Çor estava preocupado, o garoto que aparecera na hotelaria o deixou com um peso na consciência, não gostava de deixar jovens garotos vagando por ai, que sequer conheciam os perigos que os guardavam. Çor tinha Rdu ao seu lado, tudo o que pudesse acontecer em uma floresta, Rdu saberia previamente. Graças a Rdu, Çor e Tiphes não foram mortos por Lizandra a pouco tempo atrás.

— Você ainda está preocupado com o garoto – Disse Pontos enquanto virava um pouco de cerveja na boca – Não conseguiu tirá-lo da cabeça ainda.

— Mas deveria – retrucou Rdu – Nossa missão é mais importante que um mero garoto qualquer.

— Rdu, você sabe como o Çor é. Não é simples assim. Para ele, uma vida é uma vida, não importa se somos nós, ou se é um garoto por ai – Respondeu Tiphes – Ele tem um coração mair do que cabe no peito, por isso tem tantas cicatrizes.

— Não acredito que o garoto deva ser motivo para nos preocuparmos, não agora pelo menos.

— Eu acredito no potencial dele. — Disse Çor – Ele me pareceu… Estranho. Eu olhava para ele, e eu conseguia ver um fogo no fundo de seus olhos. Eles não eram comuns como um mortal qualquer, ele tem algo… Como seus olhos Tiphes.

— Será que ele também é um Semideus? — Perguntou Loren.

— Não sei – Disse Çor – mas sendo os olhos o espelho da alma, RarenMouth está presente na alma desse garoto. Somente há duas hipóteses: ou ele é filho de RarenMouth, ou é um futuro Sacerdote.

— Acredite Çor, eu vi o mesmo no garoto. Quando ele entrou pela porta – Lembrou Rdu – Ele tinha um charme… Peculiar, digamos assim. Algo que nos fazia olhar diretamente para ele.

— Você não, está insinuando, está? — Perguntou Pontos.

— Estou. Gente, é um pouco óbvio, qual outro deus possui esse caminhar?

— Olith – Respondeu Tiphes.

— Simples, eu aposto minhas fichas que ele é filho de Olith.

— Eu coloco as minhas na mesma de Çor. Ele deve ser de RarenMouth. Todo mundo sabe que RarenMouth é o maior comedor de Sahmar, suas proles estão por todos os lados possíveis, em oceanos, desertos, no céu, dragões não possuem elementos próprios – Disse Loren – Eles não se restringem a algo. Um filho de RarenMouth pode seguir Loruth se quiser. Ou até mesmo Maclaw.

— Que é o mais comum – Disse Çor.

— Sim – Afirmou Loren – É o mais comum, mas a eles é oferecido opções de outros deuses.

— Eu aposto minhas fichas em algo diferente de vocês – disse o cara do bar – Aposto que ele deve ser filho de RarenMouth e Olith. Quando Rhoy’Na sumiu, os dois começaram a ficar muito próximos. Não duvido que ele tenha engravidado ela e jogado esse bebe em Sahmar.

— Eu duvido que isso tenha acontecido – Disse Rdu.

— Mas as dúvidas não alteram a probabilidade – Çor disse. — Existe uma pequena possibilidade? Existe, então, ela tão grande quanto. Lembrem-se que ele foi até o templo para deixar a vela para RarenMouth, provavelmente veremos o garoto novamente. Ele dissera que sua mãe era devota deste deus, por isso pediria ajuda a ele.

— Mas tem uma coisa que para mim ainda não ficou clara. — Disse Loren – Existe aquela possibilidade dele ser filho desses deuses e blá blá blá, mas ele tinha mãe! E isso acredito eu que quebra a sua teoria.

— Na verdade não – Disse Rdu. Rdu era um ser bem especial, ele podia estar discordando de algo que Çor disse, mas para mostrar o quão inteligente ele era, não teria problema nenhum em quebrar os próprios argumentos – É muito sabido que Olith não tem paciência para ficar dando a luz cada vez que ela engravida. Então, coloca na mente de uma mãe que ela ficou gravida e joga o feto no útero dela.

