Capuz Vermelho - 3ª Temporada
41 Conhece-te a ti mesmo (Parte 2)
Cemitério Langfall, Londres, Inglaterra — 1929 — Sete dias depois da trágica morte de Gustaff Brienord.
O clima densamente gélido tentava transpassar as vestimentas agasalhantes e pretas de Charlie, cujo único item que se destacava e se diferenciava do restante era o seu cachecol vermelho carmesim. O jovem caminhava lentamente pelo solo gramado, carregando flores amarelas e vermelhas na mão direita. Alguns fios de seu liso cabelo castanho esvoaçavam com o vento, que levava ao ar várias folhas secas de outono. A face era de alguém que não havia dormido um segundo sequer nas noites anteriores. As olheiras eram os detalhes mais nítidos de seu semblante triste.
A luz solar fora parcialmente bloqueada por nuvens brancas-cinzentas formando certa nebulosidade no céu daquela manhã.
Gustaff Brienord foi encontrado morto, brutalmente ferido em todo o seu corpo, juntamente com seus companheiros de irmandade. O acesso da polícia ao bunker de onde ocorriam as sessões se deu pela coleta de várias informações fornecidas por amigos de lugares aos quais ele frequentava semanal ou diariamente. Até a Sra. Brienord se fez interrogada... antes de conseguir abandonar a casa e o filho sem dar nenhum aviso, por puro medo de acabar não superando o luto e ver o futuro de seu filho ser destroçado por tamanha perda. Gustaff morrera sem saber dos podres daquela mulher que um dia amara como se nada mais importasse. Apenas Charlie sabia. Soubera em uma noite que tentava, em vão, não lembrar quando o rosto dela lhe vinha a memória. Seguiu os passos de sua mãe discretamente... até desembocar em uma área suburbana, precisamente em um local sem nenhum pudor. Escondido e envergonhado, observou, pela janela, sua mãe, em um canto discreto, completamente nua em cima de uma mesa, sendo cortejada por dois homens, também despidos, lambendo seu corpo e seus seios até chegarem ao pescoço... e, por último, a boca. Charlie correra com olhos marejados, sem conseguir permanecer assistindo aquele show de libertinagem e constrangimento, nem querendo imaginar como terminaria. Aquela, de longe, fora a maior decepção de sua vida. A partir de então, fingia olha-la com os mesmos olhos, a cada vez que ela surgia à sua frente a imagem daquele ato desinibido lhe vinha à mente.
Pôs as flores diante da lápide, na qual estava escrito: "Gustaff Brienord; 1895 — 1929; Amado pai, amigo e esposo".
Charlie levantara-se e fitou o túmulo por alguns segundos, indiferente ao frio que fazia.
— "Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo". — disse ele, citando a famigerada frase filosófica. — Foi esta frase que estava escrita no final na última página dos arquivos. Eu entendo o que quis dizer ao passar o significado à mim. Não vou obter esse saber... para meu próprio benefício. Mas não quer dizer que vou compartilha-lo com o mundo revelando tudo em detalhes. Eu sei porque o senhor foi morto. — fez uma pausa, suspirando com pesar. — Por expor esse conhecimento além de um limite estabelecido. Seja lá quem tenha feito essa... essa barbaridade... irá pagar caro.
— Cuidado com o que diz, garoto. — avisou uma voz grave por trás.
Charlie virou-se e se deparou com um homem alto, vestindo uma camisa branca e uma gravata vermelha por baixo de um casaco preto e calças marrom escuro e usando um chapéu com uma mistura das duas cores. O homem foi se aproximando com uma face séria, em respeito ao estado do jovem.
— Quem é você? — perguntou Charlie, desconfiado.
— Um dos membros do clube liderado por seu pai. — disse ele, firme. — E futuro novo líder. Muito prazer, meu nome é Howard. — estendeu a mão para Charlie em um aperto amigável.
— O que o traz aqui? — perguntou ele, como se não o visse como um amigo íntimo de Gustaff.
— A mesma razão que o levou a vir. — disse ele, olhando de relance para a lápide. — Dar o último adeus. — tornou a olha-lo. — No entanto, estou aqui também para lhe informar algo de extrema relevância associado à Ordem dos Magos do Tempo.
— O quê? — indagou Charlie, franzindo o cenho. — Por acaso você é um deles? Se sim, vir até aqui se expondo dessa forma, com um maldito assassino à solta por aí, é bem arriscado. Não acha?
