Capuz Vermelho - 3ª Temporada

31 Alfa, Beta e Ômega (Parte 2.3)


Por um corredor da fábrica de Birmingham, Áker andava a passos rápidos e largos, decisivo em seu propósito de frear os contra-ataques ordenados por Sekhmet. Um abafado som de um grito ecoou até chegar à sua audição sobre-humana. Vinha da sala no fim do corredor mais á frente. O arauto correra, passando por entre dois corredores à sua esquerda e direita. Erguera a mão, fazendo-a irradiar uma luz alaranjada, a mesma crepitando como se estivesse em plena combustão. A porta, por fim, fora destruída e explodida pelo poder solar do arauto, seus pedaços voando pelo ar.

O estardalhaço da chegada de Áker provocara a ira dos subordinados de Sekhmet. Um deles havia acabado de assassinar um dos aliados do arauto, cravando-lhe uma faca dourada no peito. Ao olhar desalentado para o irmão caído, cujo receptáculo estava terrivelmente carbonizado, Áker sacara sua espada dourada, desviando os olhos, agora furiosos, para aqueles que julgara como verdadeiros traidores do império.

A deusa escolhera caçadores vinculados ao Exército Britânico, que, por sorte, foram dispensados daquela operação de resgate e confinados em bases montadas como acampamentos em áreas florestais. Sendo assim, todos eles tiveram de abandonar seus postos para virem apoiar a esposa de Yuga, por quem nutriam devoção e lealdade ante suas propostas de uma nova gestão no reino.

Lutar pela salvação do império.

— E chegou o manipulador. — acusou um, vindo na direção do arauto, com uma faca dourada em mãos.

— Não. — disse outro, um caçador baixinho e ranzinza, olhando-o com deboche. — Ele é o insurgente.

— Ainda não sei como se safou de nossa rainha — disse o terceiro, alto e magro, apontando a faca para o mensageiro. -, mas nós somos três... e não vai ser seu ego moldado pela sua importância que vai salva-lo de nós.

O caçador baixinho avançara contra Áker, tentando esfaqueá-lo. O arauto defendeu-se com sua espada dourada. O mais alto veio pela direita, com o mesmo movimento do outro, Áker dera-lhe uma joelhada e um chute no estômago no outro, logo em seguida dando-lhe uma cotovelada no nariz. O assassino do aliado do arauto logo avançara com fúria. Áker o pegara pelo braço, quebrando-o com o joelho esquerdo, depois dando-lhe um golpe com o cotovelo em seu rosto, fazendo-o cair.

O baixinho viera tentando pega-lo desprevenido, mas Áker, utilizando-a de sua alta percepção, virou-se para ele, cravando verticalmente a espada dourada na cabeça do soldado. O mesmo irradiou uma luz amarela pela boca e olhos, sua casca queimando-se e carbonizando-se.

— Me perdoe, irmão. Minha luta possui a mesmo objetivo que o de vocês. — disse Áker, com pesar na voz.

— Maldito! — gritou o mais alto, desferindo um corte no rosto de Áker com a espada.

A ferida, por poucos segundos, tremeluziu uma luz alaranjada, que logo sumira. Áker o olhou com certa raiva e aproximou-se com supervelocidade, empurrando contra uma parede. O outro viera por trás, logo cravando a faca nas costas do arauto, produzindo um rápido brilho amarelo.

Áker gemera, mordendo os lábios, enquanto mantinha o caçador mais alto contra a parede. Direcionou as pupilas enviesadamente, o suor descendo pela sua testa.

— Vocês não entendem... — disse ele, tirando a mão direita que segurava um lado da gola da camisa do caçador para retirar a faca em suas costas. Por fim, retirara-a, voltando-se para aquele que matara seu aliado, mostrando a faca ensanguentado e mantendo o outro sobre seu domínio. — Sekhmet está os induzindo a uma teia de constantes manipulações.

— E que escolha nós temos? — disse ele, desafiador. — Nós já sabemos que você a enganou. O faremos pagar caro, mesmo que isso signifique nós matarmos Rosie Campbell.

Áker usara a faca para cravar no que estava contra a parede.

O outro, com telecinesia, pegara a espada do arauto para golpeá-lo pelas costas novamente. Rápido e ágil, Áker virara-se e entortara o braço do soldado antes que ele atacasse. Ele gemeu de dor, sendo forçado a largar a arma.

