Capuz Vermelho - 3ª Temporada
38 Alfa, Beta e Ômega (Parte 3.7)
— Por que estão tão impressionado, seu idiota miserável? — perguntou Edgar, mostrando as pontudas presas, seus pelos um pouco elevados. — Será que ainda não se olhou no espelho? Deve saber qual a sensação. A sensação de ter se tornado aquilo que você tanto desprezou na vida!
— Há quanto tempo, Edgar? — perguntou Hector, sem tempo para discutir coisas em comum.
— Desde que fui desvinculado do Colégio de Caçadores. — revelou Edgar, corajoso. — Os mesmos que me morderam... — olhou enviesadamente para a sua direita. — ... são aqueles que agora estão ao meu lado. Também os mesmos que invadiram sua casa em Raizenbool...
— O quê!? — disse Hector, aborrecendo-se com a confissão. — Então você é o responsável por ordenar aquele ataque?
— Por que acha que eu apareci por último, hein? — perguntou Edgar, andando alguns passos para um lado. — Era a chance que eu tinha de capturar você e mata-lo com minhas próprias mãos.
— Espere um minuto. — disse Hector, erguendo levemente uma mão, ficando pensativo por alguns segundos. — Tentou forjar sua própria morte... usando uma outra pessoa para se passar pela testemunha do assassinato. Mas agora você está em poder do manto...
Edgar apanhara a máscara e mostrara para Hector o seu interior, no qual via-se um pequeno aparelho retangular preto acoplado na parte da "boca".
— Está vendo isso aqui? — perguntou ele, apontando para o objeto. — É um sintetizador de voz minimizado por tamanho, mas incrivelmente potente no tom. Foi a única alteração que fiz em relação aquele dia na roupa. A pessoa que entrou na casa e atirou em nós dois... — ele rira debochadamente — ... não exprimiu uma única palavra.
A explicação deixara Hector ainda mais aturdido, sentindo uma ojeriza crescente pela natureza daquele que um dia esperou considerar como um grande amigo. "E pensar que cheguei a cogitar recruta-lo para a Legião com a autorização do Mestre... ao menos para preencher o vazio que Adam deixou.". pensou ele, desalentado.
Edgar prosseguira:
— A diferença daquele dia para hoje com relação à máscara era de que havia um gravador. — revelou Edgar. — Três dias antes, eu, previamente, gravei uma mensagem com o sintetizador e conectei a fita com o gravador na máscara, o que explica toda essa... — olhou para a roupa. — ... aparelhagem. Sei que deve ter estranhado logo de início, eu também achei um pouco excêntrico. — tornou a olhar para Hector, sem alterar a frieza na expressão. — Meu contratado atirou duas balas diferentes. Em você, foi um paralisador de músculos, você perderia, permanentemente, todos os movimentos dentro de poucas horas. Já em mim foi um sedativo que apagou todos os meus sentidos instantaneamente. Pesou um pouco no bolso, mas valeu a pena. Fiquei desacordado por 20 minutos, quando despertei a primeira coisa que vi foi meu contratado duro feito uma rocha no chão, com a roupa chamuscada e exalando um pouco de fumaça. Obviamente tinha sido eletrocutado, pois, além de ver uma mancha preta no chão, eu retirei a máscara e senti seu rosto meio quente, só constatando que ele estava morto depois de verificar seu pulso. — fez uma pausa, voltando a olhar para sua direita. — Era para ser um serviço rápido. Ele mataria você naquele exato instante... se não fosse pela coisa que te salvou.
— E imagino que anseia por saber. — deduziu Hector, mantendo-se alerta à sua volta.
— Isso pouco me interessa agora. — retrucou Edgar, sem vontade de escutar a verdade sobre a pessoa que salvara Hector do atentado. — Naquele dia... na manhã em que fomos impedir os infectados de sequestrar mais pessoas... Eu vi... todo o sangue ser derramado... cada parte do corpo sendo trucidada pelas suas garras... você tratou minha família como bois a caminho do abate. Jamais vou perdoa-lo por isso, Hector.
