Capuz Vermelho - 3ª Temporada

27 Alfa, Beta e Ômega (Parte 1.2)


Enquanto a jovem se preparava para se reunir com o pelotão que comandaria rumo à uma área florestal Liverpool, , o soldado que a avisara sobre a mudança nos planos estava escondido num corredor próximo de onde ficavam os toaletes. Encostado na parede cinza, aproximou o rádio-transmissor à boca para emitir o parecer obtido sobre Rosie e seu comportamento suspeito no momento em que a encontrou.

Um ruído de estática precedeu a mensagem.

— Ahn... Chefe? — disse ele. — Ela escolheu Liverpool.

— O que estava fazendo no banheiro? — perguntou a voz áspera de Holt saindo do auto-falante do aparelho.

— Segundo ela... — hesitou em dizer, fazendo uma cara de desconforto. — ... uma incontinência urinária.

— Obviamente, uma mentira. — disse o General. — Registrou alguma atividade?

— Sim, senhor. — confirmou ele, assentindo. — Pus no modo luminoso, então a luz vermelha começou a piscar assim que entrei no corredor. Está bem debaixo dos nossos narizes chefe, só resta colhermos as informações dela e...

— Um interrogatório? À essa altura? — zangou-se Holt. — Enlouqueceu, soldado?

— Não foi bem isso que quis dizer, é que...

— Chega. — ditou ele, frio. — Sugestão negada.

— Mas o detector... ele... — começara a gaguejar. — ... emitiu um sinal claro de atividade. Em grau considerável, senhor. Ela não estava sozinha.

— Ouça, soldado: No atual momento, estamos ficando sem tempo. — argumentou Holt. — Uma revista seria o mínimo que se poderia fazer agora. No entanto, o pelotão inteiro estaria sabendo disso, e a última coisa que quero é esta missão arruinada pela má vontade de soldados que perderam a confiança em seu líder.

— Ainda acho uma péssima ideia coloca-la nessa posição. — balançou a cabeça em negação, insatisfeito. — O fato de terem ocorrido baixas talvez tenha sido por causa dela. Devia ser dispensada, ela é uma distração.

— Sua opinião pouco me importa, Gerard. — retrucou Holt, ríspido. — Até mais.

O General desligara.

— Nunca pensei que diria isso, mas... Vou adorar ficar de fora. — disse o soldado, guardando o rádio e caminhando de volta ao seu posto.

***

As mãos de Alexia tremiam pouco, ambas agarrando os braços da cadeira. Era algo que, até determinado instante, a surpreendia de algum modo. "Deixando espairecer. Dispersando qualquer resquício de ansiedade. Focando no que é mais importante.", pensava ela, com os olhos fechados ao relaxar em mais uma sessão de regressão por hipnose. À sua frente estavam seus dois portos seguros: Hector e Eleonor, um ao lado do outro observando a bela ruiva deixar-se levar pela calmaria que brotava de seu âmago para facilitar o processo.

O objetivo era revisitar a batalha entre deuses nas Ruínas Cinzas, avançando em períodos nos quais poderia-se obter uma descoberta que favorecesse outro objetivo. Hector mal conseguia conter sua expectativa para que sua amiga encontrasse as respostas que o tornariam um combatente igualável em poder contra Abamanu.

— Segundo um trecho da Bíblia de Abamanu — disse Eleonor, sacando o pêndulo -, e que, segundo uma bruxa mais antiga do Coven, foi confidenciado à ela por um Red Wolf com quem mantinha relações amorosas, um deus-quimera deixa um rastro significativo quando manifesta seu poder intensificado. — informou ela, aproximando-se de Alexia. — Vamos lá Alexia, hora de iniciarmos. — disse, enrolando parte do fio dourado do pêndulo na mão

— E se não passar de mero boato? — desconfiou Hector, olhando para a bruxa com suspeita no tom.

Eleonor rira levemente.

— Boatos corriam mais do que baratas naquele lugar. — disse ela, pensativa. — Mas posso lhe garantir que é verdade. Pelo menos era o que se tomava como verdade absoluta pela antiga líder.

— Antiga líder? — intrometeu-se Alexia. — E quem gerencia o clã atualmente?

— Ninguém. — disse Eleonor, com preocupação no rosto. — Minha fuga e meu crime definharam o Coven, logo todas se separaram para me caçar... inclusive ela.

