Capuz Vermelho - 3ª Temporada

32 Alfa, Beta e Ômega (Parte 3.1)


Notas iniciais
Capítulo 3x10. Boa leitura.

Rosie produzira um nó desconfortavelmente nos pulsos do prisioneiro, amarrando-o com uma corda numa cadeira de metal sem braços no centro daquela sala vazia e iluminada por uma única lâmpada fluorescente branca. O ambiente possuía uma atmosfera mortiça e gélida, as quatro paredes brancas e descascadas transmitindo uma incômoda sensação de quase claustrofobia, algo que proporcionava um silêncio tenebroso.

Edgar trancara a porta após ter afiado a lâmina de seu facão com dentes a fim de impor sua autoridade sobre o submetido.

O prisioneiro nada mais era do que um mimético de face cínica: Um homem careca, de meia-idade e vestindo um uniforme cinza de metalúrgico, sorrindo e dando constantes risadinhas sarcásticas que tornavam-se progressivamente sinistras quando se visualizava seus olhos completamente negros.

— Agora sim está confortável. — ironizou ele. — Obrigado pelo aperto, donzela. — disse, dirigindo-se à Rosie.

— Vai ficar ainda melhor se cooperar conosco. — retrucou a jovem, retribuindo com um sorriso irônico e afastando-se alguns passos.

— E o seu parceiro... — disse o mimético, voltando-se para Edgar. — Hum. Ele me parece tão... inseguro. Tudo bem, pode ir ao banheiro se quiser, eu posso esperar, afinal terei minha cabeça cortada de qualquer forma mesmo.

— É, terá. — devolveu Edgar, aproximando-se dele com postura desafiadora. — Terei um motivo a menos para fazer isso se tiver a gentileza de tirar esse sorrisinho da cara. — falou, apontando com a faca para o rosto do mimético.

Rosie chegara mais perto do caçador.

— Ahn... Edgar. — chamou ela, timidamente. — Nós prometemos deixa-lo viver caso ele nos contasse tudo.

— Eu não prometi nada. — retrucou ele, franzindo a testa. — Fui convencido por você a adotar essa linha. Um monstro não deve ser recompensado com liberdade apenas porque colaborou com seus captores.

— Talvez ele possa ser uma exceção. — argumentou Rosie, enfática, olhando de modo sério. — Por favor.

— Se diz... — disse o caçador, cedendo e aproximando-se alguns poucos passos em direção ao prisioneiro. — Muito bem. Pelo visto, não está exibindo nenhum sinal de que vai entrar no estágio de Inquietação. Você pode estar são, mas não pense, nem por um minuto... que está a salvo.

"Ótimo. Isso facilita muito as coisas.", pensou Rosie de forma irônica, suspirando de olhos fechados e preocupando-se com a metodologia com a qual Edgar utilizaria. A impaciência começara a entrar em ebulição.

— Está bem. Como quer começar? — perguntou o mimético, sorrindo cinicamente.

— Olha aqui. — disse Edgar, pondo uma mão no ombro do capturado e inclinando-se à frente dele. — Nós seguimos uma regra bem explícita, normalmente aplicada para interrogatórios: Não deixe que as emoções interfiram no julgamento. Se for um bom menino, vou segui-la com esmero. — fitou-o com um olhar de ameaça. — Caso o contrário... Não vou hesitar em separar sua cabeça do seu pescoço. Ouviu bem?

— Alto e claro, chefia. — respondeu o mimético, em seguida rindo zombeteiramente.

Rosie se aproximou de Edgar para lhe dizer algo.

— Espera aí. — disse ela, em tom de insatisfação. — "Vou segui-la com esmero"?! E quanto à mim?

— Ah, é verdade. — disse Edgar, fingindo ter esquecido, coçando a cabeça. Voltou-se para o mimético. — E esta é minha parceira. Melhor ter cuidado com ela. — deu uma piscadela.

"Não era exatamente o que eu queria ouvir, mas não importa mais", pensou Rosie, revirando os olhos de tanta ansiedade que sentira no momento.

— Você mencionou... Inquietação. — citou o mimético. — Algo ruim? O que vem depois?

