Capuz Vermelho - 3ª Temporada

29 Alfa, Beta e Ômega (Parte 2.1)


Notas iniciais
Capítulo 3x09. Boa leitura.

O corredor estava parcialmente às escuras, somente algumas lâmpadas fluorescentes um tanto azuladas ainda em funcionamento. Abamanu caminhava nitidamente trôpego, segurando um dos braços e forçando a si mesmo para aparentar um estado de bem-estar ao soldado que passava pelo sentido oposto. Sua robusta armadura prateada fazia ruídos incômodos, não tardando a chamar a atenção do subordinado. O soldado se aproximara do deus lunar demonstrando estar preocupado.

— Algum problema, senhor? Não parece estar se sentindo bem...

— Defina "bem". — retrucou o imperador, ofegando levemente e olhando para o chão. Saliva pingava de sua mandíbula forte. — Volte para seu posto. Não lhe devo explicações sobre meu estado. — disse, olhando-o de soslaio. — Quando eu voltar, quero Lenox na sala de controle. Preparem a cobaia também.

O soldado permaneceu a fita-lo por alguns segundos com suspeita na expressão.

— Já! — esbravejou Abamanu, irritando-se com a lentidão do subordinado. O mesmo se limitou a sair correndo. No entanto, o deus lunar voltara atrás, logo agarrado a cauda do lobo bípede.

— Au! — disse o soldado, sentindo dor ao ter sua cauda puxada pelo imperador. — A... A...- gaguejava ele, mal conseguindo virar o pescoço, a expressão de pânico. — A... Alguma coisa de que precisa, senhor? Perdoe-me...

— Ouça soldado... — disse Abamanu, mantendo-o fixo no ponto onde estava apertando com mais força, mantendo-se de costas. — Nem ouse compartilhar com os demais sobre meu estado. Fui suficientemente claro?

— Si...Sim. — respondeu ele, a voz trêmula e medrosa. — Totalmente claro! Eficientemente claro!

— Sabe a razão pela qual estou submetendo-o a esse teste de resistência, certo? — perguntou o deus, o tom soturno e ameaçador.

— Sim... — disse o soldado, arquejando em cansaço, a dor consumindo-o e impedindo-o de gritar. — Só... pare de puxar... Por favor!

— Hum. — riu Abamanu, de leve. — Está doendo não é? Oh, me desculpe, eu não tive intenção nenhuma de machuca-lo, embora fazer isto fosse a única forma de convence-lo do que sou capaz de fazer caso me desobedeça. Vou liberta-lo... com uma condição.

Os gemidos do soldado pareciam soar como sinfonia aos ouvidos de Abamanu. A ansiedade externara-se na forma de tremedeiras constantes e arrepios contínuos e dominadores na pelagem azul acinzentada do soldado.

Abamanu olhara-o incisivamente por cima do ombro, apertando, pela última vez, a cauda com mais força.

— Não... fale... absolutamente... nada. Ouviu bem? Mollock não está conseguindo me conter da mesma forma que antes. Sabe o que isso significa, certo? Sabe as consequências que isso causará caso eu não encontre um outro receptáculo propício e forte o bastante?

— Então... — disse o soldado, desesperando-se. — Está cogitando... ejetar-se da casca antes que ela o mate?

— Não. — respondeu ele, secamente. — Seu organismo não é prejudicial à mim. Ocorre exatamente o contrário: Eu sou o parasita maligno. Eu estou o matando aos poucos. Nem mesmo seu fator de cura está surtindo efeito. Temo que ele entre em combustão espontânea a qualquer momento ou congele até se despedaçar por inteiro, por isso preciso me antecipar quanto às probabilidades. Vocês tem muita sorte. — disse ele, logo soltando a cauda de seu soldado. — Vá.

O subordinado soltara um arquejo de alívio, correndo em disparada pelo corredor como alguém que foge de uma tentativa de homicídio ou um animal selvagem que escapa do predador.

Tornando a caminhar devagar pelo corredor, Abamanu rosnava em frustração mostrando seus brancos dentes pontiagudos enquanto seu rosto empalidecia e feridas brotavam de seu pescoço.