— Concentre-se em ajudar Alexia. — disse Hector, pondo uma mão no ombro da bruxa. — Os símbolos que gravou nas portas e janelas da casa, toda a coragem que tem demonstrado até agora em se manter a salva... é uma prova de que sabe se pôr em segurança, independente de qualquer possibilidade.

— Obrigada pelo apoio, Hector, mas prefiro manter minha guarda como está. Prefiro permanecer alerta e não descartar nenhum movimento. Aquelas malditas são imprevisíveis, tão astutas quanto eu. — disse Eleonor, olhando para o caçador com seriedade. — Não conhece Ágatha Laving como eu. E, acredite, tê-la em seu encalço é permitir que a sombra da morte lhe persiga incansavelmente. — virou-se para Alexia, preparando-se para realizar o processo hipnótico. — Muito bem, chega desse assunto por hoje. Vamos lá. Concentre-se no movimento do pêndulo, Alexia. Concentre-se...

"Não estou muito certo quanto a um progresso...", pensou Hector, relutante ao ver a vidente se submeter àquele método pouco convencional manipulado por uma bruxa cuja supremacia de poder ultrapassava os limites. "Só não entendo como ela não foi presunçosa a ponto de enfiar seus feitiços goela abaixo. Limitações? Talvez. Ela cuidou de meus ferimentos. Cedeu espaço para que eu treinasse fisicamente. Não faz nem uma semana, mas... ela parece crente sobre eu ter conseguido total controle sobre a licantropia em mim. Eu consegui. Consegui convence-la.".

Após cerca de 7 minutos, Alexia já exibia sinais de sonolência gradual, deixando as pálpebras tornarem-se pesadas. À medida que seus olhos iam fechando, as figuras do pêndulo balançando para lá e para cá e as de Eleonor e Hector foram ficando mais turvas, quase que como um borrão.

Por fim, caíra em adormecimento profundo e lento, deixando a cabeça inclinar-se levemente para um lado.

— Pronto. Resta esperarmos uma resposta agora. — disse Eleonor, guardando o pêndulo dentro do decote de seu vestido de seda azul.

— Desculpe a ignorância, mas... — disse Hector, olhando para a vidente com ar de cético. — Ela vai estar simplesmente sonhando? Sua consciência vai regressar ao passado?

— Não. — disse a bruxa, balançando a cabeça de leve, sorrindo. — Caso a consciência dela fosse enviada, seria impossível se manter estável. Acontece que Alexia, claro, não era nascida na época em que ela vai estar mentalmente.

— E o que aconteceria nesse caso? — perguntou o caçador, curioso.

— Simplesmente por não haver como sua consciência se fixar no seu eu passado, justamente por este não existir na época em que ela imagina que vá voltar, sua mente ficaria vagando por uma espécie de vácuo, ansiando encontrar um ponto onde se situar, mesmo sabendo que não pode. — contou ela, olhando a vidente adormecida. — É o que acontece em casos mais raros. Nos mais triviais, a consciência se apodera da mente do eu do passado sem grandes problemas. Isto só é possível graças à feitiços antigos usados pelos primeiros magos ancestrais, como meio de se viajar no tempo. Mas essa técnica foi rapidamente abolida. Consideraram ela perigosa demais, a ponto de mudar cursos da história que deveriam continuar pré-definidos no imprevisível fio do destino.

— Se Charlie estivesse aqui... ouvindo isso... — disse Hector, dando um leve sorriso ao pensar na figura do jovem mago do tempo.

— Não acho que ficaria muito surpreso. — comentou Eleonor, dando de ombros. — Como o gênio que você me disse que ele é, aposto que não deve desconhecer essa técnica.

Hector apontara para Alexia, voltando sua atenção para a vidente hipnotizada.

— Ela moveu o dedo menor de todos. — disse ele.

— Sim. Acho que já está começando... — disse a bruxa, ansiosa, afastando uma mecha do seu cabelo castanho. — Logo ela vai nos dar uma reação, seguida de uma resposta oral.

— Existe algum efeito colateral? — quis saber Hector, ainda desconfiado do método.

— Não que eu saiba. Ela continuou perfeitamente sã depois da primeira sessão. — disse ela, o olhar fixo em sua amiga. — Bem... meio paranoica quando me viu beijando você e pensou que o enfeiticei com intenções más. Mas isso é um detalhe à parte.