— Nenhum de vocês é ousado o bastante para tocar nela. Não enquanto eu estiver vivo! — vociferou ele, logo tomando sua faca de volta e cravando-a no rosto do oponente em posição horizontal. O empurrara contra o chão, olhando o desolador cenário que a sala branca se tornara.

— Lutamos pelo mesma causa. Com meios diferentes. Lados diferentes. Sem nenhuma escolha senão lutar. E vejam como termina. — disse, logo tornando a olhar para mais dois que entraram na sala. — virou-se para retirar a faca que usou para matar o mais alto, ficando com duas em mãos.

— Permaneço servindo ao Lorde. — disse Áker, olhando de soslaio para a dupla.

— Você, dentre todos os outros que estão coniventes com sua rebeldia, é o mais cego. — provocou o primeiro, um caçador vestindo um colete marrom — como os outros -, camisa branca e calças pretas. Seu rosto era caucasiano e robusto, com barba por fazer e cabelo curto e preto. — Não percebe o quão incapaz ele está contornar os danos causados pelo inimigo?

— Insiste, cegamente, em seguir as ordens de um imperador que resolve meditar ao invés de olhar para nós e entender nossa revolta. — disse o outro, barbudo e calvo.

— A vontade dele é irrevogável e absoluta. — enfatizou Áker, falando de modo rigoroso. — Se rebelar à ela é inútil. A fúria de Sekhmet dividiu nosso exército, ela manipulou todos vocês. — tentou convence-los, fitando-os de modo que os fizessem entender completamente seu lado naquela guerra.

— Basta. — disse o segundo, inquieto, segurando firme sua faca dourada. — Afinal, onde ela está?

— Já dei minha versão dos fatos. — retrucou o arauto, respirando fundo. — Como os mortais dizem: o pior cego é aquele que não quer ver. E, obviamente, não me enquadro nesta definição.

— Nos diga agora. — disse o primeiro, dando uns dois passos adiante com ar de ameaça. — Não tente usar sua posição como argumento para justificar as decisões do Lorde Yuga.

— Quando Sekhmet demonstrou os primeiros sinais de que não mediria esforços para matar Rosie, me prontifiquei a agir como defensor. — argumentou Áker, o tom mais grave.

— Cometendo uma irregularidade passível de punição, espertinho. — redarguiu o barbudo, levantando uma sobrancelha.

— O que pode-se traduzir facilmente como um risco que estive cientemente disposto a correr. — falou o arauto, a voz adquirindo irritabilidade.

— A efetivação fez mal á sua mente, Áker. — disse o robusto, olhando-o com decepção. — Nos queremos que o faça acordar.

— E se eu recusar...? — indagou o arauto, desconfiado quando às intenções de seus irmãos.

— Nós forçaremos o despertar dele... — disse o segundo, com um sorriso sacana. — ... e contaremos que fez mais do que sua obrigação. Revelaremos que se tornou protetor da mortal, ignorando seu papel original. — ameaçou ele.

— É isso Áker. Não o deixaremos passar enquanto não se decidir. Escolha! — disse o primeiro, raivoso, deixando suas pupilas brilharem a luz amarela por poucos segundos. — Renda-se ou morra.

Como medida de evitar mais perda de tempo, o arauto piscara, logo exibindo seus olhos totalmente brancos, visualizando todo o recinto ao seu redor. A visão em preto e branco da sala mostrara marcações por toda parte.

— Isso é novo pra mim. — comentou o barbudo, estranhando a habilidade, revelando nunca tê-la visto.

— O que está pretendendo fazer? — perguntou o primeiro, segurando com mais firmeza sua faca dourada.

Áker sorrira levemente, em seguida piscando e fazendo seus olhos retornarem.

— Como pensei: Não foram avisados. — disse ele, praticamente deliciando-se com a aparente vantagem.

— Não fomos avisados de quê? — questionou o mais robusto, ríspido.

O arauto, rapidamente, largara as facas que antes segurava, jogando-as no chão.

— Então é assim que será?! Rendição. — disse o primeiro, sorrindo de canto de boca.

— Negativo. — disse Áker, lacônico. O arauto de Yuga, sem perder mais nenhum segundo, erguera os dois braços à frente, recitando, em ritmo veloz, o conhecido rito para ativação de sigilos, totalmente em dialeto dos deuses. Ambos os asseclas de Sekhmet entreolharam-se abismados em um contato visual que denotava uma fuga rápida antes do término do ritual.