— Mas foi necessário. — disparou o caçador, sem medo. — Logo quando entrei, um mimético estava prestes a ataca-los e sequestra-los em seguida, agi prontamente e o decapitei. Em outras palavras, os mantive a salvo, sem pensar no que viria a seguir. E foi então que... mais duas vans chegaram e mais dois deles vieram em direção à casa... — fitou-o tristemente, demonstrando puro arrependimento. — Eu já me encontrava em meu limite, quase sem nenhum controle sobre meu corpo e minha mente. Apenas senti a fome crescer dentro de mim. Tentei manter esse animal enjaulado... Juro que tentei, Edgar! Acha que eu os mataria mesmo que nenhum mimético estivesse se aproximando para leva-los?
— Sim, eu acho. — provocou Edgar, raivoso. — Foi a mesma sensação que tomou conta do meu ser quando me transformei pela primeira vez. É como se houvesse um parasita querendo assumir o controle absoluto do seu corpo. Sua mente e alma passam a ser dele. — fez uma pausa, enxugando uma lágrima. — Assim que as vans se aproximavam... eu deixei de espiar pela janela , corri para o outro lado da rua e me escondi em um arbusto.
— E em seguida — completou Hector, fortemente comovido. — eu avancei contra os dois miméticos que pararam na soleira da porta quando me viram transformado e com as mãos sujas de sangue. Por fim, eu voltei ao normal, peguei a faca e os decapitei.
— Eu vi isso também. — disse Edgar. — Depois corri imediatamente para o bosque para que eu não fosse visto por você. Quando nos reunimos novamente, fingi estar desconfiado por você ter voltado duas horas depois do término da missão, na qual salvamos apenas duas pessoas. Mentiu para todos dizendo que foi capturado por um grupo de infectados, sendo mantido refém em um cárcere.
— Precisei de um bom tempo para assimilar toda o estrago que eu causei. — defendeu-se Hector, categórico no tom. — Somos dois monstros que se deixaram levar pelo instinto assassino adormecido em nossas almas.
— A diferença entre nós dois Hector... — disse Edgar, recuando alguns passos de modo suspeito. — ... é que não matei pessoas logo na primeira transformação. Eu fui psicologicamente forte o bastante para adestrar esse lobo feroz dentro de mim, matando somente animais selvagens que encontrava pelo caminho. Mas você... foi fraco. — afirmou, intencionando humilha-lo. — Você teve sorte. Mas só porque jogou sujo quando se transformou, enquanto eu ainda estava no meu normal, lutando como um humano, pois do contrário você desconfiaria. Posso não chegar a mata-lo, mas ainda existe um destino pior.
— E qual destino pior do que a morte você considera para mim? — perguntou Hector, descrente.
— Obrigado por perguntar. — disse Edgar, dando um sorriso cínico, enquanto tirava algo de uma pequena caixa preta presa ao cinto. Com seus olhos extremamente atentos, Hector vislumbrou um objeto de vidro com um conteúdo de cor vermelho. Edgar olhara para a ampola que segurava, logo depois mostrando-a ao caçador com um sorriso de satisfação. — O que seria mais doloroso do que a morte? O sofrimento. Lento e desesperador.
— Mas o que... — indagou Hector, franzindo o cenho, relanceando a ampola com sangue. — O que significa isso, afinal? Que tipo de loucura planeja fazer, Edgar?
— Essa é uma amostra do seu sangue. — disse Edgar, direto. — Sabe... honestamente, devo dizer que não fui totalmente honesto com você.
— Como já era de se esperar. — disse Hector, olhando-o com mais desprezo, andando para um lado.
— Naqueles sete dias que se passaram — disse Edgar, confiante — nós já estávamos bem adiantados. E quando eu digo nós, eu quero dizer que usei um dos meus companheiros para fazer o serviço. Lembra do caçador que mandei para as Ruínas Cinzas para confirmar se você estava vivo ou morto? Pois bem... — fez uma pausa, andando calmamente, pensativo por um breve instante. — Aquele não foi a única vez que ele pisou naquele lugar cheio de escombros.
Hector sentia uma náusea elevar-se dentro de si.
