Capuz Vermelho - 3ª Temporada

60 A calmaria antes da tormenta (Parte 2)


Área florestal de Raizenbool

A chegada abrupta de Alexia ao Casarão destruiu todo o silêncio anteriormente reinante no local.

Údon, estremecido, levantou-se da poltrona, encarando a vidente com certa preocupação, seus olhos relanceando o corpo dela para detectar algum tipo de dano. Áker e Lester estavam presentes, próximos um do outro em pé.

— Alexia, pelos deuses benevolentes, por onde esteve? — perguntou o arqueu, aproximando-se dela. — Meu aviso não foi suficientemente claro? Saídas não-autorizadas podem...

— Em primeiro lugar: Só porque estamos ligados não significa que devo ser protegida ou ficar sob vigília 24 horas por dia, portanto, com todo o respeito, eu posso me cuidar sozinha. — disparou ela, logo em seguida pondo a sacola de papelão sobre o sofá e, depressa, retirando de dentro o panfleto — E em segundo lugar: Temos um probleminha... ao que parece. — disse, visualizando o conteúdo sem aparentar muita certeza sobre se tratar ou não de um agravante. Áker foi chegando perto, curioso, enquanto Lester a olhava intrigado — Não sei porque, mas... Pode significar uma coisa obscura. — entregou o papel à Údon que lera. — Não entendo do assunto, mas me soa incomum leilões simultâneos em 20 cidades. Todo mundo sabe que casas leiloeiras dificilmente firmam parcerias.

— O que estão ofertando, Údon? — perguntou Áker, suspeitoso.

— Aaah... Que jeito amador de fazer propaganda. Por outro lado, incrivelmente presunçoso. — disse Údon, ainda olhando para o panfleto. Logo o amassara com força, fazendo uma bolinha — Pode ficar tranquila, você só sofreu uma péssima tentativa de tapeação. — jogara a bolinha da papel para trás, o semblante calmo e desinteressado — A elite mortal terá em sua coleção artefatos lendários de matéria-prima duvidosa. Mas tudo bem, eu compreendo, muitos deles sentem-se confortáveis com qualquer enganação que estimule a obediência aos instintos pecaminosos.

— Leiloar artefatos lendários?! — disse Áker, tornando-se pensativo por um instante — Espere, me parece que isso seja... — ergueu um olhar desconfiado para Údon — Algum tipo de artimanha para nos distrair.

— O que quer dizer? — indagou o arqueu, franzindo o cenho — Não vamos fazer apostas com um mísero pedaço de papel como base. Tenho por mim que não passa de afazeres comuns de mortais...

— Talvez seja isso que eles querem que pensemos. — retrucou o arauto, enfezado.

A porta abriu-se repentinamente.

— Eles quem? — perguntou Hector, entrando com rapidez, fechando a porta em seguida. — Sobre o que estão falando? É alguma novidade? — andou em direção aos aliados.

— Aonde você tinha se metido cara? — perguntou Lester, direcionando-se à ele — Você some, não diz pra qual lugar vai, isso mexe com a gente a ponto de pensar que aconteceu uma coisa terrível, ainda mais nessas circunstâncias.

— Fui visitar Rosie. — disse ele, secamente — Conversei com o General... — olhou para Áker — A propósito, Áker, eu fico imensamente grato pelo favor. Prometo que farei de tudo para retribuir.

O arauto, satisfeito, assentira. Alexia mostrou-se curiosa a respeito.

— Mas que favor é esse? — indagou, olhando para ambos.

— É uma longa história. — respondeu Hector, suspirando ao olhar para a vidente — E não importa. Temos prioridades em jogo. Podem me dizer sobre o que conversavam?

— Alexia encontrou um papel que divulga leilões simultâneos que vão acontecer em 20 cidades do país. — disse Lester — E, pelo visto, as ofertas parecem coisa de outro mundo. Tem caroço nesse angu, na certa. Mas justo a pessoa que deveria ao menos sondar o que está por trás disso acredita ser apenas um eventozinho comum da alta. Nada demais. — desviou sua expressão insatisfeita para o arqueu que lhe devolveu um revirar de olhos.

— Pode haver uma chance desses artefatos serem falsos. — salientou ele, querendo fazer com que seu ponto fosse considerado — Áker está se preocupando à toa novamente.

