Capuz Vermelho - 3ª Temporada

7 Deuses entre nós (Parte 1)


Notas iniciais
Capítulo 3x03 Boa leitura!

"Jamais imaginei que minha vida pudesse chegar a esse ponto. Me vendo como uma frágil criatura em meio a seres que se auto-proclamam superiores, ainda que possua uma importância com a qual não consigo lidar. Quero ter a chance de provar que a superioridade de um não prova a insignificância do outro.
Não vejo seres acima da compreensão, mas sim criaturas tão defectíveis quanto nós e que se esforçam para ocultar suas falhas. Falhas que nem mesmo o mais devastador dos poderes é capaz de esconder. Em outras palavras... Apenas mais fortes, mas não perfeitos."

Trecho do Diário de Rosie Campbell — Pág 102.

***

No meio da madrugada, ouvia-se um farfalhar incessante e pouco distinguível. O clima parecia abafado e seco, mas nada que fosse comparado a um verão comumente quente.

O suor em demasia fazia Rosie remexer-se na cama repetidas vezes desconfortavelmente, o lençol e as demais cobertas brancas e límpidas se desarrumando com as pernas inquietas da bela.

— Mas que... — ela abrira os olhos, levantando-se depressa. — De onde está vindo esse barulho? — calçara suas pantufas e dirigira-se à porta. A chama da vela posta na cômoda estava instável, ora querendo apagar-se, ora elevando-se.

O corredor se estendia a poucos metros, não demorando para que Rosie chegasse logo à espaçosa sala de estar. O ruído fora aumentando consideravelmente... e então viera um inconfundível odor de algo queimando. A dedução mais óbvia seria um incêndio, o que a fez correr até a cozinha. Sem encontrar nada que denunciasse a situação, a jovem voltara-se para as escadas. No exato instante em que ia subir os degraus, estacara abruptamente e virou-se para olhar a brecha da soleira da porta que fazia a entrada principal.

Um luz alaranjada fumegava do lado de fora, fazendo adentrar alguns filetes que rasgavam a escuridão da sala em alguns metros. "Um incêndio na floresta?!", pensou Rosie, a expressão de pânico. As janelas estavam fechadas por cortinas negras que esvoaçavam.

Ao correr até a porta, gritos de dor e pavor foram crescendo, torturando seus ouvidos. Sem se importar com o calor causticante que subia pela sua pele, Rosie girou a maçaneta com pressa e abrira a porta.

Uma poderosa lufada de ar quente atravessou seu corpo. O cenário com o qual se deparara do lado de fora distanciava-se de um simples e controlável incêndio.

Com um semblante de estupefação e pavor profundos, a jovem ficara boquiaberta com o que assistia, sentindo arrepios contínuos. A floresta fora varrida completamente. Um fogo potente e avassalador castigava aquela terra que cedia e destruía-se, onde uma multidão de almas perdidas vagueavam gritantes e pedindo clemência, seus corpos em combustão espontânea e irreconhecíveis. Homens, mulheres e crianças, sofrendo as dores de um inferno trazido à Terra, correndo, chafundando e andando para os lados e aos montes em desespero total, numa louca dança de seres que produziam uma bizarra cacofonia de gritos estridentes. Alguns até caídos e açoitados por criaturas com humano, aladas e bicudas, os estalos dos chicotes intercalando-se com os clamores assombrosos.

Um estrondo reverberante descera dos céus. Instintivamente, Rosie olhara para cima, travando um grito de horror na garganta sem querer, fitando uma imensa bola de fogo que despejava toda sua fúria tal como um vulcão em erupção. Uma rajada flamejante foi liberada na direção de Rosie.

Sem conseguir emitir nenhum som de sua voz, a jovem se limitou a ajoelhar-se e chorar copiosamente enquanto tentava se proteger com os braços... e aceitar o fim.

Segundos passaram...

O calor desaparecera de repente.

Lenta e novamente abrindo os olhos, Rosie respirou o ar noturno da floresta banhada pela lua cheia. Ao se levantar e encarar o ambiente ameno com incredulidade, se viu confusa, afundada em dúvidas.

