Capítulo Único: Sob a Lua de Outono
1 Escolhas
Notas iniciais
Mary Anne sempre sentiu que havia algo de estranho na floresta que cercava a pequena vila onde morava.
As árvores sussurravam segredos ao vento, e, nas noites de lua cheia, sombras dançavam entre os troncos como se a própria natureza guardasse um mistério antigo.
Numa dessas noites, ao voltar para casa, Mary Anne ouviu um uivo distante.
O som era ao mesmo tempo belo e assustador, carregado de uma tristeza profunda.
Ela sempre muito curiosa, seguiu o chamado até encontrar um homem de olhos intensos e postura selvagem.
Ele era um forasteiro, de fala pausada e olhar que parecia atravessar a alma.
Ela se aproximou, cautelosa, mas curiosa.
— Boa noite — disse Mary Anne, tentando soar confiante. — Eu já o vi por aqui antes, mas nunca soube seu nome. Posso perguntar como se chama?
O homem a olhou por um instante, seus olhos refletindo a luz da lua.
— Meu nome é D. Augusto — respondeu ele, com uma voz grave e serena.
Mary Anne sorriu, sentindo um arrepio de mistério no ar.
— D. Augusto... Um nome forte. Obrigada por me contar.
— Então D. Augusto disse: Não há de que, e eu posso saber qual seria o seu nome?
— Mary Anne suspirou e disse: Me chamo Mary Anne.
D. August ergueu o olhar, demorando-se um instante a mais do que o necessário e disse.
— Disse algo que não te agradou? — O tom era cordial, mas havia algo de calculado em cada palavra.
Mary Anne desviou o olhar , onde a luz do luar projetava sombras longas.
— Não, está tudo bem.
D. August sorriu de leve, mas o sorriso não chegou aos olhos.
— Se você diz, então tudo bem.
— Preciso ir — respondeu Mary Anne, a voz trêmula, mas firme.
D. August inclinou-se para frente, os olhos fixos nela.
— Esta com medo de mim?
Mary Anne hesitou, sentindo o peso da pergunta.
— Não tenho certeza. Às vezes, o que a gente vê não é o que parece.
D. August deu meio sorriso, satisfeito com a resposta ambígua.
— É verdade. Aqui, nem tudo é o que parece. Lembre-se disso, Mary Anne.
Os encontros entre eles se tornaram frequentes. Mary Anne sentia-se atraída por aquele homem enigmático, mas também inquieta com os segredos que ele escondia.
Certa noite, Mary Anne o viu entrar na floresta e ao tentar segui-lo floresta adentro, presenciou o impossível:
Mary Anne se esconde atrás de uma árvore, o coração disparado. A lua cheia ilumina a clareira onde D. Augusto para, olhando para o céu. De repente, ele começa a se contorcer, ossos estalando, a pele se transformando em pelagem negra. Mary Anne prende a respiração, incapaz de desviar o olhar.
Quando a transformação termina, o lobo majestoso a encara, olhos brilhando no escuro. Ela dá um passo para trás, mas um galho seco estala sob seus pés.
O lobo avança, mas para a poucos metros dela. Lentamente, ele volta à forma humana, ofegante, suando.
— Você... viu tudo — diz D. Augusto, a voz rouca, quase animal.
Mary Anne hesita, a voz trêmula:
— O que... o que você é?
Ele sorri, um sorriso triste e perigoso.
— Agora que sabe, Mary Anne, não há como voltar atrás. Nem para você... nem para mim.
O silêncio da floresta pesa entre eles, cheio de segredos e ameaças não ditas
O medo inicial deu lugar ao fascínio. D. Augusto revelou a ela sua maldição:
A floresta estava mergulhada em penumbra. Mary Anne sentia o coração acelerar enquanto D. Augusto, com o olhar sombrio, finalmente quebrava o silêncio.
— Você não tem medo de mim, Mary Anne? — a voz dele era grave, quase um sussurro.
Ela hesitou, mas respondeu, fascinada:
— Tive medo. Agora... não sei o que sinto. O que o você é, de verdade?
D. Augusto se levantou lentamente, a sombra dele se alongando na parede.
— Sou o último de uma linhagem esquecida. Carrego uma maldição: pertenço a dois mundos, mas não sou aceito em nenhum.
Mary Anne se aproximou, os olhos brilhando de curiosidade e temor.
— E se eu quisesse atravessar esses mundos com você?
Ele sorriu, triste.
— Não pode. O amor entre nós é proibido. Minha maldição é o preço do desejo e do perigo.
Ela tocou a mão dele, sentindo um frio inexplicável.
— Mesmo assim, não consigo me afastar.
D. Augusto recuou, a voz embargada:
— Então, esteja pronta para o que virá. Entre o desejo e o abismo, não há retorno.
O silêncio voltou, carregado de promessas e ameaças, enquanto ambos sabiam que o fascínio era tão perigoso quanto irresistível. Mary Anne, dividida entre o desejo e o perigo, percebeu que o amor deles era proibido, mas irresistível.
Os dias foram passando e os dois se apaixonaram mais e mais.
Até que: A noite estava pesada, o silêncio da vila quebrado apenas pelo som distante de folhas sendo arrastadas pelo vento.