— Nem queira saber. — disse Edgar, firme.

— E não deve. — interveio Rosie, pondo-se lado à lado com o caçador. — Apenas mantenha seu foco nas nossas perguntas. O.K? — pediu, o tom rigoroso.

Andando pela sala, Edgar observava seu reflexo na lâmina do facão com certa tranquilidade.

— Você já presenciou a morte de algum dos seus companheiros? — perguntou Edgar. Rosie o olhou com desaprovação nítida.

— Começou bem. — disparou ela, irônica. Voltou-se para o mimético para falar rapidamente. — Sabemos que Abamanu está aqui, então nos diga: O que ele planeja fazer?

— Direto ao ponto, assim é que é bom. Aprenda com ela, caçador. — zombou o mimético, olhando com interesse para Rosie.

— Vamos logo, responda. — insistiu Rosie, tentando manter a calma.

— Acham que sei? Eles injetaram aquela coisa em mim há poucas horas. — disse ele, tomando seriedade. — Era a Sala de Controle, se não estou enganado. Havia uma máquina enorme e...

— Não pedi uma descrição do lugar. — disse Rosie, logo puxando-o pela gola da camisa. — Larga de rodeios e fala logo de uma vez. O que Abamanu planeja fazer em breve? — perguntou, assumindo rispidez no tom.

— Vamos com calma, donzela. Sua mão está quente, literalmente. — disse o mimético, voltando a fita-la com um sorriso sacana, sem largar dos olhos pretos. — De fato, ouvi parte da conversa enquanto eu estava sendo levado de volta para cela. O chefe pretende, de alguma maneira, expandir seus negócios para toda a cidade.

— Como é que é? — soltou Edgar, chegando mais perto e atento às palavras do prisioneiro. Olhou para Rosie com certa preocupação, tendo a mesma lhe devolvido o mesmo semblante.

— Meus companheiros de cela estão abaixo de mim. — disse o mimético, logo tornando a rir.

Uma pontada no peito que resultou em arrepios insuportáveis acometera Rosie em segundos. Empalidecendo, a jovem se limitou a encara-lo com pavor contido na face. "Isso só pode significar que ele...".

— Err... Rosie. Está tudo bem? — perguntou Edgar, incerto sobre o estado da jovem.

— Fale mais. — continuou Rosie, ignorando a preocupação do parceiro. — Aliás, seja mais específico quanto ao que disse antes.

— O doutor lá... — disse ele, pensativo, mordendo os lábios. — Hum... não me lembro do nome dele.

— O Dr. Lenox? — disse Rosie.

— Esse mesmo! — confirmou o mimético, empolgando-se na cadeira. — Mas que imbecil ele foi.

— Onde ele está? — perguntou Edgar, adquirindo severidade de repente.

— Em uma cela especial, presenteado com um laboratório e algumas regalias a mais. Nós somos a escória, os peões do tabuleiro, enquanto ele é a carta coringa. — revelou ele. — Parece que ele criou uma espécie de versão melhorada da coisa que corre nas minhas veias agora... e fui a primeira cobaia para servir como teste para ela. E como podem ver... funcionou. — deu de ombros.

***

— Tragam o prisioneiro! — ordenara Abamanu, a voz demoníaca ecoando pela sala de controle.

A porta metálica abria-se inclinando para cima, dando passagem à dois soldados quiméricos que seguravam um apavorado homem vestindo um traje de metalúrgico. O trabalhador inocente debatia-se na tentativa de se libertar daqueles garras que apertavam seus braços.

— Me larguem! Me larguem, suas bestas infernais! — berrava ele em alto som. — Vão se ferrar! — vociferou, olhando para os outros quiméricos que o observavam.

— Cobaias mais inteligentes costumam utilizar o silêncio como amortecedor da dor. — disse Abamanu, frio como um iceberg, fitando o pobre homem com desprezo. -Você, pelo visto, grita sem nem mesmo saber que tipo de dor vai sentir. Humanidade e sua aversão à morte. Como será a morte da sua humanidade, meu caro? Nunca estive tão ansioso. — olhou por cima do ombro, encarando um homem de meia-idade usando um óculos de grau médio, cabelos grisalhos bem penteados para um lado, de rosto quadrado e com barba por fazer, vestindo roupas pretas por baixo de um jaleco branco. Em suas mãos, um conteúdo potencialmente nocivo. — Venha, aproxime-se.