— Na verdade, eu não esperava encontra-lo nessa hora do dia. — declarou Howard, logo tirando um envelope branco do bolso do casaco. — Vim para lhe dar... isto. — entregou-o ao jovem.
Charlie estudara o envelope por alguns segundos.
— O que é, afinal? — perguntou ele, dando de ombros.
— A nova localização secreta. Seu pai foi friamente seletivo ao me escolher para essa tarefa. — revelou o homem, enfático.
— Então... significa que... ele previu a própria morte? — especulou Charlie, fitando o nada.
— Não chamaria de previsão, mas de intuição segura. A coisa que o trucidou cometeu massacres geração após geração.
— Ele não me contou isso. — disse Charlie, parecendo aborrecido.
— Sábia decisão ele teve. — retrucou Howard, assentindo positivamente. — Eu tenho contato com um dos parentes próximos de um herdeiro do manto. Ele me disse que...
— Espera aí! — disse Charlie, fechando os olhos, ficando impaciente tamanha era a pressa de Howard em dar aquele aviso. — Vamos por partes. Primeiro: Como esse herdeiro teve coragem de revelar ao parente que é parte do legado? Não faz sentido. Revelar ser um mago do tempo para alguém tão próximo, ainda mais sendo um familiar... é pedir para ser incluído na lista negra de quem que esteja por trás dos assassinatos. Inclusive você, estando aqui agora, diante de mim, me entregando uma informação tão importante assim, corre risco de ser morto também. — argumentou ele, basicamente exaltado.
Howard suspirou longamente, esperando que Charlie se mantivesse calmo até ele ir embora.
— A questão é que somente magos do tempo estão inclusos na lista. — afirmou Howard, ciente. — Olha, rapaz, eu também não faço a mínima ideia de como eles tiveram acesso ao bunker.
— Eles!? — indagou Charlie, levantando uma sobrancelha. — Então um grupo foi responsável pelo massacre. — fez uma pausa, passando as duas mãos no rosto, parecendo mais abatido. — Olha, eu não tenho estado por dentro das investigações, mas...
— Ela já foi encerrada. — disparou Howard, não fazendo mais que sua obrigação. — O bunker foi interditado. Eu só não posso dizer mais sobre o novo local porque temo que os inimigos estejam sondando esta nossa conversa por algum meio desconhecido. Os detalhes estão todos no papel.
— Sua intuição pode não estar errada sobre essas pessoas. — disse Charlie, olhando para o envelope.
— Eu não diria que são pessoas... — disse Howard, olhando de soslaio para um canto, a postura intrigante.
— Criaturas de outro mundo? — teorizou Charlie, quase sentindo-se certo.
— Boa dedução. — comentou Howard, sorrindo de modo misterioso.
— Foi fácil. Você mencionou a palavra "desconhecido" sobre estarmos sendo supostamente vigiados. — disse Charlie, satisfeito, mas não mais confiante. — E o que os magos do tempo são? Conhecedores do desconhecido. Papai lhe deu exclusividade, não foi? Não queria que eu soubesse da verdade sobre os assassinos sobrenaturais, então confidenciou somente à você, para que após a morte dele você viesse me avisar. — concluiu ele.
Howard olhava-o com mais interesse desta vez.
— Muito bem pensado. — disse ele. -
— O plano do meu pai também foi, pelo visto. — disse Charlie, parecendo decepcionado por ter sido o último a saber. — Não havia nada nos arquivos sobre seres de outra dimensão que matam seres humanos que sabem demais.
— Ele tinha razões convincentes para ocultar este detalhe de você, Charlie. — afirmou Howard, tocando-o no ombro de modo amistoso, o semblante tranquilo. — Para manter seu bom senso preservado e longe de qualquer sentimento de vingança.
— Nada além de vingança passa pela minha cabeça agora. — confessou Charlie, o tom amargurado.
— Pense melhor no legado e pare de enganar a si mesmo. — aconselhou Howard, dando as costas para o jovem, andando em direção ao portão do cemitério a fim de ir embora.
Uma eferverscência de emoções crescera em Charlie de um modo avassalador. O rapaz bufara em raiva e desaceitação, mal controlando a torrente de pensamentos terríveis que atormentavam-o.
— Não vá embora achando que pode me dizer o que fazer! — disse Charlie, o tom colérico.
Howard parara, mantendo-se de costas, parecendo angustiado.
— Eu estou com raiva. — disse Charlie, sincero. — Quero fazê-los pagarem...