— Mas... — insistiu Hector, suspirando pesadamente. — ... o que quero saber é... se existe algo que possa fazê-la mal durante o transe.

— Infelizmente, há. — revelou a bruxa, o semblante sério ao voltar seus belos olhos verdes para o caçador. — Sem querer preocupa-lo, mas... dependendo de como vai ser a reação mais predominante... Alexia pode correr o risco de ficar presa nesse passado e nunca mais despertar. — disse ela, deixando os pensamentos de Hector no limite do nervosismo.

O caçador tornou a olha-la, afligindo-se de modo discreto.

— Por essas e outras que jamais vi a hipnose com bons olhos. — disse ele.

***

Alexia mantinha-se agachada, os olhos fortemente fechados e ouvidos tapados. Algum breve tempo passara-se e uma sensação inquietante de estranheza a assaltara. Relutou em abrir um olho... mas abrira-o, ainda que trêmula e lentamente. Mais alguns segundos, a vidente já via-se vislumbrando o espaço ao redor. Odores relativamente familiares adentraram em suas narinas rapidamente. "Não ouço aqueles sons estrondosos...", pensou ela, já levantando-se e compreendendo onde estava situada. Correu sua visão ao redor, virando o pescoço para todos os lados, a face surpresa formando-se. Contudo, o sentimento aliviador se desfez.

O espaço à sua volta estava mergulhado pelo amedrontador breu da noite, alguns pilares e blocos maciços de mármore e concreto banhados pela sombrio luar, dando-lhes um aspecto preto-azulado.

Decidira andar devagar sem saber exatamente para onde deveria seguir.

"Estou nas Ruínas Cinzas, sem dúvidas!", pensara, já começando a praticamente correr e se esgueirar por entre as sombras que os altos pilares faziam. "O que eu faço?". Desesperando-se, ela afastou os cabelos dos olhos — devido a uma considerável ventania -, escondendo-se por entre os blocos empilhados com ose fossem parte da construção de uma casa. "Pelo visto, boa parte de tudo isso aqui está praticamente intacto... Tudo bem, Alexia, você está... na passado. Em algum momento de grande importância que lá no fundo sabe que pode fortalecer o plano.".

Sons de vozes elevaram-se gradativamente. Alerta, a vidente manteve a respiração calma, andando mais vagarosamente, seguindo na direção das vozes. Vozes masculinas e empolgadas. "Pensei que voltaria exatamente para o momento em que Abamanu e Yuga se digladiavam nos céus. Parece que esta noite é de vários anos depois da batalha. Posso sentir.".

Por fim, escondera sua presença ao ver tenebrosas silhuetas em uma parede de mármore, realçadas pela luz alaranjada de uma fogueira. Logo vira as figuras dos homens, todos eles encapuzados por mantos negros e de tecidos mal produzidos. Quatro ao todo, estavam reunidos em torno da fogueira... feita próxima à cripta de Abamanu na parte do chão de ladrilhos.

Em uma mureta de tamanho médio, Alexia os espionou, mantendo os dedos das mãos seguros no concreto enquanto observava quase com os joelhos dobrados. "Então é isso. Agora entendo.", pensou ela, surpresa. Fitou por um tempo a parede próxima ao templo inacabado. "Não havia esta parede quando fomos tentar impedir Mollock. Provavelmente era parte de uma muralha que serviria como proteção à fortaleza do fundador, o Templo de Mitra, o nome que as testemunhas da batalha, os primeiros da civilização, deram à Yuga. As habitações devem estar mais distantes...". Olhara para a esquerda, na direção de onde se localizavam os vilarejos. "Aproveitaram que estão dormindo. Ironicamente, eles louvavam à Yuga no exato ponto onde Abamanu assentou sua cripta. Acho que os primeiros deixaram algumas partes caírem no esquecimento, sem passar adiante às outras gerações.".

Voltou suas atenções para os homens vestidos de preto, as sombras da noite que tagarelavam algo que soava inaudível à ela. "O que estão dizendo, afinal?".

Um deles — aquele que a vidente suspeitava ser o coordenador de todo o falatório — retirara de sua vestimenta um objeto que exibiu para seus companheiros. Graças à fogueira, o artefato reluziu de modo que Alexia pôde divisar seu formato, sem correr o risco de chegar mais perto. "O que é aquilo?".

