Lizandra estava escondida na copa da árvore mais alta de Porin, uma floresta ao lado de Poros. Ela era apenas uma humana, com um gosto estranho: fazia rituais de antropofagia.

Ela ficava a espreita na parte mais alta da floresta, o primeiro nobre guerreiro que pudesse passar por ali. E tenho pena de quem resolveu passar pela floresta quando Lizandra resolveu caçar.

O Sol Vermelho do local era forte, com seus raios, iluminava todo o tipo de construção, seja essa feita em gesso, pedras ou até mesmo em madeira. Entretanto, a floresta de Porin não permitia que a luz passasse. Os raios do sol brigavam com as folhas para que pudessem mostrar os perigos ali habitados, mas a vegetação resistia, e a luz não conseguia chegar a ninguém.

Muitos cavaleiros conhecendo a fama da floresta caminhavam com uma tocha acesa, ou até mesmo com algum feitiço de iluminação; os desavisados e desatentos eram as vítimas perfeitas para Lizandra que, atacava sem o menor pudor e sem o menor remorso.

Lizandra vivera uma vida solitária, sem muitos amigos. Seus pais morreram em um trágico incidente de traição que ocorrera antes da Guerra Divina que passara por Sahmar, e desde então vivera sozinha.

Sua única recordação de criança remete-a quando caminhava por uma longa estrada de terra sem iluminação, quando um grupo de Ciganos aproximara e resgatou-a, adotando como se fosse sua própria filha. A única mulher do grupo, Esmeralda, era uma linda Odalisca, com olhos tão verdes quanto o nome que lhe foi dado, que com um pequeno requebrar da cintura, os mais fiéis homens, loucos de amor por suas amadas, caiam em desespero, querendo ela com o maior desejo possível; isso era mérito dela, mas não só, contava com Iago, um Bardo, que tocava viola de forma inimaginável. Eles contavam com os dois “poderes”: o de sedução de Esmeralda e o encanto de Iago. Iñharitu era a parte crucial para que eles obtivessem lucro: enquanto todos estavam encantados com o bailar da cigana e a música do cigano, Iñharitu saqueava os camponeses, mas não tinha o interesse ter lucro, eram três bocas para alimentar e agora quatro! Quantos magos não usam ardis para obter renda? Não era o fato de serem ciganos que fazia com que fossem melhores ou piores que ninguém.

Ao crescer com o povo cigano, aprendeu a ter ajuda somente do próprio povo, aprendeu a jogar cartas com a seu pai, e o talento de Odalisca com sua mãe.

Sempre que Lizandra lembrava-se dos acontecimentos de sua vida, se remetia a uma situação que acontecera:

“Estava em minha tenda, uma pequena tenda roxa, em uma cidadezinha no interior de Sahmar. Sempre joguei as cartas da melhor forma possível e sempre sendo sincera, eles me pagavam para isso, não tinha porque eu roubar dos meus próprios clientes. Sem contar que, caso eu fosse para outros vilarejos, e algum viajante tivesse passado por mim, nos vilarejos por onde esse viajante passar, minha fama continuará também.

Sempre com honestidade, encostei em um lugar modesto, alguns outros ciganos sempre procuravam um lugar para chamar a atenção, então, ficava sempre a tenda aberta de um lado, e uma dupla de Odalisca e Bardo. Mas nós não. Eu já estava na idade adulta, se quisesse, eu mesma poderia dançar, mas não, as cartas auxiliavam os outros e me ajudava a ganhar dinheiro de forma justa e honesta.

Muitos clientes passaram por mim, homens que não queriam perder suas amadas, assim como mulheres que não queriam perder seus amados. Pessoas que estavam a perder entes queridos, queriam saber se continuaram enfermos até perecerem ou se ficariam curados novamente. Eu era o consolo ou o desespero de muitos, e por muito tempo, isso me assombrou.

— Lizandra – Dizia Iago – Você está ajudando as pessoas, entenda isso minha querida. Mesmo que nas suas cartas diga que o ente querido da pessoa morrerá, e definitivamente irá, você está preparando-o para o pior. Existem males que vem para o bem, minha linda flor.

Foi muito difícil eu entender essa situação, entender como isso tudo funcionava, mas aos poucos, fui entendendo que eu era necessária. Meu ofício tornou-se necessário assim como um ferreiro em um vilarejo, ou um futuro professor.

Durante o dia que passei em Püüür, com minha tenda aberta, tive muitos clientes, assustador, pois, no vilarejo tinha no máximo 100 pessoas. Os rostos eu enxergava com dificuldade, eu precisava focar meu olhar no rosto dos consulentes para que conseguisse ver com nitidez.

O cliente que mais me marcou, chegara quase no fim das consultas. Minha vela estava quase se apagando, a caixa de incensos já havia ido quase que por completo, o pote de ervas queimadas estava quase no fim, o aroma era delicioso, mas o carvão quase sozinho, não tinha o cheiro tão agradável assim. Usava vestes azul escura, nunca tinha visto isso anteriormente. Entrou, sentou-se e esperou que eu lhe desse as cartas, tirei três, arcano nove (O Eremita) para o passado, arcano cinco (O Hierofante) para o presente e arcano dezenove para o futuro (O Sol).

