Cappuccino
2 Irmãos italianos
Notas iniciais
Depois daquilo eu apenas dormi. Dormi como se não houvesse amanhã. Não entendi bem o que havia acontecido, talvez eu tivesse morrido e nem tenha me dado conta. Apenas escuridão, calor e silêncio.
Bem, o silêncio fora momentaneamente interrompido por uma discussão que parecia distante:
— Por que raios eu tenho que tomar a responsabilidade? Ele foi quem se jogou na frente do carro! – reclamou aqueles vívidos olhos azuis que me eram guiados com raiva – Além disso o médico disse que ele desmaiou por exaustão, não por conta da batida.
— Não interessa! – disse a voz com um sotaque italiano conhecido – Você tem que aprender a arcar com os seus erros, Vittorio! Mais tarde eu volto para ver como ele está. Hoje não precisa ir à empresa, trabalhe em casa e fique de olho nele.
— Não vou fazer isso, tenho que terminar meu projeto.
Eu não estou pedindo com seu irmão, estou mandando como seu chefe. – a voz permanecia calma apesar da repreensão. Era ele, tinha certeza que era meu cliente misterioso. O que estava acontecendo?
Pouco importava, eu só queria dormir...
..........
Me virei na cama, encolhendo-me sob o edredom quentinho. Eu parecia estar deitado em uma nuvem, uma nuvem morna e confortável. Muito mais morna e confortável que minhas usuais cobertas surradas.
Abri os olhos assustado!
— Onde estou? – sussurrei.
Me mantive estático enquanto meus olhos se acostumavam com a pouca iluminação. Lá fora eu conseguia ouvir a chuva e ver as luzes da cidade, e ali dentro eu conseguia sentir o calor e o aconchego de um quarto que não me pertencia. Era um quarto masculino, decorado em tons sóbrios. Ali deveria morar uma pessoa extremamente organizada, pois a única coisa bagunçada ali eram os lençóis da cama onde eu estava deitado. A propósito, aqueles lençóis tinham um perfume amadeirado bom que me lembrava uma paisagem bonita. Mas o que me levara até ali?
Ao sentar-me pude sentir o meu corpo dolorido. Me levantei devagar e com passos lentos fui até o grande espelho que cobria a porta do que parecia ser um closet. Mesmo na penumbra pude constatar que eu estava bem. Inteiro. Vivo.
Num lapso me veio a visão daquela BMW vermelha vindo na minha direção. Sim! Foi isso. Eu estava correndo atrás do marginal que roubou minha bike e acabei cruzando a rua de forma imprudente. Mais um suspiro.
— Eu mereço... – me olhei nos olhos ao lembrar do caos que estava minha vida.
Eu levantei a blusa preta de algodão que eu vestia e vi a atadura enrolada na minha cintura. Meu braço direito também estava enfaixado, e haviam dois band-aids no meu rosto. Fora isso, eu estava bem. Na verdade, melhor do que nos últimos dias simplesmente porque eu havia dormido. Aliás, quanto tempo eu havia dormido?!
Mesmo com dores, apressei o passo para sair do quarto. Eu precisava trabalhar, enviar o projeto de design e voltar para o café!
— Finalmente resolveu acordar. – a voz grave e provocativa me chamou a atenção para o homem que estava sentado no sofá, com um notebook no colo e uma pilha de papéis e pastas ao seu lado.
— Me desculpe, mas quem é você? E onde eu estou? – indaguei um tanto confuso ao perceber que eu estava em um apartamento extremamente luxuoso.
O lugar era espaçoso, com uma sala e uma grande cozinha americana ladeadas por uma parede de vidro que dava uma vista panorâmica de toda a cidade de Manhattan. Tudo ali inspirava luxo e riqueza, inclusive o homem que mantinha aqueles olhos azuis me analisando por baixo dos óculos de grau com lentes tão translucidas que mal podiam ser vistas.
— Me chamo Vittorio. Sou o cara que te atropelou, e você está na minha casa. – ele respondeu baixo ao tirar os óculos – Como está se sentindo?
— Bem, eu acho... – caminhei cauteloso, olhando em volta – Onde estão minhas coisas? Eu tenho que ir para o trabalho.