Olhou para os lados. Nada de fogo ou pessoas sofrendo. Apenas a floresta intacta e infestada pela ópera dos grilos. Ofegando, franziu o cenho, balançando a cabeça em negação.

— Foi mesmo um sonho? — perguntou-se em voz baixa.

***

Eis uma das regras mais categóricas do Quartel-General: Jamais perturbar o general Holt no início de uma bela manhã ensolarada. Sempre seguida com rigor pela maioria dos soldados, tão tementes ao mau-humor característico do homem. William BuckHolt chegava ao cúmulo de se vangloriar por ser tão ranzinza, afirmando e reafirmando ser parte de sua demonstração e prova de autoridade nata. Naquele dia, não havia sido diferente. Organizava uma papelada com uma expressão impaciente, chegando a derramar o café sobre a mesa.

— Puta merda! — praguejou, se levantando enraivecido pelo acidente.

Antes que fosse buscar a ajuda do servente do local, parara para escutar alguns ruídos abafados... que ele interpretara como gritos. "O que está havendo lá fora?".

A porta do seu escritório se abriu depressa, dando entrada para uma estonteante figura.

Fechando a cara, Holt se viu indiferente à pessoa que entrava, voltando a sentar-se. Apoiou os cotovelos na mesa, colocando as mãos diante dos lábios em um triângulo. A mulher de alisados cabelos pretos, vestindo um sobretudo cinza e coturnos se aproximava, provocativa e canalha, lhe devolvendo um sorriso sacana.

— Não me diga que abortou a missão para vir me pedir férias. — disse o general, estreitando os olhos.

— Temos muito o que conversar, general. — afirmou ela, mantendo-se em pé.

— Ótimo, então comece me explicando o porque de ter voltado tão cedo. A menos que tenha informações urgentes a me dar. — resmungou ele, esboçando irritação.

— Sim, eu tenho. — ela sorrira de canto de boca. — Está perdendo seu tempo.

— Como disse? — o general inclinara seu rosto para ela, franzindo o cenho, parecendo não ter entendido direito.

— O seu prisioneiro. — retrucou ela. — Deve liberta-lo. Ele é a chave para minha vitória.

Um lampejo de confusão embargou o general. Balançando a cabeça com o semblante irritado, Holt não entendia absolutamente mais nada, seu intelecto ansiando por respostas. "Não faz sentido. Como ela pode saber tanto?".

— Betsy Rossman, quem lhe deu esta informação antes confidencial? — questionou ele, severo.

— Besty Rossman está morta. — disparou ela, tornando a andar calmamente para um lado da sala, apreciando a decoração. — Eu devia prepara-lo melhor, mas me encontro sem tempo. Então vai ter que ser do jeito difícil.

— É... — assentiu o general, estranhando o comportamento da moça. — Eu devia ter solicitado um exame para avaliar suas condições mentais antes de coloca-la em ação.

— Ora, não me provoque! — exasperou-se ela, virando-se rápido para o general. — Estou lhe avisando: Saiba com quem está lidando.

Holt, bufando de cólera pelo manifesto da moça, levantou-se com força, tornando a fita-la com fogo nos olhos e exibindo suas veias da testa em relevo.

— Ponha-se no seu lugar, agente Rossman! Sei que está tentando alguma artimanha para se sobressair ilesa na missão que eu ordenei que cumprisse! O que realmente quer? — ele fez uma pausa, recuperando o fôlego. — Aliás, como pode saber que estou mantendo alguém cativo?

Ela suspirou, fechando os olhos, desejando, mais do que tudo, o surgimento de uma chance para provar sua verdadeira posição... e principalmente poder.

— Espero não ter que me arrepender de ter assumido este receptáculo. Mas está quase impossível. — afirmou ela, mal resistindo à raiva.

De repente, um soldado de expressão atônita entrara rapidamente no escritório. Seu ar era de alarme e exibia um suor frio descendo pelo pescoço.

— Senhor! Foi ela! — apontou para Sekhmet nervosamente. — Matou vários... Estão no corredor, todos mortos, foram completamente carbonizados! Eu vi com meus próprios olhos! — seu terror estava nítido em sua face.

