Capuz Vermelho - 3ª Temporada

26 Alfa, Beta e Ômega (Parte 1.1)


Notas iniciais
Capítulo 3x08 Boa leitura!

Aquelas frias mãos trêmulas seguravam uma ampola de plástico sob a luz mortiça gerada pelas duas luminárias posicionadas à esquerda e na direita do ocupante da sala. As mãos ergueram o material para mais perto da luz, como se seu autor quisesse certificar-se de que era real e que não estava preso em um sonho — algo que, em vista das experiências de dois anos atrás, igualava-se à um pesadelo recorrente e infindável.

"Não consigo acreditar...", pensou ele, ajeitando os óculos de grau médio. "Eu... eu consegui! Finalmente eu a criei... Finalmente pus em prática a fórmula reversa! Bem aqui, nas minhas próprias mãos!".

Dominado por uma inquietação vertiginosa, o Dr. Lenox olhara para trás, vislumbrando a escuridão que ocupava quase todo o laboratório. A porta de entrada estava na parte mais opaca do ambiente, obscurecida de modo tenebroso. Limpando o suor de sua testa, Lenox reanalisou o componente que acabara de criar e armazenar para preservação. Boquiaberto, ele respirava com ansiedade máxima, devaneando sobre as inúmeras possibilidades que poderia desencadear caso a substância de cor branca fosse revelada acidentalmente. "Nenhum passo em falso. Vou mante-la secreta. Parece que os deuses não são tão perfeitamente espertos como imaginei. Farei com que Abamanu jamais veja a cor dessa substância, nem esse frasco. Vou esconde-la... e esperar o último trem para bem longe daqui.".

Lenox pegara rapidamente uma caixa metálica, antes guardada em uma gaveta de seu mesa de trabalho. Abrira a tampa e pusera a ampola com pressa, fechando-a ligeiramente. Antes que fosse levantar-se para esconder o recipiente em algum ponto no qual Abamanu ou seus soldados não pudessem reparar, Lenox fechara os olhos, respirando o mais fundo possível. "Você conseguiu. É só o que importa. É manter isso em total segredo... ou adquirir o passe livre para o reino dos mortos.".

Em um armário de pequeno porte, ocultado por várias caixas empilhadas, fora colocada a cura em sua forma primordial e em quantidade ínfima... ao menos — esperava Lenox — por enquanto.

***

QG alternativo do Exército Britânico — 08h30.


O soldado Heller esforçava-se para manter as amarras de couro reforçadas sobre os pulsos da cobaia que se debatia ensandecidamente na cadeira. Feito um domador despreparado, o soldado rangia os dentes, forçando o afivelamento daqueles cintos marrom que prendiam o violento mimético... e ex-subordinado do General Holt. Contudo, quanto mais a vítima se contorcia para se libertar, mas as amarras afrouxavam. Força acima da média havia sido incluída na lista de alterações que a substância negra causava nos infectados.

— Senhor... — dizia Heller, pedindo ajuda. — Tem certeza de que quer continuar com isso? — afastara-se, desistindo. — Não seguram ele por muito tempo. — olhou para o superior, preocupado. — Vou atirar na cabeça dele. — falou, quase sacando o revólver.

— Negativo. — disse Holt friamente, inerte e em pé diante do soldado que utilizara como teste para ver como a infecção se desenvolvia, graças à amostra que Rosie colheu e foi confiscada pelos soldados que vasculharam o casarão.

A farda militar do soldado estava encharcada de goma preta, o mesmo rosnando e balançando a cabeça loucamente como uma fera enraivecida. Holt permanecia a observa-lo com frieza, seu único olho estreitando-se em análise.

— Com sua permissão, senhor... — insistiu Heller, tornando a tocar na arma no coldre.

— Já disse que não, soldado! — bradou Holt, irritando-se, sem desviar a atenção do mimético. — Ele claramente parece estar se deteriorando de dentro para fora. As veias em relevo, as rachaduras na pele... Preciso ver até que ponto isto vai culminar.

— Essa coisa ferve como piche. — comentou Heller, olhando-o com nojo. — Por que tenho a impressão de que acredita que ele não vá explodir em mil pedaços nesta sala?