Uma ideia anteriormente desconsiderada começara a pairar em sua mente como sendo sua única alternativa. De fato, naquelas condições e diante das circunstâncias desesperadoras tornaria-se difícil manter o plano descartável, ainda que consequências imprevisíveis viessem a suceder o possível passo em falso. Seria arriscar ou perder.

"Aquele caçador...", pensou ele, estreitando os olhos amarelos ao imaginar com entusiasmo a figura de Hector.

***

Deusa versus mortal.

O confronto que se seguia naquele corredor parecia querer alcançar um ápice brutalmente desvantajoso para ambos os lados.

Rosie executava evasivas e desvios velozes demais para os limites humanos, enquanto sua nêmese tentava, incansavelmente, desferir cortes com sua espada dourada intencionando atingir a lâmina contra o rosto da jovem. "Mas que rapidez! Isso é muito além do que esperaria, até mesmo para um mortal!", pensou Sekhmet, desiludida pela performance eficiente de Rosie.

A jovem pegara o braço direito da deusa e lhe dera uma cotovelada, logo depois aplicando um golpe para faze-la largar a lâmina, a mesma logo caindo no chão. Sekhmet, sem deixar-se vencer, avançando contra Rosie com supervelocidade, empurrando-a contra uma parede do corredor. Desvencilhando, Rosie a chutara na barriga, em seguida desferindo-lhe um soco, logo dando um giro e aplicando um novo chute no rosto.

Caindo no chão, a deusa tentava encontrar as razões que levaram a jovem a adquirir tamanha habilidade para enfrenta-la de igual nível.

Rosie a chutara no rosto antes que a mesma pudesse levantar-se. Rolando no chão, Sekhmet sentira um inconfundível gosto dominando seu paladar. "Não pode ser... Impossível!", pensou ela, arregalando os olhos ao notar sangue pingando sobre sua mão... caindo de sua boca. Rosie reouvera sua faca dourada, apanhando-a do chão e aproximando-se de sua inimiga com um olhar pretensiosamente intimidador.

— Conheço essa expressão. — disse ela, com um sorriso irônico. — Frustrada por não ser a única que sabe manobrar as vantagens. — girou a lâmina, prestes a golpear.

Para afasta-la, a deusa chutara-a mesmo caída, logo aproveitando para se reerguer. Ao limpar o sangue de sua boca, a esposa de Yuga a fitara com ódio na face.

— Agora tem um gosto ruim, não é? — perguntou Rosie, o tom irônico, largando a espada.

— Por que se desarmou? — questionou Sekhmet.

— Prefiro resolver isto com minhas próprias mãos. De um modo justo. — disse ela, estralando os dedos como aquecimento. — Esta faca é inútil quando posso usar um poder imensurável dentro de mim para destruí-la completamente.

— Você fez minha casca sangrar! — acusou a deusa, andando para um lado, mantendo a espada dourada consigo na mão direita. — E nem ao menos precisou da espada para isso. — cuspira uma mistura de saliva com sangue em sinal de ojeriza. — Como em tão pouco tempo conseguiu maximizar a energia? E se realmente o fez, como ainda não disse sim àquele serviçal?

— Decidi que vou fazê-lo somente quando eu acabar com você. — falou Rosie, olhando-a desafiadoramente, logo avançando com um chutes em sequência seguidos de giros constantes.

Em defesa, Sekhmet barrara os movimentos com os braços. Conseguira acertar um soco no rosto de Rosie, em seguida um chute no mesmo ponto. Agarrara a jovem pelo braço esquerdo, tentando esfaqueá-la, porém Rosie desestabilizara sua firmeza com um chute na perna esquerda da deusa fazendo-a perder o equilíbrio. Fizera-a largar a faca novamente, logo depois executando dois cruzados — direita e esquerda respectivamente — e empurrando-a com mais chute no busto.

Tornando a cair, Sekhmet respirara pesadamente, bufando em fúria extrema, ainda sentindo o sangue escorrer de sua boca.