Mary Anne encontrou D. August na entrada principal da vila a luz da lua projetando sombras inquietantes nas paredes.
— Você sentiu, não é? — começou D. August, sem levantar os olhos. Sua voz era baixa, quase um murmúrio.
Mary Anne hesitou antes de responder. — Sim... Algo está se aproximando. Algo... que não pertence a este lugar.
D. August finalmente ergueu o olhar, os olhos brilhando com uma intensidade quase sobrenatural. — Não apenas se aproximando. Está aqui. E veio por minha causa.
Mary Anne deu um passo para trás, o coração acelerado. — Por quê? O que você fez?
Quando uma ameaça sombria começou a rondar a vila — uma criatura ainda mais antiga e cruel, atraída pelo poder de D. Augusto.
— Não importa o que eu fiz — respondeu ele, levantando-se lentamente. — O que importa é o que você fará agora.
— O que eu farei? — repetiu ela, a voz trêmula. — Eu não sou como você. Não tenho poder para enfrentar... isso.
D. August caminhou até Mary Anne, observando a escuridão como se pudesse enxergar algo além dela. — Você tem mais poder do que imagina, Mary Anne. Mas precisa decidir: vai fugir e abandonar tudo ou vai ficar e lutar ao meu lado?
Mary Anne sentiu um arrepio percorrer sua espinha. — E se eu ficar? O que acontece comigo?
Ele virou-se lentamente, sua expressão carregada de mistério e algo mais sombrio. — Se ficar, enfrentará o desconhecido... e talvez nunca mais seja a mesma.
O silêncio caiu entre eles como uma barreira invisível.
Mary Anne sabia que sua escolha mudaria tudo, mas as palavras de D. August ecoavam em sua mente: "Nunca mais será a mesma."
Alguns dias após.
A noite era densa, o ar carregado de um silêncio que parecia pulsar entre as árvores. Mary Anne, ainda ofegante, olhou para D. Augusto, que segurava o amuleto ensanguentado.
— Você sabia o que isso custaria? — sussurrou ela, a voz trêmula, mas firme.
D. Augusto desviou o olhar, sombras dançando em seu rosto.
— Sabia que haveria um preço, mas não que seria você a pagá-lo.
Mary Anne apertou o braço, sentindo a marca quente da maldição recém-compartilhada.
— Agora somos dois guardiões, não é? — murmurou, tentando decifrar o olhar de D. Augusto.
Ele assentiu, a expressão grave.
— A floresta não esquece, Mary Anne. E o que fizemos esta noite... vai nos perseguir.
Um vento frio atravessou a clareira, fazendo as folhas sussurrarem segredos antigos. Mary Anne sentiu um calafrio.
— E se a criatura voltar?
D. Augusto se aproximou, a voz baixa, quase um aviso:
— Então, desta vez, não estaremos sozinhos. Mas lembre-se: guardar segredos da floresta é carregar o peso do que não pode ser dito... nem esquecido.
O silêncio caiu entre eles, pesado, enquanto ambos sentiam que, a partir daquela noite, nada seria como antes.
Na noite do confronto, Mary Anne usou sua coragem e inteligência para ajudar D. Augusto a derrotar a criatura. Mas o preço foi alto: para salvá-lo, ela aceitou compartilhar parte da maldição, tornando-se guardiã dos segredos da floresta.
Os anos passavam e corria uma lenda na vila de geração em geração.
Um conto:1
A névoa rastejava entre as árvores quando Clara se aproximou do velho portão da floresta. Ao seu lado, o Sr. Elias, o guardião da vila, mantinha o olhar fixo na trilha escura.
— Você ouviu isso? — sussurrou Clara, apertando o casaco contra o corpo.
Elias assentiu, os olhos brilhando sob a luz pálida da lua cheia.
— Ouvi. Eles estão próximos esta noite.
Clara engoliu em seco, sentindo o coração acelerar.
— Eles... os lobos da lenda? — perguntou, a voz quase sumindo no vento.
Elias sorriu de canto, um sorriso que não era de alegria, mas de segredo.
— Não são apenas lobos, menina. São almas ligadas por um pacto antigo. Dizem que, quando a lua está cheia, eles caminham juntos, protegendo quem guarda o coração puro.
Clara olhou para a floresta, onde sombras se moviam entre as árvores.
— E se alguém os encontrar? O que acontece?
O velho hesitou, olhando para o céu prateado.
— Ninguém jamais voltou para contar. Alguns dizem que ouvem sussurros... promessas de amor eterno, carregadas pelo vento. Outros juram ter visto olhos dourados brilhando na escuridão.
Um uivo distante cortou o silêncio, fazendo Clara estremecer.
— Você acredita nisso, Sr. Elias?
Ele se virou para ela, a expressão grave.
— Acredite ou não, menina, esta vila ainda está de pé por causa deles. E esta noite... — ele fez uma pausa, ouvindo outro uivo, mais próximo — ...esta noite, eles caminham entre nós.
Clara sentiu um arrepio percorrer a espinha, enquanto o vento trazia, de longe, um sussurro que parecia prometer segredos e perigos sob a lua cheia.
✓Fim ou continua?
Fale com o autor