— Soldado Barton, acalme-se! — pediu o general, aumentando o tom de voz. — Até parece que enlouqueceu! De fato, eu ouvi gritos de dor daqui, mas... — arregalou os olhos, desviando-os para sua ex-agente, assumindo um caráter de urgência. — Você disse carbonizados?

— Sim... sim, general. — confirmou o soldado, gaguejando e arquejando. — Ela é uma ameaça... Um monstro! — já preparava-se para sacar um revólver.

A deusa devolvera um sorriso de satisfação. "Finalmente uma oportunidade.".

— Li sua ficha, general. — disse ela, aproximando-se vagarosamente do apavorado soldado. — Há pouco tempo atrás, jurou proteger sua nação de ameaças desconhecidas e extraordinárias. Bem, pode ser que minha presença sirva para encoraja-lo... — pôs uma mão no peito do paralisado rapaz, passeando seus dedos pela farda em um gesto sedutor. — Ou talvez fazê-lo se encolher de medo. — cravara profundamente seus dedos no coração do soldado, fazendo irradiar pelo corpo do mesmo uma luz amarela, até pelos olhos e boca.

Holt assistia a horrenda demonstração embasbacado. "Meu deus! O que ela é?"

O soldado gritava estridentemente, completamente paralisado pela dor do fogo que consumia toda sua carne, atravessando todas as camadas de sua pele. O rosto do rapaz tostava e crepitava, enegrecendo aos poucos, enquanto ele tentava se debater. O volume de seu urro foi aumentando consideravelmente, enquanto a deusa se satisfazia com sua dor perfidamente.

— Já chega! — gritou Holt, aterrorizado,recuando alguns passos e derrubando a sua cadeira. — Já chega! É o suficiente! Diga logo o que quer de mim! — vociferava ele, deixando gotículas de saliva saltarem-se da boca.

Cedendo à súplica do general, Sekhmet retirara, por fim, a mão do peito do soldado. O corpo do rapaz se deixou cair inteiramente reduzido a carvão, duro e exalando um forte cheiro de fumaça.

Um entreolhar incompatível havia perdurado por vários segundos. De um lado, os azuis olhos de Sekhmet denotando sua instabilidade. Do outro, os azuis olhos de Holt, pela primeira vez em anos, acentuados por um medo surpreendente.

— Que tipo de monstro é você? — perguntou ele, tentando se recompor.

— Seu próprio jogo virou-se contra você agora. — disse ela, chegando mais perto. — Eu quem faço as perguntas. Me diga onde está o caçador!

— Por que o quer e para qual propósito? — desafiou ele, não cedendo às exigências da deusa.

— Rosie Campbell. — soltou, com certo enojo. — Ela se tornou meu atual alvo assim que meu criado a considerou sua protegida, mas o caçador também exerce esse papel. Logo, ele, o caçador, deve ser entendido como a principal fraqueza dela. Em nosso primeiro encontro, eu vi o modo como ela reagiu ao se separar dele. — fitou um canto da sala, divagando sobre a luta. — Foi como se tivesse se desconectado de sua parte-irmã... como se houvesse perdido a completude. Pude ver nos seus olhos. Eles precisam um do outro mais do que nunca... — olhou para o general, arqueando uma sobrancelha. — No entanto, embora separados não signifique que ela se torna mais fraca, muito pelo contrário.

— Não estou entendendo. — disse o general, pondo uma mão na cabeça, sentindo uma dor latejante. — Rosie Campbell foi revelada por ele e é a nossa maior aposta como líder das nossas operações.

— Mas ela possui algo dentro de si que não a pertence. — afirmou Sekhmet, cada vez mais desafiadora. — Com o caçador por perto, ela se sentirá obrigada a lutar pelo que não pode salvar, e isto irá despertar sua enervação. É aí que entra minha deixa. — ela fez uma pausa, dando uma risadinha. — A protegida de seu prisioneiro guarda um poder que não pode controlar... o que a torna uma ameaça, a você e a seus comandados. Hector Crannon deve estar próximo dela.

— Aonde está querendo chegar? — perguntou Holt, estreitando os furiosos olhos.