— Fique onde está. — ditou Rosie, autoritária no tom. Seus olhos brilharam rapidamente uma luz amarela. — Não, melhor não. Prefiro que se levante e continue a insistir em usar seu brasão para sugar meu poder, se é que agora lhe restam forças para ser tão rápida quanto eu. Vamos lá, se erga! — pediu ela, elevando a voz.

Em uma fração de milésimos, a jovem se dera conta do sumiço de sua oponente, antes caída no chão.

Pega desprevenida, sentira a presença vinda por trás de modo alarmante.

— Não se esqueça de manter sua guarda, mortal. — disse Sekhmet, logo pegando pelo ombro esquerdo e virando-a com violência para sua frente. Rosie a fitou com aflição por poucos segundos, abrindo a deixa para que a deusa finalmente cravasse a adaga dourada em seu corpo. — Oh, tarde demais. — disse ela em tom de chacota, entortando a cabeça e arqueando as sobrancelhas. Seus frios olhos azuis soaram igualmente penetrantes e ardorosos, aliado a um sorriso vingativo de satisfação tão genuína como odiosa.

Uma mancha de sangue formara-se no corset branco que a jovem usava por baixo dos cintos de couro marrom claro, cuja finalidade era proporcionar proteção básica contra golpes físicos, exceto por lâminas com fios de corte acima dos padrões.

— Acredito que estava certa a meu respeito. — disse a deusa. — Realmente sou boa em fazer os papeis de inverterem. — erguera a mão direita, deixando reaparecer seu brasão em forma de Cruz Ansanta, prestes a iniciar a drenagem de energia.

— No seu lugar... — disse Rosie, sorrindo fracamente embora sentido uma dor intensa. -... eu não teria tanta certeza agora.

O sorriso de vitória dissipara-se, como uma máscara quebrando-se em pedaços e revelando a verdadeira face a ser expressada. Rosie permanecia a sorrir de modo fraco enquanto seu corpo desaparecia, como se estivesse tornando-se invisível ou deixando de existir... fazendo-a parecer uma doce ilusão. Sekhmet tremia seus olhos e boca em frustração, mal conseguindo acreditar no que estava vendo. "Fui enganada!".

Com o desaparecimento de "Rosie", a faca deixara-se cair no chão, o sangue impregnado nela também sumindo como mágica.

— Não! — gritara ela, enfurecendo-se.

— Sim. — disse uma voz grave, inconfundível aos ouvidos da deusa. A mesma, em seguida, recitou breves palavras no dialeto dos deuses, muito conhecidas por conjurar um eficaz tipo de armadilha.

A deusa, rangendo os dentes em seu momento de cólera, virou-se com pressa a fim de vislumbrar a figura, logo deparando-se com Áker parado próximo à entrada do corredor com um leve sorriso.

Sob seus pés, Sekhmet vira um símbolo se revelar brilhando uma luz amarelada. Voltou seus olhos desesperados para o arauto enquanto sentia suas forças serem absorvidas como se estivesse sendo engolida por um violento redemoinho.

— Seu atroz, herege! — atacou, ajoelhando-se no centro daquele sigilo inibidor.

Áker resolvera aproximar-se para contemplar o êxito de seu plano audaz, caminhando tranquilamente em direção à sua superiora desafiada.

— O farei pagar... — disse Sekhmet, suando em demasia e respirando com dificuldade. — Você... jamais seria capaz de entender as razões que me motivam a seguir com meu propósito nesse mundo inferior.

— Disposta a saber como consegui entrar? — perguntou Áker, olhando-a severamente.

— Aqueles inúteis... De nada serviram para impedi-lo de seguir adiante. — lamentou a deusa.

— A quem se refere? Os soldados do inimigo... ou aos verdadeiros hereges?

— Não importa! — vociferou ela, a expressão encolerizada. — Tire-me daqui, seu soldado patético! Mas primeiro diga-me: Onde está Rosie Campbell? Onde está aquela maldita verme?

— Primeiramente... — disse Áker, sacando sua espada dourada, andando em torno da marcação. — ... eu avisei a um dos meus aliados para espionar as ações dos seus.

— Uma infiltração... — surpreendeu-se Sekhmet. — Mas você... Como pôde?!