— Que tipo de trabalho alguém faz no sábado à noite? – ele questionou franzindo o cenho, ainda me olhando numa espécie de análise.
— Sábado à noite?! – indaguei assustado.
— Você passou o dia dormindo. – ele disse casualmente, voltando a baixar os olhos para a tela do computador em seu colo enquanto apontava para o balcão da cozinha onde estavam minhas chaves, minha carteira e meu celular – Suas coisas estão ali e suas roupas eu mandei para a lavanderia, posso mandar entregar na sua casa depois.
Mal ouvi o que aquele cara falou depois da primeira frase. Eu só conseguia pensar que era mentira, que eu não podia ter passado o dia inteiro dormindo. Cruzei a sala até o balcão e peguei meu celular. 23 chamadas não atendidas de Lucien e uma mensagem de Mike: “Passe aqui na segunda de manhã para pegar suas contas”.
Reli a mensagem inúmeras vezes sem consegui acreditar. Não bastasse ter perdido o projeto de design, eu também havia perdido o meu emprego. Logo agora?! Não era justo! Como eu iria pagar a casa da minha vó, e meu aluguel, e as minhas contas? Eu estava muito, mas muito ferrado mesmo!
O celular vibrando em minha mão me chamou a atenção, tirando-me dos pensamentos confusos e depressivos. A tela acusava a 24ª chamada de Lucien, ele devia estar desesperado.
— Oi Lucien. – atendi enquanto caminhava em direção à parede de vidro, observando o cenário noturno e chuvoso da cidade.
— Oi Derick! Graças a Deus você atendeu! Onde você está? O que aconteceu? Eu estava quase chamando a polícia! Você sumiu o dia inteiro! E o Mike surtou aqui no café! Por que você não apareceu?
— Calma, pirralho. Está tudo bem. – respondi tentando demonstrar tranquilidade na voz, embora eu mesmo não estivesse tão calmo assim – Ontem eu sofri um pequeno acidente, mas estou bem. Não apareci, nem respondi porque eu acabei dormindo o dia inteiro.
— Acidente?! Derick, eu sabia que tinha acontecido alguma coisa! Você sempre teve tanto cuidado com esse emprego, não ia faltar por qualquer coisa. – ele suspirou baixinho, parecendo transtornado – Quando você não apareceu hoje de manhã o Mike surtou, e disse que era melhor você não aparecer aqui nem pintado de ouro. Que ódio dele, nem se preocupou em saber o que aconteceu. Mas me diz, onde você está? Passei na sua casa na hora no almoço e não te achei. Está em algum hospital? Me diz que eu vou aí te buscar.
— Eu estou na casa do cara que me bateu com o carro e...
— Ah, você está na casa do desgraçado que te fez perder seu emprego. Ah, mas ele vai ver quando eu chegar aí!
— Hey, olha o drama. – eu ri achando graça da atitude dele, ele estava realmente preocupado – Está tudo bem, ele não teve culpa. Eu que atravessei a rua de qualquer jeito. Além disso, ele prestou socorro. Fez uns curativos, me deu umas roupas limpas e ainda me deixou dormir horrores. Estou mais bem cuidado do que estava antes.
Percebi que Lucien riu, parecendo se acalmar.
— Duvido que você esteja melhor que um zumbi. – ele implicou – Mas você está bem mesmo? Não vou te encontrar todo quebrado quando chegar aí, vou?
— Hey, estou bem, é sério. Não se preocupe. Vou te mandar o endereço por mensagem já, já.
— Okay, assim que eu sair do café vou aí.
— Ok. Obrigado.
Permaneci olhando para a tela apagada do celular, pensando que apesar da situação problemática eu ainda tinha um amigo. Talvez o único.
— Seu amigo vem te buscar?
Me virei ao ouvir a voz do meu anfitrião que estava de pé, guardando o notebook e os papéis em uma pasta. Naquele momento eu pude prestar atenção melhor naquele homem.