Um lampejo a assustara. "Espere... Não há risco algum. Eleonor havia me dito que não é uma revisitação física e sim inconsciente, como um sonho embora não sendo. É como se... tudo isso aqui estivesse sendo reproduzido pela minha mente, mas sem possuir controle sobre tudo e todos. Eu posso me mostrar sem correr riscos. Posso andar livremente, não irão me ver!", pensou ela, animando-se com a lembrança do aviso que sua mentora lhe dera anteriormente.

Empertigando-se ao levantar-se, Alexia andara determinadamente rumo aos homens encapuzados, sem demonstrar medo ou intimidação. Andou até ganhar certa proximidade, o vento avassalador esvoaçando seus cabelos ruivos alaranjados.

"Enfim uma vantagem de ser invisível."

Estacara logo ao ver o suposto líder — com seu manto ondulando por conta do forte vento — andar em direção à cripta segurando com os braços levemente esticados e com as duas mãos o objeto esférico e prateado. "O que ele pretende?". Alexia o fitou com suspicácia. "Está indo até onde fica a cripta... pondo a coisa no centro da tampa...". A vidente atentava-se a cada movimento, unicamente focada naquela figura espectral e fantasmagórica.

O homem logo recitara palavras incompreensíveis de modo solene, esticando o braço esquerdo direcionado à esfera posicionada sobre a tampa. O foco de Alexia redobrara-se durante o processo.

"Isto é...", espantara-se ela, olhando-o estupefata. "... uma espécie de feitiço! Se houvesse como intervir, como fazê-lo parar e falar o que estão tramando! Pior que é impossível.".

Resquícios bioluminescentes — praticamente filetes compridos de luz azulada — surgiram de repente ao redor da tampa da cripta, todos eles sendo atraídos por alguma força magnética forjada pela esfera devido à magia utilizada. Os finos traços de luz "entraram" na esfera, fazendo-a brilhar da maneira intermitente. O show mágico deixara Alexia pasma, sem ação e impotente.

"É disso que falavam! Os rastros de energia, são estes! Certamente foram deixados como prova de que Abamanu deixara aí enterrado seus tesouros, ele precisava usar algum tipo de poder específico para transportar todo o tesouro para cá e fixa-lo debaixo da terra, mesmo sabendo que iria deixar vestígios desse poder.", concluiu ela, recuando alguns passos, totalmente satisfeita com o que presenciou. "Será essa a arma secreta que Eleonor acredita que Hector possa usar para derrotar Abamanu?", questionou-se, correndo de volta para o ponto onde chegara. "Preciso voltar rápido! Estes homens com certeza são os primeiros Red Wolfs, usavam capuzes negros no início! E o líder... um bruxo já com experiência!".

Sua correria ganhara mais velocidade à medida que aquele fato lhe deixava mais tensa.

***

Com um súbito arquejo, Alexia despertara de sua regressão mais tranquila em relação à primeira. Inclinando-se sentada na cadeira para reaver o fôlego, a vidente foi amparada por Eleonor, pronta para conseguir as respostas que tanto ansiava pelas palavras de sua aprendiz.

— Alexia, o que houve? — perguntou a bruxa, preocupada. — Não esboçou quase nenhuma reação significativa para nós. — olhou-a bem fundo. — Se lembrou do que eu disse? É invisível para qualquer pessoa durante a regressão.

— Sim... — disse ela, assentindo tremulamente. — Eu lembrei. Se não fosse por isso, ficaria estagnada naquela mureta sem conseguir quase nada. — voltou-se para a bruxa, o suor profuso descendo pelo seu branco rosto. — Os Red Wolfs... — olhou de relance para Hector. — ... eu os vi, os primeiros da geração.

— O quê? — soltou Hector, aproximando-se ao se surpreender. — Diga-me Alexia, o que exatamente estavam fazendo? Aliás, onde você esteve?

— Ruínas Cinzas. Ainda não podendo ser chamada de ruínas, mas... o que vi foi incrível. — disse a vidente, pensativa a respeito. — Eles... usavam mantos negros, estavam reunidos em torno de uma fogueira, perto do Templo de Mitra e da cripta. Um deles mostrou uma esfera cinza... depois foi até a tampa da cripta e falou um feitiço cujas palavras não consegui entender...