— Foi simples e rápido. — redarguiu ele, direto. — Assim que soubéssemos dos seus próximos movimentos, moveríamos-nos para cobrir esta área quando a hora chegasse. E veja só.

— Espere... Então, está me dizendo que...

— Exatamente o que está imaginando agora. — confirmou o arauto, firme. — Meu informante a fez acreditar que Rosie viria até esta fábrica liderar a operação. Estamos em Birmingham... — inclinou-se para ela, olhando-a com incisão. — ... e Rosie escolheu seguir para outra cidade. Liverpool é o local onde supostamente a quimera está e talvez mantenha em cárcere privado o criador da substância tóxica e mais outra vítima a ser resgatada que possui ligação íntima com Rosie. Sua relação com o General Holt, seu pacto forjado sob ameaças vazias... não foi o bastante para que pudesse estar à um passo à frente. Deixou-se iludir... pela obsessão assassina que a cega quantos aos princípios lapidados pelo nosso império. — fez uma pausa, observando o sigilo aceso. — O que acaba de acontecer... é a sua punição, Sekhmet.

Lágrimas escorriam dos olhos da deusa misturadas com o forte e profuso suor. Cabisbaixa, limitou-se a chorar sua condição, sentindo cada fio de seu poder ser sugado a cada segundo.

— Eu já tive esse sensação. — disse Áker. — É doloroso, eu sei, mas... para você é a única alternativa que restou para que eu mantivesse minha promessa, para que Rosie permanecesse ilesa.

— Você o contactou... Não foi? — perguntou a deusa, a voz enfraquecida. — Aquele mortal infame e arrogante... pactuou com você para me encurralar.

— Não afirme o que não sabe. — avisou Áker, fitando-a com rigor. — O General e eu jamais trocamos palavras. Ele apenas se recusou a informa-la sobre as duas operações simultâneas, mesmo temendo que fosse ser morto por você embora fosse improvável, afinal seu foco estava unicamente em Rosie. No entanto, Mihos está com ele... o que aumentam as chances de que ele talvez não escape de um golpe-surpresa, seja lá o que seu filho estiver planejando. O General é o líder da operação contra esta fábrica. E sobre o truque de mestre...

— Ah... não... — disse a deusa, a dor perpassando sua casca até seu âmago.

— Possuo uma intrigante habilidade de criar clones ilusórios e falsos de qualquer ser que tenha passado pelo meu campo de visão. Isso era segredo até mesmo para o Lorde. Você confrontou uma cópia barata e manipulada por mim em todos aspectos: Movimentos, fala, até pensamentos. — revelou o arauto, apontando a ponta da adaga dourada para a deusa. — Esta marcação... foi feita enquanto a cópia estava parada, movimentando discretamente os dedos, preparando a armadilha. Você coagiu os soldados da quimera a deixarem este corredor livre de sigilos, na esperança de que Rosie pudesse passar por aqui e assim você conseguir pega-la. — dera uma rápida risada. — Não teria sido mais.. inteligente colocar seus aliados para essa tarefa?

— Foi a primeira ideia que tive... — respondeu Sekhmet, fragilizando-se cada vez mais. — ... até saber que todos já estavam ao lado daquele General estúpido. Mas não entendo. Se transmitiu uma mensagem para todos os que fazem parte do pelotão que cuidará desta fábrica evitarem as marcações... — olhou-o furiosamente. — Então porque meus subordinados não me informaram antes que criasse aquela maldita ilusão? — fechara os olhos, a dor engrandecendo.

— Sou um soldado efetivado. — ressaltou Áker, categórico. — Minha posição me confere a habilidade de enviar mensagens seletivamente. Somente aqueles que a mim se guiam estão informados quanto às marcações. Recebi a mensagem dos outros assim que entrei, eles estiveram aqui antes que a ordem de Abamanu em gravar os sigilos em toda a estrutura fosse emitida. E o que é melhor: O General não pareceu tão preocupado em fazer uma listagem dos soldados que forem acompanha-lo devido à urgência da situação, logo eles não foram lembrados.

