Canção da Sereia
2 Teia do Destino - RS
Notas iniciais
Centro de Pesquisas Aquáticas Herman Mclan, leio na entrada do meu estágio.
Por sorte, o centro de pesquisas fica dentro do campus que estudo. Posso ter aulas extras e não chegar atrasada pro trabalho.
Hoje estou ansiosa. Logo o novo biólogo chegará e eu farei meu estágio como sua assistente até o fim do ano. O biólogo em questão é neto do fundador do centro.
Dr. Mclan, é o nome que me deram. Eu deveria entrar as 14 horas e esperá-lo em sua nova sala, depois levá-lo para conhecer o campus. Essas foram as instruções do reitor.
Hoje foi meu último dia de aula, agora começa as férias de verão. Sendo assim, eu farei turnos dobrados no centro de pesquisas a partir de amanhã.
Vou para a nova sala do Dr. Mclan. Imagino que seja um velho careca e bigodudo, que já não aguenta mais fazer mergulhos e me usará para fazer suas pesquisas. Finalmente eu sairei da sala e irei para o campo.
Olho em volta da sala, tem duas mesas, a menor é pra mim. A dele é do outro lado, tem três vezes o tamanho da minha e no meio da sala, nos separando, uma bancada com todos os instrumentos de pesquisa que são necessários. E muitos aquários em volta.
Tiro meus óculos e deito minha cabeça na mesa. Não preciso realmente usá-los, mas me deixam feia. Eu prefiro ser a feia que sobe por inteligência, do que a bonitinha que está no alto posto e não sabe de nada. Bem, pra ser sincera, esse é o "porquê" dos meus problemas. Chefes tarados, professores tarados... Só porque você tem um rosto bonito não significa que seja puta! Então decidi ser alguém comum e me perder no meio da multidão.
Passo meu dedo na mesa esperando que uma camada de pó saia neles, mas não. Nada sai, nada levanta. Tudo é novo nesse lugar. Até o cheiro. Tudo para esse cara! Aposto que ele já ganhou vários prêmios. Se eu fizer tudo certo, certamente ganharei uma santa de uma recomendação no final deste estágio.
Eu sou ambiciosa. Tem pessoas que querem carros, querem ser ricas, querem ser estrelas de cinema. Eu quero ser grande no que faço. Isso não é ruim, certo? Quero ter prêmios em minhas estantes e poder mostrar a quem quiser ver que sou uma mulher de sucesso. Mas quero fazer isso da forma correta. usando apenas a minha inteligência. Inteligência, não meu corpo.
– Hey dorminhoca!
Levanto a cabeça para encarar quem interrompe meus devaneios. É Lancey, ele é um dos estagiários aqui do centro. É também quase um membro da minha família, mas isso não o torna menos insuportável.
– O que foi? — Pergunto mau humorada.
Lancey é um idiota. Ele se acha o pegador desse lugar. Ta certo que ele não é feio, tem cabelo loiro, comprido até os ombros, e olhos cinzas. É bonito, mas é um perdedor.
– Você não é assistente do Dr. McLan?
– Sim, e daí? — Reviro os olhos.
– Ele está saindo.
Saindo?
– Ele nem chegou, imbecil, por que ele estaria saindo?
Ele sorri.
– Deve ser porque ele ouviu sobre sua má atitude antes mesmo de te conhecer.
Má atitude? Não sei do que este idiota está falando.
– Se queria falar comigo, era só vir, Lancey. Não precisa arrumar uma desculpa tão idiota.
Ele entra na sala e pega uma caixa de tubos que está no chão.
– Na verdade, eu só vim pegar isso. Ele está começando uma expedição e eu estou indo junto. Falou perdedora!
Ele sai da sala. É mesmo um idiota. Mas já são quase três da tarde...
Pego minha bolsa e corro atrás de Lancey. O alcanço uns dois metros a frente.
– Mudou de ideia, aberração?
– Apenas ande Lancey!
Chegamos a entrada do centro e fico chocada com a movimentação. Há duas vans e pessoas enchendo uma delas.
Vejo um homem mais velho. Ele tem uma prancheta nas mãos e anota alguma coisa. Nunca o vi aqui, o que significa que esse é o Dr. McLan.
Lancey pisca pra mim antes de se afastar.
Vou até o homem com a prancheta.
– Com licença, o senhor deve ser o Dr. McLan, sou Noralys Ryle, sua assistente. Não fui informada de nenhuma expedição.
Ele levanta a cabeça e me olha com desprezo.
– Pois vejo, senhorita Ryle. Deveria ter se apresentado duas horas atrás, estamos de saída.
– Saída? Mas eu não estava sabendo de nada. Como eu poderia me apresentar? — Grossa demais. Lá se vai minha recomendação. Posso vê-la voando pra longe enquanto acena em adeus!
– Bem, senhorita. — Ele baixa a prancheta e me olha bravo. — Estamos saindo em 20 minutos. Se a senhorita vem ou não, não faz diferença. A equipe já está formada e temos todos que precisamos bem aqui.
Filho da puta. Eu vou o assombrar pelo restante de seus dias nesse lugar.
Tiro meus óculos. Passo a mão na testa, como se estivesse limpando o calor. Sorrio gentilmente para ele.
– Me desculpe a grosseria. Mas eu realmente não fui avisada de nada. Estive a sua espera no seu escritório, como me foi solicitado na hora do almoço. Planejei sua visita pelo campus. Não fazia realmente ideia sobre essa exploração. Eu não posso ficar para trás, senhor. Tenho o esperado por um longo tempo – Nossa, apelação total – sonhado acordada com uma oportunidade como essa. Por favor senhor, não mate o sonho de uma jovem dessa forma.