Mais alto que eu, fortes olhos aquamarine, sobrancelhas expressivas, barba bem feita e os cabelos negros, curtos e bem penteados. Estava descalço, vestia um jeans e uma camisa de mangas compridas preta com um corte que favorecia os contornos de seu corpo atlético. Não devia ter mais que 30 anos. Um homem bonito, quase um príncipe, mas com um semblante nada amigável. Também pudera, até onde eu lembrava, me joguei na frente do carro dele quando corri para tentar recuperar minha bike. Ele não devia estar muito feliz com isso.
— Sim, ele não deve demorar muito para chegar.
— Me dê seu celular – ele estendeu a mão – Envio o endereço para ele enquanto você toma um banho.
Não gostei muito daquele tom autoritário, no entanto, eu não retrucaria, afinal, minha situação não era muito favorável. Eu fui o errado e mesmo assim ele cuidou de mim. Mas apesar de não responder com rispidez, meu rosto demonstrava minha insatisfação.
Entreguei o celular a ele, que enviou uma mensagem de texto a Lucien com o endereço e a localização do apartamento. Em seguida, ele me acompanhou até sua suíte, me deu uma nova muda de roupas, uma toalha limpa e uma caixa de primeiros socorros.
— Se precisar de ajuda para trocar os curativos, me chame. – disse no mesmo tom imperativo de antes.
— Não se preocupe, eu dou conta. – respondi baixo, devolvendo um olhar firme a ele, que arqueou uma das sobrancelhas de forma inquisitorial antes de sair do quarto sem dizer nada.
A água quente não foi tão apaziguante quanto eu pensei que seria, afinal, depois de tirar as ataduras percebi com clareza a quantidade de arranhões e hematomas que haviam no meu corpo. O banho não foi exatamente confortável, a pele estava sensível, dolorida, e as feridas ardiam intensamente com a água e o sabonete. Fiz o possível para me limpar decentemente sem me autoflagelar.
Ao sair do banho vesti a calça de moletom, exatamente igual à anterior, e fui à frente do espelho tentar fazer os curativos. Eu precisaria colocar as ataduras no braço direito, que estava muito arranhado, e na minha cintura, onde havia um corte, além dos arranhões. Na caixinha de primeiros socorros havia tudo o que eu precisava para fazê-los, porém, demorei mais tempo do que achei que levaria. Era difícil prender a atadura no braço e na cintura usando apenas uma mão, acabei fazendo de qualquer jeito. Eu não queria pedir ajuda daquele homem, ainda mais depois de ouvir uma conversa vindo lá de fora. Aparentemente, alguém chegara enquanto eu tomava banho.
Eu me contorcia na frente do espelho tentando amarrar a atadura nas costas, quando de repente a porta do quarto se abriu e Vittorio entrou, me olhando com insatisfação.
— Por quê tanta demora? – quando percebeu o que eu fazia, suspirou e veio na minha direção negando com a cabeça – O que raios você está fazendo?
— Desculpe, eu já estou terminando. – respondi da forma mais gentil que consegui, mesmo que eu não gostasse do tom de voz arrogante dele.
— Sente-se na cama, eu arrumo isso.
— Não precisa.
Ele me encarou com intensidade.
— Precisa sim. Se isso infeccionar eu vou ser o culpado, não vou? Afinal, você é apenas um frágil pedestre que foi atropelado por mim. – ele disse baixo em meio a um sorriso de escarnio que conseguiu me irritar profundamente.
— Não foi proposital! – retruquei, era impossível lidar de forma passiva com aquele mal temperamento.
— Claro que não. – implicou com um ar irônico – Mesmo assim eu tenho que tomar a responsabilidade. Agora me deixe arrumar isso.
Imagino que a intenção dele foi me ajudar, no entanto, foi mal sucedido. Puxou meu braço machucado com força, acabando por me causar dor. Instintivamente eu dei um passo para trás, abraçando meu próprio braço enquanto o olhava apreensivo.
— Hey! Não toque em mim! – elevei um pouco o tom de voz ao franzir o cenho, já me irritando — Eu disse que não precisava.
Vittorio estreitou o olhar, percorrendo meu corpo em uma análise cruel. Eu devia estar patético: torso desnudo, mal enrolado em uma atadura, cabelos úmidos grudados no rosto e nos ombros, olhos assustados e corpo encolhido na defensiva. Eu odiava estar naquela situação!
