Canção da Sereia
48 Reunião
Notas iniciais
Lancey
Helena não me quer na ilha. Mas ela disse que sim. Eu fico pensando sobre o que acontece agora. Ela nunca arriscaria deixar Nora se transformar e Isaac voltar. Isso representa caos. E também, não deixaria a ilha sem mulheres. Helena só pode usar magia se estiver em um corpo. Pelo menos as magias que a interessam, as que duram. Com Gideon foi algo simples. Não vai durar. Quando ele sair da ilha, aquela ferida horrível vai voltar com tudo, é só provisório. A magia de Helena não funciona longe daqui. Por isso ela limitou as bruxas e Isaac em volta da ilha, os deixou onde pode controlar.
A cada dia me sinto mais ligado a Helena e a compreendo melhor. O pior é que eu não a temo. Isso torna tudo assustador. Eu deveria ter medo dela, de tudo que ela fez. Deveria temer pela minha vida. Mas não sinto nada disso. Esse não sou eu, eu sinto que algo está mexendo comigo, com minha forma de pensar e raciocinar. Eu entendo porque ela sugeriu que eu ficasse. Na verdade, eu sei exatamente o porquê.
Primeiro pensei que era porque eu gosto de Nora. Ela poderia ser uma pessoa romântica. Já que vamos ser obrigados a ficar, que seja com alguém que gostemos. Mas então tem Megan e a “ordem” de apenas nós três ficarmos. Ela quer que Megan e eu tenhamos algumas crianças. Quer mulheres para hospedar. As de fora quase nunca chegam em bom estado na ilha. Isaac sempre apronta e algumas vezes dá um jeitinho de as matar antes de sequer pisar em terra firme. E Nora... bem, ela foi “estragada” por Isaac. Na teoria, seus filhos poderiam ser criaturas, das quais Isaac precisa. Isso a torna descartável. E se Isaac não houvesse a transformado, ela ainda seria dispensável... por causa de Andrew.
O que eu não entendo, é o porque dela mandar os outros embora. Ela pode não se apoderar de homens, mas ainda pode se alimentar de suas almas. Eu vi tudo o que aconteceu, eu estive em sua cabeça. Ou ela na minha. Partilho de suas ideias e entendo sua raiva. Entendo também que não importa quais sejam suas intenções, enquanto ela e Isaac continuarem essa guerra, esse lugar continuará sendo igual a uma cadeira elétrica, as pessoas só virão para morrer.
Começo a fazer o caminho para a vila. Não sei se é uma boa ideia voltar para a casa principal. Não sei se a criatura continua lá ou não.
Nora parece melhor agora que estamos fora da cabana. Megan anda ao meu lado e Gideon alguns passos atrás. A loira não deixa de olhar para ele sobre o ombro.
– O que foi? — Pergunto a ela.
A principio ela nega. Mas acaba nos parando no meio da floresta e encarando Gideon.
– Por que não gritou quando ela foi pra cima de você.... Por quê?
Eu sei a resposta. E sei que essa não deveria ser uma pergunta importante. Não no meio disso tudo.
– Eu gritei. — Gideon para bem a frente dela. — Chamei cada um de vocês. E... vocês nem ligaram. Mas, não os culpo, foi aterrorizante. — Ele está chateado.
– NÃO CHAMOU! — É Nora quem responde. Um pouco alterada demais. — Você nem se mexeu, pensei que ela tinha te matado!
– Sim... — Megan concorda com Nora e então me olha. Gideon me encara também. Acho que eles estão começando a me ver como um tipo de enciclopédia ambulante sobre Helena.
Reviro os olhos. Isso é abuso!
– Eu já vi algo parecido.... — Minto. É mais que ter visto. É como se a minha mente e de Helena estivessem conectadas. Mas, isso será uma informação assustadora demais para eles, então a guardo. — Ela precisa estar em um corpo para fazer certas coisas. E bem... ela não estava. O que ela fez teve mais a haver com sua... alma, do que com seu corpo. Foi como se você tivesse morrido por alguns segundos. — Ele abre a boca para reclamar, mas o interrompo. — E... não acho que vá durar muito. A verdade é que essa... cura, só vá durar enquanto você estiver na ilha. Depois disso os poderes dela vão perder os efeitos em você. É só uma solução temporária.
