exato onde o caçador queria chegar.
— Eu estou disposto... — sua voz falhara, deixando claro que não conseguia mais controlar a si mesmo. — ... a me distanciar de Rosie... para que ela sobreviva. Eu falhei miseravelmente. Falhei com meus amigos, com minha família... Sou uma ameaça em potencial para Rosie. — fizera caretas de desconforto intenso, mal aguentando-se em pé. — Proteja-a, Áker. Você faria isto melhor do que eu, tenho certeza.
— Hector, se pensarmos no futuro... — disse ele, dando alguns passos à frente — Você verá que Rosie, uma hora ou outra, vai acabar decidindo sobre a proposta. Mandarei o comunicado a minha majestade e tudo o que ele sonhou irá se realizar prosperamente. Após isso, no entanto, não terei mais utilidade para com Rosie. Meu trabalho estará encerrado. — fez uma pausa, inclinando-se para ele. — Seu dever como protetor não se cancela comigo por perto. Mas para que sua imagem seja convincente... não terá que sacrificar sua humanidade para se entregar ao seu monstro interior... mas sim sacrificar aquilo que o força a guardar tantos segredos. Se agir assim... sendo honesto com Rosie e consigo mesmo, as forças que ambos compartilham se tornarão imbatíveis.
O conselho motivador de Áker lhe proporcionou um lampejo que o fez ficar reflexivo por vários segundos. Era de se esperar que fosse lidar com a questão excruciante sobre honestidade mútua. Uma sensação de impotência invadiu-lhe a alma, ao passo que a respiração tornava-se mais intensa. Hesitava em olhar para a lua, mas a claridade que adentrava tornava quase impossível não virar o rosto para a esquerda.
— É estranho... Eu vinha controlando isso por um bom tempo... mas só agora parece me torturar. — ditou o caçador, inquieto. — Só há um jeito de isso acabar. Esta só é a primeira de muitas vezes em que irei me sentir assim. O que você disse é completamente impossível. — andou alguns passos cambaleantes à frente, o olhar tornando-se raivoso e penetrante. — O que existe em mim... o sangue corre nas minhas veias agora... não existe uma cura que possa purifica-lo. Não há cura para meu mal.
— Se entregar a seu demônio interior é o caminho mais curto para a perdição. — afirmou Áker, preocupado quanto ao estado do caçador. — Hector, não vou força-lo a cometer atos de loucura que possam vir a destruir qualquer laço que tenha com alguém. Pense em seus amigos. Pense nas possibilidades.
— Você não entende! — vociferou Hector, a fúria finalmente subindo à cabeça. — Isso está me matando! Eu preciso liberar isso de mim! Eu menti...
— Sobre o quê? — perguntou Áker, interrompendo-o.
— Desta ser a primeira vez... — revelou Hector, ajoelhando dramaticamente, como se houvesse se rendido ao seu mal interior. — Isso já aconteceu antes. Passaram dois anos... tempo suficiente que consegui para obter um controle. Se eu liberar agora... posso garantir mais dois ou até quatro anos de domínio sobre ele.
— E se perceber que está errado? — arriscou o arauto, incerto. — E se o controle obtido antes não ter passado de pura adaptação? Adaptação esta que você está deixando-se perder...
— Já chega! — bradou Hector, pondo as mãos na cabeça, não suportando mais nenhum segundo daquela resistência. — Vá embora! Eu estava na floresta... ouvi tudo o que você e Rosie conversaram. Vá salva-la, ela precisa de você agora! Abamanu pode estar planejando algo contra ela. — ele se debateu loucamente, balançando a cabeça de modo frenético, não conseguindo mais resistir a olhar para a lua cheia.
Áker fechara os olhos por um instante, parecendo decepcionado ao vê-lo daquela forma.
— Se é o que me pede... O farei. Afinal, eu fiz uma promessa à ela. — disse ele, afastando-se ao andar para trás.
O caçador urrou fortemente, o som reverberando pelo espaço. Sentia suas presas crescerem, bem como os pelos e as unhas.
— Mas... — prosseguiu Áker, prestes a ir embora. — A sua promessa é bem mais valiosa. — e desaparecera em questão de milésimos, desafiando a percepção.
Os olhos desesperados de Hector, inevitavelmente, desviaram-se para o astro pálido, seu rosto iluminado pela luz mortiça do mesmo. Suas íris desapareceram totalmente, restando somente as pupilas diminuídas, enquanto as sobrancelhas avolumavam-se.
Querendo se desvencilhar das correntes que o aprisionavam, Hector dera passos rápidos à frente, mas parara subitamente devido aos ferros presos à parede, de tal forma como um animal feroz ansiando para se libertar.
Completamente transformado e se esforçando para se libertar, dera um rugido mordaz e selvagem, suas presas crescidas em assustadora evidência.
CONTINUA...
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