— E acha quem tem alguma chance? — perguntou Howard, assumindo um tom irritado, virando-se para o jovem. — Eu vi o corpo de Gustaff! Irreconhecível de tão retalhado que estava! Meça suas palavras, garoto!
— Já sou adulto o bastante para ter ciência dos meus atos. — retrucou Charlie, desafiante.
— Não, não é! — rebateu Howard, explosivo. — Ainda não. — suavizou o tom. — Abra o envelope, depois vá para o local no dia exato, está na última linha.
— Por que me parece que está me escondendo mais uma coisa? — perguntou Charlie, olhando-o com certo desprezo.
— E o que mais eu esconderia após a morte de Gustaff? — redarguiu Howard.
— Só me diga como se chamam esses monstros. Tenho quase certeza que papai lhe falou, você parece ser o membro do clube em quem ele mais depositou confiança. — disse Charlie, pressionando-o.
— Eu até diria... — disse Howard, fazendo mistério por uns segundos. — ... se eu soubesse o nome! — revelou, provando não saber de mais nada a respeito. — Gustaff, evidentemente, não falou mais do que o necessário. Eu realmente lamento, Charlie. — disse ele, balançando de leve a cabeça em negação. — Ele era um bom homem. E acreditava em você.
— Não posso aceitar. — negou Charlie, derramando uma lágrima. — Ser um mago do tempo... conhecedor do universo como nenhuma outra criatura da Terra... parece ser o caminho mais curto para uma sentença de morte bem dolorosa. Eu vou ter esse mesmo destino.
— Se depender da chefia oculta... não vai. — disse Howard, transmitindo-o confiança.
— Como tem tanta certeza? — perguntou Charlie, debulhando em lágrimas.
— Ele me disse. — falou Howard, mais calmo. — Seu pai, mesmo não entrando em detalhes, me fez acreditar que exista algo que esse mentor extraordinário possa usar para evitar um novo massacre. — fez uma pausa, assentindo devagar, desviando os olhos. — Boa sorte.
Charlie ficara parado naquele mesmo ponto. Olhando Howard, grande amigo de seu pai, ir embora com seu longo casaco ondulando com o vento gelado da manhã nublada. Guardou o envelope no bolso de sua calça, logo voltando-se paras a lápide com um olhar que transbordava determinação.
— Se esse conhecimento vai me tornar mais forte... que me deixe mais forte para fazer justiça pelo senhor. — disse ele, o tom decidido e um semblante que denotava uma coragem inabalável.
***
Inglaterra, proximidades da Grande Londres, Bunker alternativo, Primeira sessão — 1929.
1 mês depois.
O lugar era detentor de uma atmosfera intensa, com suas paredes altas e cinzentas e grossas colunas quadradas que sustentavam o teto, além do piso quadrangular de concreto. A sala principal do bunker alternativo parecia uma réplica exata do anterior que fora fechado por ordens da polícia inglesa.
Atrás de Charlie — já vestido com sua túnica cor cinza e um capuz de mesma cor sobre sua cabeça. — estavam seus irmãos de fraternidade, já iniciados, tendo o jovem aspirante a físico sendo o último a passar pelo ritual de iniciação, que consistia em tocar no anel cronal — artefato de tamanho médio e circular criado por Chronos e trazido à Terra pelo mesmo, de matéria-prima metálica e com símbolos entalhados que correspondiam ao dialeto dos deuses. O objeto flutuava no ar acima de um bloco quadrado de concreto e girava verticalmente em uma velocidade considerável, com seus símbolos brilhando uma leve luminosidade alaranjada. Charlie precisaria toca-lo e torcer para que o anel parasse e mostrasse, na parte de "dentro" do anel, o símbolo correto, o qual, traduzido para a língua humana, significava sabedoria.
Charlie aproximou o indicador direito em direção ao artefato girando em grande velocidade. Os símbolos — em tom laranja brilhante — "dentro" do anel passavam no mesmo ritmo, como uma sequência projetada. Sem hesitar, o jovem tocara no objeto, no mesmo instante fazendo-o parar subitamente.
Os demais apenas observavam, hipnotizados e apreensivos. Pelo menos dois deles Charlie conhecia do colégio. No total, eram seis membros.
O símbolo de sabedoria fora um golpe de sorte. Caso o contrário, Charlie teria de passar pelo processo por mais três tentativas. Se não acertasse o símbolo nelas, seria dispensado da Ordem por tempo indeterminado até que pudesse voltar para realizar a iniciação novamente.