— Está certo. — aquiesceu Holt, mantendo-se focado no soldado corrompido. — Não sabemos se a amostra que Rosie Campbell roubou possui a mesma composição das que estavam no organismo dos que os outros enfrentaram na fábrica. Creio que a amostra remeta à época em que a substância ainda estava em fase inicial, provavelmente desde o período em que Rosie Campbell foi internada. Os efeitos podem ser distintos. — argumentou o superior.

Heller esboçara dúvida na sua expressão, hesitando em se aproximar do enlouquecido mimético.

— Eu não teria tanta certeza, senhor. — disse ele, parecendo tenso. — As anotações de Crannon... Os desenhos mostram efeitos semelhantes ao que os outros disseram ter visto, está no relatório. É exatamente o que ele está sofrendo. — tornou a fitar o mimético — Melhor sairmos enquanto ainda temos a chance, estou com a sensação de que ele não vai durar muito tempo. — afirmou, recuando lentamente alguns passos.

O mimético os encarava com fúria extrema pelos seus olhos totalmente negros. A pele dos braços praticamente soltava-se da cartilagem, permitindo brechas para deixar o líquido espesso escorrer e gotejar no chão sem parar. Sua boca continuava vomitando vagarosamente a gosma preta, os dentes grotescamente sujos. Considerando as similaridades, parecia sensata a ideia de manter distância segura antes que o pior ocorresse.

Holt fechara a porta, relevando o pedido do soldado Heller. O ar gelado do subterrâneo favorecia o aumento da tensão por estar à frente de um ser humano transformado em uma criatura selvagem.

Ambos caminharam pelo corredor iluminado por luzes fluorescentes.

— E então, General? Pelo visto, o parecer de Crannon torna a sequência dos efeitos algo geral entre todos os infectados, considerando as datas das anotações. — disse Heller, apressando o passo ao ouvir os gritos e rosnados cada vez mais altos do infectado.

Holt o estudou por um tempo, olhando-o com suspicácia.

— Soldado... Não me parece estar no seu normal.

— O quê? — indagou Heller, olhando-o de soslaio. — O que quer dizer, senhor? Estou perfeitamente bem. Não há nada de errado... — ele fechou os olhos, sorrindo para si mesmo. — ... para um soldado estar temeroso com coisas que sabe serem de outro mundo.

— Não me refiro à isso. — falou Holt, de modo severo. — Simplesmente está... diferente.

— Diferente? Como assim? — perguntou ele, intrigado.

— Seu jeito de falar, por exemplo. — apontou o General. — Além disso, tem andado mais instável, e, conhecendo bem você e sua formação militar, não são características muito... condizentes. — afirmou ele, novamente olhando-o de modo suspeito.

— O senhor ainda lembra... — começou Heller, o tom mais sério desta vez. — ... quando estávamos falando sobre a fuga de Campbell e Crannon, havia notado uma alteração no meu tom de voz e eu respondi ser apenas um calor?

— Sim. — assentiu Holt, ainda suspeitando. — Porém naquela vez me parecia estar verdadeiramente bem, mesmo com essa queixa. Mas agora... — estreitou os olhos.

Cortando abruptamente a conversa, um abafado estrondo ressoou vibrantemente pelo espaço, vindo diretamente da sala onde estavam.

Ambos correram alarmados de volta à sala, sentindo seus corpos tremerem tanto pelo susto quanto pelo impacto vibrante. Com um rápido chute, Heller arrombara a porta. Holt relanceou mais um indício do estranho comportamento do subordinado, franzindo o cenho antes de ver a horrenda cena.

Estupefato, Heller correu os olhos pela sala, sem arriscar entrar para examinar a situação. Holt imitara a mesma reação, observando a sala completamente banhada em gosma preta e espessa, além de alguns pedaços de pele humana espalhados pelos cantos. A dupla não seguira além da soleira da porta.

— Acho que vai ter de pagar hora extra para o servente. — disse Heller, olhando de relance para o General.

Parecendo não ter dado ouvidos ao que seu comandado disse, Holt, com sua ótica minuciosa, notara movimentos vagarosos na gosma... como se um bizarro "quebra-cabeças" estivesse sendo montado com velocidade gradativa.

Recuando alguns passos, Holt se viu desesperado.

— Feche a porta, soldado! — ordenou em voz alta.