— Arcano Nove, no passado, percebo que você esteve muito sozinho meu bom homem, esteve muito solitário, muito isolado, e isso ajudou a você entender quem você é, e entender as coisas que você deveria fazer na vida. O Hierofante no presente, me diz que você depois de ter ficado solitário tanto tempo, passou a entender as coisas, querer entender como funcionavam e não agir por impulso e sim pela razão. E no futuro, diz-se sobre uma época de você saber o que ver, um clareamento de ideias, entendimento do que deve ser feito no futuro.

O homem não demonstrou expressão nenhuma para mim, sequer deixou eu me apresentar no começo e agora possuía esse olhar frio. O que seria esse homem? Quem seria esse homem que eu nunca tinha visto?

— Agora que fez minha previsão, Lizandra, agradeço pelo seu trabalho, te pagarei em ouro, mas também gostaria de fazer uma previsão para você. — Disse o homem com os olhos vidrados no fundo dos meus olhos, seus olhos violetas refletiam em meus olhos verdes – Você será vitima de uma trapaça dos deuses.

— Já aconteceu, meus pais morreram…

— Não, Lizandra – Disse ele me interrompendo – Algo presente, atual, algo que está por vir. Você continuará vivendo na floresta durante um bom tempo, mas, não ataque quando eu disser em sua cabeça.

— Como assim? — Perguntei.

E no instante seguinte, ele desapareceu, como uma ilusão diante dos meus olhos.”

Os sentimentos de Lizandra vinham a pele. Quando lembrou-se da sua natureza solitária quando Iago, Esmeralda e Iñharitu, todos haviam morrido e somente ela devia viver na floresta agora, veio uma vontade incontrolável de chorar, mas chacoalhou a cabeça, eliminando os pensamentos que antes a aterrorizavam e resolveu focar na caça novamente.

Lizandra usava uma linda saia verde, em homenagem a sua mãe, e uma curta blusa creme, em homenagem ao seu pai. Suas roupas remetiam-na aos seus passados ciganos.

“Obrigada Iñharitu” ela pensava toda vez que lembrava que o mesmo o ensinara a caçar.

Então pode ouvir um farfalhar de gravetos quebrados no chão da floresta. A mesma colocou sua cabeça de uma forma que conseguisse ver que se aproximava e, era apenas um coelinho.

No dia seguinte, o Sol Vermelho parecia cansado, viera em uma tonalidade de raios mais fraca, iluminando menos ainda a floresta que já era pouco iluminada.

Concentrada, Lizandra subiu na árvore mais alta da floresta, e ficou bem próxima a sua copa, esperando o primeiro ser a caminhar por ali. Eis que ouviu um farfalhar novamente, de gravetos se rompendo, entretanto, o peso era maior.

“Ou é um urso” pensou ela “Ou é um humano, dos dois, tanto faz”.

Quando olhou, viu que era um lindo homem, vestido todo de negro, com o cabelo branco. Não conseguira ter mais detalhes por causa da luz, mas conseguia ver exatamente onde atacar. A gola das vestimentas do homem era baixa, um alvo fácil para uma lâmina passar rapidamente sem ser notada.

Lizandra então desceu com toda a delicadeza possível, e, sua lembrança do dia em que um Ilusionista passara por sua tenda tornou-se mais recente ainda. Parou, refletiu, e seu estômago girou, mostrando que estava com fome. Ela então deixou os pensamentos de lado, e conforme se aproximava do homem, ele notava sua presença. Mas quando virava para a direita, ela estava na esquerda, e assim, quando virava para a esquerda, estava na direita, nunca no campo de visão do cavaleiro.

Quando Lizandra chegou para cortar a garganta do homem pode ouvir em sua cabeça:

“NÃO! NÃO FAÇA ISSO!”

Lizandra ignorou por completo a voz em sua cabeça, e cortou a garganta do homem, que caiu de joelhos e a água escarlate que corria de seu ferimento, umedecia o solo da floresta. Quando fora para começar a se alimentar, uma força jogou-a para longe. A floresta tornara-se mais escura, mas agora, conseguia ver um pouco mais.

— Não dá mais os devidos respeitos, cigana? — Perguntou o homem.

Seu rosto lhe era familiar. De onde ela se lembrava dele…? Eis que uma luz surgiu em sua cabeça e quando lembrou de onde o reconhecera, percebeu que sua vida havia terminado. Era um avatar de Awarg, o deus da Morte, da Doença, do Mal e da Cura. Ela havia tentado assassinar uma forma humana de um dos deuses, inclusive, o deus que Iago cultuava.

— Eu poderia te matar, Lizandra. Mas não irei.

— Sou eternamente grata, senhor Awarg.

— Não seja, não tão cedo.

Das suas costas surgiram quatro enormes pernas peludas, seus caninos cresceram para se assemelhar a presas, seu traseiro tornou-se maior do que antes, e no seu rosto surgira oito olhos.

— Não serei tão mal, permitirei que escolha quando deseja que sua maldição apareça, mas saiba, que todos que você beijar, provarão do seu veneno, Viúva Negra.