Charlie exibiu um sorriso de satisfação, comemorando consigo mesmo. Manteve o dedo no metal frio do anel, sentindo uma carga de energia imensurável ser transmitida pelo seu braço... até o seu cérebro em questão de segundos. Uma sensação de peso na mente foi passageira, além dos contornos de suas íris castanho e sua pupila terem brilhado uma fina luz alaranjada e tremeluzente.
— Tens minhas congratulações. — bradou a voz retumbante e grave de Chronos, modificada e o mais adequada possível para se comunicar com os mortais. — Você, a partir de agora, és um mago do tempo... Charlie.
***
Inglaterra, Richmond, Grandes Londres — 1930.
O porão estava preenchido com um forte odor de mofo e poeira. Charlie, com uma lanterna em punho, andava até a estante de ferro oxidado, focando o facho de luz branca diretamente na grande caixa de papelão em um canto à direita, na parte de cima do móvel. "Vamos lá... Vejamos o que deixei passar batido naquele dia", pensou o jovem, logo pondo a lanterna embaixo do braço esquerdo e pegando a pesada caixa com as duas mãos. A sensação de algo ter passado despercebido o martelou por vários meses. Curiosamente, foi apenas naquele fim de noite que encontrou disposição e coragem para adentrar naquele cômodo empoeirado. O medo se resumia em lidar novamente com a dor ao revisar aquela volumosa pilha de papéis anexados uns aos outros.
Deixou a lanterna no chão — apontada para a caixa — ao sentar-se numa cadeira e remexer descontroladamente naqueles papéis, à procura de um suposto item que veementemente passou a jurar a si mesmo que se encontrava ali e foi ignorado.
"Tem que estar aqui!".
A papelada já se encontrava desorganizada fora da caixa. Charlie, por fim, alcançara o fundo do "baú". Algo que revelou-se surpreendente.
"Não pode ser...", pensou ele, os olhos fixados no minúsculo fio de barbante que surgira, pedindo para ser puxado cuidadosamente. Charlie o fizera com êxito e paciência, sem especular absolutamente nada a respeito do que estivesse abaixo daquele fundo falso, espertamente inserido por Gustaff. Um sorriso leve foi formando-se na face do jovem mago do tempo.
— Já devia imaginar... — disse ele para si mesmo.
Após puxar completamente o barbante e retirar o fundo, Charlie, sem pestanejar, pegara o objeto deixado ali por seu pai para que ele descobrisse, talvez pensando que ocorreria no mesmo dia em que o filho leria os arquivos pela primeira vez. Era uma pequena caixa de madeira, com o emblema da Ordem entalhado na tampa. Abrindo-a, o jovem achara o verdadeiro "tesouro" escondido.
— Uma chave... — disse ele, em tom sussurrante, pegando o objeto prateado de dois dentes. — Ótimo... sem maiores especificações no fundo da caixa, isto facilita muito as coisas... — falou, em tom de ironia. No entanto, percebera um detalhe. Aproximou a chave aos olhos estreitados para verificar melhor. — Isto são... inscrições acrônicas.
O acrônimo era de fácil leitura. A chave, como um todo, parecia não ser tão antiga quanto se pensava, já que nenhum resquício de ferrugem foi notado.
— STOMT? — indagou Charlie, balançando levemente a cabeça com o cenho franzido. — Mas o que diabos significa isso?
Girou a chave para ver se encontraria outro acrônimo.
"Uma seta.", pensou ele, encontrando um pequeno símbolo em relevo de uma seta apontada para cima, pois Charlie estava segurando-a na posição horizontal. "Quando a encontrei... estava na vertical... significando que a seta aponta para...". Olhou para a parede á sua direita com curiosidade. "Uma passagem secreta?", especulou, logo pegando a lanterna e apontando a luz para a parede descascada. "Não. Óbvio demais. Não há nada que indique isso. Nenhum ponto estranho, nenhuma saliência...".
A lógica seguida pelo jovem era esta: Vertical — Direita e Horizontal — para cima. O orgulho pelo seu pai só aumentara ao ter o lampejo definitivo para a resolução daquele enigma.
— Quem diria... — disse Charlie, sorrindo para si mesmo, olhando para chave e levantando-se depois. — Ele previu meus movimentos. — andara em direção à escada que levava à porta para sair do porão, segurando firmemente a chave prateada.