— Eu salvarei seu exército ao salvar meu império. Eu sou uma deusa. Possuo mais poder de fogo do que todo o seu armamento. — disse ela, sentando-se em cima da mesa do general bastante à vontade ao cruzar as pernas bem torneadas. — Os seus soldados... eles disseram que sou como uma leoa feroz. Não fiquei ofendida... mas tive que mata-los. — ela assentiu, levantando as sobrancelhas. — Não permita que Rosie Campbell saia ilesa quando esse serviço terminar. Mas só terei o que quero de volta... se o caçador for libertado e voltar para ela, logo todos vão estar a salvo... da verdadeira ameaça que aquela mortal representa.

O ceticismo exalava da face do general Holt.

— Se o que diz for verdade... Então terei de repensar sobre quem deve liderar a próxima operação.

— Não faça isso. — ordenou ela, encarando-o mais de perto. — Não agora. Liberte o caçador, readmita-o, se não quiser que seus planos sejam arruinados por uma explosão de energia que pode arrasar com tudo.

— Você me pegou agora. — disse Holt, abrindo um sorriso fingido. — Está tão confiante pelo fato de saber que não tenho nenhum outro nome para ocupar a vaga de líder da operação. Considerando o que diz, meus soldados e os caçadores vão estar em risco o tempo todo. — fizera uma pausa, tentando pegar uma arma de uma gaveta disfarçadamente. — Eu farei. Mas nem pense em voltar aqui novamente, nem me encontrar em outros lugares. Tenho aliança com cientistas renomados que estão trabalhando em uma tecnologia de contenção para abominações como você. Um movimento brusco e será a primeira a experimentar a invenção.

Sekhmet rira debochadamente, com um escárnio odioso. Contagiando-se pelo riso da deusa, Holt se deixou levar, também abrindo uma risada de equivalente caráter, deixando à mostra seus brancos dentes. "Essa vadia pensa que pode me intimidar fácil. Tem poder suficiente para me matar... mas nunca, jamais vou permitir que me rebaixe!".

Cortando abruptamente a falsa descontração, Sekhmet agarrara fortemente a gola da farda de Holt, puxando-o para mais perto enquanto alterava a expressão bruscamente.

— Estou excitada, general. No entanto, não acho que esteja pronto. Para um homem que diz ter abraçado o desconhecido para encara-lo, precisa aprender muito sobre a própria natureza... tão insignificante. — afirmara ela, com ojeriza na voz. — Espero causar mais problemas para o senhor... Quem sabe assim, possamos passar mais tempo juntos. Seja lá o que estiver preparando para mim... estarei aberta a sugestões. Também gosto de experimentar coisas novas.

Holt a olhara com súbito desprazer, tendo uma ânsia de vômito subir-lhe pela garganta. Desistira de investir com a arma, dando-se conta da ausência de qualquer brecha para atacar.

— Façamos nossas partes. — afirmou ele, firme e duro. — Agora vá embora.

A deusa, em um suave movimento, foi erguendo a mão direita, misteriosa quanto às suas intenções.

— Antes... eu gostaria de saborear mais um pouco...

O general tornou a olhar apreensivo para os dedos dela balançando levemente... direcionando-se ao seu rosto.

— Não sei o que pretende, mas...

Sem nenhuma chance de poder completar a frase, o general sentiu algo ser retirado de sua face em uma fração de segundos. Quando deu por si, já se via urrando intensamente de dor... sentindo um fresco sangue gorgolejar ao perceber que seu olho esquerdo fora fácil e cruelmente arrancado.

Caindo no chão com um leve baque de seu robusto corpo, o general quase rolou tamanha era o sofrimento causado pelo ferimento.

Segurando na palma da mão o globo ocular de Holt como uma bola de tênis, Sekhmet virara as costas esbanjando calma e segurança de si mesma, alheia aos angustiantes e incessantes gritos do general que se debatia violentamente no chão.

— É assim que faz. Isso abre meu apetite. — disse ela, em seguida olhando para o globo e mordendo um pedaço, mastigando lentamente com os olhos fechados, sujando os lábios com o sangue quente.