Acatando à ordem, Heller trancara a porta imediatamente, também pondo uma barra metálica e retangular que deslizava para um fechamento mais eficaz para uma ameaça daquela natureza.

Ruídos nojentos foram ouvidos, enquanto ambos estavam vidrados na pequena janela quadrada na porta. Alguns segundos depois, uma mão negra e pegajosa surgira de repente na janela, desesperada, batendo constantemente no vidro reforçado e sujando-o. O General, por fim, se convenceu quanto as anotações de Hector. "Os estágios ocorrem nesta sequência em todos eles. Isto significa que só há uma espécie em atividade. Temos que agir rápido, agora que considero a possibilidade do inimigo estar aprimorando a substância à um outro nível.", pensou Holt, preocupado com as contingências.

O som de estática no CripTalk do General fizera os dois ignorarem as aflitas batidas do mimético na porta. Retirando-o, Holt logo o aproximou à boca.

— Fale.

— Senhor, Rosie Campbell acaba de chegar. E, devo dizer, não está nada satisfeita com um certo detalhe. — avisou o soldado.

— Tudo bem, já estou a caminho. — disse Holt, em seguida desligando. — Vigie a porta, soldado. — ordenou ele, virando as costas para Heller, caminhando pelo corredor.

***

Perambulando pela espaçosa ala central do QG — com paredes de concreto escuro e resistente e luzes brancas -, Rosie vinha na direção do General com um ardente olhar de descontentamento. Uma colisão de humores exaltados estava prestes a se realizar.

— Está atrasada. — disparou Holt, sem hesitar em provoca-la de certa forma.

— Por que meu diário está naquela caixa de "Achados e Perdidos"? — quis saber a jovem, o tom de voz desafiador e petulante.

— Responda você primeiro. — ditou Holt, autoritário. — Por que ocultou informações valiosas de nós propositalmente? — aproximara-se dela.

— Eu só... — ela dera de ombros. — ... achei que não fosse relevante no momento.

— Uma amostra autêntica da substância não lhe era relevante!? — disse ele, arqueando as sobrancelhas, abismado com a afirmação da jovem. — Afinal, o que passa pela sua cabeça? Olhe... — inquietou-se ele, parecendo aflito. — Estou profundamente desapontado.

— Idem. — retrucou Rosie, fitando-o. — Reclama de omissão, mas não pensa duas vezes em usa-la só para satisfazer suas ideias. — cruzara os braços. — O que me diz em ter escondido de nós sobre as armas de congelamento?

— Mereciam saber no momento que achei oportuno. Goste ou não, esta foi minha decisão, como superior legal e idealizador-chefe da força-tarefa. — argumentou Holt, demonstrando todo seu ar soberbo. — Mudando de assunto... O que ficou fazendo nos últimos três dias? Faltou a uma importante reunião ontem. — reclamou ele, virando as costas e tornando a andar pelo caminho de onde viera, como se sinalizasse para que Rosie o seguisse.

— Assuntos particulares. — disse Rosie, evasiva, seguindo-o.

— Como os descritos em seu diário, por exemplo? — perguntou Holt, pondo as mãos para trás enquanto andava.

— Até parece que eu escreveria para mim mesma informações relacionadas às fábricas, à substância e toda essa loucura. — redarguiu Rosie, o tom firme. — Também vi o bloco de notas do Hector... A propósito... — ela hesitou, baixando a cabeça e pensando no que diria. — ... sabem onde ele está? Encontraram o paradeiro?

O General permanecera em silêncio por um instante. Uma busca desenfreada pelo caçador não constava nas prioridades, tampouco seu início fora ordenado por Holt. "Deste momento em diante, Crannon nada mais é do que uma carta fora do baralho. Não tenho escolha a não ser considera-lo um desertor, além de poupar as energias da minha equipe em uma busca que com certeza seria inútil sem vestígios."

— Nós ainda estamos pensando em como seguir. — mentiu Holt. — Estou cogitando selecionar um grupo menor e impulsiona-los numa busca diária e ininterrupta. No entanto, nada é garantido, nem ao menos sabemos como ele escapou... ou o que o levou.

— Apostam que ele foi sequestrado? — conjeturou Rosie, o tom carregado de suspeita.

— Dada as circunstâncias... — disse o General — ... é nossa principal teoria.