Gideon se afasta de nós. As garotas trocam olhares preocupados e Nora aperta meu braço. Eu a olho e ela cora, desvia o olhar. Sei no que ela está pensando. E acho que somos dois idiotas por estar pensando nisso nesse momento...
– Quando é que ia me dizer? — Gideon me pergunta irritado.
– Acabamos de sair daquela cabana, Gideon. — O confronto – Estou ocupado tentando achar algo nas visões que tive dela. Algum lugar seguro.
Ele levanta as mãos em sinal de paz.
– Pra onde vamos?
– O vilarejo. Acho bom vermos se tem algum barco por lá. Ter uma segunda opção, caso o barco de Steve não funcione.
Gideon começa a acenar positivamente.
– Ótima ideia. Mas precisamos de armas. Alguma coisa para nos defender daquela criatura.
– Podemos fazer lanças. — Nora diz e me olha animada. — Pedras afiadas, ossos de animais e longos e duros... — Oh caramba! Nora dos infernos! Ela cora violentamente ao dizer isso, assim como eu. Desvio o olhar e olho para o chão. — pedaços... de madeira. — Ela completa.
– Não acredito nisso... — Megan sussurra entre risinhos. — Bom... é uma boa ideia. Mas não vamos nos embrenhar atrás dessas coisas no mato, vamos procurar no caminho. — Ela diz, colocando ordem em tudo.
Todos nós concordamos e então voltamos a andar, sempre atentos ao chão, a procura de algo. Nora não sai do meu lado, tampouco solta meu braço. Eu gosto disso. Mas sei que Helena, que nos espia de longe, não gosta. Preciso tirar Nora dessa ilha, ou ela não vai durar nada se depender desse espirito traiçoeiro.
Willian
Como se não bastasse de bizarrice, encontramos Mellow. E ele não está morto, ou quase morto, como pensamos que estaria. Pelo contrário, ele está curado. Aquele tiro que Nora deu nele nem mesmo deixou cicatriz.
O homem tenta nos ludibriar, diz que nunca levou um tiro e que não sabe quem somos nós. Diz só conhecer Steve. Nós quase acreditamos. Por um momento passa por nossas cabeças que aquilo foi coisa da criatura, mas então ele acaba se irritando e nos ataca com tudo para fugir. Corre de um jeito anormal. É difícil acompanhá-lo. Talvez esse Mellow seja a criatura. O que nos leva a pergunta, onde está o verdadeiro? Nós passamos a noite andando pela floresta. O medo de sermos atacados nos faz silenciosos. Andamos boa parte da ilha e não encontramos nada. Ninguém. Temo que a maldita da Helena tenha feito mal a Nora.
Sem conseguir encontrar qualquer pista, voltamos para a vila, ainda na esperança de encontrar Mellow, mas dessa vez o verdadeiro...
Escutamos vozes em uma das casas e me aproximo com Kall a meu lado, estamos armados e prontos pra atirar em qualquer coisa que tente nos atacar.
O vestido verde é a primeira coisa que vejo. Ela sai da casa abandonada de costas, está falando alguma coisa com alguém.
– Nora? — Chamo e ela se vira devagar, logo Lancey aparece e a empurra para trás dele, Gideon sai da casa também, ele empunha um tipo de lança. Muito mal feita, eu devo dizer.
– Caramba! — Gideon solta a lança e vem ao meu encontro me abraçando. Vejo Kall passar por mim e pegar Megan em seus braços.
Nora apenas me estuda, ela não tenta se aproximar. Percebo Lancey ficando ao lado dela com uma atitude protetora, ele olha para trás de mim de cara feia. George, tenho certeza, deve a estar encarando.
Assim que Gideon me solta, vou ao encontro de Nora. É um alivio achá-la bem e inteira. E com pernas! Não a toco, apenas paro de frente a ela. Kall se aproxima de Lancey, lhe dando um abraço e ele se afasta um pouco.
– Oi... — Digo a ela que me fita. Está confusa, vejo isso em seus olhos. Em dúvida.
– Olá.
– Eu estive na casa... estava bem feia... — Ah, que vá tudo a merda. Eu a puxo para um abraço e ela treme de susto pelo meu movimento brusco. A aperto forte em meus braços. — Me perdoa Nora... essa ilha tá me deixando maluco. Sinto muito. — A solto o bastante para encostar a testa na dela. Ela tenta escapar, se afastar, mas seguro seu rosto entre minhas mãos e a forço a me encarar. — Eu estou arrependido. — Digo e encosto meus lábios nos seus. Ela leva as mãos ao meu peito e me empurra.