— Tudo bem, chega. — disse Eleonor, erguendo levemente sua mão direita. A bruxa estava pensativa sobre o que a vidente testemunhou. — É o suficiente. Já entendi o que ocorreu.

— Então sabe qual era o feitiço? — perguntou Alexia, esperançosa.

— Também não lembra do que eu disse a respeito de meu status? — perguntou Eleonor, levantando uma sobrancelha. — Nível ômega, Alexia. Óbvio que sei o feitiço, como se chama e se faz. — olhou para Hector meio desalentada. — No entanto, talvez não seja fácil de se conseguir como pensam.

— Alexia... — disse Hector, ignorando o pessimismo da companheira. — ... o que mais presenciou?

Eleonor sentira-se obrigada a falar pela vidente.

— Ela certamente viu a pedra Ônix absorvendo os rastros de energia na tampa da cripta. — disparou ela, olhando para ambos.

— Pedra Ônix?! — estranhou Alexia, franzindo o cenho para sua mentora. — Eu... eu pensei que elas fossem somente pretas, translúcidas... usadas para adornos. Elas não tem formato esférico.

— Disso eu sei. — retrucou Eleonor, revirando os olhos. — A Ônix que viu nada mais é do que um mecanismo de absorção de energia. Em outras palavras, é um artefato voltado para armazenar chackras de bruxas que decidem salvaguardar suas magias quando ameaçadas. — fez uma pausa, andando para um lado. — Foi amplamente recorrido o uso dessa pedra no período da Inquisição Europeia, quando bruxas de alto escalão foram dominadas pelo temor de irem para a fogueira se caso fossem descobertas praticando a forma mais terrível da magia negra antiga.

— E quanto à energias de deuses-quimera? — perguntou Hector, com certa pressa.

— Esta é a parte que gera incertezas. — disse ela, hesitante quanto aos efeitos que podem ser desencadeados. — As pedras Ônix suportam facilmente magias de nível Ômega como a minha... — fez uma pausa, parecendo inquieta. — Não. É uma péssima ideia. — andou para um canto da sala, preocupada.

— O quê? — disse Hector, fitando-a com desconfiança na face. — Eleonor... é melhor não me esconder o motivo pelo qual está desconsiderando o plano. — andou em direção à ela em passos lentos.

De costas para o caçador, a bruxa se limitou a falar mansamente com os braços cruzados, permitindo-se afligir com relação à imprevisibilidade da ideia, levando em consideração vários aspectos que poderiam acarretar muito mais malefícios do que vantagens.

Alexia, intrigada com a reação abrupta da mentora, levantou-se, partilhando da curiosidade com Hector.

— Ouçam. — disse a bruxa, mantendo-se de costas. — Sei que estamos ficando sem tempo... Mas o modo como vamos seguir com essa única chance que nós temos... estou com medo. Não quero me sentir culpada novamente por um outro deslize.

Hector suspirara de olhos fechados, impaciente pela companheira ter remoído uma falha passada... e perdoada.

— Aquilo não passou de um mero acidente. — salientou o caçador, aproximando-se dela. — Só levarei em conta os riscos se me revelar como será o procedimento. Como esta pedra me tornará forte o bastante para enfrentar Abamanu? Afinal, seria muita tolice ataca-lo com algo que antes fazia parte dele. — argumentou.

Virando-se para o caçador, Eleonor transparecera a recomposição de sua tranquilidade, respirando com mais quietude desta vez.

— Quando um deus-quimera — disse ela, enfática. — age de modo a consumir energia, resíduos dela ficam impregnados no exato ponto onde ele irradiou com mais potência. Estes resíduos nada mais são do que réplicas da energia residual que torna cada deus único e capaz de usar suas habilidades.

— Espere um minuto. — disse Hector, erguendo levemente a mão esquerda, pensativo ao tentar processar a informação. — É fato que cada deus, incluindo quiméricos, possuem algum tipo de poder fixo que os faz serem capazes de usar seus poderes... Uma energia residual, transferível, mas não de um deus para outro... — andou para um canto da sala, refletindo profundamente com a mão no queixo.

Alexia o olhou estranho.

— Hector... Onde exatamente você quer chegar? — perguntou ela, confusa.