Sekhmet rira em deboche, mesmo se encontrando a beira da perda total de sua energia.

— Posso saber o que acha tão engraçado? Todas as suas forças estão sendo consumidas, em pouco tempo já estará inutilizada.. — sorrira levemente em satisfação. -... e fadada a viver e se adaptar entre os mortais.

— Nunca! — esbravejou ela, o rosto empalidecido e enrugado. — Ponha-se no seu lugar... mensageiro. Eu... ainda o tenho. Meu brasão. O emblema do meu amado... — novamente rira em escárnio. — Não pode cruzar a linha para toma-los de mim. O sigilo inibidor apenas absorve a energia de sua presa...

— É mesmo? — perguntou Áker, arqueando as sobrancelhas em ceticismo. — Será mesmo assim que vai agir? Tente. — desafiou. — Não há nada que possa tira-la daí, a menos que grite, mas em poucos minutos as cordas vocais de sua casca já não terão forças para isso, então esqueça essa saída de emergência forçada, porque não vai funcionar. — afirmou, balançando lentamente a cabeça em negação. Virara as costas para a deusa a fim de sair dali, logo caminhando para a entrada do corredor.

O medo de arriscar passara longe da mente fraquejada da deusa. Sekhmet olhara a palma da mão esquerda, dela saindo seu brasão dourado. Com a outra mão pudera retirar o minúsculo amuleto solar de um bolso do seu sobretudo cinza. Certamente havia um tortuoso dilema a ser resolvido. "Só me restou duas opções", pensou ela. "Qual de vocês é meu favorito?". Olhara para ambos os itens — seu rosto meio iluminado pela luz amarela provinda do sigilo aceso -, indecisa, ao passo em que sua força divina esvaía-se.

***

Os tanques ruidosos e brutos verdes-escuro — cercando a estrutura — apontaram seus canhões diretamente para a fortaleza de concreto, tendo sua munição preparada para atirar a qualquer instante a mando do soldado selecionado pelo General a ser o encarregado de emitir as ordens de ataque, recuar e cessa-fogo. Os homens fardados corriam armados com fuzis à frente, em direção aos fundos da fábrica, onde havia um grande portão metálico gradeado prestes a ser aberto — inclinando-se para cima vagarosamente.

— Ao meu sinal! — berrou o soldado que posicionava-se mais adiante, fixando os olhos alertas na abertura lenta do portão. Aponto a arma ao escutar passos acelerados e grunhidos guturais e selvagens se avizinhando com rapidez. Ele se agachara para tentar concluir com mais exatidão sobre o que se aproximava. Logo, então, teve a confirmação. Empertigou-se e olhou para os outros por cima do ombro. — Muito bem, é agora! Atacar! — gritou, após ver pessoas histéricas ,pálidas e com olhos pretos virem na direção do grupo.

Com a ordem dada, os soldados reuniram-se, disparando com seus fuzis e metralhadoras ininterruptamente contra os miméticos de estágio inicial que se corriam ao saírem pelo portão aberto. Soavam como feras descontroladas e monstruosas, libertadas para atacar uma população inteira. Alguns corriam e deixavam gotejar a substância negra pela boca.

Vários caíam. Centenas vinham mais atrás, como um enxame interminável de insetos enfurecidos.

— Matem essas coisas como matavam formigas quando crianças! — berrou um soldado, atirando com máxima empolgação, logo rindo histericamente por estar se divertindo ao atirar na cabeça de cada um daqueles miméticos.

A saraivada de tiros parecia não ter fim. Integrantes da retaguarda recarregavam suas armas com mais munição e tornavam a disparar no mesmo ritmo que os demais da frente.

A cada cinco segundos, cerca de doze miméticos combaliam no chão, feridos gravemente.

De acordo com o que o General havia determinado, os canhões só poderiam disparar contra as paredes apenas após o resgate ser concluído e a vítima estiver seguramente distante da fábrica. Uma base montada para primeiros-socorros, se necessário, estava instalada na pequena área florestal um pouco mais longe da estrutura. Caso o resgatado não precisasse de cuidados médicos, ele ficaria seguro dentro de uma tenda armada com soldados à disposição do lado de fora para defende-lo quanto à uma eventual ameaça de ataque, seja dos miméticos ou dos soldados de Abamanu.