O Dr. Lenox segurava, tremulamente, um cilindro de vidro reforçado com um líquido negrejante e espesso. Acatando a ordem explícita, o cientista caminhou devagar, olhando de modo nervoso para o homem que serviria de cobaia, sentindo crescer em seu âmago uma dolorosa sensação de pena.

— Não. Não! — relutava o homem, deixando-se ajoelhar, sem mais forças para se debater, os soldados largando-o. — Olha bem pra mim. Olha pra mim! — o homem suava profusamente, seus olhos esbugalhados. — Eu sou igual à você. Humano! Você não tem que fazer isso. — disse ele, balançando a cabeça em negação.

— Não tenho escolha. — disse Lenox, o semblante intensamente angustiado, aproximando-se mais.

Um dos soldados entregara uma seringa com agulha para o cientista.

Lenox adicionara o conteúdo à seringa, o líquido negro subindo. O homem, por sua vez, passou a debulhar-se em lágrimas.

Lenox entregara o cilindro a um dos soldados quiméricos, em seguida andando em direção ao homem desesperado, a agulha reluzindo à luz solar que adentrava pelas janelas no alto da parede esquerda.

— Vai em frente... — disse o homem, aceitando seu destino, aos prantos e soluços. — Acaba comigo. Acaba comigo...

Lenox mordia os lábios, a mão direita que segurava a seringa tremendo e aos poucos ganhando proximidade com o pescoço do homem .

— O que conversamos anteriormente, Lenox? — perguntou Abamanu, os braços cruzados. — Hesitação sinaliza fraqueza. Você foi recrutado a servir às minhas vontades... mas lembre-se de minha promessa: O farei desistir de sua pequenez como uma recompensa justa pelos seus esforços.

Lenox fechara os olhos, em um misto de raiva e descrença.

— Me perdoe. — disse ele, em tom baixo, para o homem, o olhando tristemente. — Posso assegura-lo... de que vai doer muito mais em mim.

Enfiara a agulha com precisão no movimento, diretamente na veia carótida esquerda do homem, que logo enegrecera com a substância intoxicando o organismo daquele corpo em uma velocidade aterrorizante.

O homem tremia exageradamente e gemia em agonia com os dentes apertados, tendo seus olhos sendo preenchidos por uma mancha negra, fazendo-o ganhar uma postura aterradora.

Assistindo ao horrendo espetáculo, Abamanu sorriu, mostrando as presas pontudas.

— Parabéns, Lenox. O teste da versão Beta foi um completo sucesso.

***

Um descompasso no coração de Rosie quase a fez recuar de modo abrupto. Um filme de horror que vivenciara nos últimos três dias voltava à tona, cujas imagens sequenciavam em sua mente de modo descontrolado, como lampejos de um pesadelo que se gostaria de esquecer. Contudo, a foto ainda existia e estava guardava no seu quarto, servindo como uma estranha lembrança trazida do futuro. A primeira coisa que Rosie se permitiu pensar foi na substância. "A versão Beta! Ela... já foi criada! Essa não... Áker realmente quis me alertar. Não houve manipulação, nem nada para me pressionar a tomar uma decisão rápida. Isto... Aquilo foi uma profecia... e ao que parece ela está se cumprindo!".

— Por favor, nos fale! — apressou-se ela, pondo as duas mãos nos ombros do mimético, olhando-o com expectativa. — Quanto dessa versão foi produzida?

— Muito pouco, acredito. — respondeu ele, incomodado com a postura da jovem. — Será que dá para parar de me tocar? Já não basta essas amarras... — tentou forçar as cordas ao querer se libertar.

Edgar pigarreara, sinalizando sua vigília rigorosa em impedi-lo de tentar se desvencilhar.

Rosie afastou-se um pouco, sem abandonar sua expressão aflita.