— A toa?! — disse o arauto, arqueando as sobrancelhas, logo virando-se para Hector — Ouça, Hector, armas divinas estão para serem lançadas à venda como se fossem obras forjadas por mãos humanas. Isso em poucos dias após Yuga ser preso. Não te faz lembrar algo? — fez uma pausa, aproximando-se do caçador — Ocorre à você alguma ponta de suspeita a partir de um anúncio que por mais comum que pareça até a profetisa desconfiou?

Hector necessitava se concentrar nas novas informações, mas encontrava dificuldades para enevoar os pensamentos que se carregavam e fixavam na mente com Rosie sendo feita refém em seu próprio corpo por uma entidade insanamente maligna e sem a menor oportunidade de controle. Respirações fundas pareciam ajuda-lo a se esforçar melhor. Leilões de armas conhecidas com portadores ainda mais conhecidos lhe fornecia uma sensação incômoda, possibilitando os fragmentos de memória reconstituírem-se de pouco em pouco. "20 cidades... Nunca vi algo similar antes..."

— Darei uma dica: Sekhmet. — disse Áker, ajudando-o.

— O Antiquário... — disse Hector, sentindo sua mente "explodir" com a palavra-chave, sua expressão tornando-se mais séria — Os Coletores estão... armando leilões com as armas roubadas... — passou uma mão no rosto até cofiar a barba, dando alguns passos pela sala — Isso não pode estar acontecendo.

— Você disse Coletores? — indagou Údon, ficando apreensivo — Aposta no envolvimento dessas aberrações sanguinárias?

— Abamanu provavelmente quer desviar nossas atenções usando seus sócios. — disse Hector, imergindo fundo na problemática — Logo quando precisamos de somente sete das que foram roubadas. Ele considerou que fôssemos cogitar abrir o portal do Vazio para prender Yuga. Agora que seu grande inimigo se encontra fora de atividade, ele resolveu lançar esse jogo contra nós.

— Então vamos jogar. — decidiu Lester, determinado — Pode ser que ele queira desafiar a gente em conseguir essas armas até que o outro monstro saia da jaula.

— Mas são os Coletores. — disse Alexia, preocupando-se — Charlie nos avisou uma vez sobre o quão perigosos podem ser caso cruzemos com o caminho deles. Precisam ser extremamente cuidadosos.

— E nós seremos. Tive uma ideia. — declarou Hector, postando-se como um líder diante dos outros — Podemos entrar em contato com caçadores não-licenciados que foram desqualificados em vários exames. Tenho uma lista com pelo menos 30 deles.

— Ótimo, boa ideia. — disse Lester, concordante — Ah! Devíamos incluir aquele carinha americano, ele era até engraçado, o nome dele era... — tentou recordar-se, com o dedo na boca e as pupilas pra cima — ... deixa eu ver... ahn, era Joshua? — perguntou a Hector, estreitando os olhos — Todo mundo o chamava de Josh, acho que esse é o nome. Você lembra dele? Achava ele uma figura...

Aquele nome pronunciado inocentemente pelo amigo caçador foi absorvido na forma de uma dolorosa pontada no coração seguida de uma angústia que sempre vinha de acompanhante. A dor daquela perda trágica voltou à tona nas lembranças de Hector quando o mesmo segurava o corpo ensanguentado e agonizante do jovem caçador de aluguel cruelmente ferido e morto por Mollock.

— Sim... — respondeu ele, assentindo e tentando, ao máximo, disfarçar a pérfida sensação — Estou lembrado dele. Vamos torcer para que esteja disponível. — o coração apertou forte ao dizer aquilo.

— Então esse é o plano perfeito de vocês?! — contestou Údon, meio duvidante — Confiar a um exército de homens sem nenhuma experiência com ameaças extremas. Genial. Nem posso imaginar o quanto ficarão empolgados ao saberem no que consiste a missão aparentemente fácil.

Lester sentiu que devia concordar em partes com o arqueu.

— Odeio admitir, mas acho que ele tem um pouquinho de razão.

— Um pouquinho?! Odeia admitir?! Nem quando falo a verdade você me dá alguma moral. — reclamou ele, aborrecido.

— Está bem, vou tentar inventar algo que chegue o mais próximo do razoável para que eles consigam suportar sem saírem impressionados demais. — disse Hector, consciente de que era arriscado levar seus colegas de profissão à um ninho de seres que sequer eram capazes de enfrentar.

— Seja convincente, Hector. — recomendou Áker — Está pondo em jogo vidas humanas inocentes que podem não reagir com segurança caso não tenham tanta sorte.