Estalando os dedos das duas mãos ao mesmo tempo, Áker olhara para as duas paredes que revelaram duas marcações acendendo-se.

Os dois soldados, como esperado, foram atraídos pelos sigilos acesos tal como a ação de um metal para com um imã. Ambos gemiam, presos e inertes nas paredes, enquanto a marcação começava a exercer sua principal função.

— Depois que Rosie dizer sim — disse Áker, tranquilamente andando até a entrada e ignorando os dois asseclas em seus sofrimentos. -, a punição para minha conduta irregular perderá sua legitimidade.

— Há marcações... — disse o barbudo, desesperando-se ao sentir suas forças sendo absorvidas pelo símbolo brilhante. — ... em toda a parte!! — gritou ele, numa tentativa vã e estúpida em querer chamar a atenção de qualquer aliado de Sekhmet que estivesse próximo.

Áker parou na soleira, próximo aos pedaços chamuscados da porta destruída.

— Evitem gritar alto demais, suas cascas podem ser danificadas e a situação em que estão pode piorar. — alertou ele, calmo. — Se querem saber... Ela está neutralizada, sem qualquer brecha para estabelecer contato com nenhum de vocês.

— Maldito... — disse o mais robusto, a voz fraca, rangendo os dentes em cólera.

"Pior que não adianta tentar contactar Mihos.", pensou Áker, saindo da sala em passos vagarosos, sem nada a temer. "Fiquei como responsável por ele na ausência do pai, mas é inútil controla-lo ou convence-lo. Só pensa em saciar sua sede de morte, sangue e luta. Caso eu pedisse que se encarregasse de matar os rebeldes de Sekhmet, seria como tentar dialogar com uma pilastra. Ele não cederia, mesmo que fosse para simplesmente matar com uma facada. Não aceita um serviço se este não inclui sujar as próprias mãos. Temos quase o mesmo nível de poder, mas posso fazer isso sozinho.".

Repentinamente, surgiram dois asseclas da deusa solar, após virem de outro corredor à direita. Assim que avistaram o arauto, seus olhos brilharam e suas faces o encararam com ódio. Logo correram na direção do mensageiro de Yuga, sacando suas facas douradas.

Áker rapidamente retirara seu amuleto do bolso do smoking, o objeto já totalmente recarregado, e acelerara o ritmo dos passos. Dissera algo no dialeto divino com o amuleto próximo à boca e logo o jogara à alguns metros à frente no chão. Parara e estendera a mão direita em direção ao minúsculo objeto, os dedos dobrados em formato de garra.

O amuleto vibrara de modo leve, para em seguida brilhar e, por fim,provocar uma explosão que liberou uma feroz rajada solar em direção aos asseclas, que mal gritaram de dor enquanto eram incinerados em segundos, seus corpos queimados e sendo varridos feito cinzas ao vento.

A rajada deixara alguns brasas no chão do corredor, mas Áker pouco se preocupou com isso, tornando a andar, seu amuleto telecineticamente indo de volta para sua mão.

"Preciso ir à Liverpool. Só mais três horas de recarga. Sekhmet está fora de rastreamento por seus soldados, já deve ter perdido mais da metade de sua força de vida. Não é somente você Rosie... que tentará evitar que o pesadelo que testemunhamos seja concretizado.".

***

O sino que indicava a chegada de um cliente ou visitante tocara rápido com o abrir da porta da loja, balançando levemente.

O estabelecimento, como um todo, era de um caráter simples e modesto, com paredes de um amarelo meio escurecido, umas quatro colunas fixadas entre o piso de madeira e o teto forrado com concreto resistente. Na entrada havia um curto corredor que direcionava o cliente ao balcão de madeira, onde ficava uma senhora meio gorducha, parda, de cabelos brancos e desgrenhados usando um óculos de armação pequena. Não tardou para notar a estonteante presença que se avizinhava, ao erguer as pupilas para a bela garota ruiva se aproximando, tirando sua atenção do pequeno livro que estava lendo no momento.

Eleonor, fingindo ser Alexia e uma cliente que entrara na loja pela primeira vez, passeava os olhos interessados por toda a estrutura, visualizando as prateleiras com diversos itens acerca de magia e ocultismo — indo do primitivo ao mais renovado, consistindo em um acervo atraente para os apreciadores do místico sobrenatural.

— Em que posso ajudar? — perguntou a senhora, a voz rascante e rouca, olhando para a moça caucasiana de cabelos ruivos alaranjados.

