Notas iniciais
boa leitura ❤

Ciri estava sozinha.

Tinha 5 anos, seus cabelos sujos e embaraçados descendo por suas bochechas pálidas. Ninguém falava com ela há dias. Sentia falta da sua mãe, que cantava para ela antes de dormir, da criada que tolerava suas brincadeiras, da cozinheira que sempre lhe oferecia doces antes do jantar.

Houve um escândalo do outro lado da porta, vozes altas ecoando pelo corredor, adultos discutindo.

— Isso é tudo culpa minha! — gritava o que parecia ser sua avó. Havia algo estranho na voz dela. — Nunca deveria ter deixado Pavetta entrar naquele navio. E a Ciri! A garota vai—

Alguém a interrompeu, sussurros reconfortantes, até que Ciri pulou ao ouvir o som de vidro quebrando e estilhaçando no chão. A princesa encolheu-se e tomou coragem, aproximando-se.

A porta se abriu de repente e a rainha Calanthe olhou para ela, suas vestes reais douradas e manchadas de vinho. Ciri tentou não observá-la por muito tempo, sua mãe sempre falava que era rude encarar os outros, mas havia algo no semblante de sua avó que a impedia de desviar o olhar.

— Oh, querida... — A mulher quebrou o silêncio numa tentativa fraca de confortá-la. Ciri percebeu que ela não era boa naquilo, mas se permitiu ser pega no colo, desesperada por afeição depois de dias de rejeição.

Os braços dela eram fortes e curtos, contrastando com os finos e elegantes de sua mãe. Algo não estava certo. Ciri podia sentir no ar, como uma pressão prestes a rasgar e explodir com o menor toque. Como uma taça de vidro segundos antes de cair e se quebrar pelo chão.

— Eu quero minha mamãe. — Ciri reclamou, seus cabelos cobrindo seu rosto para esconder seus lábios trêmulos.

Ela não chorou naquela noite, mas Calanthe sim.

— Psiu! Princesa! — Houve um sussurro impaciente por entre os arbustos do jardim do qual Ciri estava caminhando. Era tarde da noite e ela não conseguia dormir muito bem desde quando sua mãe faleceu.

Cansada demais para suspeitar da voz familiar escondida atrás da topiaria, a garota se aproximou curiosamente até seus pés roçarem a grama e as folhas se remexerem com o movimento, a brisa do outono gelando sua pele.

— O que faz aqui a essa hora, princesa? — Ciri ouviu, sorrindo ao identificar o dono da voz.

— Jaskier! — exclamou em surpresa ao vê-lo saindo de trás do arbusto, seu fiel alaúde pendurado em suas costas. — Como conseguiu entrar aqui? Minha avó não te deixa mais visitar, sabe disso.

Calanthe não deixava mais ninguém fora do palácio interagir com ela. Ciri sabia que sua avó tinha ficado paranóica depois da morte de sua mãe e fazia de tudo para protegê-la, incluindo proibir o único bardo cujas músicas eram decentes por entre as cortes. Jaskier era um favorito entre Pavetta e Ciri, as duas aproveitando suas canções sempre que ele visitava.

Sua mãe não estava mais lá para desfrutar das baladas de Jaskier com ela, e Ciri se perguntou vagamente qual fora a última canção que ouviram juntas.

— Ora, nem mesmo a própria rainha de Cintra poderia me impedir de visitá-la. Pedi para os guardas me deixarem entrar, — Jaskier respondeu com um sorriso, animado como sempre, e Ciri o encarou com uma sobrancelha cética levantada — Tá, foi preciso um pouco de suborno e algumas moedas para satisfazê-los, mas não é isso que importa agora. Eu perdi seu aniversário de seis anos! Sinto muito, princesa!

Ciri não conseguiu conter uma risadinha.

— Já tenho sete, você está um pouco atrasado.