— E daí que você vai encabeçar a lista negra de outros caçadores que vivem em outros países e você vai ter que se virar com um alvo na sua cabeça porque os caras não brincam em serviço. — alertou Lester, ciente das consequências — Mas, de qualquer forma, vamos precisar disso, não temos escolha. — falara, dando de ombros.

— Ótimo. — disse Hector, preparado — Prestem atenção. Vai funcionar da seguinte maneira: Alexia estava em Croydon...

— Sabia para onde ela tinha ido? — perguntou Údon, a voz elevada quebrando a explicação do caçador.

— Praticamente saímos na mesma hora. — revelou Alexia, a fim de tranquiliza-lo. — Acordamos bem cedo e, por coincidência, dissemos um ao outro nossos destinos.

— Ah sim... — disse o arqueu, mais calmo, logo olhando para Hector — Prossiga.

— Como eu estava dizendo... Alexia saiu para Croydon e certamente encontrou o anúncio em algum ponto. Mas tenho uma dúvida: Quantas casas de leilão foram registradas?

— Nesse anúncio só especifica duas em Londres. — respondeu ela, olhando de relance para o panfleto que, minutos antes, tornou-se uma bolinha de papel amassada.

— Aí é que está. Dois locais para cada anúncio. 20 cidades... com duas casas de leilão. O que eu sugiro é agirmos em duplas. Em outras palavras, duas duplas para cada casa numa cidade. — disse o caçador.

— Isso também me inclui obrigatoriamente? — questionou Áker, sem saber como se encaixaria.

Hector pensara um pouco antes de proferir uma resposta segura.

— Você pode ficar isento do plano, Áker. — definiu ele, firmemente.

— Mas se as coisas esquentarem, uma ajudinha cairia bem. — palpitou Lester, sorrindo pretensiosamente ao arauto.

— Não se preocupem, estarei em alerta máximo assim que começarem. — garantiu o arauto. — Contem comigo.

— Portanto, está definido. — disse Hector, esfregando de leve as mãos — Ficaremos com Londres. Lester e eu numa casa e Alexia e Údon noutra. Espero que haja tempo necessário para nos aprontarmos.

Uma fagulha de aflição tomou conta de Alexia em questão de segundos, fazendo-a voltar seus olhos para o panfleto amassado novamente.

— Eu receio que não. — disse ela, pegando a bolinha de papel e desfazendo-a. Claramente isso serviu para conferir um detalhe que ficou quase esquecido. A vidente ergueu seus olhos para o caçador após ler o trecho que tinha visto sem dar muita importância. — Os leilões vão acontecer hoje a tarde, as duas.

Hector, sério, engoliu a saliva, sentindo uma urgência pulsar forte dentro de si.

— Então é melhor nos apressarmos. Agora.

***

Palácio subterrâneo de Abamanu

O deus lunar batera com sua mão direita na mesa quadrada em demonstração irritadiça. Um silêncio tornou a atmosfera soturna naquela sala de reuniões com seus sócios supostamente leais disfarçados de homens engravatados, atraentes e bem intencionados.

O olhar lupino de insatisfação de Abamanu fuzilou cada um deles.

— E quando eu acredito que nem chegariam perto de me desapontar, vocês me vêm com esse deslize patético! Reconheço a ousadia e a astúcia de vocês, mas o mínimo que esperava disso era ao menos um pouco de frieza nos movimentos.

— Me parece estar insinuando que só queremos... nos exibir. — disse um coletor, sob a pele de um homem de rosto jovial e caucasiano, cabelo preto partido e olhos azuis. — Somos melhores que isso. Nunca erramos a mão em nenhum passo.

— Então deixaram a desejar dessa vez. — retrucou Abamanu, mantendo sua raiva — A divulgação era para ser secreta, voltada somente a uma classe dos mortais. E o que fizeram? Um festival de anúncios em papel como se propagandeassem um parque de diversões. Costumam viver entre eles mais do que entre vocês mesmos, deveriam ter uma noção básica de como funcionam algumas leis.

Um coletor — disfarçado de um senhor de 50 anos com cabelos e barba quase branco e de óculos de armação média — protestou.

— Permitiu que agíssemos livremente nesse caso. O fato é que você não confia o bastante em nós e por isso qualquer ideia que pensarmos seria tida como um erro.