— Na manhã seguinte àquela noite maluca, eu o mandei que fosse até lá... ele me passou informações privilegiadas. Na verdade, ele eu enviei para que coletasse amostras sanguíneas de todos que estavam lá. Eu suspeitei que você eu seus companheiros talvez não fossem mais humanos... sim, eu suspeitei que a Legião dos Caçadores tinha largado os bons costumes e apostou tudo para vencer um inimigo invencível. Mas como não havia mais ninguém por lá, demos-os como mortos ou desaparecidos, pois ele encontrou alguns resquícios de sangue nos escombros. Mas só estava você lá. Caído. Inconsciente e sujo de poeira. Ele o furou com a agulha e surrupiou um pouco do seu sangue. Secretamente, verifiquei, com um microscópio, a composição. Depois veio a confirmação: O célebre ex-líder da Legião dos Caçadores é um licantropo meta-simbionte. — fitou Hector com escárnio, balançando a cabeça em negação e desaprovação. — Estipulei um prazo de mais seis dias para ele voltar lá e encontra-lo acordado... e no fim foi pura sorte, justo no dia exato do fim do prazo, lá estava você, erguido e desesperado por encontrar seus amigos.
— Nós nunca sacrificaríamos nossa humanidade para impedirmos uma ameaça. — disparou Hector, desapontado. — Qual seu objetivo, Edgar? O que realmente mais você quer, além da minha morte... para aliviar toda essa sua dor?
— O bastante para manchar sua imagem de caçador. — revelou ele, arqueando as sobrancelhas e balançando de leve a ampola. — Francamente, acho uma pena seus amigos ainda estarem vivos. Uma humilhação solitária é tudo o que você merece, já que até a morte parece rejeitar você. — inclinou-se levemente para o caçador, ainda mostrando a ampola. — Isto que está na minha mão... é a chave para destruir sua carreira como caçador da Legião, Hector.
De repente, dois meta-simbiontes, comparsas de Edgar, surgiram irrompendo dos altos arbustos em passos intimidantes e com rosnados selvagens. Ambos vestiam roupas características de caçadores.
Afastando-se um pouco, Hector dera-se conta da gravidade exposta do dilema em que fora colocado.
Edgar insistira com as ameaças, andando para trás e se juntando aos seus parceiros.
— Eu só a trouxe para que soubesse do meu plano. — disse ele, sentindo-se vitorioso. — Você é um meta-simbionte muito diferente, Hector. Consigo ver algo de especial. Seus movimentos, o jeito como se defende e ataca... — olhou-o dos pés à cabeça, com falsa admiração. — Invejável, devo dizer. Inigualável, talvez você seja o mais forte da espécie. Mas estes dois bons homens aqui são um pouco mais experientes que eu em carnificina, então... muito provavelmente vão deixar você bastante ferido. É o mínimo que posso esperar. — recuou mais passos, objetivando uma retirada, ao passo em que os dois aliados aproximavam-se devagar para ataca-lo de surpresa em resposta a qualquer movimento brusco. — Sei que não parece muito justo... mas você não foi com meus parentes, não é?
— Espere, Edgar, o que...
— Ah sim! Eu sei o que quer perguntar. — disse ele, interrompendo-o, mantendo a ampola em sua mão direita. — Quer saber qual será meu próximo passo. Bem, deixe-me ver... — pôs o indicador esquerdo no queixo, fingindo estar pensando no caso. — Acho que hoje a noite será uma ótima hora para revelar a verdade ao General Holt. O que acha?
Hector sentira seus pelos eriçarem em questão de segundos, fazendo um contato visual com Edgar de modo a dizer para não pensar em agir com um ato audacioso daqueles. As cartas haviam sido postas na mesa, e o caçador perdera todas as rodadas, vendo-se sem escolha a não ser render-se à derrota.
