Capuz Vermelho - 3ª Temporada
61 A calmaria antes da tormenta (Parte 3)
Para o alívio e sorte de ambos, a inspeção ocorreu dentro das expectativas. Alexia e Údon viram disponíveis duas cadeiras na última fileira e sentaram-se com rapidez na casa de leilão que mais se assemelhava a um museu de menor porte, com uma decoração elegante em tons de sépia e dourado.
— Mais calma agora? — perguntou Údon, falando baixo e inclinando-se de lado, sentado à esquerda dela.
— É, você venceu, estou convencida. — respondeu a vidente, apertando o vestido com as mãos apoiadas nas coxas em nervosismo. — Me desculpa, eu fiquei com receio, mas no fundo vi que te subestimei, então não achei justo. — olhou para ele — Não quer dizer que não confio em você... Ahn... quero dizer, ainda não totalmente. Talvez numa escala de zero a dez... sete está bom pra você? — estreitou os olhos.
— Pouco mais da metade é reconfortante. — disse o arqueu, satisfeito, seus ondulados cabelos grisalhos prendidos para trás por um elástico. Seu terno marrom — calças de mesma cor — por cima de uma camisa branca e gravata vermelha e larga foram elogiados pela vidente por terem caído tão bem. Um som de um pequeno sino tocou. O jogo estava para iniciar-se. — Fique atenta. — disse ele, focado.
O coletor subira ao palanque esbanjando bom humor.
— Boa tarde, senhoras e senhores. Devem estar ansiosos para obterem valiosos itens olimpianos. Garanto aos vencedores que no final... — falou com ar de mistério — ... se sentirão mais importantes.
"O que aquela besta infernal está planejando?", pensou Údon, atentando-se a última frase. "Que tipo de vantagem esse leilões oferecem? É tudo um plano para competir conosco na batalha contra Yuga? Pra quê armas oferecidas a mortais descuidados?"
— Bem, iremos iniciar, como aperitivo, com este brilhante artefato. — disse o coletor, estalando os dedos para seu companheiro trazer a primeira arma a ser leiloada. Viu-se um cetro prateado com linhas sinuosas destacantes. — Chamado de cetro alquímico. Esta beleza de arma, segundo constam fontes em livros de alquimia primitiva, ele tem um potencial de amplificar os poderes da lendária pedra filosofal. Daí a pergunta óbvia é: De que serve o cetro sem a pedra? A utilização dele para algum propósito não me parece razoável vindo de vocês, então posso convence-los dizendo que ele foi avaliado em 2 milhões em três leilões secretos na América, mas a Grande Depressão desanimou compradores persistentes, o levando a ser um artigo de luxo para exposição em algum museu até ser transferido para a Europa e... voilá, aqui está ele, numa oportunidade única de ser adquirido a um lance que corresponda ao seu valor histórico.
Uma mulher trajando uma túnica negra com capuz — que ocultava parte de seu rosto — levantou-se de repente à três fileiras de onde Alexia e Údon estavam.
— Dou dois milhões e meio por ele. — disse ela, firme na decisão. — Me parece adequado, ainda que nenhum valor em dinheiro se compare ao da alquimia. — levantou a mão direita na altura do busto — Dois milhões e meio. É meu único lance.
O coletor a fitou com um olhar malicioso e um sorriso aberto e enigmático, pois adorava ver a confiança estampada no rosto dos negociantes como se fossem imbatíveis.
— Alguém deseja confrontar o lance desta dama? — perguntou, com o martelo a ser batido.
Um silêncio imperou por alguns segundos, embora ouvissem-se cochichos e resmungos.
Alexia, aos poucos, percebia um detalhe na mulher que desfocou sua atenção na situação geral. Especificamente, na braçadeira que ela usava no braço esquerdo.
— Acho que já vi isso antes... — disse ela, pensando alto, fazendo Údon estranhar.
— O quê? Do que fala?
— Esse símbolo na braçadeira que ela tem, veja. — disse a vidente, apontando discretamente — Me soa familiar. Lembra de quando eu estava mantida prisioneira por Robert Loub, em plena Síndrome de Estocolmo. Me lembro de ter visto, pessoas com esse símbolo, seja em broches, pingentes ou até mesmo tatuadas nos pulsos. Ele recebia visitas daquelas pessoas com certa frequência. Nunca soube porque. E se eu perguntasse, me puniria.
O tal símbolo nada mais era do que uma estrela de oito pontas que parecia um círculo com flechas apontadas em oito direções.
— Pareciam um tipo de... sociedade secreta, como os Red Wolfs. — complementou ela, suspeitando. — De alguma forma, tiveram papel importante na criação das quimeras, mas é só minha teoria.
