Caos e Fúria - A Batalha das Rosas
2 Capítulo 2 - A Menina e o Lobo
A menina acordou assustada enquanto Siren a carregava, o grupo havia disparado, fugindo dos soldados de Edésia que atacavam o acampamento. Gritos invadiram o local, sangue jorrou, fogo queimou as tendas improvisadas, mas a conjuradora não soltou a filha, enquanto adentrava a Floresta Abissal. Desesperada olhou ao redor, seu grupo havia se separado. Elas estavam sozinhas, nenhum sinal de Tereza, nenhum sinal de Lionel ou de Rezon.
Ela rezou aos deuses, que mantivessem Sora viva. Que Morrigan a protegesse.
Siren continuou correndo, os semi-faes que percorriam juntos ao seu redor, aos poucos eram acertados pelas flechas de fogo dos soldados, os corpos caindo ao seu lado, um a um, os cadáveres aumentavam a cada passo na trilha. Seria um massacre, rápido, cruel e eficaz. Da forma como vinham fazendo. Siren, percebendo que não conseguiria fugir tão rápido com Sora no colo, aproveitou o momento em que conseguiu se esconder nas sombras das árvores, para colocar a menina no chão.
― Não grite e corra o mais rápido que puder.
A menina assentiu, os olhos de cor verde brilhantes cintilaram durante a noite. Siren afagou os cabelos cinzentos da menina, as orelhas levemente pontudas eram um sinal evidente de seu sangue e suas origens. Uma bela condição para passar a vida inteira sendo caçada.
Se conseguissem sobreviver àquela noite.
Os soldados edesianos passaram correndo, montados em cavalos, próximos o suficiente de onde as duas se escondiam. Siren olhou ao redor, seus olhos prateados estavam aflitos. Mais a frente, um homem estava camuflado, abraçado em um menino, ambos de orelhas longas pontudas. Escondiam-se atrás de uma pedra. A conjuradora não podia gritar, não podia avisá-los, não podia fazer nada quando o soldado se aproximou.
Dois golpes rápidos, a espada cortou as duas cabeças, e as mesmas rolaram no chão, encharcando a grama e a terra com sangue. Percebendo que Sora iria gritar ao presenciar a cena, Siren garantiu que não fizesse barulho ao tapar a boca da filha.
Lagrimas rolavam do rosto da menina.
A conjuradora agachou-se, mesmo diante toda aquela situação de fuga, seus movimentos eram graciosos.
Uma forma de manter a menina o mais calma possível.
― Nós vamos fugir daqui, está bem? ― Sora assentiu, os olhos verde esmeralda chamejavam com as lágrimas. ― Vai ficar tudo bem, e você vai sair viva. Certo?
Sora assentiu, trêmula.
Siren sorriu, de forma acolhedora, enquanto segurava as próprias lágrimas de pavor.
― Você promete ficar viva? ― Um aceno positivo foi a única resposta. Siren beijou a testa da menina antes de continuar. ― Vamos correr, agora.
Siren segurou a pequena mão com força.
Então dispararam.
Adentrando a imensidão sombria de árvores, esquivando-se para que os soldados não pudessem acertá-las. E desviando das flechas que cortavam o ar. Elas correram, o mais rápido que podiam, e em momento algum a conjuradora ousou soltar a pequena mão de Sora. Desesperadas elas desviaram, fizeram uma curva quando encontraram um barranco.
E rolaram.
Com velocidade, enquanto terra e barro, galhos e folhas se enroscavam em sua pele e roupas. Demoraram para parar, conforme desciam e afastavam-se ainda mais, do grupo que estava sendo massacrado pelos soldados de Edésia. Siren não se importou se estavam separadas dos demais, ficou grata que haviam se afastado o suficiente.
Percebendo que havia torcido seu pé, a conjuradora levantou-se cambaleando e se aproximou da filha caída no chão, observou rapidamente, os olhos estralados encarando a mãe. Nenhum ferimento, Sora estava bem.
Então abraçou a menina.
― Vamos, estamos próximas das Montanhas da Alma.
Com dificuldade Siren ficou de pé, ignorou a dor latejante em seu tornozelo, lentamente para não fazer barulho começou a caminhar. Precisava encontrar um local seguro, próxima o suficiente das montanhas para que pudesse esconder a menina.