— Quando o General souber... — disse Edgar, insistente. — Todas as suspeitas que ele alimentou até agora... serão confirmadas com apenas alguns milímetros de sangue em uma análise de DNA. Eu nem consigo imaginar... a forma como ele vai mobilizar suas tropas para caçar você implacavelmente por todo o país, se possível pelo mundo todo caso consiga fugir do país. Também sei das provas que ele reuniu. Um diário bobo... algumas anotações suas sobre os estágios dos infectados... uma amostra da substância que Rosie Campbell ocultou... e cinzas do lado de fora da casa no dia da invasão. Sabe-se lá como um dos meus soldados foi incinerado... mas isto não vem ao caso.
— E depois de feita esta parte do plano... — disse Hector, tentando manter-se calmo ante aquela tensão, suando bastante. — ... o que fará? O que fará quando finalmente souber da minha queda como caçador?
— Será que não percebe? Você já caiu. — afirmou Edgar, zombeteiro. — Solitariamente, vou comemorar. E me preparar para voltar ao Colégio dos Caçadores daqui a um ano e participar dos exames de qualificação para a nova Legião dos Caçadores. O Mestre Vannoy me contatou ontem. Disse que vai permitir seus amigos de agirem livremente quanto a ameaça que pode destruir a humanidade. Vocês não são mais caçadores! — exclamou, com um sorriso sacana no rosto.
Uma efervescência subira em Hector, fazendo-o encarar Edgar com olhos coléricos e dentes rangindo.
— Isso. Demonstre sua raiva. — disse Edgar, estimulando o estresse do caçador. — Se quiser me pegar, vai ter que passar por eles, o que no caso não seria muito inteligente, já que eu fugiria. Por outro lado... Você pode escolher correr daqui e eles não vão ataca-lo. De qualquer forma, vai estar permitindo que eu fuja. — afirmou, dando um risadinha escarniante.
Um som longínquo de uma intensa explosão fora ouvido pelos quatro. Hector olhara para trás, alertado pelo estrondo. Surpreendido pela volumosa nuvem de fumaça que tomava forma e elevava-se vertiginosamente, o caçador deixou especulações amedrontadoras corroerem suas esperanças.
Voltou-se para seus opressores, com decisões ainda nebulosas na mente.
— Acho que conheço essa expressão. — disse Edgar, provocando-o. — Fuga e medo. Vamos lá, vá salvar as valiosas vidas de seus amigos... enquanto deixa escapar o elemento que vai retalhar sua trajetória como caçador. Sua fama, reputação... tudo isso vai...
Pegando Hector de surpresa, três raios retos, flamejantes e de luz amarelada desceram dos céus rapidamente de encontro ao chão... de encontro aos seus três alvos, incinerando-os em poucos segundos.
Sobressaltado e alarmado, Hector recuara vários passos, encarando o processo com estranheza máxima na face.
Passados breves instantes, conseguira entrever uma forma humana em meio a fumaça. O solo se encheu de ínfimas brasas e labaredas pequenas, não causando tantos danos quanto o caçador pensou que haveria enquanto assistia seus inimigos serem massacrados sem aviso.
Ainda surpreso, ele aproximou-se um pouco e vira o responsável.
Edgar e seus dois comparsas foram reduzidos à cinzas de modo violentamente abrupto.
— Eu já devia imaginar... — disse Hector, suspirando com certo alívio, olhando para um canto da floresta. Voltou seus olhos para seu salvador.
Áker descera uma parte meio íngreme do solo, encaminhando-se ao caçador, baixando a mão direita que usara para realizar aquele fabuloso ataque.
— Impressionante. — elogiou Hector, sorrindo fracamente. — Como o fez?
— Reúno o máximo de energia solar a partir de uma certa altura. — explicou Áker, chegando mais perto, o olhar condescendente. — A partir do que vocês chamam de ionosfera. Converto-a em descarga retilínea em direção a um alvo específico. É bem mais fácil conjura-la em mundos pequenos como este, que necessitam do sol para sobreviver. — fez uma pausa, olhando para os "cadáveres". — Tagarela demais, não acha?
— De pleno acordo. — aquiesceu Hector, fitando as brasas com certa angústia. — Edgar estava falando mais sério do que qualquer monstro que já me ameaçou em caçadas passadas. — olhou para Áker. — Realmente seria o fim da minha estrada como caçador... se eu o deixasse fugir, pude ver nos olhos dele... todas a negatividade acumulada por meses. Ele morreu... com a certeza de que eu fazia meu trabalho por aliciamento do ego. Por uma reputação que nunca pedi. E pensar que chegaríamos a ser amigos... que ele preenchesse a vaga deixada por Adam.