— História bem intrigante — disse o arqueu -, mas não vem ao caso agora. O leilão de verdade só começa quando uma arma divina aparecer.
— Mas ela é um deles. Se quer tanto o cetro, com certeza não é para algo bom. — disse ela, insistente.
— Concentre-se apenas na nossa missão. — disse Údon, enfático — Estamos a mercê de coisas bem mais perigosas. E nem pense em procurar sarna pra se coçar em relação a essa suposta sociedade secreta depois que vencermos aqueles dois. E nós iremos, não duvide.
O martelo batera confirmando a venda.
— Muito bem. Vendido para a senhorita...
— Dora. — disse a mulher.
O cetro fora retirado da bandeja, dando lugar a outro artefato mais chamativo.
— Chegou a hora de vermos quem dará o maior lance neste... estupendo e magnífico... arco de Apolo.
Ambos, arqueu e eleita, entreolharam-se preparados e assentindo.
***
— Vendido! — disse o coletor, batendo forte com o martelo e apontando para Hector com uma piscadela.
Alguns suspiros e murmúrios de frustração puderam ser ouvidos de homens e mulheres que participavam do acirrado confronto de lances para o cobiçado tridente de Poseidon que reluzia em sua cor dourada estonteante, possuindo o tamanho de um ser humano com 1,80m.
Lester mal aguentava-se de empolgação pela vitória, a segunda conquistada após algumas perdas.
Hector, por outro lado, não exibia felicidade no semblante. O caçador sentou-se novamente, a postura insegura voltando com força maior.
— A sorte parece conspirar pro nosso lado agora. — disse Lester, esperançoso. — Já temos o elmo de Hades, agora o poderoso tridente de Poseidon... um dos mais bonitos, diga-se de passagem. Quero ver qual o próximo.
— Melhor não cantar vitória antes do tempo. — alertou Hector, pouco otimista — Estamos aqui há quase duas horas e nesse período nós fomos o que menos contaram com a sorte no meio de mais de trinta pessoas tendo cinco delas ganhado duas armas cada uma. Perdemos dez armas olimpianas.
— E daí? Vai que Alexia e Údon ou os caçadores estejam com melhor sorte. — palpitou Lester, reprovando o pessimismo do amigo. — Vamos ter que arriscar, de qualquer forma.
— E que maneira inteligente para arriscar está pensando? — perguntou Hector, não depositando tanta confiança que o amigo esperaria para sua saída.
— Darmos um lance lacrador na próxima arma que vier e a gente esperar terminar para assinarmos os papéis de confirmação da compra. Saímos com três armas imaginando que os outros conseguiram, no total, umas quatro.
— Não, isso já é demais. — rejeitou Hector, erguendo levemente uma mão em sinal de desaprovação da ideia proposta — Essa impressão que tenho deles estarem nos testando, colocando armas mais atraentes e mais valiosas como um padrão, só me diz que... suspeitam que estamos aqui e acreditam que não teremos cacife o bastante para darmos lances maiores a cada arma que surgir. Julgam os valores de acordo com seus gostos. E também não vamos esperar que os outros tenham conseguido mais do que nós, isso é abusar da pouca sorte que temos.
— Ah é? Então me diga sua grande melhor ideia senhor Plano B.
— Está mais para D, de desespero. — disse Hector, vendo mais uma pessoa conseguir uma arma não-olimpiana em um lance de dez milhões. — O fato de alternarem armas de deuses gregos com de outros panteões também reforça minha teoria. Falta apenas meia hora para acabar. À essa altura é quase impossível vencermos uma terceira vez. — olhou para Lester como quem pede para manter uma promessa — Vou confiar em você pra uma parte meio perigosa.
— Isso depende. Perigoso, nesse cenário, parece ter mais a ver com você. — disse ele, temendo a ideia.
Hector aproximou sua boca ao ouvido direito de Lester para contar sobre a medida extrema a ser tomada naquele estágio preocupante do plano.
O caçador-estrategista se levantou calmamente, indo em direção a um dos seguranças que faziam guarda nas entradas do corredores. Educadamente, ele, entrando no "personagem", foi sem levantar desconfiança por parte do truculento homem de terno.
— Err... Oi, eu... eu só queria saber onde fica o banheiro.
O segurança abrira a porta do corredor.
— Primeira porta, à esquerda. — disse ele, secamente.
— Ah, obrigado. — disse Lester, andando a passos desengonçados e tocando nas partes íntimas ao fingir estar apertado. O guarda o olhou estreitamente, achando estranho o jeito de andar.
Ao perceber a porta ter se fechado, o caçador olhou receosamente para trás, sentindo a liberdade lhe possuir de modo incontrolável. Desfez da postura desajeitada e caminhou na direção oposta a mostrada pelo guarda.