— É, com certeza você sabe se cuidar.
— O que está acontecendo aqui? – direcionei meu olhar para alguém que entrara no quarto.
Bem, não era um qualquer. Era, simplesmente, o cliente misterioso do NeroCoffee.
— Vittorio, o que você está aprontando? – ele repreendeu, logo voltando o olhar para mim – Está tudo bem... Derick? Esse é seu nome, certo?
Apenas assenti ainda confuso quando Vittorio se virou respondendo irritadiço.
— Você me disse para tomar a responsabilidade, Rafaello! Mas ele não coopera. Então você que cuide dele!
— Hey, deixe de estresse, irmãozinho. Por que não vai lá fora arrumar os pratos para degustarmos a bela lasanha que eu trouxe? – ele sorriu tentando apaziguar a situação quando colocou a mão de leve no ombro do irmão que apenas se desvencilhou, saindo do quarto.
O acompanhei com os olhos. Aquele cara não era alguém fácil de se lidar. Por que raios eu tive que ser atropelado por ele?
— Não ligue para o meu irmão. Ele é esquentado, mas na verdade está preocupado. A propósito, me chamo Rafaello. – disse com uma voz cordial – Venha, deixe-me ajuda-lo com isso.
Antes que eu pudesse falar algo, ele simplesmente se aproximou pegando meu braço com suavidade, passando arrumar as ataduras.
— Ah, me desculpe pelo outro dia. Não pude tomar seu cappuccino especial. – ele sorriu de canto – Não tive a oportunidade voltar no café depois daquilo.
— Você ainda lembra? – questionei surpreso, baixando a guarda, não sei se por ele se mostrar um poço de gentileza, ao contrário do irmão, ou simplesmente se por ser um rosto conhecido.
— Claro. – ele abriu um sorriso capaz de conquistar qualquer um – Eu fiquei curioso com o sabor daquele cappuccino com grãos de Nápoles e gotas de chocolate suíço. Eu não esqueceria. Vire-se, por favor.
Me pus de costas, ouvindo-o falar enquanto ele arrumava as ataduras que contornavam meu magro abdome. Mesmo assim, consegui observa-lo pelo reflexo do espelho. Ele parecia concentrado e arrumava com cuidado, mal podia sentir suas mãos tamanha era a leveza do seu toque.
— Eu sou de Nápoles, cresci tomando aquele café. – ele tinha um ar nostálgico na voz – Não imagina minha surpresa quando vi que você era o “cara louco que tentou se matar” que meu irmão atropelou. Ontem ele me ligou desesperado quando aconteceu. Por coincidência, eu estava tomando uns drinks com um amigo médico. Corremos para lá e ele fez os primeiros socorros. Em seguida te trouxemos para cá. Peço desculpas por não te levarmos a um hospital, mas não quisemos criar um alarde sobre isso, e como meu amigo nos acompanhou e disse que você só precisava descansar, acabamos por te deixar aqui.
— Para que Vittorio tomasse a responsabilidade. – retruquei, olhando-o nos olhos pelo reflexo do espelho. Ele riu divertido.
— Como irmão mais velho eu tenho que fazê-lo aprender mais sobre a vida. – deu de ombros – Ele não é uma pessoa fácil de se lidar, eu sei. Mas esteve realmente preocupado, e apesar de estressado como sempre, ele cuidou de você com afinco. Te limpou, trocou suas roupas, e refez os curativos durante o dia. Por isso, peço que releve o mal humor dele. Prontinho.
Ele apoiou as mãos sobre os meus ombros ao terminar de arrumar a faixa. Senti que eram grandes e quentes... confortáveis.
— Ah, ainda falta o seu rosto. – ele arqueou as sobrancelhas ao olhar meu rosto pelo espelho, então foi até a caixinha de primeiros socorros na cama pegar os band-aids.
Eu estendi a mão para pegar os curativos, porém ele simplesmente tirou os papeis do adesivo e os colocou nos dois pequenos cortes do meu rosto. Fiquei um tanto sem graça, porque àquela proximidade eu podia ver com clareza seu rosto bem desenhado, e também podia sentir seu perfume cítrico, além disso, aqueles olhos atenciosos sobre mim faziam com que eu me sentisse vulnerável de alguma forma. Ali pude perceber que os traços dele eram similares aos do irmão, talvez mais maduros, mais serenos, mais fortes.