— Pelo que ouvi enquanto estava sendo levado... — continuou o mimético. — ... o chefe forçou o doutor a produzir mais e deseja espalhar essa versão usando alguns como eu, disfarçados é óbvio, como funcionários de uma organização do governo de Londres para convencer os cidadãos a tomarem a vacina para se prevenirem contra o gás tóxico que anda dando o que falar por aí.

— Você disse... Vacina!? — disse Rosie, mal acreditando.

— Não, cestas com doces. — ironizou o mimético, franzindo o cenho. — É claro! A versão nova da coisa vai ser vendida como um antídoto. E presumo que já saibam os resultados da tragédia anunciada. — olhou para ambos, sorrindo. — Contaminação a nível mundial, sem controle algum. Máxima de Murphy: Nada está tão ruim que não possa piorar. — gargalhara em seguida.

Edgar preparava-se para ataca-lo com o facão. No entanto, Rosie o impediu.

— Não, espere. — disse ela, tocando no braço esquerdo do caçador.

— Já perdi a paciência, além de já ter escutado o bastante. — disse ele.

— Nós precisamos avisar ao General para que alerte um pelotão extra a impedir uma nova calamidade. — idealizou Rosie, apta a agir rapidamente para tentar barrar a investida ousada e furiosa de Abamanu contra a humanidade. — Ao menos alguém do nosso grupo deve fazer isso. Se fizermos um anúncio para todos, a missão vai desacelerar e as atenções vão se desviar somente para essa emergência.

— Ela está certa, caçador. Melhor fazer o que ela diz. — intrometeu-se o mimético.

Um ruído de estática no CripTalk de Edgar interrompera a discussão. O caçador pegara o aparelho do coldre no cinto, puxando a antena e o levando ao ouvido.

— Novidades? — perguntou ele.

— Péssimas, eu digo. — respondeu o soldado do outro lado da linha. — O General está ferido. Gravemente ferido! E cerca de 90% do grupo está travando uma luta contra vários miméticos, eles não param, é como se estivessem se replicando a cada minuto!

— Mantenha a calma, por favor. — pediu Edgar, rodeando a cadeira onde o mimético estava sentado. — Na verdade, foi ótimo você ter me contactado logo agora.

— Mas por que? — indagou o soldado, claramente desesperado.

— Há pouco tempo pegamos um mimético. Ele tentou nos atacar antes de entramos e o capturamos para interroga-lo. E devo dizer que as notícias que temos também não são nada boas.

— O que ele disse?

— O cabeça planeja infectar todo o país... — olhou para o mimético com curiosidade. Tapou o alto-falante do rádio-transmissor. — Começando por onde? — perguntou ao humano decaído.

— Acho que ouvi Londres. — disse o prisioneiro.

— Londres é o marco zero. Avise aos outros ou qualquer um que esteja próximo de você para que repasse aos demais essa informação, urgentemente. — disse Edgar, voltando a ficar ao lado de uma desamparada Rosie. — É um plano onde miméticos de primeiro estágio vão agir disfarçadamente para convencer as pessoas a tomarem o falso antídoto para que se previnam do gás.

— Ele especificou o modo como farão isso tão rápido? — perguntou o soldado.

— Hum... Não. — respondeu Edgar, sério e olhando de esguelha para o mimético. Tirou o rádio do ouvido e estendendo-o próximo à boca do prisioneiro, obrigando-o a falar. — Ainda estamos com ele sob custódia. Ouça o que tem a dizer. — olhou para ele ao arquear as sobrancelhas. — Vamos lá, fale.

Inclinando-se levemente para falar no CripTalk, o mimético esboçara uma expressão de enojo.

— Vocês todos irão morrer. — disse ele.

— Diga algo que queremos saber. — exigiu Rosie, pondo as mãos na cintura, a face irritada.

O soldado tornou a falar:

— Isso é o monstro falando? Preciso que revele como executarão esse plano em tão pouco tempo!

— Eu sei lá! — irritou-se ele. — Talvez como um modelo que políticos desonestos fazem nas suas campanhas.

— Como um comício eleitoral? — arriscou o soldado.