Ambos dobraram para um corredor situado à esquerda, sendo o princípio de um labirinto com vários. Enquanto caminhava, a visão periférica de Rosie detectara uma larga e grande janela de vidro reforçado pertencente à uma sala de treinamento físico de soldados incluídos na força-tarefa. A jovem assistira, por alguns segundos, o treino dos fortes rapazes, alguns socando pesados sacos com areia, outros exercitando os músculos com pesos em barras.

— Fique tranquila. — garantiu o General. — Nenhum de nós leu seus segredinhos. Aliás... acho que um acabou dando uma espiada. Lamento se isso a incomoda. — disse ele, a expressão dura.

— Está bem, já esperava que alguém fosse bisbilhotar. — disse Rosie, suspirando em seguida, o semblante de decepção. — Mas pega-lo sem minha autorização foi um erro.

— Ocultar informações de um militar foi um erro ainda pior. — devolveu Holt, a paciência esvaindo-se pouco à pouco.

— Mas sem ter me pedido antes!? — insistiu Rosie, elevando o tom, parando de caminhar. — Não acha que deveria ter ordenado um dos caçadores, que veio me buscar, para pedir permissão a mim antes de vasculhar a casa toda?

Holt virara-se lentamente para ela, exibindo uma face despreparada para fazer permanecer a calma. Encarara-a com estranheza cravante.

— Não se dirija à mim como se estivesse falando com um dos seus amigos. — ditou ele, severo. — Posso prende-la por desacato à autoridade.

— E aquela coisa de "ofereço minha amizade" quando me apresentei? — disse Rosie, franzindo a testa, revoltada com a postura tomada pelo rude chefe.

— Aquilo não passou de ingenuidade minha. — retrucou Holt, aproximando-se dela com irritação. — Uma fonte me assegurou de que é perigosa o bastante para colocar em risco todos os pelotões. Antes de ser interrogado, Crannon foi submetido à revista... — dera um sorriso presunçoso e odioso. — ... e um item especial foi encontrado. O confisquei, considerando minha suspeita de que Crannon sabia mais do que era forçado a dizer.

Rosie o fitou com minúcia, respirando calmamente, sem se sujeitar à se irritar facilmente.

— Até consigo imaginar quem é a tal fonte. — revelou ela.

— Isso não vem ao caso agora e pouco me importa o que pensa a respeito. — disse Holt, olhando-a com severidade, afastando-se em poucos passos para trás. — Vocês dois me decepcionaram, e isto me leva a pensar que a aliança com os caçadores não passou de um deslize. — passou a mão na boca, andando para um lado, aparentando preocupação. — Vários soldados morreram na primeira operação.

Rosie observava-o com a esperança de tirar uma conclusão sobre o que andava atormentando-o. "Ele parece muito desesperado. Na verdade... parece nem ter dormido à noite. Exausto, abatido... além dessa mancha negra na farda, melhor nem falar que reparei.", pensou ela, contendo-se.

— Eu sinto muito... — lamentou ela. — Eu... acredito que nem devo fazer mais perguntas sobre a fonte...

— E nem deve. — interrompeu Holt, voltando-se para ela. — Aliás, eu deveria ter emitido uma ordem imediata para que fossem revista-la.

Um instante de silêncio recaíra sobre os dois, marcando um entreolhar que possuía um tom em comum. Rosie respirara fundo, assentindo para si mesma.

— Preciso ir ao banheiro. — disse ela, andando devagar. — Se me der licença. — olhou-o.

Holt abrira caminho, andando para o lado em dois passos, mantendo sua expressão de desconfiança. As palavras carregadas de infâmia de Sekhmet retornaram à tona em seu mente como fantasmas. Lutava contra o pensamento de que a verdadeira ameaça a ser combatida estava mais próxima do que ele imaginava. Olhou a jovem caminhar pelo corredor, assumindo uma postura um tanto insegura. Ajeitou o tapa-olho e cruzou os braços em seguida.

"Muito bem. Plano de contingência.".

***

Dentro do banheiro com pisos e azulejos de cerâmica branca, pensamentos nervosos eclodiam em Rosie a todo segundo. Após fechar a porta com pressa, rapidamente tirara do cinto de utilidades o seu emblema de Yuga, colocando-o sobre a palma da mão direita.