— Pronto. Vou deixar você terminar de se arrumar. – ele se afastou da mesma forma casual como chegou – Estarei te esperando lá fora para jantarmos antes de você ir. Se você puder ser paciente com o Vittorio, eu agradeço.
Sorriu antes de sair fechando a porta.
Em que situação eu fui me meter?
Suspirei ao me olhar nos olhos pelo espelho. “Derick, Derick... o que vai fazer agora? Sem emprego, sem dinheiro, sem bicicleta e ainda tendo que lidar com dois caras que mal conheço. O Rafaello parece um cara legal, já o irmão dele...” mais um suspiro. Ok, eu tinha que me apressar, não queria que Vittorio aparecesse de novo no quarto.
Vesti a blusa preta de mangas compridas, prendi meus cabelos em um coque desalinhado, calcei os chinelos que haviam separado para mim e aproveitei o momento sozinho para mandar mais uma mensagem para Lucien, só para me certificar de que ele estava a caminho.
Somente quando abri a porta e senti o cheiro da comida, foi que percebi que eu estava faminto e com sede também.
Rafaello estava tirando a lasanha do micro-ondas enquanto Vittorio tomava uma taça de vinho tinto sentado no balcão. Aparentemente ele estava mais calmo, por isso, aproveitaria a oportunidade para pedir desculpas, pois de certa forma compreendo seu estresse. Não é muito legal ter que cuidar de um estranho que simplesmente se jogou na frente de seu carro.
— Com licença. – me aproximei, sentando-me ao lado de Vittorio – Eu gostaria de me desculpar com vocês dois... com você principalmente.
Percebi que o olhar firme do irmão mais novo foi um pouco apaziguado quando comecei a falar.
— Não foi minha intenção causar todo esse transtorno.
— Então por que raios você se jogou na frente do meu carro? – Vittorio questionou ao se virar de frente para mim, tomando um gole do seu vinho enquanto me encarava. Percebi, que Rafaello, que servia os pratos me olhou com curiosidade também, provavelmente interessado em saber o que tinha acontecido.
— Na semana passada roubaram minha bike, e ontem, enquanto eu esperava a chuva diminuir na frente do café, vi um cara andando nela do outro lado da rua. Eu fui imprudente e corri atrás dele. Não prestei atenção na rua, não vi seu carro se aproximando. – suspirei pesadamente.
— Nosso amigo disse que você desmaiou por estar fraco e não pelo atropelamento. Mesmo porque Vittorio conseguiu frear a tempo. Seus ferimentos maiores foram por causa da queda que levou ao desmaiar. – Rafaello comentou ao se aproximar do balcão, me estendendo um copo de água como se tivesse lido meus pensamentos – Beba devagar para não passar mal.
Segurei o copo com as duas mãos e, controlando o ímpeto de beber tudo de uma vez, tomei um pequeno gole antes de responder.
— Eu não tenho dormido direito. – sorri sem graça.
— Em compensação, aqui dormiu o dia inteiro. – Vittorio pareceu baixar a guarda – Se você não se mexesse tanto eu suspeitaria que estava morto. Nunca vi alguém dormir tanto.
— Sua cama é muito confortável. – deixei escapar o comentário antes que me desse conta, acabando por arrancar uma gostosa risada de Rafaello.
— É muito confortável mesmo e ele é bem ciumento com ela, foi a primeira coisa que ele comprou quando se mudou para este apartamento – ele comentou divertido ao pôr os pratos com lasanha sobre o balcão, me olhando nos olhos de forma divertida – Você foi um dos poucos que teve a rara oportunidade de dormir nela.
Por algum motivo me senti levemente intimidado com aquele comentário. Apesar de não ter dormido com Vittorio, a conotação de ser especial por dormir na cama dele me fazia pensar nessa possibilidade. Senti minhas bochechas esquentarem. Um baita de um pensamento inoportuno. Talvez fosse carência. Nem lembrava da última vez que dormira com alguém.