— Como esqueceu disso, Loren? — Perguntou Pentos.

— Acontece. — Respondeu.

— Está divertida a conversa, mas, não podemos ficar mais. Pris é nosso destino e a Pris precisamos chegar e logo.

Todos se levantaram, pegaram suas armas, armaduras, tudo o que haviam deixado de lado para conversar e resolveram continuar sua caminhada.

Çor era um bravo guerreiro. Andava com as vestes mais simplórias que ainda cabiam em seu corpo, e sua espada em suas costas. Todos os que viam suas feridas e cicatrizes pelo corpo admiravam-no de como bravo guerreiro era, e o quão abençoado Çor fora por Awarg. Mas, tendo conhecido Lizandra, Çor sabia mais do que ninguém, Awarg nunca abençoa ninguém.

Awarg havia concedido a Çor a vida eterna. Nada poderia matá-lo, e para sua tristeza, nem a si mesmo. A vida eterna pode ser considerada um grande prazer e luxo, mas de que adianta se não há com quem passar a eternidade?

Ele acreditava que em vez de uma benção, havia sido amaldiçoado. Suas feridas cicatrizavam e não o matavam, as hemorragias estancavam-se sozinhas, órgãos removidos regeneravam-se com velocidade assustadora. Nada conseguira matar Çor, apenas a tristeza.

Lembrava-se todos os dias de como conseguira sua primeira ferida, um longo corte que parte do seu maxilar e chega próximo a sua virilha, e isso o assombrava dia e noite. Um enorme marcado de queimadura.

Houve um tempo, outrora, em que nosso mundo viveu junto ao mundo dos deuses, e vivíamos em harmonia. Os homens viviam, os deuses viviam, e todos nós dividíamos o mundo. O conceito que temos sobre a divisão de nível divino é algo muito recente, principalmente para Sahmar.

Tyra era muito feliz, ele tinha uma família estável, uma esposa, duas lindas menininhas, que já tinham talentos mágicos espantosos, uma tocava um banjo melhor que muitos homens velhos da vila, e uma dançava ao som de quando tocava, melhor que muitas Odaliscas do mundo de Sahmar. O mundo era belo, e todos vivíamos em paz.

Até que, Maclaw, o deus do fogo, se apaixonou pela esposa de Tyra. Ele tentou diversas vezes conseguir Maclaw a ceder de seu desejo, mas na mesma intensidade, ele tentava fazer com que Tyra abrisse mão do que possuía. Era algo bom demais para que Tyra cedesse aos deuses. Cedia ouro, legumes, animais, e agora sua esposa?

Maclaw no entanto, não é um deus que se possa irritar. Quando Tyra saiu para pescar, Maclaw assumiu sua forma divina, mostrando-se ser puro fogo, fazendo com que a casa em que a esposa de Tyra e a suas filhas moravam, subisse chamas e labaredas. Quando Tyra se aproximou, e viu sua casa naquele estado, tentou entrar para salvar sua família, mas já era tarde.

Ele então resolveu de deveria perecer junto a casa. Sua esposa e suas filhas haviam morrido, não havia mais motivo para lutar. Não havia motivo para continuar vivo. Não havia motivo para nada. Mas Awarg, sempre que uma pessoa está no leito da morte ele se aproxima, não permitiu que Tyra ficasse sofrendo ali, com dor.

— Saia meu rapaz. — Disse Awarg – Você não deve permanecer aí.

— Mas eu quero morrer – Dizia Tyra em prantos.

— Ninguém que quer morrer, merece a morte. — Disse Awarg. — Você pode ficar ai o tempo que quiser, nada será mais letal a você. A partir de hoje será meu sacerdote. Nada poderá te matar, tornou-te imortal. Viva meu bom rapaz, viva. Assuma o nome de Çor, e viva uma vida nova.

Çor não entendia como a suposta ajuda de Awarg, podia ser uma benção.

— Deveríamos continuar nosso caminho até o deserto, Çor – Disse Rdu.

— Não. Passaremos no templo antes, preciso ver como estar Der’A antes de partirmos.