Após o que pareceram vários minutos de tormento puro, Holt se recompunha e se levantara. A deusa já havia ido embora do escritório, a porta deixada escancarada. Fitou, com seu único olho, a porta, tapando a ferida com a mão encharcada de sangue e bufando de fúria rangendo os dentes.

Teria mais um motivo para se enfurecer depois que não visse mais o amuleto de Yuga em cima da mesa... ou, ao menos, após vê-lo fragmentado no chão.

***

Área florestal de Raizenbool; 08h50.

O som do fecho do zíper da mochila fez Rosie desvencilhar-se de suas divagações acerca do pesadelo que sentira na noite passada. "Esqueça, Rosie. Apenas esqueça", disse ela a si mesma, enquanto deixava as coisas já prontas no sofá. Armas de grosso calibre, cordas, facas, adagas, canivetes e algumas garrafas com água foram alguns dos itens indispensáveis guardados para a missão. Durante todo o resto do dia seguinte, ficara escrevendo em seu diário, lendo alguns livros românticos, saído da floresta para tomar um ar no fim da tarde e treinado seu corpo na noite esmurrando e chutando alguns sacos de areia na garagem. A exaustão recebeu de bom grado o sono profundo e relaxante que, infelizmente, fora destruído por um incômodo calor de origem, até certo momento, desconhecida.

Parada no meio da sala com as mãos na cintura, a jovem esperava que Hector fosse voltar logo, mesmo sem ter nenhuma informação de para onde ele foi ou se havia sido levado por alguém. Ou se fugiu. "Ele não pode ter decidido largar tudo assim... logo quando estávamos tão perto de arrancar informações daquele Coletor. Seria tolice minha não admitir que estou com medo de saber que ele abandonou a missão... que ele me abandonou... por mais que eu esteja desconfiada, por mais segredos que ele esconda... eu ainda preciso dele, nós precisamos um do outro, essa é a verdade.", pensou, olhando para os lados preocupada, o capuz abaixado deixando à mostra seus bem tratados cabelos pretos que iam até o busto.

Uma olhadela no relógio não custou nada. Eram nove horas em ponto.Uma plena manhã de quinta-feira. Dez minutos passados foram quase intoleráveis.

— Ah, droga. — praguejou ela, batendo o pé, impaciente. — Onde foi que você se meteu?

Algumas batidas na porta a fizeram se empertigar. Correu para ver quem era.

— Olá, senhorita Campbell. — disse um gentil caçador de aluguel de estatura mediana, meio gorducho e cabelo meio raspado.

— Ahn... Oi. — respondeu Rosie, pouco à vontade, tentando sorrir forçosamente. — Veio me dizer algo? Pode entrar. — afastou-se para dar passagem à ele e fechar porta.

— Oh, obrigado. — disse ele, entrando. — Vim repassar um recado urgente do general Holt. Pra dizer a verdade, ele não tem estado muito contente com nosso supervisor.

Rosie pôs a mão na boca, por pouco não deixando escapar uma pergunta na qual mencionaria o nome de Hector. O caçador estranhou o gesto e sorriu discretamente.

— Algum problema?

— Err... Não, nada. — disse Rosie, recompondo-se e dando uma risadinha nervosa. — E então... O que o general decidiu?

— Por decisão unânime... — ele fez uma pausa, um pouco inseguro. — Você conseguiu a licença para se tornar líder da operação.

A notícia caíra como um raio sobre Rosie. Contudo, meio que já esperava dadas as expectativas alimentadas por Hector ao sugerir a divisão do comando entre ambos. Mas o despreparo para a função lhe pareceu mais próximo do que imaginava, ficando tão insegura de si quanto o próprio mensageiro. "Por qual razão o general Holt confiaria em uma desconhecida? Ele quer mesmo apostar todas as fichas em mim?".

O caçador pigarreara, logo prosseguindo.

— Você deve assinar o contrato somente na presença do general. No entanto, só confirmaremos definitivamente através de sua decisão, sobre se concorda ou não em participar das operações.

Por alguns segundos, Rosie emudecera, sem encontrar uma maneira adequada de se portar perante aquela proposta. "É a segunda que já recebo... mas ao menos não é tão perigosa quanto a primeira.".