Arriscou na primeira porta do corredor á direita. "Deve estar por aqui". Antes disso olhou para trás, comprovando que o corredor apontado pelo segurança de fato continha banheiros, sendo mais curto.
No entanto, sua mão direita parou poucos centímetros da maçaneta... ao escutar uma voz autoritária que lhe provocou arrepios na espinha.
— Pelo visto, nossos contratados não sabem dar informações corretas. — disse um coletor parado atrás do caçador com um sorriso infame. Lester virou-se alarmado, mas não se intimidando tanto — Já eu, por outro lado, sou bom nisso. Aqui é o lugar onde lixos como você não entram. Agora é onde você morrerá. — fez crescer uma garra negra de seu dedo indicador esquerdo, apavorando o caçador que mal conseguia exprimir um grito por socorro.
***
Hector conferiu no relógio o tempo passado entre os dois últimos lances e a falsa ida de Lester ao banheiro. "Essa não... Já faz oito minutos que ele saiu.", pensou ele, em seguida visualizando uma porta sem seguranças e aproveitando as atenções voltadas unicamente a um confronto intenso de lances pelo báculo de Atena envolvendo dez pessoas. O segurança que guardava a porta por onde Lester entrara havia sumido. Discretamente seguiu até a porta do lado direito, suas pupilas esquadrinhando cada ponto onde não pudesse haver nenhum sinal de alguém atencioso aos arredores.
Entrou, sem produzir um único barulho.
***
Lester saiu em disparada para além do corredor, escapando da garra veloz do coletor que quase o atingiu no ombro.
— Hum, boa rapidez. — disse o coletor, falsamente surpreso, a garra diminuindo.
Teleportou-se em nanosegundos, barrando a passagem do caçador que assustou-se recuando vários passos depressa.
— Mas o que acha da minha? — disse o coletor, sorrindo de canto.
Lester encheu-se de coragem para, num ato ousado, tentar desferir um cruzado de direita, mas que fora que parado com a mão do coletor que começava a apertar seu punho fechado. De repente, soltou um gemido de dor, ao sentir os ossos da mão apertarem como se estivessem para quebrar.
— Tolo. — disse o coletor, balançando a cabeça negativamente, logo depois empurrando-o com telecinesia, fazendo-o cair de costas no chão com certo impacto e deslizar. Mantendo as mãos baixas, soltara uma garra de seu indicador direito que tocou o piso em cerâmica quadriculado e, enquanto andava até o caçador, passou arranhando-o, produzindo um som torturante como forma de intimidação. — Hora de termos uma conversinha entre ladrão profissional e amador.
***
Hector deambulava com aflição pelo labirinto de corredores à procura do amigo. A cada entrada temia encontrar uma parte do corpo decepada do caçador como provocações, tendo em vista o nível de malevolência daquelas criaturas.
— Onde diabos você se meteu, Lester... — dizia ele, baixinho, adentrando em mais um corredor.
Fora surpreendido por dois homens de preto cujos olhares facilitavam um reconhecimento instantâneo e amedrontador. Ele escuta um pequeno alvoroço em um corredor próximo.
— Tudo bem, que se dane. — disse Hector, tirando o chapéu e os óculos, desvencilhando-se de parte do disfarce para enfrenta-los. — É lá que estão não é?
— Que tal negociarmos o seu amigo pelas armas? Estamos tentando valorizar nosso hábito de ostentação. — disse um deles, ameaçadoramente chegando perto.
— É mesmo. Tortura é bem estressante. — disse o outro, mostrando as enormes garras pretas e finas.
Repentinamente, ambos os coletores irradiaram luzes amareladas que queimavam seus olhos e bocas.
Hector entreviu, ao proteger o rosto da claridade com os braços, duas mãos familiares sobre os ombros dos malfeitores.
Ao caírem, a figura de Áker se mostrou visível e imponente.
— Você parecia ter medo deles, mas pode mata-los facilmente? Não entendo. — disse Hector, ora olhando para os corpos combalidos, ora olhando para o arauto de Yuga.
— Fazer isso em um coletor é o mesmo que deixar alguém inconsciente. — revelou Áker — Só deuses, com uma grande carga de energia, podem destruí-los.
Interrompendo, mais dois deles surgiram em aproximação agressiva.
— Rápido Hector, vá até Lester e salve-o. Cuido deles. — disse Áker, preparando-se.
— Se estes não morreram, vai ficar mais vulnerável. Não pode enfrentar quatro de uma vez. — disse Hector, discordante.
— Não se preocupe comigo, o tridente e Lester estão esperando, portanto vá, agora! — disse Áker, com aborrecimento, logo em seguida erguendo a mão direita e mandando o caçador ao exato corredor onde deveria estar, com a habilidade chamada de teleporte banidor.
CONTINUA...
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