– Não... não faz mais isso... por favor. — Ela pede desviando o olhar. Olhando sobre meus ombros. Me viro e encontro Lancey nos estudando, ele desvia os olhos de nós. O que esse merda anda fazendo? Não eram como irmãos?
Sinto raiva. Não. Ódio. Um ódio tão profundo e incomum, que me faz ter desejos inaceitáveis. Desejos de fazer mal. Respiro fundo, e passo o braço sobre o ombro dela, mas ela se afasta e vai para junto de Megan.
Minha amiga me olha ternamente e faz um lento e quase imperceptível gesto negativo. Decido, então, dar um tempo. Deixá-la esfriar a cabeça.
– O que aconteceu? — Foco minha atenção em Gideon. — Tinha sangue na despensa e… um braço em decomposição no quarto. — Me recordo do horror da cena.
– Aquela coisa tentou pegar Nora. Nós fugimos. — Meu amigo explica meio horrorizado ao lembrar.
– O sangue era da criatura?
Gideon troca olhares com Lancey.
– Sim. — Ele diz.
Ele está mentindo. Não tinha sangue no quarto, junto com o braço. Então, a menos que a coisa tenha perdido o braço na despensa e depois alguém o tenha limpado e levado para o quarto... estão mentindo.
– Ok. — Digo apenas.
– Escuta. — Lancey começa. — Nós temos que sair dessa ilha.
Que gênio. Será que ele pensa que foi o único que chegou a essa conclusão?
– O barco voltará em quatro dias. Só temos que aguentar até lá. — Digo tentando controlar minha raiva.
– Não temos quatro dias. — Megan diz.
– Willian... — Nora me chama. Volto minha atenção de imediato para ela.
– O que foi? — Tento me aproximar, mas ela recua. Fico parado dessa vez, aguardando que ela fale.
– O que... o que você viu?
A pergunta de um milhão. Eu preciso contar isso a eles. Mas temo dividir com ela sobre o mar. Sobre Isaac precisar de seu corpo. Ela pode achar isso um tanto... bizarro demais. E até fugir.
Olho a nossa volta. Silêncio vem da floresta. E está escurecendo rápido demais, não vamos conseguir voltar até a casa principal e nem sabemos se é seguro. Esse é o quarto dia de lua cheia, ou quinto. Acho que nem mesmo sei a quanto tempo estamos aqui. Não tenho mais nem certeza se o barco estará aqui em 4 dias. Estou perdido do tempo. Parece que estou nesse lugar há séculos...
– Vamos entrar em uma das casas. — Começo a organizá-los — Está escurecendo rápido. Temos que proteger as janelas e portas, então nós vamos conversar.
Ela me olha irritada, mas concorda.
Kall e Gideon ficam com as garotas na maior casa que encontramos na vila. Lancey pediu que fosse a maior, caso Nora viesse a se transformar. Só o pensamento disso acontecer me causa pavor. Foi horripilante vê-la com aquela cauda, pensei que nunca mais voltaria ao normal.
***
Nos dividimos e encontramos troncos e tabuas, algumas arrancadas de outras casas velhas. George encontra um balde, isso servirá para manter uma fogueira contida dentro do lugar. Já está bem escuro quando finalmente nos juntamos aos outros na casa.George olha Nora com tanto desejo que tenho vontade de matá-lo. No entanto, sei que esse “desejo” é puramente cientifico. Steve a olha de tempos em tempos, mas se mantém na dele, evita comentários que posam levantar a discussões. Gideon e Kall ficam de tocaia nas janelas enquanto o restante de nós nos reunimos num quarto grande, na casa de quatro cômodos.
Nora se senta perto de Megan. Elas se mantém um pouco afastadas dos outros. A fogueira improvisada no balde é o que clareia vagamente o lugar. Temos algumas lanternas nas malas, mas preferimos deixá-las para emergências.
Dividimos a comida que conseguimos reunir antes de sair da casa grande. E quando estamos todos acomodados e comendo, eu decido que é hora de falar o que Nora tanto quer saber.
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