— Se Abamanu ainda tivesse sua energia residual, obviamente teria poder equivalente a de um deus de maior relevância, mas ele a perdeu antes de seu império vir a ruir. — disse o caçador, empolgando-se ao se voltar para as duas. — Nós dois sabemos disso, Alexia. Aquelas páginas arrancadas falam precisamente sobre elas.

— Mas, pelo que lembro, Charlie mencionou que se tratava de passagens sobre a filha de Abamanu...

— Pronto, aí está. — disse o caçador, andando até ela. — Não sabemos onde estão estas páginas, muito menos como especular sobre o que estava escrito nelas. O que temos de concreto é que Abamanu perdeu aquilo que o tornava equiparável aos outros deuses. Não apenas isso, mas também perdeu parte de sua capacidade de impor autoridade á seres que julga inferiores, como nós humanos por exemplo. — disse, logo estalando os dedos após um lampejo súbito. — Mesmo sem a energia, ele ainda consegue manipular algumas habilidades que restaram. Muito provavelmente ele conseguia reger as fases da lua com esse poder, mas, claro, não o pode mais por ter perdido.

— Agora sim lembro. — disse Alexia, empertigando-se. — Luas cheias se tornaram muito frequentes nas últimas décadas.

— Verdade. — aquiesceu Hector com um meneio positivo de cabeça para a vidente. — Foi uma perda gradual. Mas voltando à questão da energia: Abamanu pode tê-la guardado na cripta junto a seus tesouros.

— Tesouros que na verdade pertencem à Yuga, eles os roubou como vingança e isto causou o estopim da guerra. — relembrou Alexia, cruzando os braços e pensando a respeito com o indicador no queixo.

— Bem lembrado. — disse Hector. — E o que sugiro é...

— Nem pensar. — ditou Eleonor, balançando a cabeça em negação, discordando veementemente da ideia proposta pelo caçador. — Trocar um risco por outro. Muito vantajoso, Hector. — ironizou ela.

— Bruxas também leram a versão traduzida da Bíblia de Abamanu? — questionou Hector.

— Alguns trechos eu já li. — confessou Eleonor. — Há algo secreto na cripta. Um segredo que acredito que até o próprio Abamanu sente calafrios só de pensar em alguém o descobrindo. Se é a energia residual... pelo que deu a entender aqueles trechos, pode ter sido modificada, tornando-se nociva à ele ou a qualquer ser que se apoderar dela.

— Sim, é verdade, Charlie havia mencionado esse tal segredo na cripta. — disse Alexia. — Mas não temos certeza...

— Se tivéssemos aquelas três páginas... — disse Hector, torando-se impaciente de novo. — Mas não é de todo ruim. Com a magia de teleporte podemos ir às Ruínas Cinzas e tentar abrir a cripta.

A bruxa parecera reprimir um riso zombeteiro ao ouvir aquele plano.

— Hector... — tentava encontrar palavras para encarar o otimismo desmedido do caçador. — Eu apoio sua confiança em si mesmo e nas suas intuições... mas o que disse agora é completamente absurdo. — afastara uma mecha do seu cabelo. — Nem mesmo Yuga, nem mesmo qualquer outro deus, pode abrir aquela cripta, quanto mais uma mortal como eu. — fuzilou-o com o olhar, aborrecida com a insistência do caçador.

— Uma "mortal" — gesticulara com os dedos para fazer aspas. — que domina o nível mais elevado da bruxaria, imune à envelhecimento e supostamente imortal. — disse Hector, contrariando-a, a expressão séria.

— Imortal?! — disse Eleonor, sem conseguir prender o riso depois. — Só pode estar... Não, eu não acredito nisso. — andou alguns passos, rindo.

— Posso saber o que é tão engraçado? — indagou o caçador, incomodado com a reação da parceira.