— Ahn... Olá. — disse ela, fingindo timidez e forçando um sorriso. Relanceou uma prateleira atrás da dona. — Devo dizer que... sua loja me pareceu bastante interessante à primeira vista, e que... — baixou a cabeça, tornando-se séria, como se não soubesse. "Acho que os atributos deste corpo inibem meu dom para atuação", pensou a bruxa, frustrada. Voltou-se para a senhora, sorrindo mais abertamente. — Bem... estou um pouco sem tempo, então gostaria de comprar um destes artefatos que estão... — apontou com o indicador. — ... naquela caixa ali. — disse, tendo notado anteriormente as pedras Ônix.

A senhora virou o pescoço para vislumbrar a caixa apontada. Voltou-se para Eleonor com tédio na face. Olhou de cima à baixo.

— Bela garota você é. — deu um sorriso misterioso. — Mas nova demais para manobrar magia de absorção, não acha?

— A prática leva à perfeição, certo? — disse a bruxa, levantando uma sobrancelha.

A mulher idosa inclinou-se, analisando-a com uma minúcia que parecia transpassar a alma.

"Yvette é extremamente analítica, um detalhe que decidi ocultar para não prolongar mais aquela discussão. Ela não mudou absolutamente nada. Preciso agilizar, antes que ela descubra.", pensou Eleonor.

— Seu chackra me é muito familiar... — disparou ela, olhando a cliente desconfiada. — Instruído e equilibrado para uma jovem aparentemente iniciante. Há quanto tempo anda exercitando sua magia? — questionou, suspeitosa.

— Não vim para responder perguntas. — apressou-se Eleonor, pondo as mãos sobre o balcão e fitando a senhora com urgência no olhar. — Preciso de uma Ônix. — aproximou-se mais um pouco. — É uma emergência. — sussurrou.

— Para qual clã você trabalha? — insistiu ela, ignorando a recusa da bruxa.

— Nenhum. — respondeu ela, a fala rápida. — Sou uma bruxa altamente independente. E se reconhece meu chackra, isto só pode significar uma coisa...

— Já basta! — ditou a senhora, ríspida, afastando-se alguns passos. Sorriu presunçosamente ao olha-la com suspicácia. Balanço o indicador esquerdo para ela. — Você não é quem penso ser.

— Do que está falando? — perguntou Eleonor, adquirindo nervosismo na face.

— Consigo notar uma curiosidade em você... — disse ela, novamente analítica, estreitando os olhos envelhecidos. — Uma curiosidade que me faz lembrar de um certo alguém que costumava frequentar esta loja quando necessitava treinar sua magia para conseguir se enquadrar no Coven inglês.

— Deve estar me confundindo com outra pessoa. Olha... — apressou-se Eleonor, impaciente. — Me dê a pedra, pago o preço que for, mas dê-me agora. É urgente.

— Seu comportamento também não é lá muito típico de uma jovem bruxa. — disse a senhora, dando de ombros, visualizando-a de cima à baixo novamente. — E agora consigo sentir seu chackra oscilando lentamente, um chackra facilmente reconhecível... — inclinou-se para ela, desafiadora. — Um chackra nível ômega. — afirmou, sorrindo como se tivesse vencido uma competição. — Nunca me enganou, mocinha.

Engolindo a saliva, Eleonor somente pensava no temor de ser descoberta. Apenas não pensou que seria tão rápido. "Yvette, maldita é sua visão estudiosa, mas não a culpo por ser uma das poucas pessoas que conseguem ver além das aparências. Como sempre, você é a melhor neste quesito.".

— O que quer desta vez... Eleonor? — perguntou Yvette, apoiando o cotovelo direito no balcão, levantando uma sobrancelha. — A posição que ocupa não abrandou sua ingenuidade, pelo visto. Troca de corpos?! É sério isto? Na época em que éramos mais próximas a fiz aceitar que não sou fácil de enganar. O que a fez regredir suas intuições?

— Olha, Yvette... — disse a bruxa, respirando fundo e fechando os olhos. Abrira-os, olhando-a com certa raiva aliada à crescente pressa. — Infelizmente, não estou com o menor tempo para matar as saudades, muito menos para ouvir você tentar me convencer de que é boa em detectar disfarces, mas não tive escolha. Na verdade, nem mesmo posso falar o porque.

— Compreendo sua impaciência. — disse ela, andando em direção à caixa antes mostrada.