— Sete?! Pelos deuses, como o tempo passa! — A voz dele quebrou levemente no fim, e ela percebeu que havia algo mais nos olhos dele, mas não conseguiu identificar o quê. — Às vezes imagino o que ele faria se—

Jaskier parou.

— ...Jaskier? — indagou, curiosa.

Ele tentou sorrir novamente, mas saiu fraco e falso.

— Nada, princesa! Não é nada...

Ciri deduziu que poderia ser mais um daqueles assuntos chatos de adulto do qual ela não poderia saber.

— Você... vai tocar pra mim? — pediu ao observá-lo posicionar o alaúde em seus braços e acariciar as linhas delicadas do instrumento.

— Você é a aniversariante, tem direito a todas as músicas que quiser!

Seu aniversário tinha sido três meses atrás, mas Ciri apenas assentiu animadamente e sentou-se em um banco de pedra no canto do jardim, Jaskier à sua frente.

Os dedos ágeis do bardo dedilharam uma melodia gentil e dessa vez ele tinha escolhido não usar sua voz, aproveitando apenas a música do alaúde e acalmando os pensamentos de Ciri, que se viu relaxando pela primeira vez em muito tempo. Sua mãe iria adorar ouvir aquela canção, os sonetos dançando pelo ar junto com o vento no jardim.

Depois de mais alguns momentos pensando sobre sua mãe, Ciri sentiu novamente a mesma pressão sufocante que a atingiu dois anos atrás, algo prestes a estourar e transbordar por entre seus dedos.

A música parou.

Oh, Cirilla... — Era a primeira vez que tinha ouvido Jaskier chamar seu nome, ainda mais com um tom tão doloroso como aquele, como se estivesse tão sufocado por emoções como ela estava.

Antes que pudesse reagir, a garota sentiu os braços do bardo envolverem seu corpo e aconchegá-la em um abraço confortante. Não sabia porque ele a estava abraçando, mas não ousou reclamar.

— Sinto muito, princesa. Eu também sinto falta dela. — Jaskier declarou em um sussurro enquanto acariciava os cabelos dela, seus dedos finos entrelaçando as mechas douradas, e Ciri suspirou nos braços dele.

Ela devolveu o abraço, segurando suas vestes douradas e cheiradas a vinho.

— Diga, princesa, — Jaskier continuou depois que alguns minutos de silêncio se passaram. Ele tentou sorrir novamente, mas desistiu, adotando agora uma postura séria. — O que você sabe sobre bruxos?

Seu mundo estava em chamas. Ciri corria graças ao puro choque, suas pernas arrastando seu medo e desespero para longe de Cintra. Sua família, seu futuro, seu destino.

Um nilfgaardiano a pegou, seu corpo sendo levado e protestando com a ação. Estava em um cavalo em alta velocidade, mas Ciri se contorcia para se libertar. O soldado a agarrou com ainda mais força e ela sentiu sua pele avermelhar, dor gritando por entre os poros. Quase vomitou o jantar daquela noite no chão sangrento da cidade, seu estômago em reviravoltas e instinto de sobrevivência correndo por suas veias.

— Me larga! — Era a mesma garota de 5 anos que suplicava agora, sua mãe apenas uma memória tímida em sua mente. Estava com suas vestes reais douradas e manchadas de vinho. Não. Sangue. — Por favor! Por favor...

Seu coração palpitava com os galopes apressados do cavalo e, em um impulso impetuoso, Ciri jogou-se no chão, mas não pareceu ser o suficiente, pois seu perseguidor continuava a persegui-la.

Viu o soldado agarrar seu pé para puxá-la e ela sentiu a pressão no ar. Intensa e repentina, como taça de vidro caindo no chão.

Ciri gritou.

— Que tipo de pessoa louca fala com um cavalo? — Ciri tentou buscar humor na situação para evitar pensar sobre sua realidade. Sem comida, sem abrigo, sem ninguém para confiar. As tentativas para fugir dos Nilfgaardianos ou consertar seu destino sempre acabavam transbordando pelos dedos, deixando-a cansada e sem esperança.