— Seguindo! — exclamou o líder do grupo, andando em lento ritmo para se aproximar do portão, sem deixar de atirar nos miméticos que continuavam vindo. A ideia era fazer de tudo para que nenhum deles sequer se aproximassem mais do que dois metros dos soldados. O solo já se enchia de poças de gosma preta além dos corpos espalhados e meio amontoados. Nas pequenas pilhas de corpos, alguns resistentes chafundavam nas poças para se levantarem, gemendo e rosnando constantemente em uma louca e bizarra representação de agonia e desespero. Um até mesmo chegou a gritar contra os soldados, em simultâneo vomitando uma boa quantidade da gosma. Acabara tomando um outro tiro certeiro na cabeça antes que se levantasse.

Do lado esquerdo da fábrica, outro portão se abrira, dando passagem a uma multidão grotesca de miméticos — já próximos de entrar no estágio de Inquietação.

Um veículo parara, garantindo certa distância dos monstros que corriam na direção dele. Era encimado por dois equipamentos quadrados que eram erguidos automaticamente, que na verdade serviriam para a inauguração de um novo e eficaz tipo de tecnologia militar, testado e aprovado: Um dispositivo acústico de longo alcance, que disparava onda sonoras de alta frequência e intensidade com o objetivo de ferir, imobilizar ou até mesmo matar os alvos definidos.

O controlador da máquina girara um botão em sentido anti-horário e empurrara para frente duas alavancas, iniciando a elevação da frequência sonora ultrassônica.

As ondas foram disparadas pelos dois objetos quadrados. Em vista, pareciam "argolas" invisíveis que eram dispersadas uma atrás da outra em uma intensa corrente de vento. O som que faziam era um tanto incômodo, soando mecânico e vibrante.

Dominados por uma indescritível sensação que parecia esmaga-los, os miméticos foram barrados ao sentirem na pele o poder violento das ondas sônicas sobre seus frágeis corpos. Alguns colocavam as mãos na cabeça ou nos ouvidos, se ajoelhavam, gritavam, balançavam freneticamente a cabeça, e outros já caíam sem esboçar reações muitos indiscretas, completamente impotentes até mesmo para vociferarem de dor.

O processo de neutralização durou cerca de três minutos, o tempo máximo para que aquela versão da tecnologia pudesse ser descarregada, podendo levar meia hora por recarga.

Dos outros sete veículos parados mais atrás, desceram os caçadores solicitados, todos vestindo coletes pretos ou marrom e camisas comuns ao estilo de vida que levavam, empunhando fações previamente afiados. Todos eles — cerca de 25 no total — correram em disparada contra os miméticos enfraquecidos, cambaleantes e tontos.

Aproveitando a vantagem que as ondas ultrassônicas ofereceram, ao deixar os miméticos mais lentos e desorientados, os bravos caçadores, sem medir esforços, decapitavam um à um em uma dança bárbara e feroz. Sem nenhuma chance de defesa por conta dos efeitos da poderosa arma, os miméticos tinham suas cabeças pairadas no ar por segundos, enquanto os pescoços cortados espinchavam a gosma negra em profusão além de uma leve fumaça que denotava a fervura da substância naqueles corpos decadentes.

O grupo de soldados que organizava-se com armamentos comuns para deter os infectados conseguira adentrar na fábrica antes que portão. Um remanescente até puxara a perna de um soldado, sua mão encharcada de líquido tóxico agarrando-a. Virando o rosto, o soldado, olhando com ojeriza para o inimigo, não titubeou e disparara cinco vezes com um revólver na cabeça do mimético, já que as munições para metralhadoras haviam esgotado. Por fim, correra após se libertar das garras do monstro, alcançando os outros de sua equipe a fim de encontrar o cativeiro da vítima.

O curioso fora que ninguém reparou no repentino sumiço do General após o mesmo ter guiado um grupo de soldados para entrar na fábrica pela porta da frente.

CONTINUA...