— Ah sim! — disse o caçador, estalando os dedos para a jovem. — Acabo de lembrar que você e o supervisor são bastante amigos! Isso é simplesmente ótimo.

— Por que?

— Bem... — ele ficara tímido, rindo baixinho. — Você deve ter sido treinada por ele, talvez saiba o básico... quero dizer, o suficiente. Ahn... desculpe se soei mal ao dizer básico e...

— Não, tudo bem, não foi ofensivo. — suavizou Rosie, erguendo levemente uma mão para acalma-lo. — A propósito, sabe onde ele está?

— O supervisor? Bom... — ele deu de ombros, parecendo saber pouco. — O general, pelo que me disseram, suspeitava dele e o manteve sob custódia, mas acredito que poderão libera-lo dentro das próximas 24 horas, e, também pelo que me disseram, revelou sua existência, foi assim que consegui vir até aqui. É provável que você e ele cheguem a dividir o comando... e ele finalmente mostre o rosto. — disse, satisfeito.

A jovem petrificara a expressão, aparentando estar imersa em um transe hipnótico, novamente assaltada por divagações. "Será verdade que... o general Holt descobriu o suposto crime de Hector? É bem plausível... se levar em conta que havia cartazes espalhados por aí. Talvez seja isso mesmo. Hector foi desmascarado e agora deve muitas explicações.".

— Olha, eu já arrumei algumas coisas... Pra falar a verdade, eu já estava decidida sobre isso. — disse Rosie, olhando para a mochila no sofá. — Eu tenho que fazer isso. — assentiu para si mesma. — Diga ao general que estou me preparando, ainda hoje quero assinar esse contrato. — seu tom era de pura decisão.

O caçador sorriu abertamente, empolgado.

— Ótimo. — disse ele, encaminhando-se para a porta. — Muito obrigado pela atenção, senhorita Campbell.

— Me chame só de Rosie. — disse ela, retribuindo-lhe com um sorriso amigável, acompanhando-o.

— Está bem então, brevemente um transporte virá para conduzi-la até o QG. — afirmou ele, saindo. — Até mais... Rosie. — logo rira, acenando ao se despedir.

— Até. — retrucou ela, com um sorriso moderado e fechando a porta em seguida.

Com um belo suspiro descansado, encostara-se por um breve momento, olhando pensativa para o teto alto da sala de estar. "Provavelmente Áker não vai estar por perto enquanto eu estiver resgatando os outros. Hector foi pego desprevenido e sem chance de usar o amuleto para pedir ajuda, talvez até tenham tomado dele sem intenção de devolver. Tudo bem... Acalme-se, Rosie, quando tudo isso acabar, quando todos os amigos estiverem a salvo... você vai arrancar toda a verdade dele, sem medo.".

— Rosie Campbell... — soou uma voz rouca e monstruosa.

A jovem se desvencilhou de seus pensamentos e fixou seus olhos na figura a alguns metros à frente. Seu semblante calmo logo se transformou em um misto de surpresa, alerta e sensação de ameaça. Um dos soldados de Abamanu estava parado na sala vestindo uma armadura de prata clara e segurando sua lança, fitando-a com seus lupinos olhos amarelos.

Por instinto, Rosie avançara contra ele rapidamente, sacando uma espada antes presa na parede, logo atacando-o com um movimento preciso. O soldado se defendera com a lança, uma colisão de metais faiscando. A bela o fulminava com o olhar enquanto forçava a lâmina contra a desconhecida liga metálica da arma do adversário.

— O que você faz aqui? Por que o enviaram? — perguntou ela, ríspida.

— Se largasse a espada... seria possível falar. — disse ele, claramente sem intenções para conflitos.

Assimilando com desconfiança a postura "amigável" do servo do Cavaleiro da Noite Eterna, Rosie recuara vários passos rapidamente, mantendo a espada firme numa mão, a lâmina cintilando.

— Obrigado. — respondeu ele.

— Nada de agradecimentos, diz logo porque foi mandado até mim. — redarguiu Rosie, impaciente.

— Meu nobre Lorde quer vê-la.

— Seja mais específico. — exigiu ela, relanceando a mochila no sofá atrás dele.