— Talvez devesse parar para pensar — disse Áker — sobre como deve depositar suas expectativas nas pessoas. E, acima de tudo, sobre quem.
— Não confio em Holt. Se Edgar saísse vivo... Não, sinto medo só de pensar. — disse Hector, passando as mãos no rosto exibindo cansaço.
— Por falar nisso... — disse Áker, entregando um objeto de vidro com um conteúdo avermelhado para o caçador. — Acho que isto pertence a você.
— Achei que tivesse a destruído. — disse Hector, pegando seu sangue, logo guardando em um dos bolsos internos do sobretudo. — Me livrarei disso depois. Não quero que nenhuma gota caía nas mãos do Exército. — tornou a fitar Áker, com gratidão na face. — Não sei como devo agradecê-lo. Nem se chegarei a retribuir um dia, mas...
— Tudo bem. — disse o arauto, sorrindo levemente. — Em uma ocasião tensa, acredito que faria o mesmo por mim.
— Não me julga por ser um assassino impiedoso de quatro pessoas inocentes? — perguntou Hector, levantando uma sobrancelha.
— Me recuso. — retrucou Áker, tranquilo no tom. — Estava sob o controle de uma fera irracional. Não o fez conscientemente. O monstro trocou de lugar com você. E não pense que estou sendo flexível com você por ter uma ligação forte com Rosie. E... nunca pensei que diria isso, mas... eu concordo com Abamanu. — disparou, sem hesitar.
Hector quase engasgara-se com a saliva. Olhou-o com o cenho franzido, balançando a cabeça negativamente.
— Você tem noção do que acabou de dizer? — perguntou o caçador, estranhando.
— Plena. — retrucou Áker, com um sorriso calmo. — Mas o ponto que estive de acordo... foi sobre você e Rosie. O inevitável encontro. Eu realmente creio que estava pré-determinado. Não sei quanto a você, Rosie me disse uma vez que é bem cético com relação a certas coisas. Como bruxas, por exemplo.
Hector dera uma risada envergonhada.
— Sim, é verdade. Ao me relacionar com uma bruxa passei a acreditar na existência de um mundo infernal, regado de dor e sofrimento para almas sombrias. Talvez seja lá que eu deva ficar quando morrer. — olhou para Áker, tocando-o no ombro. — Por favor, me prometa que não vai contar à Rosie que lhe falei sobre isso, embora ela já saiba: A avó dela é uma bruxa rejuvenescida com quem tive uma curta parceria. Foi ela a responsável por fazer meu corpo absorver a pedra Ônix, depois que ela foi às Ruínas Cinzas absorver aquela energia.
— Não direi nada, fique tranquilo. — garantiu Áker, amigavelmente. Era sua vez de tocar Hector no ombro. — Muito bem. Hora de ir.
— Para onde? — indagou o caçador.
— Vou leva-lo para casa. Precisa descansar. — disse Áker.
***
Rosie e Êmina caminhavam às pressas pela floresta, na tentativa de encontrar uma base emergencial instalada pelo Exército Britânico para tratar de vítimas, o que incluía os resgatados da fábrica.
— Tem mesmo certeza de que esta é a direção certa? — perguntou Êmina, incerta, andando atrás da jovem encapuzada, atenta os arredores.
— Eu imaginava que colocariam setas para qualquer soldado se orientar e encontrar a base... — disse Rosie, preocupando-se com alguma medida relevante que o planejamento deixou passar despercebida. — ... mas não. Não há nada aqui! — parara, aborrecida com o suposto deslize.
— É, parece que estou por sua conta agora. Eles te deram um poder de decisão, mesmo te dispensando. — disse Êmina, tranquila.
— Como é? — indagou Rosie, franzindo o cenho. — Você acha que...
— É só uma especulação. — esclareceu ela, interrompendo-a. — Em outras palavras, você decide qual vai ser meu destino de agora em diante. Talvez tenham escondido isso de você... porque... você sabe...