— Áker, preciso que venha, agora, por favor. — disse ela, em voz baixa.

— Olá, Rosie. — cumprimentou uma voz grave por trás dela.

Rosie voltara-se para o arauto com rapidez, guardando o pequeno amuleto em seu devido lugar. Áker surgira em questão de milésimos no banheiro ao receber prontamente o chamado, provando sua eficiência quanto a pedidos de ajuda e emergência. Pelo tom adotado por Rosie, obviamente tratava-se de urgência.

— Bem rápido dessa vez... — comentou a jovem, parecendo surpresa.

— Pelo visto, não pôs em prática o que havia pensado sobre o Dr. Lenox. — disse o arauto, indo direto ao ponto da discussão.

— Desculpe... — disse Rosie, suspirando pesadamente. — Olha... não tive tempo de contar sobre o sequestro, o General Holt acabou por me decepcionar feio hoje.

— Receio que ele não dará o braço a torcer quanto a suspeita que tem por você. — apontou o mensageiro de Yuga, andando pelo banheiro vagarosamente, as mãos para trás. — Ter me chamado aqui pode não ter sido a melhor ideia.

— Por que? — perguntou Rosie, rígida no tom.

— Creio que também possuam detectores de atividades extraordinárias. — disse ele, voltando-se para ela com seriedade. — Estou a mercê de ser descoberto aqui. Então preciso que seja rápida.

Rosie o fitou com suspicácia.

— Você parece meio...

— Desesperado? — completou o arauto, firme. — Relativamente, sim. Além de Sekhmet podendo estar preparando mais uma ofensiva, posso sentir a presença de Mihos vagando pelo interior de toda estrutura, pude sentir isso por horas a fio.

— O quê!? Mihos está aqui? — espantou-se Rosie, a apreensão gelando seu sangue.

— Disfarçado de uma de suas vítimas, infelizmente. — revelou Áker, esperando que a jovem entendesse a mensagem.

— O soldado Heller. — disse ela, apreensivamente, virando-se para o espelho ao lembrar-se da apresentação-surpresa do filho de Yuga para ela na primeira operação de resgate.

— Exato. — confirmou Áker. — Ao que parece, ele está sendo dado como desaparecido. Mas conhecendo bem Mihos... é só uma questão de tempo para encontrarem o corpo. E, por fim, ele se revelar para executar um plano imprevisível. Me dói só de imaginar que ele pode ter assassinado mais soldados nos últimos dias.

Rosie erguera a cabeça, olhando pelo reflexo do espelho, aparentando ter tido um lampejo.

— Eu prefiro deixar que Lenox seja uma vítima encontrada de surpresa. — idealizou ela. — Sinto que é tarde demais para achar provas de que ele desapareceu e apresenta-las ao General. Eles seguem a ideia de que cada fábrica possui um prisioneiro e só restam duas... — olhara para o chão, praticamente sem saber o que fazer. — Não sei se acreditariam em mim.

— Sei o quão injustiçada se sente. — disse Áker, acolhedor. — Holt está enganado sobre o perigo que Sekhmet o fez acreditar que você é. Está ludibriado demais para confiar totalmente em você. O melhor é permitir que o deixe seguir com suas medidas por si mesmo, sem sugerir nada, nem intervir. — aconselhou ele, assentindo devagar.

Algumas batidas na porta fizeram Rosie sobressaltar subitamente em um tremendo susto.

Olhou para o ponto onde Áker estava e o mesmo já havia sumido em milissegundos. Logo correu para atender a pessoa do outro lado, tomando cautela para não deixar brechas para ser suspeitada e imaginando ser o General ou qualquer outro subordinado seu... até mesmo o "soldado Heller". "Faz sentido, já que Áker estava aqui e ele provavelmente pode ter sentido sua presença ou meu amuleto emitiu algum sinal quando chamei Áker e o atraiu.", pensou ela, aflita ao girar lentamente a maçaneta.

A certeza de que logo veria a face do falso Heller acometeu-a assustadoramente. "Seja lá como for... estou aberta a tudo.".

Abrira a porta.

A expectativa desagradável caíra por terra... instantaneamente lhe proporcionando uma torrente de alívio sem medida. Com um suspiro suave, Rosie sorrira desconcertadamente.

— Err... Olá. — disse ela.