A situação me inquietou ainda mais quando busquei a reação dele ao comentário, e encontrei seu olhar inquisidor enquanto tomava o último gole de sua taça, pousando-a sobre o balcão. Ele tinha um olhar firme, visivelmente incomodado com o comentário do irmão, mas ao mesmo tempo negando-se a responde-lo. Apenas abaixei os olhos para o prato de lasanha a minha frente, sorrindo sem graça.
— Então... Vocês são italianos certo? Faz tempo que se mudaram para Manhattan? – questionei no intuito de mudar de assunto.
— Desde que começamos a expandir os negócios da família, venho aqui com frequência. Mas fazem apenas três meses que vim passar uma temporada maior a trabalho. Já o Vittorio está aqui há mais tempo, o quê? Uns três, quatro anos? – Rafaello questionou ao sentar-se ao lado do irmão.
— Três anos – respondeu simplório, aparentemente insatisfeito por ter que participar da conversa.
— É verdade, ele veio para fazer o MBA e acabou ficando para ajudar a implantar nossa filial.
— Ah, entendi... – entendi que os dois são podres de rico e que eu tive sorte de não ter entrado em um problema maior com eles. Deve ter sido por isso que não fui levado ao hospital, para não chamar atenção da mídia. Sei lá, não entendo essa gente. Basta olhar em volta para o luxo daquele apartamento para saber que nem de longe faço parte da realidade deles. Antes de pegar um pouco da lasanha, questionei curioso – Vocês trabalham com o quê?
— Temos uma grife de roupas masculinas, e estamos prestes a lançar nossa primeira coleção completamente americana. – Rafaello disse com um brilho de satisfação no olhar. Parecia estar realmente orgulhoso do feito, mas um orgulho proveniente de um esforço que deu certo. Não havia um resquício sequer de arrogância ou soberba em seu semblante, apenas integridade e valor – Atualmente sou CEO aqui e Vittorio é o nosso Diretor de Marketing, mas os planos são que eu volte em breve para assumir a presidência da matriz, porque nosso pai está ficando velho, sabe? O ideal seria que Vittorio assumisse a presidência daqui, mas ele está resistente quanto a isso.
Percebi que o rumo da conversa não ia bem quando vi que Vittorio apertava o garfo com força ao ouvir o irmão mais velho, acabando por soltá-lo de qualquer jeito no balcão ao se levantar, respondendo entre os dentes.
— Você fala demais, Rafaello! Nós já esclarecemos nossa situação profissional, qual é a necessidade de expô-la a um desconhecido? – ele cuspiu aquelas palavras, me olhando de canto por um segundo – Quer saber? Perdi a fome.
E a situação ficava cada vez mais tensa para o meu lado. Um suspiro de alívio veio de forma automática ao que vi a mensagem “cheguei” no visor do meu celular, acompanhada da campainha que tocou.
Vittorio havia fechado a cara e se sentado no sofá da sala voltando a trabalhar em sua papelada, enquanto Rafaello, com sua cortesia convidava Lucien, pelo interfone, para subir e jantar conosco antes de irmos embora. Por mim, eu iria embora sem comer e sem falar mais nada com ninguém, afinal, problemas eu tinha aos montes, não queria arranjar mais nenhum. Mas como na minha vida as coisas ruins nunca vêm em pequenas porções, meu querido amigo já entrou no apartamento soltando os cachorros. O loiro só é pequeno, mas quando quer se meter em uma briga não poupa esforços.
— Derick, você está bem? – ele cruzou a sala preocupado, vindo até mim e fazendo uma análise visual constatando que eu estava inteiro antes de franzir o cenho e se virar para enfrentar os dois italianos – Quem de vocês fez isso a ele?
— Calma... – coloquei a mão no ombro dele, tentando apaziguar a situação que só tendia a piorar depois que Vittorio levantou e caminhou até nós – Eu estou bem. Está tudo bem, vamos embora, Lucien.
— Eu lembro de você. – Lucien apontou para Rafaello que fechara a porta, caminhando até nós com um olhar tranquilo, como se compreendesse a reação do meu amigo – Você é o cliente misterioso do café. Foi você que atropelou o Derick?