— É! Isso mesmo. — confirmou o mimético, a paciência esvaindo-se por completo. — Irão armar um palanque com a intenção de convidar toda a população para se organizar e tomar a "vacina". — rira em escárnio. — Um dos meus colegas de cela foi o prefeito de Londres, seus idiotas!

Um sobressalto abateu-se sobre ambos após aquela revelação inesperada. A dupla se entreolhou, partilhando da mesma sensação de surpresa.

— Mas... como assim? — perguntou Rosie, meio perdida. — Melhor dizendo: Há quanto tempo você estava sendo mantido prisioneiro? — deu alguns passos à frente.

O soldado do outro lado tornou a falar.

— Sou eu quem faço as perguntas neste momento senhorita Campbell, posso ouvir sua voz! — disse ele, autoritário. — Portanto, irei repetir a que fez: Há quanto tempo você está sendo mantido prisioneiro?

— Há exatamente um mês. — respondeu o mimético, lacônico.

Um fato curioso e intrigante retornara à memória de Edgar, fazendo-o refletir profundamente.

— Como posso saber se não está mentindo? — desconfiou o soldado.

O mimético, em resposta, grunhira enraivecido por sua honestidade testada por um homem militar.

— Não seja imbecil! — esbravejou ele. — Estou sendo ameaçado por um caçador e uma garota estranha e amarrado em uma cadeira! Como acha que nestas condições eu poderia me arriscar a mentir? Portanto, o que digo é a mais pura verdade. Sei que nada vou ganhar se eu decidir enrolar por mais umas horas.

— Ele está dizendo a verdade. — afirmou Edgar, olhando para o capturado.

— Como tem tanta certeza? — perguntou Rosie, intrigada.

— Há exatamente um mês atrás... — disse Edgar. — ... houve um boato correndo á solta pelos arredores da capital, especulando que o prefeito havia sido sequestrado ou teria fugido para outro país para tentar suicídio por conta da excessiva carga de trabalho a cumprir e que estava lhe causando crises sérias de exaustão extrema. E agora temos a confirmação. O sumiço do prefeito foi noticiado por poucos jornais, quase nenhum eu acho, foi muito mais um rumor corrido de boca em boca do que uma notícia publicada oficialmente. Provavelmente, a prefeitura acobertou o caso para não causar mais burburinho e evitar que a população o relacionasse com a União Soviética ou a Alemanha. Essa atitude me levou a imaginar o quão manipulados foram os principais jornais do país para não divulgar o suposto sequestro. — fez uma pausa, pondo o rádio-transmissor de volta ao ouvido. — Então esta é a conclusão definitiva: Os soldados do cabeça raptaram o prefeito e o mantiveram cativo até que fosse infectado junto com outros.

— E quando ele foi liberado da cela? — perguntou o soldado, a voz embargada de temor. Edgar gesticulou com as sobrancelhas para o mimético, pedindo para que ele revelasse.

— Creio que ontem à tarde. — afirmou ele.

— Ontem à tarde, segundo nosso interrogado. — informou Edgar, a fala rápida. — Ele já não está mais no cativeiro, como havíamos pensado, logo permanecem dois resgates por aqui. Isto só nos leva a concluir que...

— Sim, exatamente! — interrompeu o mimético, falando em voz alta e rascante. — Ele foi infectado no mesmo dia em que foi solto, para que voltasse ao ofício e mentir sobre o que o levou a se afastar daquele jeito, agindo como se nada tivesse acontecido, agindo como um humano saudável, apenas um dia normal na sua querida cidade!

Rosie tornou a interroga-lo, cada vez mais incisiva.

— Você presenciou o exato momento em que ele foi infectado? Estava entre eles?

— Claro que não, sua tola. — disparou o mimético, ríspido com a jovem desta vez. — Aliás, eu quase cheguei a ser incluído na lista de prisioneiros que seriam infectados, mas os planos de uma hora para outra mudaram e me guardaram para uma ocasião... especial. — sorriu com cinismo. — Eu fui escolhido de forma aleatória demais, me sinto até honrado, tendo em vista o tempo que passei aqui. Agora me sinto mais forte e mais vivo do que nunca.