Havia uma opção, que talvez não desse certo.
Mas tentar, naquela situação, era a melhor saída.
Elas continuaram caminhando, até que Siren se viu afastada do rio, e conseguiu enxergar os picos altos pintados de branco das montanhas, em meio as árvores da floresta.
― Fique aqui. ― Ela posicionou a menina a sua frente, então agachou-se e segurou os pequenos ombros. ― Me prometa, que você vai ser forte. Que você vai ser uma guerreira, não precisa conquistar o mundo, mas que respeite a sua liberdade. Me prometa com a sua vida, que vai acima de tudo, ficar viva. Que vai sobreviver, que vai ser forte o suficiente para conquistar aquilo que tem vontade. Não deixe, em momento algum, que duvidem de você, que menosprezem você, ou que rebaixem você. Não seja uma pessoa ruim, escolha o lado certo, sempre. E principalmente, o mais importante de tudo, faça de tudo para ficar viva.
A menina balançou a cabeça, de forma positiva, indicando que havia entendido. Então ambas choraram. Siren abraçou Sora com força, sabia que aquele seria o último momento que poderia fazer aquilo. Sentir o calor da menina, sua vitalidade, o que ela representava. A união de um amor tão profundo e verdadeiro que havia sentido. Chorou, deixou que as lágrimas corressem ao pensar naquelas possibilidades. Todos os momentos felizes que haviam vivido como família, tudo o que haviam jurado buscar, as promessas de se encontrarem novamente. Tudo o que poderiam ter vivido, se aquele massacre não estivesse acontecendo.
Se Siren pudesse ficar viva.
― Mamãe... ― Sora enxugava as lágrimas, mas sua mãe afastou-se para encará-la.
Um último vislumbre daquela criação perfeita, a coisa mais bela e poderosa que poderia ter.
― Sora, eu te amo, e sempre irei te proteger. Não esqueça disso, sempre estarei com você. ― Siren limpou as lágrimas da menina e fechou os olhos por um instante.
Iria reunir todo o poder sombrio que havia aprendido a manipular naqueles anos, uma força muito mais antiga do que a magia que havia sido selada, muito mais profunda e obscura. Uma maldição, se rogada para o bem, poderia ser eficaz. Embora, as forças necessárias fossem algo demoníaco.
Quando piscou três vezes e abriu os olhos novamente, o prateado sereno e acolhedor havia sido substituído por um preto sombrio. A cor tomou conta de todo os seus olhos, demoníaco, assustador. Mas uma saída, uma possibilidade para proteger a menina.
O tempo pareceu congelar naquele momento, e os sons da morte abafaram, como se estivessem dentro de uma bolha, ou uma fenda no universo, capaz de parar o tempo.
Siren levou as mãos as orelhas pontudas da menina, o detalhe mais marcante de sua descendência.
Então começou a falar, sem que Sora pudesse ouvir:
― Seus traços vão se apagar. Vai ser humana, mortal como qualquer humano. Vai esquecer o rosto de seu pai, vai esquecer suas origens. E essa maldição só será quebrada, quando o seu semelhante lhe reconhecer. Somente o sangue do teu sangue poderá quebrar esta sentença. ― Finalizou, então repetiu a última frase, com intensidade para afirmar a maldição. ― Somente o sangue do teu sangue poderá quebrar esta sentença...
Uma súbita dor invadiu o corpo de Siren, obrigando-a a soltar a menina, estava ofegante enquanto tentava retomar a postura. Piscou três vezes, sua íris voltara ao normal, prateada como a lua. A conjuradora observou atentamente a menina. Sora estava com os olhos arregalados olhando para a mãe, mas suas orelhas... Seus traços... Aquela beleza anormal e brilhante... Não estava mais ali.
Era humana.
Ainda era uma bruxa conjuradora, mas completamente humana.
Siren soltou um suspiro aliviada quando percebeu que a maldição havia funcionado.
No entanto, uma dor súbita atingiu suas costas. A mulher lentamente levou a mão, sujando-se de sangue. Uma flecha.
Uma flecha havia acertado a sua costela, e sangrava intensamente.
Reunindo todas as forças que tinha naquele momento, ficou de pé e segurou a mão da menina com força, então disparam novamente.
Adentrando a imensidão da noite.
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