O cavalo relinchou em resposta.

— Bom, não é como se você fosse contar pra alguém... — continuou e hesitou por alguns segundos antes de acariciar o pescoço do animal, que permitiu o toque. Mesmo com a luva, podia sentir nos dedos o casaco de inverno nascendo nos pêlos do cavalo, o que a fez perceber que ela própria logo teria que arranjar roupas mais pesadas e quentes se quisesse sobreviver à temporada.

Antes que pudesse falar mais alguma coisa, notou a presença de mais pessoas no meio das árvores. Eram os garotos de Cintra que Ciri costumava brincar, mas suas posturas não eram mais tão convidativas quanto antes. Andavam cuidadosamente pela grama, como se ela fosse um animal facilmente assustado.

— A maldita princesa de Cintra, — Um deles declarou ao vê-la, cuspindo as palavras como se fossem veneno. — Tudo isso é culpa sua.

Ciri recuou alguns passos, mas decidiu retrucar.

— Mas, nós éramos... — Amigos. Ela tentava pronunciar as palavras, mas algo apertava em seu peito, deixando-a sem fôlego. — Vocês não se lembram de mim? Em Cintra, a gente-

— Claro que eu me lembro de você, — O outro garoto respondeu com agressão na voz. — E eu também lembro que sempre tinha que deixar você ganhar. Patético. Só porque você tem sangue real.

Ele tirou uma faca do cinto e pegou o braço dela antes que pudesse fugir. Ciri inspirou pelo nariz e tentou não entrar em pânico.

— Mas sua vadia avó não tá mais aqui pra te defender.

Ele ergueu a lâmina e a taça de vidro se quebrou no chão mais uma vez.

Depois disso, tudo pareceu uma breve alucinação. Tentou ao máximo não pensar sobre o que tinha feito, o sangue fresco — vinho? — manchado em seu casaco — vestes douradas? — e uma mulher a abraçava para acalmá-la — era sua avó? Mãe? — mas no final, estava cansada demais para se importar.

Foi direcionada à uma pequena casa escondida na floresta perto do vilarejo, e a presença maternal da moça e a cama macia em que estava deitada causaram um alívio a percorrer por sua mente.

— Nada vai acontecer com você aqui, pequena, — A moça disse para ela, seu sorriso carinhoso aquecendo algo dentro de Ciri, que não se atreveu a responder. — Você pode ficar aqui, se quiser. Comigo. Não somos uma família perfeita, mas... Você é muito bem vinda aqui.

Ela tocou na mão da garota, provavelmente tentando confortá-la, mas Ciri recuou rapidamente em instinto, sua respiração agora ofegante e ombros tensos.

— Desculpa, eu... — Ciri tentou se desculpar, mas o que havia para dizer?

Algo passou pelo rosto da moça, uma emoção de pena ou simpatia em suas feições. Havia algo mais, porém Ciri não conseguiu identificar.

— Está tudo bem, querida, — A voz dela aderiu um tom mais pesado, como se estivesse com um nó na garganta. — Tente dormir um pouco, nós conversamos melhor amanhã.

Ciri ficou confusa, mas não recusou o sono profundo que a acolheu quando fechou os olhos. Surpreendentemente, não teve sonhos naquela noite. Desde pequena era comum acordar assustada e com lágrimas nos olhos, mas agora não havia sua mãe ou avó para acudi-la quando os pesadelos ficavam muito reais. Pelo visto o destino tinha decidido poupá-la de mais um pequeno sofrimento naquela noite, o que, infelizmente, não durou muito.

Ela abriu as pálpebras assim que sentiu o ar frio beijar sua pele, mesmo estando debaixo de cobertas pesadas de lã. Viu pela janela as nuvens leves decorando o céu claro, mas o sol estava escondido pelo inverno que se aproximava. Estava ainda cogitando se deveria sair da cama ou esperar a moça de antes aparecer quando sentiu algo arrepiar seu corpo, como um presságio sussurrando em seu ouvido.