— É como eu estava dizendo ontem. — disse o careca que havia dado as informações anteriores, lançando um olhar capcioso ao deus — Isso significa que nossa diligência é subestimada. Antes não parecia tanto, mas agora vemos que isso é verdade. Somos tão empregados quanto aqueles cães pulguentos que andam com as duas pernas.

— Se sente-se tão injustiçado com meu modo de trata-los — disse Abamanu, categórico no tom -, então o convido a se retirar antes que se arrependa.

— Me pareceu uma ameaça. — dissera outro, um troncudo homem afro-descendente careca. — Será que não vê? Temos um código a zelar. Também vale para esse tipo de aliança. Ele diz que coletores unidos triunfam unidos. Em outras palavras, se um é demitido, todo o resto se demite. E então, quimera? Você quer ou não o seu grande exército de falsos deuses?

Abamanu bufara em impaciência atingida no limite, voltando novamente sua face enfezada aos sócios.

— O governo dos mortais proíbe esse tipo de atividade quando não há legalização reconhecida. — argumentou, hesitante — Além do mais, esse método pode servir como farol para alguns inimigos meus... Os amigos do mago do tempo. Precisam de sete armas para abrir o portal para o Vazio, a prisão unicamente feita para deuses, e prender Yuga no objetivo de salvar Rosie Campbell.

— Se os representantes do governo intervirem, mataremos todos. — disse o mais velho, ajeitando o óculos tocando na ponte com dois dedos — O problema são esses impertinentes que você mencionou.

— Como medida preventiva, eu proponho todos ficarem alertas a qualquer indício suspeito. — sugeriu Abamanu, com as mãos apoiadas na mesa e visualizando todos na postura correta de um líder — Façam inspeções contínuas a cada visitante. — sorriu com canalhice — Principalmente em uma certa vidente muito íntima ao mago do tempo.

***

Área florestal de Raizenbool

Para favorecerem uma entrada parcialmente segura na casa de leilão deveriam ser necessários alguns disfarces básicos. Os itens a serem verificados e selecionados encontravam-se no primeiro quarto de hóspedes do andar de cima, cujo guarda-roupa abandonado pelos antigos habitantes dispunha de uma aceitável coleção de roupas sociais masculinas e femininas.

Údon pegou uma altamente empoeirada boina preta feita de algodão. Soprou-a e viu a nuvem de poeira lançar-se no ar para perto de Alexia que se virou à ele desconfortada.

— Ah desculpe. — disse ele, num sorriso nervoso — Olha... Não querendo ser estraga-prazeres, mas, no meu caso, ainda não sou acostumado a usar vestimentas comuns dos mortais... E-eu simplesmente poderia disfarçar minha energia e entrar de fininho pelos fundos...

— Nem pensar. — reprovou Alexia, virando-se para ele com um vestido de seda bege em mãos — Isso é dificultar as coisas mais do que já estão pro nosso lado. Fazendo isso vai estar exposto de qualquer forma, podendo ser pego em flagrante e, pior, acabar morto. — alterou a expressão calma para apreensiva de repente — Espera... O fato de estarmos ligados não significa que... se você morrer primeiro eu também morro e do contrário a ligação só é desfeita?

Údon lançou um fechado sorriso de compreensão à eleita.

— Não há com o que se preocupar quanto a isso, Alexia. Mas sim, a morte desfaz a ligação. — aquilo não tranquilizou-a — Não do modo que você suspeitava, mas quando o profeta morre naturalmente. Sendo mais claro: Imagine você envelhecida e com inúmeros problemas de saúde. Entendeu agora? Assassinatos não quebram nosso elo. Só o fim natural do ciclo de vida é o que determina o fim da ligação para logo uma nova ser forjada depois. — colocou a boina na cabeça da vidente que abriu um sorriso branco seguido de um riso rápido.

— Isso não cai nada bem em mim. — disse ela, tirando a boina, ainda sorridente.

— Está bem, eu topo, agora, de vez. — disse Údon, mexendo nas gavetas para escolher suas peças, aliviando Alexia — Não conte ao Hector que relutei.

— Finalmente descobriu a vantagem de entrarmos e sairmos disfarçados. — disse a vidente, pegando mais roupas.

— Não sairei do seu lado nem por um minuto, a menos que haja uma suspeita. — prometeu ele — Vou mante-la indetectável aos malditos coletores a ponto de acharem que é uma estranha.

— Isso é mesmo possível? — indagou ela, empertigada — Digo... No caso de você fizer isso, é como uma doação temporária... do tipo que pode deixa-lo vulnerável? Se for assim, não é justo.