— O que quer dizer com isso? — perguntou Eleonor, desconfiada.

— Nem eu mesmo acreditei quando ouvi. — disse Yvette, pegando a caixa e trazendo-a ao balcão.

— O quê, Yvette? O que lhe disseram? Aliás, quem disse? — questionou a bruxa, cada vez mais nervosa.

— De boa menina você nunca teve a postura. — disparou ela, pondo a caixa sobre o balcão. — Mas ser uma criminosa perseguida pelas suas colegas... — suspirou com ar de decepção. — Confesso que esperava menos de você.

— Uma delas veio aqui? — perguntou Eleonor, alarmada. — Quando?

— Fui coagida a não revelar mais do que isso. — relatou Yvette, categórica no tom.

— Então deve ser isso. — disse Eleonor, pensando a respeito da tal visita. — Elas contaram com a possibilidade de que eu recorreria à você e agiram previamente para impedir que você me revelasse maiores detalhes sobre o que estão planejando para me emboscar. — voltou-se para a amiga com alarme pulsando nos olhos e retirando o dinheiro do vestido, logo entregando-o. — Tome. Me dê uma Ônix. E não questione.

— Por que não? — indagou Yvette, rigorosa.

— Não pense nisso, por favor. Jamais desconfiaria de você, sei, só de ver como está se sentindo, que foi ameaçada de morte. — disse ela, demonstrando toda sua amizade e lealdade à lojista. — Mas me responda uma coisa: Há quanto tempo você pratica magia?

Yvette virara o rosto devagar para um lado, apresentando uma aparente hesitação.

— Vamos lá, ora! — pediu Eleonor, aborrecida. — Por durante décadas, confidenciamos segredos uma à outra, coisas que só de pensar em revelar à pessoas que nós amamos já nos causava arrepios. Não espero que você limpe minha bagunça com uma corda posta no seu pescoço, mas preciso que me diga, por favor. — olhou-a com ar de necessidade.

— Há mais tempo do que imagina. — respondeu ela, sem a menor pretensão de fornecer maiores detalhes.

— Ótimo. — disse Eleonor, mordendo os lábios e pegando uma pedra Ônix na caixa. — Obrigada pelo atendimento. — olhou para ela com angústia. — Espero conseguir retribuir um dia. E, por favor, se elas voltarem, não ceda às ameaças.

Yvette rira com leveza.

— Por anos treinei minha magia secretamente, e, tenho que confessar, ela não é a mesma de outrora. Talvez muito devido à inatividade. Que chances eu teria contra aqueles demônios em pele de mulheres? Eis meu conselho, Eleonor: Nunca subestime algo que você tem certeza de que não pode vencer facilmente. — avisou ela, séria no tom.

Entendendo o conselho alertante quanto ao uso abusivo da auto-confiança, a bruxa assentiu vagarosamente com uma face embargada de seriedade. "É ela mesmo", pensou, abandonando a suspeita não totalmente externando.

Poucos milésimos após virar as costas, a atenção de Eleonor fora chamada novamente.

— Quem é a pobre coitada com quem realizou a troca? — perguntou Yvette, sem medir sua curiosidade.

Eleonor ficara sem responder por alguns segundos. Estava atenta fitando um exemplar raro sobre Profetas localizado na prateleira à sua esquerda. A bruxa, logo lembrando-se de responder a pergunta, voltara-se para Yvette, quase que sem desgrudar os olhos do livro de lombada quadrada, na qual podia-se ver o título "Prophets", escrito em relevo e em cor dourada.

— É... é uma profetisa. — disse ela, involuntariamente erguendo o indicador direito em direção à prateleira. — E por falar nisso... — olhou para Yvette. — Quanto custa aquele? Aposto que é extremamente raro, tão raro quanto o Goétia.

— E por falar nisso... — disse Yvette, saindo de perto do balcão e dirigindo-se à prateleira, ajeitando os óculos. — ... há duas semanas, um rapaz, bem apessoado diga-se de passagem, veio até aqui à procura do Goétia. Era o único aqui na loja. Acho que era um servidor da lei, pois notei algo parecido com um distintivo na parte de dentro do casaco dele. — passou os dedos por entre os livros.

— Muito estranho. — opinou a bruxa, pensativa. — Não me entra na cabeça o interesse que o Goétia pode despertar em alguém... assim. — disse ela, reprimindo a surpresa por Yvette ter posto uma cópia do livro de invocações demoníacas à venda.