— Cliente misterioso? – um sorriso se formou no canto dos lábios quando me olhou nos olhos. Apenas neguei com a cabeça, num pedido mudo para que ele ignorasse Lucien – Não, não fui eu que atropelei ele. Foi meu irmão. Mas na verdade não foi nada demais. A batida não o machucou muito, ele apenas desmaiou por conta do cansaço, se bem entendi...
— Não foi nada?! – Lucien questionou irritadiço – Por conta disso ele perdeu o emprego no café, e não conseguiu terminar o trabalho de design!
— Olha só, foi ele quem se jogou na frente do meu carro. Se alguém é responsável por ele ter perdido o estúpido emprego, esse alguém foi ele mesmo. – Vittorio disse grave ao cruzar os braços – Já eu, não admito que um pirralho qualquer entre no meu apartamento para fazer algazarra.
— Ora seu!
— Calma, Lucien. Vamos embora. – o chamei mais uma vez, apertando seu ombro. Mais um chamado em vão.
— Para você pode ser só um “estúpido emprego”, mas era tudo o que ele tinha. Você não tem ideia de como o Derick se esforça para pagar o tratamento da avó dele, a casa de repouso dela. Perdi as contas de quantas horas extras e de quantos bicos ele já fez para dar de conta das responsabilidades dele. – a voz o do loiro foi diminuindo de volume, conforme o nó se apertava em sua garganta. Os olhos marejados indicavam que a preocupação que ele sentia era massiva, e que ele entendia as piores implicações de toda a minha situação. Ele expressava no seu jeito impulsivo, muitos dos sentimentos que eu trancava no meu interior – Ele sempre se esforçou tanto, e mesmo sem os pais, sem a família... Ele não merece isso. É culpa sua! Você vai ter que dar um jeito nisso, ouviu bem?!
— Quer saber, eu já estou perdendo a paciência. – Vittorio disse ao fechar os olhos, massageando as têmporas por um momento, como se estivesse tentando controlar a fúria. Em seguida me guiou um olhar firme – Tire seu namorado daqui. Amanhã mando entregarem suas roupas limpas e um cheque para compensar o transtorno. Não é isso que vocês querem? Dinheiro?
Aquelas palavras me atingiram por completo, me tirando o bom senso. Quem ele pensa que é para tratar as pessoas daquele jeito?
— Quer mesmo compensar pelo transtorno? Aprenda a deixar de ser um idiota mimado que pensa que o mundo gira em torno de si. Não preciso do seu maldito dinheiro! – respondi rispidamente antes de pegar minhas coisas no balcão e puxar Lucien pelo braço em direção à saída.
— Vocês todos, se acalmem! – Rafaello tentou apaziguar a situação, seguindo-nos – Derick, espere, você está bem para sair assim?
Respirei profundamente, antes de me virar para responde-lo.
— Estou bem, Rafaello. – percebi no olhar dele uma preocupação genuína que fez com que eu me acalmasse um pouco – Muito obrigado por cuidar de mim, e sinto muito por essa situação desconfortável.
— Eu é quem peço desculpas pelo mal temperamento do meu irmão. Eu não devia ter te deixado aos cuidados dele desde o início. O conhecendo eu sabia que as coisas poderiam acabar assim. – ele disse com certa insatisfação, então tirou seu cartão do bolso e me estendeu – Por favor, entre em contato comigo para qualquer coisa que precisar. Ficarei feliz em ajuda-lo...
— Pode deixar que nós vamos entrar em contato! – Lucien puxou o cartão da mão dele, surpreendendo a nós dois com ato, e em seguida me puxou pelo braço – Vamos, o John está esperando a gente, ele vai te dar uma carona até em casa.
Antes de sair pelo corredor, arrastado por Lucien, consegui ver o semblante irritadiço de Vittorio de relance. Não entendia como alguém tão estúpido poderia ser irmão de alguém tão sóbrio e sereno. Percebi que os fortes olhos de Rafaello permaneceram me acompanhando até que eu entrasse no elevador ouvindo as reclamações e sermões de Lucien. Aqueles olhos eram marcantes, e tinham muito mais poder sobre mim do que os olhos azuis marcados de ira do irmão mais novo.
Fale com o autor