— Você é a privilegiada. Ele quer evitar a todo custo que nosso maior inimigo tome posse de seu corpo. Ele propôs um encontro pacífico nesta noite em seu palácio. No entanto, você vai estar ciente das restrições quando ao limites em que deve atravessar.

— Isso tem a ver com Charlie, eu presumo. — arriscou ela, incerta. — É óbvio. Está fazendo isso para me provocar e me fazer acreditar que nossa vitória é impossível.

— A localização do mago do tempo será um assunto à parte. — informou ele, deixando a lança na vertical. — Eu e mais um dos nossos serão os encarregados de leva-la. Esteja pronta quando a lua cheia estiver em um ponto considerável. A única proibição é com relação a premeditar planos para o resgate do mago do tempo. A pacificidade será cancelada se for descoberto qualquer vestígio de uma emboscada ou presenças de aliados. Se assim for, você acabará sendo punida.

Rosie respirara com força, tentando não golpear aquele soldado com espada. "Controle-se.". Desnorteada com surpreendente ideia de Abamanu, ela não pensou duas vezes antes de decidir. "Não sei se ele está escondendo algum jogo ou querendo me passar a impressão de que quer facilitar as coisas. Deve achar que sou idiota o bastante para acreditar que é tão simples.".

— Convite recusado. — disparou ela, largando a espada no chão. — Tenho algo mais importante a tratar com outras pessoas para o resto do dia.

— A recusa significa a morte de um dos nossos prisioneiros que também são seus aliados. — atacou o soldado, lambendo sua enorme boca e salivando constantemente.

"Desgraçado!", pensou Rosie, rangendo os dentes.

— Seja sincero: Você sugeriu isso só porque recusei ou seu Lorde é quem estabeleceu? — perguntou ela, intrigada.

— Ele próprio idealizou. — confirmou, assumindo uma postura civilizada. — Nossas intenções, no momento, estão distantes de conflitos. Lorde tem algo importante a lhe dizer. É melhor que vá.

Sumindo em um piscar de olhos e imperceptivelmente, o soldado fora embora sem perder mais tempo forçando uma civilidade com a qual não simpatizava nem um pouco. Muito pelo contrário, deixou sua posição ambígua ao demonstrar fome quando salivou para Rosie. A jovem olhara para os lados, rendida e com os ombros caídos. "Saída repentina para escapar de mais perguntas.".

— Mas que merda. — disse para si mesma, passando as mãos pelo rosto e andando de um lado para o outro. — E justo quando tenho a chance de me unir aos caçadores... Não, só preciso ter calma. Hector talvez apareça mais tarde. Só preciso ligar para aquele número... — tirou do bolso da calça vermelho-escuro apertada o papel dobrado com o número de contato que o caçador lhe deu.

Discando apressadamente, ela relanceava o relógio a cada dois segundos, a impaciência fervendo.

Por fim, alguém atendera.

— Olá... — disse ela, timidamente. — Aqui é Rosie Campbell. Eu gostaria de adiar minha admissão.

***

Em um dos QGs alternativos do Exército Britânico, Hector estava sendo conduzido por dois soldados truculentos e de caras fechadas em um corredor de concreto cinza mal iluminado, sob o aperto insuportável das algemas em seus pulsos tão doloridos. Ainda se questionava sobre sua soltura repentina. O som dos passos pelo chão liso era o único que predominava.

Pararam na metade do corredor, para a surpresa do ex-prisioneiro. Um dos soldados, meio loiro de cabelo curto e face dura, sacou uma chave e se dispôs a libertar o caçador das algemas.

"Tenho certeza que me soltar antes de chegarmos lá fora não foi uma das ordens de Holt.", pensou ele, ainda surpreso.

O jovem soldado o olhou... exibindo um inconfundível brilho amarelado nas pupilas.

"Não pode ser...".

Tocando seus pulsos, ele sentiu o gosto da liberdade, Hector e o soldado se entreolharam por um breve instante. Um confronto entre revelação desesperada e desconfiança. O outro — pardo e sisudo — pusera a mão no ombro do caçador, fazendo que sim com a cabeça... e mostrando o mesmo brilho nos olhos.

CONTINUA...