Faço meu rosto de cão faminto e espero que surta efeito.
– Olhos bonitos. — Ele me diz, me desconcertando. — Consegue voltar em 15 minutos com a assinatura do reitor e uma mala?
– Não era 20 minutos?
– A senhorita falou por 5 minutos. — Ele olha no relógio – 6 minutos. Tic tac, tic tac.
Velho maldito!
– Isso é impossível, eu moro a 15 minutos daqui. Não conseguirei voltar e ainda tenho que conseguir a assinatura do reitor? É sério?
Que droga. Como foi que consegui perder essa oportunidade?
Levo a mão a testa.
– Onde a senhorita mora? — Ele me pergunta, voltando a prestar atenção em sua prancheta.
– Perto do estádio central.
Ele levanta uma sobrancelha, me deixando nervosa.
– Me diga o endereço.
Digo a ele.
– É seu dia de sorte mocinha. — Ele levanta os olhos para mim e sorri. — Passaremos nesse endereço para pegar outro membro da equipe. — Todos os que precisa já não estavam aqui? Guardo pra mim esse pensamento. — Te darei cinco minutos para arrumar suas coisas. Mas antes – Ele me entrega um papel – Assinatura do reitor. Seu papel foi o único que não foi assinado. — Por que será, né?– Sairemos em 10 minutos. Tic tac, senhorita Ryle.
Pego o papel e corro para o campus. A essa hora o reitor deve estar em sala de aula. Ele ministra uma das aulas e sua sala é uma das mais lotadas. Eu corro para lá.
Minhas sandálias me incomodam. Se eu as tiro, o vestido comprido que uso vai pra baixo dos meus pés e vou acabar levando um tombo. Se eu fico com elas, vou acabar virando os pés e levando um tombo. Paro. Tiro as sandálias, depois ergo meu vestido até as coxas e seguro com uma das mãos. Então corro escadas acima.
Posso ver o reitor no fim do corredor. Aqui é sempre quente, então as salas geralmente tem as portas abertas. Como se apenas isso fosse melhorar alguma coisa!
O reitor vira sua cabeça para minha direção. Ele me olha de cara feia e o vejo franzir a testa.
Ele sai para fora da sala e fecha a porta. Eu o alcanço sem ar.
– Assina isso. — Eu digo sem fôlego estendendo o papel.
– Então você descobriu.
Olho para ele irritada. Só podia ser coisa dele boicotar essa oportunidade. Será que esse homem nunca irá crescer?
– Golpe baixo, pai!
Ele respira fundo e tira a caneta do bolso. Assina o papel.
– Tão independente – Ele começa seu usual resmungo – Vou embora de casa, pai! Vou largar a faculdade, pai! Vou viajar pelo mundo, pai!
– Vou contar a mamãe, pai!
Ele me olha emburrado e me estende o papel.
Eu tenho 19 anos, não preciso de autorização dos pais pra sair. Mas como é uma viagem de campo, nas férias, com o pessoal da universidade e do centro em conjunto, sempre há esse documento dizendo que a universidade não se responsabiliza... E meu pai... bem... ele anda meio chateado comigo... Saí de casa com 17 anos. Meu pai surtou. Fui viver com meu namorado, viajei por três meses sem destino, fiz tatuagem, coloquei piercing, larguei a primeira faculdade que comecei. Mas no final, ele não tem do que reclamar. Eu decidi seguir seus passos, vim estudar onde ele trabalha e embora não viva mais com ele e a mamãe, somos quase vizinhos, ele mora a menos de cinco quadras do meu apartamento. Não entendo porque tanta magoa e tanto medo de me deixar viver minha vida.
Beijo o topo de sua cabeleira castanha e o abraço.
– Se eu não chegar a tempo pra essa expedição, vou sujar pro teu lado com a mãe.
Ele me dá um tapinha no ombro.
– Aposto que ela vai concordar comigo.
Eu pego o papel e corro para a entrada do centro de pesquisas. Meus pés doem quando eu piso nas pedras.
Uma das vans já está saindo, a outra tem a porta fechada no exato momento que eu chego perto. Eu bato com força. O Dr. McLan está nessa. Ele e o motorista apenas. Essa deve ser a van dos equipamentos, pois está cheia de malas e maquinários.
Esfrego o papel no vidro dele. Ele destranca a porta. Eu entro no banco de trás. Entrego o papel para ele.
– Bem na hora senhorita Ryle, bem na hora.
Coloco minha sandália. Dez minutos depois a van que estamos para na frente do prédio em que moro. O Dr. sai primeiro. Eu espero um minuto a mais, não estou recuperada do esforço que fiz.
Eu o sigo. Vamos até o elevador. Aperto o segundo. Ele não diz nada.
Então saio quando abre a porta. Vou para minha porta. Ele para na do lado e bate na porta.
– Esse cara barulhento... – Eu digo lembrando da bateria de ontem – Esse idiota é um dos integrantes da expedição?
– Não exatamente. — Ele sorri. — Dr. Mclan é o líder.
A porta abre e meu lindo vizinho está de camisa branca e jeans justos. Ele usa óculos e tem os cabelos penteados para trás. Me lembra Clark Kent...
Velho idiota, me enganou!
Mas esse deve ser o filho, só pode. Já já saí o verdadeiro Dr. McLan.
– Oi, George. — Ele diz.
– Boa tarde Dr. McLan.
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