— Se fosse assim arriscaríamos a minha parte sugerida. — disse Údon, voltando-se para ela — Mas como, felizmente, eu posso compartilhar disso com mais pessoas, então seguimos como manda o figurino.

— Então eu, Hector e Lester podemos ter nossas identidades ocultadas, certo?

— Correto. — assentiu ele, segurando uma camisa de flanela vermelha — Com o véu ativo, os coletores ficarão crentes que estão diante de pessoas que nunca viram antes. Sim, eu sei que eles vigiaram o mago do tempo, inclusive quando o conheceram. — olhou para um canto, pensativo — Na verdade, eu previ isso. Todos eles sabem cada traço, cada feição de seus rostos milimetricamente... Mas a ocultação vai ajudar, vai conseguir bloquear a facilidade que eles tem em detectar humanos especiais.

Alexia olhou para o relógio de parede, logo em seguida apressando-se.

— São 10 e meia. — disse, voltando a retirar as roupas do móvel — Posso estar receosa, mas uma parte de mim acredita que vamos escapar sem nenhum arranhão.

"Queria muito ter essa fé, Alexia", pensou Údon, reprimindo, com todo afinco, um medo que se manifestou eufemisticamente na forma de uma simples relutância controlada.

***

Grande Londres

A casa de leilão via-se relativamente lotada para o julgamento prévio de Hector e Lester, que ali adentravam como dois homens mais velhos, esquadrinhando o interior do local que exibia uma estrutura acomodável e um pouco longe dos padrões exigentes da elite social. O caçador-detetive, usando um chapéu marrom e óculos de grau médio, aliado a um casaco de pelos cinza escuro por cima de uma camisa azul marinho, olhou atento para um balcão de atendimento onde um homem engravatado e bem vestido com seu terno negro parecia revistar cada visitante da "fila".

Lester emanou certa hesitação.

— Ainda não confio muito no tal véu que o barba cinza colocou na gente. — disse ele, quase falando no ouvido esquerdo de Hector — E essa roupa tá começando a me dar nos nervos, acho que uma traça tá me picando. — reclamou, referindo-se ao suéter verde-escuro que lhe acometia uma coceira que torcia para não estragar sua desenvoltura. Em geral, sua aparência disfarçada destacava-se pelo cabelo preto molhado em gel penteado para trás.

— É nossa vez agora. — disse Hector, andando até o balcão de inspeção — Aguente firme. Údon nos assegurou que isso nos manteria fora de perigo por um certo tempo.

— Ei, espera. — disse Lester, pegando no braço esquerdo do caçador, fazendo-o parar — Limite de tempo!? Isso nunca soa bem. — atestou, o tom continuando baixo.

— Ao que pude entender, compartilhar desse recurso com mais pessoas significa menor tempo para o disfarce perfeito. — declarou Hector, olhando-o firmemente — Assim sugiro que enxerguemos Údon como... uma âncora, que nos segura até o fim.

— E três pessoas pode ser um navio muito grande pra ele segurar. — contestou ele, pessimista.

— Ele é mais forte do que aparenta. Dê um voto de confiança, ele nos provou ser capaz de coisas grandiosas. — disse Hector, preferindo andar na contramão da incerteza, logo voltando a direcionar-se ao balcão.

— Como ferrar a mente de uma pessoa, por exemplo. — retrucou Lester, acompanhando-o, sem vergonha de subestimar o arqueu.

O coletor lhes lançou um cordial e fechado sorriso de boas-vindas.

— E vocês, cavalheiros? Aposto que não vieram brincar em serviço. Parecem bons jogadores.

— Nós só queremos apenas... pegar nossos números. — disse Hector, soando forçado, o que causou em Lester um nervosismo incontrolável — Não estamos exatamente acompanhados... — olhou para o caçador estrategista que mal sabia como portar-se — ... é que... nos conhecemos na calçada, daí puxamos conversa até...

— Não me interessa. — interrompeu o coletor, grosseiro, mas mantendo o sorriso — Vou ser generoso. Ganham passe livre pelas aparências modestas, vejo que são diferentes. Fiquem à vontade. — apontou para a urna onde retiravam-se broches com números que serviam de identificação a cada comprador.

No salão dos lances, madames e cavalheiros sentavam-se tranquilamente nas cadeiras bem organizadas para o grande momento. Algumas conversas paralelas serviam para abrandar o silêncio, pois todos, sem exceção, eram competidores em uma disputa de enorme valiosidade.