— O que você disse... é... é tão... — erguera levemente um punho cerrado, tentando encontrar palavras. — ... nem sei como dizer. Jamais pensei que fosse tão ingênuo. Hector. — suspirara pesadamente. — Não possuo imortalidade! — irritou-se ela. — Aquela cripta possui um sistema de segurança de fazer inveja a qualquer penitenciária que existe pelo mundo, a qualquer prisão que existe nos confins da morada dos deuses. Talvez o melhor e definitivo já criado. Uma única intervenção, uma só tentativa de burlar e eu seria esmagada por uma magia que está fora do meu alcance. Bruxas são alguns dos seres humanos que podem conseguir contato mais efetivo com os deuses, apenas atrás dos magos do tempo, mas não páreas para eles. — fez uma pausa, respirando mais calmamente ao encarar o caçador com reprovação no olhar. — Resumindo: Não vou seguir sua ideia estúpida, não vou arriscar minha própria vida tentando abrir aquela cripta sem nem sabermos o que é o tal segredo. Acho muito difícil que Abamanu tenha deixado guardada sua energia debaixo da terra dos mortais. Tenho minhas teorias sobre o porque dele ter a perdido, mas prefiro me concentrar em arranjar um jeito de fazer você enfrenta-lo de igual para igual.

— Ao menos reconsidere usar a pedra Ônix. — implorou Alexia, mostrando-se disposta a ajudar.

— Existe um feitiço — começou Eleonor. — que faz com que a pedra possa ser absorvida pelo corpo de um ser humano forte o suficiente para suportar a grande carga de energia que está nela.

— Como é? — perguntou Hector, levantando uma sobrancelha, como se não houvesse entendido direito. — A pedra Ônix... dentro do meu corpo?

— Exato. — confirmou Eleonor, baixando um pouco a cabeça, ainda insatisfeita com os riscos. — Por isso tentei desistir desse plano. O único fator que impede de termos certeza absoluta se vai ou não dar certo é a sua licantropia, Hector. — olhou-o, transmitindo um ar preocupado. — Pode torna-lo instável. Sem controle de suas emoções, um ser humano que pensa ser forte se deixa levar por um poder que está além de seu domínio. Não sabemos... quais podem ser os efeitos colaterais. — aproximou-se de Hector, olhando-o no fundo de seus olhos. — Acho que me precipitei quando pensei que podia tomar essa decisão. Mas não, vou deixa-la com você, Hector. Preciso que seja honesto conosco. Você realmente quer mergulhar fundo nesse plano sem temer os riscos?

As considerações favoráveis ao uso da Ônix eram desproporcionais as da abertura da cripta na mente do caçador. "Resíduos de demonstrações de poder... equivalentes à escala de poder atual de Abamanu... dentro de mim.", pensou Hector, cabisbaixo por um instante ao ser dominado pelo temor ante ao risco de sofrer um sério dano irreversível. "Minha situação pode ser igualável a de Rosie: Um poder divino em um recipiente humano. Preciso arriscar. Mesmo que isso me transforme em algo pior do que um licantropo, irei para destruir aquele monstro de uma vez por todas.".

— E então, Hector? — perguntou Eleonor, ávida para saber da decisão. — O que vai ser?

— Eu aceito. — decidiu-se ele, assentindo positivamente. — Onde consegue-se essa pedra?

— Calma lá, mocinho. Um passo de cada vez. — disse Eleonor, indo em direção à porta. — Venha comigo, Alexia.

— Por que? Aonde vamos? — perguntou a vidente, desentendida.

— À biblioteca. — disse, abrindo a porta. — Você é uma aprendiz temporária e já sabe dominar magias de nível médio, então será de grande ajuda para o feitiço da troca de corpos.

Uma palpitação fizera Alexia quase engasgar-se com a saliva. A apreensão tomara conta da vidente.

— Mas... — gaguejou ela. — Não sei... Não estou preparada.

— Três horas de leitura sobre magia intermediária vai ajuda-la a se preparar. — garantiu a bruxa, com um sorriso condescendente. — Vamos. Explico melhor quando abrimos os livros. — mostrou os dedos indicador, médio e anular da mão direita. — Somente três horas. Em três horas vou ensina-la o que aprendi em três anos.

Engolindo em seco, a vidente encorajara-se a ceder ao desafio. Um sorriso involuntário deixou-se formar em seu semblante um tanto temeroso. Olhou de relance para Hector que sorrira de leve ao assentir para ela, em um contato visual que transmitira confiança e apoio sinceros.

— O que estamos esperando? — perguntou a vidente, correndo para a porta e saindo. — Vamos logo! — gritou do corredor.

Surpreendida e satisfeita, Eleonor fechara a porta rapidamente, deixando Hector sozinho para relaxar sua mente e aquietar suas emoções mais intensas em uma auto-terapia imposta pelo mesmo.

CONTINUA...