— Ninguém se importa. — retrucou Rosie, logo voltando-se para Edgar com urgência no olhar. — Melhor agirmos rápido, nosso tempo é curto.

— Muito bem, ouça com atenção. — disse Edgar dirigindo-se ao soldado na linha. — Alerte aqueles que estão fora da zona de combate e peça para que um deles se encarregue de cuidar do General e afasta-lo das proximidades imediatamente.

— Eu vou tentar ajudar. — soltou o mimético para o espanto de Rosie que o olhou com estranheza. — Algo me diz que o pronunciamento do prefeito para o anúncio surpresa e distribuição da falsa vacina não passam de uma distração, uma enganação bem esperta da parte deles. — arriscou ele. — Talvez hajam movimentos alternativos... E então? O que acham dessa teoria?

Respirando fundo, Rosie andava de um lado para o lado lentamente, imersa em uma carga muito profunda de revisitações constantes da perturbadora viagem que fizera há poucos dias.

Edgar quase esquecera-se do soldado ainda na linha do rádio ao direcionar sua atenção à especulação do prisioneiro. Seu semblante era de alguém seriamente desconfiado. "De modo algum isso deve ser desconsiderado, parece uma possibilidade real.".

— Como o quê, por exemplo? — perguntou ele. — Por que será que tenho a sensação de que você só está nos testando e sabe mais do que diz?

— Confiem em mim. — disse ele.

— É a última coisa que queremos. — redarguiu Edgar, inflexível.

— Não pararam para pensar, seus idiotas? — ofendeu o mimético, a pressa para o término do interrogatório dando seus sinais. — Eu ouvi conversas. Ou pelo menos fragmentos delas. Meus colegas de cela me repassavam algumas ideias que os poderosos estava discutindo. Acho que assim que fossem infectados... seriam levados a uma missão especial, como forma de reaver o controle sobre a contaminação pelo fato das fábricas terem sido desmanchadas. O chefe só quer voltar ao poder... com mais visibilidade, se é que me entendem. — informou ele.

— E no que consistem esses planos alternativos? — perguntou Edgar, ansiando para sair daquela sala fria.

— Ouvi mencionarem água... — disse, dando de ombros. — ... casas, humanos, esgotos...

— É isso! — disse Edgar, tendo um lampejo, assustando Rosie. Virou-se para ela, empertigado. — A distribuição da falsa vacina é uma fachada para mascarar os movimentos mais audaciosos. O que ele nos disse agora deixa isso bem claro. Essa nova versão vai ser liberada em redes de esgoto, reservatórios de água... — fez uma pausa, preocupando-se ao dar-se conta da assombrosa gravidade do problema. — ... depois para os encanamentos de residências, depois lagos, rios e oceanos. Poluição a nível global.

— Como eu disse: Em larga escala. — lembrou o mimético, virando o rosto, entediado.

Rosie mal conseguia expressar palavras para reagir àquilo. Apenas limitou-se a imaginar como as horrendas poluições se dariam caso não conseguissem impedir a tempo. "Não resta muito tempo. Precisamos correr!".

— Ainda está na escuta, Edgar? — perguntou o soldado ainda na linha.

— Ahn... Sim. — falou ele, ainda tentando processar as revelações e conclusões feitas. — Olha... Eu vou tentar ser bem claro e breve: Não só alerte aos outros sobre o estado do General... mas também sobre uma missão urgente para evitar uma tragédia. Seja rápido ou várias pessoas serão infectadas em pouco tempo. Pelo que conseguimos obter, acreditamos que um grupo de miméticos de estágio primário estejam se preparando para disseminar a nova versão da substância nas redes de esgoto até chegar aos mares e oceanos.

— Ah, meu deus... — disse o soldado, desesperando-se mais. — Então só depende de mim mesmo. Está bem então. Vou tentar encontrar um lugar seguro para o General ficar, vou até o grupo que está lá dentro e avisa-los. Depois solicitaremos um pelotão-extra para ir até o centro de Londres, é óbvio que a distribuição vai ocorrer lá... Mas não posso fazer isso sem uma autorização do General.