— Penso o mesmo. — respondeu ela, parado o dedo no livro apontado por Eleonor. — Este aqui?

— Sim, é. — confirmou ela, empolgada.

Após retira-lo, Yvette assoprou a poeira que formou uma nuvem pairando no ar e na luminosidade amarelada produzida pela luminária de piso posta próxima à prateleira.

— São 30 euros. — disse ela, entregando o livro.

— Não. — disse Eleonor, um tanto pensativa, balançando a cabeça negativamente. — Melhor não. — voltou-se para a amiga, mudando de ideia. — Olha... Você ainda tem vínculo com a agência de correio?

— Como sempre. Por que? — perguntou Yvette, o cenho franzido, parecendo fingir não saber.

Eleonor olhara para os lados, apressada.

— Preciso de lápis e papel. — pediu ela.

— Segure aqui. — disse Yvette, entregando o livro à bruxa, logo andando até o balcão, visando um ínfimo bloco de notas próximo à uma máquina de escrever. O lápis pegara em um caixa pequena onde guardava bijuterias antigas encontrada do outro lado do balcão.

Eleonor anotara, com rapidez na escrita, sua localização exata. Por fim, entregara com pressa o papel à amiga.

— Aqui está. Prefiro uma entrega em domicílio. Por favor. — disse ela, suando em profusão.

— Você está nervosa. — comentou Yvette, dobrando o papel e sorrindo enigmaticamente para a bruxa. — Ao que parece, deve ser algo de extrema importância.

— Acho que está bem óbvio. — retrucou Eleonor, dando uma risadinha nervosa.

— Seu chackra está muito instável. — disse Yvette, aproximando-se dela com preocupação. — Tem mesmo certeza... de que quer sair lá fora sem nenhuma proteção? Convenhamos... uma troca de corpos não foi, nem de longe, a melhor ideia para se driblar uma perseguição.

— Sim, Yvette... — disse Eleonor, sentindo-se cansada e respirando com dificuldade. — Você... está coberta de razão.

— E você coberta de insegurança. Nunca a vi assim. — disse ela, insatisfeita. — Não parece estar bem, ande, venha, vou preparar um chá para nós duas.

Eleonor sentira uma tontura instantânea abatê-la como uma descarga elétrica. O mundo ao seu redor girava em câmera lenta em uma confusão entorpecedora. "Mas o que... Mas que merda! Quando o chackra ganha muita instabilidade após o feitiço... causa a rejeição. Se eu não controlar essa pressa... se essa ansiedade toda me dominar completamente, tudo vai estar arruinado! Minha alma será ejetada do corpo de Alexia. Não quero nem pensar...". Pôs a mão no rosto, tentando se reorientar e manter o equilíbrio.

— Vamos, venha. — pediu Yvette, olhando-a com aflição. — Sei o que está causando isso. É o feitiço, óbvio! Você pulou várias páginas, pelo visto. Quando entrar, garanto que se sentirá melhor. — tocou na mão direita da bruxa.

— Não, Yvette... — disse Eleonor, recobrando a orientação. — Eu falei que estava sem tempo. Portanto, não tenho tempo para conversas... Preciso ir. — disse ela, caminhando a passos largos em direção à porta. — Ainda nos veremos de novo.

Por fim, a bruxa fechara a porta e andara pela calcada sem olhar para trás ou para os lados, salvaguardando a pedra Ônix dentro do vestido e se misturando entre as pessoas que iam e vinham pela rua naquela manhã ensolarada.

Yvette desdobrara o papel para olha-lo com mais atenção. Sorriu com certo maquiavelismo.

De repente, a ilusão se desfizera. Yvette "transformara-se" magicamente, em segundos, numa linda mulher de pele alva como a neve, com cabelo preto estilo chanel e batom escarlate. Abriu mais o sorriso e olhou para a porta com júbilo contido. Além disso, usava um colar cujo pingente era um objeto similar a uma garra de águia... ou, como era comumente chamado, um Ferrão de Vespa... bastante usual entre bruxas.

— Com certeza iremos nos ver de novo. — disse ela, amassando o papel em seguida.

Do outro lado do balcão, mais especificamente na parte de baixo dele, escondido entre caixas de papelão, estava o cadáver de Yvette, boquiaberto e com olhos anormalmente esbugalhados.

***

Liverpool; 10h40.