"Quando a encontrei, os dentes também apontavam para o lado direito, igualmente à seta. Virar a chave para a horizontal iria facilitar a leitura do acrônimo, sendo que é um movimento extremamente natural quando se pega um objeto daqueles, qualquer um faria o mesmo. Mantendo-a na horizontal, mas girando-a para ver se havia outro detalhe, vi que a seta aponta para cima. Uma ordem...", pensava Charlie, enquanto subia devagar pela escada que rangia a cada passos dado. "Direita e acima. Um recinto vizinho ao porão... mas que só pode ser acessado... pelo andar de cima.", concluiu ele, saindo do cômodo, andando mais depressa.
O jovem percorria a passos largos o semi-escuro corredor, ávido para descobrir o que Gustaff havia reservado através da solução do mistério. "A sala vazia que serviria como quarto de hóspedes, mas nunca sequer foi ocupada!", pensou ele, empolgando-se à medida que chegava mais próximo.
Após subir a escada para o segundo andar, entrara na sala, ligando a lanterna e seguindo diretamente à um alçapão, o qual esperava que estivesse coberto por um pano como artimanha do seu pai para dificultar o desafio e não fazê-lo desconfiar de início que a passagem se daria ali.
"Bem no alvo.", disse Charlie para si mesmo, focando o facho de luz nas portas do alçapão.
Abrira-o com facilidade e descera as escadas, concentrando-se na luz que rasgava as trevas do local.
"Está esquentando...".
Finalmente, encontrara. Uma robusta porta metálica com uma fechadura encaixável à chave bem no centro. Sem titubear, o jovem inserira-a e girou-se.
Ouviu-se um "click" agudo. A válvula redonda um pouco mais acima tornou-se mais frouxa graças a inserção da chave, logo sendo girada por Charlie sem utilizar muita força.
O rangido metálico soou irritante enquanto ela abri-se... e a visão do recinto do outro lado foi se esclarecendo mais e mais. O jovem mago do tempo entrou de modo abrupto, dominado pela ansiedade em esquadrinhas a sala, tanto visualmente quanto fisicamente. Como esperado, o aposento estava completamente às escuras Tateou uma parede, à procura de um interruptor para acender as luzes.
Encontrando o botão, apertara-o, as lâmpadas fluorescentes do teto acendendo-se em simultâneo, revelando a aparência rústica da sala, com destaque para um extenso bloco de pedra quadrado parecendo se tratar de uma arena de combate. Nas laterais viam-se vitrines que abrigavam armas de calibre poderoso, até mesmo medievais em um canto mais distante.
Maravilhado e confuso ao mesmo tempo, Charlie mal sabia o que dizer ou pensar sobre o tal segredo.
— Uma sala secreta... ocultada por 35 anos. — disse ele, olhando em volta. Baixou os olhos para um tapete quadrado, cinza escuro, poucos centímetros de distância dos seus pés, o qual possuía os singelos dizeres: "Bem-vindo (STOMT — Sala de Treinamento da Ordem dos Magos do Tempo". Agachou-se para ver o que havia por debaixo dele, não demorando para se surpreender.
— Um bilhete... — sussurrou Charlie, os olhos quase arregalados. Pegara o papel dobrado e o lera.
"Filho... Enfim, você conseguiu alcançar o término da última parte do desafio. Deve estar se perguntando: 'Por que diabos ele não resolveu me contar enquanto estávamos na biblioteca?'. Honestamente, eu planejei que esta parte final deveria ser descoberta através da anterior, então não me vi obrigado a revela-la à você, pois sei que descobriria sozinho... além disso, que graça teria se eu contasse? Sendo direto... esta é a sala onde eu e meus irmãos da Ordem treinávamos para aprimorar nossas habilidades combativas a fim de lutar contra qualquer opressor que viesse nos ameaçar. Não tem obrigação de usa-la caso queira focar apenas no seu crescimento intelectual. Caso o contrário, ela será importante para que você se prepare para enfrenta-los. Para que acerte no ponto onde eu falhei. Como bem instruí Howard a dizer: Não se submeta ao desejo de vingança. Ela só será um empecilho que só vai aproxima-lo da morte. Espero não tê-lo assustado."
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, Charlie encarava aquelas palavras com intensa comoção.
— Até parece... que não acreditava que eu sou forte o bastante para fazer qualquer coisa para ver a justiça acontecer. Mas eu entendo. — disse ele, dobrando o papel e enxugando as lágrimas com o braço direito.
CONTINUAS...
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