— Então peça já. — disse Edgar, impaciente, revirando os olhos. — Sei que ele está próximo de você, portanto faça isso, rápido. Conte à ele primeiro, mas poupe-o dos detalhes por conta do tempo que está curto demais, mesmo que ele se irrite e questione depois, diga apenas o necessário. E, por favor, tente entrar ileso e discretamente, mantenha seu equipamento. OK?

— OK, pode deixar! — disse o soldado, falando depressa e em seguida desligando.

O caçador, por fim, guardara o rádio-transmissor no coldre, suspirando pesarosamente.

— Vamos lá. — disse Rosie, andando até a porta. — Precisamos saber se ao menos a primeira pessoa já foi resgatada. "Êmina, estou indo... estou indo busca-la, você verá a luz do dia novamente.", pensou.

— Já vou, eu... — disse Edgar, olhando de soslaio para o mimético. — Só preciso terminar aqui... — virou-se para ele, logo erguendo o facão e decepando a cabeça do prisioneiro em um golpe preciso e horizontal. Ouvira um grito rápido e cortado durante o movimento. A cabeça caíra para trás da cadeira e o pescoço expelia profusamente a gosma preta e espessa, sujando o uniforme cinza do homem.

— Ei! — chamou Rosie, abismada com o ato. — O que combinamos antes? — aproximou-se, olhando-o com reprovação. — Você não é um homem de palavra.

— Sou um caçador, Rosie. — enfatizou Edgar, sério, limpando a lâmina no colete marrom que vestia. — Apenas faço promessas que posso cumprir. E esta não foi uma delas. Lamento se tem algo contra isso. — caminhara até a porta.

— E se existir uma cura? — teorizou Rosie, acompanhando-o e saindo da sala. — O dr. Lenox esteve trancafiado em um laboratório por meses, deve ter formulado alguma coisa para reverter a infecção. Se tivesse o deixado viver, nós iríamos testa-la depois de resgatar o doutor.

— As amarras não estavam tão bem apertadas. — disse o caçador, guardando a faca. — Enquanto trouxéssemos o doutor para a sala, ele já teria se libertado e escapado. Além disso, não há nada que garanta a existência de uma cura. Aquele mimético esteve frente à frente com me... Quero dizer, com o doutor enquanto estava sendo infectado. Mesmo assim não nos revelou nada sobre uma cura, ainda mais porque você foi lembrar disso só agora.

— Está bem, não vamos pôr minha memória falha em discussão, sou culpada por não ter lembrado desse detalhe. — disse Rosie, erguendo levemente as duas mãos.

— Nem queira me fazer ficar arrependido pelo que fiz. — ditou Edgar, andando mais rápido até o início do corredor. — Ele era um monstro. Obviamente fugiria para mais distante para infectar mais pessoas, talvez imaginando que serviria como o "acelerador do processo de dominação global". — argumentou.

— Ele estava infectado com a nova versão. — insistiu Rosie, potencializando sua irritabilidade. — Sabe-se lá quanto tempo ele teria naquele estágio. Talvez nem conseguisse chegar ao centro de Liverpool a tempo de infectar suas vítimas de forma discreta. Concorda?

— Hum... Não. — disse Edgar, olhando para ela com um sorriso forçado.

— Você é um cara bem chato para alguém que foi dispensado. — provocou ela, olhando-o.

— Já fui chamado de coisas piores. — defendeu-se ele. Ambos finalmente chegaram à divisão de corredores, parando no início do qual antes estavam. Edgar visualizara com atenção a esquerda e a direita. — Acho que é hora de nos separamos. O que acha?

— De pleno acordo. — afirmou ela, evidenciando sua rápida antipatia pelo caçador. — Vou para a direita. — disse, começando a tomar o rumo. — Até mais.

— Ótimo. Nos vemos por aí. Boa sorte. — disse Edgar, olhando para ela por cima do ombro de modo analítico.

Com caminhos separados, ambos almejavam propósitos diferentes. Rosie com o foco no resgate de Êmina... e Edgar com um objetivo principal bastante oculto.

CONTINUA...