— Senhorita Campbell — disse um soldado meio careca e de aspecto sisudo. -, o General me mandou avisa-la de que houve uma alteração na execução da força-tarefa. Serão dois pelotões de 50 soldados que vão agir simultaneamente para desmanchar as duas fábricas que ainda restam. Ele só precisa da sua confirmação para saber qual pelotão deseja liderar. — fez uma pausa, olhando para um papel que segurava. — O pelotão 1 será responsável por Birmingham, enquanto que o 2 por Liverpool. — olhou-a á espera da resposta. — Qual delas prefere invadir?

A informação pegara-a desprevenida. Engolindo em seco, ela pensou por um momento, pensativa até demais para o soldado. Apenas um nome lhe veio à mente. "Êmina. A última fábrica. Mas... Não, droga, eu devia ter perguntado à ela enquanto tive a chance... Mas não, não daria certo, só me deixaria mais encurralada se eu perguntasse. Talvez Abamanu tenha selecionado a cidade que se iguale em importância com Londres. Londres como ponto para a última fábrica seria muito óbvio, ele não ia facilitar assim. Na última fábrica pode estar o Dr. Lenox e Êmina... ou talvez Lester. Melhor não perder tempo... Vou ter que arriscar. É tudo ou nada.".

— Campbell... — chamou o soldado, olhando-a estranho. — Algum problema?

— Ahn... — disse ela, desvencilhando-se dos devaneios, retornando á realidade. — Não, claro que não. Eu... vou escolher Liverpool.

— O.K. — assentiu o soldado. No entanto, permanecera ali, analisando a face de Rosie e olhando de relance para o banheiro.

— Mais alguma coisa? — perguntou Rosie, logo percebendo, para sua aflição, que deveria ter fechado a porta a fim de passar a impressão de que estava de saída do banheiro.

— O que estava fazendo aí dentro? — perguntou o soldado, dando um sorriso misterioso.

Enrubescida, Rosie mostrou-se acanhada.

— Ahn... err.. — as palavras lhe faltaram de repente. — Não... não é o que está pensando. Só estava meio apertada... Acho que talvez seja uma incontinência. — arriscou ela, falando o que lhe veio à mente.

O soldado já andava para sair dali, um tanto envergonhado pela curiosidade.

— Ah sim, entendo. — disse ele, sorrindo forçadamente. — Me perdoe pela pergunta... Até mais. — apressara o passo para ir.

— Tudo bem... — disse Rosie, olhando-o caminhar de volta. -... sem problemas. — falou, mesmo sabendo que ele não escutara.

A jovem esperou ele dobrar o corredor para finalmente fechar a porta.

Ao virar-se, deparara-se com Áker, aparecendo repentinamente. Rosie arquejara levemente ao assustar-se com a aparição rápida do arauto.

— Não faça isso de novo. — disse ela, pondo a mão no coração.

— Perdão. — desculpou-se ele. — Mas garanto que seus batimentos cardíacos estão temporariamente descompassados. Felizmente, não é algo que indique um problema semelhante ao que seu pai sofria. — apontou o arauto, impressionando sua protegida mais uma vez.

Levemente boquiaberta, Rosie o fitou como se não tivesse ouvido direito.

— O que... O que sabe sobre minha família? — questionou ela, intrigada.

— Absolutamente tudo. — respondeu ele, lacônico, sorrindo de leve. — Consigo lembrar... exatamente de todas as coisas que vivenciou nos períodos de calmaria. A primeira palavra que disse com total fluência foi "vovó". Aniversário de 1 ano. Vocês duas eram muito próximas e... felizes. — falara, relembrando consigo mesmo o que havia assistido por tantos anos junto à seu superior.

Uma sensação de enjoo afetara os nervos de Rosie. A jovem engolira a saliva, olhando para o nada, ainda pasma com a revelação do mensageiro de Yuga. Conteve-se para não expelir uma lágrima.

— Tarde demais para exigir privacidade... — disse ela, meio desalentada.

Áker pensara por alguns segundos, sem sentir culpa pela espionagem.

— De fato. — respondeu.

Rosie andara para frente, cerrando os punhos em nervosismo. Voltou-se para o protetor, apresentando uma face totalmente ansiosa.