Ao sentarem-se, Hector e Lester esforçavam-se para mostrar posturas que obrigatoriamente deveriam encaixar-se ao ambiente sem nenhum escapamento de traços distintos, mas tinham de se acalmar por saberem que não pareciam tão notados.

— Parece normal pra você aquele cara ter nos deixado passar só por parecermos legais? — questionou Lester, apreensivo ao sentar-se — Não consigo gostar disso. Além do mais, sua atuação foi digna de Oscar... — soltou um riso rápido e zombeteiro.

— Tentei lidar com a insegurança da melhor forma que pude. — disse Hector, justificando-se, atento ao palanque onde via-se o martelo de arremate. — Então, nesse sentido, sua insegurança também foi a minha na hora H. Mas agora sabemos que funciona. — olhou no relógio de pulso — Um minuto. Está pronto?

— Tudo tem sua primeira vez. — disse Lester, esfregando de leve as mãos ao se preparar — Até porque não é só um simples bazar de quinquilharias. São as armas dos deuses... dos deuses, cara. O que poderia superar tudo isso em valor?

— Absolutamente nada me vem a cabeça. — respondeu Hector, o semblante sério. A chegada do leiloeiro ao palco ouriçou sua atenção no máximo. Seu acompanhante trazia o reluzente elmo dourado de Hades, logo colocando-o sobre uma bandeja de aço. "Um bom começo", pensou Hector.

— Vejam só o que temos aqui. — disse o coletor leiloeiro, visualizando o artefato com entusiasmo. — Uma réplica exata do elmo de Hades, o temível deus do submundo, fidedigna a muitos livros de mitologia antigos. Esta peça nem sequer chegou a um museu de história grega, sendo anteriormente propriedade da comunidade nacional de objetos lendários e míticos que cedeu toda a sua boa vontade em aprovar este leilão. Aliás, meus parabéns a todos os membros.

— Comunidade nacional? Réplica exata? Até parece. — murmurou Lester, meio revoltado com tamanha cretinice.

— A forma como ludibriam todas essas pessoas... é de dar nojo. — opinou Hector, vendo os olhares ávidos dos compradores ao elmo, alguns já prontos para se levantar ao primeiro lance. — Estão totalmente crentes de que são mesmo itens de luxo que você pode usar para enfeitar a sala. Talvez até alguns aqui imaginem serem falsos, mas ainda assim vêm porque... a mentira é um caminho bem mais confortável. — deu um sorriso leve, balançando a cabeça em negação ao sentir dó daquelas pessoas.

O coletor pegara o martelo virando-se de frente à sua "plateia".

— Muito bem. Quem quer começar?

— Eu. — levantou-se um homem esguio com terno xadrez cinza e branco e de cabelos meio ruivos penteados de lado além do bigode de mesmo tom — 10 mil.

Lester sentira suas mãos molharem em suor.

— Pode ser eu agora? — perguntou ele a Hector, empolgado.

— Bem, não viemos aqui pra assistir, então vá em frente.

O caçador levantara-se com gosto, erguendo a mão.

— 15 mil. — disse ele, percebendo algumas risadinhas baixas pelo lance baixo. Hector sentiu-se um pouco constrangido. "Será que ninguém nesse muquifo pensou que eu sou um novato?".

O homem sorriu de forma presunçosa para ele como zombaria, voltando-se ao leiloeiro.

— 28 mil. — disse ele.

— 40 mil. — rebateu Lester, aflorando sua competitividade.

— 70 mil. — revidou o homem, olhando-o com rudeza.

— 125 mil. — disse Lester, sentindo estar levando vantagem ao notar indício de desistência no oponente.

Segundos de silêncio tornaram a atmosfera tensa.

— Dou-lhe uma... — disse o coletor, com um sorriso canalha para ambos — .... dou-lhe duas... — seu olhar focara no nervoso homem ruivo. — ... e...

— 500 mil! — disparou ele, voltando à competição com rigor.

— Então é assim né? — disse Lester, em voz baixa — 950 mil.

— Um milhão! — disse o homem, parecendo desesperado.

A disputa continuava acirradamente e Hector se recostava na cadeira preocupando-se com os valores cada vez mais altos sugeridos pelo amigo. "Está indo bem, Lester... Ele está quase com a corda no pescoço. Se vencermos, a parte difícil certamente será falar com meus tios.".

CONTINUA...