Levante, a voz dizia, ele está esperando por você.

Ciri tinha quase certeza que ainda estava dormindo, mas quando se levantou da cama e pôs os pés no chão, a realidade veio e desabou seu sono. Como um impulso descuidado, calçou suas botas e correu pela porta, fugindo da casa até a floresta.

E foi aí que ela viu. Com suas pernas trêmulas e sua respiração agitada, Ciri trocou olhares com íris douradas e sabia na hora que era ele. Geralt de Rivia. Podia ver os lábios dele formando seu nome em um fôlego surpreso e ela estava correndo até os braços dele sem pensar direito.

Seu corpo pequeno colidiu com o dele e, para sua surpresa, os braços do homem envolveram-na em um abraço apertado, e Ciri lembrou-se de Jaskier e seus abraços aconchegantes.

— Pessoas entrelaçadas pelo destino sempre vão se encontrar. — Ela ouviu a voz grave dele dizer em tom baixo e incrédulo, como se estivesse confessando mais para si do que para ela.

Ciri sentiu uma onda de raiva percorrer seu corpo. Sua vida inteira o destino a tinha privado de uma vida justa e grandiosa. A princesa de Cintra transformada em princesa de ruínas e pesadelos traumatizados.

— Não foi o destino que te achou, fui eu. — disse ela, sua voz quebrando por entre as palavras. Não sabia o que sentia, em seu peito formando-se uma tempestade de emoções.

Quebrou o abraço e forçou a encará-lo, só agora notando o semblante cansado e aliviado do outro. Geralt pareceu surpreso com a resposta dela, mas seus lábios quase se formaram em um sorriso.

— Hm. — resmungou, satisfeito, e Ciri o viu recuar até mais fundo para a floresta, seus olhos dourados e penetrantes acompanhado os dela para garantir que ela estava o seguindo.

— Aonde vamos? — Seus pensamentos voltaram para a casa onde dormiu e a moça gentil, a promessa dela ainda ecoando em sua mente.

Você pode ficar aqui, se quiser. Comigo.

Sacudiu a cabeça, negando o falso senso de segurança que a lembrança lhe causava. Estava com Geralt de Rivia, onde deveria estar. Era o que sua avó gostaria.

— Geralt, — chamou, e ele se virou para ela — Aonde estamos indo? — repetiu.

— Até o meu cavalo, — Ele andou devagar, suas pernas arrastando por entre a grama densa. Parecia estar mancando. — E depois, até Kaer Morhen.

Geralt parou e observou Ciri com uma intensidade que a fez engolir em seco. Não sabia o que ele era, mas não parecia uma pessoa qualquer. Sua insegurança pareceu despertar algo dentro dele, pois seu rosto adotou uma expressão determinada.

— Eu vou te proteger, princesa. Eu prometo.

Ciri se lembrou de sua mãe, sua cidade em cinzas, sua avó com suas vestes douradas manchadas de vinho, e lembrou-se do sangue que pintava o chão quando os garotos de Cintra tentaram machucá-la.

— Não, — Ela respondeu. — Não faça promessas que não pode cumprir.

Quando eles finalmente chegaram até cavalo de Geralt, uma égua simples e marrom de porte médio, ele virou para Ciri e tentou levantá-la para ajudá-la a montar no animal, mas ao sentir o menor dos toques em sua cintura, a garota recuou tão bruscamente que quase tropeçou e caiu para trás, sua respiração ofegante. Geralt pareceu surpreso.

— Me desculp-- — Geralt começou e calou-se de repente. Algo no rosto de Ciri deve tê-lo deixado surpreso, ou o jeito que o corpo inteiro da garota agora tremia. Ciri desviou o olhar, envergonhada.

Geralt franziu as sobrancelhas e não ousou tocá-la pelo resto do dia.

Notas finais
~