O relógio de parede marcava duas e quarenta e cinco da manhã, mas o conceito de tempo já havia se perdido para os moradores daquele pequeno apartamento há alguns dias. O silêncio da noite era cortado pelo choro agudo e rítmico de Harumi. A pequena alpha, que puxara os cabelos espetados e a energia do pai igualmente Alpha, estava enfrentando sua primeira crise severa de cólica.

​Haruki caminhava de um lado para o outro no corredor, o rosto pálido pelo cansaço, mas os olhos transbordando aquele amor instintivo que só um Ômega conhece. Ele embalava a pequena contra o peito, sentindo o calor do corpinho dela através da manta.

​— Calma, meu amor... o papai está aqui — sussurrava Haruki, a voz levemente embargada. Ele soltou um pouco de seus feromônios, tentando criar uma aura de segurança, mas a dor da bebê parecia mais forte que qualquer cheiro calmante.

​ Akihiko, que até então tentava aquecer uma bolsa de água morna na cozinha, apareceu na porta. Ele observou aquele caos amoroso por um momento: Haruki parecia estar no limite de suas forças físicas. O alpha de vinte e nove anos, geralmente tão imperturbável, sentiu o peito apertar. Ele não suportava ver suas duas pessoas favoritas no mundo sofrendo.

​— Haruki... — Akihiko se aproximou, tocando o ombro do companheiro. — Deixe-me tentar uma coisa.

Confuso, ​Haruki o olhou. Para sua surpresa, Akihiko não pegou a bebê. Em vez disso, ele caminhou até o canto da sala e abriu o estojo do violino.

​— Kaji-san? Ela está com dor, não sei se música vai…

​— Confia em mim — interrompeu Akihiko, aquele olhar focado que ele só tinha no palco ou quando olhava para Haruki.

​Ele posicionou o instrumento no ombro. Akihiko sabia que a audição dos bebês, especialmente filhos de músicos, era sensível. Ele não tocou algo complexo ou barulhento. Ele buscou uma nota baixa, vibrante e constante. ​As primeiras notas de uma sonata suave preencheram o ar. Não era apenas o som; era a vibração. Akihiko se aproximou deles enquanto tocava, permitindo que as ondas sonoras do violino "abraçassem" o ambiente. ​O efeito foi quase imediato. O choro de Harumi mudou de tom, transformando-se em soluços baixinhos até cessarem de vez. Ela virou o rosto minúsculo na direção do som, os olhos grandes tentando focar na figura do pai alpha que produzia aquela magia tão familiar.

​Haruki sentiu o corpo relaxar junto com o da filha. Ele encostou a cabeça no ombro de Akihiko enquanto o alpha continuava a tocar, mantendo um ritmo que imitava as batidas de um coração calmo.

​​"Às vezes, as palavras e os feromônios não alcançam onde a música consegue tocar", pensou Haruki, sentindo o peso da bebê finalmente ceder ao sono.

​A cólica não desapareceu por completo, mas a tensão sim. Na penumbra da sala, Akihiko parou de tocar lentamente, mantendo o arco encostado nas cordas por alguns segundos extras. Ele olhou para o companheiro, o homem que ele amava, segurando o fruto desse amor, e sentiu que, apesar das noites sem dormir dos últimos dias e dos desafios que a paternidade vinha lhe revelando gradualmente, aquele era o seu melhor concerto.

​— Ela dormiu — sussurrou Haruki, com um sorriso radiante.

— Nós três vamos dormir agora — respondeu Akihiko, guardando o violino com cuidado e envolvendo os dois em um abraço protetor.

​A noite finalmente estava em paz.


Notas finais
Essa é minha segunda fanfic na categoria de Given. Estava a séculos no meu PC a espera de edição ( que vergonha!) Espero que tenham gostado. Até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!