— Por que sou uma mulher, o que para eles é um sinônimo de distração. — disse Rosie, parecendo ter chegado à uma conclusão, suspirando para manter a paciência. — Ainda sonho com o dia em que ao menos seremos tratadas com alguma dignidade.
— Já eu não sou tão otimista assim. — disse Êmina, andando calmamente, chutando de leve algumas folhas. — Isso me faz lembrar do que minha mãe me contou sobre minha avó. Ela era sufragista. Muito batalhadora, nunca baixou a cabeça para injúrias ou acusações infundadas. — olhou para Rosie, condescendente. — Rosie, olha... Não precisa da aprovação desses caras fardados para reconhecer seu valor. Ter me resgatado já é uma prova maior. Obrigada. — assentiu para ela, comovida.
Rosie retribuiu com um leve sorriso e um olhar meio entristecido, exalando ar de exaustão.
— Senhorita Campbell! — chamara uma voz apressada ao longe, ambas logo notando se tratar de um soldado à procura de Rosie.
— E bateu a saudade. — comentou Rosie, o ar brincalhão, arqueando as sobrancelhas.
Apresentando cansaço ao arfar bastante, o soldado caucasiano e de porte atlético chegara próximo das duas com tom de alarde, apoiando-se numa árvore com um braço.
— Vim para avisa-la de que... — pausou para recuperar o fôlego. — ... de que Edgar sumiu misteriosamente. Quando foi a última vez que o viu?
— Depois que terminamos o interrogatório com o mimético — disse Rosie, desconfiada. — nós nos separamos. Desde então não vi mais ele.
— Ah, esses caçadores... — disse o soldado, desapontado. — Vocês deviam ter esperado um de nós vir.
— Isto não constava no planejamento. — retrucou Rosie.
— Mas o planejamento cobria apenas o início, meio e fim da missão, não o que viria após ela. — treplicou o soldado. — Eu me cansaria menos se tivesse me esperado para que eu levasse a resgatada até a base, para se juntar ao Dr. Lenox.
— A propósito, como ele está? — perguntou Rosie, interessada em saber a respeito do estado do cientista.
— Está se sentindo bem. — confirmou o soldado, assentindo. — Nenhum sinal de dano psicológico ou físico. Aliás, eu acho que ele está bem saudável para alguém que esteve confinado por dois anos em um laboratório. — olhara para Êmina, com um sorriso enviesado. — O mesmo não posso dizer de você.
— Não, estou perfeitamente bem. — respondeu Êmina. — Me senti em um hotel cinco estrelas, com um atencioso serviço de quarto e tratamento de luxo. Você já experimentou uma carne assada de rato vinda do melhor esgoto da cidade? — perguntou ela, soando claramente irônica, a expressão com um sorriso de canto de boca e um olhar convencido.
Visivelmente consternado, o soldado fizera expressão de enojo ante à resposta da caçadora, quase que sentindo uma ânsia de vômito emergir de seu esôfago.
— Ahn... Err... — dizia Rosie, sem saber bem como intervir, olhando para ambos. — Acho melhor irmos rápido. Os outros devem estar preocupados. — disse ela, tornando a caminhar.
— Eles? Preocupados? Com você? — perguntou Êmina, indo atrás dela.
— Eu estava, confesso. — disse o soldado, passando a ir na frente, como que servindo de guia para ambas.
— Como os outros estão se saindo? — perguntou Rosie.
— Segundo as últimas informações que me foram fornecidas, alguns ainda estão travando confrontos com pequenos grupos de infectados, mas acredita-se que boa parte deles já se encontra nas caixas criogênicas que serão transportadas para o QG do Ártico daqui a quinze dias. — informou ele, falando de modo sério, ziguezagueando por algumas árvores mais finas.
— Estou precisando seriamente de um banho. — disse Êmina, apertando o passo.
— E de um hotel melhor. — completou Rosie, logo desatando a rir.
— Com funcionários humanos. — disse Êmina, logo contagiando-se pelo riso.
CONTINUA...
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