— Os planos mudaram. — disse ela. — O General quer duas missões simultâneas, em uma delas eu vou liderar. Só posso apostar que Êmina e o dr. Lenox podem estar lá... Eu odeio ter que especular toda vez que penso nisso.

— Se assim for... — disse Áker, aproximando-se dela, olhando-a fixamente. — ... bem, acho que tenho um plano a seguir. Arriscado, mas devo seguir com ele.

— Sekhmet com certeza vai tentar outra vez. — teorizou Rosie, assentindo com veemência.

— Não duvido. Tem a ver com ela, de fato. — salientou o arauto. — Mihos, por enquanto, está disfarçado como o soldado que matou, e certamente vai estar ao lado do General... fora do seu encalço.

— Aonde quer chegar? Até onde eu sei, Mihos não está interessado em tirar proveito de mim. — disse Rosie, franzindo o cenho. — Embora eu ainda acredite que tenha segundas intenções. Ele vai agarrar uma vantagem se conseguir visualizar.

— Verdade. — aquiesceu Áker, assentindo e olhando para um canto do chão á frente. Mordera os lábios, pensativo, logo voltando seus olhos para Rosie. — No entanto, ele não causará nenhum arranhão em você, não existe um motivo real para tal. Sekhmet, obviamente, está rancorosa pela posição atual do filho, e, tendo isso em mente, não medirá esforços para acertar as contas com ele. Mihos estará com o General... Sekhmet aproveitará a deixa esperando que você também apareça lá. — dera um sorriso levemente enigmático.

As pontas começaram a formar suas ligações na mente de Rosie.

— Não... — disse Rosie, incerta, balançando a cabeça em negação. — Não, Áker, eu não acho que será tão fácil assim. Ah, droga... ela é a esposa de Yuga! — irritara-se. — Você é tão inocente assim a ponto de achar que ela seria enganada tão facilmente?! Desculpa, mas... eu não conto com isso.

— Por isso falei que é arriscado. — lembrou ele, sério.

— Ela tem relações com o General. — disse Rosie com seu lembrete, contrariando o plano do arauto.

— E daí? — perguntou Áker, dando de ombros, parecendo pouco ligar para a posição divergente da jovem.

Rosie, desconfiada, franzira o cenho, aborrecendo-se.

— É só isso? "E daí"? — reclamou ela. — O modo como o General se dirigiu à mim não foi claro o bastante à você? Ah, deixa eu adivinhar: Você não espionou isso! — disse, apontando o dedo indicador diante do mensageiro.

— Meus aliados sondam as conversas a todo momento e me passam os detalhes. — contou Áker. — Meu lorde e eu não temos mais razões para assistir sua vida. O que temos de concreto até agora: Holt teve um encontro com Sekhmet e ambos forjaram um pacto no qual tem você como alvo de vigilância. No entanto... — andara para um lado, pondo uma mão no queixo em reflexão.

— Sim... ? — disse Rosie, olhando-o com expectativa.

— A nova diretriz — continuou ele, voltando-se para ela. — irá inviabilizar o plano que Holt decretou após o pacto.

— Espera aí... — interrompeu Rosie, erguendo levemente uma mão. — Você... — piscou os olhos várias vezes. — ... havia ouvido minha conversa com o soldado. Não foi?

— Sim, claro. — confirmou ele, assentindo.

— Então o que ainda faz aqui já que não vai me contar o seu plano de contingência? — questionou ela.

— Achei que queria desabafar mais sobre o modo como o General vem se portando com você. — justificou ele. Caminhou até ela com um olhar sereno e tranquilizador. — Rosie, você deve considerar todas as possibilidades, por piores que pareçam. Pode ser revistada a qualquer momento... o que colocaria nossa conexão em risco. — fez uma pausa, suspirando. — Então, por via das dúvidas, preciso que me dê o amuleto. Aliás, vou precisar dele.

Tirando-o do bolso do cinto, Rosie entregara o minúsculo objeto dourado para Áker, pondo-o na palma da mão do arauto.

— É todo seu. — disse ela.

— Sekhmet não vai atormenta-la. Não hoje. — garantiu o arauto, confiante no tom de voz. Cerrou o punho com o amuleto dentro, olhando-o.

Sumira na velocidade de um disparo de uma bala provinda de uma arma de fogo, deixando Rosie sozinha no límpido banheiro branco.

CONTINUA...