Uma multidão composta de 62 soldados acompanhava Rosie subindo uma parte meio íngreme da floresta com árvores mais finas e altas. As botas dos integrantes daquele exército deixavam marcas no verdejante gramado bem preservado. Fachos de luz solar irrompiam dos galhos e folhas, iluminando algumas partes do solo e parte dos rostos dos soldados. A jovem, olhando fixa e bravamente para frente, somente possuía pensamentos em sua única meta. "Resgatar Êmina e o Dr. Lenox e conseguir a fórmula da cura, se caso houver. Droga, Hector, onde diabos você se meteu?", pensou ela, a figura do caçador-detetive ocupando seus devaneios e a aflição novamente vindo à tona sobre o suposto sequestro do companheiro. De fato, um sumiço sem qualquer presença de vestígio que reforce uma suspeita. Fuga ou sequestro? Já não importava mais. O General tinha razão sobre desconsidera-lo àquela altura, embora cometesse um erro ao mentir para Rosie sobre uma busca que certamente não foi planejada e muito menos iniciada. No entanto, a imagem mais persistente era aquela que vira no futuro caótico. O fato do desaparecimento do caçador aliado àquele pensamento lhe causava arrepios constantes. "Não. Não pode ter sido isso. Vamos lá, Rosie, tenha um pouco de fé. Isso não aconteceu. Nenhum soldado de Abamanu simplesmente apareceu no casarão depois da luta contra aqueles lobisomens e depois de eu ter sido levada apenas para sequestrar Hector. É implausível demais. Abamanu só possui olhos para mim, deveria estar muito desesperado para mudar os planos assim tão rapidamente. Mas... quando eu estava naquele futuro desastroso... Abamanu disse que ele pediu por isso. Que foi uma escolha dele. Ah, Rosie! Concentre-se na missão! A partir de agora, você está sujeita a um mar de eventos imprevisíveis, então é isso... Vou limpar minha mente e me focar somente nos resgates. Áker está ocupado atrasando Sekhmet e os aliados dela. Mihos também está lá junto com o General. Tudo está em perfeita ordem. Pelo menos por enquanto, eu acho.".

A fábrica finalmente ficara visível. À primeira vista, Rosie se surpreendeu um pouco pela mesma ter uma estrutura mais opulenta que as outras e parecer um palácio cujo objetivo era intimidar visitantes indesejáveis apenas com aquela aparência robusta e impenetrável. "Maior do que as outras... mas não significa que Charlie possa estar lá. A menos que ele esteja agindo com mais agilidade do que nós. Talvez tenha se preparado para várias contingências.", pensou Rosie, formulando inúmeras teorias na mente.

No fim da parte íngreme podia-se ver cerca de quatro homens, aguardando a chegada do Exército.

Rosie pareceu a primeira a notar, franzindo o cenho, desconfiada. "Afinal, quem são?".

— Devem ser os caçadores enviados para auxiliar nos resgates, certo? — perguntou um soldado, próximo de Rosie à direita.

— Afirmativo. — respondeu Edgar, logo olhando para Rosie com certa satisfação ao vê-la pela primeira vez. — E você... deve ser a tão falada Rosie Campbell, não é?

— Sim. — disse ela, olhando de relance para os outros três caçadores. — Hector me falou de você. — estendeu a mão esquerda para cumprimenta-lo. — Prazer.

— O prazer é todo meu. — disse ele, retribuindo com um aperto de mão. — Bem, estes aqui atrás são Gerald, Paul e Victor. — apontou com o polegar.

O trio de caçadores assentiu com sorrisos leves.

— Hector me falava muito bem de você. — disse Edgar, com um olhar misterioso. — Uma pena ele não estar aqui.

— Então sabe que ele desapareceu? — perguntou Rosie.

— O General me informou. — revelou ele. — Fui o único caçador selecionado a fazer contato via rádio com ele caso alguma informação tivesse de ser repassada aos outros.

— Hector já tinha me dito isso. Então é melhor irmos. — disse Rosie, tornando-se apressada, aproximando-se mais do caçador. — Você agora é meu parceiro número 2. Até tudo isso acabar.

— Hum... ótimo. — disse Edgar, dando um sorriso de canto de boca. — Acho que será interessante. — tirou o facão com dentes de seu cinto. — Vamos lá cortar umas cabeças. — falou, olhando para o exército com seriedade na face, parecendo querer transmitir toda sua confiança no sucesso da missão.